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FOLKCOMUNICAÇÃO: INTERPRETAÇÃO DE LUIZ BELTRÃO SOBRE A
MODERNIZAÇÃO BRASILEIRA
1
Yuji Gushiken
2
Resumo
Este
artigo
busca
relacionar
a
folkcomunicação,
perspectiva
teórica
formulada
originalmente pelo jornalista e pesquisador brasileiro Luiz Beltrão, e a modernização
socioeconômica do Brasil em meio ao desenvolvimento do capitalismo histórico. Busca
enfaticamente analisar o conceito de folkcomunicação enunciado na tese de 1967 e os
paradoxos do enquadramento de objetos folkcomunicacionais proposto por Beltrão nas
condições históricas da modernização nacional em que o conceito é formulado. Baseia-
se em pesquisa bibliográfica da obra original de Beltrão e de pesquisadores que hoje
desenvolvem os novos rumos que a disciplina vem tomando na comunidade de ciências
da comunicação no Brasil e na América Latina.
Palavras-chave
Folkcomunicação; modernização; folclore; Luiz Beltrão.
Abstract
This study seeks to establish a relationship between folk-communication, a theoretical
perspective originally formulated by the Brazilian journalist and researcher Luiz
Beltrão, and the socio-economic modernization of Brazil in the midst of the historical
capitalist development. The focus is on the analysis of the folk-communication concept
as stated in the 1967 thesis and the paradoxes of the characterization of folk-
communicational objects proposed by Beltrão within the historical conditions of
Brazilian modernization in which the concept is formulated. The study is based on a
bibliographical survey of Beltrão’s original work as well as current research which is
developing into new branches that this field has taken within the communication
sciences community in Brazil and Latin America.
Keywords
Folk-communication; modernization; folklore; Luiz Beltrão.
Resumen
Este artículo procura relacionar la folk comunicación, perspectiva teórica relacionada
por el periodista brasileño Luiz Beltrão, y la modernización socio económica brasileña
dentro del desarrollo del capitalismo histórico. Busca el análisis enfático del concepto
de
folk
comunicación
enunciado
en
la
tesis
de
1967
y
de
las
paradojas
del
encuadramiento en los objetos folk comunicativos propuestos por Beltrão durante las
condiciones históricas de la modernización nacional en que el concepto es formulado.
Se basa en la pesquisa bibliográfica de la obra original de Beltrão y de los pesquisadores
que hoy analizan los nuevos rumbos que la disciplina va tomando en la comunidad de
las ciencias de la comunicación en Brasil y por América latina.
Palabras clave
Folk comunicación; modernización; folclor; Luiz Beltrão.
RAZÓN Y PALABRA
Primera Revista Electrónica en América Latina Especializada en Comunicación
www.razonypalabra.org.mx
Introdução
Uma das questões fundamentais na atribuição de valor científico à folkcomunicação,
como disciplina no campo maior das ciências da comunicação, é o fato de ela se
constituir como perspectiva teórica que enfatiza as transformações pelas quais passava a
cultura popular,
em
especial o folclore,
em
suas relações
com
o
processo
de
modernização de um país latino-americano como o Brasil.
Quando
Luiz
Beltrão
analisou as dimensões comunicacionais no folclore brasileiro, em especial a partir de
suas observações sobre o folclore nordestino, pelos idos da década de 1960, aconteceu
de as tradições culturais já serem, desde aquela década, capturadas e arrastadas pelo
mais intenso processo de modernização por que passava – e ainda passa, continuamente
– a sociedade brasileira, de modo enfático a partir da primeira metade do século XX.
Na definição original de Luiz Beltrão, folkcomunicação designa “o processo de
intercâmbio de mensagens através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao
folclore e, entre as suas manifestações, algumas possuem caráter e conteúdo jornalístico,
constituindo-se em veículos adequados à promoção de mudança social”. (BELTRÃO:
2001, p. 73) A percepção de uma dimensão comunicacional na dinâmica das culturas
populares, segundo a perspectiva teórica proposta por Luiz Beltrão, sugere considerar
dois momentos nessa relação entre folclore e as transformações socioeconômicas
forçadas pela modernização do país.
Primeira consideração: no caso brasileiro, a cultura popular, em sua vertente tradicional,
se refere a uma cultura protagonizada eminentemente pelos segmentos sociais que
vivem à margem dos benefícios da modernização. São segmentos que fazem de suas
práticas culturais cotidianas um modo de expressar idéias e opiniões sobre a realidade
social.
Trata-se
de
uma
condição
da
subjetividade,
o
que
inclui
a
existência
socioeconômica, em que as práticas culturais, de forma tática, transformam-se em
ferramentas de comunicação em dois níveis: troca de informações entre membros das
camadas populares e entre essas camadas populares e a totalidade social.
Em outras palavras, a folkcomunicação aponta para a troca de informações entre
membros do mesmo grupo social, num primeiro momento, e entre grupos sociais
distintos, num segundo momento. Portanto, consideram-se as práticas populares de
produção de linguagem – no artesanato, nos jogos, nas diversões, nos eventos festivos e
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outras tantas formas de manifestações populares – como um modo de produzir sentido e
reinventar as vinculações sociais, em nível comunitário e entre as comunidades e a
sociedade em geral. Na perspectiva da folkcomunicação, a cultura é considerada como
ambiente de produção, circulação e consumo de informações. É a condição ambiental de
produção de sentido que viabiliza a dimensão comunicacional das práticas folclóricas.
