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<journal-title specific-use="original" xml:lang="pt">Gestão &amp; Regionalidade</journal-title>
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<subject>Artigos</subject>
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<article-title xml:lang="pt">Gestão de associações e cooperativas da agricultura familiar na implementação do Programa Nacional de Alimentação Escolar em territórios rurais</article-title>
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<year>2022</year>
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<copyright-year>2022</copyright-year>
<copyright-holder>Autor</copyright-holder>
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<title>Resumo</title>
<p>O artigo objetiva analisar, no plano local, no aparato administrativo e na atuação de dirigentes de organizações da agricultura familiar, implicações de elementos normativos, cognitivos e ideológicos  atinentes  à  implementação  do  Programa  Nacional  de  Alimentação  Escolar  (PNAE)  em  territórios  rurais,  de  forma  comparativa.  De  natureza  qualitativa,  a  pesquisa  consiste  em  estudo  de  casos  múltiplos  em  dez  organizações  nos  Territórios  do  Mato  Grande/RN  e  da  Serra  do  Brigadeiro/MG.  Os  diretores  dessas  organizações  têm  atuação  moldada pelo contexto local da implementação, como influências da Lei nº 11.947/2009. A atuação  também  sofre  interferências  do  aparato  administrativo  das  organizações,  que  foi  alterado em termos de recursos materiais, humanos e financeiros e no acesso a tecnologias e assistência  técnica.  Não  há  diferenças  significativas  nos  papéis  desempenhados  pelos  dirigentes das organizações, de modo que todos contribuíram na implementação do PNAE. Sugere-se a ampliação do campo de estudo, contemplando atores como burocratas de nível de rua.</p>
</abstract>
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<title>Palavras-chave</title>
<kwd>Programa  Nacional  de  Alimentação  Escolar  (PNAE)</kwd>
<kwd>implementação  de  políticas públicas</kwd>
<kwd>associações e cooperativas</kwd>
<kwd>agricultura familiar</kwd>
<kwd>territórios rurais</kwd>
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<sec>
<title>INTRODUÇÃO</title>
<p>Este artigo estabelece interlocuções entre   alimentação   escolar   e   agricultura   familiar, apresentando evidências empíricas em   dois   territórios   rurais   de   distintas   unidades da Federação. Os dois segmentos de  políticas  públicas  são  pautas  de  ações  mundiais para o combate à fome. De acordo com  o  relatório  de  2019,  El  estado  de  la  seguridad  alimentaria  y  la  nutrición  en  el  mundo,  elaborado  pela  Organização  das  Nações  Unidas  para  a  Alimentação  e  a  Agricultura       (FAO),       pelo       Fundo       Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA),   pela   Organização   Mundial   da   Saúde  (OMS),  pelo  Programa  Mundial  de  Alimentos (PMA) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), cerca de 820  milhões  de  pessoas  em  todo  o  mundo  não  tiveram  acesso  suficiente  a  alimentos  em  2018,  comparado  a  811  milhões  em  2017,  sendo  que  esse  indicador  registrou  aumento desde 2015. Esse relatório destaca iniciativas   brasileiras   para   o   combate   à   desigualdade   via   Programa   Fome   Zero,   Programa Bolsa Família, Previdência Rural e   Programa   Nacional   de   Alimentação Escolar (PNAE).</p>
<p>A análise aqui procedida toma como ponto de partida a implementação da Lei nº 11.947,  de  16  de  junho  de  2009,  que,  por  meio do Artigo 14, institui que no mínimo 30%   do   total   dos   recursos   financeiros   repassados    pelo    Fundo    Nacional    de    Desenvolvimento da Educação (FNDE), no âmbito  do  PNAE,  devem  ser  utilizados  na  aquisição      de      gêneros      alimentícios      diretamente  da  agricultura  familiar  e  do  empreendedor  familiar  rural  ou  de  suas  organizações.     A     obrigatoriedade     de     aquisição    de    gêneros    alimentícios    do    segmento  da  agricultura  familiar,  além  de  viabilizar   inovação   do   instrumento   da   chamada    pública    para    Administração    Pública brasileira, fomenta a necessidade de diálogo    com    um    segmento    produtivo    particular.</p>
