Artículo en PDF
Como citar este artigo
Número completo
Mais artigos
Home da revista no Redalyc
Sistema de Información Científica
Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe, España y Portugal
RBCS Vol. 30 n° 88 junho/2015
Artigo recebido em 21/08/2013
Aprovado em 06/03/2015
DESAFIOS ONTOLÓGICOS E
EPISTEMOLÓGICOS PARA OS MÉTODOS
MISTOS NA CIÊNCIA POLÍTICA
*
Glauco Peres da Silva
Apresentação
A análise de métodos mistos surge no debate
metodológico das ciências sociais como uma ma-
neira de superar as divergências entre os chamados
métodos qualitativos e quantitativos. Os pioneiros
nesta empreitada, iniciada há cerca de vinte anos,
combinaram vários métodos em razão de demandas
práticas dos contextos em que trabalhavam, dire-
cionando-os tanto para a generalização dos resul-
tados, como para a análise particular dos casos em
questão (Greene, 2008). Atualmente, os métodos
mistos têm a pretensão de conjugar as vantagens
dessas perspectivas de forma a permitir avanços no
conhecimento das ciências sociais, em geral, e da
ciência política, em particular. Houve em período
recente um ressurgimento considerável de traba-
lhos que advogam a importância dos métodos qua-
litativos em detrimento das práticas quantitativas,
bastante em voga na ciência política, o que em par-
te explica esta disposição de alguns autores em ter
nos métodos mistos uma alternativa superior. Po-
rém, os trabalhos que tratam desse tema enfrentam
desaFos que podem implicar na inviabilidade dessa
empreitada. Estes desaFos variam desde questões
de ordem epistemológica e ontológica na conjun-
ção de métodos distintos até a relação destas com
a prática metodológica em si. A discussão sobre
epistemologia e ontologia é crucial para a metodo-
logia adotada, porque a adequação de um conjunto
particular de métodos para um dado problema se
reverte nas próprias hipóteses sobre a natureza das
*
Este texto é uma versão modiFcada da prova escrita
do processo de seleção para docentes para o cargo de
professor em metodologia de pesquisa na ciência po-
lítica realizado em 2011 no departamento de ciência
política da Universidade de São Paulo.
Universidade de São Paulo (USP), São Paulo – SP, Brasil. E-mail: glauco@usp.br
DOI: http//dx.doi.org/10.17666/3088115-128/2015
116
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 30 N° 88
relações causais que se pretende descobrir (Hall,
2003, p. 374). Ou seja, entende-se que há um vín-
culo importante entre epistemologia e ontologia,
de um lado, e metodologia e método, de outro, e
esta relação está na base dos desacordos da aplica-
ção dos métodos mistos.
Os desafios epistemológicos e ontológicos
enfrentados pelos métodos mistos serão explora-
dos em duas vertentes. Na primeira, filosófica, os
desafios decorrem do fato de o método misto se
apoiar no pragmatismo, corrente filosófica que se
distingue pela defesa do método adotado na pes-
quisa primordialmente por seus resultados. Sua re-
lação com outras correntes filosóficas dominantes
na ciência política torna-se ponto de discórdia. A
segunda se dá em razão da pluralidade metodoló-
gica do chamado método qualitativo. Ainda que o
debate comparativo diante dos métodos quantitati-
vos
trate-o como uma unidade, esse procedimento
esconde diferenças metodológicas importantes em
decorrência de variações associadas às próprias prá-
ticas qualitativas: diferentes conjuntos de métodos
conduzem a distintos desafios. Assim, este texto
pretende discutir cada um desses desafios que de-
vem ser superados pelos métodos mistos que, se
não esgotam as dificuldades enfrentadas, são as-
pectos fundamentais a serem resolvidos. Para isso,
inicialmente será apresentado o panorama histó-
rico do debate entre as perspectivas qualitativas e
quantitativas para que se tenha melhor compreen-
são da relevância dos objetivos pretendidos com a
defesa dos métodos mistos. Em seguida, será apre-
sentada a aplicação dos métodos mistos na ciência
política para depois se discutir seus desafios episte-
mológicos e ontológicos. Uma seção de considera-
ções finais encerra o trabalho.
Debate entre métodos qualitativos
e quantitativos
A tradição de pesquisa na ciência política apre-
senta alterações importantes em período recente.
Bevir destaca um duplo movimento nas pesquisas
nesta área. Do ponto de vista epistemológico, os
trabalhos, ao buscarem se afastar do positivismo de
Popper, se aproximariam do holismo, que afirma
que “o significado de uma proposição depende do
paradigma adotado, da rede de crenças, ou jogos
de linguagem na qual está localizada” (2008, p.
57). Tal posição refuta conceitos como confirma-
ção ou refutação de uma teoria e ainda relativiza
as informações empíricas ao questionar os dados
colhidos por meio de qualquer método em relação
à sua validade absoluta ante a rede de crenças ou os
programas de pesquisa estabelecidos. Já do ponto
de vista ontológico, haveria uma aproximação ao
construtivismo, segundo este autor. Esse movimen-
to seria problemático para a prática da ciência polí-
tica, pois “desafia a tendência difundida de reificar
coisas sociais [como as instituições] e a atribuir a
suas causas uma essência que então determina tanto
suas outras propriedades como suas consequências”
(
Idem
, p. 63). Essas alterações refletem uma aproxi-
mação à tradição qualitativa de pesquisa, e por isso
é relevante fazer um breve histórico deste cenário
de mudança, pois elas contextualizam a aplicação e
a justificativa dos métodos mistos.
Em trabalho que utiliza métodos plurais, ou-
tra forma de se referir aos métodos mistos, Potetee,
Janssen e Ostrom (2010) reconstroem o debate en-
tre pesquisa qualitativa e quantitativa para justifi-
car sua opção. Segundo eles, nas décadas de 1920 e
1930, a metodologia comumente empregada estava
mais próxima à análise que hoje chamamos qua-
litativa, ainda que haja distinções relevantes. Esse
quadro teria permanecido assim até que, em mea-
dos do século XX, com o avanço do
behaviorismo
,
a análise quantitativa resurgiria como alternativa
para a compreensão dos fenômenos sociais, baseada
basicamente na utilização de métodos estatísticos e
surveys.
O
behaviorismo
é uma tradição surgida na
psicologia, exemplificada em autores como Watson
e Skinner¸ com praticantes até os dias atuais. Esta
abordagem parte do princípio que a psicologia deve
se ater à análise do comportamento observável dos
indivíduos e não com o mundo não observável de
suas mentes. Atém-se, assim, à observação do com-
portamento humano. Em sua aplicação às ciências
sociais, tal abordagem vai de encontro aos trabalhos
da chamada Escola de Chicago, exemplificada aqui
nos trabalhos de R. Park, que buscavam, com a uti-
lização de técnicas qualitativas, identificar como ca-
racterísticas individuais são moldadas por processos
DESAFIOS ONTOLÓGICOS E EPISTEMOLÓGICOS PARA OS MÉTODOS.
..
117
e estruturas sociais mais gerais. Apesar desse emba-
te, a análise behaviorista ganha corpo ao longo da
segunda metade do século XX (Box-Steffensmeier
et al.
, 2008). Em meados da década de 1980,
a
partir da influência do paradigma econômico, os
chamados modelos formais, entendidos como a
aplicação da análise e da modelagem matemática
ao comportamento humano, atingiriam também
a ciência política com bastante impacto (Potetee,
Janssen e Ostrom, 2010). Estes modelos apoiam-se
de maneira geral na abordagem teórica denomina-
da neo-institucionalismo, cuja concepção assume
que o comportamento humano se adequará a re-
gras formais e informais vigentes (as instituições)
que são passíveis de análise e comparação. A partir
de então, a prática metodológica em ciência políti-
ca aprofundou-se no formalismo matemático e es-
tatístico. Entretanto, os autores destacam que esse
movimento não se deu tranquilamente. Ocorreram
três desacordos fundamentais: sobre os objetivos
da pesquisa social; sobre as considerações práticas
relacionadas com a pesquisa; e sobre aspectos filo-
sóficos envolvendo a utilização de um ou de outro
método. Os desacordos fomentaram o debate que
ainda permanece e que está na base das discussões
sobre métodos mistos.