Segunda consideração: não conceber o mundo cultural das camadas populares como
uma
totalidade
fechada,
mas
que
esse
mundo
mantém
uma
relação
social,
invariavelmente tensa, com outras esferas sociais, seja na relação entre grupos ou
classes sociais. O momento mais significativo desta relação social, como já apontava
Luiz Beltrão ao visualizar o fenômeno da folkcomunicação, são os processos de
tradução
de
linguagem
como
experiência
comum
simultaneamente
às
camadas
populares e às elites através do acesso às informações da comunicação de massa,
principalmente os veículos impressos e eletrônicos mais consumidos a partir da década
em que o conceito foi enunciado (jornais, rádio e TV aberta).
Esses processos de tradução são mediados pela interpretação e recodificação dos
agentes populares, primeiramente em nível comunitário. É o caso em que a cultura
tradicional torna-se mediação na qual os segmentos populares produzem recursos
cognitivos para minimizar o estranhamento diante das distintas linguagens apresentadas
no processo de modernização. Entre as décadas de 1960 e 1980, a modernização
capitalista no Brasil incluía a emergência e consolidação dos sistemas midiáticos
massivos – imprensa, rádio e TV – e seus conteúdos variados.
Essas linguagens, como apontou Beltrão, provêm não apenas dos modernos meios de
comunicação massivos, mas também dos ambientes eruditos, sendo que ambos se
apresentam
como
a
produção
discursiva
dos
setores
elitizados,
cultural
ou
economicamente, da sociedade nacional. As elites se apresentam como as alteridades
sociais que se aproximam dos setores populares e produzem um mal-estar na vida
moderna, na medida em que dois mundos – desiguais economicamente e diferentes
culturalmente – se encontram, promovem atritos cognitivos, mas que, na invenção de
um mercado nacional de bens simbólicos, buscam produzir sentido em comum.
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O popular na modernização brasileira
Duas
dimensões
constituem
a
experiência
de
modernidade
no
Ocidente:
o
industrialismo e o capitalismo. Industrialismo se refere às relações sociais implicadas no
uso generalizado da força material e do maquinário nos processos de produção.
Capitalismo é um sistema de produção de mercadorias que envolve tanto mercados
competitivos de produtos quanto a mercantilização da força de trabalho (GIDDENS:
2002, p. 21). Industrialismo, portanto, se aproxima e se confunde com o processo de
modernização socioeconômica, principalmente em sua versão capitalista. Como já
apontava
Anthony
Giddens,
a
modernidade
“produz
diferença,
exclusão
e
marginalização” (GIDDENS: 2002, p. 13).
Na transição da década de 1960 para a de 1970, época em que a folkcomunicação era
gestada como disciplina, o Brasil experimentava seu processo de modernização na
condição de país “terceiro-mundista”. Como aponta Marcelo Ridenti, a urbanização era
crescente, os movimentos de esquerda pretendiam mudar a história. O modelo do
“homem novo”, no entanto, estava idealizadamente no passado, num autêntico “homem
do povo”, com raízes rurais, do interior, do coração do Brasil e supostamente não
contaminado pela modernidade urbana capitalista, o que permitiria uma alternativa de
modernização que não implicasse a desumanização, o consumismo, o império do
fetichismo
da
mercadoria
e
do
dinheiro”.
(RIDENTI
in
BASTOS,
RIDENTI,
ROLLAND: 2003, p. 199)
Não por acaso, conforme as idéias que constituíam o imaginário modernizador da
época,
a
folkcomunicação
foi
concebida
conceitualmente
na
perspectiva
dos
intercâmbios entre distintos segmentos sociais, que produziram e tiveram diferentes
condições de acesso aos benefícios do mundo moderno. Contudo, a folkcomunicação
não
necessariamente
considerou um
“homem
do
povo”
idealizado, sem
estar
subjetivado pelo capitalismo. De modo realista, considerou um homem do povo que
afeta e é afetado por distintos sistemas socioeconômicos e simbólicos no processo de
modernização do país, o que inclui necessariamente a lida com os sistemas de mídia
industrial oriundos da própria modernização capitalista que se apresenta cotidianamente
aos homens comuns como receptores ou consumidores de produtos culturais.
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Na folkcomunicação, o processo tradutório entre linguagens de distintos padrões
culturais é uma demanda comunicacional que emerge diante dos processos de distinção
social historicamente produzidos num país de modernização ambígua como o Brasil. As
distinções sociais tornavam-se cada vez mais visíveis no processo de modernização do
país: de um lado, a elite culta; de outro, a massa de iletrados, onde se incluía o já não
mais idealizado “homem do povo”.
Nessas condições históricas, em que há diferentes formações culturais em conflito no
espaço nacional, Luiz Beltrão apontou, numa perspectiva teórica original, os primeiros
indícios de que havia, nos segmentos populares, um modo peculiar de produzir, fazer
circular e consumir informações através dos usos de seu próprio repertório cultural,
tendo como base as práticas folclóricas. Convém lembrar que, no caso do Brasil, cultura
tradicional, incluindo o folclore, tem como referência a cultura da classe trabalhadora,
embora, por motivos históricos, que incluía a repressão política do regime militar no
país, Beltrão evitasse a abordagem de classe social de forma explícita.
