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200
PSICOLOGIA
CIÊNCIA
E
PROFISSÃO, 2010, 30 (1), 200-211
200
Experiência
André Luiz
Picolli da Silva
Universidade
Federal do Pará
O Tratamento da Ansiedade
por Intermédio da Acupuntura:
Um Estudo de Caso
The Treatment of Anxiety Through Acupunture:
A Case Study
El Tratamiento de la Ansiedad por Intermedio de la
Acupuntura: Un Estudio de Caso
201
Resumo:
A ansiedade é um fenômeno amplamente estudado no ocidente pela Psicologia, pela psicanálise
e pela Medicina. Caracteriza-se por um estado subjetivo desagradável de inquietação, tensão e apreensão.
Embora a terminologia ansiedade não seja encontrada na literatura da medicina tradicional chinesa, os
sintomas descritos são amplamente estudados. Tal literatura considera essa patologia metaforicamente uma
desarmonia do espírito,
e apresenta uma série de possibilidades de intervenções por técnicas tradicionais
como a acupuntura. O objeto deste artigo é relatar o tratamento realizado por meio da acupuntura a
uma paciente que apresentava transtorno de ansiedade. Após a identificação dos sintomas de ansiedade,
realizados pela queixa da paciente e pela análise clínica embasada no DSM IV, foram realizadas 10 sessões
de acupuntura tradicional chinesa, utilizando como referencial teórico a literatura clássica da medicina
chinesa. Os resultados obtidos foram a diminuição parcial dos sintomas a partir da quarta sessão e uma
significativa melhora da paciente, com o relato do alívio dos sintomas a partir da sexta sessão de tratamento.
Palavras-chave:
Acupuntura. Ansiedade. Terapia complementar. Saúde.
Abstract
: Anxiety is a phenomenon widely studied in the West by psychology, psychoanalysis and medicine.
It is characterized by an unpleasant subjective state of worry, tension and apprehension, in which it is difficult
to relax. Although the terminology anxiety is not found in the literature of Chinese traditional medicine,
the described symptoms are studied widely. Such literature considers that pathology metaphorically as a
discord of the
spirit
and presents a series of possibilities of interventions for traditional techniques as the
acupuncture. The objective of this article was the treatment accomplished through acupuncture to a patient
that presented anxiety disorder. After the confirmation of the diagnosis 10 sessions of Chinese traditional
acupuncture were accomplished, using as theoretical reference the classic literature of Chinese medicine.
The results were the partial suppression of the symptoms starting from the fourth session and a total recovery
of the patient by the disappearance of all of the symptoms starting from the sixth treatment session.
Keywords:
Acupuncture. Anxiety. Complementary therapy. Health.
Resumen:
La ansiedad es un fenómeno ampliamente estudiado en el occidente por la Psicología, por
el
psicoanálisis y por la Medicina. Se caracteriza por un estado subjetivo desagradable de inquietud,
tensión y aprehensión. Aunque la terminología ansiedad no sea encontrada en la literatura de la medicina
tradicional china, los síntomas descritos son ampliamente estudiados. Tal literatura considera esa patología
metafóricamente una
desarmonía del espíritu,
y presenta una serie de posibilidades de intervenciones por
técnicas tradicionales como la acupuntura. El objeto de este artículo es relatar el tratamiento realizado por
medio de la acupuntura a una paciente que presentaba trastorno de ansiedad. Después de la identificación
de los síntomas de ansiedad, realizados por la queja de la paciente y por el análisis clínico basado en el DSM
IV, fueron realizadas 10 sesiones de acupuntura tradicional china, utilizando como referencial teórico la
literatura clásica de la medicina china. Los resultados logrados fueron la disminución parcial de los síntomas
desde la cuarta sesión y una significativa mejora de la paciente, con el relato del alivio de los síntomas desde
la sexta sesión de tratamiento.
Palabras clave:
Acupuntura. Ansiedad. Terapia complementar. Salud.
PSICOLOGIA
CIÊNCIA
E
PROFISSÃO,
2010, 30 (1), 199-211
A medicina tradicional chinesa e, mais
especificamente, a acupuntura, ainda são
campos de estudos pouco conhecidos pelos
psicólogos brasileiros. Somente depois da
regulamentação do uso da acupuntura
como técnica complementar, pelo Conselho
Federal de Psicologia, com a Resolução CFP
nº05/2002, foi que a mesma começou a
despertar o interesse dos psicólogos que
trabalham no âmbito clínico e da saúde.
A acupuntura é um dos muitos elementos
que compõem a Medicina Tradicional
Chinesa (MTC), que também utiliza práticas
como a massagem, a fitoterapia, exercícios
físicos e respiratórios, como o
tai chi chuan
e o
qi qong
, para promover a saúde física,
psíquica e espiritual do indivíduo. De acordo
com Campiglia (2004), Vectore (2005) e
Silva (2007), a medicina tradicional chinesa
e, portanto, a própria acupuntura, se baseia
no princípio de que o homem deve estar
em harmonia com as forças primordiais
da natureza, que os chineses chamam
de
yin
e
yang
(dois princípios opostos e
complementares que compõem todo o
universo), sendo que essa harmonia gera um
equilíbrio que pode ser traduzido como saúde,
e, por sua vez, o desequilíbrio, como doença.
