Artigos originais
As representações sociais sobre turismo em comunidades do Rio Negro (Iranduba-AM)
The social representations about tourism in communities of the Rio Negro (Iranduba-AM)
Las representaciones sociales sobre turismo de comunidades del Rio Negro (Iranduba-AM)
As representações sociais sobre turismo em comunidades do Rio Negro (Iranduba-AM)
Caderno Virtual de Turismo, vol. 16, núm. 2, pp. 183-199, 2016
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Recepção: 15 Novembro 2015
Aprovação: 21 Julho 2016
Resumo: O objetivo deste estudo é identificar e analisar as representações sociais dos moradores das comunidades Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, São Thomé e Vila de Paricatuba diante das atividades de turismo. As comunidades estão localizadas no Iranduba, município do interior do Amazonas, nos limites de Unidades de Conservação inseridas no Mosaico de Áreas Protegidas do Baixo Rio Negro. Recorreu-se à Teoria das Representações Sociais proposta por Moscovici e seus seguidores, em uma pesquisa de caráter qualitativo com abordagem multimétodos, integrando a observação, a entrevista, o grupo focal e as oficinas participativas para o planejamento do turismo e de mapas cognitivos. Os conflitos internos, o contexto sócio-histórico e as visões de mundo diferenciam-se em cada uma das comunidades e as representações se formam e se transformam a partir da realidade. Constatou-se que em cada comunidade há diferentes representações sociais do turismo, embora essas visões por vezes se aproximem. O estudo indica que o turismo de base comunitária é percebido de forma incipiente, falta protagonismo, maior envolvimento da coletividade e fortalecimento dos laços comunitários.
Palavras-chave: Turismo, Turismo de base comunitária, Representações Sociais.
Abstract: The objective of this study is to identify and analyze the social representations of community residents Nossa Senhora do Perpetuo, Sao Thome and Paricatuba Village facing the tourism activities. The communities are located in Iranduba, the interior of Amazonas, on the outskirts of Protected Areas Mosaic of Protected Areas of the Lower Rio Negro. It used the Theory of Social Representations proposed by Moscovici and followers, in a qualitative research approach with multi methods, integrating observation, interviews, focus groups and participatory workshops for tourism planning and cognitive maps. Internal conflicts, the socio-historical context, worldviews, differentiate into each of the communities and representations are formed and transformed from each reality. It was found that in every community there are different social representations of tourism, at certain times, these views in line. The study of social representations of the social actors indicates that the community-based tourism is perceived incipient, lacking leadership, it is necessary greater involvement of the community and strengthening community ties.
Keywords: Tourism, Community-based tourism, Social representations.
Resumen: El objetivo de este estudio es identificar y analizar las representaciones sociales de los residentes de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, São Thomé y Vila Paricatuba frente a las actividades de turismo. Las comunidades están ubicadas en Iranduba, interior de Amazonas, en los límites de Unidades de Conservación de Mosaico de Áreas Protegidas del Baixo Rio Negro. Se recorrió a la Teoria de las Representaciones Sociales propuesta por Moscovici, en una investigación de carácter cualitativo con abordaje multimétodos, integrando la observación, la entrevista, el grupo focal y los talleres participativos para el planteamiento del turismo y de mapas cognitivos. Los conflictos internos, el contexto sócio-histórico, las visiones de mundo, se diferencian en cada una de las comunidades y las representaciones se forman y se transforman a partir de la realidad. Se constató que en cada comunidad hay distintas representaciones sociales del turismo, en determinados momentos, esas visiones no se aplican. El estudio indica que el turismo de base comunitaria es percibido de forma incipiente, faltan protagonismo, mayor participación de la colectividad y el fortalecimiento de los lazos comunitarios.
Palabras clave: Turismo, Turismo de base comunitaria, Representaciones Sociales.
INTRODUÇÃO
O conhecimento é produzido por meio da interação e da comunicação, emerge de um mundo rural, no caso deste trabalho, onde homens e mulheres se encontram e interagem no espaço comunitário. Este estudo é um convite para uma reflexão e o entendimento sobre a realidade do “outro” no cotidiano.
A escolha deste campo de estudos – o das representações sociais – possibilita que se observe e compreenda para além do que está ao nosso redor. Pode-se perceber o mundo do “outro” por meio de suas concepções e dos pontos de tensão de sua cultura. Todo o conhecimento produzido é o produto de um grupo específico de indivíduos, cujas subjetividades distintas convivem entre si e produzem representações sociais, muitas vezes sob o manto do consenso (JUNQUEIRA, 2005).
As representações são vistas como uma dinâmica que têm o poder de embasar decisões, conhecimentos, sentimentos, valores e esperanças acerca do turismo que devem ser conhecidas com vistas a subsidiar uma atividade sustentável. Essas representações são dinâmicas e se transformam dando origem a outras, elas emergem da ação comunicativa dos moradores de cada uma das comunidades do estudo.
O turismo e sua teia de relações é o foco deste artigo que, por ser uma área interdisciplinar, utiliza com facilidade a Teoria das Representações Sociais – TRS, filiada a uma corrente de pensamento sociopsicológica (MOSCOVICI, 2011). Mesmo diante da expressiva produção bibliográfica nacional e internacional nos últimos anos acerca do turismo, a carência de estudos sobre representação social, como instrumento para o entendimento do turismo de forma geral, e do turismo de base comunitária, especificamente, é perceptível na Amazônia, principalmente em pequenas localidades no interior do Amazonas, onde a dinâmica e os efeitos da gestão do turismo são pouco compreendidos ou mesmo ignorados.
