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AS BONEQUINHAS DA SORTE DE GRAVATÁ-PE, NO CONTEXTO DO
PROCESSO FOLKCOMUNICACIONAL E DO DESENVOLVIMENTO LOCAL
1
Decilene Mendes
2
Resumo
Na cidade de Gravatá, em Pernambuco, uma bonequinha de pano costurada à mão é
símbolo local e extrapola fronteiras, sendo comercializada em outros países. Esta pesquisa
busca através de um olhar sob as lentes da folkcomunicação, perceber os cenários,
contextos e processos midiáticos que movem a produção, venda e interpretação dos
significados adquiridos pela “Bonequinha da sorte de Gravatá”, bem como que tipo de
contribuição ela possibilita para o desenvolvimento local. Como coleta de dados foram
utilizadas: pesquisa de campo, bibliográfica e documental, publicações na internet,
entrevistas, registros fotográficos e entrevistas com atores sociais que produzem e
comercializam o objeto. Através desses elementos revelam-se os aspectos que justificam a
popularidade da bonequinha da sorte e suas significações plurais. O estudo envolve o
conteúdo cultural e social, simbólico e discursivo, re-significação, re-funcionalização e
reconversão, bem como as estratégias de folkmarketing e comunicação mercadológica e
institucional pelas quais passa o objeto, levando a visualizar até que ponto a bonequinha da
sorte pode configurar e promover o desenvolvimento local.
Palavras-chave
Bonequinha da Sorte. Comunicação. Folkcomunicação. Folkmarketing. Desenvolvimento
Local.
Abstract
In the city of Gravatá, state of Pernambuco, a cloth hand-sewed doll is the local symbol
and widens the borders for being commercialized in other countries. This research, by
means of a Folk communication perspective, aims at understanding the mediatic scenarios,
contexts and processes that involve production, sale and comprehension of the meanings
acquired by "Gravatá’s Lucky Doll", as well as the sort of contribution it enables to local
development. As for data collection one has used: field, bibliographic and documentary
researches, besides publications on the internet, interviews, photo records and interviews
with social actors in charge of manufacturing and commercializing the object. Through
these elements, one has revealed the aspects that justify the popularity of such lucky doll
and its plural significations. This study comprises cultural and social content, symbolic and
discursive content, re-signification, re-functionalization and reconversion, as well as
folkmarketing, marketing and institutional communication strategies which influence the
object, thus leading to visualize to what extent the lucky doll may represent and foster local
development.
Keywords
Lucky Doll. Communication. Folk Communication. Folkmarketing. Local Development.
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Considerações iniciais
Em
tempos
modernos
quando
se
discute
os
aparatos
das
novas
tecnologias
e
as
transformações
técnico-científicas,
e
com
os
projetos
globais
de
evolução
nesses
segmentos movendo interesses coletivos e governamentais, surge um pequenino objeto,
feito de forma artesanal e de retalhos de pano, que consegue transpor a simplicidade do
local e infiltrar-se até em países desenvolvidos comunicando uma cultura carregada de
significações e crendices. Uma bonequinha de pano, intitulada “bonequinha da sorte”,
medindo apenas um centímetro e meio e cabendo na palma da mão traz resultados
financeiros para os atores sociais que a confeccionam, bem como extrapola fronteiras
através de estratégias de comunicação institucional e mercadológica, resgatando valores de
um imaginário e promovendo uma comunicação popular. Nomear esse fenômeno como
comunicação popular é também estudar a cultura popular, visto que a comunicação popular
não está indissociada da cultura, mas sim busca trazê-la para esse espaço que permite
pensar a diversidade e ampliar a relação para uma dinâmica social de dimensões interativas
e não apenas ligadas aos meios de comunicação de massa, como anteriormente era
contextualizada. Peruzzo (2004, p. 114), pontua:
As investigações sobre a comunicação popular implicam a necessidade
de a teoria abarcar os processos no contexto mais amplo em que se
realizam, ou seja, devem ir além do estudo do meio comunicativo em si
mesmo, de um jornal, por exemplo, pois a dinâmica social na qual se
insere é que vai lhe dar significados.