O princípio básico da acupuntura sustenta
O Tratamento da Ansiedade por Intermédio da Acupuntura: Um Estudo de Caso
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que o equilíbrio é mantido no corpo humano
por meio do fluxo suave de uma energia
denominada pelos chineses
qi,
bem como
pelo fluxo, também suave, pelo corpo, do
sangue, denominado pelos chineses como
xue
. Problemas ambientais, alimentares,
emocionais ou espirituais podem causar
algum tipo de alteração na circulação do
qi
e
do
xue
no organismo, originando assim algum
tipo de disfunção ou patologia. A partir do
momento em que alguma patologia esteja
instalada no organismo, uma das formas de
eliminá-la ou de minimizá-la seria a inserção
de agulhas em pontos específicos do corpo,
que tem a propriedade de restabelecer
esse fluxo suave, ou seja, pela prática da
acupuntura (Silva, 2007; Xinnong, 1999).
Tendo esse princípio como base, qualquer
tipo de disfunção ou patologia, como, por
exemplo, a ansiedade, pode ser tratada
por intermédio da acupuntura; porém,
realizar o tratamento de uma patologia
como a ansiedade pela acupuntura talvez
não seja um procedimento tão simples de
realizar como possa parecer em um primeiro
momento, porque, na literatura da medicina
tradicional chinesa, não existe referência a
essa patologia específica, cuja nomenclatura
é tipicamente ocidental. A própria ansiedade
é um fenômeno ainda insuficientemente
compreendido mesmo no ocidente, pois, ao
mesmo tempo em que apresenta sintomas
específicos, ela própria pode ser entendida
como sintoma de outras patologias.
E é a partir desse entendimento (da ansiedade
como um sintoma) que é possível traçar
paralelos entre o conhecimento ocidental
e a acupuntura chinesa. Comparando
as sintomatologias descritas, é possível
identificar o que os tratados clássicos chineses
escreviam sobre o que atualmente se classifica
de
ansiedade,
e, desse modo, realizar no
ocidente o tratamento nos moldes descritos
pelos princípios tradicionais da China.
O entendimento do fenômeno
ansiedade pela ciência
ocidental
A ansiedade há muito já foi identificada na
ciência ocidental e bastante estudada pelas
áreas da Psicologia, da psicanálise e da
Medicina. A ansiedade não é considerada
um fenômeno necessariamente patológico,
e é mais bem entendida como uma função
natural do organismo que permite que o
mesmo esteja preparado ou que se prepare
para responder da melhor forma possível
a uma situação nova e desconhecida ou a
uma situação já conhecida e interpretada
como potencialmente perigosa. Entretanto,
se a ansiedade atingir graus muito elevados
e contínuos, ela pode ser considerada
prejudicial ao organismo, pois fará com que
este permaneça em constante estado de
alerta, configurando então, uma situação
patológica.
Na ciência ocidental, ainda não se sabe ao
certo quais as causas para o surgimento da
ansiedade, e, embora os estudos de base
biológica estejam avançados, as melhores
explicações ainda são as de base psicodinâmica
(Kaplan, Sadok, & Greb, 1997). Para esses
autores, ainda é possível fazer uma distinção
entre uma ansiedade considerada normal
e uma ansiedade patológica, e afirmam
que a ansiedade apresenta qualidades de
preservação da vida, pois alerta o indivíduo
sobre uma possível ameaça interna ou externa.
Nesse sentido, ela tem a função de preparar
o indivíduo para que este se proteja de uma
ameaça ou, em não conseguindo fazê-lo, que
pelo menos diminua suas consequências.
Assim, a ansiedade está presente na vida
de uma pessoa ao longo de toda a sua
existência, e pode ser entendida como
um acompanhamento normal das diversas
mudanças que ocorrem na vida. Entretanto,
tal fenômeno pode apresentar um caráter
patológico quando surge como uma resposta
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inadequada, devido a sua intensidade ou
duração, perante um determinado estímulo.
Quando a ansiedade se apresenta em
uma intensidade ou duração elevada, não
proporcional ao estímulo frente ao qual o
indivíduo se encontra, é possível dizer que
se está diante de um quadro patológico, de
um
transtorno de ansiedade
. Em relação
aos transtornos de ansiedade, o DSM-IV
(2002) classifica 14 tipos diferentes de
transtornos que podem ser enquadrados
nessa categoria, sendo que, para este
trabalho, é interessante destacar o
transtorno
de ansiedade generalizada
, por ser esse o
transtorno que apresenta sintomas mais
próximos aos sintomas apresentados pela
paciente objeto deste estudo. De acordo
com o DSM-IV, o transtorno de ansiedade
generalizada se caracteriza por:
...uma ansiedade ou preocupação
excessiva (expectativa apreensiva),
ocorrendo na maioria dos dias por um
período de pelo menos 6 meses.
.. O
indivíduo considera difícil controlar a
preocupação. A ansiedade e a preocupação
são acompanhadas de pelo menos três
sintomas adicionais, de uma lista que inclui
inquietação, fatigabilidade, dificuldade
em concentrar-se, irritabilidade, tensão
muscular e perturbação do sono.
.. embora
os indivíduos com transtorno de ansiedade
generalizada nem sempre sejam capazes
de identificar suas preocupações como
“excessivas”, eles relatam sofrimento
subjetivo devido a constante preocupação,
têm dificuldade em controlar a
preocupação, ou experimentam prejuízo
no funcionamento social ou ocupacional
ou em outras áreas importantes.