Entende-se que o estudo sobre o turismo, a partir das representações sociais é mais uma contribuição aos vários estudos produzidos nessa região, especificamente sobre a margem direita do Rio Negro. As comunidades rurais, locus deste estudo, pertencem ao Iranduba, município que vem sofrendo profundas transformações socioespaciais nos últimos anos, sobretudo em decorrência da construção da ponte Rio Negro, sobre o rio de mesmo nome, ligando Iranduba a Manaus. Nesse sentido, o objetivo deste estudo é identificar e analisar as várias representações que emergem do espaço das comunidades, que além de ser um espaço de moradia e de lazer é também um espaço de trabalho, onde se desenvolvem atividades de turismo.
Os sujeitos da pesquisa são moradores das comunidades, situadas nos limites de Unidades de Conservação: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e São Thomé, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro e a Vila de Paricatuba, na Área de Proteção Ambiental (APA) da Margem Direita do Rio Negro (estadual) e APA Encontro das Águas (municipal) (Figura 1), o que impõe entendimentos diferentes, haja vista que a relação que estabelecem com o ambiente, com o contexto em que estão inseridas, também é diferenciada.

Com base nesse contexto, questiona-se: quais são as representações sociais de turismo assumidas pelos diferentes grupos sociais nas comunidades locus do estudo? O turismo de base comunitária é percebido como uma alternativa nas comunidades?
As comunidades objeto do estudo e o Turismo de Base Comunitária - TBC
A comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, localizada em uma região banhada pelo Rio Negro, no Lago do Acajatuba, como muitas comunidades da região amazônica, teve sua fundação influenciada pela Igreja Católica, especificamente pelo Movimento de Educação de Base (MEB). Santos Filho (2006) garante que, no Brasil, a ação católica propiciou a origem de vários movimentos sociais associados à esfera sindical e comunitária, entre eles o Movimento de Educação de Base.
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi fundada oficialmente em 1976. Atualmente, há 66 grupos doméstico-familiares na comunidade totalizando 239 moradores. As terras ocupadas pelos comunitários não têm título definitivo, apenas uma concessão de uso outorgada pelo Estado, por se tratar de área protegida. É possível chegar à comunidade perfazendo um trecho de estrada e o restante de voadeira[1], ou todo o trecho por via fluvial.
Quanto à infraestrutura da comunidade, há um posto de saúde (Unidade Básica de Saúde – UBS do Acajatuba), uma escola municipal (Sagrado Coração de Jesus), um centro comunitário, um campo de futebol, quatro igrejas, sendo uma católica e três protestantes, poço artesiano, luz elétrica desde 2007, um campo de futebol, duas lanchonetes, um bar e o restaurante Vista do Lago. Com relação à comunicação, ela é feita por meio de voz comunitária[2] e de duas operadoras de celular e, por conta disso, há telefones móveis e rurais em funcionamento, este último oferece a tecnologia e a aplicação de um celular em um modelo fixo. A internet também ficou mais acessível aos moradores, e com ela o acesso às redes sociais é comum.
Há ainda uma loja de artesanato, um terminal fluvial turístico e uma pousada comunitária em construção, com recursos do Ministério do Turismo e do órgão oficial de turismo do estado do Amazonas (Amazonastur), que vem causando muita polêmica dentro e fora da comunidade: o longo tempo de construção, o que envolve muita burocracia, e a grande quantidade de recursos públicos investida sem retorno para a comunidade, criaram um certo desgaste entre o órgão estadual de turismo e os comunitários. Os moradores não se apropriaram da estrutura que vem sendo construída há quase uma década na comunidade. Há, ainda, uma associação de moradores e a Associação de Artesanato Sustentável Grupo Japiim, que mantém a visitação na comunidade por três décadas.
A comunidade São Thomé, distante cerca de 20 minutos de voadeira da Comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, foi fundada oficialmente em 1982. Com a construção da escola e da pequena igreja de madeira, as casas foram surgindo e, em seguida, surgiu o campo de futebol. Wiggers (2012) garante que nas áreas rurais da Amazônia, na sua maioria, a escola, a igreja, o posto de saúde são os principais aglutinadores das famílias.
Pode-se chegar à comunidade após uma viagem de uma (01) hora de carro pela AM-070, até o lago do Ubim e mais vinte minutos de lancha rápida (voadeira). O acerto do transporte fluvial deve ser feito previamente com um dos moradores, pois não há normalmente lanchas à disposição para se fazer esse trajeto.
Quanto à organização espacial, à margem esquerda do Lago do Acajatuba está a sede da comunidade, os demais moradores vivem em flutuantes nos arredores. No total são 54 grupos doméstico-familiares e 226 pessoas. O foco central do estudo é a Vila, como os próprios moradores denominam, onde há circulação de visitantes. Na Vila moram 13 grupos doméstico-familiares, cerca de 26 pessoas, em casas predominantemente de madeira.
Com relação aos bens e serviços sociais, não há um posto de saúde em São Thomé. Há poço artesiano, energia elétrica desde 2010, um centro comunitário e uma escola municipal. O espaço comunitário abriga ainda uma lanchonete, uma loja de artesanato e duas mercearias que oferecem bebidas e alimentos enlatados. Há dois restaurantes e duas pousadas, sendo uma delas mais antiga e conhecida. Esta última iniciou as atividades em 2005 com quatro quartos. Atualmente há 40 leitos em 18 quartos, sendo oito com banheiros privativos. Um equipamento existente e subutilizado de frente para a comunidade é um terminal turístico fluvial, auspiciado com recursos da Amazonastur e do governo federal.
