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Espaço Plural • Ano XIV • Nº 29 • 2º Semestre 2013 • p. 170 - 192 • ISSN 1981-478X
170
DE APOSTAS, PROMESSAS E SONHOS: ALGUNS PROJETOS
INTERROMPIDOS E FACILITADOS DE FUTEBOLISTAS NÃO-
CÉLEBRES
Caroline Soares de Almeida
1
Mariane da Silva Pisani
2
Luciano Jahnecka
3
Resumo:
Ao tentar colocar em um lugar comum trajetórias de mulheres e
homens assinalamos algumas condições de ingresso e permanência em uma
carreira feita por meio do futebol. Através do conceito de “projeto de vida”
conferimos
alguns
significados
para
“sonhos”,
“apostas”
e
algumas
“promessas” com as quais futebolistas decidem sobre seus contratos optando
por permanecer e, por vezes, desistir de jogar futebol. A reflexão feita neste
texto tenta demonstrar como o futebol praticado por mulheres e homens em um
determinado contexto histórico revela as condições dissonantes pelas quais
algumas trajetórias lidam com as celebridades contemporâneas e refazem
assim sua relação com a fama e o reconhecimento, em suma, com o poder.
Palavras-chave:
Projeto de vida; fama; reconhecimento profissional; futebol;
infame.
GAMBLING, PROMISES AND DREAMS: SOME INTERRUPTED AND
FACILITATED PROJECTS OF NON-FAMOUS FOOTBALLERS
Abstract:
By trying to put in a common place some trajectories of women and
men, we point out conditions of entry and permanence in a career made
through the football. Using the concept of “life project” we emphasize some
meanings of “dreams”, “bets” and “promises” which some footballers choose to
remain, and some times, give up to play football. The reflection in this paper
attempts to demonstrate how the football played by women and men in a given
historical context exposes dissonant conditions under which some trajectories
deals with contemporary celebrities and, in a certain
way, remake their
relationship with fame and recognition, in sum, with power.
Keywords:
Life project; fame; professional recognition; football; infamous.
1
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal de
Santa Catarina. Núcleo de Antropologia Audio-visual. Pesquisadora Instituto Brasil Plural. E-
mail: almeidacarol@yahoo.com
2
Doutoranda no Programa de Pós-Graducação em Antropologia Social, Universidade de São
Paulo. Núcleo de Estudos Marcadores Sociais da Diferença. Pesquisadora Instituto Brasil Plural.
marianepisani@gmail.com
3
Doutorando no Interdisciplinar em Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina.
Núcleo de Antropologia Audio-visual. Pesquisador Instituto Brasil Plural. Bolsista CNPq.
jahnecka@ibest.com.br
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Notas introdutórias
Ao
historicizar o
reconhecimento
e
a
celebração
de
personagens
importantes ao longo de certos períodos Georges Minois
4
adjetiva como o
tempo da
cacofônia
o momento contemporâneo no qual existem múltiplas
referências
ao
que
reconhecemos
enquanto
celebridades.
Nestes
tempos
cacofônicos caracterizados pela pulverização de referências coletivas ocupam
lugar de reconhecimento, entre outros nomes, os de jogadores de futebol.
Zinedine Zidane, Ronaldo Nazário, Lionel Messi, são alguns exemplos que
permeiam o reconhecimento público do que é ser célebre na virada para o
século XXI
5
.
Nomeadamente
não-célebres
(ou
ainda
infames,
porém
dignos
de
alguma
celebração),
durante
o
texto
baseamo-nos
nas
trajetórias
de
futebolistas
(homens
e
mulheres)
que
compartilham
uma
condição
de
anônimato sendo permeados por “promessas” de concretização profissional a
partir do futebol, pela busca por “sonhos” sejam estes materiais ou não, e que
constantemente atuam em condições de risco e investimento “apostando”
naquilo que consideram melhores condições de vida.
Não por acaso reunimos em um mesmo texto futebolistas mulheres e
homens. Com isso afirmamos que existem condições de possibilidade em
comum no exercício desta prática (jogar futebol em um determinado contexto),
como por exemplo, manter uma carreira e “sair” para outros países conforme
afirmam. Através de elementos empíricos (entrevistas, reportagens de revistas
e outras fontes de três pesquisas etnográficas) supomos
a existência de
condições de possibilidade distintas nas trajetórias de mulheres e homens,
assim como as diferentes trajetórias entre homens e entre mulheres. Sendo
assim, não buscamos tornar regra através de uma pretensa representatividade
no
que
diz
respeito
a
uma
condição
não-famosa
que
caracteriza
tais
jogadoras/es de futebol.
4
Para mais, ver: MINOIS, Georges.
Histoire de la célébrité:
Les trompettes de la renommée.
Paris: Perrin, 2012.
5
Aqui utilizamos alguns exemplos de homens futebolistas famosos de escala planetária, porém
ainda é possível inferir que algumas mulheres sejam amplamente conhecidas, principalmente
em contextos nacionais, como o caso da jogadora Marta no Brasil.
De apostas, promessas e sonhos: Alguns projetos interrompidos e facilitados de
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Com este texto pretendemos mapear algumas condições de ingresso e
permanência
de
algumas
futebolistas
em
uma
carreira
comumente
tão
prestigiada pela qual é possível colocar-se neste lugar de reconhecimento em
instituições que fazem circular dinheiro, pessoas, ideias, produtos e desejos, os
clubes de futebol. Ainda que ao longo do texto demarcamos algumas distinções
entre a busca por reconhecimento profissional para homens e mulheres.
Para além de um reconhecimento público, o qual não é inexistente nos
casos de pessoas pouco-conhecidas, no presente texto optamos por analisar a
trajetória de futebolistas (homens e mulheres) e seus projetos de vida
6
no que
se refere ao ingresso e permanência em uma determinada prática, a de
jogador/a de futebol.
Ainda à guisa de introdução, ao localizar o modo como algumas poucas
personagens célebres são espetacularizadas e atuam na manutenção de uma
única imagem que pretende reproduzir um futuro promissor e bem-sucedido
através do futebol, evitamos cair em um denuncismo de que outros modos de
“viver do futebol” são mais ou menos valiosos se comparados entre si. Até
mesmo em uma mesma carreira. Todavia, o exercício da construção de uma
imagem através das celebridades planetárias atua mobilizando um contingente
considerável
de
“sonhadores”
(muito
superior
se
comparado
ao
de
“sonhadoras”), somado ainda à uma intensa rede colaborativa para que o
ser-
tornar-se
jogador/a se efetive, ou como elas e eles falam,“dê certo”.
Nesta
rede
encontramos
de
parentes
a
familiares,
amigas/os
e
conhecidas/os,
futebolistas
ou
não,
empresários,
funcionários
dos
clubes,
diretores, entre outros encontros para que a profissionalização e a carreira se
realizem. Rede de relações esta, afetada por uma certa conscientização coletiva
do que é “ser jogador de futebol no Brasil” (ou cooperação, nos termos de
6
Projeto
de
vida
será
um
conceito
central
para
conferir
significado
às
escolhas
de
nossas/nossos interlocutoras/es. Segundo Gilberto Velho (1994) este conceito pode ser
entendido não somente pela racionalidade presente em determinadas escolhas mas a sua
transformação mediante ao campo de possibilidades em um certo contexto cultural. Para mais:
VELHO, Gilberto.