Entende-se aqui que o popular foi redefinido num contexto amplo onde a diversidade pode
incluir a questão participativa dos grupos vinculada à prática, à confecção, distribuição e
comercialização do fruto dos seus trabalhos: a bonequinha da sorte. Diante desse cenário
portanto,
vale
a
pena
buscar
uma
compreensão
do
papel
representado
para
um
desenvolvimento
local,
no
momento
em
que
a
confecção
e
comercialização
das
bonequinhas da sorte acenam uma possibilidade real de acesso a um mundo, direcionando
rumos novos e servindo de caminho de outros acessos, inclusões, formação e interações
entre os artesãos daquela cidade e o público em geral, através da comunicação popular.
Essa
interação
acima
citada
que
acontece
através
da
comunicação,
promove
um
intercâmbio de mensagens e gera opiniões. Podemos chamá-la de
folkcomunicação,
teoria
criada pelo jornalista Luiz Beltrão, em 1967, a qual Lucena (2008, p. 53), define: “a
palavra
folk
significa
povo.
A
junção
dos
dois
termos,
folk
+
comunicação
=
folkcomunicação,
significa,
em
termos
abrangentes,
uma
comunicação
em
âmbito
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popular”. A bonequinha, portanto, é a comunicação do povo e sob as lentes desse olhar
folkcomunicacional
, é perceptível transcendê-la através das nossas reminiscências infantis,
para a visão da antiga bruxinha de pano que era vendida nas feiras livres para meninas de
baixo poder aquisitivo. Atualmente, repassa-se o objeto como um símbolo da sorte para os
que a adquirem, sejam eles do local ou do global.
O problema de pesquisa
Seguindo essa linha de raciocínio e partindo da inquietação que move os pesquisadores,
tornou-se necessário portanto, voltarmos nosso olhar na direção de um problema de
pesquisa: As bonequinhas da sorte de Gravatá-PE, objetos da cultura popular, analisadas
sob o olhar da folkcomunicação e das
estratégias de
comunicação institucional e
mercadológica,
contribuem
para
o
desenvolvimento
local?
A
necessidade
dessa
compreensão, busca complementar-se norteada pelos seguintes objetivos: Verificar através
de um olhar folkcomunicacional que tipo de contribuição para o desenvolvimento local é
perpassada pelas bonequinhas da sorte confeccionadas em Gravatá-PE; Identificar se há
ressignificação e refuncionalização das bonecas da sorte para inserção no contexto
mercadológico; Averiguar como se dá a participação dos atores sociais locais na produção
das bonecas; Identificar o uso/apropriação das bonequinhas da sorte como estratégia de
comunicação
institucional.
A
pesquisa
nos
possibilitou
diversos
olhares
sobre:
folkcomunicação: uma teoria brasileira prestes a se internacionalizar, que estuda a
comunicação popular; o folkmarketing: um novo conceito de apropriações das culturas
populares
no
cenário
mercadológico;
a
reconversão
cultural,
ressignificação
e
refuncionalização: para esclarecer a readaptabilidade das bonequinhas da sorte, antiga
bruxinha de pano que passa por um processo de hibridização; o imaginário e sua dimensão
simbólica: para entender a simbologia da sorte atrelada ao objeto;
e o desenvolvimento
local: para possibilitar o entendimento sobre como os atores sociais de Gravatá se
articulam em busca do desenvolvimento do local através do produto bonequinha da sorte.
Contextualização do
lócus
da pesquisa
A pesquisa foi realizada na cidade de Gravatá,
mesorregião do Agreste Pernambucano,
com 76.669 habitantes (censo IBGE 2010). É um centro regional considerado de
importância, que dista cerca de 85 km da capital, Recife, à qual está ligada por rodovia
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federal (BR-232). A cidade é um grande celeiro de artistas, que trabalham com o artesanato
manual, brinquedos educativos em madeira, telas, esculturas, vime, crochê, entre outros. A
cidade de Gravatá movimenta uma economia diversificada: artesanato, pintura, escultura,
móveis, cultivo de legumes, hortaliças, flores, criação de animais, setor imobiliário, etc. A
pesquisa de campo está focada na Estação do Artesão ou Casa do Artesão e na Associação
Art Gravatá. Nestes locais as bonequinhas da sorte são produzidas e comercializadas, bem
como nos núcleos espalhados pela cidade, e nas residências de suas principais bonequeiras.
Contextualização do
corpus
da pesquisa: bonequinhas da sorte de Gravatá
Nosso objeto de estudo são mini-bonecas, com 1,5cm (conforme figuras 1 e 2, abaixo) e
representam símbolo característico do artesanato da cidade de Gravatá-PE.