A história mais recente dessa comunidade tem uma curiosidade: um programa da Rede Globo de Televisão contribuiu para mudar os rumos do turismo naquele espaço comunitário. No ano de 2010, um guia de turismo local enviou uma carta para o programa Caldeirão do Huck, para o quadro Lar Doce Lar, de audiência nacional, solicitando infraestrutura para a comunidade em benefício de todos os moradores. Após a passagem do programa pela comunidade, houve muitas mudanças na infraestrutura desta, assim como nas relações entre os comunitários.
A terceira comunidade é a Vila de Paricatuba, distrito do Iranduba, localizada a pouco mais de vinte quilômetros da cidade de Manaus e banhada pelo Rio Negro. Atualmente, o acesso pode ser feito por via fluvial ou por via terrestre, este último por meio do ramal do Paricatuba com 10 km de extensão, aberto no ano de 1992. A referência de entrada é o Km 21, margem direita da estrada Manoel Urbano (AM-070) que liga o distrito de Cacau Pirêra[3] ao município de Manacapuru. O locus da pesquisa é a Vila, muito maior que as duas outras comunidades estudadas; a população local é de aproximadamente 675 habitantes e 171 grupos doméstico-familiares (SECRETARIA DE SAÚDE, 2014).
A história de Paricatuba inicia com a construção do prédio Belisário Penna, que deveria ser uma hospedaria para receber imigrantes no final do século XIX, em 1898, auspiciada pelo governo, onde muito dinheiro dos cofres públicos foi empregado. O prédio não serviu para esse fim, abrigou presidiários, estudantes e transformou-se em um asilo-colônia para hansenianos. Hoje o prédio encontra-se em ruínas. Paricatuba tornou-se para muitos sujeitos da pesquisa um lugar de afetividade, construído sob a égide de uma história de vida marcada por estigmas.
A água abastece todas as casas da Vila por meio do reservatório, não há um sistema público responsável por esse serviço. A comunicação pode ser realizada por meio da telefonia fixa e móvel. Há ainda uma voz comunitária possibilitando que os moradores recebam notícias e informes diversos de contextos externos.
Há um posto da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, e quanto ao fornecimento de energia, a distribuição é feita pela Companhia Energética do Amazonas – Ceam, desde 1997. A Vila possui a Unidade Básica de Saúde com ambulatório e farmácia, centralizando o atendimento de saúde de todo o distrito, e um centro comunitário. A Escola Municipal Cícero Monteiro oferece do ensino fundamental ao ensino de jovens e adultos. O nível médio é oferecido por meio do ensino tecnológico, ou seja, as aulas são transmitidas a distância, pela televisão, aos alunos, com a presença de um professor-tutor, agregando discentes das comunidades do entorno. As igrejas também estão presentes em grande número na comunidade, sendo seis protestantes e uma católica.
Com relação à economia local, diversos comércios de pequeno e médio portes, como mercearias, lanchonetes, bares, restaurantes e pizzaria movimentam a comunidade. Os comércios oferecem gêneros alimentícios, bebidas, material para higiene, limpeza e outros. Há ainda uma pousada comunitária em construção, nos mesmos moldes da que está sendo construída no Acajatuba, e um terminal turístico fluvial, desativado, com recursos da iniciativa pública. Ainda que seja bastante afetada pelas ações antrópicas, a Vila de Paricatuba abriga sítios arqueológicos com características importantes para a arqueologia da região do Baixo Rio Negro, sugerindo uma longa cronologia de ocupação da área, e as ruínas do prédio Belisário Penna são um dos principais atrativos locais.
É nesses espaços comunitários que o turismo acontece de forma diferenciada e que o Turismo de Base Comunitária (TBC) aparece no discurso dos sujeitos da pesquisa. Nos últimos anos as comunidades locais têm percebido o turismo como uma promessa de desenvolvimento, influenciadas pelas políticas governamentais. Houve também um aumento no número de pesquisas sobre o turismo e sua contribuição para o desenvolvimento da comunidade (AREF et al., 2010).
Nas últimas duas décadas, o TBC foi reconhecido no contexto da discussão (científica, de políticas públicas) de turismo sustentável (SALAZAR, 2012). O TBC pretende, pelo menos em termos de discurso, conforme sustenta Salazar (2012), desenvolver um turismo sustentável, com enfoque nas comunidades que planejam a atividade. Para o mesmo autor, essa discussão iniciou-se na década de 1992 com Pearce, que sugeriu que o TBC representaria uma forma de beneficiar todos os envolvidos mediante um consenso baseado em tomada de decisão e controle local do desenvolvimento, pelo fato da própria comunidade fazer a sua gestão.
Este estudo corrobora com as considerações de Coelho (2013), quando afirma que na Amazônia são as populações tradicionais, ribeirinhas, seringueiros, entre outros, que se agrupam em comunidades no interior de áreas protegidas e buscam se organizar para desenvolver o TBC. Sansolo e Bursztyn (2009) entendem que é uma opção de desenvolvimento para comunidades de pescadores, agricultores familiares e extrativistas, ampliando as práticas cotidianas dessas populações, especialmente no espaço rural.
Três benefícios são esperados pelo TBC (ROZEMEIJER, 2001): gerar emprego e renda, e contribuir para o desenvolvimento rural beneficiando especialmente áreas remotas; os benefícios derivados do uso dos recursos naturais pelo turismo podem sensibilizar a comunidade para que utilize tais recursos de uma forma sustentável; e agregar valor ao produto turístico nacional por meio da diversificação do turismo, fomentando a economia.