Projeto e Metamorfose
: Antropologia das sociedades complexas. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
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Maurizio Lazzarato)
7
e que está mediada
quase
exclusivamente por trocas
econômicas.
Para a elaboração do presente texto nos baseamos e utilizamos a
interlocução de pelo menos três pesquisas distintas ao ponto de mediar
relações divergentes para a confecção de um documento único. Entre elas, aqui
fizemos a opção de ora utilizar o nome, ora ocultar interlocutores/as, conforme
o estabelecido entre as diferentes pesquisas e as relações de interlocução.
Ainda que “sonhos”, “promessas” e “apostas” sejam diferentes nos muitos
contextos e trajetórias de nossas/os interlocutores/as, as perguntas que este
texto procura pormenorizar são as seguintes: como foi possível ser-tornar-se
jogador/a de futebol? Quais foram as facilidades e as interrupções para este
projeto de vida? Assim, passamos às condições de possibilidade de algumas
trajetórias em meio ao futebol.
Ser-tornar-se jogador de futebol: um projeto familiar
“Eu jogava em escolinha e meu pai falou: ‘Tem essa peneira aqui para
gente poder dar um passo maior, vamos ver até onde você chega, 72 mil é
bastante’. Desses 72 mil, 72 seriam escolhidos, um jogador para cada mil. Eu fui
escolhido, foi onde começou, tinha 14 anos”.
8
Ainda que a assinatura de um contrato passe juridicamente a estabelecer
um vínculo empregatício entre um jogador e um clube, este é apenas um dos
pontos constantemente referenciados como o momento de ingresso na carreira.
Como já se sabe, as “peneiras” são espaços importantes para acessar o
contexto
profissional
no
futebol
praticado
por
homens.
É
através
destas
seleções envolvendo aqueles que avaliam (técnicos, olheiros, empresários) e
inúmeros que são avaliados (jovens aspirantes a condição de profissional),
onde são auferidos os potenciais individuais para atingir uma condição do que
se imagina “ser” jogador de futebol.
7
LAZZARATO, Maurizio.
As revoluções do capitalismo
. Trad. Leonora Corsini. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2006.
8
Trecho de entrevista realizada no dia 26 de setembro de 2013 com Bruno Andrade, futebolista
de 24 anos e no momento da entrevista vinculado ao Willem II, clube situado nos Países Baixos.
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Muitas são as histórias de vida que compartilham o início precoce em
centros especializados para a produção de um capital corporal útil à prática do
futebol. Aos 6, 7, 8 anos, muitos jovens (quase em sua maioria meninos) povoam
estes centros referidos durante o trecho da entrevista como “escolinha”. A
referência ao caratér de Educação Formal também pode ser comparada às
muitas horas dedicadas quase que exclusivamente a um certo tipo de formação,
onde, por meio destes espaços,
famílias “investem” na possibilidade de
garantir um futuro promissor mas não menos arriscado da profissionalização de
jovens no futebol para “ver até onde você chega”.
No caso de nosso interlocutor, existe uma extensa e contínua preparação
anterior ao momento de seleção por meio das “peneiras”, que não somente é
praticada nas “escolinhas”, mas que se faz presente nos momentos recreativos
fora
destas,
por
exemplo,
nos
populares
jogos
virtuais
de
video-game
(exercícios subjetivos de incorporação de um
ethos
em torno do futebol).
Oriundos
de
famílias
“pobres”
e
“ricas”,
os
investimentos
familiares
na
concretização deste “sonho” de
ser-tornar-se
um jogador de futebol, passa por
contingências
afetivo-materiais
pelas
quais
afirmam
constantemente
um
projeto comum para a família
9
.
Após ingressar aos sete anos de idade em um regime de treinamentos
voltado à incorporação deste capital útil à prática do futebol, nosso interlocutor
é submetido ao referido processo de seleção que supera enormemente a
concorrência para o ingresso nos cursos de Ensino Superior mais procurados
do país.
10
Vindo de camadas médias do interior de São Paulo, a decisão de
9
Partindo da categoria émica de “aposta”, principalmente suportada dentro do contexto
familiar, assinalamos como uma condição de
tornar-se
um/a futebolista não só feita através da
profissionalização, mas da incorporação de práticas (discursivas ou não) aceitas no contexto do
“futebol profissional”. Reconhecer-se enquanto jogador/a de futebol também não diz respeito
exclusivamente ao caráter contratual estabelecido entre futebolista e clube, pois durante
entrevistas com as/os interlocutoras/es mesmo aquelas/es que já não mantém vínculos
empregatícios com clubes exaltam algumas passagens por clubes mantendo minimamente em
seus discursos relações de pertencimento com esta condição. Tal condição oscila entre uma
dimensão de “ser” imutável e do “tornar-se” reafirmada repetidas vezes em diferentes
contextos. Assim, justificamos o emprego de “ser-tornar-se” um/a futebolista.
10
No ano de 2013 por exemplo, o curso de Ensino superior mais procurado dentro do sistema
de seleção no Brasil não superou 16 mil inscrições, sendo que o número de vagas oferecidas
pela Universidade no referido curso foi de 90. Dados divulgados pelo Ministério da Educação a
partir das inscrições no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) no ano de 2013. Embora em
anos anteriores o referido exame não constituísse a única forma de ingresso no Ensino Superior
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realizar o “vestibular” foi abandonada após a seleção em uma das “peneiras” e
posterior “interesse” de um clube italiano quando o futebolista estava com 16
anos de idade.
É através destas pequenas mostras de algumas possibilidades existentes
para um projeto de vida que o “sonho” de ser-tornar-se jogador de futebol nem
de longe passa exclusivamente por uma racionalidade que determinaria qual a
melhor opção a tomar. Em vez disso, essa mesma racionalidade que “projeta” e
se faz “promessa” para uma possível concretização de ser-torna-se jogador de
futebol é re-negociada frente as dificuldades encontradas para aceitação nos
clubes, assim como pelas necessidades familiares.
Ao
analisar
a
circulação
de
jogadores
brasileiros,
muitos
deles
celebridades, Carmen Rial
11
faz referência ao suporte familiar para este ser-
tornar-se jogador de futebol pautado pelo caçulismo, uma vez que muitos são
os filhos caçulas da família desobrigados de contribuir com a renda familiar.
Em condições bem distintas, é possível supor que o destino de Bruno Andrade
não fosse a de um imediato ingresso no mercado de trabalho fora do futebol,
pois, caso a profissionalização não se concretizasse, “os estudos” seriam a
prioridade individual-familiar.