Para os setores populares, a cultura é usada simultaneamente como meio e ambiente
para inventar processos comunicacionais possíveis, lançando mão de recursos de
linguagem não apenas da escrita ou de modernas tecnologias midiáticas, mas de
recursos oriundos das mais variadas práticas de linguagem: oral, visual, sonora, tátil. Os
usos da cultura, em especial da cultura tradicional – como produção de sentido para
invenção de processos comunicacionais – ampliam, e por isso mesmo confundem, o que
se entende modernamente como comunicação social.
Era preciso considerar, por conta das distinções socioculturais, que a designação de
comunicação social, reduzida às modernas práticas midiáticas da indústria cultural não
dava
conta
de
enquadrar
as
práticas
comunicacionais –
não
necessariamente
midiatizadas – dos segmentos populares, embora o que se designa por folkcomunicação
seja o intercâmbio de mensagens entre cultura popular e cultura de massa.
O processo de modernização, no seio das culturas tradicionais populares, supõe
considerar um tipo de transformação no folclore que se resume a uma linha divisória
próxima
de
um
evolucionismo
técnico-científico:
as
práticas
midiáticas,
mais
precisamente o consumo e o uso de modernas tecnologias midiáticas, se atualizam numa
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espécie de axioma que passa a produzir a existência dos demais processos de produção
simbólica a partir da emergência de um pensamento – racional, pragmático, teleológico
– ao qual nada mais consegue escapar no bojo da civilização ocidental moderna e
capitalista.
Esta tem sido a perspectiva de uma sociologia da comunicação que enfatiza a primazia
da tecnologia midiática como produto de uma modernização avassaladora, com suas
benesses na constituição da civilização ocidental e caracterizando-se por sugerir o
protagonismo da história às elites tecnocientíficas e econômicas que hipoteticamente
são o fundamento dos processos de modernização. O que a folkcomunicação sugere, em
sua singularidade teórica, é atribuir protagonismo à outra margem social, com suas
histórias ordinárias do mais banal cotidiano, o que inclui as pessoas comuns, aquelas
que não necessariamente fazem parte da elite que produz a margem mais dinâmica e
suntuosa da vida moderna.
A moderna comunicação de massa historicamente arrasta, conforma e molda a produção
de sistemas simbólicos em geral, o que inclui necessariamente as tradições, na medida
em que constitui um processo no qual a produção cultural se expande espacial e
temporalmente para além de seu território geográfico já historicamente demarcado
como lugar de memória. Práticas midiáticas – da comunicação de massa, passando pela
cultura das mídias à cibercultura – podem ser entendidas como modernização dos
diversos ambientes culturais. Numa perspectiva comunicacional, o valor de uso dos
produtos culturais e das práticas sociais tradicionais passa, de forma abrupta, ao seu
valor de troca. Fora dessa perspectiva comunicacional, as tradições passam por um lento
processo de desaparição num mundo encantado hoje em dia não mais apenas por
sonoridades de cirandas e relatos de causos contados nas calçadas das hinterlândias
brasileiras, mas por múltiplas narrativas que incluem os processos massivos do rádio e
da TV, as práticas da cultura das mídias e da cibercultura.
Em meio ao desenvolvimento tecnológico das práticas midiáticas, a folkcomunicação é
uma perspectiva teórica em que as práticas sociais e culturais folclóricas funcionam
como produtoras de sentido, principalmente para comunidades que cultivam, em maior
ou menor intensidade, práticas tradicionais. Nessa condição, essas práticas populares
medeiam a reprodução de outros sistemas sígnicos: da mídia de massa e dos textos
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eruditos. Ou seja, tais práticas populares dotam-se de uma dimensão comunicacional,
como sugere Luiz Beltrão. É essa caracterização comunicacional que nos dias de hoje
coloca os sistemas simbólicos – incluindo, portanto, o folclore – não apenas em
movimento,
mas
dota
tais
sistemas
simbólicos
de
um
movimento
acelerado,
compreendido aqui como o próprio ritmo do tempo moderno em sua profusão, até
mesmo incessante, de linguagens variadas e seus múltiplos códigos.
A modernização apresenta-se, no desenvolvimento histórico, como uma experiência de
tempo em que a paisagem cultural torna-se movimentada pelo atravessamento de muitas
outras
narrativas
possibilitadas
ou
dinamizadas
pela
industrialização
da
cultura
principalmente ao longo do século XX. Na modernização, na medida em que é
confundida com uma concepção endógena e ocidental de Modernidade (TOURAINE,
1994:
p.
19),
processos
comunicacionais
são
compreendidos
como
processos
midiatizados, ou seja, produzidos pela mídia de caráter industrial. A cultura, na medida
em que se torna uma cultura midiatizada ao longo do século XX, dota-se assim de uma
dinâmica de auto-transformação própria do discurso que caracteriza a modernização
tecnológica, a massificação do consumo de informações e a centralização da produção
discursiva em instâncias empresariais.
