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TRAVESSIAS
COMUNICACIONAIS:
POVOS
MIGRANTES
E
ELOS
FOLKCOMUNICACIONAIS
Cristina Schmidt
1
Resumo
O movimento migratório representa um rompimento, quase que total, com o plano
material e o plano imaginário. Esse rompimento não vai significar o esquecimento do
passado e dos tipos de relações sociais estabelecidas até então, mas vai sustentar um
envolvimento forte com o presente para superar os processos de reelaboração cultural e
reterritorialização.
Esse
trabalho
objetiva
analisar
as
travessias
humanas
e
os
mecanismos comunicacionais evidenciando as convergências do folk com a mídia
massiva. A teoria da folkcomunicação oferece fundamentos apropriados para abordar
esses processos de comunicação forjados pelos povos que migram. Conceitos de líder-
folk e folkmídia elucidam o papel dos agentes e meios de comunicação.
Palavras- Chave
Folkcomunicação; hibridismo; identidade étnica, convergência midiática, migração.
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1. Os movimentos humanos e a comunicação
Os movimentos humanos acompanham as civilizações.
Pelos mais diversos motivos –
econômicos, políticos, religiosos - pequenos grupos ou populações inteiras se deslocam
de suas cidades, regiões ou países. Nos dias atuais, o reconhecimento das diferentes
culturas faz com que os movimentos populacionais adquiram uma importância social
indiscutível.
Pessoas que vem e que vão, que ficam ou partem, formam um fluxo
permanente de trocas materiais e simbólicas no cotidiano. Muitas manifestações
tornam-se referências e são registradas pela mídia criando um fluxo de informação
massiva. Em contrapartida, Isso gera contrafluxos folkcomunicacionais. Emissores,
canais/mensagens e receptores diversos interagem com as localidades de origem e de
destino.
(...) o aumento da brecha de desigualdade entre países ricos e pobres
também participa da configuração dos cenários que definem as
características dos processos migratórios. (.
..) A migração é um dos
processos
sociais
que
participa
de
maneira
detrminante
na
configuração
de
âmbitos
interculturais
e
transfronteiriços.
Tem
enorme relevância na dinâmica intercultural contemporânea, definida
por
meio
de
conceitos
como
diáspora,
desterritorialização-
reterritorialização, comunidades transnacionais, redes migratórias e
outros conceitos a partir dos quais se busca captar as condições que
subjazem às transformações e recriações culturais que definem o
sentido da vida de milhões de seres humanos no mundo. (ARCE, in
CANCLINI, 2003, p.157-158)
Com o atentado às torres gêmeas – World Trade Center – em 11 de setembro de 2001,
vários aspectos relacionados às fronteiras e às permissões de imigração se alteraram no
mundo todo e particularmente nos EUA. Antes disso, porém, em muitos países o
imigrante já era relacionado com a ameaça comunista, o que repercutiu enormemente
inclusive na América Latina durante os governos ditatoriais.
Depois vinculou sua
imagem ao narcotráfico e agora ao terrorismo.
O que ocorre é que a migração redefine as formas de relações sociais criando redes
diferenciadas –
locais,
nacionais
e
transnacionais
-
e
alterando
os
aspectos
da
cotidianidade. No novo contexto, são criadas relações com a comunidade local mas
também são articuladas novas formas de contato com a comunidade de origem. Isso
provoca ainda a alteração nos “mapas cognitivos e nas configurações geoantrópicas”, ou
seja, o ser e o estar dos indivíduos se reterritorializa, se remanifesta. As movimentações
humanas projetam diversas possibilidades de relacionamentos, desde o familiar até o
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comunitário. Desses derivam uma série de compromissos que implica em uma ação na
sociedade voltada para a satisfação da necessidade própria e familiar e, muitas vezes,
para
atender
necessidades
da
coletividade.
Nesse
processo
acabam
ocorrendo
divergências
e
as
recriações
culturais,
manifestadas
em
movimentos
de
reterritorialização ou em um novo enraizamento.
(ARCE, in CANCLINI, 2003, p.178-
179)
Luiz Beltrão explica que esses movimentos migratórios humanos são percebidos desde
os povos primitivos onde as diversas etnias indígenas se relacionavam em movimentos
de guerra ou de solidariedade. E que geravam a comunicação no Brasil pré-cabralino.
São as perambulações ou migrações. Etnias se movimentando dentro de um processo
adequado ao modo de vida de sua gente.