.. A
intensidade, duração ou freqüência da
ansiedade ou preocupação são claramente
desproporcionais à real probabilidade
ou impacto do evento temido. (DSM-IV,
2002, p. 457)
Ainda sobre as principais características
apresentadas nos transtornos de ansiedade,
é interessante destacar Homes (1997), que
indica que, nesses casos, os indivíduos
apresentam sintomas específicos nos campos
somático, motor, no do humor e no da
cognição. Em relação aos sintomas de humor,
o sofrimento advindo da ansiedade tem a
característica de apresentar um sentimento
constante de que o indivíduo será condenado
por algo, ou que algo terrível irá acontecer;
desse modo, o indivíduo pode apresentar
sensações de tensão, medo, irritabilidade
e depressão. Os sintomas cognitivos, por
sua vez, dizem respeito à apreensão e/ou
preocupação com uma possível condenação
ou desastre que pode vir a ocorrer e que o
indivíduo antecipa.
Os sintomas somáticos, de acordo com
Homes, podem ser divididos em dois tipos; os
primeiros podem ser chamados de imediatos,
que podem ser boca seca, suor, respiração
curta, sensações de tensão muscular, latejo na
cabeça, pulso rápido e aumento de pressão
sanguínea. Já os segundos são resultantes de
um estado crônico de ansiedade, que pode
debilitar o sistema fisiológico ocasionando
fadiga geral, sofrimento intestinal, fraqueza
muscular, hipertensão e constantes dores de
cabeça. Por fim, os sintomas motores dizem
respeito à impaciência e à inquietação que
indivíduos em estados ansiosos podem
apresentar, sendo comum que pessoas
nesse estado emitam rápidos e repetidos
movimentos com dedos, pés ou pernas
ou respostas de susto muito exageradas a
estímulos como ruídos ou presença súbita
de pessoas.
Compreensão do fenômeno
ansiedade pelo referencial
teórico da medicina tradicional
chinesa – acupuntura
A palavra ansiedade é uma palavra ocidental
que se refere a um estado somato-psíquico
descrito pela Psicologia e pela Medicina
ocidentais. Nesses termos, a terminologia
ansiedade
não é uma terminologia oriental,
portanto, na literatura clássica da Medicina
Tradicional Chinesa (MTC), é impossível
encontrar descrições de
tratamentos para
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ansiedade
. Aliado a isso, na MTC, não existe
separação entre
mente, corpo e espírito
,
portanto, não existem classificações de
doenças ou distúrbios exclusivamente
psicológicos ou psiquiátricos, como ocorre
no ocidente, como, por exemplo, no caso
de transtornos de ansiedade.
Entretanto, de acordo com Ling-Shu (1995),
na MTC, existe uma classificação de doenças
nas quais se enquadram as patologias que
apresentam maior sintomatologia psíquico/
emocional, as chamadas
dian-kuang
, que
podem ser traduzidas por
perturbações
mentais
. Nas
dian-kuang,
porém, estão
enquadradas as patologias mais severas, o
que, no ocidente, pode ser traduzido por
psicoses. Assim sendo, distúrbios
menos
intensos,
como, por exemplo, estados ou
transtornos de ansiedade, não poderiam ser
classificados como patologias
dian-kuang
.
Nessa perspectiva, autores como Campiglia
(2004) e Auteroche e Navailh (1992)
entendem que fenômenos como a ansiedade
são sintomas (assim como no ocidente) de
distúrbios de outra ordem. Aliado a isso,
como na MTC não existe separação entre
corpo, mente e espírito, uma desarmonia
em um dos cinco principais órgãos do corpo
(na perspectiva chinesa: coração, baço-
pâncreas, pulmão, rins e fígado) ocasionará
automaticamente um desequilíbrio nos
aspectos mentais e espirituais desses órgãos,
chamados respectivamente de
shen, hun,
po, yi
e
zhi
.
Nessa perspectiva, como a ansiedade é
sintoma de uma desarmonia, ela pode
ser sintoma de desequilíbrio de qualquer
um desses aspectos, sendo, porém, mais
marcadamente considerada um distúrbio
do
shen,
que significa espírito (Campiglia,
2004), ressaltando-se que, para os chineses,
o espírito
reside
no coração. Esse espírito
não fica
preso
no coração, mas circula por
todo o corpo, garantindo a vitalidade e a
consciência, regulando o humor e a sensação
de bem-estar no mundo, como destaca
Campiglia (2004):
O
Shen
aloja-se no coração. O coração é o
órgão que funciona como receptáculo das
funções ativas da consciência, ele abriga
ou expressa sentimentos, emoções, desejos
mais profundos, imaginação, intelecto e
memória dos eventos passados. Como
um copo ou cálice, o coração contém o
sangue e o
Shen
, que são seu conteúdo,
seu vinho sagrado.
.. Ou seja, ao se alojar
no coração, o
Shen
não está em um lugar
fixo, mas circula como o sangue nos vasos.
Ele está em todo o corpo, pois o sangue dos
vasos irriga tudo, da pele aos olhos. O
Shen
é, portanto, uma atividade dinâmica que
está na essência do coração. Adquire-se
e desenvolve-se a consciência interagindo
com o mundo e com os próprios órgãos e o
Shen
está presente em cada um deles. (p 92)
Assim, para os chineses, um distúrbio no
coração corresponde automaticamente a
uma
desarmonia no espírito
. A ansiedade,
então, pode ser entendida como o resultado
de uma desarmonia do espírito, seja por
uma situação de excesso, insuficiência ou
estagnação de
qi
(energia) ou
xue
(sangue)
no coração ou em outros órgãos que acabam
afetando o coração. Essa situação de excesso,
insuficiência ou estagnação pode ser causada
pelos seis fatores patogênicos externos, vento,
frio, calor, umidade, secura e fogo; pelos
sete fatores internos, alegria, raiva, tristeza,
pesar, preocupação, medo e pavor, ou pelos
fatores nem internos nem externos, como
a alimentação, os traumas, o excesso de
trabalho, de exercícios físicos ou de relações
sexuais (Campiglia, 2004; Chonghuo, 1993).