Nessas condições, mantendo o foco no pensamento de Luiz Beltrão, folkcomunicação
aponta a dinâmica do processo que faz a modernização do mundo atravessar e subjetivar
as
práticas
folclóricas,
sendo
os
produtos
da
vida
moderna
simultaneamente
reproduzidos na releitura que os sistemas folclóricos fazem dos produtos culturais da
cultura moderna. O folclore, com suas virtualidades comunicacionais, é a ambiência
primordial que confere à folkcomunicação uma singularidade como processo de
produção simbólica nas transformações socioeconômicas da vida moderna. Como
memória das tradições herdadas, o folclore é arrastado para o presente pelos processos
midiáticos e atualizado na medida em que simultaneamente atravessa e é atravessado
pelos processos comunicacionais midiatizados.
Ao longo do século XX, a cultura de modo geral torna-se enfaticamente uma cultura
midiatizada
com
a
emergência,
consolidação
e
expansão
dos
processos
comunicacionais, principalmente os de produção em massa. A força do processo de
tecnificação arrasta praticamente todos os setores da vida que se pretende moderna, o
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que inclui o mundo do trabalho, as relações sociais e também os processos de
midiatização que transformam não apenas o que se entende por comunicação, mas ainda
o que se entende por cultura no bojo da midiatização do mundo contemporâneo.
Folkcomunicação, como contraponto sugerido por Luiz Beltrão, aponta para o momento
histórico em que a cultura popular brasileira, com ênfase no folclore, fornece as
condições
simbólicas
para
amplos
setores
populacionais
produzirem
modos
de
expressar opiniões e idéias através de suas práticas culturais, ou seja, usar os processos
socioculturais como meio e ambiente para decodificar e fazer circular informações de
outros ambientes socioculturais. Folkcomunicação, portanto, emerge como disciplina na
condição de uma virtual interculturalidade nos interstícios da própria sociedade
nacional, considerando as diferenças sociais decorrentes da formação histórica do
estado-nação brasileiro.
O parâmetro teórico de Beltrão eram as pesquisas oriundas da psicologia e da sociologia
americanas, a
mass communication research
que em certa medida forneceu boa parte do
que hoje se entende como história das teorias da comunicação (DeFLEUR, BALL-
ROKEACH, 1993; WOLF, 1995; BRETON, PROULX, 1997; MATTELART &
MATTELART,
1997;
TRINTA,
POLITCHUK,
2003).
O
detalhe
é
que,
no
desenvolvimento desse campo de estudos, a comunicação, ao tornar-se industrialmente
midiatizada, passou historicamente de uma caracterização interpessoal e comunitária
para uma produção tecnificada e massificada ao longo do século XX. A modernização
industrial e as transformações midiáticas, portanto, tenderam a reduzir o conceito de
comunicação
às práticas
representadas
pela
mídia de massa, caracterizadamente
industrial. Nessa conjuntura do século XX é que a folkcomunicação, concebida
teoricamente por Luiz Beltrão, designa a mediação dos sistemas culturais populares em
nível interpessoal e comunitário na reprodução dos sistemas de comunicação de massa.
Portanto, ao fazer um contraponto teórico à
mass communication research
, a abordagem
da folkcomunicação proposta por Luiz Beltrão reinstala na pesquisa em comunicação as
práticas comunicacionais de caráter interpessoal e comunitário não necessariamente
midiatizadas, embora invariavelmente sejam atravessadas pelo discurso da mídia de
massa. A folkcomunicação, ao considerar a comunicação interpessoal e comunitária,
tendeu a ampliar o campo comunicacional que até então vinha se configurando
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cientificamente pela adoção de um conceito de comunicação relacionado de forma
reduzida à hegemonia da mídia industrial na constituição do imaginário moderno.
Em sua tese, defendida em 1967, Beltrão parte da hipótese, segundo a qual havia,
metaforicamente, uma prática jornalística e opinativa em práticas sociais da cultura
popular brasileira. Sistemas de opinião, que supostamente seriam produzidos apenas
pelas elites letradas e de formação erudita, também eram visíveis em processos culturais
populares. Como exemplo, ele cita as sátiras socioeconômicas e políticas entranhadas
em manifestações como o bumba-meu-boi, folguedo típico do folclore nordestino, no
qual a multidão de anônimos ironiza figuras como a do senhor de engenho, na
conhecida tensão de classe social, e mesmo de figuras como a do “doutor” e do
engenheiro funcionalmente a serviço do poder.
Beltrão
visualiza
metaforicamente
uma
espécie
de
jornalismo
opinativo
nessas
manifestações da cultura popular, partindo dos preceitos de Paul Lazarsfeld sobre a
existência de líderes de opinião que medeiam a circulação e o consumo de informações
da grande mídia, fazendo o papel de intérpretes e reprodutores da informação da mídia
massiva. Com base na conhecida hipótese do
two-step flow
, de Lazarsfeld, Luiz Beltrão
sugere uma dinâmica em duas etapas no processo de comunicação em que personagens
comuns da cultura popular brasileira também medeiam, em nível comunitário, a
informação de fontes como a mídia de massa, e as traduzem em manifestações como
literatura de cordel, artesanato, músicas, folguedos e outras formas de expressão
populares.
Assim, Beltrão parte da pesquisa em comunicação de massa, originada como ciências
sociais aplicadas nos EUA, para aplicá-las na singularidade do espaço socioeconômico e
cultural
brasileiro.
