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Ser DJ não é só Soltar o Play: a pedagogização de uma nova profissão de sonho
Vitor Sérgio Ferreira
Vitor Sérgio Ferreira
Ser DJ não é só Soltar o Play: a pedagogização de uma nova profissão de sonho
Educação & Realidade, vol. 42, núm. 2, 2017
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Faculdade de Educação
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Resumo: Neste artigo, argumenta-se que a atividade de DJ’ing tem passado por um crescente processo de pedagogização, patente na institucionalização de saberes experienciais tradicionalmente produzidos e reproduzidos no contexto informal de culturas juvenis, sob a forma de cultura escolar. A principal hipótese deste artigo é a de que esse processo se encontra relacionado com a crescente revalorização simbólica da prática de DJ’ing como atividade profissional, atualmente uma profissão de sonho para cada vez mais jovens. Por outro lado, decorre ainda da progressiva acumulação e sistematização de conhecimentos no campo da produção de música eletrónica, bem como da crescente sofisticação e complexificação dos equipamentos tecnológicos manipulados pelo DJ na sua prática.

Palavras-chave: DJ, Profissão de Sonho, Mediatização, Artificação, Pedagogização..

Palavras chave: DJ, Profissão de Sonho, Mediatização, Artificação, Pedagogização.

Carátula del artículo

Ser DJ não é só Soltar o Play: a pedagogização de uma nova profissão de sonho

Vitor Sérgio Ferreira
Universidade de Lisboa, Portugal
Educação & Realidade, vol. 42, núm. 2, 2017
Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Faculdade de Educação

Recepção: 26 Abril 2016

Aprovação: 18 Dezembro 2016

Ser DJ não é só soltar o play: a pedagogização do DJ’ing em Portugal

A música, nos seus mais diversos estilos e modalidades de fruição, é pervasiva da vida dos jovens, acompanhando-os em diversas situações quotidianas, cada uma com a sua trilha sonora. Mas a música não só domina os quotidianos dos jovens, como também as suas relações sociais: o consumo musical entre os jovens constitui, de facto, um importante marcador de comunidades de gosto e signo de diferenciação grupal (Miles, 2000; Webb, 2008), em torno do qual se estruturam densas redes de sociabilidade de natureza microgrupal, outrora conceptualizadas como subculturas ou contraculturas, hoje mais comummente designadas de ondas, cenas ou tribos juvenis (Ferreira, 2008; 2016; Pais, 2004).

Entre os vários estilos musicais atualmente disponíveis, a música eletrónica de dança tem se destacado como um dos mais relevantes entre as culturas juvenis contemporâneas, dada a enorme expansão e diversificação da sua produção e consumo (Redhead, 1993; 1997; Thornton, 1995). Prolífica em sub-estilos muito variados (techno, house, trance, drum’n bass, etc.), com matrizes históricas que constantemente se ramificam (Assef, 2010; Brewster; Broughton, 2006; 2010), a música eletrónica de dança tem em comum o facto de criar sonoridades com recurso a equipamentos tecnológicos e digitais de produção e síntese de som, que têm vindo a sofisticar-se - como samplers, CDJ’s, computadores, controladores, sequenciadores, equalizados, sintetizadores, mesas de mistura e outros instrumentos que permitem o recorte, a montagem, a criação e a sobreposição de músicas e sons.

Por outro lado, sendo uma produção musical essencialmente instrumental e fortemente rítmica, marcada pela cadência de batidas aceleradas e constantes, esse estilo de música tem ainda em comum a função de colocar os corpos em movimento. Com efeito, a sua modalidade fundamental de fruição pressupõe a exploração do prazer da experiência sensorial da dança em multidão - experiência oceânica -, por vezes intensificado pelo uso de produtos psicoativos - experiência extática (Malbon, 1999, p. 105-133)1.

Responsável principal pela seleção, mixagem, sequência e, em alguns casos, produção das músicas que fazem os corpos se movimentarem na pista de dança, a figura do DJ tem um protagonismo ímpar nas culturas da música eletrónica. O protagonismo dessa figura, hoje em dia, ultrapassa largamente as cenas juvenis mais underground, ascendendo às luzes da ribalta na paisagem social: de facto, atualmente, muitos DJ’s adquirem o estatuto social de celebridade, de super-star (Phillips, 2009; Brewster; Broughton, 2006; 2010). Viajam por todo o mundo em turné pelos principais clubes, festas e festivais de música, conseguindo obter, simultaneamente, dinheiro, prazer, realização pessoal e reconhecimento social da sua atividade. Constituem, assim, não apenas referências musicais para cada vez mais jovens, mas também referências de um estilo de vida identificado pelo sucesso, fama e glamour.

Neste cenário, refere Bara hiperbolizando, “[...] todas as crianças nascidas a partir dos anos 1960 e 1970 são DJ em potência” (Bara, 1999, p. 37). Significa isso que no âmbito das mais recentes gerações, a atividade de DJ’ing se tornou muito atrativa não apenas do ponto de vista do consumo de música eletrónica, mas também do ponto de vista da sua produção, empolgando muitos jovens a quererem ser DJ’s e experimentarem o seu estilo de vida. Bem ilustrativa da atual atração dos jovens pelo mundo dos DJ’s é a recente proliferação de escolas de DJ’ing e de produção musical em Portugal, mais concentradas em Lisboa e no Porto.

Considerando que o DJ’ing, tradicionalmente, se trata de uma atividade aprendida no formato do-it-yourself (DIY), ou seja, em esquemas de autoaprendizagem e de aprendizagem informal entre pares no âmbito de grupos juvenis (Araldi, 2004), como explicar o surgimento destas escolas de formação? Argumenta-se neste artigo que tal fenómeno expressa um processo de pedagogização (Beillerot, 1987) da atividade de DJ, ou seja, a progressiva deslocação, apropriação, formalização e institucionalização em formas de cultura escolar dos conhecimentos experienciais que constituem os saberes-fazer do DJ, até aqui informalmente produzidos e reproduzidos no âmbito de microssociabilidades juvenis. Que condições objetivas permitiram este processo? Que significados subjetivos ele adquire entre os seus protagonistas?

Para responder a este conjunto de questões, parte-se de referencial teórico ancorado às perspetivas pós-subculturais dos estudos sobre culturas juvenis (Bennett, 2011; Ferreira, 2008; 2016). O olhar sobre as práticas que nelas se desenvolvem é, porém, deslocado, focando-as não como práticas convivialistas de consumo e lazer, produtoras de identidades grupais, mas como práticas laborais, com potencial valor de empregabilidade no sentido em que podem garantir a subsistência e a existência dos jovens no mundo social, produtoras de identidades profissionais.

Nesta perspetiva, explora-se a hipótese de que o processo de pedagogização do DJ’ing se encontra relacionado com a crescente revalorização simbólica e social desta atividade, atualmente tornada uma profissão de sonho para cada vez mais jovens. Através do DJ’ing a paixão dos jovens pela música tem oportunidade de ser exercida não apenas como prática de lazer e de consumo musical, mas também como meio de vida e de afirmação da sua existência social, colocando-os em cena e a viver da cena em que gostam de viver. Por outro lado, decorre ainda da progressiva acumulação de conhecimentos no campo da produção musical, bem como da crescente sofisticação e complexificação dos conhecimentos e equipamentos manipulados pelo DJ na sua prática. Concluir-se-á que a recente contextualização do DJ’ing em escolas de formação acaba por reconfigurar a tradicional forma do-it-yourself em que a atividade era aprendida, aproximando-a mais de uma configuração do-it-for-yourself, considerando a complexidade e a sofisticação das competências (tecnológicas, teóricas, e de sobrevivência) hoje exigidas a um DJ.