Para os conquistadores lusitanos, os indígenas estavam num estágio
muito primitivo de civilização, na era paleolítica. Por muitos anos, por
séculos mesmo, ninguém se preocupou em avaliar com precisão o
grau do processo civilizador do autóctone brasileiro, que era olhado
como
„peça‟
para
o
tráfico
da
escravidão
,
como
„alma‟
para
conquistar
maior
glória
de
Deua,
como
„bugre‟
a
exterminar
implacavelmente, como „tipo‟ a exaltar romanescamente em poemas
de estórias épicas. (BELTRÃO, 2001, p.84)
Essa visão distorcida sobre o povo indígena ainda resiste, mas foi sendo ajustada com os
estudos realizados no século passado por antropólogos e sociólogos. Somente a partir
daí é que foi possível reconhecer a estruturação social indígena. Constituída com uma
religião forte, uma medicina natural, uma agricultura e culinária – com produtos como
mandioca, algodão, tabaco, cana-de-açúcar e milho. Criavam abelhas para produção de
mel. Algumas tribos desenvolviam artefatos de barro – como vasos, panelas e urnas
funerárias. Outras utilizavam o tear para confecção de vestimentas e redes. Também
possuíam uma técnica construtiva bem desenvolvida e prática utilizando o „pau-a-
pique‟, que possibilitava a construção de habitações adequadas ao clima e ao tempo de
permanência nas localidades. Trabalhavam a madeira e a pedra para confecção de
canoas, armas e utensílios. E, ainda, todas suas práticas estavam integradas com os
movimentos
da
própria
natureza;
muito
diferente
das
praticadas
pelos
povos
exploradores e colonizadores que chegaram ao continente brasileiro.
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Processos folkcomunicacionais e meios de comunicação também foram ricamente
identificados. Beltrão relata:
Meios de comunicação não faltavam ao indígena, para quem a selva
não tinha segredo: ele a percorria, abrindo picadas e deixando roteiros
mediante incisões nas árvores, inscrições rupestres e marcas diversas;
comunicava-se à distância pelas pancadas do trocano, chama e fumo
das fogueiras e pelos sons transmitidos pelo cambiassu; recebia as
notícias de viva voz pelos pajés e caraíbas, em constantes andanças de
taba em taba, durante o moacaretá ou fogo do conselho, ou nos
dabacuris
e
outras
festas,
que
reuniam
diversas
tribos
para
as
atividades de caça, pesca, migrações e guerra, e práticas religiosas ou
diversionais de aproximação social. (2001, p.89)
Depois, além da colonização portuguesa, com a presença, também colonizadora, de
outros povos –
holandeses no nordeste, franceses no sudeste e espanhóis no sul - novos
contatos com a população local foram se estabelecendo. Alguns processos mais
impositivos
do
que
outros,
geraram
novos
códigos,
ritos,
valores
e
formas
de
comunicação; provocando “o florescimento da sociedade híbrida no país”.
O hibridismo na América Latina pode ser compreendido como resultado da “(.
..)
quebra
e da mescla dos conjuntos que organizavam os sistemas culturais, a desterritorialização
dos processos simbólicos e a expansão dos gêneros impuros”. (Canclini: 1995, p.264)
Esses fatores alteram tanto os grupos urbanos quanto os rurais, suas visões de mundo e
suas necessidades de consumo. A cultura que resulta do „hibridismo cultural‟ se
expressa
em
uma
comunicação
de
idas
e
vindas
com
várias
possibilidades
de
manifestações e interpretações.
2. Travessias e identidades étnicas
Ainda como decorrência do processo de colonização, um grande fluxo de mão de obra
vai
modificar
significativamente
o
panorama
cultural
e
os
processos
folkcomunicacionais. Primeiro para a extração de riquezas naturais como madeira e
minério: ouro, prata e pedras preciosas. Depois, para a implantação e avanço das
monoculturas e pastagens. O café, a cana-de-açúcar, o arroz e a soja definiram cidades e
relações políticas, culturais e econômicas. E, da mesma forma, o gado leiteiro e de
corte. Mais tarde, constatou-se que a imponência da monocultura derrubou a mata,
secou
ou
contaminou
as
nascentes,
invadiu
a
pequena
propriedade,
roubou
a
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subsistência do camponês, arrancou o trabalhador de sua raiz e o transformou em
migrante.
Inicia-se com o tráfico de negros da África em condição escrava. E, com o fim do
regime
de
escravidão
negra,
outros
povos
foram
cooptados
para
trabalhar
nas
monoculturas brasileiras. Destaca-se o grande contingente de trabalhadores italianos,
com seus familiares, que chegaram ao Brasil, mais acentuadamente no estado de São
Paulo. Outros povos também têm importância nesse processo de reterritorialização
como: os judeus, os japonês, os alemães e tiveram grande contingente de imigração.
