Resumo
Introdução: os agentes comunitários de saúde (ACS) são duplamente expostos à violência no trabalho por desenvolverem suas atividades na rua e dentro do domicílio dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
Objetivos: identificar casos de violência no trabalho de ACS expressos em uma rede social de convivência virtual, e analisar o uso dessa mídia como fonte estratégica para a vigilância em saúde do trabalhador.
Métodos: foram levantadas informações nos sistemas oficiais do Ministério da Saúde e em jornais on-line, postados na fanpage específica da categoria no Facebook, de 2013 a meados de 2017.
Resultados: não foram encontrados casos oficialmente notificados pelo Ministério da Saúde (MS), porém encontramos nove registros de violência na fanpage: tentativa de estupro, homicídio, agressão física, assalto, discriminação, ameaça de morte e agressão com arma de fogo.
Conclusão: verificou-se o registro de ocorrências de violência no trabalho dos ACS na rede social virtual, indicando novas possibilidades e contextos de expressão de demandas e de comunicação de riscos e agravos à saúde do trabalhador. A fonte mostrou bom potencial para ser utilizada como mecanismo de vigilância à saúde do trabalhador, com ênfase às atitudes desses profissionais frente às violências sofridas e estratégias para seu enfrentamento.
Palavras-chaves: agente comunitário de saúde, violência no trabalho, informação em saúde, rede social virtual, saúde do trabalhador.
Abstract
Introduction: community health workers (CHW) are exposed to violence at work twice as much since they work on the streets and visit households in the communities served by the Brazilian Unified Health System.
Objectives: to identify cases of violence at work experienced by CHW and revealed in a social network, as well as analyze the use of this media as a strategic source for worker’s health surveillance.
Methods: information from the official systems of the Brazilian Health Ministry (HM) and from news posted on the CHW’s Facebook fanpage from 2013 to mid-2017.
Results: we found no cases officially reported by the HM. However, nine records of violence were found on the fanpage: rape attempt, murder, physical violence, robbery, discrimination, death threat and firearm assault.
Conclusion: using the social network as a source of information on the violence at work experienced by CHW shows a new context and possibility to identify demands and communicate injuries and occupational hazards. This source showed good potential to be used in worker’s health surveillance with emphasis on CHW’s attitudes towards the violence they experience and the strategies they adopt to face it.
Keywords: community health worker, violence at work, health information, social networks, occupational health.
Dossiê Intervenção em Saúde do Trabalhador/Artigo
Uso de redes sociais virtuais na vigilância da violência no trabalho sofrida por agentes comunitários de saúde
Using social networks in surveillance of violence at work experienced by community health workers
Recepção: 29 Outubro 2018
Revised document received: 25 Janeiro 2019
Aprovação: 06 Fevereiro 2019
A Vigilância em Saúde do Trabalhador (Visat) tem a missão de promover transformações nos processos de trabalho para potencializar a saúde em suas variadas dimensões e não apenas controlar/eliminar riscos pontuais causadores de agravos nos trabalhadores1.
Os sistemas de notificação de agravos e doenças ligados ao Ministério da Saúde (MS) e ao extinto Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS) não têm conseguido alcançar muitos desses problemas e situações complexas, para que sejam reconhecidos e notificados para gerar intervenção, especialmente quanto aos casos de violência no trabalho.
A violência atinge proporções epidêmicas e gera consequências para a saúde. Minayo2 afirma que não se conhece uma sociedade sem a presença de violência. Esta faz parte da própria condição humana e as pessoas são, ao mesmo tempo, sujeito e objeto deste fenômeno. No entanto, há sociedades mais ou menos violentas, dependendo do grau de inclusão e coesão de seus membros.
Diante deste contexto, dentre outras categorias profissionais da área da saúde expostas à violência, estão os agentes comunitários de saúde (ACS), inseridos na atenção básica (AB). Sua atuação está pautada na representação de vínculo e no elo na relação serviço-comunidade face a face, o que o torna também um potente mediador de tensões3.