A
cultura
popular,
embora
constituinte
dos
segmentos
economicamente subalternos, é permeada de crítica social que, em graus diversos,
sugere uma produção de opinião das massas populares sobre acontecimentos políticos e
situações econômicas que incidem diretamente no cotidiano das pessoas comuns.
A diferença é que os sistemas populares de produção de opinião são invariavelmente,
pelo menos na catalogação feita por Beltrão, produzidos em nível interpessoal e
comunitário. Beltrão se refere a práticas sociais de cantadores, artesãos, músicos,
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prosadores e a espaços de sociabilidade como praças e feiras onde o mais comum dos
mortais participa dos sistemas de informação não como espectador, mas como “ator
social”. Trata-se, portanto, de enfatizar sistemas de comunicação interpessoal e
comunitário, ou seja, não massivos, embora os sistemas populares sejam mediadores do
discurso
da
mídia
massiva,
o
que
é
uma
das
caracterizações
dos
processos
folkcomunicacionais. (BELTRÃO, 2001)
A metáfora do jornalismo popular, as mediações entre cultura erudita e popular, o
distanciamento entre elites e massas, as transformações sociais necessárias em função
desta distinção: estes são itens aos quais Luiz Beltrão recorre para construir a relação
entre
comunicação
e
cultura
como
elementos
fundamentais
no
processo
de
desenvolvimento social do país. O ambiente folclórico, marcado pela repetição das
manifestações tradicionais, passa a se relacionar intensamente com a midiatização do
mundo moderno que se anuncia com o desenvolvimento da imprensa e a emergência do
rádio (anos 20) e da TV (anos 50), ou seja, o processo de instituição política e
econômica dos sistemas de comunicação de massa eletrônicos do século XX.
“As fronteiras culturais são abolidas no mercado comum das mass-media” afirmaria, na
mesma época, Edgar Morin (1975: p. 33). Em seguida, diria o mesmo autor: “A cultura
industrial é o único grande terreno da comunicação entre as classes sociais” (MORIN,
1975: p. 33).
Massivo e popular: Paradoxos de um objeto folkcomunicacional
Na sistematização de processos folkcomunicacionais enumerados na tese de 1967, Luiz
Beltrão
enquadra
em
sua
maioria
processos
culturais
populares
que
tornam-se
mediações nas quais os sistemas massivos ou eruditos são recodificados
pela
e
para
as
comunidades tradicionais em meio à sua condição de massa populacional. No entanto,
entre uma maioria de meios de expressão de caráter interpessoal e comunitário do
folclore, Beltrão inclui os chamados almanaques no item “informação escrita”. O
detalhe é que havia almanaques, de ampla distribuição no Brasil, com tiragens de 2
milhões de exemplares, caso do Almanaque Brasil, em 1941, chegando a 3 milhões de
exemplares em 1952. (BELTRÃO, 2001: p. 196)
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Ou seja, ao enunciar sua tese, Beltrão precisou lidar metodologicamente com a ainda
imprecisa natureza do processo que ele começava a designar por folkcomunicação: se a)
uma dimensão comunicacional em práticas folclóricas como meios de expressão
popular ou b) se um consumo de outras mídias já em fase de massificação como o
demonstram as tiragens dos almanaques. O dado relevante é que a natureza dos
processos nomeadamente folkcomunicacionais carregam essa dubiedade em função das
transformações por que já passava a sociedade brasileira ao longo do século XX,
incluindo a massificação midiática, o aumento na capacidade de consumo de produtos
de uma indústria cultural emergente e maior amplitude no hábito de leitura por parte da
população.
A leitura de almanaques – alguns mais sofisticados, outros menos, do ponto de vista da
produção gráfica – pode ser considerada indício de um país em transformação
socioeconômica e cultural. Os almanaques eram editados artesanalmente por indivíduos
e
pequenas
gráficas
particulares,
mas
também
por
empresas
jornalísticas
e
de
publicidade
e,
ao
modo
de
ferramentas
de
relações
públicas
e
comunicação
organizacional, por laboratórios de produtos farmacêuticos e de outros ramos da
indústria.
Distribuídos gratuitamente, tinham variedade de temas, tratamento leve para
o conteúdo, emprego de recursos intelectuais e gráficos com objetivo de entretenimento
e educação do espírito. (BELTRÃO, 2001: p. 176-177)
Os objetos dos estudos folkcomunicacionais, portanto, nasceram com essa dubiedade,
pois o próprio conceito de folkcomunicação sugeria os paradoxos da modernização
experimentada
pela
sociedade
brasileira.
Ao
elaborar
o
que
seriam
as
práticas
folkcomunicacionais, Beltrão enquadra o folclore como modo de expressão popular,
com alguns atributos: a coletividade anônima não como espectadora, mas como
participante e produtora de informações, inventora de linguagens, embora considerasse
que as manifestações folclóricas, como sistemas de opinião e crítica social, vinham
evidentemente atravessadas pela informação da mídia de massa. Tratava-se, portanto,
como o próprio Beltrão interpretava e enfatizava, de um processo de intercâmbio entre
dois
sistemas
socioculturais
distintos
formados
por
uma elite
com
desempenho
linguístico (leitura, principalmente) e uma massa com desempenho semiótico de outras
linguagens
(sonoras,
visuais,
aromáticas,
gestuais,
coreográficas,
ou seja, outros
saberes, outras epistemes).