A bibliografia sobre esse assunto é vasta, mas o que deve ser compreendido é que o TBC se configura como um modelo de desenvolvimento turístico endógeno, e não um segmento, cujo protagonismo das comunidades é notório, visando a proteção dos seus patrimônios cultural e natural.
É a partir desse contexto que emergem as representações sociais cuja metodologia será apresentada a seguir.
CAMINHOS METODOLÓGICOS
Durkheim (1858-1917) usou o conceito de representação nas ciências sociais para diferenciar representações individuais e coletivas. Tomando essa oposição de forma quase que radical, buscou construir um objeto sociológico, separando-o da psicologia e da biologia. Farr (2004) garante que dessa forma Durkheim construiu uma sociologia do conhecimento, colocando o foco sobre o coletivo e ignorando o individual; deixando o estudo das representações coletivas para os sociólogos e o das representações individuais para os psicólogos.
Ao seguir uma tradição durkheimiana, Moscovici introduziu o conceito de representações sociais em 1961, filiando-se à corrente sociopsicológica em um estudo intitulado La Psicanalyse: son image et son public. O conceito tem suas origens na Sociologia, na Psicologia e na Antropologia ao tentar compreender como o social e o individual se entrelaçam, se atravessam, mas não se separam.
Assim, o conceito de representações coletivas de Durkheim transforma-se em representações sociais com Moscovici (2011). Segundo o próprio Moscovici, “[...] nós temos uma visão diferente dele” (p. 45) [...], “Durkheim, fiel à tradição aristotélica e kantiana, possui uma concepção bastante estática dessas representações” (p. 47). É nessa perspectiva que se integra o pensamento moscoviciano, ao considerar as representações como um fenômeno que precisa ser explicado, descrito, pois são estruturas dinâmicas. “São fenômenos específicos que estão relacionados com um modo particular de compreender e de se comunicar – um modo que cria tanto a realidade como o senso comum” (p. 49). Para Arruda (2009, p. 741), a proposta moscoviciana implica por “[...] entender o social e o individual como fios entrelaçados num mesmo tecido”. No entanto, deve-se “considerar esse tecido de forma aberta e múltipla, sem barreiras disciplinares”.
Os fenômenos de representação podem ser encontrados na cultura, nas práticas sociais, nas instituições, nas comunicações das mais diversas formas, mas estão em constante movimento e somente é possível transformá-los em objetos de pesquisa por meio de uma teoria que possa organizá-los e torná-los mais claros e objetivos: a Teoria das Representações Sociais – TRS.
A Teoria das Representações Sociais, também chamada de teoria do senso comum, é utilizada neste trabalho em que o pesquisador selecionou e delimitou o turismo como objeto da representação. As representações sociais dos comunitários configuram-se como “teorias” sobre os saberes populares e do senso comum, elaboradas e partilhadas coletivamente. Assim, simplificou-se o fenômeno turístico, organizando-o e tornando-o inteligível para a finalidade da pesquisa, de acordo com o entendimento dos atores sociais sujeitos da pesquisa.
A perspectiva teórica das representações sociais foi aplicada em estudos relacionados ao turismo, mais notavelmente no ano de 1996. Os autores discutiram como esse quadro teórico vinha se desenvolvendo, utilizando-o para entender a relação entre comunidade e turismo. Desde então, no turismo, a TRS foi utilizada para analisar as atitudes da comunidade e oferecer respostas em relação ao desenvolvimento do turismo (RYAN et al., 1998; CAVE et al., 2003).
É necessário compreender que os indivíduos utilizam elementos simbólicos e culturais para tornar a realidade cotidiana compreensível para si e para os outros com quem dividem seu espaço. Ao identificar e analisar as representações sociais dos sujeitos das comunidades Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, São Thomé e Paricatuba, exige-se que se esteja atento a todos os processos interacionais, relacionais e culturais desses grupos, marcados pelo contexto social no qual estão inseridos. Assim, uma série de métodos e técnicas de pesquisa foram empregados com vistas a alcançar o objetivo do estudo.
Durante a pesquisa de campo[4] na comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, utilizaram-se os seguintes procedimentos e técnicas: 10 visitas de campo, sendo 05 pernoites; 06 entrevistas com os atores locais; um grupo focal com a participação de 08 moradores; e a elaboração de mapas cognitivos com 09 participantes. Em São Thomé ocorreram: 09 visitas de campo, sendo 04 pernoites; 06 entrevistas com os atores locais; 02 grupos focais com a participação de 03 e 05 moradores, respectivamente; e a elaboração de mapas cognitivos com 08 participantes. Na Vila de Paricatuca o trabalho de campo aconteceu: com 12 visitas de campo; 06 entrevistas com os atores locais; um grupo focal com 08 participantes; e uma Oficina de Planejamento para o Turismo de Base Comunitária com a participação de 23 moradores.
A estratégia para selecionar os moradores foi semelhante nas três comunidades, realizada conforme a indicação dos próprios participantes, um indicava o outro, utilizando-se um método não probabilístico, semelhante ao snowboll (APOLINÁRIO, 2006). O objetivo nessa parte da pesquisa era fazer com que as indicações dos primeiros participantes no estudo resultassem em outros membros da população com interesse em participar da pesquisa.
