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Recepción: 26 Agosto 2020
Aprobación: 31 Agosto 2021
Resumo: O objetivo deste trabalho foi verificar a dinâmica de desenvolvimento econômico dos municípios do Estado do Ceará a partir de um conjunto de 14 (quatorze) variáveis referentes ao ano de 2010. Utilizou-se a técnica de análise fatorial para a definição dos fatores e análise de clusters para a formação dos grupos homogêneos. A evidência empírica apontou uma extração de quatro fatores que explicam aproximadamente 80% da variância total do modelo de dinâmica de desenvolvimento dos municípios. Notou-se que sete municípios da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) se destacaram na dimensão econômica e que somente o município de Fortaleza se destacou na dimensão humana. Os resultados mostraram que as regiões Noroeste e Sul Cearense apresentaram dinâmica de desenvolvimento econômico inferior às demais. Por fim, constatou-se a existência de desequilíbrios na dinâmica de desenvolvimento entre as regiões cearenses.
Palavras-chave: Análise de multivariada, Municípios cearenses, Desenvolvimento econômico.
Abstract: The objective of this work was to verify the dynamics of economic development of the municipalities of the state of Ceará from a set of 14 (fourteen) variables related to the year 2010. The methodological approach used was the factor analysis technique for the definition of factors, and the cluster analysis for the formation of homogeneous groups. The empirical evidence pointed to an extraction of four factors that explain approximately 80% of the total variance of the development dynamics model of the municipalities. We observed that seven municipalities of the Metropolitan Region of Fortaleza (MRF) stood out in the economic dimension and that only the municipality of Fortaleza stood out in the human dimension. The results showed that the Northwest and South regions presented lower economic development dynamics than the others. Finally, we found the existence of imbalances in the development dynamics between the regions of Ceará.
Keywords: Multivariate analysis, Ceará municipalities, Economic development.
1 INTRODUÇÃO
O Estado do Ceará, a partir dos anos de 1990, passou por mudanças de ordem política e institucional que se refletiram na dimensão econômica, momento em que se viu a modernização das instituições cearenses. No campo social, constatou-se que, no mesmo período, a educação e a saúde são apontadas como elementos importantes para o crescimento e o desenvolvimento econômico e social cearense. A educação, em especial, vem se mantendo na agenda das políticas públicas cearenses com objetivo de melhorar sua qualidade, o que a fez apresentar uma confortável situação em relação aos demais estados nordestinos, com redução, por exemplo, da taxa de analfabetismo de 26,5% para 18,8% entre 2000 e 2010 (SOUZA; TABOSA, 2016; MARIANO; ARRAES; BARBOSA, 2016).
Em termos de divisão territorial, o Estado do Ceará está dividido em sete mesorregiões geográficas com características econômicas, sociais, demográficas e físicas diferenciadas. No que diz respeito aos aspectos físicos, pode-se ressaltar mesorregiões que convivem com período de secas intensas, enquanto outras se destacam pela presença de maior disponibilidade de água. Em termos econômicos, nota-se que a mesorregião Região Metropolitana de Fortaleza responde por 64% do PIB cearense seguida pela mesorregião Noroeste Cearense com participação de 10%. A mesorregião Centro-Sul Cearense, por sua vez, obteve a menor participação no PIB do Estado em 2010 (2,52%). Em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (2010) das regiões, ficou em 0,62 (em média), com destaque para a mesorregião Região Metropolitana, que registrou o maior valor com 0,67. Segundo a Brasil(2019), as regiões com maiores participações nas unidades agrícolas do Estado foram Região Metropolitana de Fortaleza, Noroeste Cearense e Jaguaribe. Já, as unidades industriais concentram-se na Região Metropolitana (75%) e Sul Cearense (9,4%).
Assim, visando reforçar os debates em torno das estratégias de desenvolvimento socioeconômico no Estado do Ceará e que vem tornando-se um desafio diante da multiplicidade de evidências, surge o seguinte questionamento: quefatores podem explicar a dinâmica do desenvolvimento econômico no Estado do Ceará? A hipótese levantada neste trabalho é de que as variáveis econômicas, frente às variáveis sociais, solidificam-se como principal grupo que explica o desenvolvimento dos municípios cearenses. Tal hipótese fundamenta-se no fato de que, na dimensão econômica, existem variáveis das três grandes atividades econômicas (agropecuária, indústria e serviços) que podem fazer com que aqueles municípios que não possuam atividade industrial dentro de sua estrutura produtiva, possam ser influenciados pelas atividades de comércio e serviços.
Isso posto, este trabalho teve como objetivo verificar a dinâmica de desenvolvimento econômico dos municípios do Estado do Ceará a partir de um conjunto de quatorze (14) variáveis econômicas e sociais referentes ao ano de 2010. Pretendeu-se, em seguida, estabelecer uma hierarquia entre os municípios por mesorregiões que detêm maiores ou menores potenciais de desenvolvimento e identificar os possíveis clustersde desenvolvimento no Estado. Ao final, o trabalho fornecerá elementos para tomada de decisão na área de promoção e alocação de investimentos regionais.