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Em outra concepção, Beltrão, ao incluir os almanaques já de consumo massificado no
Brasil como “meios de expressão popular”, indica outro caminho: o do consumo,
prática socioeconômica que não sugere produção de informações pelas coletividades
anônimas, mas, ao contrário, sugere a recepção de informações produzidas e dirigidas
pela elite empresarial ao perfil médio das massas. A leitura de almanaques, distribuídos
gratuitamente, sugere, portanto, um meio de expressão popular, mas de produção
centrada em poucos e direcionada a muitos – o que já era característica da comunicação
de massa, modelo comunicacional a partir do qual a folkcomunicação se distingue
produzindo sua singularidade como modelo comunicacional e perspectiva teórica.
O almanaque como item folkcomunicacional, no entanto, é indicativo de um Brasil
onde a leitura tornava-se um fenômeno sociocultural emergente e um modo de imersão
da
sociedade
civil
na
experiência
da
modernidade
cultural
e
da
modernização
econômica e industrial. Na interpretação de Luiz Beltrão, como se pode inferir de seu
texto produzido em 1967, a prática de leitura se anunciava como elemento constituinte
do processo de desenvolvimento de um país marcado historicamente pela assimetria no
acesso aos benefícios da modernização.
No capitalismo que se transforma, e com ele a estrutura social, a folkcomunicação
também indica as transformações do que se compreende como prática comunicacional,
seja ela midiatizada industrialmente ou não. Nessas condições mutantes, sob pressão do
processo modernizador, Luiz Beltrão optou por ampliar o enquadramento dos objetos
folkcomunicacionais,
na
medida
em
que
resolve
incluir
os
almanaques,
de
características industriais e de produção centrada em poucos, na tipologia folkmidiática
que
mais
tarde
seria
revisitada
por
outros
pesquisadores
que
desenvolveram
a
folkcomunicação como disciplina.
O almanaque, como “meio de expressão”, não era reconhecidamente industrial, pois
havia, na época, títulos caracterizadamente artesanais, embora já de circulação massiva.
Por outro lado, almanaques também não eram exatamente produzidos no âmbito do
folclore, mas pensado para abarcar a média cognitiva que permite conectar os homens
comuns através de um “meio de expressão” que começa a se insinuar, num processo
evolutivo, como mídia de massa e, portanto, de apelo popular no plano do consumo
massificado.
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A leitura de almanaques como indicador de uma prática de leitura que se torna visível
num
país
historicamente
marcado
por
altos
índices
de
analfabetismo
pode
ser
considerado um ponto positivo no desenvolvimento nacional, pela ampliação de uma
massa de leitores, cuja instrumentalização para leitura é o que tornaria mais acessíveis
informações do mundo moderno, incluindo educação científica, à população em geral.
Porém, o conteúdo voltado para curiosidades em geral, ao ter como parâmetro o
conhecimento médio do leitor, tenderia a fazer do almanaque, como emergente mídia de
massa, uma ferramenta de mero entretenimento, caracterização que hoje tipifica a mídia
industrial.
Leitores médios, espectadores médios. Era do “homem médio”, que hipoteticamente
busca se beneficiar do mundo moderno, mas sem participar efetivamente desta condição
da vida social, é que se ocupava outro intérprete da modernização que é o filósofo
espanhol José Ortega y Gasset (1987). Se por um lado a leitura de almanaques sugeria
um país que saía, ainda que lentamente, das margens do analfabetismo, convém anotar
que historicamente a produção desse leitor e espectador médio é que se tornou, ao longo
da história da pesquisa em comunicação, pelo menos no Brasil, alvo de vários estudos
sobre comunicação e ideologia que visaram, acima de tudo, demonstrar como essa
versão liberal da democracia é que produziu, em outros momentos, o que os críticos
chamam
de “analfabetos
funcionais”
e
“analfabetos
políticos”,
cujas
condições
socioeconômicas e culturais tornaram o jogo das desigualdades sociais mais perverso
para a imensa massa populacional enquadrada nessas categorias.
Ao invés de insistir nessa linha evolutiva, o que o colocaria na já antiga visão de
comunicação como ciência do comportamento em busca da mídia modernamente
eficiente
3
, Beltrão parece repensar e retornar com mais ênfase, ainda no texto de 1967,
ao que é a singularidade do seu trabalho como pesquisador e inovador teórico: o folclore
como ambiência ou intermediação entre os sistemas de mídia industrial e as massas
populacionais, tendo como protagonistas não editores e jornalistas formais, mas
cidadãos
comuns
das
comunidades
que
cultivam
as
tradições,
aparentemente
distanciados da vida moderna que se apresenta no Brasil à altura da segunda metade do
século XX.
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Beltrão optou por acentuar o recorte do objeto folkcomunicacional no folclore como
mediador das informações da mídia industrial e no protagonismo do homem comum
como produtor de mensagens, portanto, como ator social que deixa sua marca de
linguagem no processo histórico – embora essa linguagem não seja exatamente aquela
formal, escrita, que obedece às normas-padrão dos ambientes eruditos. A nosso ver, a
ênfase nesse recorte incisivo sobre a cultura popular como modo de expressão confere a
maior singularidade à obra teórica de Beltrão, uma vez que o roteiro de sua tese tem o
vigor de dar visibilidade exatamente a atores da camada social que invariavelmente,
diante das chamadas “grandes narrativas” da modernidade, não são apresentados como
sujeitos constituintes da história. O folclore, como mediador das linguagens do mundo
moderno, tem o vigor de permitir a inscrição de um discurso popular em seus próprios
modos de se reinventar o mundo em que se vive.
