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ESPAÇO PÚBLICO DE SOCIABILIDADE DA JUVENTUDE: A TV NA PRAÇA
EM SÃO JOSÉ DE ESPINHARAS/PB
Osvaldo Meira Trigueiro
1
Resumo
O presente artigo tenta fazer uma reflexão sobre a audiência da televisão no espaço
público de uma pequena cidade do interior do Nordeste brasileiro. É inegável que a
presença da televisão nas grandes ou pequenas cidades brasileiras interfere, está
presente nos modos de agir, de pensar e de criar novas estratégias de convivência
cotidiana, na rua e na casa. Pretende-se mostrar o outro lado da questão, ou seja, apontar
o que a audiência faz com a televisão, como seus constituintes, os atores sociais ativos
operam os vários dispositivos de interações mediadas. Na realidade, enfocam-se as
tensões decorrentes de interação entre os jovens constituintes, especialmente na faixa
etária dos 14 aos 25 anos, da audiência da televisão na praça da cidade de São José de
Espinharas no sertão da Paraíba. A metodologia desenvolvida no trabalho de campo foi
a da etnográfica da audiência e a observação participativa no período dos
jogos
eliminatórios para a Copa do Mundo de 2002.
Palavras-chave
Televisão. Audiência. Sociabilidade. Espaço Público. Juventude. Cidade Rurbana.
RAZÓN Y PALABRA
Primera Revista Electrónica en América Latina Especializada en Comunicación
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AGOSTO - OCTUBRE 2011
Introdução
É inegável que a presença da televisão nas grandes ou
pequenas cidades brasileiras interfere, está presente nos
modos de agir, de pensar e de criar novas estratégias de
convivência cotidiana, na rua e na casa. Com este artigo,
pretende-se mostrar o outro lado da questão, ou seja, apontar
o
que
a
audiência
faz
com
a
televisão,
como
seus
constituintes
os
atores
sociais
ativos
operam
os
vários
dispositivos
de
interações
mediadas
nas
redes
de
comunicação
cotidianas
do
local,
na
interpretação
e
apropriação dos produtos midiáticos ofertados pela televisão.
Na
realidade,
enfocam-se
as
tensões
decorrentes
de
interação
entre
os
jovens
constituintes, especialmente na faixa etária dos 14 aos 25 anos, da audiência da
televisão na praça da cidade
rurbana
2
de São José de Espinharas no sertão da Paraíba.
Procura-se refletir, nesse texto, como se
dão
os
processos
de
mediações
na
recepção,
como
são
reinventados
os
produtos midiáticos no consumo e uso na
prática cotidiana de uma pequena cidade
do
interior
paraibano.
A
maioria
dos
jovens
que
moram
nos
municípios
do
sertão nordestino usa, diariamente, a televisão para se informar, para adquirir novos
conhecimentos e para seu entretenimento. É a televisão que mais oferece visões do
mundo globalizado e mostra como é a vida nas cidades grandes. A televisão não inventa
moda, não impõe estilo de vida, não condiciona sozinha o cotidiano desses jovens, mas
é um importante veiculo de comunicação capaz de regular, de determinar alguns dos
novos hábitos e costumes dos que vivem em cidades rurbanas (TRIGUEIRO, 2004).
Onde fica São José de Espinharas/PB
São José de Espinharas é um município encravado no semiárido paraibano. Faz parte da
microrregião
de
Patos/PB,
polarizada
pela
cidade
de
mesmo
nome,
que
é
frequentemente castigada pela seca e com características predominantes do rural. O
clima semiárido do sertão, pela escassez e irregularidade das chuvas, é um dos grandes
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problemas, na atualidade, para o desenvolvimento de toda a região sertaneja. Em ano de
seca, a sua frágil estrutura econômica e
social fica ainda mais debilitada, a sua
população mais exposta aos interesses
dos políticos locais, porque vêm a fome e
o
desemprego
desencadeando
a
dependência de auxílios dos programas
sociais públicos, que passam a ser quase
a única alternativa de sobrevivência. São
José de Espinharas, que tem uma área territorial de 739km
2
, está entre um dos dez
maiores municípios do sertão paraibano em extensão territorial e tem uma das menores
densidades demográficas, com 6,96 hab/km
2
. Situa-se a 327 quilômetros de João
Pessoa, a capital do Estado. O município tem uma população de 5.109 habitantes: 3.634
na área rural e 1.475 na área urbana.