Esses profissionais têm papel extremamente relevante na principal estratégia de configuração da AB no Brasil. No cotidiano do seu trabalho nos territórios de atuação, na rua e no interior das residências, existe alta exposição a violências de vários tipos e não há registro de casos de violência no trabalho dos ACS no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e no Inquérito de Vigilância de Violências e Acidentes (Viva) realizados no Brasil entre 2006 e 2017.
As primeiras edições do Viva Inquérito, realizadas em 2006, 2007 e 2009, não continham a categoria “ocupação” na ficha de notificação. Portanto, não continham dados referentes aos ACS. Na edição de 2011, dos sete casos notificados de violência sofrida por ACS no Brasil, quatro homens e três mulheres, nenhum estava relacionado com o trabalho. Ainda não estava disponível o acesso à tabulação de dados do Viva Inquérito de 2017 na página do MS até o final da elaboração deste trabalho.
Neste estudo utilizamos a rede social virtual como fonte de informação para a vigilância dos casos de violência no trabalho que atingem os ACS recorrendo às mensagens noticiadas na rede Facebook que são direcionadas a uma fanpage deste grupo de trabalhadores. O crescimento do uso de Facebook, Instagram e outras redes sociais mediadas pelo computador e dispositivos móveis conectados à internet ampliaram os contextos de comunicação e de formação de discursos e abrem novas possibilidades para as práticas de vigilância em saúde. O uso destes sítios reproduz notícias de alcance e difusão, e, por vezes, são capazes de contribuir para a construção da cidadania e de um meio social mais justo e pacífico4.
Recuero e Soares5 afirmam que as características de público em rede do próprio Facebook contribuem para amplificar o discurso e legitimá-lo. Sendo assim, o seu uso como ferramenta nos possibilitou explorar os casos de violência sofrida pelos ACS, não notificados oficialmente, expressos pelos próprios trabalhadores. É importante ressaltar que a participação dos trabalhadores é um dos fundamentos para todo o processo de vigilância, afinal, eles são detentores de saberes da prática e os maiores interessados em dar visibilidade às suas demandas, situações e problemas de saúde gerados no decorrer de suas atividades.
O objetivo deste estudo foi identificar casos de violência no trabalho de ACS expressos em uma rede social de convivência virtual, analisando o uso dessa mídia como fonte estratégica para a vigilância em saúde do trabalhador.
A violência ou a sua ameaça são mecanismos que reforçam as regras sociais de poder e dominação. A violência ocorre em épocas, locais, circunstâncias e realidades muito diferentes e, por isso, encerrar a definição de violência em um conceito fixo e simples é correr o risco de reduzi-la, de compreender mal sua evolução e sua especificidade histórica6.
Para fins de compreendermos a que tipo de violência os ACS estão sujeitos, recorremos à definição de violência apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS):
O uso intencional da força física ou do poder, real ou por ameaça, contra a própria pessoa, ou contra um grupo ou comunidade que pode resultar, ou tem alta probabilidade de resultar em morte, lesão, dano psicológico, alterações do desenvolvimento ou privação. (p. 5)7
O fenômeno da violência está presente no acelerado processo de mudanças sociais, geradas, principalmente, pela industrialização e pela urbanização. Geralmente, a violência se acelera em transições sociais e é sustentada por alguns autores, na ideia de que os movimentos da industrialização criam importantes correntes migratórias com destino às áreas periféricas dos centros urbanos, onde surgem comunidades que passam a viver em condições de extrema pobreza, de desorganização social, sem infraestrutura e serviços sociais adequados, num ambiente de mudanças culturais abruptas6), (8.
Assim, o aumento da violência está diretamente relacionado ao esgarçamento das relações sociais devido às desigualdades, ao efeito do desemprego, à falta de perspectiva do mercado de trabalho, ao aumento do contrabando de armas, à organização do crime, à impunidade e à ausência ou omissão das políticas públicas6), (8.