<p>A  aplicação  da  Lei  nº  11.947/2009  gerou,  no  domínio  normativo,  reações  e  resistências  no  interior  da  Administração  Pública. Além disso, essa lei engendra viés cognitivo,  um  entendimento  particular  do  processo de compra governamental aliado a uma   dimensão   ideológica,   qual   seja,   a   afirmação  de  identidades  e  compromissos  políticos    destinados    ao    propósito    de    redução   da   pobreza   e   da   insegurança   alimentar no campo e de fortalecimento da agricultura      familiar.      Diante      desse      entendimento,     busca-se     responder     ao     seguinte questionamento: como se expressa a  gestão  de  organizações  da  agricultura  familiar      em      territórios      rurais      na      implementação  do  PNAE?  Este  artigo  tem  como  objetivo  analisar,  no  plano  local,  no  aparato   administrativo   e   na   atuação   de   dirigentes  de  organizações  da  agricultura  familiar,       de       forma       comparativa, implicações    de    elementos    normativos,    cognitivos e ideológicos na implementação do PNAE em territórios rurais.</p>
<p>Lotta et   al.   (2018)   propõem,   no   direcionamento     de     uma     agenda     de     pesquisas  em  implementação  de  políticas  públicas no Brasil, temas como desafios do federalismo,  impacto  da  publicização  de  serviços,         processos         participativos,         contextos            de            heterogeneidade,            desigualdades   e   intersetorialidade.   Este   artigo contribui para a agenda de pesquisas sugerida  por  Lotta  et  al.  (2018)  quanto  a  desafios  do  federalismo  no  Brasil.  Ainda  que com marco legal de alcance nacional, os instrumentos  de  implementação  do  PNAE  são  apropriados  localmente  com  elevada  discricionariedade,    tanto    na    forma    de    execução, quanto na definição do conteúdo da política pública.</p>
<p>Em         exame         crítico         do         desenvolvimento  e  do  status  do  campo  de  pesquisa   de   implementação   de   políticas   públicas,   Winter   (2010)   argumenta   que   aplicar   pesquisas   comparativas   contribui   para  classificar  a  influência  das  diferentes  variáveis  de  implementação,  preenchendo  lacunas.  Logo,  um  aspecto  inovador  deste  artigo  reside  nessa  perspectiva  comparada,  a partir de territórios rurais localizados em estados de duas regiões do Brasil (Sudeste e Nordeste),    fato    que    merece    destaque,    considerando  que  pesquisas  de  análise  da  implementação  de  políticas  públicas,  em  geral,    enfatizam    elementos    de    modo    isolado.</p>
<p>Este artigo aborda a implementação do  PNAE,  etapa  que  exige  compromisso  dos  implementadores  da  política  pública,  tanto    por    parte    dos    administradores    públicos,    quanto    pelos    diretores    das    organizações     da     agricultura     familiar     fornecedoras  de  alimentos.  Tais  diretores  são    aqui    reconhecidos    como    agentes    intermediadores entre a agricultura familiar e  o  mercado  de  compras  públicas  e,  nessa  condição,    têm    atuação    moldada    por    normativos,     aparato     administrativo     e     contexto local da agricultura familiar e por ideias, valores e concepções de mundo dos interessados.</p>
<p>IMPLEMENTAÇÃO   DE   POLÍTICAS   PÚBLICAS:    NOTAS    ACERCA    DO    MODELO ANALÍTICO</p>
<p>Política  pública  é  definida  como  “a  soma total da ação governamental, desde os sinais  de  intenção  até  os  resultados  finais”  (CAIRNEY,  2020,  p.  2);  ou,  como  “as  ações,  os  objetivos  e  os  pronunciamentos  dos    governos    a    respeito    de    assuntos    específicos,  as  medidas  tomadas  (ou  não  tomadas)    para    implementá-los,    e    as    explicações   que   eles   dão   para   o   que   acontece  (ou  não  acontece)”  (WILSON,  2006,   p.154).   Para   Cairney   (2020),   a   política pública é importante por influenciar todos os aspectos de nossas vidas, tornando-se  necessário  defini-la  corretamente,  ou,  pelo  menos,  explicar  o  que  está  errado  e  o  que se pode esperar que se faça a respeito.</p>