Presença de Anita na praça da televisão
Era agosto de 2001 e a seleção brasileira jogaria no
Estádio
Beira-Rio,
em
Porto
Alegre-RS,
pelas
eliminatórias da Copa do Mundo de 2002, no Japão e
na Coréia. A cidade de São José de Espinharas estava
toda à espera do início da partida. Grupos de jovens
caminhavam em direção a praça da televisão, alguns
torcedores vestiam a camisa verde e amarela da seleção. Aos poucos, foi-se formando
uma torcida no entorno da praça. Nas noites de agosto, no sertão, o clima é mais ameno
e, na cidade de São José de Espinharas, sopra um vento frio que vem da serra,
obrigando as pessoas a se agasalhar ou cobrirem-
se com lençóis, porque, na praça, o vento é ainda
mais forte. Estava próximo o início do jogo, mas o
comentário era sobre a minissérie
Presença de
Anita,
exibida no período de 7 a 31 de agosto de
2001, no horário das 22h30, sucesso de audiência
em todo o país (DICIONÁRIO DA TV GLOBO,
2003).
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Nessa noite, a cidade viveu uma atmosfera de grande expectativa, pois a televisão
transmitiria, ao vivo, o jogo do Brasil contra o Paraguai e mais um capítulo da
minissérie
Presença de Anita
. A audiência da televisão
na praça era constituída de um grupo heterogêneo de
aproximadamente 100 pessoas, entre homens, mulheres,
adolescentes e crianças. Quando a TV Globo anunciava
a exibição do próximo capítulo da minissérie para, em
seguida,
mostrar
o
jogo,
ocorria
uma
grita
geral,
principalmente das pessoas mais jovens. No intervalo da
partida, chegou um adolescente na faixa etária entre 14 e 16 anos, exibindo, com muito
cuidado para não despertar a atenção dos adultos, um preservativo desses distribuídos
pela campanha de prevenção das doenças sexualmente transmissíveis. Foi grande a
correria dos jovens para ver e pegar a camisinha, e, por alguns momentos, a atenção de
uma grande parte da audiência foi desviada para a proeza do jovem que tinha, em sua
posse, um preservativo. Passado algum tempo, as pessoas mais velhas perceberam a
façanha do adolescente e passaram a chamar a sua atenção e reclamar que ali não era
um lugar de se estar mostrando “essas coisas”, que era um lugar público e havia lá
mulheres e crianças. O ambiente ficou tenso, por alguns momentos, devido às malícias
dos jovens e aos reclamos dos mais velhos, que não admitiam essa atitude de “mau
gosto” na praça. Um senhor, em voz alta, disse: “Vocês respeite o lugar, e não tão vendo
que aqui tem gente de fora! O que vão ficar pensando da gente aqui?”.
O senhor
reclamante apontava na minha direção e da minha esposa, que estávamos no lugar
fazendo a nossas observações, mas os jovens continuaram a exibição do objeto
“obsceno” que circulava de mão em mão, entre risos e comentários que incluíam a
sexualidade da minissérie. Um funcionário da Prefeitura, Peta (como é conhecido) é o
responsável pelo uso da televisão na praça e do disciplinamento do horário de ligar e
desligar a TV
.
Os jovens continuavam fazendo algazarra com a exibição da camisinha,
quando Peta ameaçou que, se eles não parassem desligaria a televisão na hora do jogo
da Seleção Brasileira.
Em seguida comunicou que era ordem do prefeito desligar a
televisão logo após o jogo de futebol. E, em voz alta, disse:
Pode tirá o cavalinho da chuva. Aqui (
na praça
), ninguém vai assistir
Anita
não!! Quando acabá o jogo, vou desligar a tevê, que isso não é
programa pra menino ver. Quem quiser ver essa tal de Anita vá
assistir em casa. Essa tal de Anita só tem safadeza, e vocês grita
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muito, faz muita arruação na praça com essa safadeza, e os vizinhos
vão reclamar na Prefeitura. Aí quem leva carão sou eu. Vou desligar, e
pronto
(gravação na Praça da Televisão em ago. 2001).