A questão da violência no mundo do trabalho é um tema premente para o campo da saúde do trabalhador. A Política Nacional de Segurança e Saúde do Trabalhador (PNST), por meio do Grupo Executivo Interministerial em Saúde do Trabalhador (Geisat), considera:
Entre os problemas de saúde relacionados ao trabalho deve ser ressaltado o aumento das agressões e episódios de violência contra o trabalhador no seu local de trabalho, traduzidas pelos acidentes e doenças do trabalho; violência decorrente de relações de trabalho deterioradas, como no trabalho escravo envolvendo crianças; a violência ligada às relações de gênero e ao assédio moral, caracterizada pelas agressões entre pares, chefias e subordinados. (p. 8)9
A violência no trabalho pode assumir variadas formas e tipos, frequentemente sobrepondo comportamentos, ameaças e práticas. Os tipos mais comuns são: assédio moral, agressões advindas de terceiros durante atendimento ao público, assaltos e sequestros, variando a depender do ramo de atividade, da instituição e do objeto dos agressores10.
Ademais, para exercer a profissão, deve-se preencher o requisito de ser morador da área onde exercerá suas atividades por pelo menos dois anos conforme a vigente Lei nº 11.350/200611. Dentre as inúmeras atribuições prescritas e reais, nas ações específicas dos ACS12 estão as efetuadas nas visitas domiciliares realizadas nas residências dos usuários, pois são responsáveis por até 150 famílias ou 750 pessoas.
Logo, este profissional possui uma peculiaridade, que é trabalhar na rua e dentro das residências dos usuários. Carneiro13 assinala que trabalhadores externos sofrem mais violência no trabalho do que aqueles que exercem suas atividades em ambientes confinados. Garrido14 corrobora no mesmo sentido ao referir-se que, no cotidiano de trabalho dos profissionais do Programa de Saúde da Família (PSF), a exposição à violência é frequente, revelando uma situação mais acentuada em relação aos ACS, uma vez que esses profissionais, para realizar suas atividades, têm que caminhar em ambientes externos e realizar as visitas domiciliares de rotina sozinhos. Muito raramente vão acompanhados da enfermeira ou do médico da equipe.
Duas teses apontam a violência no trabalho do ACS, a de Bispo15 e a de Bornstein16. Ambas identificam riscos à saúde no trabalho dos ACS, pelo fato de ser um trabalho a céu aberto, amplo, com pouca clareza do seu papel pela equipe e pela comunidade. Bispo15 constatou ainda que um dos conflitos mais significativos que atingem dos ACS é o risco de vitimização, por trabalhar na mesma região que residem, entrar em casas de pessoas desconhecidas e transitar nas mesmas ruas onde acontecem o tráfico de drogas e a criminalidade.
O relevante estudo de Zaluar17, em suas pesquisas etnográficas realizadas em uma favela carioca, atentava para a convivência e proximidade entre “trabalhadores” e “bandidos”, existindo entre eles pontos de identificação e colaboração, ou seja, interações que não implicavam em uma segregação relacional, concomitante à existência de fronteiras simbólicas a partir das quais buscavam diferenciar-se.
A violência que ocorre nos bairros atendidos pelos ACS, como a presença de facções criminosas que gerenciam o território através de dispositivos normatizadores, com o uso e o tráfico de drogas, com o envolvimento de usuários e de seus familiares com práticas ilícitas e a possibilidade ou o uso da força policial nas relações, configura-se como uma realidade complexa com a qual esses agentes precisam lidar. Além de morarem no território, sentem o impacto desse fenômeno nas demandas sociais de seu trabalho18.
Ao abordarmos a violência sofrida por esse grupo, é inevitável discutir, ao lado da vulnerabilidade a que eles estão expostos pelo contexto do trabalho, suas estratégias de proteção e prevenção, às vezes traduzidas em pactos estratégicos com o próprio agressor.