O material empírico usado resulta de nove entrevistas individuais, em profundidade, de tipo compreensivo (Ferreira, 2014a), a jovens aspirantes a DJ formandos em três escolas de DJ’ing e produção musical de Lisboa (ProDJ, ETIC e i4DJ), bem como sete entrevistas semiestruturadas a responsáveis dessas e outras duas escolas (Dancefloor DJ Academy e MK2)2.

Escolher ser DJ: da brincadeira à profissionalização

Desde meados da década de 1970, depois da instauração do regime democrático em Portugal, a crença no valor da escola e da formação que ela certificava amplamente reforçada entre os jovens portugueses. As taxas de escolarização aumentaram substancialmente em todos os níveis de ensino, e os trajetos escolares dos jovens viram-se cada vez mais prolongados e ininterruptos, quer por via da dilatação da escolaridade obrigatória e das políticas sociais que vieram a combater o seu abandono, quer por via da crescente democratização do acesso ao ensino superior (Ferreira; Figueiredo; Silva, 1999; Ferreira, 2006).

No entanto, a recente conjuntura de crise económica no país, marcada pela forte recessão económica e pela aplicação de extremas medidas de austeridade, criou condições para que o valor de empregabilidade dos diplomas3, nomeadamente ao nível do ensino superior, começasse a ser questionado entre os mais jovens. Trata-se de uma conjuntura que foi marcada, entre outros fenómenos, por profundas transformações no mercado de trabalho - mais segmentado, estreito e flexível -, por taxas oficiais de desemprego jovem que excederam os 40%, por taxas crescentes de desemprego entre licenciados (acima dos 20%), e por uma diminuição constante do número de candidaturas ao ensino superior entre 2008 e 2014 (Alves et al., 2011; Cardoso et al., 2012; Lobo; Ferreira; Rowland, 2015; Pais, 2012; 2014; Vieira; Ferreira; Rowland, 2015).

Há terreno empírico, portanto, para compreender por que a anterior relação virtuosa entre o tipo e nível de instrução, a profissão, a remuneração e o estatuto social já não seja dada como certa (Alves, 2008). O diploma de ensino superior já não garante o acesso e progressão em determinada carreira, sequer um emprego que corresponda à qualificação obtida. Uma realidade, por sua vez, de que os jovens e suas famílias estão cada vez mais conscientes. Num cenário de flexibilização e volatilidade dos mercados de trabalho e de precarização da relação salarial, as condições que favoreceriam a procura otimista da educação formal e dos itinerários que essa oferece têm-se visto fragilizadas. Os jovens são hoje compelidos a lidar com a insegurança e a polivalência que crescentemente pontuam as suas transições da escola para o mundo do trabalho, sentindo alguma frustração e insatisfação juvenil com as configurações mais normativas que tomam esses caminhos. Em muitos casos, essas condições levam os jovens a procurar itinerários alternativos aos itinerários oficiais que articulam escola, formação e trabalho.

Ao mesmo tempo, outros tipos de atividades desenvolvidas na esfera das culturas juvenis têm integrado as opções e expectativas profissionais de um número crescente de jovens, promovendo a sua incursão em novos territórios educacionais e laborais, e configurando novas formas de inserção profissional e de cultura do trabalho. Conscientes de que existem menos possibilidades em ter uma carreira profissional entendida como uma trajetória, com estádios de progressão lineares e claramente demarcados, de que os caminhos de inserção e desenvolvimento profissional são cada vez mais aleatórios, caóticos e labirínticos, e de que o futuro é cada vez mais incerto, arriscado e em aberto (Ferreira; Nunes, 2014; Pais, 2001; 2003; Pais; Bendit; Ferreira, 2011; Vieira, 2015), cada vez mais jovens se manifestam dispostos a explorar o potencial de empregabilidade de suas práticas de lazer e prazer de todos os dias, que integram habilidades aprendidas informalmente, por brincadeira.

É o caso do DJ’ing, hoje percecionado por muitos jovens como uma atividade com potencial de profissionalização. Usa-se aqui o conceito de profissionalização não no sentido em que tem sido debatido no âmbito da sociologia das profissões - o processo através do qual certas ocupações vão acedendo ao título honorífico de profissões e sendo socialmente reconhecidas como tal, sujeitas a processos de regulação e jurisdição (Abbott, 1988; Freidson, 2001) -, mas como tem sido afirmado no âmbito da sociologia da juventude (Almeida; Pais, 2013), ou seja, enquanto processo subjetivo de pensar e investir numa determinada atividade social como possível meio de vida, reconhecendo-lhe potencial de empregabilidade e aspirando a dela obter rendimentos para subsistir:

Eu acho que desde novo, mesmo sem saber qual o estilo musical, já gostava de música. Nunca pensei que, com o progredir, eu ia querer fazer disto vida, não é? Claro que chegou aquela fase em que eu fiz por brincadeira. Vi que gostava mesmo e depois decidi apostar. Porque isto é uma aposta, não é? […] Isto surgiu… foi [em] festas de escola e com amigos. Foi a partir daí. [De] música sempre gostei desde novo, agora não sabia exatamente é que ia parar nesta área. Mas foi com os amigos e tudo o mais que surgiu esta ideia. […] Quando eu comecei a meter [essa música] também era muito novo e não dava muito sentido à escola. […] Na altura também nunca descartei a universidade. Com o tempo, depois, comecei a ver: ‘tenho é que estudar, tenho é que isto e que aquilo’… Só que a universidade também não era fácil. E depois eu comecei assim com as festas. Com o continuar das festas, comecei a sentir que queria mais… (Entrevista com Gabriel, 20 anos, 12º ano, formando na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

Como nos mostra Gabriel, se a insegurança e o risco estão por todo o lado, em todos os caminhos disponíveis, por que não estudar e/ou fazer o que realmente se gosta, em vez de optar por rumos mais expectáveis e pré-definidos, como fazer a universidade? Outros entrevistados fizeram-na, apostando na formação no DJ’ing em paralelo ou após o percurso escolar formal, no sentido de explorar uma prática que lhes dava prazer e que, quem sabe, poderia abrir-lhes mais uma opção laboral, de onde obteriam certamente um maior sentimento de realização de si. Significa isso que, no atual contexto de crise, quando os jovens calculam as (menores) possibilidades empregatícias que terão no futuro, eles não o fazem necessariamente orientados por valores materialistas ou de ordem instrumental, escolhendo rumos pré-estabelecidos que, supostamente, confeririam uma maior garantia no futuro. Cientes de que também esses rumos já não os salvaguardam, apostam também em percursos educativos e laborais orientados por gratificações de natureza expressiva, ou seja, relacionadas com a expressão e realização de si enquanto pessoa e profissional, e com o prazer e interesse intrínseco às tarefas a realizar. Tal acontece, frequentemente, potenciando na esfera do trabalho, paixões desenvolvidas na esfera do lazer:

Nunca tinha pensado muito nisso, porque foi mesmo quando eu era novo, deveria ter catorze/quinze anos, ainda não tinha grandes planos. […] E também não sabia que o país ia dar no que deu, não é? Agora ainda está mais complicado. E, por isso, nunca fiz grandes planos de profissão. E tanto que essa foi mesmo a primeira a aparecer-me, a de DJ foi mesmo a primeira… Porque eu, se for tocar, não sinto que seja uma profissão. Sinto que é um hobby e que, se puder ganhar o suficiente para ter a minha vida, como quero, do DJ’ing, vou sentir sempre que não tenho uma profissão […], porque é como um hobby (Entrevista com Gabriel, 20 anos, 12º ano, formando na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

No atual contexto de crise laboral, o trabalho continua, portanto, a ocupar uma posição central na vida dos jovens como dimensão de valor, e não apenas no seu valor instrumental ou materialista enquanto meio de vida, fundamental para subsistência e processos de autonomização dos jovens. O seu valor intrínseco, como elemento de gratificação pelo interesse e prazer que advém da tarefa, e o seu valor expressivo, como elemento constitutivo de identidades pessoais e sociais, estruturante de estilos de vida prazerosos e subjetivamente recompensadores, continuam a ser tanto ou mais valorizados, nomeadamente junto de novas profissões de sonho, como é o caso do DJ.

