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O INCONSCIENTE FOLCKLÓRICO :
ARTHUR RAMOS
Regina Gloria Andrade
1
Augusto Conceiçâo
2
Resumo
Este texto é um grande desafio em relação à reflexão de um dos conceitos mais
discutidos nas ciências humanas que é o inconsciente. Com toda razão, o conceito do
inconsciente é de domínio da psicanálise. Evidentemente que nenhum conceito pode dar
conta de campos tão amplos e vastos quanto aqueles dedicados ao estudo do sujeito.
Privilegiar um conceito significa já o ter estudado em suas nuances assim como seus
estudos alternativos e decorrentes do mesmo.
Palavras chave
Folkcomunicação; inconsciente; personalidade; Inconsciente folclórico
,
Arthur Ramos;
Psicologia intelectualista.
RAZÓN Y PALABRA
Primera Revista Electrónica en América Latina Especializada en Comunicación
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NÚMERO 77
AGOSTO - OCTUBRE 2011
Introdução
Este texto é um grande desafio em relação à reflexão de um dos conceitos mais
discutidos nas ciências humanas que é o inconsciente. Com toda razão, o conceito do
inconsciente é de domínio da psicanálise. Evidentemente que nenhum conceito pode dar
conta de campos tão amplos e vastos quanto aqueles dedicados ao estudo do sujeito.
Privilegiar um conceito significa já o ter estudado em suas nuances assim como seus
estudos alternativos e decorrentes do mesmo. Porém nada pior do que comunicar mal
um conceito para outros que em seu cotidiano não o freqüentam as pesquisas e estudos
de um campo “vizinho”. Os autores vem da área
psi
, como são chamados os psicólogos
e os psiquiatras e por isto mesmo ousamos apresentar esta contribuição ao Grupo de
Trabalho sobre Folkcomunicação.
O Inconsciente segundo a Psicanálise
Para falarmos de psicanálise temos que nos referir ao Dr. Sigmund Freud ( 1856-1939)
e ao Dr. Jacques Lacan ( 1900-1981), sendo que o primeiro foi neurologista e o segundo
psiquiatra. Ambos deram a maior contribuição ao conceito do inconsciente. Em relação
a Freud o inconsciente é uma verdadeira descoberta e funda o que ele chamou de
Psicanálise que resume estudos teóricos e práticos dedicados à clinica e a terapêutica do
sujeito. Para Lacan também não é muito diferente porque funda a
clinica do desejo
como os lacanianos costumam denominar seus trabalhos.
O conceito do inconsciente designa um dos sistemas do „aparelho psíquico‟, como
Freud
chamou seus estudos, e é
constituído por conteúdos reprimidos pela ação do
recalque.
Estes
conteúdos
são
representantes
das
pulsões
classificadas
generalizadamente em pulsão de vida e pulsão de morte e são regidos pelo processo
primário , de ação e de reação, fortemente carregados de energia que tentam voltar à
consciência.
Nos estudos considerados como segunda tópica que se referem a data de 1914 em
diante,
Freud
dedica-se
ao
estudo
de
três
instâncias
referentes
a
personalidade
conhecidas como id,ego,super-ego e o conceito do inconsciente é mais especificado no
artigo
O Inconsciente
(1914)
e recebe a seguinte descrição:
Podemos ir além e afirmar, em apoio da existência de um estado
psíquico
inconsciente,
que,
em
um
dado
momento
qualquer,
o
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conteúdo da consciência é muito pequeno, de modo que a maior parte
do que chamamos conhecimento consciente deve permanecer, por
consideráveis períodos de tempo, num estado de latência, isto é deve
estar psiquicamente inconsciente ( FREUD, 1974 – 1914 , p. 192 ) .
Então o conceito do inconsciente freudiano tem antes de tudo uma noção tópica ( de
lugar) dinâmica (de movimento)e econômica ( trocas) ou seja
um
lugar psíquico
particular que é preciso representar-se, não como uma segunda consciência, senão
como um sistema que tem conteúdos, mecanismos e possivelmente uma energia
especifica
( LAPLANCHE
&PONTALIS
,
1971,
p.
200).
Seus
conteúdos
são
essencialmente os desejos infantis e os recalques da pulsão. Para explicar isto Freud vai
desenvolver toda uma zona de áreas de repressão que acompanha o desenvolvimento
infantil em que se constituem as fases e zonas erógenas, oral, anal,
fálica e genital além
de provocarem cisões aberturas entre o inconsciente , o pré-consciente, e o consciente
propriamente dito.