<p>De   acordo   com   Mazetto   (2015),   políticas  públicas  são  produto  e  expressão  da     estrutura     estatal     de     determinada     formação   social.   Sendo   assim,   não   são   apenas      decisões      administrativas      ou      entidades        técnicas        derivadas        de        planejamento  de  gestão,  haja  vista  que  as  políticas    públicas    se    corporificam    na própria lógica do Estado que lhes estrutura e são um índice de decifração da perspectiva de tal estrutura jurídico-política.</p>
<p>Segundo   Sebatier   e   Mazmanian   (1980),  a  implementação  de  uma  política  pública,     objeto     de     interesse     desta     investigação, é a execução de uma decisão política básica, que identifica o problema a ser   tratado   e   estipula   o   objetivo   a   ser   perseguido, e, de várias maneiras, estrutura o  processo  de  implementação.  Conforme  Hill  e  Hupe  (2002),  no  âmbito  da  teoria  e  pesquisa        de        implementação,        as        contextualizações são importantes, ou seja, a  implementação  está  sempre  conectada  a  políticas     específicas     como     respostas     particulares   a   problemas   específicos   na   sociedade.</p>
<p>Bonelli et  al.  (2019)  destacam  que,  apesar     de     os     modelos     tradicionais     (abordagem top-down)  ainda  prevalecerem  na   literatura,   houve   uma   evolução   dos   estudos  sobre  implementação  de  políticas  públicas,    com    diferentes    gerações    de    modelos, por exemplo, abordagens bottom-upe    perspectivas    que    consideram    a    implementação   como   processo   que   se   desenvolve,  gradativamente,  por  meio  da  interação   dos   vários   atores   envolvidos.   Nessa    perspectiva    de    compreender    a    implementação   como   um   processo   de   execução   e   de   adaptação   mediado   pelo   governo e seus agentes, Lima e D’Ascenzi (2013) relatam que os modelos analíticos de implementação     de     políticas     públicas     encontram  limites  na  superestimação  da  importância  das  normas  (abordagem  top-dow)     ou     da     discricionariedade     dos     executores (abordagem bottom-up).</p>
<p>Para Lima  e  D’Ascenzi  (2013),  o  foco na estrutura normativa desconsidera a influência    dos    implementadores    e    a    capacidade de determinação atribuída a eles no   desenho   retrospectivo   subestima   a   influência      exercida      pelas      variáveis      normativas    na    implementação.    Sendoassim,  Lima  e  D’Ascenzi  (2013)  propõem  um  modelo  analítico  para  os  estudos  de  implementação     de     políticas     públicas, considerando  que  a  análise  do  processo  de  implementação deve conter fatores como as características  do  plano,  a  organização  do  aparato   administrativo   responsável   pela   implementação,  as  ideias,  os  valores  e  as  concepções  de  mundo  dos  indivíduos.  O  Quadro  1  sintetiza  o  modelo  dos  autores  a  partir das principais características de cada elemento.</p>
<p>
<table-wrap id="gt1">
<alternatives>
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<table id="gt2-526564616c7963">
<tbody>
<tr/>
<tr>
<td>Plano</td>
<td>O conteúdo das normas que estruturam as políticas públicas será inserido em processos estabelecidos e adaptado às concepções e capacidades das instâncias de governo e das burocracias implementadoras. Nesse quadro, a análise das características do plano torna-se útil à compreensão da reação gerada nas instâncias de implementação.</td>
</tr>
<tr>
<td>Organização do aparato administrativo</td>
<td>O plano será absorvido, traduzido e adaptado às possibilidades e aos constrangimentos das agências e dos indivíduos que deverão executá-lo. Assim, fatores como disponibilidade e qualidade dos recursos humanos e materiais, estrutura e a dinâmica das regras organizacionais (formais e informais), fluxo e disponibilização de informações influenciam a forma como se dará a apropriação e implementaçãodo plano nos espaços locais.</td>
</tr>
<tr>
<td>Ideias, valores e concepções de mundo</td>
<td>As variáveis cognitivas atuam como um link entre o plano e sua apropriação. Esse elemento diz respeito à influência das ideias sobre a ação dos atores. As ideias conformam a percepção que os tomadores de decisão têm de questões, influenciando a ação. Além disso, considera na análise, o papel dos grupos sociais, suas relações com os atores estatais e o impacto disso para a implementação.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</alternatives>