Como destaque, em 1994, um texto de eleva-
da repercussão, chamado
Designing social inquiry
,
de King, Keohane e Verba,
é importante referên-
cia na discussão entre estas duas perspectivas. Seu
propósito seria consolidar as divergências entre os
métodos qualitativos e quantitativos. Esses auto-
res partem da argumentação de que não há dife-
rença metodológica relevante entre as duas formas
de construir a pesquisa, desde que cumpram com
o rigor metodológico necessário para a produção
de conhecimento. De maneira bastante resumida,
os autores defendem o emprego da mesma lógica
utilizada pelos praticantes da pesquisa quantitati-
va às pesquisas qualitativas. Esta lógica subjacente
é comum a ambas, mas apenas tende a ser explici-
tada nas discussões sobre métodos quantitativos,
mas não nos qualitativos. O argumento deles é
de que a alegada distinção é somente de “estilo”
e remete a questões “metodológica e substantiva-
mente desimportantes” (1994, p. 4). Ao fim, a
distinção principal se daria apenas no fato de que
as pesquisas que aplicam métodos quantitativos
lidam com amostras com elevado número de ob-
servações, enquanto os métodos qualitativos são
aplicados em amostras com N pequeno. Os de-
mais aspectos seriam semelhantes.
Esta obra gerou bastante controvérsia e marca
o reaquecimento do debate por parte dos defenso-
res da pesquisa qualitativa.
Em
Rethinking social in-
quiry
, Collier, Brady e Seawright argumentam que
não é possível cumprir as recomendações constan-
tes no DSI e que há vários pontos questionáveis so-
bre esta adaptação. Afirmam também que a pesqui-
sa qualitativa possui vantagens sobre a quantitativa
e que também seria possível conciliar ambas a par-
tir da identificação das forças e fraquezas de cada
uma. Por exemplo, dizem que a pesquisa quanti-
tativa possui limitações quando utiliza modelos
econométricos. Segundo eles, se a especificação
do modelo está equivocada, a análise também es-
tará e basear-se em dados estatísticos não impede o
equívoco. Os autores ainda ressaltam que há uma
ampla literatura que problematiza a inferência cau-
sal decorrente de dados observacionais. A análise
qualitativa teria condições, assim, de evitar tais di-
ficuldades e então contribuir para a seleção de teo-
rias (2010, p. 8). É neste cenário que os métodos
mistos buscam se estabelecer como alternativa e,
por esta razão, é importante detalhar alguns pontos
de controvérsia entre as perspectivas quantitativas e
qualitativas.
A discussão entre os métodos qualitativos e
quantitativos deu-se em várias frentes e com a par-
ticipação de diferentes autores. Sinteticamente,
pode-se dizer que parte da literatura trabalha com
o intuito de qualificar a discussão sobre a possível
coexistência de ambos. Nesse sentido, os autores
usualmente discutem as diferenças entre os gru-
pos. Como parte do primeiro grupo, Mahoney e
Goertz (2006) afirmam que as duas perspectivas
podem ser entendidas como duas culturas diferen-
tes, cada qual com uma práxis para a elaboração de
um desenho de pesquisa. Eles apontam dez itens
essenciais na construção de uma pesquisa e discu-
tem as divergências entre cada uma das alternativas.
Os critérios segundo os quais os métodos qualitati-
vos e quantitativos se distinguem são: abordagens
explicativas, conceito de causalidade, possibilidade de
118
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 30 N° 88
explicações multivariadas, possibilidade de cami-
nhos distintos que redundam no mesmo resultado
observável, escopo da pesquisa e generalização dos
resultados, prática de seleção de casos, ponderação
das observações, importância de casos particulares,
falta de adequação (
fit
) e construção de conceitos e
medidas. Como exemplo, no que tange ao escopo
e à generalização da pesquisa: na análise qualitati-
va, é possível tratar poucos casos, inclusive com a
vantagem de evitar heterogeneidade. Já na análise
quantitativa, a busca é por uma ampla gama de ob-
servações, tentando maximizar o resultado da apli-
cação do instrumental estatístico. Em cada uma das
observações anteriores, Mahoney e Goertz indicam
as características distintas das abordagens com alto
e baixo número de observações, o que acaba por
manter este distanciamento. Vale ressaltar que um
subgrupo dessa parte da literatura, ao contrário,
visa unificar as duas abordagens. Apesar de reco-
nhecerem as diferenças, trabalham com o intuito
de identificar pontos de contato entre as duas tradi-
ções. Brady (2013), por exemplo, trabalhando com
formas funcionais e modelagem, intenta demons-
trar que a busca de explicações causais em ambos os
grupos é a mesma.
Em uma posição mais pluralista, Della Porta e
Keating (2008) aceitam a coexistência de diversos
paradigmas de pesquisa, mesmo que não incom-
patíveis entre si. A combinação de métodos, neste
caso, não é superior ou necessária. Haveria distin-
tos caminhos para se obter conhecimento, sem a
pretensão da defesa de um modelo superior. Por
outro lado, Gerring sustenta que a distinção entre
essas perspectivas é apenas uma questão de com-
parabilidade. Esta pode se dar tanto no nível des-
critivo, quanto causal, mas basicamente envolvem
um
tradeoff
entre o que o autor chama de descrição
thick
e
thin
. Estas, por sua vez, podem ser empreen-
didas pela escolha que o pesquisador fará entre co-
nhecer muito de um ou de poucos casos ou buscar
informação de um número muito grande de casos,
em detrimento da profundidade e da qualidade
desta informação. Ou seja, mais próximos à visão
de KKV, estas pesquisas argumentam que as dife-
renças propagadas são pequenas e dependem mais
do diagnóstico e da perspectiva que se atribuem a
elas do que a evidências concretas (Gerring, 2012).
Há outro conjunto de autores que é mais céti-
co sobre as possibilidades de combinação das abor-
dagens em pauta. Como exemplo, pode-se citar o
trabalho de Chatterjee (2011), para quem a esco-
lha metodológica possui, ao menos implicitamen-
te, uma opção ontológica. Esta relação mostra-se,
muitas vezes, incompatível, resumida a uma inter-
pretação ontológica “reducionista” e “regularista”
de causalidade. Segundo o autor, isso dificulta a
combinação de métodos de filiações distintas.
Nesse contexto, Potetee, Janssen e Ostrom
(2010) lembram que o debate teórico sobre o mé-
todo empregado não se dá completamente vin-
culado à práxis da pesquisa científica. Esta per-
manece a despeito das discussões teóricas e acaba
por realimentar esses debates. Segundo os autores,
geralmente o debate não recai sobre as vantagens
do método em si, mas sobre as hipóteses teóricas
escolhidas e, consequentemente, sobre questões on-
tológicas de cada método, o que tem gerado um
acúmulo de novas perspectivas metodológicas que
não conseguem anular as perspectivas anteriores.
Os autores chegam até a afirmar que a discussão é
permeada pela (in)disponibilidade de dados e pelos
objetivos de carreira dos indivíduos. A proposição
dos métodos mistos sofre diretamente com tais
fatores, também porque a formação dos pesquisa-
dores proporciona, em geral, o domínio de apenas
uma ou duas práticas metodológicas particulares.
Assim, pode-se organizar a discussão em duas
dimensões associadas. A primeira vincula-se a as-
pectos práticos da atividade de pesquisa, na qual os
pesquisadores são treinados no sentido kuhniano.
A segunda está ligada a aspectos filosóficos, relacio-
nados com a adoção do pragmatismo como susten-
tador da prática plural. Em comum entre ambas
encontram-se os aspectos epistemológicos e on-
tológicos subjacentes, os quais serão privilegiados
neste artigo. Tais dimensões serão exploradas mais
adiante; antes, porém, é necessária a apresentação
dos métodos mistos na ciência política.
Métodos mistos e a ciência política
A definição de métodos mistos ainda carece de
consenso. Genericamente, trata-se da combinação
DESAFIOS ONTOLÓGICOS E EPISTEMOLÓGICOS PARA OS MÉTODOS.