O diário de campo foi utilizado para se registrar o máximo de ocorrências de interesse do trabalho, tais como: atividades político-organizativas (reuniões da associação de moradores), conversas informais, cerimônias, falas, hábitos, costumes, práticas e visitação turística. Após a reunião de todos esses dados, organizou-se o material mediante a transcrição das entrevistas e conversas. Em seguida, efetuou-se a escuta e leitura do material gravado, além de assistir a tudo que foi gravado em vídeo, visando classificar os dados. Após essas etapas, efetuou-se uma análise final, articulando os dados e os referenciais teóricos da pesquisa. É importante esclarecer, ainda, que o desenho metodológico da pesquisa baseou-se também em fontes secundárias, além da pesquisa de campo. Utilizaram-se fontes de referência consagradas, consultando periódicos e publicações científicas diversas, bem como documentos e relatórios visando dimensionar as questões em estudo.
Durante todas as etapas da pesquisa foram consideradas as características do discurso quando da análise e interpretação dos dados, pois versões contraditórias, detalhes sutis como hesitações, retórica, lapsos e organização dos discursos foram registrados e avaliados. Destaca-se, em suma, que a interpretação dos resultados passou pela contextualização como fio condutor do processo, implicando em uma reflexão contínua do pesquisador, bem como em uma interação dinâmica entre este e o objeto de estudo (GÜNTHER, 2006).
Representações Sociais dos Comunitários
Inicialmente é importante observar que nas falas dos participantes do grupo focal da comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a palavra hospitalidade está subjacente. Há dois paradigmas para se estudar o turismo, segundo Camargo (2007) e, da mesma forma, há duas posições diferentes para se estudar a hospitalidade: a perspectiva assentada no sistema do negócio e aquela estruturada no entendimento da hospitalidade como dádiva (MARTINS, 2002; CAILLÉ, 2003). Um dos entrevistados cita o “lugar”, a importância dos visitantes de “dentro” e de “fora” e como gosta de “receber” qualquer um, sem distinção, seja um “pescador”, um “doutor” ou um “turista”. O importante nessa relação é receber quem está chegando e atender da melhor forma possível, ou seja, as representações apontam para a importância da interação humana.
Nota-se que a relação entre visitantes e visitados, especialmente na comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, é efêmera e superficial: “sempre que eles vêm para cá eles fazem uma festinha, duas horas de festa, mas é bom”. Outra comunitária afirma: “o pessoal visita, mas não todo tempo”. “Compra cerveja, compra uma lembrança e vai incentivando”. A entrevistada se refere aos visitantes que circulam pela comunidade e quando afirma que é “bom”, percebe-se que, embora a permanência seja curta, o contato é visto de forma positiva.
Além do contato efêmero da visitação refletido na fala dos comunitários, percebe-se que, ainda que os comunitários tenham consciência dos benefícios econômicos e sociais advindos da presença do visitante na comunidade, o mais importante é que ao final da visita eles não pernoitam na comunidade: “o bom é isso, chegam aqui [na comunidade], me visitam, compram alguma coisa e vão embora. Eu gosto desse tipo de turismo”. De acordo com o pesquisado, não há interesse que o visitante permaneça na comunidade, as visitas por lazer devem acontecer, mas o espaço é da comunidade e ela busca apropriar-se dele, estabelecendo uma fronteira bem delimitada: chegam, passeiam, compram e seguem caminho.
Percebe-se nas representações que o turismo não é apenas uma simples visitação na comunidade, mas uma atividade econômica que ao longo de três décadas vem contribuindo para complementar a renda das famílias envolvidas, especialmente com o artesanato: “hoje o turismo traz, assim, completa tudo que nós temos, nossa alimentação, nosso meio de vida. Tudo que nós temos o turismo completa, para mim, para meus filhos e para muita gente que trabalha conosco aqui”, afirma uma das lideranças locais.
Em se tratando da comunidade São Thomé, em 2005, a Pousada Jacaré foi construída na esperança de que os visitantes pudessem hospedar-se na comunidade, permanecer por mais tempo e deixar algum recurso. O surgimento da pousada é iniciativa de um ex-funcionário de empreendimentos hoteleiros. Ainda que lhe faltasse escolaridade, escolheu empreender no turismo na intenção de que a atividade pudesse contribuir para melhorar sua condição de vida. Mas até 2010, nada havia mudado, os visitantes apenas caminhavam pela comunidade, passeavam, compravam artesanato e seguiam viagem. Chegavam por meio dos pacotes dos hotéis, das agências e “não deixavam um tostão na comunidade”. Assim, o grupo que trabalhava com o turismo de São Thomé percebeu que fazia parte de um “turismo de ver” (BARRETO, 2004) e incorporou novos elementos, novas explicações relacionadas a ele e, em consonância com a nova realidade, mudou sua representação social.
Em dezembro do mesmo ano (2010), de acordo com os comunitários, o fluxo turístico melhorou bastante depois do programa da TV Globo: “[...] antes de terminar o ano, deu muita gente. Era muita gente de manhã e de tarde para visitar aqui”. Com o programa veiculado em rede nacional, muitas pessoas quiseram conhecer a comunidade e as transformações pelas quais passou. As agências de receptivo e os hotéis e pousadas dos arredores também incluíram a comunidade como uma visita obrigatória.
No entanto, com base na pesquisa de campo, notou-se que os “conflitos” na comunidade, palavra recorrente nos discursos, começaram a partir do investimento do programa na pousada, que é um investimento particular no espaço comunitário. No entender dos comunitários, a melhoria das condições de vida deveria ser para “todos” e não apenas para uma família, aquela que foi “beneficiada” pela reforma da pousada por meio do programa de televisão.