Embora não existam na literatura clássica da
MTC referências específicas ao fenômeno
ansiedade
, a não ser como um sintoma
de distúrbios nos
cinco órgãos,
mais
preponderantemente no coração, já existem
autores modernos, como Ross, que traçam
um paralelo mais direto entre as terminologias
ocidental e oriental. Para Ross (2003, p. 461),
a ansiedade “pode ser definida como um
estado subjetivo desagradável e inquieto de
tensão e apreensão, no qual é difícil relaxar
ou encontrar calma e paz”.
Tomando como base o princípio chinês da
indissociabilidade entre corpo, mente e
espírito e da relação entre os cinco órgãos,
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Ross (2003) também enfatiza que a ansiedade
é causada por uma perturbação do sistema do
coração. O autor acrescenta que o surgimento
de distúrbios de ansiedade está relacionado
constantemente a um desequilíbrio entre os
sistemas do coração e do rim: “A ansiedade do
coração está baseada no medo do rim, com
sentimentos característicos de apreensão,
do medo de que algo terrível aconteça. A
ansiedade pode então vir combinada de
sobressaltos e receio, com sinais físicos como
tremor, freqüência urinária ou intestinos
soltos” (Ross, 2003, p. 464).
De acordo com o autor, a ansiedade é o
resultado de um distúrbio do
shen,
é um
sintoma que indica que o espírito não está
conseguindo se mover de modo adequado
pelo corpo. Nesse sentido, Ross (2003, p.
465) afirma que, na perspectiva chinesa,
existem pelo menos três tipos diferentes de
ansiedade, de acordo com a situação que a
originou:
Ansiedade por excesso: “.
..O fogo fleuma do
coração é uma forma de excesso que pode
levar à ansiedade e à confusão de pensamento,
linguagem e comportamento. Consiste,
essencialmente, em fleuma, decorrente da
deficiência do baço, em combinação com o
fogo do coração. Pode surgir de um estresse
emocional ou do excesso de fumo, do álcool
e de alimentos gordurosos, com falta de
exercícios físicos”.
Ansiedade por estagnação: “A estagnação
pode dar origem ao distúrbio do movimento. A
estagnação do
qi
do coração e do
qi
do fígado,
por exemplo, decorrentes da estagnação
emocional, podem levar ao distúrbio do
espírito do coração e à hiperatividade do
yang
do fígado, levando à ansiedade. A estagnação
do
qi
pode resultar em acúmulo de fleuma,
que pode perturbar a livre circulação do
espírito, causando ansiedade”.
Ansiedade por deficiência: “a ansiedade
aumenta quando a energia está reduzida,
quando há deficiência por falta de sono e
descanso, excesso de trabalho, estresse,
doença e nutrição deficiente, além de outros
fatores. A deficiência do
qi
do coração e do
rim, do
yin
do coração e do rim, e do sangue
do coração e do baço podem dar origem à
ansiedade, já que o
qi,
o
yin
e o sangue são
necessários para manter o espírito estável”.
Descrição da paciente tratada
por meio da acupuntura
tradicional chinesa
A paciente objeto deste estudo foi uma
mulher com 39 anos, casada, com três filhos,
residente no interior de uma cidade com
cerca de 8.000 habitantes e com economia
baseada na agricultura. Quanto à profissão,
refere-se a si própria como do lar, apesar
de ajudar o marido na lida do campo, na
plantação de milho e soja e na criação de
porcos. Procurou atendimento psicológico
por apresentar, de acordo com seu relato,
um constante estado de ansiedade aliado
a uma depressão leve, e relatou também
apresentar um quadro de medo advindo de
eventuais episódios de
sensação de morte
e uma grande preocupação com a família,
embora não saiba definir em relação a que
essa preocupação se apresentava.
A paciente relatou que, há 9 anos, apresentou
um quadro de depressão diagnosticado por
um médico clínico geral da cidade onde
morava, e realizou tratamento com anti-
depressivos por 3 anos, apresentando um
relativo alívio dos sintomas. Desde então,
utilizou um
antidepressivo natural
chamado
Ipérico,
porém este também ocasionava
apenas a supressão temporária dos sintomas,
tendo de ser consumido com bastante
regularidade.
Durante as crises, a paciente relatou que
ficava extremamente sensível, com sensação
de peso no corpo e na cabeça, afirmando
sentir mais os sintomas no período noturno,
principalmente antes de dormir. Afirmou
também que sentia pressão no peito, com
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A ansiedade
pode então vir
combinada de
sobressaltos e
receio, com
sinais físicos
como tremor,
freqüência
urinária ou
intestinos soltos”
(Ross, 2003, p.
464).
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dificuldade para encher o pulmão, ficava
agitada mentalmente, ao mesmo tempo
em que apresentava apatia para realizar as
atividades do cotidiano e sem capacidade de
traçar perspectivas para o futuro. A ocorrência
dos sintomas era constante (todos os dias),
e eram aliviados apenas com o uso da
medicação; entretanto, ressaltou que existia
uma pequena acentuação dos sintomas pela
manhã, quando acordava, e à noite, quando
ia dormir.