..
119
de análises qualitativas e quantitativas em um mes-
mo estudo. Em razão de sua história ainda recente,
seja como prática, seja como reflexão do fazer cien-
tífico, a superação desta dificuldade ainda parece
longe de concluída. Como Johnson, Onwuegbuzie
e Turner (2007, pp. 118-120) mostram, diferentes
autores definem a pesquisa com métodos mistos de
forma bastante discrepante. Buscando superar esta
dificuldade, eles propõem a seguinte demarcação:
“A pesquisa de métodos mistos é o tipo de pesqui-
sa na qual o pesquisador ou time de pesquisadores
combina elementos das perspectivas quantitativas e
qualitativas (por exemplo, o uso de pontos de vista
quantitativos ou qualitativos, conjunto de dados,
análises, técnicas de inferência) para um propósito
amplo e profundo de compreensão e corroboração”
(2007, p. 123). Os autores ainda afirmam que: “um
estudo de métodos mistos envolveria a combina-
ção dentro de um mesmo estudo; um programa de
métodos mistos envolveria a combinação dentro
de um programa de pesquisa e a combinação pode
ocorrer através de um conjunto intimamente rela-
cionado de estudos” (
Idem
,
ibidem
). Ainda assim,
é esperado que decorra um lapso significativo de
tempo até que o consenso seja atingido.
Se há divergência na definição, as práticas clas-
sificadas como métodos mistos são ainda mais di-
versas (Small, 2011; Newman
et al.
, 2003). Em um
esforço de sintetizar essas práticas, Creswell (2009,
cap. 10) apresenta um conjunto de seis estratégias
que podem ser seguidas ao se adotar os métodos
mistos,
cujos critérios são estabelecidos em quatro
categorias:
implementação
, quando se decide qual
dos métodos deverá iniciar a pesquisa;
prioridade
,
quando se atribui prioridade a um dos métodos;
in-
tegração
, momento em que se conjuga os dados; e,
perspectiva teórica
, quando se averigua se esse ponto
de vista está implícito ou explícito. Essa sistema-
tização facilita a compreensão das possibilidades
de utilização dos métodos mistos e, por isso, tor-
nou-se uma referência na elaboração de diferentes
desenhos de pesquisa dentro dessa abordagem.
A
primeira estratégia – Estratégia de Explicação Se-
quencial – caracteriza-se pela prioridade da análise
de dados quantitativos, seguida por uma análise de
dados qualitativos. Ambos os procedimentos se in-
tegram durante a fase de interpretação do estudo,
o que se justifica pelo auxílio que a análise quali-
tativa traria na interpretação dos resultados da pri-
meira fase. A segunda é chamada de Estratégia de
Exploração Sequencial. Há aqui uma inversão das
fases, iniciando-se a pesquisa, portanto, pela análise
quantitativa. Assim, alterna-se a avaliação anterior:
os resultados quantitativos servirão para assistir na
interpretação dos resultados qualitativos obtidos.
Já a terceira estratégia recebe o nome de Estratégia
Transformadora Sequencial, em que duas etapas se
sucedem como nas anteriores; porém, neste caso,
o pesquisador é livre para priorizar qualquer uma
das duas análises. Diferentemente das demais es-
tratégias, esta possui um modelo teórico que guia
o estudo, tornando-se mais importante do que o
uso dos modelos isoladamente. Estratégia de Trian-
gulação Simultânea é a denominação da quarta es-
tratégia, considerada uma das mais tradicionais. O
autor explica que ela deve ser uma opção quando se
utilizam métodos distintos para confirmar, validar
ou corroborar resultados em um único estudo. Seu
uso se justifica pela busca de superar as fraquezas de
um método utilizando as forças do outro. Isso pode
fortalecer a interpretação quando há convergência
nos resultados em ambos os métodos ou explicar
a divergência, caso ocorra. Na quinta estratégia,
nomeada Estratégia de Seleção Conjunta, pode-se
identificar apenas uma fase de coleta de dados, na
qual informações quantitativas e qualitativas são
colhidas conjuntamente. Em contraponto à estra-
tégia anterior, nesta há um método predominante
guiando o projeto. O outro método está imerso no
principal, permitindo que se busquem informações
em níveis distintos de análise. Pode ser entendido
como um desenho de pesquisa multinível. Por fim,
a Estratégia Transformadora Simultânea, utilizada
quando o pesquisador adota uma perspectiva teóri-
ca específica. Sua escolha se reflete no propósito da
pesquisa ou nas questões que se pretende resolver;
seu desenho pode incorporar elementos das duas
estratégias anteriores, facilitando as etapas de im-
plementação, descrição e divulgação do resultado.
Entre os diversos trabalhos que aplicam os mé-
todos mistos na ciência política, algumas pesqui-
sas merecem referência como forma de retratar a
amplitude e a variedade de suas aplicações. Jung
(2008) apresenta uma pesquisa em que a práti-
120
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 30 N° 88
ca de métodos mistos é voltada para o estudo do
processo de democratização após períodos de guer-
ra civil. Busca com este procedimento identificar
e mensurar o mecanismo que conduz a ocorrência
destas guerras. Este trabalho pode ser classificado
na primeira estratégia apontada por Creswell. Jung
primeiro procede a uma análise com N-grande para
descobrir as condições de surgimento de um go-
verno democrático após uma guerra civil e estimar
efeitos causais de arranjos de divisão de poder no
período democrático após a guerra. Em seguida, o
autor seleciona dois casos extremos, um positivo e
outro negativo, para uma análise mais detalhada.
Neste caso, a análise qualitativa serve de suporte à
análise quantitativa precedente. Em outra pesquisa,
Steele (2008) apresenta um conjunto de trabalhos
que aplicam os métodos mistos para a análise das
migrações resultantes de guerras civis. Ao estudar a
Colômbia, a autora argumenta que a adoção dessa
perspectiva permite não só uma melhor caracteriza-
ção dos deslocamentos de pessoas, como também a
identificação de formas mais críticas das variações
entre os casos. Sua opção metodológica enquadra-
-se na estratégia que Creswell chamou de Seleção
Conjunta, já que a autora combinou simultanea-
mente análise econométrica, entrevistas e estudos
de casos em sua pesquisa. Já Macintosh e White
(2008) adotam o método misto para o estudo da
participação política
online
. Propõem uma metodo-
logia de análise das iniciativas da democracia parti-
cipativa através de novas tecnologias que facilitem
o acesso do cidadão às decisões do poder público.
A construção metodológica adotada parte de uma
pesquisa qualitativa, lançando mão de observação
participante, entrevistas, grupos focais e análise
textual para, em seguida, realizar testes estatísticos,
seguindo assim o segundo modelo apresentado por
Creswell. Por fim, Ingram (2007) aplica os méto-
dos mistos para a avaliação das cortes estaduais no
México. Seu objetivo é apresentar uma estrutura de
análise de performance destas cortes, tanto em rela-
ção ao gasto quanto em relação à competitividade,
aplicando inicialmente uma técnica quantitativa
para em seguida selecionar casos para avaliação em
profundidade.
Vale destacar a posição de Potetee, Janssen e
Ostrom (2010) quanto às vantagens do emprego de
métodos mistos no sentido prático e em termos ló-
gicos. Alertam, contudo, que a mera utilização dos
dois métodos, um tipicamente qualitativo e outro
quantitativo, não é pressuposto para o êxito da aná-
lise. Em outras palavras, podem-se superar os desa-
fios propostos usando-se apenas uma metodologia
isoladamente, seja quantitativa ou qualitativa, mas
a junção de métodos distintos, reiteram os autores,
é capaz de enriquecer sobremaneira as explicações.