De acordo com a pesquisa de campo, muitos moradores acreditavam que seriam protagonistas de seu espaço, o que caracteriza o turismo de base comunitária, e não foi exatamente o que aconteceu. Ainda que muitos problemas tenham ocorrido, os atores sociais percebem o turismo de forma positiva, mas estão preocupados com o quase nenhum benefício deixado e com os resíduos sólidos produzidos na visita. Além disso, o turismo que chega à comunidade é altamente influenciado por um agente externo. “[...] se nós tivéssemos contato diretamente com as operadoras, isso aqui ia lotar. Aí, nós esperamos por uma agência aqui, se ela lembrar ela manda se não lembrar manda para outro”, afirma um dos empreendedores locais.
Na Vila de Paricatuba, o turismo acontece desde o final dos anos de 1990. Já houve mais de uma tentativa para tentar organizar minimamente a atividade na comunidade, mas ela permanece sem qualquer controle ou interferência por parte dos moradores locais.
Na visão dos sujeitos da pesquisa, os principais atrativos da Vila são: “a praia”, “a história”, “o lugar”, “o que tem na comunidade”. Um dos pesquisados afirmou que “o principal é o prédio”, “quando não tem praia eles [os visitantes] se encaminham direto para o prédio”. As representações desses sujeitos sugerem um retorno ao passado. Os atrativos citados na Vila estão fortemente ligados às vivências anteriores, apontando para um “lugar” de pertencimento, dotado de uma história de vida que se forjou com base em uma teia de relações e identidades. O “prédio” e a “história” são citados frequentemente, eles fazem referência ao passado da comunidade, e os moradores entendem que é necessário que todos conheçam.
Há uma certa nostalgia ao se falar de como o turismo era há alguns anos na comunidade: havia “qualidade”, “respeito”, “contribuição”, os visitantes “procuravam a comunidade” e ao que parece davam satisfação sobre os seus objetivos na Vila. Percebe-se que havia uma maior proximidade com o visitante e um controle sobre a visitação, o que hoje é inexistente. Os pesquisados se mostram invadidos pelas mudanças que a comunidade vem sofrendo com a presença do turismo – “mais pessoas, menos qualidade” – e pela perda do poder que existia em seu espaço. O poder é percebido aqui como uma forma de controlar a visitação, saber o roteiro e o objetivo de cada visitante.
A incorporação de Paricatuba pelo turismo criou um estranhamento entre os anfitriões e os visitantes no presente. “[...] Eu estava roçando aqui, para ajeitar a comunidade, chegou um micro-ônibus, o cara veio de lá mandar eu parar a máquina porque ia atrapalhar a gravação deles e não deixa nada para a comunidade”. Esse relato de uma das lideranças é bem elucidativo quanto ao estranhamento entre ambos. Os visitantes chegam e interferem na rotina da comunidade, nesse caso a limpeza das áreas comuns. As representações são bastante negativas e o relato foi complementado com o seguinte: “só lixo”. Isto é, além de não haver contribuição financeira como os informantes esperam ou gostariam, eles ainda são obrigados a recolher os resíduos deixados pelos visitantes.
De forma geral, é importante salientar que as representações sociais de turismo e lazer na Vila estão apoiadas em sistemas de referência que o classificam como atividade econômica de importância para alguns na comunidade. Da mesma forma, os visitantes são percebidos como fonte de recursos. A lógica do dar-receber-retribuir, da hospitalidade como dádiva, é substituída pelo comércio (CAMARGO, 2007). O pior é que nesse comércio quem menos ganha (ou não ganha nada) é a comunidade. Na fala que segue, ao se discutir sobre o turismo e o visitante, o pesquisado evidencia essa visão: “[...] direta e indiretamente ele deixa recursos aqui, para mim não, mas para meus vizinhos é importante sim”. Esse sujeito não está envolvido diretamente nas atividades de turismo que ocorrem na Vila, mas seu posicionamento vai ao encontro dos interesses dos demais comunitários.
Para os sujeitos da pesquisa, visitantes dos carros e motos que circulam na comunidade, e dos barcos que param de frente para a Vila, não têm qualquer contato com a comunidade. Os que chegam se apropriam do espaço, utilizam o casarão, sem qualquer interferência ou permissão. Não há planejamento na visita, e esta não deixa “nada” (nenhuma contribuição) para a comunidade. Os informantes entendem que quem ganha são os visitantes, usufruindo dos atrativos da Vila.
Durante o grupo focal, na oficina de planejamento do turismo ou nas conversas informais, não se percebeu uma distinção entre as palavras turismo e lazer nas três comunidades, elas são acionadas constantemente e usadas como sinônimos pelos sujeitos da pesquisa.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Nas representações sociais de turismo, os pesquisados da comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro percebem a hospitalidade como uma dádiva. “[…] Estamos nos reportando a uma noção de hospitalidade lastreada no sistema da dádiva, baseada no dar-receber-retribuir (Marcel Maus[5]), que gera uma sucessão de dádivas e contra dádivas […] (CAMARGO, 2007, p. 5)”. Os comunitários mostram muito interesse em receber os visitantes na comunidade e afirmam gostar de fazê-lo. Essa perspectiva maussiana possibilita que os anfitriões sejam considerados como protagonistas ao encontrar com o visitante, que é um outro protagonista nesse processo. Mas não há como discordar de Barreto (2004, p. 147) quando afirma que, “[...] o turismo, em sentido amplo, é um fenômeno social. Mas em sentido restrito, na perspectiva dos núcleos receptores, é um negócio. Um negócio que vende algo diferente, sim: prazer e lazer [...]”. Dialeticamente, turismo também é comércio e a atividade econômica deve gerar renda para os envolvidos.