Este artigo apresenta mais quatro seções além desta introdução. A primeira traz uma abordagem sobre os debates de desenvolvimento e crescimento econômico. A seção seguinte explana os aspectos metodológicos utilizados, com a apresentação das fontes utilizadas para a base de dados e o método de análise fatorial e análise de agrupamento. Os resultados são apresentados na quarta seção juntamente com a hierarquização dos municípios cearenses. E por fim, na seção cinco são realizadas as considerações finais.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 As nuances do Desenvolvimento Econômico Regional
As discussões sobre desenvolvimento mostram-se antigas e, por muitas vezes, complexas e passaram por diversas alterações ao longo dos anos (SANTOS et al., 2017). O próprio Adam Smith já comentava que a riqueza de uma nação seria resultado de seu trabalho produtivo, da especialização da mão de obra e da divisão do trabalho. Para Joseph Schumpeter em “A Teoria do Desenvolvimento Econômico” (SCHUMPETER, 1982), o desenvolvimento não se explica pelo crescimento econômico, mas sim pelo processo de mudança espontânea e descontínua, momento em que apresenta a inovação como consequência de novas combinações.
Assim, dentro desse escopo teórico, emerge a necessidade de debater a questão do desenvolvimento regional, o qual apresentou transformações ao longo das décadas do século XX. Os trabalhos oriundos dos estudos de economistas e geógrafos da década de 1950, após a Segunda Grande Guerra, permitiram avanços na compreensão de três conceitos e estratégias de desenvolvimento regional considerados de fundamental importância para a compreensão das desigualdades regionais existentes. Dessa forma, passados mais de cinquenta anos, os estudos de economia regional abrangem diversas abordagens, teorias e modelos para se entender as trajetórias de desenvolvimento regional (CAPELLO, 2009).
O primeiro conceito desenvolvido e trazido para debate foi o elaborado por François Perroux em 1955, denominado de "polo de crescimento”, o qual fundamenta a ideia de que o desenvolvimento econômico regional acontece via polos de crescimento e desenvolvimento com fortes conexões com as regiões de influência (PERROUX, 1961). Esses polos são caracterizados, assim, por uma taxa elevada de desenvolvimento econômico e inúmeras conexões cooperativas (SZAJNOWSKA-WYSOCKA, 2009). Contudo, segundo Szajnowska-Wysocka (2009), áreas fortalecidas ou criadas como polos de crescimento acabam dominando regiões relativamente mais fracas e tornam-se competitivas em detrimento das demais. De acordo com Capello (2009), a ideia defendida por Perroux é que a existência de polos de desenvolvimento se concentra decorrente da sinergia e forças cumulativas geradas por relações locais estáveis e duradouras, em que o espaço físico é concebido como diversificado e relacional.
A segunda teoria refere-se à “causação circular cumulativa” (CCC) elaborada por Myrdal (1957) e expõe a instabilidade e desequilíbrio do sistema econômico. A terceira foi a teoria desenvolvida por Hirschman (1958) que se valeu das teorias dos primeiros para o detalhamento dos efeitos para trás e para frente. Nessa linha, o autor considera que as indústrias-chave, ou indústrias motrizes de Perroux, são estímulos ao potencial crescimento do produto por indução em uma determinada economia subdesenvolvida.
Para Haddad (2009), nesse contexto teórico explanado, o desenvolvimento envolve o bem-estar da sociedade e, por esse motivo, o autor leva em consideração a variável produto per capita como elemento importante para a mensuração da produtividade de uma determinada região econômica. No entanto, Haddad (2009) aponta dois aspectos inerentes à temática: i) primeiro adiciona outros aspectos relevantes para alcançar o desenvolvimento econômico, são eles: capacidade associativa, empreendedorismo e distribuição de renda; ii) Haddad confirma, no caso, o que foi apresentado por Pelinski (2007), ao afirmar que o desenvolvimento não é algo que ocorre espontaneamente, o que exige, portanto, planejamento associado aos propósitos governamentais, ou seja, deixa claro a necessidade de intervenção estatal na economia regional.
O desenvolvimento econômico, dessa forma, principalmente quando se trata da questão regional, envolve a consideração de um conjunto de aspectos amplos, que envolve, por sua vez, informações econômicas e sociais, pois são eles que causam as disparidades regionais. As variáveis econômicas, por um lado, tendem a refletir o nível de crescimento econômico alcançado por uma região, mas sozinhas são insuficientes para afirmar se uma região é ou não desenvolvida, por esse motivo ser necessário a inclusão de outras variáveis referentes as outras dimensões, entre elas, as variáveis sociais (EBERTHARDT; LIMA, 2012).
Neste aspecto,Szajnowska-Wysocka (2009) atesta a importância da necessidade de observar continuamente e registrar a realidade socioeconômica em âmbito regional ou local de modo a prever o desenvolvimento futuro, principalmente no panorama europeu de desenvolvimento endógeno.
Portanto, tecido esse breve pano de fundo teórico, começa-se a apresentar os trabalhos empíricos no que diz respeito à questão do desenvolvimento econômico e regional. Por esse motivo, os autores colocam que o desenvolvimento econômico deve conduzir as pessoas à obtenção de melhoria de renda, além de melhorar as condições sociais.
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