Em relação ao início de suas preocupações
e sensações desagradáveis, informou que
surgiram quando tinha aproximadamente 13
anos; o pai, que tinha câncer, estava sempre
doente, e a paciente ficava constantemente
com medo de sua morte. A paciente não
acredita que os seus sintomas atuais tenham
ligação direta com o pai, que morreu quando
ela tinha 22 anos. Afirmou, porém, que os
mesmos começaram a surgir com intensidade,
quando tinha 27 anos e depois que um tio,
que era muito parecido com o pai, também
morreu. De acordo com a paciente: “estávamos
enterrando o pai pela segunda vez”.
A partir dos relatos feitos pela paciente nas
entrevistas iniciais, relacionou-se a sua fala
com o que está descrito no DSM-IV (2002),
e foi possível identificar que a mesma
apresentava características de um
transtorno
de ansiedade generalizada
. Além disso, a
paciente se caracterizava também por ser
uma pessoa bastante simples, com pouca
instrução formal, o que, por vezes, dificultava
a exposição de seus sentimentos, sendo
suas falas bastante sucintas e as respostas às
perguntas geralmente monossilábicas. Tais
características constituíram um elemento
que dificultou a realização de atendimento
psicológico baseado exclusivamente em
um tratamento pela fala, razão pela qual se
ofereceu à paciente a possibilidade de realizar
um tratamento complementar utilizando-se a
técnica da acupuntura, que foi aceita.
Em relação a aspectos gerais da paciente,
dentro de um padrão de diagnóstico pela
acupuntura, a mesma afirmava não gostar
muito do frio, preferindo o calor; apresentava
bastantes calafrios, principalmente quando
estava nervosa, e não costumava ter febres
nem transpirar com facilidade; apresentava
boa digestão e sua sede era normal; não
sentia nenhum sabor mais acentuado e tinha
bom sono, entretanto, apresentava sonhos
repetitivos quando estava deprimida; eram
sonhos recorrentes, que geralmente envolviam
desastres, como aviões caindo perto de casa.
Quanto à urina, apresentava cor, volume e
frequência normais; o mesmo em relação aos
intestinos e ao ciclo menstrual. Em relação aos
órgãos dos sentidos, apresentava apenas leve
dificuldade para enxergar de perto.
Resumo clínico da doença –
o diagnóstico pela medicina
tradicional chinesa e princípios
de tratamento por intermédio
da acupuntura
Com base nas entrevistas realizadas com
a paciente e na apalpação dos pulsos,
que apresentavam, principalmente, sinais
de
coração em excesso
e
baço deficiente
ou
estagnado
e
rim bastante deficiente
,
levantou-se a hipótese diagnóstica, dentro da
perspectiva da medicina tradicional chinesa,
de que a ansiedade ocorria, de acordo com
Auteroche e Navailh (1992),
Ross (2003)
e Chonghuo (1993), por
excesso de fogo
no
coração
, e, possivelmente,
fleuma por
insuficiência do baço
, que, nessa situação, não
conseguia retirar a umidade adequadamente.
Essa hipótese foi reforçada pelo exame da
língua, que constantemente se apresentava
grossa, redonda, edemaciada, sem saburra,
com marcas de dentes e com petéqueas na
região correspondente ao coração.
Além disso, foi possível ainda fazer uma
conjetura utilizando a teoria dos cinco
elementos descrita por Yamamura (2001) e
Xinong (1999), estabelecendo suposições
que, devido a
traumas emocionais
sofridos,
como, por exemplo, uma contínua tristeza
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e frustração devido à doença e morte do
pai e, posteriormente, do tio, a paciente
tivesse elevado intensamente o receio e
a preocupação consigo mesma e com a
família, o que continuamente foi debilitando
o baço ao longo dos anos. Com o baço
debilitado, esse
começou a exigir
mais
energia do coração, o que fez com que o
fogo do mesmo ficasse elevado. A deficiência
do baço e a própria tristeza e magoa
contínua podem ter debilitado o pulmão,
o que contribuiu para agredir ainda mais o
rim, também debilitado pelo receio.
Nessa perspectiva, com o coração em
excesso e o rim debilitado, a
água do rim não
conseguiu mais controlar o fogo do coração
,
e o
shen
ficou agitado, surgindo então
os sintomas característicos da ansiedade
(fenômeno assim denominado no ocidente).
Assim sendo, para reverter esse quadro,
optou-se essencialmente pelo tratamento
recomendado na medicina tradicional
chinesa, por Auteroche e Navailh (1992),
Ross (2003) e Chonghuo (1993), que é
“acalmar o coração, remover a estagnação
do baço e fortalecer o baço e o rim” por meio
da inserção de agulhas em pontos específicos
do corpo que, combinados, apresentam essa
finalidade, ou seja, pela acupuntura.
Relato do caso – método
do tratamento realizado e
explicação dos princípios e
pontos utilizados
No tratamento dos sintomas da paciente,
foram utilizados os pontos de acupuntura
abaixo relacionados, que apresentam (dentre
outras) as seguintes funções de acordo com
Focks (2005) e Ross (2003):
R3 – (terceiro ponto do canal de energia
do rim) Regula o equilíbrio do
yin
e do
yang
, fortalece e estabiliza a mente e as
emoções, equilibra a labilidade emocional,
a deficiência do
qi
do rim; tonifica o rim e
beneficia a essência e tonifica o sangue.
R6 – (sexto ponto do canal de energia do rim)
Tonifica o
yin
do rim, a deficiência do rim,
nutre o
yin,
principalmente quando existe
excesso de fogo no coração, promove o sono
e os fluidos corpóreos.
C7 – (sétimo ponto do canal de energia
do coração) Tonifica o coração, equilibra o
yin
e o
yang
, estabiliza o coração, clareia a
mente, acalma a mente e as emoções, regula
o espírito, tonifica o sangue, tonifica o
yin
do
coração, elimina o fogo.