A Reconfiguração Simbólica do DJ: uma nova profissão de sonho

A realização do desejo por uma combinação ideal de valores instrumentais ou extrínsecos com valores expressivos ou intrínsecos ao exercício profissional foi, até um passado recente, principalmente associado a profissões de prestígio ratificadas por um diploma académico. No entanto, no atual contexto de descrença de que um grau académico cumpriria sonhos de segurança, estabilidade, emprego, estatuto e mobilidade social, associada ao contexto de insegurança e incerteza que se faz sentir no mercado de trabalho, as promessas académicas competem com as promessas mediadas por outros contextos sociais, tais como as culturas juvenis e as culturas mediáticas de celebridade. Se anteriormente as tradicionais profissões de sonho envolviam a mediação seletiva do ensino superior - tais como as de médico, advogado, arquiteto ou engenheiro, por exemplo -, hoje em dia existem novas profissões de sonho que já não são exclusivamente associadas a carreiras certificadas por um diploma universitário.

Com efeito, o DJ’ing tem sido alvo de um importante processo de revalorização simbólica e dignificação social, ao ser uma atividade investida de novos sentidos. Se, até recentemente, ser DJ não era uma profissão promissora, sendo associada a mundos sociais mais marginais, underground, muitas vezes conotados com estereótipos associados à boémia, à malandragem e ao uso de drogas, hoje em dia esta ocupação é idealizada como uma profissão de sucesso e de amplo reconhecimento social, movida pela crença social de que através dela se pode vir a ser alguém, se pode estar em cena e viver da cena, proporcionando a quem ela acede um sentimento de protagonismo e de existência singular enquanto indivíduo e trabalhador, difícil de obter nos lugares de trabalho atualmente disponíveis à força de trabalho juvenil:

A música de dança aqui em Portugal… […] Nós começámos por uma onda muito mais underground, de música muito mais underground, quando apareceu o que eram as chamadas raves… […] [Hoje] É toda a… é tudo o que envolve. É o brilho, é as luzes, não sei, deve fasciná-los. […] Eu acho que é por aí que eles tentam ver: ‘Ok! O meu sonho era qualquer coisa disto. Quero ser o centro das atenções!’. […] Falando da perspetiva que eles [os alunos] nos transmitem a nós […] são as luzes… Para eles o sucesso é as luzes! Eles querem sucesso! […] Vejo mesmo que eles vêm à procura desse sucesso das luzes da ribalta, do ‘Sou DJ!’ [diz com um ar muito convencido] ‘Eu sou DJ!’ Assim algo grandioso! Eles sentem aquilo como se fosse a vida eterna! Isso é o que eles me transmitem… a ideia do sucesso que eles gostariam de [alcançar]… (Entrevista com DJ JP, formador na escola Dancefloor DJ Academy) (Projeto..., 2013).

Eu tenho 15 anos de DJ, ou seja, já venho lá de trás. Eu nunca fui alvo do que toda a gente dizia, que era: ‘Ah! Que o DJ é marginal’. Que era a visão que se tinha antigamente. […] O DJ estava conotado como o marginal, como alguém que não quer trabalhar, como alguém que quer viver de… Hoje em dia não. Aliás, hoje em dia é completamente o contrário. […] Há uma grande transformação da visão de um DJ [de] há 10 anos atrás, do DJ agora. Vou dar aqui outro exemplo. Fomos uma vez a uma ação [de formação] e um dos organizadores tinha uma miúda pequenina. […] E eu comecei a perceber que ‘Ok, o pai quer que a miúda comece a entrar neste mundo para que possa - não sei, isto já estou eu aqui a dizer - ser alguém’. Porque sabemos que quem consegue dar-se bem no DJ é uma mais-valia, quer a nível de dinheiro, quer a nível de mediatismo. […] Isto para dizer o quê? Para dizer que, hoje em dia, já os próprios pais incentivam. O que há dez anos [era] ‘não, não, vai mas é para médico, vai mas é para doutor’, agora não! Agora, se calhar, já [dizem] ‘Vai lá para DJ, que DJ é fixe’ (Entrevista com DJ PL, formador nas escolas ProDJ e i4DJ) (Projeto..., 2013).

Esta é, em grande medida, a imagem social atualmente projetada pelas mídias sobre a atividade de DJ e alguns dos seus protagonistas, diariamente mediatizados em canais temáticos de TV (MTV, Trace, Clubbing TV, etc.), filmes4, revistas de teor variado, redes sociais e sites específicos. Estes dispositivos mediáticos acionam uma forma de socialização do imaginário (Kaufmann, 2003) que impele muitos jovens a produzir idealizações ou ficções profissionais. Esta forma de reflexividade que constituem os sonhos profissionais é construída na base de imagens agradáveis sobre o que se gostaria de vir a ser, remetendo a uma ideia vaga, difusa e indefinida de futuro. Não sendo dotada de qualquer circunscrição temporal, trata-se de uma forma de projeção profissional que também não exige qualquer grau de compromisso ou realismo.

Em determinadas condições e perante a visibilidade e familiaridade com determinadas oportunidades sociais, estas ficções profissionais da ordem do imaginário podem, no entanto, transformar-se em aspirações e expetativas profissionais5. Estas são formas de reflexividade projetiva que também refletem desejos de desempenho profissional no futuro, mas cujas orientações já tomam em consideração não apenas o que se gostaria de ser, mas também o que se poderia ser (no caso das aspirações) e/ou o que se quer ser (no caso das expetativas). Implicam, portanto, uma racionalidade estratégica para pôr em prática um projeto concreto que toma em consideração o que é da ordem do razoável e do provável poder concretizar-se. Ora, a visibilidade social que a mediatização do DJ obteve convoca não só sonhos, como também potencia aspirações e expetativas profissionais entre as mais novas gerações.

Com efeito, a recente mediatização da ocupação de DJ reforça a crença de anónimos sonhadores ou aspirantes poderem aceder às luzes da ribalta, familiarizando-os com critérios de acesso e de dicas de sucesso. Por outro lado, constrói e dissemina uma aura de glamour e fama sobre os seus protagonistas, celebridades bem-sucedidas, atores de um estilo de vida cosmopolita, cool, moderno, estruturado em torno de uma atividade onde o trabalho se mescla com o fruir da vida e prazeres de vária ordem: não apenas o prazer intrínseco de praticar, a tempo inteiro, a atividade de que mais se gosta, mas também gratificações extrínsecas que, daí, poderão decorrer, como um amplo reconhecimento social, fama, dinheiro, miúdas, viagens, etc.