Peta chamou para si a responsabilidade de desligar a televisão, em nome da ordem
pública, da moral e dos bons costumes. No espaço público da televisão na praça é o
poder político que determina o tempo de uso da televisão, mas, no espaço da casa, esse
uso é determinado por negociações entre os membros da família. Ou seja:
O Espaço Público das sociedades modernas evidencia, no processo do
seu
desenvolvimento
histórico,
uma
tendência
crescente
de
institucionalização, nunca chegando contudo a constituir-se como
uma instituição social propriamente dita. Desde a origem até hoje,
prevalece no seu âmago um certo carácter informal, derivado da forma
peculiar
de
sociabilidade
que
lhe
é
intrínseca –
os
públicos
(ESTEVES, 2003, p. 27).
A tática praticada no espaço público da praça, para o uso da televisão, é quase sempre
um jogo de engenhosidade do público – nesse caso os jovens desejosos em assistir a
minissérie
Presença de Anita
– e o poder público municipal, também nesse caso,
representado pelo funcionário. São forças exercidas com as suas influências que
poderão ultrapassar os seus próprios limites de espaço e tempo. Ou seja, tudo poderá
ficar para outra ocasião, outra hora, mas as negociações não se esgotam.
Terminado
o
jogo,
o
narrador
do
espetáculo
esportivo
encerrou
a
transmissão,
convidando os telespectadores para a próxima atração: “Fique agora com a minissérie
Presença de Anita
. Boa noite”.
Em seguida, quebrando o silêncio da noite, ouviram-se
os gritos dos jovens ecoar pelas ruas da cidade, em protesto pela atitude do funcionário
que, logo em seguida, desligou a televisão. Os homens mais velhos saíam sem reclamar,
e os mais jovens, aos gritos de protestos, foram dispersando-se pelas ruas desertas da
cidade. Mas no grupo havia dois jovens mais exaltados que prometiam fazer queixa ao
chefe de gabinete do prefeito e ao secretário da administração. Eles reclamavam o
direito de assistir televisão na praça e não aceitavam passivamente a proibição de verem
mais um capítulo da minissérie
Presença de Anita
no espaço público da cidade.
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No dia seguinte, no mesmo horário, aproximadamente 60 pessoas, predominantemente
do sexo masculino, entre 14 e 25 anos, aguardavam a exibição de mais um capítulo da
minissérie. O funcionário acabara de comunicar aos presentes que o prefeito tinha
autorizado a liberação do horário, mas era preciso que se respeitassem os mais velhos e
que não se fizesse muito barulho, para não incomodar as famílias que moram nas
proximidades da praça. Peta, no seu depoimento, disse:
Eles (apontando na direção dos dois jovens) foram na Prefeitura
reclamar, e Paulo Camilo (chefe de gabinete do prefeito) autorizou
eles assistir
Anita
, aqui na praça.(…) Já completou seis anos que tomo
conta da televisão aqui. Eu ligo as 5h30 da tarde e vai até 10h00.
Antigamente ia até tarde, não tinha limite não. Uma vez eu desliguei
12h00 (
meia noite
), quando cheguei em casa, a filha do ex-prefeito
mandou que eu voltasse pra eu ligar de novo a televisão, que a da casa
dela tava com defeito. Aí eu fiquei até 01h30 da manhã.
(o fato
aconteceu quando o prefeito era José Gomes de Sousa)
. Agora com o
Dr. René (
o atual prefeito)
,
a ordem é ficar ligada até as 10h00,
devido muito bêbado que chega assim, quer bagunçar, e a vizinhança
perto da televisão fica reclamando. Aí eu falei com Dr. René, e ele
disse que era só liberado nos dias de jogo ou em caso especial. Hoje tá
autorizado até mais tarde. Depois, vamo ver como fica
(depoimento
em ago. 2001).