A África sempre foi vista pelo europeu como uma terra selvagem, possuidora de um
povo muito primitivo, distante das idéias de civilização e cientificidade racional que
constituía as sociedades “brancas” consideradas superiores.
Por isso, quando os
europeus invadem às terras africanas com o intuito de colonização, de exploração de
riquezas e obtenção de mão-de-obra escrava, em nenhum momento ou localidade foi
considerada a história da gente local, os processos civilizatórios das localidades e as
características culturais e políticas de cada nação.
A história dos negros nas Américas escreve-se numa narrativa de
migrações e travessias, nas quais a vivência do sagrado, de modo
singular, constitui um índice de resistência cultural e de sobrevivência
étnica, política e social. (.
..) Os africanos que sobreviveram às
desumanas condições da travessia marítima transcontinental foram
destituídos
de
sua
humanidade,
desvestidos
de
seus
sistemas
simbólicos. (MARTINS, 1997, p.24-25)
No Brasil se teve uma larga convivência com a escravidão, que perdurou por três
séculos, e mantinha-se em cativeiro e sob torturas e exploração cerca de 3,6 milhões de
africanos trazidos à força para o continente sul americano.
Durante todo o processo de
escravidão nas Américas, acredita-se que um terço da população africana foi arrancada
de seu território. Desenraizado e prisioneiro, os africanos que sobreviveram aos maus
tratos, que iniciava na travessia marítima, eram destinados às novas localidades para
atender as necessidades de seus “senhores”. A separação do bom ou mal escravo jamais
considerou os aspectos culturais ou familiares.
Um contingente desse vulto acabou alterando as cores, os costumes e
a própria sociedade local. A escravidão, em primeiro lugar, legitimou
a inferioridade e, enquanto durou, inibiu qualquer discussão sobre
cidadania. Além disso, o trabalho limitou-se exclusivamente aos
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escravos,
e
a
violência
se
disseminou
nessa
sociedade
das
desigualdades e da posse de um homem por outro” (SCHWARCZ,
1998, p.185)
Alguns grupos conseguiam se unir para fuga. Muitos morriam nessa tentativa. Os que
conseguiam escapar à condição de “caça”, formavam comunidades de resistência
escondidas
e
distantes –
os
quilombos –
onde
iniciavam
um
processo
de
reterritorialização. As tradições transmitidas oralmente, representadas em forma de
danças, cânticos, e rituais religiosos trouxe um conforto cultural e uma possibilidade de
enraizamento. Mesmo após a abolição, a liberdade não significou a igualdade. Os
negros simplesmente foram soltos de seus cativeiros mas sem nada para se amparar.
Sem terra, sem trabalho, e muitos sem saúde e sem destino ficavam à margem das
propriedades e bairros comerciais já estabelecidos. O resultado: miséria, doenças e
violência. Além do mais, para desgosto do Império, o país estava se constituindo por
uma gente mestiça e considerada inferior.
Então, simultaneamente à abolição dos escravos, iniciou-se uma política agressiva para
trazer um contingente significativo de mão-de-obra imigrante branca. Criaram-se alguns
incentivos como o pagamento da viagem e a promessa de emprego farto. Ficou evidente
que
tal
tentativa
estava
vinculada
a
algumas
metas:
1.
melhorar
as
relações
internacionais, pois o Brasil foi o último país a libertar os escravos negros; 2. resolver a
questão da mão-de-obra interna, uma vez que o trabalho era destinado exclusivamente
ao escravo e jamais ao senhor e seus familiares e agregados; 3. aumentar a mestiçagem,
mas
agora
com
brancos,
pois
defendiam
que
tal
medida
possibilitaria
um
branqueamento do país.
Essas medidas foram tomadas ainda durante o império.
(SCHWARCZ, 1998, p.187)
Diferentemente dos negros, os italianos faziam a travessia transcontinental de maneira
mais amena. Não eram transportados como escravos, apesar das condições nos navios
chegarem próximas da miséria. Em acomodações simples e superlotadas, os italianos
percorriam quilômetros de mar estabelecendo contatos e relações afetivas com os
compatriotas. Dividiam esperanças, projetos, angústias e, muitas vezes, alimentos e
medicações. Também dividiam diferenças e inimizades. O navio era o primeiro
momento de desenraizamento, mas um processo que possibilitava a criação de laços.
Tanto que, uma atitude muito comum aos italianos era definir os casamentos de seus
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descendentes com famílias que conheceram no navio; ou estabelecerem relações
comerciais, a partir da confiança que adquiriram na embarcação; ou ainda,
os grupos
que viajaram juntos buscavam se alojar ou construir suas casas próximas. Esse tipo de
comportamento amenizava a desterritorialização.