Tenho alguma ideia que muita gente não faz as coisas porque gosta, faz pelo reconhecimento que lhes dá ou pelo ‘Ah! Tens um amigo DJ. Ah! Muito fixe, não sei quê, não sei que mais’. […] Acredito, pronto, que há muita gente que vai pelo reconhecimento ou pensa que vai ganhar muito dinheiro por isso (Entrevista com Gaspar, 22 anos, licenciado, formando na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

Pode haver quem tenha apenas a motivação da fama, só queira ser famoso. Pode haver quem só tenha a motivação de ter, se for o caso de ser um rapaz, muitas raparigas ao pé dele, de ser conhecido, que falem no nome dele. Passa muito pela fama. Eu gostava de ser famoso, mas de chegar lá por mérito, entende? (Entrevista com Gabriel, 20 anos, 12º ano, formando na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

A reconfiguração simbólica da atividade de DJ’ing não decorre apenas do intenso processo de mediatização e idealização de que tem sido alvo. Condições internas ao mundo da produção da música eletrónica despoletaram a uma transformação dos modos de fazer música que tem tido um papel importante na dignificação social dessa ocupação: falo, designadamente, do processo de artificação da atividade do DJ, um termo usado para descrever a transubstanciação simbólica de uma atividade não artística em atividade artística (Heinich; Shapiro, 2012).

Sendo institucionalmente reconhecido como profissão quer na Classificação Internacional de Ocupações, quer na Classificação Nacional de Profissões em Portugal, o DJ’ing foi simbólica e socialmente promovido nesta última classificação entre as suas versões de 1994 e 2010, promoção essa, em grande medida, baseada no reconhecimento institucional da sua artificação. Com efeito, na classificação usada em 1994, o DJ era colocado entre os Trabalhadores dos serviços diretos e particulares não classificados em outra parte, pertencente ao Grande Grupo 5 - Pessoal dos serviços e vendedores (Instituto do Emprego e Formação Profissional, 1994). Já na classificação de 2010, o DJ passa a ser classificado no Grande Grupo 2, os Especialistas das atividades intelectuais e científicas, categoria que “[...] compreende as tarefas e funções das profissões intelectuais e científicas, com particular incidência nos domínios da investigação, desenvolvimento e aplicação do conhecimento humano” (Instituto Nacional de Estatística, 2011, p. 123). Dentro deste grande grupo, o DJ passou a ser incluído na categoria Outros artistas e intérpretes criativos das artes do espetáculo.

Embora em termos oficiais o conteúdo das tarefas do DJ se tenha mantido exatamente o mesmo em ambas a categorias entre 1994 e em 2010, a sua inclusão nessa última categoria associa-lhe uma dimensão artística, criativa e intelectual que não lhe era anteriormente reconhecida. Ora, esta associação indica a artificação da atividade do DJ, a qual acontece por via da sua criativização, ou seja, o processo de deslocamento de um discurso maioritariamente técnico e prático a enformar a prática do DJ’ing, para um discurso de inovação, criatividade e autoria, com a subsequente expansão e multiplicação das formas de fazer diferente essas mesmas práticas (Ferreira, 2014b). Estas são dimensões cuja relevância surge bastante enfatizada entre os entrevistados:

Acima de tudo [o DJ] tem que ter uma capacidade criativa grande. […] E isso obriga a uma grande pesquisa, constante, de músicas novas, de músicas antigas, [a perceber] o que é que cada uma delas pode transmitir às pessoas, na altura certa. Isso é um fator importante (Entrevista com DJ JP, formador na escola Dancefloor DJ Academy) (Projeto..., 2013).

DJs, produtores, seja como for, têm muito trabalho de casa para fazer! É muito exigente, porque eles têm que estar sempre atualizados, têm que estar sempre um passo à frente de todos os outros, porque aquilo também exige muita criatividade. E a criatividade… tem que se estar sempre a pesquisar. […] Porque isto está sempre a atualizar, a nível de equipamento - falo no DJ, porque há muita atualização, há muitas máquinas. […] Muita coisa de repente apareceu para eles poderem criar algo novo e diferente (Entrevista com DJ CS, formador na escola Dancefloor DJ Academy) (Projeto..., 2013).

Tal como se observa nos testemunhos, a criatividade do DJ implica a acumulação de uma elevada cultura musical e o desenvolvimento de um ethos de pesquisa, de exploração de soluções criativas, de investigação de novas técnicas, materiais e equipamentos sonoros. Esse ethos de pesquisa, orientado no sentido da inovação criativa, é em grande medida cultivado nas atuais condições de escolarização das práticas de produção musical, condições que implicaram a transformação dos tradicionais saberes-fazer práticos e experienciais informalmente produzidos e reproduzidos no mundo do DJ’ing, em saberes curriculares. Essa transformação implicou quer a sistematização e teorização de saberes-fazer historicamente acumulados dentro da área específica da produção musical eletrónica, quer a sua articulação com outras disciplinas e saberes já academizados (engenharia, acústica, matemática, tecnologia, estética, história, entre outras), quer ainda a aplicação de metodologias de trabalho menos intuitivas e reprodutoras de saberes-fazer, em favor de metodologias mais conceptuais e projetuais, estratégica e racionalmente aplicadas à prática musical.

A Pedagogização do DJ’ing: a institucionalização escolar de saberes experienciais

A atividade de DJ’ing é uma ocupação onde aprendizagens e saberes práticos ou saberes-fazer são, e sempre foram, bastante valorizados. Em sentido muito lato e generalista, falamos do conhecimento experiencial exigido para escolher, misturar e alinhar, ou até criar (no caso do DJ ser também produtor musical) um conjunto de músicas para os outros fruírem. Muitos desses saberes-fazer são desenvolvidos desde cedo no âmbito de experiências biográficas socialmente contextualizadas entre grupos pares durante os tempos de lazer, brincadeiras com o objetivo recreativo de ocupar o tempo livre. Baixa-se música da internet, veem-se alguns tutoriais no YouTube, compram-se algum equipamento, e começa-se a ser responsável pelo som de festas de amigos e familiares. Na preparação destes momentos, os jovens vão experimentando músicas, alinhamentos e efeitos sonoros proporcionados pelo equipamento, na solidão do seu quarto ou entre amigos. O gosto vai crescendo, o reconhecimento do seu talento vai-se ampliando numa escala social micro grupal e, desta forma, o sonho em poder vir a ser DJ vai sendo acalentado.

No entanto, as aceleradas mudanças tecnológicas dos equipamentos manipulados pelo DJ têm tido impactos relevantes nos saberes e saberes-fazer implicados na sua atividade, em termos da estrutura e volume das competências que lhe são exigidas (Attias; Gavanas; Rietveld, 2013; Bacal, 2012; Montano, 2010; 2013). Face a uma oferta de equipamentos tecnológicos cada vez mais sofisticados e complexos, a manipulação dos efeitos que esses disponibilizam torna-se cada vez mais difícil em condições de autoaprendizagem ou de aprendizagem informal entre pares:

Nós quando começámos a mexer com a nossa mesa de mistura, vimo-nos aflitos com determinadas coisas. E eram variadas, porque não conhecíamos. Olhávamos para aquilo e era tudo novo para nós. Apesar de termos visto os vídeos [refere-se aos tutoriais no YouTube], é tudo muito complicado quando temos as coisas à frente. E foi aí que nós percebemos: ‘Bom, se calhar isto é preciso alguma ajuda de alguém que saiba’. E foi aí que nós decidimos apostar num curso para melhorar os nossos níveis técnicos, visto que também não sabíamos muito mexer com as coisas. Não sabíamos o que é que cada coisa queria dizer. Portanto, decidimos apostar na formação (Entrevista com Manuel, 19 anos, frequenta licenciatura, formando na escola i4DJ) (Projeto..., 2013).