Há ainda as características especificas do inconsciente que são descritas no artigo de
1914 que podem até ser listadas:
* não há no inconsciente negação, duvida ou qualquer grau de certeza
* no inconsciente existem conteúdos investidos com maior ou menor força
*estes
investimentos
sofrem
mecanismos
especiais
de
condensações
e
deslocamentos e
são regidos pelo principio primário.
* os processos do inconsciente são atemporais
*estes processos estão sujeitos ao principio do prazer de modo que a realidade
externa é substituída pela realidade psíquica.
O conceito Lacaniano sobre o inconsciente não fica longe das complicações freudianas.
Em principio não discute suas características básicas,
mas é explicado de forma
completamente diferente. Reverte a direção de dentro para fora, para de fora para
dentro, e desenvolve a aporia de que
o inconsciente é estruturado como uma linguagem
,
ou
seja constituído, e não já determinado.
Mais interessado na constituição do “eu” Lacan desenvolve o conceito do “estádio do
espelho” como momento inaugural do
infans
, aquele que ainda não fala, para
conceituar o imaginário. Daí conceituar o simbólico e o real sempre presente, mas
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indizível, a morte. Este conceito Lacan os articula no Nó de Borromeu uma figura
geométrica em que se um elo se desprende todos os outros também se soltam.
Estes
elos formam as cadeias das condições do imaginário, simbólico e real, que perpassam os
significantes e a ordem do discurso. O RSI é uma das contribuições mais importantes da
teoria lacaniana.
O Inconsciente folclórico de Arthur Ramos (1903-1949)
Arthur Ramos Pereira nasceu em Pilar no Estado de Alagoas no dia 07 de julho de
1903.
Em 1920 foi para Salvador- Bahia estudar na Faculdade de Medicina, tendo
concluído o curso em 1926. Nesse ano cumprindo os rituais do curso, defende a tese
intitulada
O Primitivo e a Loucura, quando apresenta os fundamentos da metodologia
que orienta as suas pesquisas ao longo do seu trabalho.
Permaneceu na Bahia até 1933,
indo estabelecer-se no Rio de Janeiro, onde contou com o apoio de colegas como
Afrânio Peixoto e Juliano Moreira.
Inicialmente
vai se ocupar da organização do setor
de Higiene Mental e Ortofrenia da Secretaria de Educação do Distrito Federal, da
organização da Universidade do Distrito Federal em 1935 com curso de Introdução a
Psicologia Social, e em seguida em 1940 com a institucionalização da cadeira de
Antropologia na Escola de Filosofia da Universidade do Brasil. Por fim dedica-se a
organização do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO, vindo a falecer em
Paris em 1949 no exercício do cargo. Deve ser registrado que Ramos destacou-se por
ser
um
homem
de
ação,
organizando
congresso
de
cultura
africana
na
Bahia,
defendendo colegas perseguidos e presos pela ditadura Estado Novista, organizando e
participando de campanhas nacionais e internacionais contra a discriminação racial.
Durante todo o curto tempo de sua vida apenas 46 anos, desenvolveu um trabalho
intelectual produtivo, que convergente com a sua trajetória pessoal, o tornam um
exemplo de um homem de pensamento e de ação. Essa dimensão, enquanto fundamento
ético, expressa o seu compromisso com a construção do Brasil como uma nação
moderna, naquele período, preocupada com a definição de projetos de desenvolvimento
e com o ritmo de implementação das reformas sociais. No entendimento de Ramos a
solução do “dilema brasileiro,” pressupunha a reconciliação da nação com o seu povo,
implicando como pré requisito o reconhecimento de que os grupos de excluídos como o
negro, os índios e os novos grupos de migrantes europeus, possuíam uma cultura que
permitia a esses grupos contribuir para a formação do espírito nacional. É a partir da
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pesquisa que desenvolve acerca da cultura e do homem brasileiro considerando a
problemática da formação de uma ciência autônoma fora dos marcos da herança
colonial, que desenvolve um pensamento original comprometido com a solução doas
problemas nacionais. Nesses termos Ramos
desenvolve uma teoria acerca da formação
do psiquismo humano, que antes de ser individual e refletir a biografia individual,
resulta, por um lado, da experiência histórica do grupo de pertencimento do indivíduo e,
por outro, das experiências contemporâneas, no contato com outros grupos, indivíduos e
instituições. Nesse modelo, o psiquismo é organizado a partir de dois eixos, um
correspondente aos conteúdos ancestrais do grupo do individuo, que se vincula ao
tempo histórico, e o outro correspondendo ao espaço e ao contexto atual de interação
dos grupos e indivíduos. Sua expressão seria atualizada e regulada por uma instância
mediadora de natureza cultural e de formação mais contemporânea. A essa dimensão
socioantropólgica do psiquismo associa-se o reconhecimento da sua função de mediação
na articulação com o corpo. Esse liame ou fundamento é complementado pelo princípio
da
contextualização,
que
para
Ramos
assume
uma
dimensão ético-politica,
e é
indicativo de que o novo tipo de conhecimento a ser produzido, deve romper com a
tradição
cientifica
de
assimilar
as
formulações
das
ciências
sociais
e
humanas
construídas sob o espírito do colonialismo europeu baseado na imagem do adulto
branco, dolico e civilizado.