</table-wrap>
</p>
<p>Esta  pesquisa  toma  como  base  o  modelo   apresentado   no   Quadro   1 para analisar  a  implementação  do  PNAE  em  territórios  rurais,  considerando:  i)  o  plano,  como   características   das   associações   e   cooperativas;  ii)  a  organização  do  aparato  administrativo, como os recursos humanos, materiais e financeiros; iii) ideias, valores e concepções de mundo centrados na atuação dos     dirigentes     das     cooperativas     e     associações. A análise da implementação do PNAE   por   organizações   da   agricultura   familiar   oportuniza   a   sistematização   de   limitações   e   possibilidades   inerentes   ao   plano  e  ao  aparato  administrativo,  a  partir  da atuação de dirigentes, atores que lideram a  execução  e  interferem  nos  resultados  da  política  pública  após  a  fase  de  formulação  das  chamadas  públicas.  Outro  fato  a  ser  considerado  é  a  qualidade  das  interações,  simetrias  e  assimetrias  de  ideias,  valores  e  concepções  de  mundo  entre  indivíduos  de  lugares  distintos  (campo,  cidade)  e  entre  segmentos          econômicos          distintos          55A opção por esses dois territórios ocorreu por oportunidade, dada a viabilidade da coleta como parte de projeto em  consórcio  doutoral,  constituído  pela  Universidade  Federal  do  Rio  Grande  do  Norte  (UFRN),  Universidade  Federal de Viçosa (UFV) e da Universidade Federal do Cariri (UFCA), com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).(administração        pública,        agricultura        familiar).</p>
<sec>
<title>PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS</title>
<p>A  pesquisa  é  classificada,  quanto  aos  fins,como  descritiva  com  abordagem  qualitativa,   utilizando   como   método   o   estudo  de  casos  múltiplos.  Segundo  Yin  (2001),  no  estudo  de  casos  múltiplos  cada  caso serve a um propósito específico dentro do  escopo  global  da  investigação,  o  que  ocorreu nesta pesquisa – haja vista que são analisados    dois    blocos    de    casos    em    perspectiva       comparativa       envolvendo       territórios rurais de dois estados brasileiros (Rio  Grande  do  Norte  e  Minas  Gerais).  A  Figura  1  apresenta  os  critérios  de  inclusão  das   organizações   selecionadas   nos   dois   territórios  (Mato  Grande/RN  e  Serra  do  Brigadeiro/MG5).  É  oportuno  destacar  que  o   critério-base   foi   o   status   ativo   da   Declaração  de  Aptidão  ao  Pronaf  (DAP) Jurídica6, o que ocorreu mediante busca no site  da  Secretaria  Especial  de  Agricultura  Familiar  e  do  Desenvolvimento  Agrário  (SEAD, 2019).</p>
<p>
<fig id="gf1">
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</fig>
</p>
<p>Os  sujeitos  do  estudo  de  caso  são  dirigentes de  organizações  da  agricultura  familiar   nos   dois   territórios/estados.   As organizações selecionadas são apresentadas no  Quadro  2.  Uma  exceção  ocorreu  pela  qualificação       da       Cooperativa       dos       Agricultores Familiares da Pesca Artesanal e    Economia    Solidária    da    Região    do    Mato (COOAFES).          Mesmo          não          participando   da   execução   de   chamadas   públicas  do  PNAE  no  ano  2019,  por  se  tratar,   no   conjunto   das   associações   e   cooperativas       estudadas,       da       única       organização    com    alcance    e    atuaçãoterritorial,  tal  cooperativa  foi  incluída  para  a  compreensão  de  atributos  territoriais  do  fenômeno investigado.</p>
<p>
<table-wrap id="gt2">
<alternatives>
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<table id="gt3-526564616c7963">
<tbody>
<tr/>
<tr>
<td rowspan="3">Ceará-Mirim</td>
<td>Associação para o Desenvolvimento da Mulher de São José de Pedregulho (Associação de Pedregulho)</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação do Projeto de Assentamento e Reforma Agraria Riachão (Associação de Riachão)</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação dos Trabalhadores Rurais da Agrovila Nova Esperança Projeto de Assentamento Rosário (Associação de Rosário)</td>