Eu acho que é muito importante saber o que é que os botões fazem. A maior parte das pessoas tende a carregar em botões de uma forma aleatória - e eu sei porque eu também o fiz, antes de eu próprio ter tido formação sobre como utilizar alguns softwares - e, portanto, isso cria um handicap muito grande. Porque quando não se sabe o que é que se está a fazer torna-se mais difícil atingir o que se pretende. E não atingir o que se pretende é a causa maior [de] desistência das pessoas que fazem música, porque não soa ao que eles estavam à espera, ou não soa como devia. […] E, portanto, eu acho isso muito importante, acho essa base muito importante. Acho que há imensa gente muito talentosa que, de facto, atinge o seu potencial quando percebe finalmente que raio é que aquelas coisas fazem. […] Eu tentei fazer em casa! Mas não sabendo algumas bases é relativamente difícil… começar do meio do nada! É preciso saber umas quantas coisas. É preciso saber que linguagem é que a música utiliza - e eu tinha estudado piano quando era miúdo, por isso é que… deve ajudar de alguma maneira! Ajuda para perceber algumas coisas, mas não ajuda para perceber a mecânica de funcionamento de trabalhar com uma máquina, com um computador, que tem hipóteses, possibilidades infinitas de combinações de parâmetros (Entrevista com DJ MC, formador na escola ETIC) (Projeto..., 2013).

Reconhecendo o entusiasmo juvenil por esta prática, vimos recentemente emergir nas principais cidades portuguesas, sobretudo em Lisboa e no Porto, um conjunto crescente de ofertas e estruturas formativas institucionalizadas na forma de planos curriculares, e mercantilizadas sob vários formatos educacionais. A emergência desta oferta formativa está, em grande medida, relacionada com a tentativa de satisfazer o sonho em ser DJ que vai crescendo entre os jovens:

Nós, no fundo, vendemos um sonho, não é? Porque temos DJs portugueses, neste caso, a ganharem 8 mil euros por uma atuação de 45 minutos. Que é um valor muito significativo! Que tiram 100 mil euros por mês, se for preciso. Claro que são muito raros, não é? E que levam anos e anos de trabalho. Mas a nossa ambição é formar o melhor DJ do mundo! (sorri) (Entrevista com MP, relações públicas na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

A formação que é oferecida nestes contextos poderia ser apenas uma forma lúdica, mas organizada, de os jovens preencherem o seu tempo livre. Todavia, com maior frequência ela é encarada pelos seus estudantes para além desse objetivo, enveredando por uma perspetiva de empregabilidade que implica a preparação para um futuro exercício profissional. Mesmo quando muitos jovens se inscrevem nesses contextos com objetivos mais lúdicos, o próprio processo formativo acaba por socializá-los e produzir predisposições para o desenvolvimento de uma futura carreira na área:

Muita gente vem cá numa brincadeira. E depois, a meio do curso, nós vemos que eles até têm talento para mais. E esses, que têm talento, os formadores vão sempre dando um empurrãozinho, dando mais força. E não deixam desistir. E é aí que acaba por nascer o verdadeiro sonho e a vontade. Acho que acaba por nascer por aí (Entrevista com DJ JP, formador na escola Dancefloor DJ Academy) (Projeto..., 2013).

O que foi mudando é que, enquanto antigamente tínhamos essencialmente malta mais nova que tinha um bocado esta paixão e tinha o sonho, mas levava isto com uma pitada de sal - como eu costumo dizer -, hoje, às vezes, eu fico assustado quando vejo um pai chegar com um miúdo e estar-lhe a pagar o curso, quase como estaria a pagar um curso… superior, ou uma coisa qualquer. E isso deixa-me um pouco preocupado. Porque obviamente isto é uma área artística, não é? Estamos a falar… não é como ser… se bem que hoje as garantias não são assim tantas, mas pronto… não é um curso de engenheiro, de arquiteto, sei lá, de médico, até de mecânico. […] Como os DJ’s [hoje] têm uma visibilidade diferente e, se calhar, até culturalmente são olhados pelos pais destes miúdos como possíveis saídas profissionais, há uma facilidade e há, por vezes, até incentivo a que o façam (Entrevista com DJ MS, formador na escola MK2) (Projeto..., 2013).

Um dos objetivos deste tipo de ofertas educativas passa justamente por potencializar e aprofundar as habilidades antes compartilhadas por jovens em sociabilidades conviviais e desenvolvidas nos seus tempos de lazer. Fazem-no, contudo, transformando essas habilidades em conhecimento formal e sistematizado, e reproduzindo-as de uma forma inteligível e de rápida apreensão. A formação mercantilizada nas escolas de DJ’ing configura assim uma forma de transmissão concentrada e institucional de um conjunto de saberes e saberes-fazer de natureza técnica, histórica e teórica que se foram acumulando informalmente.

O corpo variado de disciplinas que disponibilizam apresenta-se aos seus formando como um dos meios mais eficazes para uma transmissão rápida, sistemática e tão aprofundada quanto possível no tempo negociado, dos vários tipos de capitais culturais e praxeológicos acumulados no campo da música eletrónica, e cuja posse é tida como obrigatória ao desenvolvimento atual da produção de música eletrónica. Esses capitais compreendem um determinado volume de referências históricas em termos de estilos musicais e figuras carismáticas, de informação e reflexão teórica, de conhecimentos técnicos ou práticos adquiridos e consolidados no tempo acerca do manuseamento de equipamentos e respetivos efeitos:

Portanto, todos os DJs, até há uns anos atrás, aprendiam a ver os amigos a tocar, aprendiam porque iam pesquisar, porque compravam o equipamento e treinavam. Agora, hoje em dia, o conhecimento é cada vez maior. […] Mas, claro, ter formação - com, neste caso, os nossos formadores, todos com mais de quinze anos de experiência - é diferente. Há uma atenção muito grande e é tudo muito específico e com um fio condutor muito regrado. E foi por isso mesmo que nós quisemos ser certificados, porque aí, não só obedecemos a parâmetros de avaliação impostos pela sociedade, como temos conteúdos programáticos que são seguidos à risca e avaliações que contribuem sempre para que eles melhorem cada vez mais o desempenho (Entrevista com MP, relações públicas na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

Uma coisa é nós estarmos a aprender, sermos autodidatas. Outra coisa é [haver] uma escola, que pesquisa, que procura, que tenta acompanhar, que tenta ver mais além as coisas, e isso complementa muito mais o DJ. Ou seja, nós, como escola, conseguimos ter isso tudo, temos as condições para isso, e isso [faz] com que qualquer aluno que venha para esta escola ganhe logo com isso. […] Porque tive que aprender com os erros, não é? Aqui numa escola não. Na escola… O que eu aprendi, ou todos os formadores que estão nesta escola, os erros [com] que aprendemos pela vida, acabamos por evitar que eles [cometam]… E isso é ganhar tempo, para eles. Então é muito importante, realmente… E há uma grande diferença entre ter uma formação e não ter essa formação. […] Na realidade, o estar aqui na escola, o passar uma formação é, sem dúvida, pular muitos problemas (Entrevista com DJ PL, formador nas escolas ProDJ e i4DJ) (Projeto..., 2013).