CS6 – (sexto ponto do canal de energia do
coração/sexualidade) Move a estagnação
e acalma irregularidades do
qi
, remove a
estagnação de sangue e fleuma, acalma
o espírito, remove a estagnação do
qi
do
pulmão, tonifica o coração; é indicado para
dor, choque e traumatismo.
CS7 – (sétimo ponto do canal de energia
do coração/sexualidade) Acalma o espírito,
move a estagnação e regula o
qi
do coração
e do estômago.
E25 – (vigésimo quinto ponto do canal de
energia do estômago) Regula o estresse
emocional, regulariza o
qi.
E36 – (trigésimo sexto ponto do canal de
energia do estômago) Fortalece o baço e
o estômago para produzirem
qi
e sangue,
que eliminam a umidade; faz subir o
qi
,
tonifica o sangue e o
qi,
estabiliza a mente
e as emoções, regulariza o
qi
defensivo e
nutritivo.
P5 – (quinto ponto do canal de energia do
pulmão) Resfria e acalma o pulmão, trata
a retenção de fleuma no pulmão, trata a
deficiência de
yin
no pulmão.
P7 – (sétimo ponto do canal de energia do
pulmão) Expele o vento externo, fortalece
o pulmão melhorando a circulação do
qi
defensivo, remove a estagnação do
qi
do
pulmão, remove as emoções estagnadas
do pulmão, como a tristeza e a mágoa
reprimidas.
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P9 – (nono ponto do canal de energia do
pulmão) Tonifica o
qi
do pulmão, tonifica o
yin
do pulmão, fortalece os vasos sanguíneos
e a circulação do sangue.
IG4 – (quarto ponto do canal de energia do
intestino grosso) Remove o vento exterior,
remove o calor, relaxa a tensão muscular,
move estagnações do sangue, acalma a
hiperatividade do
yang
do fígado, acalma a
mente, tonifica o
qi
e o sangue.
IG11 – (décimo primeiro ponto do canal
de energia do intestino grosso) Expele o
vento exterior, remove o calor, relaxa a
tensão muscular e alivia a dor, acalma a
hiperatividade do
yang
do fígado, resolve a
umidade.
F3 – (terceiro ponto do canal de energia do
fígado) Move a estagnação do
qi
e do sangue,
acalma a hiperatividade do
yang
do fígado,
elimina o vento do fígado e reduz espasmos
e dor; tonifica o sangue e acalma o espírito.
F14 – (décimo quarto ponto do canal de
energia do fígado) Move a estagnação do
qi
do fígado, elimina a umidade calor do fígado;
utilizado para congestionamento mental e
emocional.
VC4
– (quarto ponto do canal de energia do
vaso da concepção) Fortalece o
jing,
o
qi,
o
yin
e o
yang
do rim, dispersa a estagnação
do
qi
.
VC6 – (sexto ponto do canal de energia do
vaso da concepção) Tonifica a deficiência e
move a estagnação do
qi.
VC12 – (décimo segundo ponto do canal de
energia do vaso da concepção) harmoniza
a preocupação e a insegurança, tonifica a
deficiência do
qi
e do
yang
do baço, move
a estagnação e regula a rebelião do
qi
do
estômago.
VC15 – (décimo quinto ponto do canal de
energia do vaso da concepção) Acalma o
espírito quando este está agitado pelo fogo do
coração ou obstruído pela fleuma no coração.
VC17 – (décimo sétimo ponto do canal de
energia do vaso da concepção) Dispersa a
estagnação do
qi,
remove a estagnação do
qi
do coração, do sangue do coração, do
qi
do
pulmão e do aquecedor superior.
BP3 – (terceiro ponto do canal de energia do
baço-pâncreas) move a estagnação do
qi
do
baço, tonifica a deficiência e fortalece o baço,
resolve o esgotamento e o embotamento
mental por umidade e fleuma.
BP6 – (sexto ponto do canal de energia do
baço-pâncreas) Tonifica o baço, o
qi
e o
sangue, elimina a umidade, tonifica o
yin
,
acalma a mente, regula o
qi
do fígado.
BP9 – (nono ponto do canal de energia do
baço-pâncreas) Elimina a umidade.
TA4 – (quarto ponto do canal de energia do
triplo aquecedor) Tonifica a deficiência do
qi
do rim, remove o excesso do vento e calor e
a estagnação do
qi.
TA5 – (quinto ponto do canal de energia do
triplo aquecedor) Remove vento e calor e a
estagnação do
qi
do fígado.
Yintang
– (ponto extra localizado no entre
as sobrancelhas) Acalma a mente, diminui
cefaléia, tonturas e a sensação de peso na
cabeça; é utilizado em casos de estados
de ansiedade, de distúrbios do sono e em
estados de confusão mental.
A seleção e a utilização desses pontos
ocorreram a partir de breve investigação
oral da paciente e do exame dos pulsos e da
língua em cada sessão. Dentro da perspectiva
teórica da acupuntura, é possível identificar a
qualidade da energia
qi
dos órgãos do corpo,
a saber, pulmão, baço-pâncreas,
ming men
(órgão da medicina chinesa correspondente
a um dos rins), coração, fígado e rim,
por intermédio do exame dos pulsos do
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paciente (Auteroche & Navailh, 1992; Flaws,
2005; Yamamura, 2001; Xinong, 1999).