Dentre as estratégias de defesa para enfrentamento da violência física no trabalho de rua dos ACS, Peixoto, Andrade e Moro19 afirmam que os moradores contribuem para diminuir os casos por terem maior probabilidade de estarem presentes no momento da ação criminal do que os policiais. Eles equivalem ao controle social, tais como: número de moradores na residência; vizinhos; colegas de trabalho; entre outros.
Autores têm estudado sobre os diferentes tipos de estratégias de defesa, como Felson20, que as classifica em primárias (antes da ação criminal) e secundárias (quando já se iniciou a ação), e Paes-Machado e Riccio-Oliveira21, que as definem como defesas sócio espaciais restritivas (mais pontuais e menos previsíveis) e expansivas (mais perenes e previsíveis) e apontam a rede social como marcante meio de proteção. Essas classificações podem contribuir no planejamento das propostas de mudanças das políticas existentes, para redução de casos e enfrentamento da violência.
Os estudos anteriormente citados revelam a violência no trabalho dos ACS, porém os dados oficiais não retratam a magnitude do problema. Souza22 faz uma reflexão crítica sobre o processo de construção de informação sobre a violência no âmbito da saúde pública e a necessidade de participação da sociedade, assim como o seu uso social como fator transformador e de melhoria da qualidade de vida.
Uma vez que os dados oficiais de violência no trabalho apresentam-se deficientes em demonstrar a realidade do problema, as redes sociais têm se legitimado como fonte de informações.
Segundo Castells (p. 566)23, a rede é “um conjunto de nós interconectados. Nó é o ponto no qual uma curva se entrecorta. Concretamente, o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos”. Podem ser organizações de qualquer tipo, tanto formal quanto informal, tanto lícita quanto ilícita, e os nós podem também ser representados por indivíduos ou grupos de indivíduos.
As redes sociais, segundo Marteleto (p. 72)24, representam “um conjunto de participantes autônomos, unindo ideias e recursos em torno de valores e interesses compartilhados”. Ainda ressalta que “o trabalho pessoal em redes de conexões é tão antigo quanto a história da humanidade, mas, apenas nas últimas décadas o trabalho pessoal em redes de conexões passou a ser percebido como um instrumento organizacional”.
Os sites e aplicativos de rede social tiveram um impacto profundo no cotidiano das pessoas, alterando a forma como se relacionam, constroem e percebem valores, significados e sentidos. Eles não apenas refletem essas redes, mas influenciam sua construção e, com isso, os fluxos de informação que circulam nesses grupos25.
Castells (p. 109)26, em A Galáxia da Internet, tece inúmeras considerações quanto ao uso da internet e suas repercussões na transformação das relações, dentre elas o efeito positivo que apresenta sobre a interação social e o aumento a outras fontes de informação. Assinala ainda que: “essas redes on-line tornam-se formas de ‘comunidades especializadas’, isto é, formas de sociabilidade construídas em torno de interesses específicos”. Uma vez que os usuários de internet criam suas próprias redes por meio dos seus interesses, padrões e identidades. Dessa forma, acabam construindo comunidades virtuais que atuam na criação de laços e na mobilização.
Quanto ao discurso mediado pelo computador dos usuários do Facebook, Herring (p. 127)27 o define como aquela “comunicação produzida quando seres humanos interagem uns com os outros através da transmissão de mensagens pelas redes de computadores”. Assim, estes têm efeitos nos sujeitos e são também impactados pelas apropriações das ferramentas de comunicação por esses sujeitos e possuem também características linguísticas que são resultados das apropriações e das restrições e possibilidades das ferramentas. Estudar o discurso on-line é estudar a linguagem em uso e a construção de sentidos em ambientes diferentes, mediados e apropriados5.