É com esse espírito que, em sua tese de doutorado em medicina
Primitivo e Loucura
(1926), Ramos elabora o seu conceito principal nessa fase que é o de Inconsciente
Folklorico, destinado a fundamentar a constituição de uma Psiquiatria Folklorica, o seu
projeto mais significativo nesse período. Tem como referencia o diagnostico de crise da
psiquiatria,
atribuindo
como
razão
fundamental,
a
influência
da
psicologia
intelectualista. Considerava que a alternativa estaria de um lado no acesso a etnografia
dos povos primitivos disponibilizados pelos estudos Etnológicos e Folclóricos, assim
como através da reestruturação da Psicologia. Nesse aspecto o pensamento de Arthur
Ramos foi influenciado por Karl Jaspers (1883-1969), que considerava a psiquiatria não
como uma ciência, mas sim um conjunto de conhecimentos, dependente da psicologia e
susceptíveis as contínuas mudanças das suas escolas. Naquele momento estava a
psiquiatria submetida a influencia de uma Psicologia
intelectualista, resumida a
pesquisa e estudo da percepção, e que, para Ramos, deveria ser substituída por uma
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forma de compreensão do individuo baseada na psicologia dinâmica e nos princípios da
Gestalt.
Nesse estudo analisou o trabalho de Eugenio Tanzi (1856-1934)
um psiquiatra da
escola italiana que estudou a Paranóia pelo viés social, aproximando a Psiquiatria da
Etnologia, Arqueologia, Folklore e Psicologia para afirmar que há uma
relação
analógica entre o primitivo e o paranóico. Estudou e citou o trabalho do psiquiatra
alemão Eugen Bleuler (1857-1939), medico que desenvolveu trabalho importante de
aproximação da psicanálise e psiquiatria, com o qual Gustav Jung trabalhou diretamente
e que em 1924, estudou a demência precoce, para a qual propôs o nome esquizofrenia.
Tanzi elaborou também
a hipótese de que
o delírio do paranóico não é mais que a
reprodução, mais ou menos fiel, de fórmulas que caracterizam normalmente o
selvagem
.(RAMOS, 1926, pg 38 a 41
).
Tais hipóteses têm como base a teoria de Theodor Meynert de que as idéias delirantes
preexistem como elemento inconsciente, inibidas pelas funções mentais superiores, e
considera o controle da cultura sobre o material inconsciente, sugerindo que o
reaparecimento do “velho” ocorre ou por inibição ou por defeito da função moderadora
da cultura.
Arthur Ramos examinou também as contribuições da Antropologia, das teorias do
inconsciente de Freud, Jung, Meynert, Kretschmer para a confirmação do seu conceito
de inconsciente folclórico. Dentre todos os seus estudos foram os trabalhos de Eugenio
Tanzi que mais o sensibilizaram. Este autor desenvolveu uma analogia entre o a
semiologia da paranóia com os traços descritos pelos relatos etnográficos da historia dos
selvagens de épocas remotas e encontrou fortes semelhanças. Afirmou também essa
analogia entre a paranóia e os “contemporâneos, das populações semi-analfabetas que
habitam as periferias e os cortiços das cidades”.
A partir destes estudos Arthur Ramos vai propor o conceito de inconsciente folclórico.
Ele resulta da redução do conceito de inconsciente ancestral, que tem uma dimensão
longitudinal e opera em função do tempo, sendo o responsável pela dimensão arcaica do
psiquismo, e do inconsciente interpsiquico que responde pela interação do individuo
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com o meio. (RAMOS 1926, pg. 88 a 90). Trata-se de uma síntese de tudo aquilo dito
nos parágrafos anteriores: a dimensão sociocultural é estruturante do psiquismo
humano, e esse estrutura mediante a de forma simbólica, que seria uma tradução
metafórica da experiência sociocultural.
Haveria no psiquismo uma propriedade de
arquivar
símbolos
arcaicos
referentes
as
experiências
históricas
do
grupo
de
pertencimento,
e
que
existe
segundo
uma
linha
temporal
em
interação
com
a
experiência
contemporânea
do
individuo.