Assistir a determinados programas junto com os amigos, sem medo da represália dos
pais ou dos mais velhos e com a liberdade de se emitirem opiniões e críticas, era motivo
para as reuniões e festas dos jovens no espaço movimentado da telepraça. Assim
comentava um jovem de 17 anos que, no dia seguinte, foi assistir, com os demais
companheiros, ao programa na praça:
Aqui na praça, a gente fica mais à vontade pra
comentar as coisa da
Anita
. Lá em casa, não dá pra assistir esse programa, pai dorme cedo e
mãe não deixa; aí eu venho com meus amigo pr’aqui (
Praça da
Televisão
), ver o programa (…). Na minha casa, tem televisão e
parabólica, mas é melhor ver aqui. Com mais gente, fica mais animada
a conversa, os comentário
(depoimento em ago. 2001).
A negociação do contrato social de uso da televisão entre os constituintes da audiência e
o poder público, representado pelo chefe de gabinete do prefeito, no dia seguinte é
definida por algumas condições de comportamentos na praça. Representando os
interessados em continuar assistindo ao programa na praça, na condição de mediadores
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ativistas, os dois jovens negociam o novo horário de uso da televisão e conseguem a
liberação do poder público. Nesse caso, o processo de apropriação da televisão pela
audiência não se limita aos seus conteúdos, mas, também, ao tempo de exibição,
controlado pelo poder público. As relações entre os jovens e Peta, no transcurso da
semana, continuaram tensas, mas o contrato social estava sendo cumprido.
Na televisão da praça, os jovens se comportam
com certa indiscrição. É um lugar mais liberal,
que
autoriza
maiores
“inconveniências”
nas
relações
complexas
de
se
assistir
coletivamente,
no
espaço
público,
a
determinados programas de televisão, quase
nunca autorizados, da mesma forma, no espaço da casa. Um professor, 22 anos,
segundo grau completo, morador do sítio Riacho da Roça, próximo à cidade, que
leciona na área rural do município, faz o seguinte comentário sobre a audiência da
minissérie na televisão da praça:
Ninguém falou da minissérie da
Presença de Anita
. Eu gostaria de
falar um pouquinho. Eu faço o curso de computação aqui (
na
biblioteca
) e passo aqui na praça à noite, de seis horas não tem quase
ninguém assistindo (televisão), eu assisto só
A Padroeira
, a novela das
seis, e quando é dez e meia por aí, quando termina o curso, aí eu
venho, e a praça está praticamente lotada pra assistir a
Presença de
Anita
. Eu vejo uma parte na praça e o resto assisto em casa. A minha
mãe não assiste porque é muito tarde. Mas eu me encabularia de
assistir aquele programa ao lado de minha mãe, eu me encabulo. Por
exemplo, ela tem vergonha, que quando aparece uma cena, ela gosta
muito de novela, mas se aparece uma cena forte ou uma cena que
parte pro lado da pornografia, eu me encabulo, ela se encabula, todo
mundo se encabula. Por exemplo, quando eu não assisto, logo de
manhãzinha o meu irmão mais novo comenta, mas geralmente só nós
dois. Porque é um programa que eu não aconselho ninguém assistir.
Não tem uma boa história.
(depoimento em ago. 2001).
O curso de computação
3
foi realizado na Biblioteca Municipal, em três turnos, e, como
é perto da praça da televisão, o jovem professor ficava ali assistindo, por algum tempo,
à telenovela
A Padroeira
, exibida pela Rede Globo, de junho de 2001 a fevereiro de
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2002, ás 18 horas
(DICIONÁRIO DA TV GLOBO, 2003),
até chegar a hora do início
das aulas de computação, como ele mesmo afirmou.
São várias as situações de escolha para uso da televisão e da sua programação. Pôde-se
perceber que o jovem professor queria demonstrar, durante as nossas conversas, certa
dúvida, se deveria assistir à minissérie na praça, talvez com a presença de alguns dos
seus alunos, ou em casa, em companhia da sua mãe. Mas a telenovela
A Padroeira
é um
programa que o jovem professor incentiva os seus alunos a assistirem, como modo de
apropriação dos seus conteúdos para exemplificações de um Brasil colonial, na sala de
aula:
A Padroeira
é uma novela que, por sinal, apesar de aparecer cenas
fortes, eu acabo dando incentivo aos alunos assistirem, quer dizer, eu
indico alguma coisa, que é uma novela de época. Ela está mostrando,
aquela novela é como se fosse o embrião brasileiro. O início, a
maneira como foi tomado, como foi colonizado, como foi a postura
dos poderes e.
