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Red de Revistas Científicas de América Latina y el Caribe, España y Portugal
LEMBRANDO LÉLIA GONZALEZ
1935 - 1994
Luiza Bairros*
Havia uma aldeia. Um dia chegou a essa aldeia uma amazona de
torço estampado de esperança, montada num cavalo negro como
nossa ancestralidade.
E ela, como um antigo “griot”, contava e contava histórias.
Histórias das mulheres guerreiras, histórias dos Núbios, de civi-
lizações egípcias cor da noite que construíram a base da humani-
dade. Contava história de Nani, no centro da América defenden-
do seu povo.
O que ela queria, todo o tempo, era passar para o povo da aldeia
o entendimento daquilo que eles viam a seu redor. O tempo todo
ela contava a perspicácia dos caminhos que outras tribos percor-
reram. Ela transmitia CONHECIMENTO.
A idéia de liberdade passada por essa amazona, de torço estam-
pado de esperança, montada em seu cavalo negro como nossa
ancestralidade era tanta, que várias outras aldeias, tribos, esta-
dos pararam para ouvi-la.
E absorviam cada idéia contada por ela.
Um dia, quando a aldeia acordou, percebeu que ela havia partido.
Todos ficaram perplexos, confusos.
.. Como? Quem nos contaria
outras histórias, quem?
A aldeia caiu em desânimo, tamanha era a falta que fazia a amazo-
na de torço estampado de esperança, montada em seu cavalo
negro como nossa ancestralidade.
De repente, as pessoas se entreolharam e compreenderam que
ela precisava continuar o seu caminho e que caberia a cada um
transformar a semente deixada em substância. Caberia a cada
* Integrante do Yalodê - Centro de Referência da Mulher Negra, Salvador, BA; doutoranda
em Sociologia pela Michigan State University. Agradecimentos: a Néia Daniel, pela
permissão
para a publicação de seu texto, apresentado por Hilton Cobra no Teatro
Carlos Gomes, Rio de Janeiro, em
julho de 1994; a Maria Nazaré Mota de Lima, pela
revisão do original.
aldeia, cada tribo, cada estado que bebeu de suas idéias, difundi-
las. Grande era essa tarefa, pois caberia a todos eles, a todos
Nós, tornar os homens e mulheres conscientes de sua negritude.
Valeu,
Lélia Gonzalez!
(Texto de Néia Daniel)
Conheci Lélia Gonzalez quando entrei para o Movimento Negro Unifica-
do-MNU em 1979. Ela era membro da Comissão Executiva Nacional, e a
todos surpreendia pelo comportamento ousado, a risada de corpo inteiro, o
linguajar popular, bem ao modo do falar carioca, salpicado de expressões
acadêmicas, que até permitia que nós, os militantes mais novos, entendês-
semos o que é epistemologia! Na época, não havia ninguém com a capa-
cidade dela de pulverizar os argumentos racistas nos debates de que par-
ticipávamos, de defender a legitimidade e a necessidade do movimento
negro, quando todos os setores auto-intitulados progressistas nos acusa-
vam de divisionistas da luta popular. Quando a maioria das militantes do
MNU ainda não tinha uma elaboração mais aprofundada sobre a mulher
negra, era Lélia que servia como nossa porta-voz contra o sexismo que
ameaçava subordinar a participação de mulheres no interior do MNU, e o
racismo que impedia nossa inserção plena no movimento de mulheres.
Mas. através de muitas e longas conversas e dos textos dela, aprendemos
como incorporar um certo modo de ser feminista às nossas vidas e à
nossa militância, articulamos nossos próprios interesses e criamos condi-
ções para valorizar a ação política das mulheres negras.
Lélia exerceu um papel fundamental na criação e ampliação do
movimento negro contemporâneo. Mas, em termos pessoais, do que ela
mais se orgulhava era de ter catalisado os anseios de uma parcela da
juventude negra de Salvador, Bahia, no final dos anos 70. A partir de um
ciclo de palestras que ela realizou na cidade, em maio de 1978 —
No-
venta anos de abolição: uma reflexão crítica
— várias pessoas que
já discutiam a questão do racismo formaram o Grupo Nêgo, núcleo a
partir do qual surgiria o MNU - Bahia. Este fato revela o que, para mim,
foi o traço mais característico de Lélia: a capacidade ímpar de nos ins-
tigar com a exuberância de sua fala e nos inspirar com a luminosidade
própria de sua personalidade.
A contribuição de Lélia e de outros militantes negros para nossa
história recente ainda não foi devidamente avaliada e reconhecida. Este
artigo é apenas um passo no sentido de provocar outras iniciativas, de
maior fôlego, que busquem entender melhor o que os últimos vinte e
cinco anos representaram em termos da construção de uma alternativa
negra de pensar a sociedade brasileira. Por outro lado, também é parte
de uma tarefa que me atribuí enquanto amiga e companheira de militân-
cia que fui de Lélia. Assim, mais do que analisar criticamente suas idéi-
as, procurei escrever de maneira a permitir que ela falasse através do
texto, numa pequena amostra — espero que não muito fragmentada —
dos temas que motivaram sua intervenção em diferentes momentos.
O texto poético que abre este artigo nos chama “a transformar a
semente deixada em substância”. Não se furtem a este apelo.
Trabalhando por aí.
..
Lélia de Almeida Gonzalez, para quem “negro tem que ter nome e sobre-
nome, senão os brancos arranjam um apelido.
..ao gosto deles”, nasceu
em 1º de fevereiro de 1935, filha de uma família operária de Minas Gerais,
penúltima de dezoito irmãos. Entre séria e brincalhona, bem ao seu estilo,
afirmava que só passou a admitir ser mineira depois que o MNU foi cria-
do em Belo Horizonte. Aí, sim, dava orgulho ser de Minas! Do pai negro
ferroviário pouco falava, mas não se cansava de repetir que da mãe índia,
empregada doméstica, aprendeu as primeiras lições sobre a necessidade
de ser independente. Um irmão jogador de futebol trouxe a família para o
Rio de Janeiro, em 1942, e aí começa a trajetória da mineira que sempre
se identificava como carioca e torcedora incondicional do Flamengo, o
time do irmão que tanto admirava. De “babá de filinho de madame”, pas-
sou a estudante aplicada de História e de Filosofia, professora da rede
pública, mestre em Comunicação e em Antropologia, professora da
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutoranda em An-
tropologia Política na Universidade de São Paulo.