A pesquisa realizada foi do tipo exploratória e descritiva. Os sujeitos participantes foram os ACS inseridos no Sistema Único de Saúde (SUS). A busca dos casos de violência no trabalho foi feita no Facebook28 em fanpagec organizada por ACS, considerando o período de 2013 a 2017. A fanpage ou página de fãs, é uma página específica dentro do Facebook que pode ser criada por qualquer usuário e que é normalmente direcionada a algum tipo de conteúdo específico para empresas, marcas ou produtos, associações, sindicatos, autônomos, ou seja, qualquer organização com ou sem fins lucrativos que deseja interagir com os seus clientes. Outros usuários podem tornar-se “fãs” e assim compartilharem as mensagens publicadas pela fanpage29.
O discurso extraído da página da comunidade dos agentes comunitários do Facebook teve como escopo a coleta de dados para vigilância em saúde desses trabalhadores, uma vez que a associação à comunidade dessa mídia social não está restrita apenas a usuários de um determinado local, mas a todos os interessados (profissionais ou não). Isso permitiu o levantamento de casos de diversas localidades, não registrados nos dados oficiais.
Foram incluídas na análise somente as notícias dos Jornais on-line da categoria, de abrangência nacional, sendo eles: o Jornal dos Agentes de Saúde do Brasil e o Jornal dos ACS e dos ACE (Agente Comunitário de Endemias) ambos acessados no site do Portal 10 Notícias e na fanpage dos ACS e ACE da rede social Facebook. Os ACE não foram incluídos nesta etapa do estudo.
A fim de classificar os atos a serem considerados como violentos, nos reportamos à categorização apresentada por Santos e Dias30. Os autores relacionam como atos enquadrados como violência no trabalho, os casos de: homicídio; estupro; roubo; extorsão; agressão física (chute, soco, arranhão, cuspe e beliscão); grito; ofensa; ameaça; assédio sexual ou racial; provocação (bullying); perseguição por grupos (mobbing); dentre outros. Nesta busca, reportamo-nos somente aos casos de violência física no trabalho.
Este estudo não foi submetido a Comitê de Ética de Pesquisa por se tratar de pesquisa com dados públicos, disponibilizados por meio eletrônico.
Nos dois jornais on-line foram encontrados nove casos de violência física no trabalho dos ACS no Brasil. Os casos estão descritos no Quadro 1, contendo os seguintes elementos: tipo de violência, dados da vítima (sexo e idade); ano e local onde ocorreu o evento; e o contexto da ação. Não foram encontrados casos de violência oriundos das relações de trabalho dentro das Unidades de Saúde e nem entre os trabalhadores, equipes e chefias. Os casos encontrados aconteceram nas ruas e no interior das residências. Não foram encontrados casos de violência no trabalho dos ACS registrados no Sinan nem no Viva Inquérito.

Das nove notícias divulgadas entre os anos de 2013 e 2017, dois ocorreram em São Paulo, dois na Bahia e cinco em outros diferentes estados do Brasil; dois trabalhadores eram do sexo masculino e sete do sexo feminino. Quanto à faixa etária dos acidentados, três relatos não trouxeram a informação e os demais informaram idades de 22 a 43 anos, sendo todos adultos, como pode ser visto no Quadro 1.
Os tipos de violência sofrida nestes casos foram: agressão física (quatro casos); homicídio (dois); tentativa de estupro (dois); e um caso de assalto, com crueldade e mortes.
Entre todos os grupos populacionais, os que trabalham na área de saúde são mais susceptíveis à violência no local de trabalho e o fato de ser mulher aumenta em três vezes o risco de sofrer agressão40. As informações encontradas neste estudo corroboram com uma maior vulnerabilidade das mulheres.