Figura 1: por Carlos Mendes
Figura 2: por Carlos Mendes
Bonecas da artesã Cleide
Bonecas da artesã Dona Nilza
As bonequinhas são produzidas por peças, por mulheres, em suas próprias residências
(entenda-se peças como partes da boneca: cabeças, braçinhos, pernas, etc., como pode-se
visualizar nas figuras 3 e 4, a seguir):
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Figura 3: por Rafael Araújo
Figura 4: por Carlos Mendes
Bonecas da artesã Cleide
Bonecas da artesã Dona Nilza
As bonequinhas da sorte são comercializadas nos seguintes locais: Estação do Artesão e
nas casas das próprias artesãs em Gravatá/PE; Centro de Artesanato em Bezerros/PE; lojas
em Caruaru/PE; Casa da Cultura em Recife/PE; Lojas em Porto de Galinhas/PE; Rio de
Janeiro; Natal/RN, Salvador/BA e São Paulo/SP. Também em hotéis locais: Portal de
Gravatá e Casagrande Gravatá, ofertadas como “mimos” para os hóspedes, utilizando-se
do atributo “sorte”, que a bonequinha possivelmente lhes trará. Porém, as bonecas por si
sós não falam. Elas não têm vida própria, apesar da forte representatividade que possuem.
Elas co-existem com suas idealizadoras, as bonequeiras.
As bonequinhas da sorte de Gravatá e suas bonequeiras
Falar das bonecas sem abrir um espaço para suas produtoras é impossível.
Essas mulheres
põem vida em pedaços de panos e desenvolvem através de seus trabalhos um saber que não
se aprende nos livros. Perpassam através de sua produção material, um patrimônio
imaterial para gerações futuras: o saber, o fazer e o viver. Sobre as bonequeiras de Gravatá,
que confeccionam a bonequinha da sorte, registramos a fala da artesã Cleide
3
(37 anos),
que nos diz que faz as bonecas com paciência e paixão, mas “o amor é o primeiro
sentimento que se tem para realizar o trabalho”. A artesã trabalha nessa confecção por
necessidade, mas com amor. Ela também acredita que as pessoas que adquirem as bonecas
a abençoam quando elogiam o trabalho e que recebe a energia dessas pessoas para
continuar a produzir com qualidade e agradar a todos. Mas.
.. será que as bonequeiras
quando fazem as bonecas não se preocupam com seus destinos? Com as bonequinhas da
sorte de Gravatá, o destino é certo, seguem para pessoas que acreditam na sorte que elas
trarão e muitos clientes retornam confirmando que as mesmas lhes trouxe sorte.
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Outra bonequeira, Dona Nilza
4
(42 anos), alega que suas bonecas possuem qualidade e é
isso que as torna diferentes das demais. Deve às bonecas tudo que hoje possui. Teve vida
pobre e sofrida e suas bonecas abriram novo horizonte para ela e sua família. A Ética,
empresa mediadora da organização Visão Mundial pesquisou e descobriu a Art Gravatá,
onde estavam as bonequinhas da Dona Nilza, e a partir daí estreitou-se o contato.
Atualmente, a organização Barbosa do Brasil distribui as bonecas na Holanda, através da
Bio Fair Trade
, situada em Recife/PE, que é um link entre o comprador e os produtores. A
Barbosa do Brasil fez parcerias, uma delas com a empresa Boticário, para comercializar as
bonequinhas da Dona Nilza, que concordou em alterar o nome para “bonequinhas
solidárias”, para inserir-se no comércio justo e solidário. Atualmente Dona Nilza trabalha
com 52 mulheres e possui uma produção de 10.000 a 12.000 bonequinhas/mês para a
Holanda. Suas bonequinhas solidárias estão presentes em mais de 400 lojas só na Europa,
proporcionando renda para mais de 60 famílias das mulheres que trabalham com ela em
Gravatá. A bonequinha foi o produto brasileiro que mais vendeu no comércio justo e
solidário e lhe rendeu à artesã Dona Nilza, um troféu enviado pela Holanda.