Lélia contava que, inicialmente, para superar as barreiras impos-
tas pelo racismo, preferiu negar sua condição racial, afastando-se da
comunidade negra em termos ideológicos. Ela diz:
houve, por exemplo, uma fase na minha vida em que fiquei pro-
fundamente espiritualista. Era uma forma de rejeitar o meu pró-
prio corpo. Essa questão do branqueamento bateu forte em mim
e eu sei que bate muito forte em muitos negros também. Há tam-
bém o problema de que, na escola, a gente aprende aquelas
baboseiras sobre os índios e os negros, na própria universidade
o problema do negro não é tratado nos seus devidos termos.
Esse processo (.
..) só parou quando eu casei.
1
A forte reação contrária da família branca do marido e, mais
tarde, o suicídio dele levaram-na a uma total reavaliação. A psicanálise
e o candomblé reconciliaram Lélia com sua condição de mulher negra,
permitindo que ela imprimisse um novo rumo à sua vida e às suas análi-
ses acerca da cultura brasileira.
A partir de 1974, despertada para o conteúdo político da questão
racial, Lélia passou a participar das discussões que então reuniam ativistas
negros no Rio de Janeiro. Procuravam analisar a histórica subordinação
dos negros no Brasil, avaliar os efeitos da ditadura militar sobre a orga-
nização dos negros, bem como estudar sobre a situação e a luta dos
negros em outros países. Estas inquietações afloravam ao mesmo tem-
po em que os negros do Sul do Brasil promoviam uma agitação político-
cultural baseada na
soul music,
como que numa preparação intensiva
para o movimento aberto de combate ao racismo, que eclodiria mais
tarde. Os militantes cariocas, então, tinham dois encontros por semana
“para preparar dois tipos de texto: um, com o noticiário a respeito de
atos de discriminação e, outro, relativo ao período pré-colonial na Áfri-
ca. Aos sábados, reunião geral (.
..) No domingo tava todo mundo na
Noite do Shaft no Renascença. A cada reunião o grupo crescia.”
2
A partir deste ponto, toda a atuação de Lélia será marcada pela
certeza de que o combate ao racismo é a sua tarefa principal. Para ela,
a chave para entender a questão racial no Brasil está na compreensão
das matrizes da cultura brasileira, onde a vertente negra exerce influên-
cia quase que total. Além disto, talvez em conseqüência de sua experi-
1
Entrevista
O Pasquim,
871 20-26 mar. 1986, pp. 8-10.
2
Lélia Gonzalez, “O movimento negro na última década”, in Lélia Gonzalez e Carlos
Hasenbalg,
Lugar de negro
(Rio de Janeiro, Marco Zero, 1982), p.34.
ência pessoal, enfatizava que o branqueamento é um dos obstáculos
maiores a serem vencidos, se quisermos, enquanto negros, efetivamen-
te mudar a cara do país. Na sua opinião, a ideologia do branqueamento
é a forma ideológica mais eficaz do racismo na América Latina, porque
reproduz e perpetua a crença de que as classificações e os valo-
res da cultura ocidental branca são os únicos verdadeiros e uni-
versais. Uma vez estabelecido, o mito da superioridade branca
comprova sua eficácia pelos efeitos de estilhaçamento, de frag-
mentação da identidade étnica por ele produzidos; o desejo de
embranquecer (de ‘limpar o sangue’, como se diz no Brasil), é
internalizado com a negação da própria raça, da própria cultura.
3
Contudo, o estímulo ao branqueamento não pode concretizar-se
totalmente por causa da ação de organizações negras, como o Ilê Aiyê
da Bahia, “pioneiras no sentido de demonstrarem que cultura é política
com ´P´ maiúsculo, na medida em que da maneira mais didática e praze-
rosa, fazem com que nossa etnia tome consciência do seu papel de
sujeito de sua própria história
e de sua importância na
construção
não só deste país, como na de muitos outros das Américas.”
4
Entre 1976 e 1978, Lélia ministrou cursos de Cultura Negra no
Brasil na Escola de Artes Visuais, no Parque Lage, um importante es-
paço cultural do Rio de Janeiro naquele período. Além disso, a entusiás-
tica adesão, em 1976, ao Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de
Samba Quilombo exemplifica sua busca constante para eliminar a equi-
vocada oposição entre cultura e fazer político que tanto marcou, e ainda
marca, as discussões no movimento negro. O enredo da Quilombo em
1978, falando dos noventa anos da abolição, foi escrito por Antônio
Candeia Filho, baseado no trabalho de Lélia e de nomes já reconhecidos
nos estudos sobre o negro. Surpresa com a menção a seus escritos,
disse a Candeia “que ainda não tinha um trabalho digno de ser mencio-
nado ao lado daqueles ‘cobras’ (.
..) Ele retrucou, dizendo que sabia
muito bem do trabalho que eu vinha realizando ‘por aí’ e que isso era tão
3
Lélia Gonzalez, “Por um feminismo afrolatinoamericano”, mimeo, 1988, p.7.
4
Folheto de Campanha Eleitoral - PDT/RJ - 1986.
importante quanto os livros dos ‘cobras’.
5
Foi assim que Lélia, ao per-
ceber o alcance de seu trabalho dentro da comunidade negra, começou
a refletir sobre sua responsabilidade como militante.