Em estudo realizado em uma cidade do Mato Grosso do Sul41, dos 41 ACS entrevistados, quase 70% relataram terem sofrido algum tipo de violência ou assédio, sendo que 73,5% das agressões ocorreram nos domicílios dos usuários ou nas ruas. As agressões mais frequentes relatadas foram: verbais, ameaças e assédio sexual e assédio moral. Os agressores identificados foram os pacientes, familiares e colegas ou chefias, respectivamente. O estudo também refere que 81,3% apontaram receio de sofrer represálias por parte do agressor notificado; 72% tinham receio de sofrer consequências no trabalho; 11,2% apresentavam medo de sofrer represálias de pessoas na comunidade; 7,5% temiam represálias; 5,6% fizeram algum pacto de silêncio com a comunidade sobre as agressões ocorridas e não denunciaram o ocorrido; e 4,7% se calaram por conta do fluxo não sigiloso da ficha de notificação. Nesse trabalho ainda se verificou que 53,9% das agressões sofridas eram comunicadas à chefia ou autoridade responsável e 46,1% não haviam sido comunicadas, visto que, em muito dos casos, o agente agressor era a própria chefia ou colega de trabalho.
Existe uma dificuldade na notificação das agressões que pode ser decorrente da falta de compreensão da extensão da violência no ambiente de trabalho e também às problemáticas das relações, muitas vezes agressivas e autoritárias de poder, em que o agressor faz parte da mesma equipe de trabalho.
No relatório final sobre avaliação do perfil dos ACS42 do Brasil, 37,5% dos ACS mostraram-se preocupados e 26,2% muito preocupados em relação à violência no local de trabalho; 40% acreditam que a violência sofrida pode trazer algum tipo de problema para a saúde; 34,8% já testemunharam algum episódio de ameaça/agressão verbal, seguida de violência física em 16,8% desses casos. Quanto ao diagnóstico das modalidades de violências sofridas, as mais referidas pelos ACS no trabalho são a ameaça/agressão verbal com 22,4% (341 casos), sendo que, destes casos, em 76,8% a autoria da agressão foi de usuários. Seguido pela violência física com 2,8% (42 casos) sendo que, destes casos, em 54,8% a autoria da agressão foi de usuários. Nas capitais, foram quatro vezes mais do que nos municípios e na zona rural, onde houve apenas três eventos, de violência física.
Segundo Souza22, na percepção da magnitude e do impacto da violência na saúde o evento não tem encontrado visibilidade na pesquisa e no avanço do conhecimento sobre o tema e nem na assistência à vítima e prevenção dos casos, sendo uma das causas a inconsistência e escassez das informações sobre a real situação de saúde dos trabalhadores.
No entanto, o conhecimento sobre o que ocorre no trabalho é de capital importância para Vigilância em Saúde do Trabalhador. A falha nas informações ou a inexistência de dados oficiais fragiliza a tomada de decisão para a implantação ou implementação de políticas efetivas e eficazes de prevenção de novos casos e na assistência e apoio às vítimas.
Além disso, existe pouca participação da sociedade na produção de informações. Esta participação possibilitaria mudanças de paradigmas dos Sistemas de Informação, por meio da ampliação dos mecanismos de produção e de diferentes formas e fontes de dados, como sugerido por Araújo43.
As principais fontes oficiais de informações existentes sobre as violências são: Boletim de Ocorrência Policial (BO) e os Sistemas de Informações do Ministério da Saúde: Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), Sinan e o Viva Inquérito. Não há integração de dados entre estes sistemas nem compartilhamento de redes, o que dificulta o acesso, fragmenta as informações e nega a possibilidade de uma comunicação mais democrática.
Para se constituírem em estatística oficial, os casos de violência percorrem várias instituições e dependem de vários fatores, desde a sua origem, entre eles: a função social da instituição; a formação e treinamento dos técnicos e profissionais do atendimento e assistência às vítimas; e a capacidade tecnológica de diagnóstico da causa e do registro dos dados25.
Talvez estes sejam alguns dos motivos para que os casos de violência no trabalho em saúde, aqui apresentados, não apareçam nos dados oficiais dos sistemas de informação do MS, além de outros fatores subjetivos.