Procedimento semelhante pode ser realizado
pelo exame da língua, que apresentará,
em áreas específicas (correspondentes aos
órgãos do corpo), sinais como edemas,
palidez, vermelhidão, rachaduras, saburras de
diversas espessuras e tonalidades (Maciocia,
2003; Xinong, 1999). A partir do exame da
língua e dos pulsos, a
qualidade da energia
de cada órgão
pode ser classificada como
normal, em excesso, estagnada, deficiente
ou inexistente, sendo que cada uma dessas
características acarretará uma sintomatologia
diferenciada no paciente, que é tratado com a
estimulação, a sedação ou a harmonização de
pontos de acupuntura específicos (Maciocia,
2003).
A estimulação de um ponto de acupuntura
é feita com a inserção da agulha no mesmo
sentido do
fluxo do canal de energia,
deixando-se a agulha inserida no corpo por
um tempo reduzido, aproximadamente 10
a 15 minutos. Já a sedação do ponto é feita
de modo oposto: a agulha é inserida no
sentido contrário ao
fluxo de energia do canal,
e é deixada por tempo maior, mais de 30
minutos. Por sua vez, a harmonização de um
ponto de acupuntura é feita com a inserção
perpendicular da agulha no
canal de energia,
e a mesma é deixada por um tempo médio,
de 20 a 25 minutos (Auteroche & Auteroche,
1996; Chonghuo, 1993; Xinong, 1999).
Nesse tratamento, foram realizadas 10 sessões
de acupuntura, realizadas inicialmente uma
vez por semana, com duração média de 50
minutos; entretanto, a paciente já relatava
alguma melhora dos sintomas a partir da
quarta sessão. Como caráter ilustrativo, segue
a descrição geral dos pulsos da paciente e
dos pontos utilizados durante as sessões de
acupuntura.
1ª, 2ª, 3ª e 4ª Sessões -
Situação geral dos pulsos:
Pulmão: normal
Coração: excesso
Baço-pâncreas: deficiente
Fígado: deficiente
Ming Men
: inexistente
Rim: deficiente
Diferentes pontos utilizados ao longo das
sessões:
R3, R6, E36, BP3, BP6, P5, BP9, P7, VC4 e
VC12 – Tonificando, para fortalecer o rim,
nutrir o sangue, retirar a umidade e fortalecer
o baço, melhorar a absorção e a circulação do
qi
, fortalecer o pulmão, equilibrar as emoções
e remover estagnações.
F3, C7, CS6, CS7, IG4 – Harmonizando, para
estabilizar as emoções, harmonizar o coração,
o sangue o
qi
e o
shen
.
A partir da quarta sessão, a paciente relatou
uma significativa diminuição dos sintomas que
a trouxeram ao atendimento, informou sentir
grande alívio das sensações desagradáveis que
sentia antes e que agora apresentava uma
permanente sensação de tranquilidade.
5ª e 6ª Sessões - Situação geral dos pulsos:
Pulmão: normal
Coração: excesso
Baço-pâncreas: inexistente
Fígado: deficiente
Ming Men
: inexistente
Rim: deficiente
Diferentes pontos utilizados ao longo das
sessões:
VC4, P7, BP3, BP6, BP9, E36, R3 – Tonificando,
para fortalecer pulmão, baço e rim, tonificar e
melhorar a circulação de
qi
e
xue
.
F3, F14, CS6, CS7, IG4, C7, E25, VC17, VC12
– Harmonizando, para retirar obstruções e
estagnações do fígado, harmonizar o coração
e o
shen,
regular as emoções e melhorar a
circulação de
qi
e
xue.
Na sexta sessão, a paciente relatou ter
suspendido por decisão própria a utilização do
antidepressivo natural que estava utilizando.
Declarou que estava se sentido muito melhor
desde que havia começado o tratamento, e
acreditava que não haveria mais necessidade
de realizar uma sessão por semana, tendo sido
acordado que, a partir de então, as sessões
iriam ocorrer a cada 15 dias. A partir desse
momento, o principal foco do tratamento foi
o de manter o padrão alcançado, a fim de
evitar novo surgimento dos sintomas.
7ª, 8ª, 9ª e 10ª Sessões - Situação geral dos
pulsos
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Pulmão: normal
Coração: normal
Baço-pâncreas: deficiente
Fígado: normal
Ming Men:
deficiente
Rim: deficiente
Pontos utilizados:
P7, E36, BP6, BP9, VC6, VC12, BP3 –
Tonificando, para fortalecer o rim, o
qi
e o
xue
e remover estagnações.
R3, F3, TA5, VC6, VC15, E25, IG4, C7,
Yintang
– Harmonizando, para manter o fluxo
suave do
qi
e
do
xue
, retirar estagnações e
manter a estabilidade das emoções.
Discussão
A medicina tradicional chinesa entende que a
maioria dos distúrbios emocionais e psíquicos
tem em sua base uma desarmonia entre as
energias dos diversos órgãos do
organismo,
com especial destaque para as
energias do
coração e do rim
(Auteroche & Navailh, 1992;
Chonghuo, 1993; Ross, 2003). Isso fica claro
quando se observa que, no entendimento
chinês, distúrbios emocionais ou psíquicos
são demonstrações de distúrbios do espírito
(
shen
) do indivíduo, sendo que, em chinês,
a palavra
shen
tanto significa
espírito
quanto
rim
, e que o coração (
xin
) é o
lugar de
moradia do espírito
(
shen
). Nesse sentido, é
possível fazer a leitura metafórica de que
o
espírito não consegue encontrar condições
adequadas para habitar a sua morada
, por
isso fica conturbado, e essa perturbação se
manifesta por sintomas como, por exemplo,
aqueles típicos da ansiedade descritos pela
Psicologia e pela medicina ocidentais.