A intensificação dos contatos entre ativistas negros de vários es-
tados, principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, culminou na
fundação do Movimento Negro Unificado-MNU, em 18 de junho de
1978, e no ato público que, em 7 de julho do mesmo ano, lançou a entida-
de nacionalmente, assim inaugurando uma fase decisiva nas lutas re-
centes do negro no Brasil. Lélia participou ativamente deste processo e,
no ato público, aparece como representante da Quilombo por delegação
de Antônio Candeia, que tanto respeitava. Para ela, o advento do MNU
“consistiu no mais importante salto qualitativo nas lutas da comunidade
negra brasileira, na década de setenta”, pois, ao tirar o negro brasileiro da
invisibilidade, forçou outras entidades, principalmente as que se autodefinem
como culturais, “a se posicionarem de maneira mais incisiva; justamente
porque o MNU conquistou espaços políticos que exigiram esse avanço
por parte delas.”
6
Em análises posteriores, já tendo se desligado do MNU, Lélia
lamentava a perda do impulso inicial do movimento devido à falta de um
instrumento de trabalho, um programa de ação mínimo, que não se
viabilizou não apenas por dificuldades políticas impostas pela sociedade
racista, mas, talvez principalmente, por questões éticas. Desta perspec-
tiva, ela aponta para a necessidade de uma ação política que se realize
através do resgate da solidariedade no movimento negro. Isto implicaria
numa avaliação séria das relações políticas destrutivas que se desenvol-
veram em conseqüência de um tipo de ativismo que, em muitos momen-
tos, fez o jogo do “feitor”. Isto teria contribuído para o alijamento de
determinados quadros que poderiam estar à frente pela sua expe-
riência, pelo que aprendeu durante anos de luta, poderíamos es-
tar todos juntos, pensando, implementando. A gente percebe
5
Gonzalez,
O movimento negro”, p.46
.
Nota: Antônio Candeia Filho era um ex-
policial, afastado das funções após tornar-se paralítico, em conseqüência de um tiro que
o atingiu quando em serviço. Exerceu uma liderança fundamental no movimento de
resgate das tradições negras das escolas de samba cariocas e contra o crescente domínio
destas por setores estranhos à experiência negra no Brasil.
6
Gonzalez, “O movimento negro”, p.64.
que existem algumas exigências éticas, para dentro do movimen-
to, e que o Movimento Negro ainda não tomou consciência delas
... É essa solidariedade que vai permitir que você não se envolva
com as formas de cooptação que vêm de fora.
7
Tempo de partidos
As cautelas de Lélia em relação à cooptação não fizeram dela uma mili-
tante avessa à participação em setores políticos fora do movimento negro.
Pelo contrário, ela temia que sucumbíssemos às tentativas do sistema de
nos guetizar. Entre os membros da Comissão Executiva Nacional do MNU,
ela foi uma das primeiras a candidatar-se a um cargo eletivo, concorrendo
a deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores/PT no Rio de Janeiro,
em 1982. Talvez tenha sido este o momento em que o MNU começou a
pavimentar o caminho para o gradual afastamento de Lélia da entidade.
Na época, a necessidade de garantir o caráter suprapartidário da entidade
fez com que se tirasse uma posição no sentido de que candidatos não
poderiam permanecer em cargos de direção. Uma exigência que hoje soa
absurda, fazia perfeito sentido numa época em que a cultura política pre-
dominante levava os partidos a “aparelharem” os movimentos sociais,
assim sufocando os interesses prioritários do movimento em favor das
chamadas questões gerais colocadas pelos partidos.
Mas a visão de Lélia com relação aos setores de esquerda nunca
deixou dúvidas. Segundo ela, estes também são instrumentos da articu-
lação entre o mito da democracia racial e a ideologia do branqueamento,
criados pelo liberalismo paternalista que a esquerda diz combater. Isto
produz manifestações que vão desde a demonstração inequívoca de que
“não gostam de ‘preto’ até a atitude ‘democrática’ que nega a questão
racial, diluindo-a mecanicamente na luta de classes.”
8
Além disso, a
participação negra em todos os setores era por ela entendida como uma
necessidade para conter a dominação dos grupos sociais minoritários,
geralmente representados pelo macho-adulto-branco. Veja-se, por exem-
plo, “o quadro da classe política: é a mesma coisa desde que o Brasil é
7
Entrevista
MNU Jornal
, 19, maio/jun./jul. 1991, pp. 8-9.
8
Gonzalez, “O movimento negro”, p.54.
Brasil. É o cara, daqui a pouco é o filho dele, daqui a pouco é o neto dele,
o poder rola nas mesmas mãos e nós ficamos de fora, nós que somos o
povo — o movimento negro cultural está cansado de mostrar que nós
somos o povo, já provou isso tranqüilamente pra todo mundo.”
9
Os que participaram da primeira campanha eleitoral de Lélia fa-
lam do entusiasmo que tomava conta de seu comitê, da procura de for-
mas novas de levar a plataforma política ao povo negro, às mulheres e
aos homossexuais. Ousando na maneira de praticar a política em tempo
de eleições, as caminhadas de campanha eleitoral eram pontilhadas por
flores amarelas em homenagem a Oxum e, não raro, ao invés de falar
em comícios, Lélia cantava sambas, por achar que os compositores ne-
gros melhor interpretam os sentimentos e as expectativas do
criouléu
,
como ela costumava dizer. Também foi membro da Executiva Nacional
do PT, mas pouco se sabe a respeito de sua atuação nesta instância.
Sem dúvida, uma consulta aos relatórios de reuniões, assim como entre-
vistas com petistas daquela época revelariam muito da forma aberta
como questionou a resistência das lideranças do partido (menos brancas
do que se imaginam) em reconhecer o acerto das análises do movimen-
to negro sobre os mecanismos de exploração e opressão que operam na
sociedade brasileira.