Desafios epistemológicos e ontológicos
8
Quando a literatura discute a adoção de certa
perspectiva metodológica, ela se coloca diante de
pelo menos duas dimensões analíticas distintas:
uma filosófica e outra relacionada à práxis da ciên-
cia. No primeiro caso, a opção por certas técnicas
tem a ver com aspectos epistemológicos e ontoló-
gicos que podem estar mais ou menos claros para
o pesquisador atuante em determinada área do co-
nhecimento, ao menos pela compreensão de que a
escolha de uma técnica lhe permite capturar deter-
minada dimensão da realidade e que as informa-
ções geradas possibilitam conhecer de alguma for-
ma tal realidade. Por outro lado, a práxis associa-se
explicitamente aos métodos utilizados, ou seja, ao
conjunto de procedimentos de um cientista. O pra-
ticante de qualquer ciência está mais direcionado a
técnicas e procedimentos adotados no seu campo
do saber, o que leva à segunda dimensão do debate.
Há vínculos entre essas duas dimensões: as práticas
adotadas dependem da compreensão que se faz da
realidade e das possibilidades de conhecê-la. Assim,
o conjunto de etapas escolhidas por um cientista
não está completamente livre dos vínculos filosófi-
cos que os sustentam, a despeito da clareza que se
tenha deles e da maneira como o pesquisador foi
treinado para resolver os problemas relevantes de
seu campo. Nesse sentido, questões epistemológicas
e ontológicas subjazem ao debate sobre combinação
de métodos. A defesa da pluralidade metodológica
depende, então, da compreensão filosófica; e por-
tanto é preciso avaliar o que está em jogo quando se
defende o método plural, começando por entender
a dimensão metacientífica aí envolvida.
Como o mundo social se organiza e como o ho-
DESAFIOS ONTOLÓGICOS E EPISTEMOLÓGICOS PARA OS MÉTODOS.
..
121
mem dá sentido a ele são questões ontológicas rela-
cionadas com a natureza real do mundo social que
orientam a discussão nas ciências sociais. A esse res-
peito, Della Porta e Keating (2008, p. 23) apontam
para a diferença entre nominalistas – para quem as
categorias sociais existem apenas porque o homem
as cria – e realistas – para quem elas existem a des-
peito das posições dos indivíduos acerca do objeto.
Esta divisão marca, do ponto de vista ontológico,
diferentes abordagens práticas adotadas nas ciências
sociais, e cada uma delas se aproxima mais ou menos
de uma dessas posições. Já as questões epistemológi-
cas voltam-se para a natureza, as fontes e os limites
do conhecimento. Estão relacionadas, portanto, a
como adquirimos conhecimento, tendo por base
a ideia de proposição e argumentação. De diferentes
combinações epistemológicas e ontológicas surgem
distintos procedimentos científicos. Adotando a no-
menclatura de Della Porta e Keating (pp. 21-25), há,
nesse sentido, um
continuum
de abordagens práticas
utilizadas nas ciências sociais em que quatro marcos
podem ser apontados: positivista, pós-positivista, in-
terpretativista e humanista.
No primeiro, referenciado nos trabalhos de
Durkheim e Comte, do ponto de vista ontológico,
a realidade social, regida por leis externas aos indi-
víduos, é objetiva e pode ser capturada facilmente,
como acontece nas ciências naturais; do ponto de
vista epistemológico, o pesquisador e seus objetos
de estudo são completamente distintos. O processo
indutivo seria o método por excelência a ser utiliza-
do para capturar justamente essas leis sociais. Pró-
xima a esta abordagem, encontra-se a perspectiva
pós-positivista, para a qual a realidade social tam-
bém é objetiva, mas a apreensão da realidade não
seria algo tão evidente, levando a uma postura mais
crítica por parte do pesquisador. Sua tarefa é com-
plexa, o que leva a um posicionamento epistemoló-
gico menos assertivo. Acredita-se que o pesquisador
teria influência sobre a produção de conhecimento
e, por isso, adotaria leis probabilísticas em vez de
causais. Haveria, assim, um grau de incerteza maior
sobre as possibilidades de produção de conheci-
mento se comparada à prática positivista.
Essas duas correntes diferem sensivelmente das
demais. Na visão interpretativista, a objetividade e
a subjetividade estão imbricadas na realidade social,
aumentando em muito a dificuldade de apreendê-
-la. O objetivo da ciência seria compreender essa
subjetividade, o que remonta ao posicionamen-
to weberiano. A implicação epistemológica dessa
situação é de que o conhecimento possível de ser
apreendido é subjetivo e depende do contexto. Não
haveria, portanto, leis sociais possíveis. Por fim, a
perspectiva humanista entende a realidade social
como algo totalmente subjetivo, construído a par-
tir da subjetividade humana. As classificações dadas
à realidade não seriam determinadas pela maneira
como o mundo é, mas pelas formas convenientes
de representá-lo. Nesse sentido, o único conheci-
mento possível seria aquele denominado empático.
Com base nessa apresentação geral, podem-se
discutir as implicações suscitadas na escolha de mé-
todos distintos ou combinados em uma pesquisa.
Um dos argumentos favoráveis à adoção de méto-
dos mistos afirma que as questões metodológicas de
uma pesquisa não estão necessariamente implicadas
com questões ontológicas e epistemológicas, pois
as técnicas permitem apenas a captura de informa-
ções na realidade, sendo que uma mesma técnica
pode ser trabalhada com propósitos diferentes, em
abordagens práticas diferentes. Isto é, não há um
método específico que deva necessariamente ser
usado em uma abordagem científica, seja ela positi-
vista, pós-positivista, interpretativista ou humanista
(
Idem
, p. 29). A metodologia é distinta, ainda que
os métodos utilizados possam ser similares.
Outro argumento é de que enquanto a com-
binação de práticas for útil para a evidenciação
daquilo que o pesquisador deseja, o procedimento
plural se sustenta. Neste caso é preciso discutir um
suporte filosófico distinto dos já apresentados, já
que a técnica aplicada se refere a aspectos filosóficos
particulares. Assim, seguindo a linha argumentativa
da divisão de métodos e abordagens, pode-se fazer
a seguinte relação: as pesquisas quantitativas asso-
ciam-se às perspectivas positivistas e pós-positivistas,
que seriam consideradas posições vinculadas à tradi-
ção da filosofia da ciência denominada realismo; já
as pesquisas qualitativas se ligariam às perspectivas
humanista e interpretativista, posições associadas à
tradição nomeada relativismo; aos métodos mistos,
associa-se o pragmatismo.
Para discutir a adoção do
pragmatismo, é necessário apresentar suas divergên-
122
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 30 N° 88
cias em relação aos pontos de vista racionalista e re-
lativista. De acordo com Chalmers,
[...] [o] racionalismo extremado afirma que há
um critério único, atemporal e universal com
referência ao qual se podem avaliar os méritos
relativos de teorias rivais. [.
..] Sejam quais fo-
rem os detalhes da formulação do critério por
um racionalista, uma característica importan-
te dela é sua universalidade e seu caráter não
histórico. [.
..] O racionalista extremado vê as
decisões e as escolhas dos cientistas sendo guia-
das pelo critério universal. O cientista racional
rejeitará as teorias que deixem de corresponder
a ele e, ao escolher entre duas teorias rivais, es-
colherá aquela que melhor corresponda a ele.
O racionalista típico acreditará que as teorias
que se conformam às exigências do critério
universal são verdadeiras, ou provavelmente
verdadeiras (2011, pp. 136-137).
Adota-se uma postura objetiva diante da rea-
lidade social que existe a despeito das crenças da-
queles que a observam. As relações teóricas esta-
belecidas seriam válidas a despeito dos contextos
históricos e sociais particulares. Como já comen-
tado, pode-se dizer que a metodologia adotada em
uma pesquisa quantitativa considera esta interpre-
tação. Já ao se desenvolver em uma pesquisa quali-
tativa, o suporte filosófico é distinto; estaria próxi-
ma ao relativismo que
[...] nega que haja um padrão de racionalida-
de universal não histórico, em relação ao qual
possa se julgar que uma teoria é melhor que
a outra. Aquilo que é considerado melhor ou
pior em relação às teorias científicas variará
de indivíduo para indivíduo e de comunida-
de para comunidade. O objetivo da busca do
conhecimento dependerá do que é importante
ou daquilo que é valorizado pelo indivíduo ou
comunidade em questão. [.
