Património Cultural: prevenção, resposta e recuperação de desastres
Património Cultural: prevenção, resposta e recuperação de desastres
Conservar Património, núm. 25, 2017
Associação Profissional de Conservadores Restauradores de Portugal
Sob a égide da Nações Unidas, no final de 2015, representantes de 195 países discutiram, na Conferência do Clima em Paris (COP 21), o impacto das alterações climáticas sobre as sociedades, as pessoas e os seus bens. Chuvas torrenciais, tempestades inesperadas e violentas, derrocadas, ondas de calor e picos de poluição atingem, actualmente, uma frequência preocupante.
Por outro lado, nos últimos anos, assistiu-se ao recrudescimento de incidentes (sismos, guerras, atentados, inundações, incêndios) que provocaram danos irrecuperáveis e a destruição de Bens Culturais, testemunhos fundamentais de história, de memória e de identidade.
Sendo fundamental que as instituições responsáveis por monumentos e colecções patrimoniais reforcem políticas de prevenção, e de gestão de riscos que incluam a sensibilização e a formação, o Museu Nacional dos Coches, em parceria com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação Oriente, organizou a conferência internacional Património Cultural: Prevenção, Resposta e Recuperação de Desastres que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, nos dias 3 e 4 de Novembro de 2016.
Estiveram presentes representantes de organizações internacionais como a UNISDR, a UNESCO, o ICCROM, o ICOMOS, especialistas de museus, universidades e instituições nacionais e internacionais bem como de entidades ligadas à protecção civil.
As comunicações abordaram conceitos e princípios de actuação e boas práticas de prevenção e resposta a situações de emergência. Algumas delas fazem parte do presente número da revista Conservar Património. A documentação de suporte da totalidade das comunicações pode ser consultada no link https://drive.google.com/drive/folders/ 0B6cO1J0ssb_1Sm8tOGI3eDhhck0.
No ano em que se evocou a memória da catastrófica inundação de Florença, a conferência pretendeu suscitar a reflexão e a partilha de experiência, fomentar uma cooperação mais estreita entre as instituições que gerem Bens Culturais, os institutos de investigação científica e os serviços de protecção civil para conseguir uma gestão mais eficaz em situações de crise, bem como alargar e reforçar bases de cooperação internacional.
Foi também intenção dos organizadores que desta conferência saíssem resultados concretos tendo em vista a implementação de uma verdadeira política de gestão de riscos no Património Cultural. Assim, na sessão final foi elaborado um documento com recomendações sumariando as contribuições e reflexões dos oradores e participantes (declaração anexa).
Declaração
O impacto das catástrofes do passado tem sido trágico, causando perda de vidas, danos materiais, alterações sociais e perdas económicas, sentidos não só a nível local e nacional mas também a nível global. No que respeita ao Património Cultural, estas catástrofes evidenciam a necessidade de implementar medidas para a sua proteção e salvaguarda através da definição de estratégias para a mitigação de desastres e para o planeamento de ações para situações de emergência. O impacto negativo das perdas em Património Cultural resultantes destas catástrofes vai muito além dos meros danos físicos, dado que muitas comunidades perdem também a sua identidade, sentido de pertença, coesão social e a sua ligação ao passado.
Atendendo à importância do Património Cultural na sociedade considera-se assim crucial planear e agir no sentido de aumentar a segurança e a resiliência do Património Cultural perante a ocorrência de futuros desastres. Neste contexto, de modo a complementar as medidas necessárias a nível mundial para a redução dos riscos de catástrofe, recomenda-se que os seguintes vetores estratégicos e respetivas ações destinadas à proteção do Património Cultural sejam incluídos nas iniciativas e nas políticas de gestão de riscos de catástrofe a nível local e nacional:
Compreender e avaliar os perigos, vulnerabilidades e riscos que ameaçam o Património Cultural
Desenvolver um inquérito nacional sobre o estado atual de preparação das partes interessadas do Património Cultural, no que diz respeito à implementação de medidas de prevenção de riscos e procedimentos de atuação em emergência
Manter informação atualizada sobre perigos, vulnerabilidades e avaliações de risco em Património Cultural
Levar a cabo a avaliação de perdas socioeconómicas potenciais devido a danos e perdas em Património Cultural
Recolher dados sobre perdas em Património Cultural para reforçar os esforços e as iniciativas internacionais, tais como a base de dados de perdas em Património Cultural do ICOMOS / ICORP
Desenvolver ferramentas para monitorizar e comunicar os riscos e o seu impacto através da colaboração entre as partes interessadas
Fortalecer e atualizar as estratégias políticas de gestão de riscos para incluir ações dedicadas ao Património Cultural
Desenvolver protocolos de cooperação entre as partes interessadas do Património Cultural, o setor da gestão de riscos, a proteção civil e as instituições académicas
Elaborar planos de ação pós-desastre que incluam quadros específicos para a salvaguarda e reabilitação do Património Cultural
Incentivar a implementação de planos de atuação em situação de emergência para Património Cultural
Investir em programas de formação dedicados à preservação do Património Cultural
Desenvolver programas de formação para avaliação de riscos e implementação de medidas para a sua mitigação em Património Cultural
Desenvolver programas de formação tendo em vista a implementação de medidas de preparação para emergências e procedimentos de salvaguarda para o Património Cultural
Editar documentos e/ou manuais sobre gestão de riscos em Património Cultural para apoiar estes programas de formação
Cultural Heritage: disaster prevention, response and recovery
In 2015, representatives of 195 countries met in Paris for the United Nations Climate Change Conference (COP 21) to discuss the impact of climate change on societies, their livelihoods and their Cultural Heritage. Evidence suggests that torrential downpours, violent and unexpected storms, heat waves, new records in pollution and landslides are increasingly frequent.