10
A riqueza desta experiência, entretanto, não foi suficiente para
fazer com que Lélia permanecesse no PT, que só mais tarde, veio a ser
forçado a criar ainda precários mecanismos de participação negra em
sua estrutura. Em 1986, por sugestão de Abdias do Nascimento, tem
uma conversa com Leonel Brizola, figura mais destacada do Partido
Democrático Trabalhista-PDT, e entusiasma-se com o fato de o PDT
colocar a questão racial entre as prioridades do partido — junto com
questões da mulher, da criança e do trabalhador. Lélia percebeu, então,
que Brizola, apesar das práticas equivocadas, era uma das poucas lide-
ranças de expressão nacional que entendia o peso da questão racial no
país. Até por isto, pensava, ele não poderia ser deixado jogando solto,
sem nenhum tipo de controle dos movimentos sociais autônomos que
9
Entrevista
MNU Jornal
, n° 19, maio/jun./jul. 1991, p.8.
10
Agradeço a Edson Cardoso pela lembrança deste aspecto da militância de Lélia enquanto
parte da Executiva do PT.
seu estilo de fazer política abomina. Por fim, o forte respaldo popular do
PDT no Rio de Janeiro da época levou-a a uma nova filiação partidária
e a uma outra candidatura, desta vez como deputada estadual.
Analisando algumas peças de campanha dos dois momentos, o
que chama a atenção é que a mudança de partido não provocou mudan-
ças na plataforma de Lélia como candidata, numa demonstração inequí-
voca de que seu programa político originava-se no compromisso com as
lutas do movimento negro que ela ajudou a construir, tendo pouco a ver
com as contramarchas da questão racial no interior dos partidos.
11
Os
quatro anos que separam as duas campanhas não apagaram a necessi-
dade de levantar bandeiras em defesa dos direitos e contra o racismo, o
sexismo e a homofobia que atingem negros, mulheres e homossexuais,
tendo como pano de fundo a questão do reconhecimento e valorização
das diferenças culturais.
Amefricanidade
Até a metade dos anos 80, Lélia talvez tenha sido a militante negra que
mais participou de seminários e congressos fora do Brasil, sempre le-
vando um discurso forte, provocativo e emocionado sobre a política ra-
cial brasileira, contribuindo para revelar a democracia racial como mito.
Nos Estados Unidos e em vários países da África, da América Central,
do Caribe e da Europa estivemos presentes através dela. E com ela
aprendemos outros modos de pensar a diáspora africana, sintetizada em
sua proposta da categoria
amefricanidade
para definir a experiência
comum dos negros nas Américas.
Baseando sua própria reflexão em, entre outros, um texto de M.
D. Magno (“Améfrica Ladina: introdução a uma abertura”,
Colégio
Freudiano do Rio de Janeiro, 1981), Lélia negava a latinidade das Amé-
ricas considerando, por um lado, a preponderância de seus elementos
ameríndios e africanos; e, por outro lado, a formação histórica da Espa-
nha e de Portugal, que só pode ser entendida tomando-se como ponto de
11
Sua filiação ao PDT não a impediu de respaldar a organização dos negros em outros
partidos, como atestam os artigos que escreveu para o jornal
Raça & Classe,
órgão da
Comissão do Negro do PT do Distrito Federal.
partida a longa dominação da Península Ibérica pelos mouros.
12
Neste
último aspecto, estaria a chave para entender por que, nas sociedades
americanas, constituiu-se uma rígida hierarquia social definida a partir
do pertencimento étnico. Assim, o racismo na
Améfrica Ladina,
para
além de fatores histórico-culturais, também revelaria, em termos psica-
nalíticos, uma neurose cultural que busca por todos os meios suprimir
“aqueles que do ponto de vista étnico são os testemunhos vivos” da
ladinoamefricanidade denegada.
13
Amefricanidade é então conceituada como
um processo histórico de intensa dinâmica cultural (resistência,
acomodação, reinterpretação, criação de novas formas)
referenciada em modelos africanos e que remete à construção de
uma identidade étnica. [O valor metodológico desta categoria]
está no fato de resgatar uma
unidade específica
, historicamente
forjada no interior de diferentes sociedades que se formaram numa
determinada parte do mundo.
14
Uma unidade que, sem apagar as matrizes africanas, resgata a
experiência fora da África como central.
No pensamento de Lélia, o núcleo da amefricanidade é constituído
pela
cultura negra
que, informando toda a cultura brasileira, se expressa
“na cotidianidade de nossos falares, gestos, movimentos e modos de ser
que atuam de tal maneira que deles nem temos consciência. É isso que
caracteriza a cultura viva de um povo.” Entretanto, a cultura negra “não é
apenas o samba, o pagode, ou o funk. Mas ela também é o rock, o reggae,
o jazz. Ela não é apenas a Umbanda ou o Candomblé, mas é também o
transe das igrejas carismáticas, católicas e protestantes. Ela não é apenas
o ´nós vai´ e o ´nós come´. Mas a musicalidade e as pontuações discursivas
que nos diferenciam dos falares portugueses e africanos.”
15
12
Lembro aos leitores que o termo
América Latina
teria sido cunhado por Napoleão no
início do século XIX como forma de resgatar as origens latinas comuns à França, Portugal
e Espanha, assim
justificando suas pretensões imperiais na Europa e o conseqüente direito
da França sobre os territórios ocupados por Portugal e Espanha nas Américas.
13
Lélia Gonzalez, “Nanny”,
Humanidades
, 17 (1988), pp. 23-25.
14
Gonzalez, “Nanny”, p. 23.
15
Discurso de posse de Hilton Cobra como Diretor do Centro Cultural José Bonifácio, Rio
de Janeiro, escrito por Lélia em maio de 1993.
Entre os pilares da amefricanidade, Lélia destacava algumas fi-
guras fundadoras que, enquanto parte de nossa ancestralidade mítica,
estão referenciadas em propostas alternativas de organização social: os
quilombos, no caso do Brasil, e, em outras partes das Américas, organi-
zações similares designadas como
cimarrones, cumbes, palenques
e
maroon societies.
Tais experiências são patrimônio dos negros em toda
a diáspora africana. Por isso, os escritos e a fala de Lélia constante-
mente referem-se a Zumbi dos Palmares não como mera alusão a um
passado longínquo, mas como atualização histórica e simbólica das de-
mandas do povo negro hoje. A imortalização de Zumbi, através da insti-
tuição do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, foi por-
tanto “um ato político de afirmação da história do povo negro, justamen-
te naquilo em que ele demonstrou sua capacidade de organização e de
proposta de uma sociedade alternativa.”