</tr>
<tr>
<td>João Câmara</td>
<td>Cooperativa de Agricultores Familiares e Pescadores Artesanais da Ecosol da Região do Mato Grande (COOAFES)</td>
</tr>
<tr>
<td>Pureza</td>
<td>Cooperativa Mista da Agricultura Familiar e Economia Solidária de Bebida Velha (COOPABEV)</td>
</tr>
<tr>
<td>Touros</td>
<td>Associação de Mulheres Lutadoras de Lilás de Boqueirão (Associação de Boqueirão).</td>
</tr>
<tr/>
<tr>
<td>Araponga</td>
<td>Cooperativa dos Agricultores (as) Familiares e Economia Solidária de Araponga/MG (COOAFA)</td>
</tr>
<tr>
<td>Divino</td>
<td>Cooperativa da Agricultura Familiar de Divino e Orizânia –MG (COOPERDOM)</td>
</tr>
<tr>
<td>Fervedouro</td>
<td>Cooperativa dos Agricultores Familiares e Economia Solidária de Fervedouro (COOPAF Fervedouro)</td>
</tr>
<tr>
<td>Muriaé</td>
<td>Cooperativa dos Produtores da Agricultura Familiar Solidária (COOPAF Muriaé)</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</alternatives>
</table-wrap>
</p>
<p>Foi   utilizada   a   entrevista   como   instrumento de coleta de dados, tendo sido elaborado      previamente      um      roteiro      semiestruturado  com  base  nos  objetivos  e  no referencial teórico. As sessões de coleta foram realizadas durante o mês de abril de 2019. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de   Ética   e   Pesquisa   (CEP)   da   UFRN,   possuindo  o  Certificado  de  Apresentação  para Apreciação Ética (CAAE).</p>
<p>Seguindo   o   protocolo   de   Flick(2008),  a  codificação  assumiu  diferentes  vieses: a) aberta (in vivo), com a finalidade de  expressar  dados  e  fenômenos  na  forma  de  conceitos;  b)  axial,  com  o  propósito  de  aprimoramento      e      diferenciação      das      categorias resultantes da codificação aberta; c)    seletiva,    para    dar    continuidade    à    codificação    axial    por    meio    de    um    aperfeiçoamento  do  desenvolvimento  e  da  integração  da  codificação,  em  comparação  com outros grupos. Em momento anterior à codificação,     ocorreu     a     leitura     das     transcrições e, na sequência, foi procedida a geração  de  códigos  iniciais  originários  de  processos in vivo, sendo esta a primeira fase de   codificação,   denominada   codificação   aberta.</p>
<p>Após a codificação in vivo, ocorreu a  busca  por  temas  via  codificação  axial,  o  que permitiu o agrupamento dos códigos em “famílias”   correspondentes   às   categorias   predefinidas,   com   base   no   referencial   teórico,  para  posterior  processamento  no  Atlas.ti. Na etapa da codificação seletiva, o agrupamento  dos  códigos  foi  aperfeiçoado  por   meio   da   comparação   dos   códigos   presentes nas três categorias, para verificar se  o  processo  de  aglutinação  dos  códigos  estava   condizente   com   a   literatura.   A   análise do material coletado e transcrito foi realizada com aporte do software de análise de dados Atlas.ti, que foi aqui utilizado pelo acesso,   usabilidade   e   possibilidade   de   aplicação.</p>
</sec>
<sec>
<title>ANÁLISE DOS RESULTADOS</title>
<p>Para evidenciar a relação do modelo de   implementação   de   políticas   públicas   proposto por Lima e D’Ascenzi (2013) e a implementação   do   PNAE   por   meio   de   associações  e  cooperativas  dos  territórios  rurais   em   pauta,   a   Figura   2   ilustra   o   alinhamento    entre    as    três    categorias    temáticas   dos   autores   e   os   códigos   e   respectivas  frequências  gerados  a  partir  do  processamento  do  material  processado  no  Atlas.ti</p>
<p>
<fig id="gf2">
<graphic xlink:href="133475550009_gf3.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
</fig>
</p>
<p>Na   sequência,   os   resultados   são   analisados,  da  esquerda  para  a  direita,  a  partir dos códigos de cada categoria.</p>