Essa aproximação inicial de grupos, pelo menos inicialmente, possibilitou a criação de
micro-sociedades que iriam atuar mediando a esfera pública e privada. Como é o caso
da sociedade de assistência e socorro social, dos clubes, teatros, templos religiosos e
cemitérios, e das organizações políticas como os sindicatos. Para muitos imigrantes, os
poderes instituídos representavam apenas um sistema de repressão e extorsão. Os
italianos, assim como muitos europeus, trouxeram para a nova terra uma postura política
diferenciada e moldada pela militância anarquista. Também comemoravam datas
importantes para o operariado daquela época, como o dia do trabalho.
O Brasil recebera os estrangeiros brancos – italianos, judeus, espanhóis, japoneses -
ainda
com
muita
restrição.
Os
moradores
locais
demonstravam
sentimentos
de
resistência ao “forasteiro” mas, ao mesmo tempo, desejavam o trabalho dessa gente
nova. Do lado dos estrangeiros também não era diferente, “de um lado, a inveja do
modo como os nacionais se apresentavam, comportando-se como „donos da terra‟; de
outro, desprezo pela sua suposta condição física doentia, pela aversão ao trabalho”. Isso
não era uma posição unânime entre os estrangeiros, uma vez que tinham origens em
diferentes etnias, mas isso só acentuava a elaboração de “imagens preconceituosas do
„judeu da prestação‟, do „espanhol encrenqueiro, do „turco embrulhão‟ etc.”
Porém,
todas as etnias estrangeiras se consideravam dedicada ao trabalho, “os verdadeiros
construtores de uma cidade que ia se transformar em uma metrópole.” (FAUSTO in
SCHWARCZ, 1998, p.26-27)
Práticas culturais de toda ordem iriam marcar a formação da nova sociedade brasileira.
Festas religiosas públicas e privadas: devoção a Santos, batizados, casamentos, funerais.
Festas gastronômicas, culinária, ervas e temperos. Relações de trabalho: a propriedade e
o trato com a terra, a diversificação do comércio, a organização da indústria, os salários
e benefícios, os sindicatos. Características da arquitetura urbana – praças, ruas, vilas,
casas
e
cortiços.
A
diferenciada
vestimenta:
tecidos,
uniformes,
modelos/moda.
Utensílios domésticos, materiais e equipamentos de trabalho agrícola e industrial. Todos
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esses traços fazem parte da hibridação nacional. Manifestações de lá e daqui foram se
adequando à vivência compartilhada na terra brasileira.
Devemos considerar, conforme argumenta Boris Fausto, que “a imigração para o Brasil
perdeu muito de seu significado”, a não ser por novos grupos de estrangeiros que vem
chegando a São Paulo, principalmente, como os asiáticos: chineses e coreanos; e os
latinos: os paraguaios, argentinos, bolivianos. Mas, novos fluxos marcam a realidade
brasileira,
Mudou o eixo dos fluxos migratórios, concentrando-se o fenômeno
nas migrações internas. Embora se trate de realidades diversas sob
muitos aspectos, penso que os fluxos esxternos e internos têm pontos
comuns. Afinal de contas, cortes e continuidades, discriminação e
preconceito, êxito, integração ou fracasso, integram para o Centro-Sul.
(idem, p.60-61)
É importante destacar que o movimento migratório representa um rompimento, quase
que total, com o plano material e o plano imaginário. Esse rompimento não vai
significar o esquecimento do passado e dos tipos de relações sociais estabelecidas até
então, mas vai sustentar um envolvimento forte com o presente para superar os
processos de reelaboração cultural e reterritorialização. Além do que, há um aspecto
marcante nessa rearticulação, é compreender o papel de estrangeiro num país que é sua
nova terra. O nativo sempre o olha como um estrangeiro, um forasteiro, um ameaçador.
O olhar para o “outro” é recriminador, intimidador, preconceituoso e distanciador.
O migrante fica distante de sua paisagem natal, das casas, das ruas, dos vilarejos. A
natureza se apresenta diferente nas árvores, na água, na forma de se relacionar com os
animais e com as máquinas. E assim, fica afastado dos sons, das cores, dos aromas e dos
sinais que lhe são familiares. As festas, as rezas, as conversas – e até o sotaque -
adquirem novos significados. Seu mundo natal fica na memória, no sentimento, nos
projetos de visita ou de retorno sem nenhuma certeza de concretização.