.. a gente percebe assim que houve algumas mudanças
em relação a hoje, mas também não foi tanto assim. Ela aborda como
foi o desenvolvimento, mas de qualquer forma é um retrato. Eu vejo
assim!
(depoimento em ago. 2001).
O jeito malicioso da adolescente e sedutora Anita, as cenas de nudez, de sexo e a
exibição explícita do uso do cigarro pelos atores despertavam a curiosidade dos jovens,
sob o olhar atravessado dos adultos. O triângulo amoroso entre a bonita e fogosa Anita
(Mel Lisboa), o maduro escritor Fernando (José Mayer) e do jovem Zezinho (Leonardo
Miggiorim), simplório vendedor de uma quitanda que se apaixona por ela, com a qual
inicia a vida sexual, vai até as últimas consequências, na defesa de um amor quase
impossível. A trama de
Presença de Anita
é uma narrativa que repete, de certa forma, a
ambiguidade presente nos contos populares, da luta entre o bem e o mal, o amor e o
ódio, a vida e a morte, ricos e pobres, experiências e inexperiências da vida real que se
mesclam nas tramas simbólicas da produção midiática. E foram essas ambiguidades que
mesclaram a ficção e a realidade dos comentários na praça, comentários com insultos,
risos, rejeições, aprovações e até as similitudes com os personagens e com pessoas
conhecidas da cidade (LOPES, 2002).
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A televisão na praça continua sendo um espaço propício à propagação das narrativas
melodramáticas é um lugar aberto para os diferentes reconhecimentos e interpretações
dos sentimentos moralistas, machistas, fatalistas, supersticiosos e nostálgicos. A praça
da cidade sempre foi um espaço de apropriação e uso de significados populares,
transformada com a inserção da televisão em espaço de hibridização sociocultural de
convivência, de cumplicidade entre o moderno e o tradicional, o antigo e o novo, dos
diferentes intercâmbios de significados culturais do local e os significados culturais do
global.
Na televisão da praça a audiência é exercida intensamente com as diversidades de
opiniões e críticas sobre os conteúdos mediáticos e suas relações com os princípios da
ordem social do local.
Considerações finais
Na praça, a interpelação dos mais jovens, sobre as tramas da minissérie
Presença de
Anita
é individual ou coletiva. As tramas são aceitas ou rejeitadas nas práticas da vida
cotidiana dos grupos sociais ou da família. É na televisão da praça que se dão os
movimentos de mediações e as resignificações das narrativas televisivas que se
deslocam com maior ou menor densidade, de um lado para o outro, conforme os
interesses de maior ou menor relevância dos constituintes da audiência.
A mediação implica o movimento de significado de um texto para
outro, de um discurso para outro, de um evento para outro. Implica a
constante transformação de significados, em grande e pequena escala,
importante e desimportante, à medida que textos da mídia e textos
sobre a mídia circulam em forma escrita, oral e audiovisual, e à
medida que nós, individual e coletivamente, direta e indiretamente,
colaboramos para sua produção (SILVERSTONE, 2002, p. 33).
A
frequência
de
jovens
na
televisão
da
praça
depende do que vai ser exibido, até por que a
audiência
está
condicionada
ao
grau
de
demonstração de interesse que cada sujeito tem
para
determinado
acontecimento
midiático,
a
exemplo dos jogos de futebol da seleção brasileira
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e os últimos capítulos da minissérie
Presença de Anita.
Os acontecimentos midiáticos de maiores repercussões trazem um maior número de
jovens para a praça da televisão porque a rua e a praça são espaços públicos importantes
de convivência, de sociabilidade, de protesto, de embates entre amigos, adversários e até
inimigos. As redes midiáticas não eliminam as redes de vinculações comunitárias entre
os interconhecidos que moram em cidades rurbanas, até por que cada um dos habitantes
é portador dos seus próprios
ethos
(SODRÉ,2002). As casas, as ruas e as praças são
espaços de lutas, de celebrações ritualistas de alegrias e tristezas, de solidariedades e de
conflitos que incluem, obviamente, os conteúdos televisivos. Nas cidades rurbanas, os
espaços
públicos
continuam
sendo
relevantes,
com
os
seus
vários
lugares
de
agendamento dos assuntos da localidade. A televisão não consegue eliminar a sua
importância como um fórum da cidade, das convivências solidárias e das manifestações
dos contrários. O espaço público da audiência da televisão na praça tem as suas
especificidades
para
o
chamamento
dos
participantes
ativos
dos
acontecimentos
midiáticos. O espaço público de sociabilidade da juventude na praça da televisão
continua quando são exibidos os grandes acontecimentos midiáticos.