A maioria dos pesquisados é defensora do turismo, eles são verdadeiros entusiastas e conseguem mobilizar o grupo para desenvolver seus trabalhos. Há preparação para receber os visitantes sem encenação, com a percepção dos efeitos positivos e negativos do turismo. Há quem garanta que o contato face a face nas comunidades anfitriãs[6] pode introduzir novas ideias, valores, estilos de vida e novos estímulos para o desenvolvimento econômico e social (TODARO, 1997). Porém, em que pesem os efeitos positivos do turismo, o efeito demonstração[7] não pode ser esquecido. Os impactos negativos do turismo não podem ser desprezados.
A produção de artesanato é o que motiva os comunitários a continuarem trabalhando e atraindo visitantes, pois para eles turismo “é tudo”. Sendo assim, percebe-se que quando os sujeitos sociais empenham-se em entender e dar sentido ao mundo, eles também o fazem com emoção, com sentimento e com paixão (GUARESCHI; JOVCHELOVITCH, 2011, p. 19).
Em São Thomé nota-se mais pessimismo quanto ao turismo e não se percebe o mesmo entusiasmo que na outra comunidade do Acajatuba. Os informantes mostram-se preocupados com o futuro do turismo e afetados pela falta de integração dos membros da comunidade. Como a representação social é um corpus organizado de conhecimento (MOSCOVICI, 2012), as reações diante do turismo podem ser as mais diversas e uma espécie de indicadores para as ações sociais dos grupos. Os anfitriões de hoje eram o atrativo, pouco tempo atrás. Um turismo excludente era a marca dessa comunidade, que diante de muitas dificuldades tenta superar seus problemas, melhorar o atendimento e aumentar o fluxo de visitantes.
Na comunidade São Thomé não existe a mesmidade, no dizer de Bauman (2003), especialmente quando há comunicação com o mundo exterior. Quando isso acontece, a ideia de unidade é desconstruída. O contato com o mundo exterior, aguçado pela participação no programa de televisão, fez com que muitos comunitários percebessem algo que não os estava agradando: um turismo que não beneficiava a comunidade.
Os informantes da Vila de Paricatuba valorizam o turismo que acontecia no passado, eles se sentiam mais envolvidos e com maior poder para controlar as visitas no espaço comunitário, pois “as condições sociais em que um grupo vive delimitam o espaço de experiência de seus membros” (WAGNER, 2011, p. 138). No entanto, as memórias estigmatizadas e, até certo ponto, desvalorizadas do Paricatuba de antigamente ainda persistem, pois “[...] quer estejamos em interação com pessoas íntimas ou com estranhos, acabaremos por descobrir que as marcas da sociedade ficam claramente impressas nesses contatos [...]” (GOFFMAN, 2012, p. 63).
No presente, os comunitários percebem que há dificuldade de se trabalhar coletivamente, permanecem céticos. No grupo focal e na oficina de planejamento para o turismo, notou-se que os sujeitos entendem que o turismo não beneficia a comunidade e está desorganizado. Um grupo formado por donos de restaurantes e por comunitários que não têm envolvimento direto com o turismo percebe a atividade como geradora de renda, ainda que não saiba como lidar com essa atividade em seu espaço. Moscovici (2012) destaca que, de forma simplificada, as proposições, reações e avaliações que formam as representações são organizadas de forma diferente em cada classe social, cultura ou grupo, constituindo universos diferentes de opinião.
Mas de forma geral, as palavras mais usuais relacionadas às visitas na Vila são: desrespeito, invasão e estranhamento. Ao se estudar as representações sociais não se pode prescindir de considerar a cultura e a história de sociedades, grupos e indivíduos; a sua base é constitutiva e constituída por esses elementos (ARRUDA, 2002).
As percepções dos atores sociais das três comunidades se aproximam no momento em que os pesquisados consideram o TBC como uma atividade geradora de renda, que tem a possibilidade de contribuir para a melhoria das condições de vida de cada um deles. Mas é notório que das três comunidades do estudo, duas mostram-se muito pouco articuladas para possibilitar uma experiência de turismo de base comunitária, mediante as inúmeras dificuldades que se deparam em seus espaços. Ainda há forte dependência em relação aos hotéis dos arredores e às agências de viagens. O turismo de base comunitária deveria ser um protagonista nesse processo, pois é “[...] nesta lógica de encontros, vivências, hospitalidade e trocas entre visitante e anfitriões que se dá a essência do TBC” (COELHO, 2013, p. 316).
Constatou-se que há pouco entendimento sobre o sentido real do TBC por parte dos comunitários. Pelo fato da atividade acontecer no espaço comunitário e envolver alguns moradores, os sujeitos da pesquisa consideram que existe TBC, ainda que o protagonismo seja incipiente. No entanto, a comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro mostra-se melhor preparada para essa forma de gestão: o artesanato é o grande gerador de renda, agregando principalmente os membros de uma das famílias da comunidade que articulam as visitas e recebem os visitantes em sua loja de artesanato; mostram-se preocupados com os recursos ambientais da área protegida onde vivem e contribuem para que a região do Acajatuba continue atraindo visitantes. Em São Thomé, devido à desarticulação dos próprios comunitários, o protagonismo ainda é algo a ser conquistado e o TBC ainda não se consolidou, prevalece um envolvimento maior de duas famílias com o turismo, os demais membros são chamados para colaborarem esporadicamente em atividades pontuais de turismo. Na Vila de Paricatuba, o TBC poderia ser um alternativa para os comunitários, mas a falta de articulação entre estes dificulta a organização para o turismo.