..] O dito do velho
filósofo grego Protágoras “o homem é a medi-
da de todas as coisas” expressa um relativismo
quanto aos indivíduos, ao passo que o comen-
tário de Kuhn de que “não há padrão mais alto
que o assentimento da comunidade relevante”
expressa um relativismo em relação às comuni-
dades. As caracterizações de progresso e as es-
pecificações de critérios para julgar os méritos
das teorias serão sempre relativas ao indivíduo
ou às comunidades que aderem a elas (
Idem
,
pp. 137-138).
Ao contrário da posição anterior, os contextos
seriam fundamentais para se compreender os fe-
nômenos sociais. Os casos particulares são objetos
válidos para o estudo científico e fornecem infor-
mação relevante para o avanço do conhecimento.
Essas colocações expressam duas compreensões
opostas sobre o avanço da ciência que subjazem à
opção metodológica. Concepções estas que foram
historicamente construídas e acabam por legitimar
as técnicas específicas adotadas. Porém, em nenhu-
ma delas seria possível a combinação de métodos.
O pragmatismo seria a outra perspectiva da filoso-
fia da ciência que cobriria tal lacuna.
Iniciado no final do século XIX por filósofos
norte-americanos, o pragmatismo rejeita a posição
tradicional sobre a natureza do conhecimento e a
natureza da investigação. Essa abordagem desafia a
noção de que a ciência social seja capaz de acessar o
“mundo real” somente através de um método cien-
tífico único. Há uma interação relevante entre o de-
senvolvimento da própria cultura e a evolução dos
cientistas, e dos conhecimentos gerados por eles. As
teorias forçariam a crença em um universo dinâmico
e não estático, sem terminar, em termos absolutos,
em caos ou ordem. Em uma definição abrangente,
Felizer afirma:
[...] [d]iretamente, pragmatismo é um com-
prometimento com a incerteza, o reconhe-
cimento que qualquer conhecimento “pro-
duzido” através da pesquisa é relativo e não
absoluto, que mesmo havendo relações cau-
sais, estas são transitórias e difíceis de identi-
ficar. Este comprometimento com a incerteza
é diferente do ceticismo filosófico, que afirma
que não podemos
saber
nada, mas apenas uma
apreciação que relações, estruturas e eventos
que seguem padrões estáveis são abertos a al-
terações e mudanças que dependem de ocor-
rências e de eventos precários e imprevisíveis.
DESAFIOS ONTOLÓGICOS E EPISTEMOLÓGICOS PARA OS MÉTODOS.
..
123
[...] Recentemente, o pragmatismo abandona
a divisão quantitativo/qualitativo e conclui a
guerra de paradigmas sugerindo que a ques-
tão mais importante é se a pesquisa contribuiu
para encontrar aquilo que o pesquisador quer
saber. [.
..] Pragmáticos não “se importam” com
qual método utilizam desde que os métodos
escolhidos tenham potencial para responder o
que desejam saber (2010, pp. 13-14, tradução
nossa).
Dessa forma, o pesquisador associado ao prag-
matismo resolve seu problema de interesse, sem
compromissos filosóficos que o impeçam de avan-
çar em uma direção específica. O que o guia é a
possibilidade que determinado método, ou conjun-
to de métodos, tem de solucionar uma questão. Os
métodos mistos estariam, assim, legitimados.
Entretanto, a afirmação “atingir o que o pesqui-
sador deseja saber” é problemática, pois o conheci-
mento científico é encarado, desse ponto de vista,
em termos instrumentais. Levada ao extremo, esta
perspectiva se vale do resultado obtido pela aplicação
de diferentes métodos para a resolução de um pro-
blema de pesquisa. Esvazia-se, então, a importância
da construção coletiva realizada pelo próprio cam-
po do conhecimento, ganhando relevância apenas
o papel do indivíduo e sua intenção. A partir daí,
o método escolhido é tão somente um instrumento
para a resposta desejada. Não obstante as questões
eminentemente filosóficas que surgem a partir do
confronto dessas correntes,
11
os métodos utilizados
em si se tornam úteis somente pelo resultado. Chat-
terjee (2011, p. 23) chama atenção para a dificulda-
de de se construir conhecimentos válidos com base
apenas nesta concepção instrumental. Como crité-
rio para a avaliação do conhecimento gerado, seria
preciso identificar as relações causais subjacentes à
técnica. A observação de uma simples correlação só
atenderia aos critérios pragmáticos, o que tem im-
plicações importantes na discussão sobre causalidade
na ciência política.
Por exemplo, se a noção causal
adotada é a de regularidade, um estudo de caso não
permitiria que houvesse avanços significativos, já
que não há meios de se extrapolar uma observação
singular a padrões regulares de repetição do fenôme-
no de interesse. Também haveria custo significativo
no convencimento dos demais pesquisadores sobre
o conhecimento que aquela combinação particular
de técnicas permite alcançar. Oriunda de tradições
filosóficas distintas, a comunidade científica encon-
tra dificuldade em aceitar a produção gerada dessa
forma. Ademais, o pragmatismo que justifica os mé-
todos mistos teria de mostrar que é possível construir
conhecimento científico, ainda que seja provisório,
que permita superar a desconfiança sobre sua exten-
são em relação à “verdade”. Apesar da argumenta-
ção pragmática de que a combinação de métodos
cumpre seus objetivos desde que possibilitem uma
explicação dos fenômenos de interesse, a afirmação
de que a escolha dos métodos é independente da
compreensão sobre a capacidade de se acumular co-
nhecimento é bastante controversa (Mastenbroek e
Doorenspleet, 2007; Chatterjee, 2011).
Como a prática não acompanha necessaria-
mente as discussões que envolvem a filosófica da
ciên cia em termos estritos, a superação desse desa-
fio não é condição fundamental para a utilização
dos métodos mistos. Por esta razão, é válido avaliar
a dimensão da combinação de métodos em si em-
pregada efetivamente nas pesquisas empíricas.
A mensuração que concretiza a operacionali-
zação das variáveis, ato fundamental da pesquisa
científica empírica, é um problema a ser superado.
É necessário que se discuta a aplicação dos métodos
mistos, pois o ato de mensurar envolve tanto aspec-
tos qualitativos, como quantitativos. A metodologia
quantitativa trabalha fundamentalmente em uma
perspectiva nomotética da explicação científica.
Nesse sentido, as definições dos conceitos a serem
mensurados são estabelecidas
a priori
e há forte pre-
ocupação do pesquisador em mantê-los estáveis em
seu sentido, condição fundamental para que a ciên-
cia avance nesse terreno. Já nas pesquisas qualitati-
vas, de fundamentação idiográfica, os conceitos são
construí dos ao longo da própria pesquisa. Ao tratar
de casos particulares sem buscar generalizações, a
mensuração é dificultada e tem grau de comparabili-
dade menor. Ademais, dada a construção epistemo-
lógica desse tipo de pesquisa, a avaliação qualitativa
não será conduzida de maneira uniforme, dependen-
do de cada conjunto de técnicas. O desafio é conci-
liar essas diferentes dimensões. Apesar de trabalhos
como o de Hanzel (2010) argumentarem pela ine-
124
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 30 N° 88
xistência da divisão qualitativa/quantitativa com res-
peito à mensuração, ainda permanece a dificuldade
em se mensurar conceitos que são alterados ou cons-
truídos ao longo do trabalho. A pesquisa qualitativa
será ampliada quando combinada a métodos quanti-
tativos utilizados previamente às técnicas qualitativas
mais próximas ao construtivismo.
Outro obstáculo à prática dos métodos mistos
decorre do fato de que a literatura que justifica sua
adoção deixa de lado a pluralidade da pesquisa qua-
litativa.