Muitas dessas trajetórias são atravessadas por contingências temporais
que facilitam e/ou interrompem determinados projetos. Em especial, durante
etnografia feita nos Países Baixos durante o ano de 2013 com jogadores
brasileiros vinculados aos clubes do país, assim como o jogador citado, outros 9
jogadores atuantes nas duas ligas profissionais eram considerados cidadãos
europeus por serem de famílias de migrantes italianos, ou ainda, pelo longo
tempo de permanência e consequente nacionalidade holandesa, tendo assim
do país, a relação entre vagas oferecidas e inscrições para a seleção dificilmente se aproxima
da procura por algumas das “peneiras” mais concorridas. Embora a “peneira”a qual Bruno se
refira durante a entrevista tenha sido realizada há 8 anos atrás, é possível supor que não existe
uma significativa diferença ao se comparar a procura e a oferta de vagas no Ensino superior
naquele momento. Assim como é possível afirmar que a quantidade de jovens procurando as
“peneiras” neste momento não tenha sido alterada consideravelmente. Ainda assim é
necessário relativizar esta procura, pela imprecisão do número efetivo de “boleiros” sendo
avaliados durante tal “peneira” e também a visibilidade dos clubes do Estado de São Paulo no
contexto do “futebol profissional” que atraem muitos jovens para suas seleções.
11
RIAL,
Carmen.
Rodar:
a
circulação
de
jogadores
brasileiros
no
exterior.
Horizontes
Antropológicos
, Porto Alegre, v.14, n. 30, p. 21-65, jul./dez. 2008
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suas
“entradas”
e
“circulações”
facilitadas
nos
clubes
12
.
Bruno,
por
ser
descendente de italianos e após a obtenção de sua cidadania, realiza sua
transferência para um clube situado na Itália e tem o acesso facilitado a outros
países pelos quais passaria depois de deixar o país. Posteriormente Bruno
transferiu-se para clubes situados na Bélgica e Países Baixos, sendo que para
este último país o jogador regressa no ano de 2013 após um período de 2 anos.
Referindo-se
muito
mais
em
termos
de
uma
circulação
do
que
propriamente uma migração, Carmen Rial
13
infere que para além de cruzar
fronteiras como tantos outros migrantes, os jogadores-celebridades brasileiros
passam de um não-lugar a outro. Do clube para o hotel, para o aeroporto e, de
tempos em tempos, aos shopping-centers. Neste grande espaço de consumo
contemporâneo pelo qual podemos tratar os clubes de futebol,
nas suas mais
distintas escalas, a circulação de Bruno e consequente efetivação de outro
“sonho”,
em
grande
medida,
foi
possível
pela
intermediação
de
um
empresário, qual seja, “jogar na Europa”.
O
“sonho”
de
ser-tornar-se
jogador
de
futebol
não
se
limita
a
profissionalização, pois junto a isso vem a busca pelo mercado e pela circulação
para um destino quase unânime, o “mercado europeu”. Arlei Damo
14
chama de
“circuito” aquilo que caracteriza a troca de jogadores no mercado, integrado
ainda por bens simbólicos e bens materiais. Tal circuito é utilizado para
analisar como se dá o processo de
comodificação
dos jogadores de futebol, ou
seja, como eles foram sendo transformados em mercadorias, um objeto de
consumo. A massiva circulação de jogadores brasileiros em clubes do futebol
europeu não só é um resultado do grande contigente mobilizado de jovens e da
12
Em consonância com a legislação vigente para o futebol profissional organizado pela União
Européia de Futebol (UEFA), os clubes situados nos Países Baixos, assim como de tantas outras
ligas na “Europa”, obedecem um limite de contratação de jogadores “estrangeiros” ou “não-
europeus”. Um dos marcos para esta regularização foi o caso Bosman, no ano de 1995, onde
desde então limitou-se a quantidades de jogadores “estrangeiros”. No que se refere a
regularização da cidadania, a legislação dos Países Baixos estabelece o prazo de 5 anos de
permanência no país para que seja possível solicitar o pedido de cidadania. Sobre os processos
de cidadania e nacionalidade para jogadores de futebol, consultar: DA SILVA, Daniel Vidinha;
RIGO, Luiz Carlos; FREITAS, Gustavo da Silva. Considerações sobre a migração, a naturalização
e a dupla cidadania de jogadores de futebol.
Revista de Educação Física/UEM
, Maringá, v. 23, n.
3, p. 457-468, 3. trim. 2012.
13
RIAL, op. cit.
14
DAMO, Arlei Sander. The training of football players in Brazil.
Vibrant
, Brasília, v.6, n.2, p.29-49,
jul./dez. 2009.
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maquinaria envolvida no processo de exportação desses comodities, como
também diz respeito aquilo que está constituído este “sonho” de ser-tornar-se
jogador.
Assim, diante deste “circuito”, estas categorias se misturam ao mesmo
tempo sendo consumidoras e consumidas. Não raro, como já referimos, a
construção de uma imagem deste “sonho” está associada ao glamour midiático
e portanto mediada por uma relação na qual “bens simbólicos” e “bens
materiais” também são colocados como a imagem do jogador tem de si e de
sua carreira. Este
ser-tornar-se
ao qual nos referimos passa pela forma com que
parte dos “sonhos” foram sendo investidos e transformados; em formas de ser-
tornar-se a partir de uma relação com aquilo que se imagina o que se é,
vinculado a um desejo, e ainda a uma concretização irrealizável que se
transforma a medida que as condições para acessar estes “sonhos” são
colocadas em funcionamento.
Ao confrontar-se com as possibilidades para dar continuidade aos
“sonhos” por ora facilitadas, ora interrompidas, Bruno ao ser considerado
cidadão italiano permite-se fazer com que a circulação tão aguardada por
muitos fosse efetivada. Contudo, para isso não pode contar com o entourage
familiar nos países de seu destino, condições bem distintas dos jogadores-
celebridade pois estes são acompanhados por familiares, secretários, entre
outros.
Se os “sonhos” são refeitos em meio as condições para sua realização, ou
aos
campos de possibilidade
como refere-se Gilberto Velho
15
aos projetos,
colocar dessa forma a trajetória de Bruno e de outros futebolistas siginifica
afirmar que mais do que “ser” jogador de futebol por um determinado período
esta condição é exercida para tornar-se. Daí justificamos o uso deste
ser-tornar-
se
pois afinal Bruno também consome os seus “sonhos” refazendo-os ao longo
de sua carreira, circulando e decidindo sobre sua trajetória.
15
VELHO, op.cit.
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Jogadoras de futebol da década de 1980: a busca pelo reconhecimento
Mas pra
isso
que está
acontecendo, Marta,
isso
que
está
acontecendo aí. Teve um início, minha filha. Teve uma briga.
Teve uma luta.
16
Ao contrário de muitos “sonhos” já estabelecidos para o contexto do
futebol praticado por homens, mesmo tendo em vista os distintos contextos
históricos, a “luta” exposta acima por uma jogadora da década de 1980 faz
referencia a trajetória histórica do futebol praticado por mulheres no decorrer
do século XX no Brasil
17
. A regulamentação desse jogo para as mulheres em
1983 não pôs fim a ideia de luta. Através da Deliberação 01/83, o Conselho
Nacional de Desportos, entre outras regras, estabeleceu que o tempo da
partida seria de 70 minutos com intervalos de 15 a 20 minutos. Além disso,
ressaltou que as atletas não poderiam trocar de camisas com as adversárias
após uma partida
18
. No entanto, faltava ainda uma profissionalização, um
reconhecimento dessa modalidade segundo as interlocutoras.