De forma geral, alguns entraves nas políticas públicas de turismo podem ser notados na Amazônia e se aplicam perfeitamente à realidade de Iranduba e das comunidades do estudo: a demanda turística ainda orienta as ações de investimento governamental; o enfoque econômico é o parâmetro de desenvolvimento escolhido para o turismo; os programas propostos desconsideram empreendimentos privados de pequeno porte (SANSOLO, 2013). Este último é o exemplo mais claro do que acontece, principalmente em Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e em São Thomé.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quando os indivíduos das três comunidades estudadas apresentaram, descreveram ou caracterizaram um lugar ou o objeto de estudo, fizeram recortes e classificações. Em seus discursos, por meio da linguagem e da comunicação, emergiram as representações que foram reveladas, e formularam-se realidades e universos simbólicos que têm significado para esses sujeitos.
Os sujeitos da pesquisa na comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro são considerados, neste trabalho, defensores e entusiastas do turismo. O espaço comunitário é ao mesmo tempo moradia e espaço de trabalho. Os visitantes circulam pelas casas, igreja, campo de futebol, escola e loja de artesanato, sob a observação atenta de um grupo de artesãos que há trinta anos recebe visitantes em seu espaço.
Os membros da associação de artesanato são bastante articulados e protagonistas quando o assunto é turismo. Não se percebe o envolvimento ativo de todos os membros da comunidade no planejamento, desenvolvimento e gestão da iniciativa e, sim, apenas de um núcleo familiar. A loja de artesanato, por exemplo, é um empreendimento particular no espaço comunitário e referência no Lago do Acajatuba. O saber-fazer desses artesãos, retratados em colares, pulseiras, bolsas, entalhes em madeira, é uma expressão de “amor” pelo trabalho e o artesanato produzido é o que tem atraído visitantes à comunidade. Considera-se que o TBC existe na comunidade; ainda que não envolva todos os moradores, o núcleo familiar faz a autogestão do negócio turístico (MALDONADO, 2009). A hospitalidade é vista tanto como comércio quanto como uma relação humana necessária e integradora. Ambas se encaixam nas representações sociais dos sujeitos, de forma dialética.
Em se tratando da comunidade São Thomé, as representações sociais que emergem dão conta de constructos que indicam preocupação e pessimismo com relação ao turismo. A atividade que vem se desenvolvendo, influenciada pelo programa de televisão que promoveu a comunidade, causou um certo desgaste nas relações entre os grupos sociais. Houve insatisfação e percepção de que apenas alguns haviam se beneficiado com a presença do programa. Como os membros da comunidade possuem, em sua maioria, laços consanguíneos, os conflitos foram acentuados ao ponto de serem criadas duas estruturas de turismo (uma pousada e um restaurante) que concorrem, no mesmo espaço comunitário, com outras duas estruturas mais antigas. É possível inferir que faltam visitantes para utilizarem as estruturas, o que agudiza o conflito.
Os investimentos em pousadas e restaurantes demonstram esforço dos atores sociais locais em busca de sucesso por meio do turismo. O investimento em TBC necessita de um maior envolvimento da coletividade e o fortalecimento dos laços comunitários, mas os membros da comunidade São Thomé não se mostram proativos para estabelecer estratégias que venham beneficiá-los e o protagonismo fica por conta de cada indivíduo, e não da coletividade. A comunidade se envolveu em cursos e oficinas sobre TBC, atualmente tenta se articular com operadoras e agências, por outro lado, segue lentamente na autogestão dos seus empreendimentos.
A história da Vila de Paricatuba foi marcada pela construção de um prédio, hoje em ruínas, que abrigou estudantes, presidiários, doentes e não serviu aos seus fins primeiros, que era uma hospedaria para abrigar imigrantes. Os sujeitos da pesquisa, principalmente os não envolvidos diretamente com os empreendimentos locais como os restaurantes, são céticos quanto ao turismo, percebendo-o mais como um elemento negativo, principalmente por não oferecer retorno financeiro para a comunidade. Ainda que os estigmas existam, as ruínas do prédio são motivo de orgulho e sua história confere identidade aos atores sociais da comunidade. Os informantes desejam ver a transformação do espaço com aproveitamento para o turismo cultural: pensam em utilizar o prédio como um museu, escola, centro cultural ou algo semelhante. Alguns membros da comunidade participaram de oficinas de sensibilização sobre TBC, mas essa forma de gestão parece estar longe do que esperam alguns comunitários, que é o protagonismo e um envolvimento maior dos moradores locais.
Por fim, é possível inferir que as representações sociais identificadas são extremamente úteis por possibilitarem compreender quem são os atores sociais, o que eles sabem do turismo, como eles sabem e como usam seus saberes na cotidianidade. Por meio da pesquisa, pode-se refletir e superar situações-problema que se revelam em cada espaço comunitário, ainda que existam muitas lacunas a serem exploradas na investigação dos fenômenos. A natureza das representações dos atores locais expressa a natureza do universo consensual de cada espaço comunitário.
Este estudo corrobora com as ideias de Sansolo e Bursztyn (2009), os quais entendem que o TBC é uma opção de desenvolvimento para as comunidades de áreas rurais, ampliando suas práticas cotidianas. Esse é o caso específico das três comunidades do estudo, essa forma de fazer a gestão do turismo surge nessa região com o intuito de oferecer melhores produtos e serviços turísticos, e contribuir para melhorar as condições de vida daqueles que estão envolvidos com a atividade nas comunidades locais. O turismo de base comunitária é um caminho que ainda está sendo trilhado, especialmente no Lago do Acajatuba.
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Notas