16
A incorporação dessa data
pela sociedade como um todo pôde, ocorrer porque “a morte de Zumbi
transfigura-se no ato que, por excelência, aponta para a vida. Ao mor-
rer, Zumbi continuou vivo, permanecendo na consciência de seu povo e
também na dos opressores desse povo.”
17
Ao lado de Zumbi, Lélia também ressaltava a figura de Nanny.
Heroína do povo jamaicano,
ela é reverenciada por comunidades rurais
no leste da Jamaica que poderiam ser caracterizadas como remanes-
centes de antigos quilombos/
maroon societies.
Nas várias narrativas
que Nanny protagoniza, fala-se de sua intimidade com o mundo dos
espíritos, indicando que “enquanto mediadora entre vivos e mortos, ela
simboliza a continuidade das sociedades maroon no espaço e no tem-
po.” Por outro lado, as lendas também registram “sua liderança militar
que se impõe na questão da paz com os ingleses”,
18
assim referenciando
sua representação como mãe e guerreira nas lutas contra a opressão e
a escravidão e restabelecendo o lugar da mulher no ato fundador de
nacionalidades
amefricanas
.
16
Gonzalez, “O movimento negro”, p.57. É importante lembrar que o 20 de novembro
foi proposto, no início dos anos 70, pelo Grupo Palmares de Porto Alegre, RS. Em
novembro de 1978, reunido em Assembléia Nacional em Salvador, BA, o MNU estabe-
leceu a data como Dia Nacional da Consciência Negra.
17
Folha de S. Paulo
, São Paulo, 22 nov. 1981, Folhetim, p.4.
18
Gonzalez, “Nanny”, pp. 24-25.
O lixo vai falar.
..
As contribuições de Lélia de maior impacto foram as que buscaram
articular racismo e sexismo. O texto que considero emblemático do seu
pensamento —
Racismo e sexismo na cultura brasileira —
foi apre-
sentado, em outubro de 1980, ao IV Encontro da Associação Nacional
de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais-ANPOCS. No tex-
to, pelo menos dois aspectos chamam a atenção. O primeiro aparece
logo no início quando Lélia, ao declarar sua própria posição dentro da-
quele encontro, traça um eloqüente quadro do lugar a partir do qual
interpretamos os fenômenos sociais. Sua declaração fundamenta-se na
relação entre a Psicanálise e a Lógica, onde a primeira se alimentaria
daquilo que a segunda elimina. Analogamente, “na medida em que nós
negros estamos na lata de lixo da sociedade brasileira, pois assim o
determina a lógica da dominação (.
..) o risco que assumimos aqui é o do
ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sido
falados, infantilizados (.
..) que neste trabalho assumimos nossa própria
fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa.”
19
Daí o segundo aspecto a destacar no texto: a adoção de um su-
porte epistemológico que tem na psicanálise sua principal fonte. O uso
de categorias propostas por Freud e Lacan, que como veremos também
aparecem em trabalhos posteriores, resulta da tentativa de desvendar o
que fica sem explicação no racismo à brasileira, se nos restringimos a
operar com categorias analíticas da sociologia e da antropologia. Me
parece que isto representa uma saída teórica no sentido de apreender
melhor os aspectos simbólicos do racismo, o qual “se constitui como a
sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira”,
e do sexismo
que se manifesta a partir de três noções que, referidas à mesma origem,
são invocadas para definir a mulher negra a depender do contexto em
que somos percebidas: mulata, doméstica e mãe preta.
20
A origem comum destas três noções será buscada na etimologia
19
Lélia Gonzalez, “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, in Luiz Antônio Silva et alii,
Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos
(Brasília, ANPOCS,
1983), p. 225.
20
Gonzalez, “Racismo e sexismo”, p.224.
do termo
mucama
21
e em textos históricos que dão conta do uso sexual
a que as escravas domésticas eram submetidas. Coerente com a postu-
ra analítica declarada no início do texto — o de trabalhar com o que é
eliminado, recalcado pela consciência —, Lélia nota o
deslocamento
do
significado original da palavra africana
mucama
, onde a dimensão da
prestação de serviços sexuais parece ter sido esquecida, para designar
apenas a escrava que presta serviços domésticos. Entretanto, a ocultação
de uma das funções da mucama não se realiza por completo, pois ela
“continua aí com sua malemolência perturbadora. E o momento privile-
giado em que sua presença se torna manifesta é justamente o da exalta-
ção mítica da mulata no entre parênteses do carnaval.”
22
Deste modo, a doméstica seria
a mucama permitida, a da prestação de bens e serviços, ou seja o
burro de carga que carrega sua família e a dos outros nas costas.
Daí, ela ser o lado oposto da exaltação; porque está no cotidiano.
E é nesse cotidiano que podemos constatar que somos vistas
como domésticas. (.
..) Melhor exemplo disso são as mulheres
negras da classe média (.
..) Os porteiros dos edifícios obrigam-
nas a entrar pela porta de serviço, obedecendo a instruções dos
síndicos brancos (os mesmos que as ‘comem com os olhos‘ no
carnaval ou nos ôba-ôba da vida).
23
Quanto à mãe preta, esta não seria nem a mulher submissa e
dedicada como os brancos a representam, e tampouco “a traidora da
raça como querem alguns negros muito apressados em seu julgamen-
to.”
24
Ela seria apenas a mãe, responsável pelo cuidado e socialização
das crianças, já que a mulher branca nada mais é do que a “outra”, pois
não exerce a função materna. É preciso considerar que a
21
A palavra
mucama
foi assim dicionarizada por Aurélio B. de Holanda: (Do quimbundo
mu’kama
‘amásia escrava‘) S. f. Bras. A escrava negra moça e de estimação que era
escolhida para auxiliar nos serviços caseiros ou acompanhar pessoas da família e que,
por vezes, era ama-de-leite. De acordo com o
Dicionário banto do Brasil
, organizado
por Nei Lopes (Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, 1995),
mukama
signi-
fica concubina; escrava que era amante do seu senhor.