A artesã Cleide, por sua vez, não concordou com a mudança do nome das suas
“bonequinhas da sorte”, porque acredita que perde a essência. O apelativo “sorte”, vende
muito mais. A artesã tem certeza que as pessoas compram pelo nome e pelo tamanho, que
faz a diferença, “ela é a menor bonequinha do mundo feita de tecido, pelo trabalho manual,
que é difícil”, diz Cleide. A bonequinha da artesã Cleide, vem acompanhada de um
cartãozinho preso por um alfinete de segurança, também pequenino, onde se lê os
seguintes versos:
Historinha da bonequinha da sorte
Na carteira, chama dinheiro. No automóvel proteção. Na
gargantilha saúde.
Na geladeira harmonia. No bolso esquerdo, paixão. A
Bonequinha da Sorte que veio de Gravatá, é coisa do povo
daqui, é cultura popular.
Por isso nunca esqueça, Gravatá é o lugar.
Percebe-se que o texto é apelativo para o imaginário, um mote utilizado para vendas. As
produções da artesã Cleide e sua rede de mulheres também são compradas por turistas do
Canadá e dos Estados Unidos, que, através da Associação, a procuram em sua residência e
fazem encomendas. Outros clientes foram conquistados em feiras: Olinda/PE (Fenearte),
Caruaru/PE (pátio Luiz Gonzaga), Rio de Janeiro/RJ (Feira de São Cristóvão). Nos
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eventos, o contato é fornecido e depois os clientes ligam e encomendam. Surgem pedidos
para outros países (Holanda, Canadá e Estados Unidos), e a artesã Cleide reúne o grupo de
mulheres para a produção. Mantém em sua casa, um estoque de mil e quinhentas bonecas
para atender a demanda. A artesã trabalha com uma rede de 35 mulheres, que atuam como
líderes para a produção da boneca por partes, e através delas, estima que mais de 100
pessoas em Gravatá produzem partes da bonequinha da sorte e com isso geram renda.
Segundo Cleide, os turistas se interessam muito pelas mesmas e nos últimos sete anos as
vendas cresceram muito, não só das bonecas, mas de tudo que é produzido com elas, casais
de noivos, tiaras, chaveiros, brincos, imãs para geladeira, conforme vemos nas figuras 5 e 6
abaixo, produções da artesã Cleide:
Figura 5: por Carlos Mendes
Figura 6: por Carlos Mendes
Chaveiros, presilhas para cabelos, passista de frevo,
Chaveiro com motivo copa do mundo no Brasil.
boneco (homem), boneca com 7 cm, brinco, imã, noivos
A boneca e o chaveiro têm as cores brasileiras.
Um olhar folkcomunicacional em direção ao desenvolvimento local
A análise dos dados levantados e dissecados nos possibilita agora, discorrer sobre os
aspectos comunicacionais do nosso instrumento de pesquisa à luz das teorias, confrontando
os nossos objetivos com o resultado da pesquisa. Diante disso, pertinente se faz
retomarmos nossos objetivos, citados no início deste trabalho. Tivemos como objetivo
geral: Verificar através de um olhar folkcomunicacional que tipo de contribuição para o
desenvolvimento local é perpassada pelas bonequinhas da sorte confeccionadas em
Gravatá-PE;
e
como
objetivos
específicos:
1)
Identificar
se
ressignificação e
refuncionalização das bonecas da sorte para inserção no contexto mercadológico; 2)
Averiguar como se dá a participação dos atores sociais locais na produção das bonecas; 3)
Identificar o uso/apropriação das bonequinhas da sorte como estratégia de comunicação
institucional.