Carmen Rial
19
afirma que, na atualidade, a presença das mulheres no
futebol fez com que este esporte perdesse seu caráter de gênero, deixando de
ser marca de masculinidade. Entretanto, quando nos transportamos para o
início dessa presença, quando há um recomeço no início da década de 1980,
essa fronteira entre um futebol de características masculinas e femininas
parece ser bem mais demarcada. Isto porque estamos falando de um período
em que o futebol está consolidado como parte da identidade nacional, porém,
uma identidade construída a partir de uma norma masculinizadora.
16
Trecho de entrevista com uma das interlocutoras, jogadora do Esporte Clube Radar durante a
década de 1980. Neste trecho referência feita à Marta Vieira da Silva, escolhida cinco vezes a
melhor futebolista do mundo pela FIFA.
17
Referente ao trabalho de campo de uma das autoras realizado em junho de 2012 no Rio de
Janeiro com ex-jogadoras do Esporte Clube Radar, equipe carioca referência no futebol
praticado por mulheres durante a década de 1980 sendo seis vezes campeã da Taça Brasil de
Futebol Feminino, além de ter representado o país em torneios internacionais.
18
Essa última regra se deve ao episódio ocorrido no Morumbi durante um jogo de futebol de
mulheres
realizado
durante
I
Festival
Internacional
das
Mulheres
na
Arte,
quando
a
organizadora do evento, Ruth Escobar, trocou de camisa com uma das jogadoras da seleção
paulista.
19
RIAL, Carmen. “Rúgbi e Judô: esporte e masculinidade”. In: GROSSI, M. e PEDRO, Joana M.
(orgs).
Masculino, feminino, plural.
Florianópolis: Ed. Mulheres, 1998.
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Por sua vez, Judith Butler (2003, p.9) problematiza as
regulações de gênero
a partir de uma heterossexualidade compulsória e atribui um papel importante
à linguagem na produção da construção das “categorias fundacionais de sexo,
gênero e desejo”
20
. Fazendo uma analogia com a prática do futebol, podemos
dizer que o esporte foi ao longo do Século XX “masculinizado” não apenas no
Brasil mas também em outros países
21
. No país, como já se sabe, as leis
proibitivas em 1942 e 1965 ajudaram a reforçar esse processo performativo já
que ajudaram a legitimar uma espécie de “ordem” considerada natural ao
permitir uma dominação masculina dentro de campo.
Somado a isso, Carmen Rial(2013, p.116)
22
sugere que mesmo ao se
atribuir uma certa invisibilidade ao futebol praticado por mulheres não as torna
menos obrigada a serem comparadas aos resultados e performarces das
seleções nacionais do futebol praticado por homens. Entre as interlocutoras
que praticaram este futebol durante a década de 1980 fica evidenciado durante
seus relatos não somente a tentativa de comparação com a prática de futebol
por homens no que se refere ao reconhecimento profssional, mas também a
obtenção
de
um
status
e
privilégios
conferidos
ao
voleibol.
Ademais,
constantemente o futebol de mulheres é remetido ao reconhecimento e a
organização como as que são exercidas nos Estados Unidos e alguns países da
Europa.
Pensar a trajetória das jogadoras de futebol durante a década de 1980
nos remete a uma busca por um certo reconhecimento. No entanto, este não
aparece apenas na ideia de tornarem-se celebridades, de abandonarem a
condição também referida aqui de “infame”, ou “não-famosa”. Nas narrativas
das jogadoras do Esporte Clube Radar (daqui em diante apenas Radar)
23
, o
reconhecimento acabava mostrando-se em estágios de relações sociais ainda
20
BUTLER, Judith. Sujeitos do sexo/gênero/desejo. In:____.
Problemas de Gênero
: feminismo e
subversão da identidade. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2003.
21
As proibições ocorreram em parte da Europa, após um período de ascensão do futebol
“feminino” que coincidiu com a I Guerra Mundial e o ingresso massivo de mulheres em esferas
públicas.
22
RIAL, Carmen.
El invisible (y victorioso) fútbol practicado por mujeres en Brasil.
Nueva
Sociedad
, Buenos Aires, n. 248, nov-dez, p. 114-126,
2013.
23
Com sede no bairro de Copacabana, cidade do Rio de Janeiro, o Esporte Clube Radar
representou durante a década de 1980 o principal clube do país: foi hexacampeão da Taça
Brasil de Futebol Feminino, campeão do Torneio Brasileiro de Clubes em 1989, além de
representar a Seleção Brasileira no mesmo ano em Campeonato Mundial.
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porvir. Essa rede de relações é mais bem explicada a partir da história de vida
e do papel social conferido pelas próprias jogadoras. Isso corrobora com a
ideia de
projeto
e
metamorfose
pensada por Gilberto Velho
24
.
A
metamorfose
é
aduzida no sentido de “mudança individual dentro e a partir de um quadro
sociocultural”
25
.
O
autor
percebeu
que
os
movimentos
de
contracultura
auxiliaram no processo de
apresentação de um novo eu
26
.
Dessa forma, atribui à
sociedade urbana contemporânea a tendência de constituir identidades a
partir de um intenso
jogo de papéis sociais
que são adaptados a experiências e a
níveis de realidade diversificados, podendo ou não apresentar conflitos ou
contradições.
Diante das narrativas de algumas jogadoras de futebol brasileiras da
época, podemos associar o reconhecimento a um
projeto
a ser alcançado. Esse
projeto, não obstante, é subdividido em estágios a serem alcançados partindo
de uma nova apresentação do
self
baseado em novas posturas de luta –
metamorfose
.
O reconhecimento do futebol de mulheres, segundo essas jogadoras do
Radar
, gera uma linha mais ou menos progressiva que culminaria em um estágio
ideal: dispor de uma retribuição econômica estável, ter um “calendário” onde
seria possível manter-se em atividade durante o ano, adquirir certa visibilidade
pela qual seria possível a manutenção de um público de apoiadores do esporte
e receber acolhimento familiar estão entre esses ideais. Ao contrário dos
futebolistas brasileiros que têm seus projetos de carreira apoiados pela família
desde meninos, como já referido, bem como de parte das jogadoras brasileiras
na atualidade
27
, as “boleiras” do Radar, em grande parte, tinham um projeto
individual na medida que muitas não foram incentivadas por suas famílias para
a continuidade da prática. Entre as jogadoras que atuaram na década de 1980
no Radar, a maioria relatou que a família não oferecia qualquer suporte para
24
VELHO, op.cit.
25
Idem, p. 7.
26
Para tanto, Gilberto Velho utiliza da ideia de Erving Goffman de
presentation of self.
27
Referente ao estudo etnográfico feito com as jogadoras do Foz Cataratas. Ver: PISANI,
Mariane da Silva.
Poderosas do Foz
: trajetórias, migrações e profissionalização de mulheres que
praticam futebol. 2012. 166 f. Dissertação (Antropologia) - Centro de Filosofia e Ciências
Humanas/Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2012
.