No caso da paciente em questão, a desarmonia
foi observada por meio de entrevistas e de
técnicas próprias da acupuntura, como a
palpação do pulso e o exame da língua. Após
a delimitação do diagnóstico, o tratamento
visou a restabelecer o
equilíbrio do espírito
,
tendo como base os protocolos de tratamento
indicados por Auteroche e Navailh (1992),
Ross (2003) e Chonghuo (1993). Por essa
razão, a base do tratamento foi harmonizar
o coração e fortalecer o pulmão e o baço,
para melhorar a absorção de
qi
(energia) e a
circulação do
qi
(energia) e do
xue
(sangue)
para assim fortalecer o rim e restabelecer o
equilíbrio entre este e o coração.
É importante destacar que o tratamento
realizado por meio da acupuntura não
proporciona
curas milagrosas
ou o
fim total
das patologias dos pacientes, como destacam
Campiglia (2004), Ross (2003) e Vectore
(2005).
O tratamento pela acupuntura
ocorre de modo processual, sendo que o
restabelecimento da saúde se dá de modo
gradual e está diretamente relacionado a
condições externas (ambientais, climáticas,
sociais e históricas) e internas (alimentação,
estados emocionais, espiritualidade), com
as quais o sujeito se relaciona (Campiglia,
2004; Vectore, 2005). Um exemplo de que
o tratamento é processual, e não final e
definitivo, pode ser observado nas últimas
sessões realizadas, na quais, apesar de a
paciente não mais relatar sentir os sintomas
que a trouxeram ao tratamento, ainda
apresentava alterações nos pulsos.
Conclusão
Como referido, a acupuntura não é uma
técnica que propicia
curas milagrosas
de
nenhum tipo de patologia que se pretende
tratar; em vez disso, o restabelecimento da
saúde é sempre realizado por um processo
contínuo e gradual. No caso do tratamento em
questão, esse restabelecimento gradual pôde
ser notado a partir do relato da paciente, que
afirmou ter apresentado melhora dos sintomas
a partir da quarta sessão de acupuntura, o que
correspondeu a um mês de tratamento. Com
a continuidade dos atendimentos, a partir da
sexta sessão, a paciente realizou por conta
própria a suspensão dos medicamentos que
usava, e relatou a redução significativa dos
sintomas iniciais, decidindo continuar com
o contrato mínimo pré-estabelecido das dez
sessões para melhorar ainda mais o equilíbrio
obtido.
Por se tratar de uma sintomatologia bastante
antiga, foi aconselhado à paciente que
mantivesse uma regularidade das sessões de
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PROFISSÃO,
2010, 30 (1), 199-211
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André Luiz Picolli da Silva
Psicólogo, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC – Brasil. Especialista
em Acupuntura pelo Instituto Brasileiro de Acupuntura e Moxabustão de Porto Alegre, Porto Alegre, RS – Brasil.
Professor de Psicologia da Universidade Federal do Pará - Campus de Marabá, Marabá, PA - Brasil.
Endereço para envio de correspondência:
Rua São Francisco, n° 2401 apt. “B” - Bairro Cidade Nova – Marabá, PA – Brasil - CEP: 68501-690
E-mail: anpicolli@yahoo.com.br
Recebido 27/11/2008, 1ª Reformulação 7/8/2009, 2ª Reformulação 25/8/2009, Aprovado 15/9/2009.
Referências
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O diagnóstico na medicina
chinesa.
São Paulo: Andrei.
Auteroche, B., & Auteroche, M. (1996).
Guia prático de
acupuntura e moxabustão.
São Paulo: Andrei.
Campiglia, H. (2004).
Psique e medicina tradicional chinesa.
São Paulo: Roca.
Chonghuo, T. (1993).
Tratado de medicina chinesa.
São Paulo:
Roca.
Conselho Federal de Psicologia (2002). Resolução nº 05/2002
– Dispõe sobre a prática da acupuntura pelo psicólogo.
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Manual diagnóstico e estatístico de transtornos
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(C. Dornelles, Trad., 4a ed. rev.). Porto Alegre:
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(C. da S.
Garrido, Trad.). São Paulo: Roca.
Focks, C. (2005).
Atlas de acupuntura: com seqüência de fotos
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Homes, D. S. (1997).
Psicologia dos transtornos mentais
(S. Costa,
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Kaplan, H. I., Sadok, B. J., & Greb, J. A. (1997).
Compêndio de
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Base da acupuntura tradicional chinesa
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Maciocia, G. (2003).
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Psicologia: Ciência e Profissão
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(3), 418-429.
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Psicologia: Ciência e Profissão
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(2), 266-285.
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Acupuntura e moxabustão chinesa
(E. I. Souza
Martins, Trad.). São Paulo: Roca.
Yamamura, Y. (2001).
Acupuntura tradicional: a arte de inserir
(2aed.). São Paulo: Roca.
acupuntura após o tratamento inicial ou que
continuasse com algum acompanhamento
psicológico, visto que o tratamento
basicamente realizou a diminuição da
intensidade dos sintomas apresentados, não
podendo ser atribuída uma
cura
definitiva.
Desde então, a paciente não apresentou
mais os sintomas na mesma intensidade
que apresentava no início das sessões de
acupuntura, sendo que, atualmente, continua
realizando acompanhamento pela acupuntura
com uma sessão por mês, apenas em caráter
preventivo e para a manutenção do seu bem-
estar geral.
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