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Diante do cenário em que a “bonequinha da sorte de Gravatá” se inseriu, torna-se
interessante proceder a análise desta sua inserção dialogando com o referencial teórico. É
importante enfatizar como pode-se configurar a bonequinha da sorte de Gravatá em um
contexto de cultura popular, um termo amplo, integralizado de
reservas de conhecimentos
e ao mesmo tempo, valores formativos da humanidade, memória coletiva, como bem
pontua Crespi (1997). Ao falar de cultura, somos levados a refletir sobre toda a produção,
costumes, crenças, de um povo. Esses processos são amplos, com tanta representatividade
que passa do lado material para o espiritual. Por isso que a cultura popular é compreendida
de várias maneiras por estudiosos. Porém, optamos em nos guiar por Gramsci (citado por
Tauk Santos, 2008), um dos estudiosos sobre o tema, que diz que o popular não se define
por sua origem, mas por seu uso. Também nos apoiamos em Tauk Santos (2000, 2001 e
2008), que já realizou estudos sobre culturas populares e infere que o popular se adapta
para se inserir no massivo. No caso das bonequinhas da sorte de Gravatá, vemos que o
popular promoveu o espaço para esse relacionamento. Por um lado, a boneca é adquirida
por consumidores que visitam o local ou em feiras e eventos e a simbologia de que a
boneca traz sorte mantém a existência, o valor e o uso da mesma misturando o hegemônico
com o subalterno através das relações de consumo promovendo assim a cultura popular,
porque o consumo tornou-se um espaço pautado pelo atual, pelo moderno, com o objetivo
de promover vendas. Canclini (1996), explica bem esse processo quando diz que as
culturas populares não distinguem, mas integram, por isso vemos claramente em seus
estudos sobre artesanato uma similaridade com a bonequinha, que também é uma forma de
artesanato, comunicação e lazer, modificada para atender a um mercado capitalista, sem
deixar de lado porém, uma produção simbólica. Só que essa produção passa pelo processo
de hibridização, que são apropriações e reapropriações do objeto para inserção em
contextos mercadológicos. A antiga bruxinha de pano, que representava a boneca Barbie
das meninas pobres perdeu sua função lúdica e de sonho. Passou por um processo de
hibridização para ser usada como produto, uma estratégia mercadológica para venda em
busca de lucros para a sobrevivência dos atores sociais locais, numa fusão de produção,
circulação e consumo. Isso clarifica e confirma os autores que defendem que a cultura
popular não pode ser vista como “expressão do povo” e sim produto para consumo de bens
e serviços, já que o uso é que configura o popular.
A análise dessas relações culturais, nesse nosso estudo, levou-nos a perceber que a
comunicação mercadológica promoveu também um espaço para reconversão do objeto
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bonequinha da sorte, de forma intencional, inserindo-o num contexto comercial e de
refuncionalização e ressignificação.
Esses
processos
são
compreendidos
através
do
processo de hibridização sócio-cultural e novamente nos apoiamos em Canclini (1996) e
em seus estudos sobre culturas para poder trazer à luz o esclarecimento sobre essa
readaptabilidade das antigas bruxinhas de pano para as atuais bonequinhas da sorte, uma
reconversão cultural de forma intencional, para tornar as bonecas instrumentos simbólicos
de sorte, isto é, promover uma mudança de sentidos.
Canclini também diz que a
reconversão ocorre para que o objeto se insira em novas condições de produções e
mercado. Confirmando essas colocações, temos um caso de reconversão econômica e
simbólica, de cunho intencional, através da transformação e readaptabilidade de um objeto.
Tanto a artesã Dona Nilza, como a artesã Cleide, modificam suas bonequinhas para atender
pedidos dos seus clientes de fora do Brasil. Porém, é viável também observá-las à luz de
uma globalização imaginada: Nesse segmento, Canclini (2007, p. 30), reporta-se explica:
“As sociedades se abrem para a importação e exportação de bens materiais, que passam de
um país para outro, e também para a circulação de mensagens co-produzidas em vários
países, expressando, no plano do simbólico, processos de cooperação e intercâmbio”. Para
Canclini, portanto, apenas estes processos, vínculos e a construção de fluxos e estruturas de
intercâmbios entre o que é produzido, não significa globalização, pois somente alguns
atores produzem, vendem e consomem bens e mensagens globalizadas. Muitos deles nunca
chegarão a conhecer os membros de outras comunidades. Por isso, ele chama essa
globalização de “imaginada”. (CANCLINI, 2007, p. 30).