A
essa
dimensão
Ramos
nomeia
de
Inconsciente Folklorico
Esse conceito ao mesmo tempo em que consolida a perspectiva teórica e metodológica
de Ramos nessa fase, é ilustrativo da forma como ocorre o movimento de difusão
internacional da psicanálise e a maneira como Ramos recepciona e utiliza os seus
conceitos.
Se
ele
utiliza
conceito
de
inconsciente,
conceito
básico
do
campo
psicanalítico, o exame das suas obras posteriores indica que ele assimila uma concepção
que
o
aproxima
das
formulações
de
Adler
e
Jung,
concebendo
uma
libido
dessexualizada e reconhecendo o condicionamento do mito psicanalítico pela forma
como se organiza a sociedade.
Esse entendimento o faz considerar a psicanálise como a
psicologia do seu tempo, diferenciando-se das outras escolas de psicologia dinâmica por
seu antidogmatismo e flexibilidade, apostando na capacidade desta em se recompor com
as dissidências mediante a reelaboração dos seus conceitos.
O aspecto fundamental da proposta metodológica de Ramos consiste em procurar
aproximar,
o método histórico cultural do exame do psiquismo humano. A sua hipótese
é de que a constituição da cultura e a formação do psiquismo estão associadas no tempo
e espaço e que o estudo da cultura necessita ter o homem como aspecto central, porem
concebido no sentido grupo=>individuo e não no sentido inverso. Afirma que o seu
conceito de inconsciente folklorico baseia-se no entendimento de que o psiquismo
individual existe assentado na dimensão coletiva do psiquismo. Segundo a antropóloga
Luitgardes
de Barros em seu livro
Arthur Ramos e as Dinâmicas Sociais
(2000) diz
que o autor
considera nessa formulação
a transição que ocorre no sistema de crenças
das camadas pobres e negras do Brasil
( LUTIGARDES in RAMOS 2001, pg 337 a
342
).
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Essa problemática da relação do particular e do universal como componente do processo
de individuação e presente em diferentes níveis da sociedade brasileira no período,
aparece também em artigo publicado no primeiro numero da
Revista Medica da Bahia
de junho de 1933 da qual Ramos era redator:
“O defeito essencial de todos os problemas brasileiros é a falta de
continuidade. Nessas bruscas soluções que se estabelecem fazemos
em regra tábula rasa de tudo o que anteriormente se veio conquistando
com árduo e tenaz esforço. Há um falso sentido de individualismo que
sacrifica a obra de conjunto, de série de continuidade, a um ideal
instável de realização personalíssima, que não constrói, mas antes se
torna um fator dispersivo de atividade improfícua. .
... O cientista
brasileiro é ainda uma espécie de sibarita intelectual fechado ao que
lhe passa ao redor, no tempo e no espaço, surdo à contribuição que ele
considera humilde e inapreciável, do pequeno estudioso distante
avesso a um sentimento de comunidade, de cooperação, no seu sentido
mais largo sem o qual a ciência não sobreviverá ( RAMOS, 1933 ) .
Essa constatação serve para ilustrar de um lado que os dilemas enfrentados pela Nação
no sentido de superar os seus obstáculos, teria analogia com as questões que enfrentam
os indivíduos no sentido de ampliar o grau de liberdade nas suas disposições internas,
bem como inserir-se em círculos mais amplos que lhe assegure maior grau de
autonomia. Ao mesmo tempo encontramos nesses elementos a indicação da fecundidade
da hipótese de trabalho de Ramos e do seu conceito de inconsciente folclórico, como
instrumento original capaz de captar a dinâmica da
cultura brasileira em sua dimensão
coletiva e individual.
Ramos reconhece que em relação a busca de autonomia do individuo o inconsciente
folklorico transforma o processo de individuação em um movimento lento, com
resultados que se dissolvem no ar. No momento da expressão do seu conteúdo, o
individuo não se pertence, pois é tomado pelo seu dinamismo e volta a identificar-se
com a espécie sendo conduzido pelo coletivo. A mentalidade pré-lógica convive
cotidianamente com a mentalidade lógica, nos atos da vida cotidiana, na maneira de
pensar e agir, nos costumes, nas instituições populares, nos contos, nos provérbios entre
outras manifestações (RAMOS Arthur, 2001:cap. IX
)
). Apoiando-se na experiência da
diáspora africana, afirma que em relação aos africanos escravizados, o produto do
inconsciente folclórico foi a válvula de comunicação com a civilização branca:
os
negros
aproveitaram-se
das
instituições
aqui
encontradas
e
canalizaram
seu
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inconsciente ancestral, nos autos europeus, nas festas, no carnaval, na praça
(
RAMOS,1935 pg 256 a 258).