O processo de transmutação de habilidades informais em competências formais implica identificar, reconhecer e definir as primeiras enquanto conhecimentos disciplinares específicos, transformar saberes-fazer em saberes, pedagogizá-los na forma de plano curricular e sob formatos educacionais diferentes (diferentes disciplinas, módulos correspondentes a diferentes níveis de dificuldade técnica, workshops especializados, etc.), projetar instrumentos e momentos de avaliação dessas competências, e certificá-las sob a forma de qualificações com diferentes tipos e níveis de reconhecimento institucional por forma a ser mercantilizados enquanto recursos formativos:

O curso são três módulos e todos eles têm uma componente particular. O primeiro módulo é a parte básica, onde eles aprendem a fazer pitching, onde aprendem a fazer o grosso do DJ, a base do DJ. O segundo módulo é a consolidação do primeiro e a preparação para o terceiro. E o terceiro é, realmente, a parte criativa, [o] processamento de efeitos, é toda uma parte mais lúdica e visual do DJ. Ao longo do curso nós temos uma documentação que vamos dando aos alunos, para que eles possam estudar, consultar, apreciar - como quiserem interpretar -, o que complementa e ajuda, não só na parte dos exames - que é obrigatório, daí sermos uma escola certificada e quisemos fazer por isso. O fim de cada módulo tem uma avaliação que é escrita e é prática, é teórica e prática. E pronto. E tem este processo dos três módulos. No final dos três módulos têm mais dois exames, [que] já são exames só práticos, já são no clube. São duas atuações reais, onde também estão a ser avaliados. Uma em que [o aluno] é avaliado por júris, ou seja, é num clube, só que tem três pessoas que estão avaliar - que são externas à escola - e que vão avaliando os alunos em todos os critérios de avaliação, como a técnica, como a presença, a questão da imagem, a questão musical. Pronto, tudo é avaliado. E outro exame, também no clube, é uma atuação real. Já com público, quer dos amigos quer de pessoas que nós convidamos que vão para o público, e também estão com os mesmos critérios de avaliação, um bocadinho mais rigorosos. Porque já têm um público e já têm que agradar a um público e já têm que fazer um momento musical, já têm que ter uma noção do que é que podem fazer para que a pista fique sempre o mais alegre e dançável possível. E este é o processo de formação (Entrevista com DJ PL, formador nas escolas ProDJ e i4DJ) (Projeto..., 2013).

Torna-se evidente, portanto, que a atividade de DJ está a passar por um processo de formalização pedagógica dos seus conhecimentos e dos seus modos de transmissão. É neste sentido que falamos em pedagogização do DJ’ing: ou seja, que os saberes experienciais tradicionalmente produzidos e reproduzidos informalmente no contexto de culturas juvenis, se encontram sob uma progressiva apropriação por e integração em formas de cultura escolar, ainda que fora do trajeto escolar oficial. A mercadorização destes recursos acontece na medida em que são competências e qualificações sedutoras, atrativas e apelativas a determinados perfis juvenis em crescimento, potenciais detentores de recursos de tempo, económicos e simbólicos para nelas investir não apenas como atividade de ocupação de tempos livres, mas também como atividade com potencial profissionalizante.

Trata-se de uma cultura qualificacional, portanto, que vem de encontro às aspirações e expectativas profissionais desses jovens, tentando investir um valor de certificação e de empregabilidade à mercadoria que mercantilizam. Este valor da certificação é ainda um critério de distinção no mercado deste tipo de oferta educativa, bastante atrativo na procura e na escolha deste tipo de escolas:

Eu escolhi esta [escola], e já tinha visto outras duas, mas escolhi esta porque esta era a única, pelo menos que eu tinha pesquisado, que era certificada. Pronto. E eu assim: ‘Calma lá. Estou a olhar para uma [que] não tem certificação nenhuma, olho para esta e é certificada, por acaso até me dá mais jeito à base de transportes, pá, vou para esta’ (Entrevista com Tomé, 23 anos, 12º ano de escolaridade, trabalhador, formando na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

Essas escolas não oferecem propriamente uma certificação formal ao nível das que são transacionadas nos percursos da escola oficial, a nível secundário ou graduado. Algumas escolas (como a ProDJ) oferecem, no entanto, certificação profissional acreditada pela DGERT (Direção Geral do Emprego e das Relações de Trabalho), a entidade oficial responsável pela certificação das entidades formadoras. Isso significa que os procedimentos e práticas das formações que esta entidade certifica estão de acordo com um referencial de qualidade específico para a formação, nos termos do Sistema Nacional de Qualificações. Outras escolas (como a ETIC) vão mais longe, literalmente, e oferecem uma certificação internacional a que chamam de Higher National Diploma, a designação utilizada para os cursos superiores do sistema educativo britânico, facilitando a progressão de estudos e equivalências dos seus formandos a nível internacional, bem como a validação do seu estatuto profissional como DJ.

Entre Provas e Experiências: valências das escolas de formação em DJ’ing

Apesar de se constatar a presença de uma lógica de acreditação formal por parte de jovens deter relevância na opção por uma formação na área do DJ’ing, a frequência destes contextos de formação também são altamente valorizados pelas experiências que proporcionam a seus alunos e provas que estas constituem para forjar a sua identidade profissional como DJ (Martucelli, 2006). Por um lado, facultam experiências práticas no acesso a técnicas, tecnologias e equipamentos utilizados nessas ocupações, muito mais sofisticados e complexos que no passado. Quando questionados sobre as vantagens da formação, muitos entrevistados atestam esta sua valência prática:

[...] ‘a níveis técnicos principalmente. Por tudo: porque trabalhamos com materiais diferentes, aprendemos a fazer coisas diferentes, aprendemos as várias maneiras que temos de fazer uma mistura, tudo o que o material tem para oferecer. Por que eu, antes de vir tirar o curso, se pegasse na mais alta tecnologia que eles têm aqui, não sabia certamente para que é que metade dos botões serviam. E agora já sei, não é?’ (Entrevista com Gabriel, 20 anos, 12º ano de escolaridade, formando na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

Denota-se, portanto, a valorização de uma pedagogia baseada no aprender fazendo na formação do DJ, onde fazer é mais importante que escutar, e experimentar mais efetivo que estudar, sendo o formador mais mentor do que mestre. Estes espaços formativos adquirem, assim, para os seus formandos, um valor acrescido pela função laboratorial que desempenham, passível de ser concretizada com maior ou menor êxito, dependendo das possibilidades concedidas pela escola em termos de condições materiais de experimentação criativa. Isto é, as condições relativas às disponibilidades que oferecem no contacto com várias técnicas, tecnologias e equipamentos. No fundo, recursos que permitem a formulação, o ensaio e o desenvolvimento de situações experimentais que façam despoletar novas soluções criativas.