Em se tratando da ressignificação
, a bonequinha sofre um processo de mudança, dantes
boneca de pano das meninas pobres para bonequinha da sorte, uma nova realidade e
contexto, que por outro lado garantirá sua permanência, com novos códigos, novos
significados, da modernidade, até porque a cultura possibilita a cada dia novas matizes. E,
nesse espaço, procedemos também uma análise à luz da refuncionalização
, devidamente
apoiados em Benjamin (2004), que infere que a mesma acontece quando objetos ou outras
manifestações são re-funcionalizadas para se inserirem num novo mercado. Assim,
percebemos que certamente a boneca de pano hoje não mais povoa o sonho das meninas,
da sociedade contemporânea, que brincam com
Barbies
e outras bonecas importadas,
então, porque não re-funcionalizá-las como objeto decorativo, não só para as meninas, mas
para os adultos em geral e ainda aliar à mesma um valor, atrelando-a ao conceito simbólico
de “sorte” para quem a adquirir e a carregar consigo? As bonequinhas da sorte de Gravatá
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são re-funcionalizadas, exportadas, e levam com elas o sentimento, expressão cultural
local, a simbologia da sorte para quem a compra através da artesã Cleide, e a simbologia de
inclusão social do comércio justo e solidário por quem a adquirir através da artesã Dona
Nilza, via Barbosa do Brasil. A produção simbólica desse objeto por grupos populares,
também permite uma interação entre o local e o global, configurando uma comunicação
entre grupos. As bonequinhas representam uma produção popular e cultural que se
reconverte para inserção num contexto globalizado e perpassa uma comunicação de
sentidos e a folkcomunicação
tem como objeto de estudo as fronteiras entre o folclore e a
comunicação de massa, sua teoria fundamenta-se em processos comunicativos. Sendo
assim, estamos diante de um processo folkcomunicacional, conforme tabela a seguir,
baseada no repertório taxionômico dos estudos de Marques de Melo (2008, p. 89), nas
seguintes categorias
5
:
Gênero
Formato
Tipologia
Formato
Folkcomunicação
icônica
Folkcomunicação
icônica
Folkcomunicação
icônica
Diversional e
Decorativo
Porém, não se pode deixar de lado também um olhar sobre as estratégias de folkmarketing
utilizadas. O folkmarketing, este novo viés de estudo folkcomunicacional, que representa
uma mescla de marketing institucional versus cultura popular. Fundamentados nas análises
de Lucena (1998 e 2007), visualizamos essas estratégias no contexto da comercialização
do produto em estudo. Registramos que a Empresa Pernambucana de Turismo de
Pernambuco-EMPETUR adquire as bonequinhas e a empresa “Boticário” também ,
comercializando-a ao preço de R$ 4,50, aliando à mesma a simbologia de bonequinha
solidária (note-se que não é a simbologia de sorte). Desde maio/2007, 24.500 peças
passaram a ser vendidas nas 240 franquias da empresa Boticário no Rio de Janeiro e em
São Paulo. Estamos diante portanto, de ações de
folkmarketing
plenamente configuradas, e
com objetivos mercadológicos (pois o preço cobrado é superior ao preço real das
bonequinhas, que custa apenas R$ 1,50) e ao mesmo tempo comunicação institucional.
Assim esclarece Tavares (2009, p. 60): “A comunicação institucional é o conjunto de ações
que visa divulgar informações aos públicos de interesse sobre os objetivos, as práticas, as
políticas e ações institucionais da organização. O objetivo principal é construir, manter ou
melhorar a imagem da empresa no mercado perante esses públicos”. E a partir dessas
colocações percebe-se que o dinamismo do processo da comunicação institucional é um
jogo real, para mobilizar, criar sentidos e promover imagem positiva no mercado
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competitivo onde atuam as organizações. Para a empresa Boticário como parte integrante e
colaboradora do comércio justo e solidário, atrela-se um diferencial, na formação da
imagem positiva para seus diversos públicos. Confirma-se portanto em nossa análise, a
utilização de estratégias de comunicação organizacional mercadológica e institucional
envolvendo o produto bonequinha da sorte (bonequinha solidária).
E se as bonequinhas solidárias passam por esse processo comunicacional, por outro lado,
as bonequinhas da sorte trazem um apelativo para o imaginário e sua dimensão simbólica.
“Os símbolos e as representações colectivas
não se limitam a sobrepor-se à prática
econômica, mas intervém directamente nessa prática da qual são parte integrante”
(BACZKO, 1985, p. 305). É a produção das ilusões, o impacto que causa o imaginário
sobre o comportamento dos atores sociais.
Laplantine (2003), leva-nos a entender o
imaginário como símbolos, que mexem com as emoções, aos quais se atribui significados e
tece-se comparações com o real. Isso também acontece com a bonequinha da sorte,
transformada num símbolo da cidade de Gravatá e submetida à uma evocação do
imaginário no momento em que seus atributos de sorte, (reais ou não), são trabalhados.