22
Gonzalez, “Racismo e sexismo”, p.230.
23
Gonzalez, “Racismo e sexismo”, p.230.
24
Gonzalez, “Racismo e sexismo”, p.235.
mãe preta também desenvolveu as suas formas de resistência (.
..)
cuja importância foi fundamental na formação dos valores e das
crenças do nosso povo. Conscientemente ou não, ela passou
para o brasileiro branco as categorias das culturas negro-africa-
nas de que era representante. Foi por aí que ela africanizou o
português falado no Brasil (transformando-o em ‘pretuguês´) e,
conseqüentemente, a cultura brasileira
.
25
Criando caso
Autodefinindo-se como feminista, Lélia participou de várias organiza-
ções de mulheres sem nunca se furtar à crítica ao feminismo, enquanto
teoria e prática.
26
Ainda que reconhecendo a existência de feministas
comprometidas com a questão racial — a quem chamava de irmãs —
Lélia via o feminismo como um movimento de mulheres brancas, onde
ela era a criadora de caso. Isto porque no “interior do movimento havia
um discurso estabelecido com relação às mulheres negras, um estereó-
tipo: As mulheres negras são agressivas, são criadoras de caso, não dá
pra gente dialogar com elas, etc.”
27
Para ela, a dificuldade das feminis-
tas em reconhecer a diversidade interna do movimento, aspecto particu-
larmente problemático na América Latina, onde a maioria ameríndia e
amefricana
tende a ser excluída, advinha de um processo de
recalque
da dimensão racial, que só começou a esvair-se lentamente, a partir de
1985, com a Conferência da Década da Mulher, em Nairobi.
Assim, refletindo sobre as contradições internas do feminismo lati-
no-americano, por um lado, Lélia reconhece a contribuição que a teoria e
a prática feministas tiveram em nível internacional, e seu papel propulsor
25
Folha de S. Paulo
, São Paulo, 22 nov. 1981, Folhetim, p.4.
26
Além de deflagrar a discussão sobre a mulher negra no interior do MNU, Lélia fundou em
1983, juntamente com Elizabete Viana, Mira Corrêa, Jurema Batista e Rosália Lemos,
entre outras o NZINGA-Coletivo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro. Esteve entre as
primeiras conselheiras do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher/CNDM. Também
participou do Taller de Mujeres de las Americas e do Mujeres por un Desarollo Alterna-
tivo/MUDAR
,
duas organizações de mulheres do Terceiro Mundo vistas por Lélia como
exemplos de um “novo olhar feminista, porque aberto à participação de mulheres étnica
e culturalmente diferentes”. Participou de Conferências Internacionais da Mulher, em
1975, no México, e em 1985, em Nairobi.
27
Entrevista
MNU Jornal
, 19, maio/jun./jul. 1991, p. 9.
na discussão do homossexualismo, a partir do debate sobre sexualidade
em geral. Por outro lado, alertava que a ausência da dimensão racial indi-
cava, no mínimo, uma falta de reciprocidade, considerando que, nos Esta-
dos Unidos, por exemplo, os movimentos homossexual e feminista foram
grandemente impulsionados pela luta política dos negros por direitos civis.
Desta perspectiva, sexismo e racismo seriam variações de um mesmo
tema mais geral que tem nas diferenças biológicas (reais ou imaginadas)
o ponto de partida para o estabelecimento de ideologias de dominação. O
“esquecimento” da questão racial pode ser interpretado como um caso de
racismo por omissão
, que se origina de perspectivas eurocêntricas e
neocolonialistas da realidade latino-americana. É importante notar que
esta crítica se insere na perspectiva de Lélia sobre amefricanidade, onde
o racismo que subordina índias e negras decorre de uma visão falaciosa
de
latinidade
que legitima a inferiorização
dos setores sociais cuja
cultura e história não têm a Europa como referência. O conceito de
latinidade é, portanto, uma forma de eurocentrismo que, ao descartar, ou
pelo menos subestimar, as dimensões índia e negra na construção das
Américas, compromete a radicalidade do feminismo latino-americano.
A explicação dos mecanismos que determinam o feminismo
eurocêntrico vai ser buscada em importantes, embora pouco analisados,
aspectos psíquicos presentes na relação entre colonizador e colonizado. A
partir da contribuição de Lacan aos estudos psicanalíticos, Lélia articula
as categorias de
infans
e
sujeito-suposto-saber
para melhor entender o
tema da alienação. A primeira categoria “designa aquele que não é sujeito
do próprio discurso, na medida em que é falado pelos outros,” enquanto a
segunda “diz respeito às identificações imaginárias com determinadas fi-
guras, às quais se atribui um saber que elas não possuem.” Assim, se, por
um lado, “nós, mulheres e não-brancos temos sido falados, definidos e
classificados por um sistema ideológico que nos infantiliza”,
por outro lado,
as feministas, ao esquecerem a dimensão racial da luta anti-sexismo, aca-
bam por atribuir superioridade ao colonizador, assim reproduzindo o euro-
centrismo cujos efeitos neocolonialistas
“são formas alienadas de uma
teoria e de uma prática que se afirmam como libertárias.”
28
28
Gonzalez,
Por um feminismo.
..”, pp. 4-5.
As questões discutidas acima devem ser enfrentadas como meio
de superar os obstáculos que elas interpõem à organização das mulhe-
res do continente. Com base numa proposta de Virgínia Vargas, Lélia
afirma que o movimento de mulheres tem sido analisado a partir de três
vertentes: a popular, a político-partidária e a feminista. É na primeira
que se concentram as amefricanas e as ameríndias que incorporam às
suas lutas questões relativas à sobrevivência familiar e outras reivindi-
cações específicas, vinculadas a uma significativa presença no merca-
do de trabalho informal. Mas a vertente popular tende a apagar a di-
mensão racial, mesmo face a evidências de que a condição de pobreza
é redefinida pelo pertencimento racial.