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carreira, o que fez com que começassem mais tardiamente a “levar a sério” o
futebol
28
. O incentivo afetivo-material da família, quando recebido, aconteceu
nos momentos nos quais já se destacavam em campo, no entanto, restringia-se
mais a presença dos membros da família aos jogos do que algum auxílio
financeiro. Sua iniciação, oscilava entre aquelas que já praticavam outros
esportes durante a adolescência e aquelas que começaram a jogar com irmãos,
primos e amigos.
Com relação as condições materiais para a continuidade da prática no
Radar, muitas jogadoras trabalhavam em outras atividades além do futebol,
principalmente aquelas que possuíam formação acadêmica, sendo que o
sentimento de inexistência de um profissionalismo em tal prática fez com que
algumas delas procurassem recursos “fora do gramado”:
A pessoa também tem que ter uma cultura e parar de estudar
nunca foi uma boa porque essas meninas logo para frente
pararam de jogar. Carreira encerra e não ganha dinheiro. Não
ganhavam dinheiro e depois ter que retomar os estudos, e eu
dizia:
estudem
gente,
porque
futebol
feminino
é
uma
brincadeira hoje. É um sonho, mas é uma brincadeira. Não é
profissional, não vai. A não ser uma ou outra que saia, mas
ninguém saía naquela época. Uma ou outra.
29
Aqui,
cabe
a
discussão
do
que
seria
profissionalismo
para
essas
jogadoras de futebol. O “ser” profissional está contido na forma de receber
compensações pecuniárias pela permanência no clube a ponto de não precisar
de outra ocupação remunerada. Em grande medida, o profissionalismo no
futebol praticado por mulheres esteve contido também na possibilidade de
adquirir bens de consumo, comprar imóveis, “ajudar” materialmente familiares
apenas através desta prática. Sobre o tema, a reportagem “As Invencíveis” da
revista
Placar
30
, destaca como a “ponta-de-lança”
31
Pelezinha viveu através do
futebol como a única chance de um “futuro financeiro mais seguro”, já que
28
Idem. Pisani também questiona a forma tardia como as mulheres ingressam no futebol. No
entanto, seus argumentos apontam para a falta de escolinhas destinadas à formação exclusiva
de jogadoras.
29
Fragmento de entrevista com o relato de uma ex-jogadora do Radar. Sua prática enquanto
futebolista foi entre os anos de 1979 e 1996.
30
ARAÚJO, Maria Helena. Revista Placar. “As invencíveis”, 1 de fevereiro de 1985. p. 26-28.
31
A “pontas-de-lanças” se refere a ocupação espacial e o cumprimento de certas funções
durante o jogo por determinada jogadora. É considerada uma posição de “ataque” e
normalmente
empregada
nas
disposições
espaciais
conhecidas
por
“sistemas
táticos”,
especificamente no “4-3-3”.
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havia parado com a educação formal ainda no “primário”, assim “apostava” na
profissionalização do esporte.
Dentre
as
mulheres
entrevistadas,
somente
uma
das
interlocutoras,
apesar de ser formada em Direito e Artes Dramáticas, afirmou ter vivido apenas
do futebol. Porém, apesar da iniciativa referida pela jogadora de inserção da
profissionalização do futebol de mulheres na Constituição de 1988, apenas em
1998, com a Lei Pelé
32
pode-se perceber um movimento mais amplo em prol da
profissionalização do esporte no Brasil. Em 1993, a Lei Zico já sugeria regras à
profissionalização do futebol, mas foi a Lei Pelé que apresentou
caráter
impositivo.
Assim como entre as jogadoras, é possível estabelecer uma relação com
a questão do profissionalismo no futebol praticado por mulheres a partir de
alguns meios de comunicação. Como afirma a reportagem: “Meg mora com
duas amigas em Copacabana é professora de educação física e não vive do
futebol. Tem a esperança de que, com a chegada do profissionalismo, isso possa
acontecer. Enquanto isso ela treina com a dedicação de um profissional”
33
.
Assim, os relatos de jogadoras e de alguns (poucos) meios de comunicação
constantemente salientaram a necessidade de uma legislação própria ao
profissionalismo do futebol praticado por mulheres no Brasil e com isso uma
modificação com relação às compensações pecuniárias tão importantes para a
sustentação de um projeto também coletivo.
Ao
romper
com
certas
impossibilidades,
novas
concepções
são
introduzidas,
tendo,
por
sua
vez,
a
invenção
de
novas
condições
de
possibilidade. Tratam-se de modificações que não se limitam às possibilidades
individuais,
mas
que
passaram
por
projeto/alcance,
luta/metamorfose,
reconhecimento, novas formas de relações sociais, indo ao encontro do que
Jean Williams chamou de
macroprofissionalismo
, estágio atual do futebol de
mulheres na Europa
34
.
32
A Lei Pelé instituía normas gerais ao desporto brasileiro baseadas na Constituição Federal.
33
ARAÚJO, op.cit.
. p. 28.
34
Jean Williams periodizou a história do futebol jogado por mulheres em parte da Europa em:
microprofissionalismo,
mesoprofissionalismo
e
macroprofissionalismo.
WILLIAMS,
Jean.
Women’s Football, Europe and Professionalization 1971-2011:
Global Gendered Labor Markets”,
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Como destacamos, o futebol praticado por mulheres foi cercado por
proibições que fez com que as relações que suas praticantes mantivessem com
a prática tivessem de ser reestabelecidas e retomadas em meio aquilo que lhes
fora associada durante a aplicação de tais leis, muitas vezes lidando com
estigmas e certos preconceitos. Tais dificuldades foram consideradas um signo
de luta pela resistência de algumas mulheres contra limites impostos por uma
suposta proteção que tornara proibida às mulheres a prática do futebol, fosse
esta recreativa ou não. Conforme ressalta uma das interlocutoras:
A vida pra mim depois que eu comecei a liderar o futebol
feminino foi muito cansativa porque eu enfrentei muita barreira,
muito preconceito nos clubes. Mas, graças a Deus, eu consegui
me impor. Consegui mostrar para as pessoas que futebol
feminino era um esporte como qualquer outro, para mulheres
35
.
Mesmo
ao
considerar
o
futebol
como
um
símbolo
de
identidade
nacional principalmente ligado a prática exercida por homens - não somente
durante o período de retomada do “futebol feminino” -, essas mulheres e suas
muitas “lutas” dão início a um processo longo e contínuo de reconhecimento
para tornarem possível a existência de um projeto coletivo-individual ligadas a
esta prática esportiva.
Formação
e
profissionalização
de
jogadoras:
o
futebol
praticado
por
mulheres praticado atualmente
A minha família falava que eu era menina e que eu não podia
jogar futebol, porque isso é coisa de menino. Meus irmãos me
chamavam de 'maria-macho', mas eu continuei correndo atrás,
porque
eu
gostava.
Agora
eles
até
entendem.