Isso torna necessário e urgente ampliar os instrumentos de busca de dados, desde o nível local até federal, para não subestimar o problema e propor efetivas e eficazes estratégias de vigilância em saúde do trabalhador no âmbito da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora.
Neste sentido, o MS tem desencadeado parcerias, com instituições de ensino e pesquisa e com secretarias de saúde, para o desenvolvimento de algumas ações, como a implantação dos Núcleos de Estudos para Acidentes e Violência em nível local. O objetivo é formar pessoal, estruturar o serviço com software - Sistema de Informação em Saúde - e monitorar os agravos à saúde, com ações mais localizadas e controladas por meio de redes mais efetivas e integradas.
Muitos estudos sobre esta temática vêm sendo desenvolvidos. Alguns em parceria do MS com o Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves) da Fiocruz e outros, como o de Bispo15, Paes-Machado e Riccio-Oliveira21, Peixoto, Andrade e Moro19 e Felson20, que também apontam estratégias eficazes de prevenção e proteção aos trabalhadores. Porém, é preciso melhor dimensionar a violência no trabalho, dar maior visibilidade para o problema como estratégia da vigilância em saúde do trabalhador. O uso das redes sociais virtuais se apresenta como uma possibilidade, tanto de expressão de demandas por partes dos trabalhadores e suas representações formais, associativas/sindicais, quanto para captar dados que possibilitem produzir informações para a ação da Visat.
Este estudo possibilitou perceber a importância da diversificação de fontes de informação para a Visat, utilizando o Facebook como instrumento de busca para casos de violência no trabalho dos ACS. A rede social virtual pode ser utilizada como mecanismo de Visat frente a problemas e situações complexas, como é o caso da violência.
Embora a violência se manifeste de diferentes formas, em vários espaços presenciais ou virtuais, a fanpage da categoria pode ser também utilizada como um mecanismo de intervenções, na perspectiva de promoção e proteção ao trabalhador da saúde, onde a informação pode ser vista como produto de uso social, que serve aos usuários, com possibilidades de interpretação e transformação da realidade e de conscientização do cidadão.
Neste ambiente virtual, eles se expõem e se mobilizam para melhorar as suas condições de trabalho, e essa questão deve ser explicitamente tratada pela equipe e gestores, com valorização das informações da fanpage sobre a violência endereçada aos ACS.
As situações de violência vivenciadas pelos ACS e disponibilizadas no Facebook, como as apresentadas neste trabalho, têm paralelo com as encontradas em diversas pesquisas empíricas, reforçando que estas redes virtuais podem ser acopladas ao Sistema de Visat.
A informação e os sistemas precisam ser abertos, participativos, de fácil e rápido acesso, permitindo ajustes sempre que necessário. Isso não é tarefa fácil, frente aos sistemas de informações existentes, que são altamente burocráticos, mecanicistas, autoritários e que negam a incerteza. Além disso, exigem amplas negociações ministeriais para os avanços necessários acontecerem, mas são extremamente necessárias e urgentes.
Torna-se imprescindível a obrigatoriedade de abordagem relacionada à violência no âmbito do trabalho com garantia de espaço de escuta e discussão, em que os ACS possam se explicitar acerca da temática, levando-se em conta que se trata de um fenômeno extremamente complexo e multicausal, que requer abordagens interdisciplinares, intersetoriais e interinstitucionais.
O fato de a violência urbana estar presente de forma intensa na práxis do ACS, faz com que o trabalhador que rotineiramente atua na rua sozinho, torne-se um alvo mais fácil, particularmente porque faltam políticas públicas que possam protegê-los. Assim, propomos que uma das estratégias mais importantes para o enfretamento da violência pelos ACS é a realização do trabalho em dupla, nas visitas domiciliares e atividades desenvolvidas nas ruas. Outras estratégias podem ser construídas em processos dialógicos entre equipes de Visat e os ACS, considerando as particularidades de seus territórios de atuação.
Contato: Alba Medeiros E-mail:albarsm@terra.com.br