29
Nas duas outras vertentes — político-partidária e feminista — a
presença de amefricanas e ameríndias é minoritária. Além disso, é preci-
so considerar que a luta destas mulheres só aparece em sua especificida-
de como conseqüência da existência de
movimentos étnicos
. Estas cons-
tatações levam Lélia a concluir que nossa inserção no movimento de
mulheres deve ser caracterizada como uma quarta vertente, pois nossa
“tomada de consciência da opressão ocorre, antes de tudo, pelo racial.”
No caso das mulheres negras, ainda que reconhecendo que os homens se
utilizam de práticas sexistas e tentam nos excluir das esferas de decisão,
não podemos esquecer que é no movimento negro que, “apesar dos pesa-
res, a nossa rebeldia e o nosso espírito crítico se dão num clima de maior
familiaridade histórica e cultural.”
30
E esta experiência histórica, marca-
da pela escravidão, indica como no interior da comunidade como um todo
forjaram-se “formas político-culturais de resistência que hoje nos permi-
tem continuar uma luta plurissecular de libertação.”
31
Assim, ao mesmo tempo em que vibrou com a realização do I En-
contro Nacional de Mulheres Negras — realizado em Valença, Rio de
Janeiro, de 2 a 4 de dezembro de 1988 —, Lélia também criticou dura-
mente a proeminência, no encontro, de posturas que considerava
29
Veja-se, como exemplo, os estudos sobre famílias brancas e negras com o mesmo rendi-
mento: na família negra tende a haver um maior número de pessoas trabalhando para
receber o mesmo que uma família branca que tenha menor número de pessoas na força
de trabalho. Gonzalez,
“Por um feminismo.
..”, p.13.
30
Gonzalez,
“Por um feminismo.
..”,
p.14.
31
Gonzalez,
“Por um feminismo.
..”,
p.12.
identificadas com um tipo de
feminismo ocidental-branco
, incapaz de
definir a questão do sexismo para além da visão estreita do macho opres-
sor
versus
a fêmea oprimida. Segundo ela, tal postura, equivocadamente
chamada de radical, tende, por um lado, a fechar as possibilidades para o
debate político, assumindo implicitamente, que política é coisa de homem
e, explicitamente, confundindo a questão política com opções partidárias.
Por outro lado, também revela um distanciamento da realidade vivida pela
mulher negra ao negar ”toda uma história feita de resistências e de lutas,
em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma
memória cultural ancestral (que nada tem a ver com o eurocentrismo
desse tipo de feminismo).”
Assim, o compromisso das mulheres negras
com a transformação social era visto por Lélia como prioritário, pois como
“amefricanas, sabemos bem o quanto trazemos em nós a marca da explo-
ração econômica e da subordinação racial e sexual. Por isso mesmo tra-
zemos conosco a marca da libertação de todos e de todas.”
32
Concluindo
O período entre 1974 e 1988 parece ter sido um dos mais intensos na
trajetória de Lélia, totalmente marcado pela sua atuação no movimento
negro que ajudara a criar. Uma vida militante curta para alguém com
tão larga contribuição. Mas mesmo quando distante da linha de frente, e
mais voltada para suas atividades como professora, continuava sendo
uma referência para muitos militantes, especialmente as mulheres. Nos
recebia em sua casa para uma cerveja, muitas risadas, longas avalia-
ções de conjuntura e alguns merecidos puxões de orelha. Em 1991,
antenada com as mudanças que se buscava fazer no MNU, Lélia acei-
tou reintegrar-se à entidade, tendo contribuído com artigos para o jornal
e participado do I Encontro de Mulheres do MNU, realizado em Recife,
PE, onde debateu a questão das mulheres negras a partir de uma leitura
em que buscava resgatar a espiritualidade dos negros (não a religiosida-
de, como fez questão de frisar) como elemento principal na diferencia-
ção entre nossa luta política e a de outros setores.
32
Gonzalez,
As posturas políticas e teóricas assumidas por Lélia freqüente-
mente provocavam polêmicas; também atraíam as pesadas críticas a
que negros intelectuais estão desproporcionalmente submetidos, em es-
pecial as mulheres donas de suas próprias idéias e de suas próprias
vidas. Assumindo perspectivas que entendem ser mais coerentes com a
experiência de seu povo, os negros intelectuais geralmente são vistos
com desconfiança por buscar desconstruir os cânones do pensamento
acadêmico que reforçam mais do que desafiam o racismo insidioso.
Talvez, por isto, Lélia, há anos professora de Cultura Brasileira na
Pontifícia Universidade Católica-PUC do Rio de Janeiro, tenha custado
tanto a se tornar chefe do Departamento de Sociologia e Política. Após
algumas tentativas frustradas, apesar do apoio que tinha entre os estu-
dantes, só foi eleita em maio de 1994 para o único cargo que a vi desejar
durante nosso período de convivência.
33
Uma vitória tardia que ela não
teria muito tempo para desfrutar.
Para além dos embates no interior da academia, os negros inte-
lectuais defrontam-se com o intermitente questionamento da militância
negra que tende a opor o fazer teórico ao prático. Isto ocorreu, e ainda
ocorre, embora em menor grau, por pelo menos duas razões. Em pri-
meiro lugar porque nem sempre se percebeu o potencial da universida-
de como espaço para a atuação dos negros. Em segundo lugar, pela
falta de entendimento quanto ao fato, para que Gramsci já alertara, de
que todo grupo social produz seus próprios intelectuais. Estes, em con-
trapartida, ajudam a construir a identidade do grupo e aprofundam a
consciência deste em relação ao papel que tem a cumprir nos planos
econômico, social, político e cultural.