Referências
Dicionário da TV Globo:
Programas de dramaturgia & entretenimento.
Rio de Janeiro:
Zahar, 2003, v. 1, Projeto memória das Organizações Globo.
Esteves, João Pissara.
Espaço público e democracia
: comunicação, processos de sentido
e identidade social. São Leopoldo/RS: Editora Unisinos. 2003.
Freyre, Gilberto
. Rurbanização:
o que é? Recife: Massangana, 1982.
Lopes, Maria Immacolata Vassallo, SIMÕES, Silvia Helena, RESENDE, Vera da
Rocha.
Vivendo com a telenovela
: mediações, recepção, teleficcionalidade. São Paulo:
Summuns, 2002.
Silverstone, Roger.
Porque estudar a mída?
.
São Paulo: Loyola, 2002.
Sodré, Muniz.
Antropológica do espelho
: uma teoria da comunicação linear e em rede.
Petrópolis: Vozes, 2002, 268 p.
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Trigueiro, Osvaldo Meira. Quando a televisão vira outra coisa: as estratégias de
apropriação das redes de comunicação cotidiana em José de Espinharas/PB. Tese
(doutorado) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo, 2004.
1
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB. Pesquisador da Rede Folkcom. Membro da
Comissão Paraibana de Folclore
2
O neologismo – rurbano ou rurbanização – foi empregado por Gilberto Freyre (1982), para definir uma
comunidade que habita um perímetro conceitualmente definido como urbano, mas que na realidade
continua mantendo suas características rurais. São cidades com menos de 10 mil habitantes conforme o
grau de densidade de ocupação humana nesse perímetro, urbano ou não urbano. Assim como afirma o
autor, o conceito de rurbanização é
: Um processo de desenvolvimento socioeconômico que combina
com formas e conteúdos de uma só vivência regional – a do Nordeste, por exemplo, ou nacional –a
do Brasil como um todo – valores e estilos de vida rurais e valores e estilos de vida urbanos. Daí o
neologismo: rurbanos (FREYRE, 1982, p. 57).
Os municípios rurais ou como aqui se definiu rurbanos,
são ainda pouco estudados, como afirma José Eli da Veiga (2002). Infelizmente muito pouco se sabe a
respeito dos fatores de atração dos municípios rurais. Provavelmente devido à persistente confusão entre
espaço rural e setor agropecuário, além do inevitável viés urbano que domina a pesquisa econômica. Por
mais estimulantes que sejam as teorias sobre comunicação e desenvolvimento regional, elas só podem
fornecer algumas pistas para a análise do fenômeno, pois todas se voltam muito mais para a interpretação
do papel protagonista desempenhado pelas aglomerações urbanas do que para as possíveis contribuições
coadjuvantes de uma parte dos espaços rurais. Essas comunidades rurbanas são constituídas de atores
sociais anfíbios que navegam em territórios socioculturais do meio rural e do meio urbano, agora
conectado pelos circuitos midiáticos e não podem continuar sendo desconhecidas dos estudos de
comunicação no Brasil (TRIGUEIRO, 2008).
3
O curso de computação é uma ação do Governo Federal através do Instituto de Desenvolvimento Social
e do Trabalho – IDSTP, em convênio com a Prefeitura de São José de Espinharas. O IDSTP oferece às
pequenas Prefeituras um curso de informática básica à comunidade que ainda não teve contato com
computadores. Em São José de Espinharas, foi realizado no período de 6 a 31 de agosto de 2001. São
oferecidas 60 vagas, com a frequência de 20 alunos, entre 16 e 30 anos, por turno, manhã, tarde e noite. O
curso tem uma carga horária de 80 horas, e o aluno que concluir recebe o certificado do curso Introdução
á Informática Básica.
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