Over the last few years alone, there has been a rise in the amount of incidents (earthquakes, acts of vandalism, wars, floods and fires) causing irreversible damage to Cultural and Heritage sites. We must not forget these sites are a record of our collective memory and their loss represents, in a sense, a loss of our own identity.
It is important that Heritage custodians and managers improve their prevention-related policies based on risk evaluation and management and by training its professionals for emergency situations. Therefore, Museu Nacional dos Coches, in partnership with Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Fundação Calouste Gulbenkian and Fundação Oriente, organized the international conference Cultural Heritage: Disaster Prevention, Response and Recovery that took place at Fundação Calouste Gulbenkian, Lisbon, on November 3 and 4, 2016.
The conference gathered representatives of organizations such as UNISDR, UNESCO, ICCROM, ICOMOS, experts from national and international museums, universities, Cultural institutions as well as from the civil protection bodies.
Concepts, principles and good practices for disaster prevention and the response to emergency situation were discussed. This issue of Conservar Património publishes some of the papers. It is possible to access to the whole conference documentation at https://drive.google.com/drive/folders/0B6cO1J0ssb_1 Sm8tOGI3eDhhck0.
On the year that marks the 50th commemoration of the flooding of Florence, this conference hoped to create an exchange of views in the fields of Heritage Preservation and encourage direct cooperation between Heritage organisations, research institutes and the civil protection services in order to create mechanisms to reduce damage to Cultural Heritage in disaster situations. Finally, the conference also aims to broaden and reinforce international cooperation in these fields.
Furthermore, this conference organizers’ intentions included seeking concrete results in implementing effective risk policies for Cultural Heritage. Thus, during the final session, a document was drafted including recommendations summarizing contributions and thoughts both from speakers and participants (attached declaration).
Isabel Raposo de Magalhães
Declaration
The impact of past disasters has been tragic, ranging from loss of life and property damage to social disruption and economic losses, often felt at local, national and global levels. Such disasters have also highlighted the need to incorporate the protection of historic properties and Cultural Heritage resources in disaster mitigation strategies and emergency response planning. The negative impact of Cultural Heritage losses resulting from these disasters extends far beyond the mere physical damage, as many communities also stand to lose their identity and sense of belonging, as well as their social cohesion and the connection with their past.
Given the widespread significance of Cultural Heritage in our societies, it is therefore crucial to plan and act in order to increase the safety and resilience of historic properties and Cultural Heritage resources from future disasters. Therefore, to complement the measures that are required worldwide for disaster risk reduction, it is recommended that the following actions targeting the protection of Cultural Heritage be included in local, national and global level disaster risk management initiatives and policies:
Understand and assess the hazards, vulnerabilities and risks threatening historic properties and Cultural Heritage resources
Develop a nationwide survey of the current state of preparedness of Cultural Heritage stakeholders with respect to the implementation of disaster risk prevention measures and emergency procedures
Maintain up‐to‐date data on hazards, vulnerabilities and risk assessments for historic properties and Cultural Heritage resources
Undertake the assessment of potential economic losses due to damages to historic properties and Cultural Heritage resources
Collect Cultural Heritage losses to strengthen international efforts such as the ICOMOS/ ICORP disaster losses database
Develop tools to monitor and communicate risks and the impact of risks through collaboration between interested stakeholders
Develop tools to monitor and communicate risks and the impact of risks through collaboration between interested stakeholders
Develop cooperation protocols between Cultural Heritage stakeholders, the risk management sector, civil protection, and academic and research institutions
Develop post-disaster plans that include frameworks for the recovery and rehabilitation of historic properties and Cultural Heritage resources
Enforce the implementation of emergency plans for historic properties and Cultural Heritage resources
Invest in capacity building programmes targeting the preservation of historic properties and Cultural Heritage resources
Develop training programmes addressing the development of regular risk assessments and the implementation of disaster risk prevention measures for historic properties and Cultural Heritage resources
Develop training programmes addressing the development of emergency preparedness measures and disaster recovery procedures targeting historic properties and Cultural Heritage resources
Publish documents and/or manuals on risk management for Cultural Heritage to support these training programmes