3. Elos Folkcomunicacionais nas identidades pós-étnicas
Dois grandes movimentos humanos permanecem até os nossos dias. O interno, com o
deslocamento regional de pessoas migrantes. O externo, com a entrada de grupos vindos
de países de todo o mundo. Ambos fazem com que haja a atualização de processos
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sociais,
incorporando
valores
e
técnicas.
Ambos
assimilam
grandes
fluxos
comunicacionais massivos que atuam regionalmente ou globalmente.
Nesse contexto,
as tradições dessas populações ainda estão muito presentes, e para
analisá-las
é
preciso
identificar
os
fluxos
midiáticos
e
os
contrafluxos
folkcomunicacionais provenientes daqueles que migram em que o folk e o massivo se
mesclam. São as reformulações ou atualizações dos saberes –
trabalho, artesanato,
culinária, crença, lazer, meio de comunicação - do povo migrante para se adaptar aos
fazeres da nova localidade e da sua gente.
As
populações
mais
urbanizadas
foram
alterando
crenças,
comportamentos,
manifestações das comunidades rurais. Os processos folkcomunicacionais incorporaram
formas de trabalho e entretenimento dessas novas populações. Ao mesmo tempo,
formaram um contrafluxo às mídias hegemônicas. O circo, o teatro, os periódicos, as
bandinhas, e a literatura. Modelaram-se novos processos, incorporando tecnologias e
saberes de ambas as partes. Os mamulengos, os autos, os repentes, os cordéis, os
almanaques, as danças.
Esse contexto, em muitos momentos, é reapresentado pelos meios de comunicação,
numa tentativa de intermediação com o público nativo ou simplesmente de reificação –
transformando um valor cultural de vivência e de raiz em um produto de entretenimento
e consumo. A cultura midiática apresenta permanentemente produtos que têm como
referência a cultura folk. Tais produções recebem um tratamento plástico e estético
adequado aos padrões da cultura hegemônica e que são próprios aos meios massivos
para o recontar da história ou do fato.
Conforme o Professor Roberto Benjamim,
A interação entre os portadores da cultura folk e a cultura de massas
causa um efeito ainda pouco analisado nos meios acadêmicos. Ao se
apropriar de elementos da cultura folk, os produtores da cultura de
massas procedem a uma seleção e reprocessamento a fim de tornar
tais elementos compatíveis com os padrões e o estilo vigente em seu
meio.
Os
portadores
da
cultura
folk
tomam
conhecimento
desse
reprocessamento, sem que, na maioria das vezes, entendam as razões
que levaram às escolhas e remanejamentos procedidos. Considerando
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o caráter hegemônico da cultura de massas, acabam tentados a
reincorporar
aqueles
elementos
com
as
características
massivas
introduzidas, de volta, em suas manifestações.
(in MELO, 2001, p.38)
Esse processo é a recodificação de uma mensagem específica de um público popular
para um público massivo. É o que chamamos de apropriação de elementos da cultura
folk pelos meios massivos de comunicação - da cultura massiva, da cultura erudita – e a
reconfiguração das manifestações a partir desse novo ponto de vista.
O migrante, ao ter contato com esse produto da mídia, certamente identifica alguns
elementos de seu arcabouço cultural. Porém, não é a sua história, não é a sua terra. O
produto midiático é uma imagem fugidia de sua cultura, e se apresenta sem raiz e sem
memória. É uma conjunção de fragmentos, uma colcha de retalhos de uma cultura folk,
ou melhor, quando passa pela tecnologia torna-se
um “patwork midiatizado” que vem
como uma revelação de algo novo, fashion, promissor e justo. Quando não, traz uma
imagem de um mundo marginal com ar bucólico que o transforma em opção de vida,
sem conflitos irreparadores, sem contradições irrefutáveis.
Na sociedade pós-moderna, entretanto, isso vai se tornando cada vez mais produto e
menos referência, menos identidade; são novos movimentos humanos – provocados por
novos impactos econômicos e políticos pós globalização - que agregam pessoas, grupos
com interesses comuns além etnia, além território, e estabelecem elos culturais que
formam uma identidade multicultural.
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1
Cristina Schmidt é jornalista e professora do ensino superior na Universidade de Mogi das Cruzes – SP -
Brasil. Mestre em Teoria e Ensino da Comunicação pela Umesp – Univesidade Metodista de São Paulo; e
Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. É membro da REDE FOLKCOM – Rede de
Estudos e Pesquisas em Folkcomunicação, e Coordenadora do NP Folkcomunicação da INTERCOM.
Organizou a publicação Folkcomunicação na Arena Digital, em 2006, pela editora Ductor/SP.
Contatos:cris_schmidt@uol.com.br
ou
crisschmidt@umc.br
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