Apesar de já observada em outros trabalhos
(Tilly, 2001; Brady, 2008), essa divergência em rela-
ção à metodologia qualitativa merece atenção, pois
cada técnica se assenta em visões epistemológicas e
ontológicas distintas. Assim, conjugar tais métodos
com a análise quantitativa também enfrenta desa-
fios distintos. Por exemplo, Kimball e Koivu (2011)
identificaram quatro tipos de pesquisa qualitativa. O
primeiro grupo, em que se enquadra a proposição de
KKV, chamado de Emulador Quantitativo, define-
-se pela preeminência de critérios dentro de padrões
para a inferência causal, baseada na falseabilidade e
na generalização. A causa se assentaria na probabi-
lidade e na análise contrafactual. Sua proximidade
com o posicionamento filosófico do método quan-
titativo, cujo cenário ideal seria o lugar de realização
da análise estatística, seria bastante acentuada. Auto-
res que seguem essa linha não aceitam trabalhos com
N=1. Não há, contudo, divergências significativas
com as práticas quantitativas em relação à mensura-
ção e à utilização de conceitos. Esse grupo propõe a
complementaridade entre análise qualitativa e quan-
titativa, notadamente quanto ao tipo de aborda-
gem – inclusive, a linguagem utilizada, como o uso
de “variável dependente”, é bastante semelhante –,
tendo como principal objetivo a predição e como
orientação, a variável. Os desafios de implementação
dos métodos para este grupo são bastante reduzidos,
mas ocorre principalmente no campo das relações
causais: os métodos mistos aceitam uma perspectiva
neo-humeana, distinta da causalidade contrafactual,
característica desse segmento.
O segundo grupo recebe o nome de Estudos
de Caso e tem como exemplo o livro
The rise of “the
rest”
, de Alice Amsden. Aqui, as pesquisas buscam
identificar causas através de sequências temporais e
mecanismos de
process tracing
e por meio de com-
parações com outros casos. O método permite pou-
ca variação na variável dependente e descreve a ma-
neira pela qual ocorrem resultados distintos. Há,
segundo Kimball e Koivu (2011, p. 20), um gran-
de interesse na formação de conceitos, mas pouca
atenção à mensuração. As pesquisas nesse segmento
almejam a precisão, a clareza e o escopo, tenden-
do, pois, a trabalhar com conceitos amplos e mul-
tidimensionais. Apesar de os estudos de caso serem
defendidos para a aplicação dos métodos mistos,
(Lieberman, 2005), é preciso ter em mente obstá-
culos significativos a serem enfrentados. Por serem
únicos, os estudos de caso não permitem generali-
zação. Podem ser utilizados para testes definitivos
de teorias ou para avaliar a adequação das teorias
à realidade,
mas a possibilidade de generalização a
partir da avaliação de uma única observação é bas-
tante reduzida. Nesse sentido, a descrição profunda
de um fenômeno se aproxima das dificuldades que
a indução traz à prática científica.
Ademais, a ava-
liação de um caso pela variável dependente é um
posicionamento contrário à pesquisa quantitativa,
que busca a importância relativa das variáveis ex-
plicativas ao fenômeno de interesse. Há para isso
múltiplas causas, cujos efeitos líquidos poderiam
ser avaliados estatisticamente. Quanto à compreen-
são epistemológica, cada situação impõe uma dis-
cussão diferente: na adoção da perspectiva qualita-
tiva, a avaliação de um único caso permite que se
obtenham informações relevantes acerca do fenô-
meno de interesse; para a pesquisa quantitativa, tal
procedimento é inviável. Além disso, existem ainda
questões que envolvem perspectivas sobre causali-
dade, já que estudos de caso trabalham com uma
ideia bastante distinta da análise quantitativa, que
pressupõe regularidade causal. Esta seria observada
apenas em um número elevado de casos.
O terceiro grupo é denominado Pesquisa com
Técnica Booleana: as pesquisas trabalham com a
noção de equifinalidade, ou seja, diferentes causas
levariam ao mesmo resultado. Segundo Kimball e
Koivu (2011), trata-se de pesquisas com previsões
moderadas, que enfatizam a explicação histórica e
a generalização nomológica. Porém, nem sempre é
possível atingir o objetivo, isto é, um maior grau de
previsibilidade, “dada a natureza reflexiva dos obje-
tos sociais e sua habilidade de agir estrategicamen-
DESAFIOS ONTOLÓGICOS E EPISTEMOLÓGICOS PARA OS MÉTODOS.
..
125
te para mudar seu ambiente social” (
Idem
, p. 22).
Esse grupo baseia-se na tradição da explicação, ou
seja, no “efeito das causas”, contemplando aí a aná-
lise
fuzzy set
. O trabalho de Skocpol (1979) sobre
revoluções pode ser entendido como um exemplo
dessa abordagem. A possibilidade teórica de que os
indivíduos têm a capacidade de alterar o ambien-
te social, comum às pesquisas qualitativas, cria um
desafio significativo na adoção combinada de mé-
todos. Apesar dessa avaliação sobre a mutabilidade
do ambiente social já ser discutida desde J. S. Mill,
a pesquisa quantitativa adota uma posição de con-
tinuidade nas relações observadas. Diz-se com isso
que as forças sociais que causam determinados fe-
nômenos são relativamente estáveis e permitem que
se realizem trabalhos em que a questão temporal
assume papel bastante reduzido.
A estabilidade ob-
servada entre causa e efeito é negada por esse tipo
de análise, assim como não é possível considerar
aqui a capacidade dos indivíduos de alterar o am-
biente social. O método quantitativo pressupõe re-
lações causais estáveis, imutáveis, no sentido de que
há limites para a efetivação das alterações por parte
dos indivíduos. Portanto, para efetuar a combina-
ção entre os métodos nessa perspectiva da análise
qualitativa é necessário superar tal obstáculo.
Por fim, no quarto grupo – Interpretativista
Empírico –, ontologicamente, a realidade social é
criada por interações compartilhadas e, epistemo-
logicamente, adquire-se conhecimento com base
na compreensão e na interpretação dos indivíduos.
Essa abordagem leva em consideração em sua análi-
se a linguagem, o sistema de símbolos e a percepção
individual. Trabalhos de etnografia são os exemplos
mais característicos deste segmento. A dificuldade
de combinação dos métodos em uma perspectiva
quantitativa é a mais acentuada. A subjetividade da
realidade social se distingue do posicionamento as-
sumido pelos métodos quantitativos. Além do argu-
mento de que a prática quantitativa utiliza conceitos
definidos
a priori
, que não se modificam ao longo
da pesquisa, a interpretação de que conhecimento é
subjetivo, condicional aos sujeitos, é diametralmente
oposta à compreensão da metodologia quantitati-
va. Nesta está implícito que a realidade é imutável
e verificável, mas como de fato a realidade é fluida,
o conhecimento gerado é empático, distanciando-se
decisivamente da abordagem quantitativa. Além dis-
so, essas diferenças dificultam a mensuração objetiva
por causa da incomparabilidade entre os conceitos
utilizados em cada abordagem. Da mesma maneira,
a compreensão dos sujeitos sobre os conceitos com
os quais se pretende trabalhar torna a tarefa da men-
suração trabalhosa e por vezes inviável.
Considerações finais
Os argumentos trazidos aqui indicam que não
se pode enxergar a utilização de métodos mistos de
maneira simplista. O debate sobre a possibilidade
de transposição dos dilemas e das controvérsias a
partir da utilização de perspectivas plurais ainda
não conseguiu apoio de todos os cientistas po-
líticos. Isso é evidenciado pela contínua elabo-
ração de trabalhos que ainda enfocam as diver-
gências entre pesquisas qualitativa e quantitativa.
Ademais, deve-se ressaltar que os desafios são de
duas ordens: uma se dá diante da superação das
desconfianças que o pragmatismo enfrenta como
uma abordagem filosófica distinta; a outra é prá-
tica, ou seja, a combinação de diferentes práticas
implica na combinação de distintas relações filo-
sóficas. Tais desafios evidenciam os obstáculos a
serem superados para que os métodos mistos se
consolidem como uma abordagem aceita. Apesar
das dificuldades, há trabalhos, como o de Gree-
ne (2008), que são otimistas quanto à consoli-
dação de uma metodologia plural. Ela se apoia,
basicamente, na própria pluralidade da origem
desta prática, que seria capaz de criar consensos
metodológicos.
Há ainda desdobramentos importantes não
tratados aqui que também merecem atenção.