(Trecho da
entrevista concedida pela jogadora Nicole Graziele de Araujo
36
)
Eu comecei a jogar futebol na escolinha com meus irmãos, é
que sou gêmea, gêmea com um menino. Colocaram meu irmão
na escolinha e eu falei: ‘ah também quero’. Porque era uma coisa
nova. E meu pai também foi jogador de futebol. Minha mãe falou
que não ia dar nada, que era só pra fazer uma atividade física,
então tudo bem. Aí começou a escolinha e começaram aqueles
foomi-net Working Papers No. 1, 2011. Disponível em: <http://www.diasbola.com/PDF/foomi-
os/WILLIAMS_Working%20Paper%20no%201.pdf> . Acessado em: 23 Dez. 2013.
35
Trecho de entrevista com uma das interlocutoras relativo ao trabalho de campo com as
jogadoras do Radar da década de 1980.
36
A jogadora, com 12 anos quando concedeu a entrevista em maio de 2013, atuava no Centro
Olímpico de Treino e Pesquisa, estado de São Paulo, Brasil.
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campeonatinhos de escolinha. E eles [os meninos] reclamavam:
‘ah, eu não vou jogar contra menina, que menina é muito
chorona, vai tomar bolada e vai chorar’. Tinha campeonatinho
de federações e diziam: ‘não, não, porque não aceita menina,
tem uma lei, uma regra, só menino pode jogar’. Aí minha mãe ia
lá, conversava com o pessoal: ‘ah, eu queria vê-la jogar’. E eles
diziam: ‘ah, tá bom, então você joga’. O nosso time ganhava
sempre. Os pais reclamavam ‘não, mas menina não pode jogar!
Porque meu filho ficou tomando ‘rolinho’ de menina, assim não
dá’.
(Trecho
da
entrevista
concedida
pela
jogadora
Paula
Andressa Pires
37
).
Eu considero o futebol profissional, apesar de ele ser amador no
papel, eu ganho para fazer isso, eu saio de minha casa às oito da
manhã, eu chego em casa às sete horas da noite, trabalho dois
períodos por dia, então eu considero isso como uma profissão.
Seria egoísta, deixa eu achar outra palavra, seria amadora em
dizer
que
a
profissão
é
amadora,
porque
eu
luto
pela
profissionalização dela. (Trecho da entrevista concedida pela
jogadora Marina Aggio
38
).
Se para algumas mulheres das décadas de 1980 e 1990 existiu uma
grande mobilização para a conquista de espaços profissionais no futebol, no
momento atual, Nicole, de apenas 13 anos, é uma adolescente que está dando
seus primeiros passos em direção à profissionalização esportiva no futebol
praticado por mulheres. Ao enfrentar algumas negativas por parte de familiares
em uma fase inicial daquilo que pode vir a se tornar uma carreira, ela afirma
não ter esmorecido em seu desejo. Atualmente cursa o oitavo ano do ensino
fundamental e “entra em campo” ao lado de outras meninas duas vezes por
semana com o intuito de incorporar um capital que se exerce com a bola. O
Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa, da cidade de São Paulo, oferece a
ela,
além
dos
treinos,
acompanhamentos
diários
com
fisioterapeutas
e
psicólogas especializados em desenvolvimento esportivo de alto rendimento.
Nicole “sonha” em
ser-tornar-se
um dia uma “grande” jogadora de futebol.
A jogadora Paula, de 26 anos, relata que também passou por essa etapa
inicial de inserção no contexto futebolístico. Diferentemente de Nicole, Paula,
assim
como
outras
jogadoras vivendo
em
um
mesmo
contexto
histórico,
precisou jogar entre os meninos. Durante muito tempo ela afirmou que jogar de
37
A jogadora, que tinha 23 anos quando concedeu a entrevista em outubro de 2011, atuava no
ADI/Foz Futebol Feminino, estado do Paraná, Brasil.
38
A jogadora, que tinha 31 anos quando concedeu a entrevista em outubro de 2011, atuava no
ADI/Foz Futebol Feminino, estado do Paraná, Brasil.
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igual para igual – correr, driblar, bater, gritar - era a única forma de assegurar o
seu espaço em campo. Dessa forma, antes que pudesse disputar campeonatos
só de mulheres, Paula precisou, por diversas vezes, comprovar o seu valor
esportivo diante de treinadores, colegas de time e comissões organizadoras.
Diante de uma relativa importância no contexto do futebol praticado por
mulheres, goza de certo reconhecimento pois já foi convocada para atuar na
Seleção Brasileira de Futebol.
Marina, por sua vez, foi uma das jogadoras titulares da Seleção Brasileira.
Atualmente, com 34 anos, encontra-se próximo do momento de interromper sua
carreira no futebol, conforme destacou durante os contatos do trabalho de
campo. Segundo sua própria referencia para o momento inicial de sua carreira
em meados da década de 1990, suas recordações são nuançadas por uma
ênfase em muitos esforços tanto individuais quanto coletivos. De um lado,
referiu-se a necessidade de sua afirmação enquanto jogadora de futebol, por
outro, somado a tantas outras personagens do contexto do futebol nacional, ela
“lutava”, e ainda “luta” através de sua prática, para que o futebol praticado por
mulheres seja reconhecido como um trabalho, e que portanto, goze de direitos
destinados a uma categoria profissional.
Ao verificar a permanência desta busca por reconhecimento que inicia
com mulheres na década de 1980 e perpassa por muitos anos de invisibilidade
é possível supor a existência de um projeto coletivo para tornar viável o futebol
praticado por mulheres? Marina, assim como outras atletas, busca maior espaço
para a consolidação da prática do futebol feito por mulheres no Brasil. Dessa
forma ela “aposta” em um contexto mais favorável e menos hostil para jovens
atletas, como Nicole, no que se refere a prática do futebol feita por mulheres e
sua inserção no mercado indo em direção a
comodificação de si
próprias, busca
por melhores condições de trabalho e de vida segundo afirmam. Além disso,
conquistar novas referências e com isso modificar seus próprios projetos
diante
daquilo
que
esperam
ao
serem-tornarem-se
jogadoras
de
futebol.
Também,
tendo
como
exemplos
alguns
lampejos
de
reconhecimento
de
algumas
“sonhadoras
que
deram
certo”
elas
alteram
uma
“norma
masculinizante” que mantém uma referência àquilo que se imagina o futebol
praticado por homens e mulheres.
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Paira sobre o senso comum a ideia de que o futebol feito por essas e
outras mulheres é uma prática esportiva amadora e que não se configura como
uma profissão. Os argumentos que sustentam tal posição são recorrentes e
provem de lugares variados. Alguns dos
profissionais
, dos
especialistas
e dos
torcedores
39
do meio futebolístico declaram que o aparente descompromisso
das atletas, a miníscula visibilidade midiática e os escassos investimentos
financeiros são alguns dos elementos que limitam enormemente o alcance de
alguns destes projetos de vida no que se refere a concretização profissional da
modalidade. A falsa percepção que se tem sobre o amadorismo deste futebol
faz com que o mesmo permaneça relegado a um segundo plano, seja no
cenário desportivo, jornalístico ou acadêmico brasileiro
40
.