Por outro lado, estes contextos formativos são ainda bastante valorizados pelos jovens que os frequentam pelas experiências sociais que proporcionam com profissionais da área, desde logo os próprios formadores, em geral eles próprios DJ’s. A valorização da sua dimensão sociabilística é manifestada na apropriação da escola enquanto espaço dinâmico de discussão e crítica sobre o próprio trabalho e o trabalho dos outros, de acompanhamento e partilha de vivências e experiências com colegas e professores, de ampliação do contacto com outros profissionais do DJ’ing e das respetivas formas de fazer. Ao proporcionar a ocasião e as condições favoráveis para adquirir conhecimentos técnicos, históricos e teóricos de base ao desenvolvimento da sua criatividade musical, para experimentar e ensaiar os caminhos desta, essas escolas promovem um universo de permanente diálogo e/ou confronto intra e intergeracional, onde a troca de informações, experiências e impressões críticas é constante:

Eu acho que elas vêm porque nós, no fundo, somos um serviço completo. Mais que uma escola, a ProDJ é um local de vivência e de experiência. Portanto, quanto mais tempo eles passam aqui, mais contato têm constantemente com todos os equipamentos, com os formadores e com os colegas. E trocam muito - experiências, acontecimentos e músicas -, e isso faz com que eles cresçam bastante a nível profissional (Entrevista com MP, relações públicas na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

Eles, para além do curso - aprenderem as técnicas -, acabam por ter… têm acesso à experiência. A experiência real, da vida real. E isso, aprendendo sozinhos, […] não vão ter, percebe? E eu acho que é mais enriquecedor. Acho que é por aí. […] Porque aqui eles acabam por fazer a filtragem, [por perceber] realmente se ‘é isto que eu quero, ou não’. […] Eles muitas vezes perguntam ‘Mas como é que é? O que é que costumas fazer? Ou o que é que já fizeste?’. E acabam por ter acesso a essa experiência. Que não vão ter facilmente nos dias que decorrem, não é? Porque obviamente que temos vários DJs, mas há muitos que se calhar aprenderam em casa, com tutoriais, no YouTube, mas não é a mesma coisa! Acaba por não ser o mesmo. E aqui eles têm acesso a essas duas vertentes: à aprendizagem e à experiência. Penso que é aí que nós temos a nossa força (Entrevista com DJ JP, formador na escola Dancefloor DJ Academy) (Projeto..., 2013).

Deste modo, a rede de legitimação e validação social do talento dos jovens aspirantes a DJ é ampliada para além dos seus círculos micro grupais, consolidando (ou a desfazendo) o valor de experiências biográficas anteriormente acumuladas, bem como as apreciações veiculadas pelos círculos de interação nuclear dos jovens, constituídos pelos membros da família, amigos e colegas. Quer isso dizer que, mais do que uma acreditação formal, os jovens procuram nestes contextos de formação uma acreditação e reconhecimento social mais alargado e especializado da sua potencial vocação:

Um formador tem inicialmente [muita influência], por que é o formador que está a dar formação, está a ensinar, e a partir daí é que o DJ vai começar. [O iniciante] Vai dar sempre ouvidos a um formador e também vai, se calhar, idolatrá-lo um bocadinho, e tentar fazer as coisas à maneira do formador, porque sabe que assim está a fazer bem, está a fazer correto. Pode influenciar, sem dúvida que pode, e se há alguém que pode dar inspiração a um aluno é um formador, [ao] dizer-lhe que está bem feito. Acho que o melhor que o aluno pode ouvir são as palavras, não de um amigo, não de um gerente de um bar, é mesmo de um formador ou de um DJ profissional. Sendo ele sincero, não é? É o melhor que se pode ouvir (Entrevista com Gaspar, 22 anos, licenciado, formando na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

O contacto com profissionais da área tem ainda ressonância junto dos leigos nas artes do DJ’ing, na medida em que são capazes de introduzi-los nas competências extramusicais necessárias para se tornarem alguém como DJ e tornarem o respetivo sonho profissional em realidade. Porque, afinal, “[...] o DJ não é só mexer nos botões, não é?” (Projeto..., 2013; DJ PL, formador nas escolas ProDJ e i4DJ), “[...] isto não é só carregar no play e aquilo dar som, não é? […] Isto tem tanta coisa atrás” (Projeto..., 2013; AP, professor e responsável pelos cursos de Música na escola ETIC). À medida que se tentam profissionalizar na atividade e se procuram lugares para tocar no mercado de trabalho, os formandos vão ter que assumir o estatuto de empresário de si6, o qual implica a detenção de outras competências de sobrevivência para além das competências propriamente musicais, como técnicas de relações públicas e de marketing pessoal, metodologias de gestão de carreira, competências de apresentação de si e do seu trabalho, quer nos encontros com os clientes, quer no seu desempenho musical em palco, etc.

A ideia que nos transmitem na escola é que o diploma, claro, é uma mais-valia. [Mas] Para tocar nos sítios que eu já toquei, isso nunca foi relevante. Mais importante, acho eu, que o diploma, é a questão de saber aquilo que nós sabemos a nível de tudo; da técnica principalmente, e da forma como nos apresentarmos aos sítios. Ou seja, eles prepararam-me, portanto, a cem por cento, e explicaram-me tudo o que eu devo fazer para me poder apresentar a um sítio - como devo fazer, de que maneira, o que é que devo levar, o que é que devo dizer. E se eu fizer bem essa parte, quase que não vou precisar do diploma, porque é o suficiente para poder tocar lá (Entrevista com Gaspar, 22 anos, licenciado, formando na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

Nós não damos só formação, trabalhamos também na área de eventos, fazemos muitas coisas de eventos, e tentamos sempre levar os nossos alunos finalistas aos nossos eventos. Isto para saberem como é que falam com os clientes, como é que têm que estar apresentáveis, como é que devem montar as coisas, como é que devem manter a postura, etc. Porque claro que, independentemente disto ser uma profissão muito liberal e com muito ‘tu cá, tu lá’, claro que há sempre algumas restrições [a] que não se pode fugir. Quer dizer, um cliente é um cliente. O cliente está a pagar, o cliente manda! Por isso, eles também têm que ter um bocadinho dessa noção e… saber negociar e saberem valorizar-se cada vez mais (Entrevista com MP, relações públicas na escola ProDJ) (Projeto..., 2013).

Nesta ótica, as escolas de DJ’ing funcionam como espaços preliminares de enquadramento institucional da atividade dos seus jovens formandos. O seu acesso corresponde à entrada numa rede social de reconhecimento e legitimação interpares, numa rede de opiniões e avaliações já dotada de certo grau de especialização e, por isso, com alguma capacidade de construir reputações. Dessa rede fazem parte colegas e professores, mas também existe a possibilidade de integrar outros agentes exteriores à escola. Daí as expetativas relativamente às escolas enquanto espaços de potencial capitalização de relações sociais privilegiadas, no sentido de oferecerem oportunidades sociais que assegurem ou facilitem a inserção dos jovens no mercado de trabalho. Nos contactos mais informais ou institucionais que proporciona com os meios profissionais, as escolas acabam por socializar os seus formandos nas regras e convenções que orientam o jogo social do mundo do DJ’ing: se, por um lado, é nelas que o estudante se confronta pela primeira vez com as regras desse jogo social, por outro, a sua frequência passa a ser estrategicamente rentabilizada enquanto meio de socia(bi)lização central para o sucesso na sua futura profissionalização.

Conclusão

O contexto marcado pelo decrescimento do valor de empregabilidade dos diplomas de ensino superior e das condições de trabalho que eles proporcionam, bem como pela revalorização social que a atividade de DJ tem tido por via da sua intensa mediatização e artificação, tem reforçado o processo de profissionalização desta atividade. Isso quer dizer que uma prática de lazer e prazer no âmbito de culturas juvenis, desenvolvida de forma amadorística, tende a ser cada vez mais percecionada e sonhada por muitos jovens como atividade com potencial meio de vida ou meio de subsistência - mesmo que com possibilidades diferentes de alcançá-los, dependendo de diversas condições sociais prévias (como a classe e o género).