Como mediadora entre o mundo moderno e as massas populares, a cultura popular, ou
mais precisamente o folclore, como anota Beltrão, ganha nova dinâmica. Insistindo em
não ser letra-morta, o folclore torna-se o ambiente que permite a tradução intersemiótica
e a reprodução das mais variadas linguagens pelos segmentos que não necessariamente
dominam a linguagem verbal escrita. Mas, paradoxalmente, sem o domínio de muitas
ferramentas que produziu a civilização moderna, demonstram muito mais radicalidade
na crítica social através de folguedos como bumba-meu-boi e atividades como a
malhação-do-judas do que em muitas práticas de leitura apaziguadas pela democracia de
vertente liberal.
Em outra obra posterior é que Luiz Beltrão vai pontuar mais precisamente a definição
de folkcomunicação:
“No sistema de folkcomunicação, embora a existência e utilização, em
certos casos, de modalidades e canais indiretos e industrializados
(como emissões desportivas pela TV, canções gravadas em disco ou
mensagens impressas em folhetos e volantes), as manifestações são
sobretudo
resultado
de
uma
atividade
artesanal
do
agente-
comunicador,
enquanto
seu
processo
de
difusão
se
desenvolve
horizontalmente, tendo-se em conta que os usuários característicos
recebem as mensagens através de um intermediário próprio em um
dos
múltiplos
estágios
de
sua
difusão.
A
recepção
sem
este
intermediário só ocorre quando o destinatário domina seu código e sua
técnica, tendo capacidade e possibilidade de usá-lo, por sua vez, em
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resposta ou na emissão de mensagens originais”. (BELTRÃO, 1980:
p.27)
Considerações finais
Entre anotar as virtudes da modernização – afinal, Beltrão como escritor, jornalista,
pensador, cientista e membro da classe média era um homem moderno – e pontuar
virtudes
também
na
outra
racionalidade
das
culturas
populares,
o
criador
da
folkcomunicação tendeu a dotar sua produção teórica marcando-a pela realidade das
massas populacionais dos cidadãos comuns. Os mesmos comuns presentes também no
cinema de Glauber Rocha, no jornalismo literário de Euclides da Cunha, na música de
Luiz Gonzaga, no teatro de Ariano Suassuna. Cinema, literatura, música e teatro, para
ficar apenas em alguns segmentos das artes, constituem o Brasil moderno que não
ignorou
o
Brasil
tradicional
e
popular,
o
mesmo
acontecendo
com
a
ciência
comunicacional de Luiz Beltrão.
Basta percorrer o modo como Beltrão produz sua tese: uma narração histórica da
formação socioeconômica e cultural do Brasil colonial ao país contemporâneo, a
dialética entre elite e massa. Como consequência, distintas apropriações dos benefícios
oriundos da modernização capitalista, a existência de uma massa populacional alheia às
competências no consumo de códigos modernos, a cultura popular como modo tático de
expressão de opiniões e a emergente mídia de massa como acesso hegemônico aos
códigos da vida moderna.
Jornalista já de ampla experiência, Beltrão certamente desenvolve seu pensamento
comunicacional como cientista numa fase já madura da vida pessoal e profissional.
Investe na formação científica numa perspectiva de quem observa, testemunha e
interpreta o processo de modernização do país. O detalhe é que Beltrão faz essas
observações a partir de um local singularizado sociologicamente que é o Nordeste
brasileiro, onde a modernização, assim como nas demais regiões do país, tem sido
historicamente contraditória, principalmente nas relações que trava não apenas com as
tradições populares, mas com o capitalismo tradicional.
Na conclusão, explicita sua visão de mundo, na qual a modernização poderia ser vista
como um fenômeno histórico dotado de virtudes, embora, sabidamente, no caso
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brasileiro, tenha sido promovido de forma assimétrica para uma elite beneficiada e uma
massa populacional que permaneceu à margem do desenvolvimento socioeconômico,
político e cultural. As diferenças culturais, no caso, vinham simultaneamente como
resultado e agora condição de prorrogação das desigualdades econômicas.
Na conjuntura histórica, marcada na década de 1960 pelo autoritarismo do regime
militar, Beltrão produz uma tese numa abordagem nacionalista. Integração nacional era
um tema em voga no momento e palavra de ordem no sistema militar que governava o
país de vasta extensão territorial. Nesse aspecto é que havia duas grandes barreiras para
a possível integração nacional via processos de comunicação: a distinção social entre
uma elite culta e uma massa populacional com altos índices de analfabetismo e a
disparidade geográfica entre um litoral em desenvolvimento e amplas hinterlândias
subdesenvolvidas nos interiores do país.
Necessário, portanto, localizar o pensamento comunicacional de Luiz Beltrão em duas
situações:
a)
estágio do capitalismo em sua capacidade de auto-modulação que lhe
permitiu alçar à condição de modo de produção hegemônico na economia em escala
global e
b)
localização nas condições políticas da época de regime militar, de discurso
de integração nacional e de uma emergente sociedade de consumo em nível massivo.