Ao referirmo-nos
à
formação e profissionalização de jogadoras de
futebol da última década, necessariamente tomamos em consideração os
muitos processos das lutas e das conquistas adquiridas ao longo dos últimos 35
anos. Se até o ano de 1979 o futebol feminino no Brasil permanecera proibido
por lei, conforme já referido, atualmente muitas daquelas se reconhecem
enquanto “sonhadoras” podem exercer esta prática com muitas condições
anteriormente
negadas,
inclusive,
cogitar
uma
carreira
esportiva
na
modalidade.
Dessa
forma,
ao
considerar
o
profissionalismo
futebolístico
enquanto um processo social em constante transformação
41
, não podemos
supor que o futebol praticado por mulheres é um esporte amador. Afirmar o
contrário significaria desqualificar o cotidiano das mulheres que atualmente
atingiram uma condição pelas quais muitas outras buscaram e buscam e todo o
histórico de busca por reconhecimento social travados não só durante a
retomada do futebol praticado por mulheres, mas ao longo do século XX no que
se refere a inserção da mulher no mercado de trabalho, entre tantas outras
disputas.
39
Especificamente categorias utilizadas no livro: TOLEDO, Luiz Henrique de.
Lógicas no futebol.
São Paulo: Hucitec, 2002.
40
Empiricamente, entre muitos outros exemplos, podemos aferir esse dado no
Centro
de
Referência do Futebol Brasileiro
, inaugurado em outubro de 2013 no Museu do Futebol. Apenas
dois trabalhos sobre Futebol Feminino figuram em seu acervo, em contraposição aos inúmeros
artigos, matérias esportivas, fotos e livros produzidos sobre o futebol praticado por homens.
41
DAMO, Arlei Sander. A dinâmica de gênero nos jogos de futebol a partir de uma etnografia.
Gênero
, Niterói, v. 7, n. 2, p. 137-152, 1. sem. 2007.
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As jogadoras, na qualidade de atores sociais e através de suas escolhas –
agência e intencionalidade –, determinam seu lugar no mundo. Contudo,
segundo Sherry Ortner
42
, é impossível imaginar que o agente é livre ou que
age sem restrições. Mesmo que elas escolham “livremente” serem jogadoras
de futebol, atuam sobre certas condições de tempos em tempos. Tendo de lidar
com muitos preconceitos relacionados ao fato de serem mulheres e de manter
uma carreira profissional por meio do esporte (e ainda, do futebol), ainda hoje,
recebem muitos adjetivos que são usados para desqualificá-las: “machonas”,
“masculinas”, “sapatão”, entre outros. Dessa forma, acompanhar o processo de
formação e profissionalização das mulheres boleiras é conviver diariamente
com outros personagens que são, por vezes, determinantes nessa trajetória.
Assim como no caso de homens na busca pela concretização da tão almejada
carreira profissional, familiares, amigos/as, namorados/as e ténicos/as são
algumas personagens que tensionam algumas relações com o poder desta
prática
esportiva, auxiliando nas
escolhas
profissionais,
amenizando as
“derrotas”
e
“aplaudindo” as
“vitórias” e
assim tornando
possível
o
prosseguimento na carreira.
Como destacamos através das falas de Nicole e Paula, os familiares
podem ser, por vezes, personagens centrais no processo de formação e
profissionalização de uma jogadora de futebol. Se muitas jogadoras não levam
adiante suas carreiras profissionais, mais do que a falta de oportunidades que o
próprio campo esportivo apresenta, o apoio familiar - ou a ausência dele -
mostra-se determinante na trajetória esportiva delas. De uma certa maneira, a
insistência da mãe de Paula em poder ver sua filha participar dos jogos, faz
com que Paula persista na prática e, se desejar, possa “sonhar” com uma
carreira evitando assim uma precoce desistência. Já para Nicole, o primeiro
entrave que foi preciso superar encontrava-se “dentro de casa”. Em seu caso,
após a “aposta”, investimento e incentivo de um parente, as demais familiares
passam a apoiar sua carreira. Ambas as jogadoras continuam atuando como
atletas: Paula segue como jogadora profissional, agora no São José Esporte
42
ORTNER, Sherry B. Subjetividade e crítica cultural.
Horizontes Antropológicos
, Porto Alegre,
ano 13, n. 28, p. 375-405, jul./dez. 2007.
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Clube; e Nicole continua seus treinos com pretensões profissionalizantes no
Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa.
As redes de amizades e de afetos das jogadoras de futebol também se
mostram muito relevantes na hora das escolhas e dos direcionamentos que elas
dão
para
suas
carreiras
profissionais.
É
através
da
existência
das
redes
informais que elas circulam dentro e fora do país, muito semelhante ao que
acontece com nigerianas que atuam nos clubes Escandinávos
43
. Aos 20 anos de
idade Paula recebeu uma proposta para jogar nos Estados Unidos. Uma amiga
brasileira - também jogadora de futebol - indicou-a ao técnico estadunidense e
esse, prontamente, convidou Paula à ingressar no time. Segundo a jogadora, a
experiência de atuar no exterior é uma das mais importantes no que diz a
respeito a formação de uma jogadora de futebol, fazendo sua circulação para
muitos outros mercados diferentes se comparados ao eurocentrismo de muitos
homens. Marina acompanhou Marta até a Suécia (um dos destinos privilegiados
segundos
elas)
onde
essa
havia
sido
contratada
para
“jogar
bola”.
Na
qualidade de tutora, uma vez que Marta era menor de idade, Marina acabou
recebendo, também, um convite para jogar. Vale ressaltar que a experiência
internacional adquirida por essas e outras atletas é um aspecto levado em
consideração, quando retornam ao Brasil, no momento de discutir salários e
contratos com os clubes daqui.
Considerações finais
Ao longo do texto enfatizamos algumas condições de acesso para a
constituição de algumas carreiras e da possibilidade da prática do futebol em
um contexto muito particular. Algumas divergências radicalmente opostas no
que se refere ao “projeto de vida” vem se transformando para algumas
mulheres principalmente tendo em conta o suporte familiar que algumas delas
43
ENGH, Mari Haugaa; AGERGAARD, Sine. Producing mobility through locality and visibility:
Developing a transnational.
International Review for the Sociology of Sport,
published online 18
November
2013,
DOI:
10.1177/1012690213509994.
Disponível
em:
<
2013.
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passaram a receber nos últimos anos.
Embora, ainda se mantenham distantes
da visibilidade que almejam, mulheres e homens não-celebres vão refazendo
seus projetos, seja “dentro” ou “fora” do futebol a partir de algumas condições
colocadas por suas persistências e desistências, entre elas: a decisão de “sair”
do país, as negociações de contrato, a busca pela educação formal para além
do futebol, a manutenção dos clubes e a abertura de escolinhas para “elas”, o
reconhecimento da viabilidade do futebol enquanto uma profissão, etc.
Tendo em vista a percepção de uma carreira baseada em trajetórias de
sucesso de grandes celebridades do futebol mundial ou ainda, em menor
escala entre as mulheres, em atletas consagrados de outras modalidades
esportivas no país, homens e mulheres também tem seus projetos sustentados
por parte do reconhecimento público do esporte ao longo do século XX.