Considerando que este fenómeno não acontece apenas em torno do DJ’ing7, urge olhar para as práticas desenvolvidas no âmbito das culturas juvenis não apenas como atividades de lazer, de consumo ou de resistência ideológica, como tem acontecido em grande medida na tradição dos estudos subculturais e até pós-subculturais, mas também olhar para a sua apropriação juvenil enquanto práticas de produção, com potencial de vir a constituir um meio de vida no futuro. Enquanto trabalho, não são, porém, apenas ou sequer fundamentalmente valorizadas pela sua dimensão instrumental ou materialista da subsistência, constituindo também artes de existência (Ferreira, 2016) que seduzem muitos jovens a escapar ao vazio de uma subsistência anônima e anódina, correspondente à condição atual do jovem enquanto trabalhador, percebido como mais um entre muitos, colocados nos bastidores da cena social e deixados à mercê de caminhos e mecanismos de inserção laboral que os submetem à invisibilidade do subemprego, do desemprego ou do emprego desolador e não promissor. Nos sonhos de muitos jovens, ser DJ proporciona-lhe um sentimento de protagonismo e de reconhecimento social, com direito a uma existência singular enquanto indivíduo e trabalhador, um sentimento de ser alguém no mundo, nomeadamente no mundo do trabalho, mas não só.

Neste contexto, reconhecendo a sedução de cada vez mais jovens por essa atividade, emergem e se difundem escolas de formação em DJ’ing, mercantilizando competências e credenciais que exploram a vontade de tornar esse sonho em realidade. Nessas escolas, aquilo que eram práticas de produção e reprodução informal dos saberes e saberes-fazer implicados na atividade de DJ vão sendo substituídas por mediações e mediadores pedagógicos. Competências que anteriormente eram compartilhadas por jovens em sociabilidades conviviais e desenvolvidas nos seus tempos de lazer, são formalizadas em unidades curriculares, mercantilizadas sob vários formatos educacionais, e institucionalizadas sob a forma de qualificações, com diferentes graus de certificação e reconhecimento escolar. É neste sentido que argumento que a ocupação de DJ está a passar por um crescente processo de pedagogização (Beillerot, 1987), consubstancializado na progressiva apropriação e integração em formas de cultura escolar de saberes experienciais anteriormente produzidos e reproduzidos informalmente no âmbito do quotidiano das culturas juvenis.

Fica, assim, claro como o processo de tornar o sonho de ser DJ em realidade, é mais difícil de concretizar-se com base em práticas exclusivamente autossuficientes e informais de aprendizagem. Tal acontece, principalmente, devido à crescente sofisticação e complexificação dos equipamentos tecnológicos utilizados, e à progressiva demanda de inovação e criatividade no exercício dessa atividade, por referência a um amplo património de conhecimento acumulado - agora mais sistematizado e formalizado do que no passado, nomeadamente por ação das próprias instituições de ensino, cuja atividade pedagógica obriga à sistematização, discursivização e conceptualização do conhecimento prático acumulado.

Pode então concluir-se que a aprendizagem da atividade de DJ’ing, tradicionalmente perspetivada como uma prática do-it-yourself na literatura sobre as culturas juvenis, já não segue necessariamente essa lógica. A complexidade e sofisticação dos conteúdos e competências (tecnológicas, teóricas e de sobrevivência) hoje exigidas ao exercício desta atividade, ao serem pedagogizadas, acabam por configurar uma forma de aprendizagem mais à maneira do-it-for-yourself (faça-por-si-próprio) do que do-it-yourself (faça-você-mesmo).

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Notas
Notas

1 Sobre as experiências proporcionadas pela música eletrónica de dança em contextos de raving & clubbing, ver Demeuldre (1998), Jordan (1995), Queudrus (2002), Racine (2002), Reynolds (1998).

Notas

2 O material empírico apresentado neste artigo foi produzido no âmbito do projeto de pesquisa Tornando Profissões de Sonho Realidade. Transições para novos mundos profissionais atrativos para os jovens, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, PTDC/CS-SOC/122727/2010. Para uma descrição mais detalhada dos objetivos e métodos usados no projeto, ver: <http://newdreamjobs.wixsite.com/dreamjobs>. Trata-se de um projeto mais vasto onde são investigadas as configurações sociais e simbólicas em torno das escolhas, projetos e trajetos profissionais não apenas da ocupação de DJ, mas também de chefe de cozinha, modelo e futebolista.

Notas

3 Entende-se por valor de empregabilidade de um diploma o valor social atribuído a esse instrumento no acesso a um posto de trabalho equivalente às qualificações que certifica as formas mais estáveis de emprego e, em última instância, ao um posto de trabalho tout court.

Notas

4 Alguns filmes que se focam sobre a vida do DJ: Groove (2000, Greg Harrison), Scratch (2001, Doug Pray), Maestro (2003, Josell Ramos), Hey DJ (2003, Miguel Delgado e Jon Jacobs), It’s All Gone Pete Tong (2004, Michael Dowse), One Perfect Day (2004, Paul Currie), Berlin Calling (2008, Paul Kalkbrenner), We Are Your Friends (2015, Max Joseph).

Notas

5 Para aprofundar as distinções entre sonhos, aspirações e expetativas profissionais, ver Mateus (2013, p. 123-172).

Notas

6 Segundo Alves, a expressão empresário de si descreve a ideia de que “[...] cada um deve ter consigo próprio a relação de um empresário com o seu produto, procurar ‘vender-se’, negociar o ‘capital’ em que se tornou” (Alves, 2009, p. 253).

Notas

7 Ver, por exemplo, o caso dos tatuadores em Ferreira (2014b).

Notas

8 Concerning the experiences allowed by the dance electronic music in contexts raving & clubbing, please see Demeuldre (1998), Jordan (1995), Queudrus (2002), Racine (2002), Reynolds (1998).

Notas

9 The empirical material presented in this article was produced within the scope of the research project Tornando Profissões de Sonho Realidade. Transições para novos mundos profissionais atrativos para os jovens [Making Dream Jobs come True. Transitions to new attractive professional worlds to young people], funded by the pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, PTDC/CS-SOC/122727/2010. For a more detailed description of the objectives and methods used in the project, please see: <http://newdreamjobs.wixsite.com/dreamjobs>. It is a wider project to research social and symbolic configurations concerning the choices, projects and professional paths not only of DJs, but also of chefs, models and soccer players.

Notas

10 The value of employability of a diploma is understood as the social value assigned to this tool in the access to a work position equivalent to the qualifications that certifies the most stable forms of job and, ultimately, to a work position tout court.

Notas

11 Some movies focusing on the DJ life: Groove (2000, Greg Harrison), Scratch (2001, Doug Pray), Maestro (2003, Josell Ramos), Hey DJ (2003, Miguel Delgado and Jon Jacobs), It’s All Gone Pete Tong (2004, Michael Dowse), One Perfect Day (2004, Paul Currie), Berlin Calling (2008, Paul Kalkbrenner), We Are Your Friends (2015, Max Joseph).

Notas

12 To deepen the distinctions between professional dreams, aspirations and expectations, see Mateus (2013, p. 123-172).

Notas

13 According to Alves, the expression of self-entrepreneur describes the idea that “[…] each one must have with him/herself the relation of an entrepreneur with his product, trying to ‘sell him/herself’, to negotiate the ‘capital’ in which he/she became” (Alves, 2009, p. 253).

Notas

14 See, for instance, the case of the tattoo artists in Ferreira (2014b).

Autor notes

Vitor Sérgio Ferreira é doutorado em Sociologia (2006, ISCTE-IUL). Atualmente é Investigador Auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde coordena o grupo de investigação LIFE - Percursos de vida, Desigualdades e Solidariedades: Práticas e Políticas, e co-coordena o Observatório Permanente da Juventude. Tem pesquisado principalmente sobre culturas juvenis e transições para a idade adulta. E-mail: vitor.ferreira@ics.ulisboa.pt

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