Vale apontar dois deles. O primeiro tem a ver
com as formas de explicação causal, que preci-
sam ser mais bem avaliadas. As concepções epis-
temológicas distintas das pesquisas qualitativas e
quantitativas variam entre conceitos causais ge-
rais, singulares, probabilísticos ou reducionistas.
O segundo, apontado por Gates (2008), é sobre
o papel anterior das teorias em relação aos méto-
dos. Em vários aspectos, a prática mista é justi-
ficada mais por seus resultados e por sua utilida-
126
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 30 N° 88
de do que pela observância de relações teó ricas
previamente estabelecidas. A extensão em que a
combinação de métodos permite que se avan-
ce na seleção de teorias é um ponto que requer
discussão mais aprofundada. Este conjunto de
tópicos indica que ainda há um caminho impor-
tante a ser percorrido dentro da ciência política
para que a prática de métodos mistos cumpra
seus objetivos.
Notas
1
Cabe dizer que neste trabalho em relação aos métodos
quantitativos ressaltam-se apenas as pesquisas de aná-
lise estatística. Esta simplificação ocorre em razão do
amplo uso dessa abordagem nas pesquisas empíricas
e principalmente na combinação com outras técnicas
qualitativas.
2
Para uma visão mais detalhada sobre a trajetória dos
métodos mais amplamente utilizados na ciência polí-
tica, em particular, e nas ciências sociais, em geral, ver
Potetee, Janssen e Ostrom (2010, cap. 1).
3
Em 1975, como exemplo das mudanças que aconte-
ceriam nos anos seguintes, Fiorina coloca que “[e]m
anos recentes, as revistas têm publicado um número
crescente de artigos que apresentam ou utilizam mo-
delos formais do comportamento e de processo políti-
cos. Até o momento, entretanto, estas pesquisas pro-
vavelmente alcançam apenas uma pequena audiência”
(1975, p. 133).
4
Este texto obteve repercussão bastante ampla pela li-
teratura, o que gerou duas siglas referenciais: DSI, ao
título do trabalho, e KKV, em razão de seus autores.
5
Para averiguação da importância desta obra, ver, por
exemplo, Brady e Collier (2010), Mahoney (2010) e
Ragin (2000).
6
O autor ainda apresenta critérios que devem ser pre-
enchidos para se optar pelos métodos mistos em uma
pesquisa. Ver, a respeito, Creswell (2009, cap. 6).
7
Apesar de didática, a estrutura apresentada não é
exaustiva. Lieberman (2005) apresenta um modelo
bastante referenciado com a pretensão de permitir
a inferência causal a partir da junção daquilo que o
autor chama de Análise de N-Grande (LNA) com
a Análise de N-Pequeno (SNA). Ao unir essas duas
perspectivas, Lieberman propõe um esquema de pas-
sos a serem adotados pelo pesquisador que não se en-
quadram nas estratégias apresentadas por Creswell,
pois se alternam as pesquisas quantitativas e qualitati-
vas a depender dos resultados encontrados.
8
Nesta seção, os termos analíticos ontologia e epistemo-
logia são usados com certa flexibilidade em razão da in-
tenção de refletir as suas consequências na pesquisa em-
pírica. Agradeço a Raissa W. Ventura pela observação.
9
Mantida a divisão anterior, a abordagem positivista
adotaria métodos similares das ciências naturais, en-
quanto a pós-positivista, ao considerar os contextos,
apenas se aproximaria desse tipo de técnica. Já a in-
terpretativista, tendo foco no significado dos contex-
tos, buscaria sua compreensão. Por fim, a humanista
direcionaria seus esforços à compreensão dos valores,
dos significados e dos propósitos com base na intera-
ção empática entre pesquisador e sujeitos pesquisados.
Enquanto as técnicas estiverem vinculadas ao aparato
metodológico, não haveria vínculo exclusivo de uma
técnica a uma única abordagem. Ver, a respeito, Mo-
ses e Knutsen (2012).
10 Para uma referência filosófica sobre pragmatismo, ver
Baert (2005). Para uma discussão sobre a vinculação
entre o pragmatismo e os métodos mistos, ver Felizer
(2010) e Maxcy (2003)
11 Para uma discussão sobre o embate entre o pragmatis-
mo e demais correntes filosóficas, ver Maxcy (2003).
12 Ver, a respeito, Brady (2008).
13 Aliás, isso também ocorre em relação à pesquisa quanti-
tativa. Trabalhos estatísticos e matemáticos aplicados às
ciências sociais não têm o mesmo peso epistemológico e
ontológico, mas a discussão sobre a pluralidade do mé-
todo quantitativo não faz parte do escopo deste trabalho.
14 Ver, a respeito, Brady (2008, p. 219)
15 Uma referência sobre o tema é Gerring (2004).
16 Para uma avaliação sobre a crítica da indução como
método científico adequado, ver Chalmers (2011).
17 Com a influência do paradigma econômico sobre a
ciência política, esta interpretação sobre a estabilidade
institucional se acentua dramaticamente.
BIBLIOGRAFIA
AMSDEN, Alice. (2001),
The rise of “the rest”: chal-
lenges to the West from late-industrializing econo-
mies
. Nova York, Oxford University Press.
BAERT, Patrick. (2005),
Philosophy of the social
sciences: towards pragmatism.
Cambridge, Poli-
ty Press.
DESAFIOS ONTOLÓGICOS E EPISTEMOLÓGICOS PARA OS MÉTODOS.
..
127
BEVIR, M. (2008), “Meta-methodology: Clearing
the Underbrush”,
in
J. Box-Steffensmeier, H.
Brady e D. Collier (eds.),
The Oxford Han-
dbook of political methodology
, Nova York,
Oxford University Press.
BOX-STEFFENSMEIER, Janet; BRADY, Henry
& COLLIER, David. (2008), “Political science
methodology”,
in
_______ (eds.),
The Oxford
Handbook of political methodology
, Nova York,
Oxford University Press.
BRADY, Henry. (2008), “Causation and explana-
tion in social sciences”,
in
J. Box-Steffensmeier,
H. Brady e D. Collier (eds.),
The Oxford Han-
dbook of political methodology
, Nova York,
Oxford University Press.
_______. (2013), “Do two research cultures imply
two scientific paradigms?”.
Comparative Politi-
cal Studies
, 46 (2): 252-265.
BRADY, Henry & COLLIER, David. (2010),
Re-
thinking social inquiry: diverse tools
,
shared stan-
dards
. 2. ed. Maryland, Rowman & Littlefield
Publishers.
BUCHANAN, James. (2008), “Politics and scien-
tific enquiry: retrospective on a half-century”,
in
J. Box-Steffensmeier, H. Brady e D. Collier
(eds.),
The Oxford Handbook of political eco-
nomy
, Nova York, Oxford University Press.
CHALMERS, Alan F. (2011),
O que é ciência, afi-
nal?
São Paulo, Brasiliense.
CHATTERJEE, Abhishek. (2009), “Ontology,
epistemology, and multi methods”,
Qualitative
& Multi-Method Research
, 7 (2): 11-15.
_______. (2011), “Ontology, epistemology, and
multimethod research in political science”.
Philosophy of Social Sciences
, 20 (10): 1-28.
COLLIER, David; BRADY, Henry & SEAWRI-
GHT, Jason. (2010), “Critiques, responses,
and trade-offs: drawing together the debate”,
in
H. E. Brandy e D. Collier (eds.),
rethinking
social inquiry: diverse tools
,
shared standards
. 2.
ed. Maryland, Rowman & Littlefield Publi-
shers, cap. 8.
CRESWELL, John. (2009),
Research design
:
quali-
tative, quantitative, and mixed methods approa-
ches
. 3. ed. Thousands Oaks, California, Sage.
DELLA PORTA, Donatella & KEATING, Mi-
chael. (2008), “How many approaches in
the social sciences? An epistemological intro-
duction”,
in
_______ (orgs.),
Approaches and
methodologies in the social sciences
, Nova York,
Cambridge University Press.
FELIZER, Martina Y. (2010), “Doing mixed me-
thods research pragmatically: implications for
the rediscovery of pragmatism as a research pa-
radigm”.