Nessa construção de sentidos pela qual passa a boneca, é como se a mesma tivesse
personalidade própria, representa a cidade de Gravatá e traz sorte para quem a possuir.
E finalmente, em relação ao desenvolvimento local, tema complexo e amplamente
discutido, os referenciais teóricos de Jara (2001), Oliveira (2001) e de Jesus (2007), nos
levaram para uma explicação clara para representá-lo: é a capacidade aflorando, a
autonomia crescendo, um novo mundo de vida surgindo e a melhora em todos os aspectos
(social, político, econômico). Pelo que entendemos, o desenvolvimento local propõe uma
transformação na economia, a criação de oportunidades de trabalho e uma melhoria das
condições de vida e sobrevivência para o povo.
Considerações finais
Em Gravatá, através das bonequinhas da sorte, existe uma participação dos atores sociais
locais, mas no âmbito das redes envolvidas para a produção das bonecas, o que não
configura atividades que levem melhorias para “toda” a população, apenas atores sociais
específicos
se
beneficiam.
Podemos
concluir
portanto,
em
nossa
análise,
que
desenvolvimento local, com a criação de oportunidades e com elas surgem melhorias de
vida para parte da população. Mas esse desenvolvimento não é integral, visto que nem
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todos são beneficiados, apenas os que “trabalham” com as bonequinhas. Porém,
há planos
de ações descentralizadas para ativar e melhorar as condições de vida de todos e da
localidade. E o produto bonequinha da sorte está prestes a ser patenteado pela Prefeitura /
Secretaria de Turismo.
Finalizando, inferimos que, além dos caminhos trilhados por nós,
este objeto de estudo não se esgota para pesquisas bibliográficas e empíricas de outros
estudiosos, com contribuições acadêmicas e científicas significativas.
Referências
BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In: Enciclopédia Erinaud. Lisboa: Casa da
Moeda/Imprensa Nacional, 1985.
BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação na sociedade contemporânea. Porto Alegre:
Comissão gaúcha de folclore, 2004.
BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação, um estudo dos agentes e dos meios populares de
informação de fatos e expressão de idéias. Porto Alegre: Edipucrs, 2001
CANCLINI, Néstor Garcia. A globalização imaginada. Tradução Sérgio Molina. São
Paulo: Iluminuras, 2007
CANCLINI, Néstor Garcia. Culturas Hibridas y Estratégias Comunicacionales. Trabalho
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CRESPI, Franco . Manual de sociologia da cultura. (p 13 a 31). Editorial Estampa.
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Editorial Estampa, 1997.
DE JESUS, Paulo. Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável. In: MACIEL FILHO,
Adalberto do Rego, PEDROSA, Ivo Vasconcelos, ASSUNÇÃO, Luiz Márcio de Oliveira
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JARA, Carlos Julio. As dimensões intangíveis do desenvolvimento sustentável.
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RAZÓN Y PALABRA
Primera Revista Electrónica en América Latina Especializada en Comunicación
www.razonypalabra.org.mx
Folkcomunicación
NÚMERO 77
AGOSTO - OCTUBRE 2011
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1
Este tema é objeto da nossa dissertação de mestrado (março/2011), que teve como orientadora a Prof
a
Dra. Betânia
Maciel e como co-orientador o Prof. Dr. Severino Lucena Filho.
2
A autora é jornalista e pedagoga, especialista em Comunicação Social, mestra em Extensão Rural para o
Desenvolvimento Local na Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE/POSMEX, na linha de pesquisa
Políticas e Estratégias de Comunicação. Docente de disciplinas na área de comunicação, vendas e marketing na
Faculdade dos Guararapes - PE e pesquisadora da Rede Folkcom. E-mail:decysamen@hotmail.com.
3
A artesã Cleide chama-se Maria Florentina de Medeiros e é a líder das mulheres da Associação dos Artesãos em
Gravatá/PE. As entrevistas foram concedidas em fevereiro e março/2011, na residência da artesã.
4
A artesã Nilza Barbosa da Silva foi entrevistada em 12 de março de 2011, por telefone, e depois em 13 de março de
2011, em sua residência.
5
Para conhecer todas as categorias, as mesmas encontram-se descritas no cap. 5, p. 89 a 95, do livro de José Marques de
Melo: Mídia e cultura popular. História, Taxionomia e Metodologia da Folkcomunicação. São Paulo: Paulus, 2008
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