Assim, estabelece que, para o entendimento do espírito humano, a Psicologia Individual
deve estar associada a Psicologia Coletiva e Étnica.
No que se referente às relações do inconsciente folclórico com o corpo, Arthur Ramos
valoriza a mediação das emoções, desenvolvendo essa tese no trabalho
O conceito de
Totalidade e a noção de arcaico em Patologia Menta
l (RAMOS,1934, pg 13) . Nesse
texto a questão do sentido, que ele já havia restabelecido no campo das psicoses é
recuperada agora na noção de organismo humano, que é construída a partir do critério
da totalidade. Essa síntese é possível mediante a contribuição dos neo-vitalistas
alemães, da patologia constitucional, das pesquisas sobre hereditariedade e constituição,
da patologia chromosomal, assim como do campo da psicopatologia, e da psicologia
com a reflexologia soviética, o behaviorismo americano, o personalismo de Stern, a
Gestalt dos formalistas, e a psicanálise.
O corpo, está aí envolvido em uma relação biunívoca com a personalidade
o que coloca
em pauta a questão do sentido. Nesses termos o psiquismo não se localiza apenas no
cérebro, mas se dissemina por todo o corpo: nos genes, na maquinaria celular e nos
órgãos. Por outro lado os ritmos fisiológicos (cardíacos, respiratório, digestivo),
contribuem para a formação da personalidade. É a vida vegetativa que, por seu vinculo
com a afetividade, dirige nossa personalidade.
Dessa forma considerando o conceito de inconsciente folclórico, a Psicologia da
Afetividade é considerada mais importante que a psicologia abstrata para a investigação
da vida anímica.
Por fim Arthur Ramos considera que a psicologia social, para não se limitar a uma
psicologia social descritiva superficial, deve tomar o inconsciente folclórico como
objeto e efetuar a análise das categorias pré-lógicas de um ciclo de cultura. Trata-se de
um campo onde se encontram a metodologia da antropologia cultural, da psicanálise e
da
gestalt
, que por sua mobilidade conduzirão possivelmente a uma unificação dos
diversos critérios metodológicos da sociologia (RAMOS,1935, pg 256 a 259).
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Nesse trabalho apresentamos o Inconsciente folklorico como conceito teórico que
articula dois campos de conhecimento para examinar o homem brasileiro e a realidade
do
Brasil:
primeiro o Culturalismo,
que
é
introduzido
no
Brasil,
através
das
contribuições das escolas de Levy Brhul e de Franz Boas, e de outro a Psicanálise e
outras escolas de psicologia dinâmica, o que lhe vai permitir
pensar o momento e as
perspectivas da sociedade brasileira, cujo passado colonial reunira em situações muito
diversas, brancos, negros e índios, a quem foram ajuntados mais contemporaneamente
outros grupos de brancos e asiáticos.
Conclusão
Ao tempo em que reconhecemos as definições de inconsciente de Freud e de Lacan
como mais amplas, devemos reconhecer o valor do conceito do Inconsciente Folclórico
de Arthur Ramos . Por um lado porque não houve outro teórico brasileiro que tenha
proposto algum estudo significativo sobre o
conceito e por outro porque sob a luz de
várias outras teorias sociais o conceito de Ramos é significativo aquelas disciplinas, que
interagem com a psicologia, psiquiatria, psicanálise, etnologia, arqueologia, sociologia e
historia entre outras. Tal fato coloca o seu exame exaustivo no plano de uma verdadeira
cartografia do saber de sua época.
No entanto a questão principal que norteia esse trabalho é indagar a partir da posição
que assumimos hoje no campo psi,
acerca
das possibilidades e pertinência do
Inconsciente Folclórico em relação ao campo da psicanálise. Em outras palavras:
a que
historia nos remete essas experiências e inflexões que a doutrina psicanalítica vem
apresentando no âmbito do espaço e tempo que o seu próprio corpo de adeptos
representa?
Em que medida tais reflexões podem subsidiar estudos e questões que se
colocam entre a subjetividade e a sociedade? É possível pensar no plano teórico na
existência de um inconsciente pós colonial?
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RAMOS, Arthur. Bahia Medica: ano II, nº 9; ano III, nº 10, 14, 17, 15, 16; ano IV, nº1.
RAMOS, Arthur. Revista Medica da Bahia: de junho de 1933 a julho de 1939.
1
Doutora em Comunicação Social –ECO UFRJ , Professora Titular do Programa de Pós Graduação em
Psicologia Social-UERJ.
2
Doutorando do Programa de Pós Graduação em Psicologia Social-UERJ.
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