Num certo sentido, penso que Lélia sofreu pelo pioneirismo, num
momento em que parte da militância via os intelectuais, geralmente bran-
cos, acima de tudo como produtores de um conhecimento que alienava
nossa trajetória enquanto negros no Brasil. Cabe notar que uso o termo
pioneirismo, mas não quero sugerir que Lélia tenha sido a primeira inte-
33
Quando da criação do Ministério da Cultura, em meados dos anos 80, Lélia chegou a
figurar como uma das
ministeriáveis
, por indicação de Ruth Escobar
.
Mas o único cargo
público de confiança de maior visibilidade que exerceu foi o de diretora do Planetário do
Rio de Janeiro, na administração de Saturnino Braga.
lectual do movimento negro que emergiu a partir dos anos 70. Nesse
mesmo período, outros negros — como o antropólogo Eduardo de Oli-
veira e Oliveira, de São Paulo, e a historiadora Maria Beatriz Nasci-
mento, do Rio de Janeiro — também desenvolviam contribuições inte-
lectuais inestimáveis para a consolidação do nosso pensamento e atua-
ção política. Considero, entretanto, que parte da singularidade de Lélia
para o conjunto da militância deveu-se à sua participação no MNU, até a
metade dos anos 80, uma entidade de caráter nacional que lhe proporcio-
nava contato direto com mulheres e homens negros em vários cantos do
país e servia de moldura perfeita para uma retórica mais radical.
Assim como Eduardo e Beatriz, Lélia buscou articular pontos de
vista e atitudes não identificados com as idéias prevalecentes entre os
que dominam a produção do conhecimento sobre o Brasil e pagou um
alto preço por atuar em espaços percebidos como exclusivos dos bran-
cos. Assim, penso, ao modo de Said, que ela incorporou a condição
metafórica do intelectual enquanto “exilado”. Tal condição não se refe-
re necessariamente ao imigrante ou ao expatriado; um intelectual pode
assim perceber-se por encontrar barreiras para participar dos círculos
convencionais e para ter acesso aos meios de influenciar efetivamente
o debate público. Contudo, ao mover-se em direção às margens, encon-
tra aí uma posição privilegiada para ver o que geralmente não é visto
pelos que nunca se aventuraram para além dos limites conceituais acei-
tos pela maioria.
34
Desde que trocou sua situação de companheira de luta pela a de
ancestral
,
no dia 11 de julho de 1994, Lélia tem sido motivo de algumas
homenagens. A mais recente delas foi a I Jornada Cultural Lélia Gonzalez,
pensada por suas organizadoras como um “espaço de diálogo, convi-
vência, reflexão, de lazer e troca entre as mulheres negras intelectuais,
artistas, militantes e profissionais de diversas áreas.”
Deste modo, com
o apoio da Fundação Palmares, cerca de 70 mulheres negras de várias
partes do país reuniram-se, em dezembro de 1997, em São Luiz do
Maranhão, numa oportunidade rara de pensar e exercitar formas de
34
Edward Said,
Representations of the intellectuals,
New York, Pantheon Books, 1994,
p.63.
conviver com respeito em meio às diferenças. Presente à jornada outra
figura de mulher que influenciou negras e negros em todo o mundo:
Ângela Davis. Para mim, ainda é difícil analisar devidamente os múlti-
plos significados incorporados àquele momento, mas sei que nossa ex-
periência na diáspora africana e nossa trajetória de movimento negro no
Brasil é que tornaram possível a convergência das contribuições de Lélia
Gonzalez e de Ângela Davis para o nosso existir enquanto mulheres e
homens negros aqui e agora.
Naquela jornada, em São Luiz do Maranhão, prevaleceu, mais
uma vez, a capacidade inspiradora de “nossa amazona de torço estam-
pado de esperança”, pois tenho certeza de que passamos a entender um
pouco mais suas preocupações com as questões éticas no interior do
movimento negro, e com o papel único, mas não insubstituível, que cada
um(a) de nós tem na luta contra o racismo e o sexismo.
Publicações de Lélia Gonzalez -
Lista parcial
Livros
Festas populares no Brasil
, Rio de Janeiro, Índex, 1987.
Lugar de negro,
Rio de Janeiro, Marco Zero, 1982. Co-autoria.
Ensaios e artigos
“Mulher negra, essa quilombola”,
Folha de S. Paulo
, São Paulo,
22 nov. 1981. Folhetim.
“A mulher negra na sociedade brasileira”. In Madel Luz (org.),
O
lugar da mulher; estudos sobre a condição feminina na sociedade
atual.
Rio de Janeiro, Graal, 1982. 146p. pp. 87-106.
“Racismo e sexismo na cultura brasileira”. In Luiz Antônio Ma-
chado Silva et alii.
Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e
outros estudos,
Brasília, ANPOCS, 1983. 303p. pp. 223-244.
“La femme noire dans la societé brésilienne”,
Recherche:
Pédagogie et Culture,
64 (oct./déc. 1983), pp. 33-36.
“The unified black movement: a new stage”. In Pierre-Michel
Fontaine (ed.),
Race, class and power in Brazil,
Los Angeles, Center
for Afro-American Studies, 1985. 160p. pp.120-134.
“O terror nosso de cada dia”,
Raça e Classe
,
2, (ago./set. 1987), p. 8.
“A categoria político-cultural de amefricanidade”,
Tempo Brasi-
leiro
, 92/93 (jan./jun. 1988), pp. 69-82.
“As amefricanas do Brasil e sua militância”,
Maioria Falante,
7
(maio/jun. 1988), p. 5.
“Nanny
”, Humanidades,
17 (1988), pp. 23-25.
“Por um feminismo afrolatinoamericano”,
Revista Isis Interna-
cional
, 8 (out. 1988).
“A importância da organização da mulher negra no processo de
transformação social”,
Raça e Classe,
5 (nov/dez 1988), p. 2.
“Uma viagem à Martinica - I”,
MNU Jornal,
20 (out./nov./dez.
1991), p. 5.
Entrevistas
O Pasquim
,
871 20-26 mar. 1986, pp. 8-10.
MNU Jornal
, 19 (maio/jun./jul. 1991), pp. 8-9.
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