Journal of Mixed Methods Research
, 4
(1): 6-16.
FIORINA, Morris. (1975), “Formal models in
political science”.
American Journal of Political
Science
, 19 (1): 133-159.
GATES, Scott. (2008), “Mixing it up: the role of
theory in mixed-methods research”,
Qualitati-
ve Methods
, 6 (1): 27-29.
GERRING, John. (2004), “What is a case study
and what is it good for?”.
American Political
Science Review
, 9 (2): 341-354.
_______. (2012),
Social science methodology: a
unified framework (strategies for social inquiry).
Nova York, Cambridge University Press.
GREENE, Jennifer. (2008), “Is mixed methods so-
cial inquiry a distinctive methodology?”.
Jour-
nal of Mixed Methods Research
, 2 (1): 7-22.
HALL, Peter. (2003), “Aligning ontology and
methodology in comparative research”,
in
J.
Mahoney e D. Rueschemeyer (orgs.),
Com-
parative historical analysis in the social sciences
,
Nova York, Cambridge University Press.
HANZEL, Igor. (2010), “Beyond blumer and
symbolic interactionism: the qualitative-quan-
titative issue in social theory and methodolo-
gy”.
Philosophy of the Social Sciences
, 41 (3):
303-326.
HEGEL, George. W. F. (1969),
Science of logic
.
Atlantic Highlands, NJ, Humanities Press.
HOOVER, Kevin D. (2012), “Pragmatism, pers-
pectival realism, and econometrics”,
in
A.
Lehtinen, J. Kuorikoski e P. Ylikoski (eds.),
Economics for real: Uskali Mäki and the place
of truth in economics
, Londres, Routledge, pp.
223-240.
INGRAM, Mathew. (2007), “Judicial politics in
the Mexican States: theoretical and metho-
dological foundations”.
Cide – Documentos de
Trabajo
, 22.
JOHNSON, R. Burke; ONWUEGBUZIE, An-
128
REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 30 N° 88
thony & TURNER, Lisa. (2007), “Toward a
definition of mixed methods research”.
Journal
of Mixed Methods Research
, 1 (2): 112-133.
JUNG, Jai K. (2008), “Getting the balance right: a
mixed methods approach to the study of post-
-civil war democratization”.
Qualitative Metho-
ds
, 6 (1): 18-19.
KIMBALL, Erin & KOIVU, Kendra. (2011), “Va-
rieties of qualitative methods”.
Political Metho-
dology, Committee on Concepts and Methods
,
Working Paper Series.
KING, Gary; KEOHANE, Robert & VERBA,
Sidney. (1994),
Designing social inquiry: scien-
tific inference in qualitative research
. Princeton,
Princeton University Press.
LIEBERMAN, Evan. (2005), “Nested analysis as a
mixed-method strategy for comparative resear-
ch”.
American Political Science Review
, 99 (3):
435-452.
MACINTOSH, Ann & WHYTE, Angus. (2008),
“Towards an evaluation framework for partici-
pation”.
Transforming Government: People, Pro-
cess & Policy
, 2 (1): 16-30.
MAHONEY, James. (2010), “After KKV: the new
methodology of qualitative research”,
World
Politics
, 62 (1): 120-147.
MAHONEY, James & GOERTZ, Gary. (2006),
“A tale of two cultures: contrasting quantita-
tive and qualitative research”.
Political Analysis
,
14 (3): 227-249.
MASTENBROEK, Ellen & DOORENSPLEET,
Renske. (2007), “Mind the gap! On the pos-
sibilities and pitfalls of mixed methods resear-
ch”. Trabalho apresentado na
4th ECPR Gene-
ral Conference
, Pisa, 6-8 set.
MAXCY, Spencer. (2003), “Pragmatic threads in
mixed methods research in the social sciences:
the search for multiple modes of inquiry and
the end of the philosophy of formalism”,
in
A.
Tashakkori e C. Teddlie (orgs.),
Handbook of
mixed methods in social & behavioral research
.
Thousand Oaks, California, Sage.
MOSES, Jonathon & KNUTSEN, Torbjorn.
(2012),
Ways of knowing: competing methodolo-
gies in social and political research.
2. ed. Palgra-
ve, Macmillan.
NEWMAN, Isadore; RIDENOUR, Carolyn S.;
NEWMAN, Carole & De MARCO Jr., Ma-
rio P. (2003), “A typology of research purposes
and its relationship to mixed methods”,
in
A.
Tashakkori e C. Teddlie (orgs.),
Handbook of
mixed methods in social & behavioral research
,
Thousand Oaks, California, Sage.
POTETEE, Amy; JANSSEN, Marco & OSTROM,
Elionor. (2010),
Working together: collective ac-
tion, the commons, and multiple methods in prac-
tice
. New Jersey, Princeton University Press.
RAGIN, Charles. (2000),
Fuzzy-set social science
.
Chicago, University of Chicago Press.
SKOCPOL, Theda. (1979),
States and social revolu-
tions: a comparative analysis of France, Russia and
China
. Nova York, Cambridge University Press.
SMALL, Mario L. (2011), “How to conduct a mi-
xed methods study: recent trends in a rapidly
growing literature”.
Annual Review of Sociology
,
37: 57-86.
STEELE, Abbey (2008), “Moving targets: mixing
methods to uncover dynamics of displacement
in civil wars”.
Qualitative Methods
, 6 (1): 23-27.
TILLY, Charles. (2001), “Mechanisms in political
processes”.
Annual Reviews of Political Science
,
4: 21-41.
RESUMOS / ABSTRACTS / RESUMÉS
DÉFIS ONTOLOGIQUES
ET EPISTÉMOLOGIQUES POUR
LES MÉTHODES MIXTES EN
SCIENCE POLITIQUE
Glauco Peres da Silva
Mots clés
: Méthodes mixtes; Défis; Prag-
matisme; Pluralité.
L’objectif de ce texte est de discuter
l’extension des défis ontologiques et épis-
témologiques relatifs à l’utilisation de
méthodes mixtes en science politique.
Il existe également d’importantes diver-
gences philosophiques et empiriques en
ce qui concerne les méthodes utilisées,
et celles-ci méritent notre attention.
D’un côté, les défis philosophiques appa-
raissent avec la diffusion de l’approche
pragmatique et, d’un autre, les questions
empiriques naissent de la pluralité tech-
nique propre des méthodes qualitatives.
Nous défendons que cette double dimen-
sion éloigne les méthodes mixtes des buts
qu’elles désirent atteindre.
DESAFIOS ONTOLÓGICOS E
EPISTEMOLÓGICOS PARA OS
MÉTODOS MISTOS NA CIÊNCIA
POLÍTICA
Glauco Peres da Silva
Palavras-chave
: Métodos Mistos; Desa-
fios; Pragmatismo; Pluralidade.
O objetivo deste texto é discutir desafios
ontológicos e epistemológicos relativos à
utilização dos métodos mistos na ciên-
cia política. Existem ainda importantes
divergências filosóficas e empíricas com
relação às metodologias utilizadas que
merecem atenção. De um lado, os desa-
fios filosóficos originam-se com a difusão
da abordagem Pragmática e, de outro,
as questões empíricas se originam com a
pluralidade técnica própria dos métodos
qualitativos. Defende-se que esta dupla
dimensão distancia os métodos mistos de
seus objetivos almejados.
MIXED METHODS’
ONTOLOGICAL AND
EPISTEMOLOGICAL CHALLENGES
IN POLITICAL SCIENCE
Glauco Peres da Silva
Keywords
: Mixed Methods; Challenges;
Pragmatism; Plurality.
The purpose of this paper is to discuss
the extension of ontological and episte-
mological challenges related to the ap-
plication of mixed methods in political
science. There are important philosophi-
cal and empirical disagreements regard-
ing the methodologies involved. On one
side, philosophical challenges relate to
the acceptance of a Pragmatic approach
and, on the other, empirical issues arise
with the technical plurality inherent to
qualitative methods. It is argued that this
double dimension distances the mixed
methods of their intended goals.
logo_pie_uaemex.mx