Especialmente no Brasil, o futebol (nas suas mais diversas formas) ainda
se
mantém
com
grande
visibilidade
midiática
e,
principalmente,
quando
tratamos da prática feita por homens. Entretanto, mesmo para estes últimos as
possibilidades para permanecer em uma carreira não são unânimes e, de certa
forma, bastante desiguais. Diferenças também acentuadas quando mantemos a
divisão binária no contexto do futebol “profissional”: de mulheres e de homens.
Por
um
lado,
uma
organização
bastante
incipiente
no
que
se
refere
à
regularidade das competições e do funcionamento dos clubes. De outro, uma
grande hierarquia entre os clubes para os homens fazendo que boa parte deles
alternem períodos de desemprego e contratos de curtíssimo prazo. Condições
estas que reforçam as desistências, algumas permanências e a transformação
dos projetos mesmo sem muitas possibilidades de reconversão de um capital
corporal investido ao longo de anos.
Quanto aos projetos individuais e coletivos pautados pelas difenreças de
gênero, enquanto as mulheres ainda lutam para que toda a categoria saia de
uma zona de “invisibilidade”, tornando assim viável os “sonhos” de muitas, os
jovens boleiros vislumbram uma ascensão individual rumo ao circuito do
“futebol europeu”, embora não se deva tratar isto como regra.
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De acordo com Carmen Rial
44
, o futebol no Brasil, enquanto profissão é
altamente excludente. A autora afirma que, entre os homens, estima-se que de
cada cem jogadores que disputam a categoria de juniores, apenas um atinja a
categoria profissional. E desses, 90% receberão entre 1 e 4 salário mínimos.
Sobre as mulheres, por enquanto não existem
dados que detalhem esta
condição. No entanto, em uma peneira realizada no Santos F.C., considerada a
melhor equipe de mulheres do país em 2010, 1500 boleiras disputavam uma
das 25 vagas do time. Os salários da categoria, usualmente, não ultrapassam
àquele limite de quatro salários mínimos oferecidos aos jogadores. Mesmo
assim, os discursos das jogadoras apresentados aqui apontam para um futuro
mais promissor dentro do esporte, onde um modelo de profissionalização
baseado num maior apoio financeiro, midíatico, estrutural e social tornasse
possível sua prática de maneira profissional não apenas sazonalmente.
Algumas
mudanças
vêm
sinalizando
uma
possível
modificação
e
reestruturação do futebol, pelo menos de algumas condições para o exercício
da
profissão.
Conforme
observou-se
nos
últimos
meses,
as
recentes
manifestações de um grupo de jogadores ficaram conhecidos por não manter
nenhum tipo de vinculação institucional sendo reunidas sobre o signo de
Bom
Senso Futebol Clube
. Muitos destes jogadores já com carreiras constituídas
dentro do “futebol europeu” e regressos ao Brasil, colocam em pauta também
as significativas distâncias entre as trajetórias de homens. Como se não fosse
suficiente o questionamento de uma condição coletiva
para o futebol dos
homens (questões que as mulheres vem colocando insistentemente), parecem
somar esforços com a permanente invisibilidade das mulheres. A jogadora da
seleção brasileira Marta, recentemente manifestou seu interesse em incluir o
futebol praticado por mulheres na pauta das reivindicações do
Bom Senso
Futebol
Clube
:
"Não
podemos
cair
no
esquecimento,
é
um
movimento
44
RIAL, Carmen. “Porque todos os ‘rebeldes’ falam português”: a circulação de jogadores
brasileiros/sul-americanos
na
Europa,
ontem
e
hoje.
Antropologia
em
primeira
mão
.
Florianópolis, PPGAS/UFSC, n. 110, p. 1-22, 2009.
| DOSSIÊ FUTEBOL E DIVERSIDADE CULTURAL
Espaço Plural • Ano XIV • Nº 29 • 2º Semestre 2013 • p. 170 - 192 • ISSN 1981-478X
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interessante para fazermos nossas reivindicações e brigar um pouco mais por
espaço dentro do país. Precisamos de mais apoio
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".
O movimento de jogadores de futebol
foi criado no final de setembro de
2013 com os slogans “Convidamos a Todos por uma Revolução” e “Por um
Futebol
Melhor
para
Todos”
e,
conforme
pode-se
acompanhar,
ganhou
proporção durante as demais rodadas do Campeonato Brasileiro. O papel
político assumido por esse grupo de jogadores
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remete a outros episódios
ocorridos dentro do futebol brasileiro, entre eles, a chamada Democracia
Corinthiana e a histórica luta em prol de um profissionalismo dentro futebol
praticado por mulheres pela Liga Brasileira de Futebol Feminino
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.
Não se sabe até que ponto tais reivindicações estabelecem diálogos com
as insurgências coletivas que marcaram o país nos últimos meses, indicando
uma nova forma de fazer política, qual seja, sem centro, fora de sindicatos,
desinstitucionalizada
e
com
reivindicações
concretas
e
múltiplas,
dada
a
terceirização do trabalho em muitos setores. Salta a vista, através de tais
reivindicações, as diferentes condições de exercício de uma carreira entre os
homens futebolistas e do alcance que estas trajetórias podem ter nos muitos
homens e mulheres não-celebres, futebolistas ou não. Assim, reafirmamos a
centralidade
conferida
a
alguns
futebolistas
como
uma
entre
tantas
personagens potencialmente célebres.
Embora constituída por alguma identidade que se fez e se mantém como
referência, estas contestações de alguns jogadores de futebol desestabilizam
algumas instituições e seus agentes, bem como vem fazendo por longos anos
muitas mulheres, futebolistas ou não. Se o futebol e suas muitas personagens
ainda se constituem como projetos, em última instância, individuais, as novas
formas de organização política vem indicando maneiras de alterar algumas
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RIZZO, Marcel. Marta pede ajuda ao Bom Senso por melhorias no futebol feminino.
Folha de
São
Paulo
,
13
de
janeiro
de
2014.
Disponível
em:
por-melhorias-no-futebol-feminino.shtml> Acessado em: 13 Jan. 2014.
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De
maneira
mais
destacada,
alguns
jogadores
tem
respondido
por
um
movimento
aparentemente sem líder. Entre outros jogadores que constituem o Bom Senso Futebol Clube,
figuram Alex (Coritiba), Rogério Ceni (São Paulo) e Paulo André (Corínthians), ainda que, estes
mesmos não se intitulem enquanto líderes.
47
A Liga Brasileira de Futebol Feminino surgiu da Associação de Futebol Feminino do Estado
do Rio de Janeiro em 1987 e começou a questionar as condições do futebol praticado por
mulheres no país. Entre suas fundadoras está a ex-jogadora
e técnica de futebol, Rose do Rio.
De apostas, promessas e sonhos: Alguns projetos interrompidos e facilitados de
futebolistas não-célebres
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Jahnecka, Almeida & Pisani
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relações que mantemos com a fama, o reconhecimento, em suma, com o poder.
Como colocou uma de suas manifestantes durante as mobilizações de junho
passado no Brasil: “anote aí, eu sou niguém”. Mas estas relações já são tema
para um outro texto.
Recebido em 09.01.2014
Aprovado em 09.05.2014
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