Essa é a condição em que o capitalismo se desdobra e se afirma numa condição
mutante. A transformação do capitalismo se refere ao modo de funcionamento de sua
própria reprodução ao longo da constituição histórica do Ocidente (WALLERSTEIN,
2001).
A folkcomunicação, nessas condições históricas, se refere ao modo de funcionamento
das práticas de produção de sentido por parte de amplas faixas da população brasileira,
para as quais a cultura popular em geral e o folclore em particular constituem o
ambiente simbólico que permite traduzir, reproduzir e reinventar as informações de
outros estratos sociais não como devem ser decodificadas literalmente, mas como
podem ser recodificadas, conforme as virtualidades de intercâmbio entre segmentos
distintos da sociedade.
Como
se
deve
lembrar,
a
década
de
1960,
quando
se
enunciou
a
tese
da
folkcomunicação, o mundo experimentava alterações radicais que reconfiguraram o
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imaginário de fim de século XX e com as devidas ressonâncias neste início de século
XXI. Maio de 1968 fez emergir distintas categorias sociais: o feminismo, a juventude, o
ambientalismo (MORIN, 2006). A contracultura, tendo como movimento dos mais
visíveis e de alcance internacional a música, principalmente o rock, evidenciava
exatamente o poder de uma cultura jovem que começava a ganhar visibilidade. No
contraponto da configuração de uma ordem tecnocrática, as invenções das muitas
subjetividades contemporâneas.
Naquela época vários acontecimentos também reconfiguravam o Brasil rumo à sua
experiência moderna: grandes redes de TV emergiam com programação nacional,
impulsionadas pela criação da Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel).
Instituições
de fomento
à cultura foram
criadas:
Empresa
Brasileira de Filmes
(Embrafilme), o Instituto Nacional do Livro, o Serviço Nacional de Teatro, a Fundação
Nacional de Arte (Funarte) e o Conselho Federal de Cultura. (RIDENTI in BASTOS,
RIDENTI, ROLLAND: 2003, p. 202)
A modernidade, como o demonstra a história do Ocidente, ao desculturar as populações
do (então) Terceiro Mundo, transforma populações em massas incultas (LATOUCHE,
1996: p. 49). Nesse sentido, a folkcomunicação, como mediação entre cultura popular e
indústria cultural, assinala o protagonismo do homem comum como contraponto a
perspectivas teóricas conformistas diante do processo avassalador da modernização
brasileira. É uma questão que pode ser desenvolvida a partir da sistematização
epistemológica já em desenvolvimento por pesquisadores da cultura brasileira e da
folkcomunicação (BENJAMIN, 1999), a partir da perspectiva inaugurada por Luiz
Beltrão e considerando o mal-estar constante provocado pela modernização em sua
vertente capitalista.
A história econômica do Brasil moderno certamente produziu uma centralidade nas
elites como produtoras da história. Mas o campo cultural incluiu segmentos que
configuravam uma modernidade muito mais auto-reflexiva e auto-crítica, na medida em
que artistas e produtores culturais, pertencentes a uma elite culta, embora não
necessariamente econômica, constituíram categorias profissionais – no teatro, no
cinema, na música, na literatura – que souberam com mais precisão e ousadia pôr em
pauta um outro Brasil, aquele das multidões anônimas, que ainda continua sendo a
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nossa mais distante, e simultaneamente próxima, alteridade social. Os paradoxos da
modernidade e as contradições da modernização continuam.
No campo jornalístico e científico, Luiz Beltrão assinala esse período de transição em
que o Brasil tem a sua própria experiência de modernidade, embora se saiba que a
modernidade, em sua configuração histórica, seja necessariamente contingente e força
mudanças
conceituais
e estruturais constantemente. A folkcomunicação, com os
paradoxos dos seus objetos de pesquisa, que na verdade são processos socioeconômicos
e culturais, dota-se de uma singularidade conceitual a fim de que as ciências da
comunicação também tenham aquela auto-reflexividade, própria da modernidade, para
que os processos comunicacionais sejam compreendidos a partir da infinidade de
possibilidades do que pode significar cultura no mundo contemporâneo.
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1
Artigo apresentado no X Congresso da Associación Latinoamericana de Investigadores de la
Comunicación (Alaic), Grupo de Trabalho (GT) de Folkcomunicação, realizado de 22 a 24 de setembro
de 2010, na Pontificia Universidad Javeriana (PUJ), em Bogotá, Colômbia. Este artigo faz parte do
projeto de pesquisa “Modernização tecnológica e midiática: Imagens da cidade e mediações do
cosmopolitismo” (Propeq/UFMT).
2
Professor do Departamento de Comunicação Social e do Mestrado em Estudos de Cultura
Contemporânea da Universidade Federal de Mato Grosso (ECCO-UFMT). Líder do Núcleo de Estudos
do Contemporâneo (NEC-UFMT), em Cuiabá, Mato Grosso, Brasil. E-mail: yug@uol.com.br
3
Objetivo tão intensamente buscado pela
mass communication research
americana ao longo do século
XX e que marcou uma perspectiva psicossocial na pesquisa em comunicação.
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