<p>Nessa categoria são apresentadas as características  do  plano  local.  A  Tabela  1  registra  a  frequência  dos  códigos  dessa  categoria.   O   código   “caracterização   das   organizações”  reúne  aspectos  relacionados  ao  número  de  associados/cooperados,  ao  ano de criação e à forma de criação (top dowou bottom up). O código “características do acesso ao PNAE” incluiu elementos como o número  de  escolas  e  os  tipos  de  produtos  fornecidos    pelas    organizações    para    a    alimentação  escolar.  Já  o  código  “PAA”  refere-se  às  associações  e  às  cooperativas  que    iniciaram    a    comercialização    no    mercado      institucional      de      compras governamentais via Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Em momento anterior à Lei nº  11.947/2009,  que  determinou  a  compra    governamental    da    agricultura    familiar     para     o     PNAE,     ocorreu     a     institucionalização  de  processo  similar  via  PAA;   por   essa   razão,   na   formação   da   categoria   plano,   o   PAA   aparece   pela   condição de antecedente ao fenômeno desta pesquisa.</p>
<p>
<table-wrap id="gt3">
<alternatives>
<graphic xlink:href="133475550009_gt4.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
<table id="gt4-526564616c7963">
<tbody>
<tr/>
<tr>
<td rowspan="6">Mato Grande/RN</td>
<td>Associação de Pedregulho</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Riachão</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Rosário</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Boqueirão</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPABEV</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>COOAFES</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>-</td>
<td>2</td>
</tr>
<tr>
<td rowspan="4">Serra do Brigadeiro</td>
<td>COOAFA</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPERDOM</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>-</td>
<td>2</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPAF Fervedouro</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>-</td>
<td>2</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPAF Muriaé</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>TOTAL</td>
<td/>
<td>10</td>
<td>10</td>
<td>7</td>
<td>27</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</alternatives>
</table-wrap>
</p>
<p>No  Território  do  Mato  Grande/RN,  a  Associação  de  Pedregulho  foi  criada  em  2003,   por   agricultoras;   em   2012,   elas   começaram a comercializar a produção via PAA;  a  partir  de  2018,  para  o  PNAE.  A  Associação de Riachão foi criada em 2004 em reunião no Sindicato dos Trabalhadores Rurais   (STR).   Em   2007,   a   associação   iniciou  sua  participação  no  PAA  e,  em  2009,  no  PNAE.  A  Associação  de  Rosário  foi criada em 1999 e, no ano 2009, começou a  vender  para  a  alimentação  escolar;  antes  disso,   as   vendas   eram   destinadas   para   atravessadores    ou    para    o    PAA.    A    Associação  de  Boqueirão  foi  criada  em  2006,   por   meio   da   doação   de   recurso   financeiro  para  construção  de  uma  fábrica  de polpa de frutas, e no ano 2009 começou a  fornecer  o  produto  para  a  alimentação  escolar.  Antes  de  vender  para  o  PNAE,  a  produção era destinada a um atravessador e ao  PAA.  A  COOPABEV  foi  criada  em  2011,   sendo   que   a   venda   de   gêneros   alimentícios para a alimentação escolar, por meio  da  cooperativa,  iniciou-se  a  partir  de  2013.  A  COOAFES  não  executou  PNAE  em  2019,  todavia,  foi  inserida  na  pesquisa  por  se  tratar  da  única  entidade,  nos  dois  territórios em pauta, com atuação territorial. O  Quadro  3  sumariza  as  informações  de  cada organização.</p>
<p>
<table-wrap id="gt4">
<alternatives>
<graphic xlink:href="133475550009_gt5.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
<table id="gt5-526564616c7963">
<tbody>
<tr/>
<tr/>
<tr>
<td>Associação de Pedregulho</td>
<td>2003</td>
<td>2018</td>
<td>25</td>
<td>73</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Riachão</td>
<td>2004</td>
<td>2009</td>
<td>73</td>
<td>55</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Rosário</td>
<td>1999</td>
<td>2009</td>
<td>55</td>
<td>55</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Boqueirão</td>
<td>2006</td>
<td>2009</td>
<td>81</td>
<td>33</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPABEV</td>
<td>2011</td>
<td>2013</td>
<td>26</td>
<td>7</td>
</tr>
<tr>
<td>COOAFES</td>
<td>2009</td>
<td>2015-2016</td>
<td>50</td>
<td>-</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</alternatives>
</table-wrap>
</p>
<p>Quanto  às  cooperativas  do  Território  da  Serra  do  Brigadeiro/MG,  a  COOAFA  foi  criada   em   2015,   mas   os   agricultores   já   acessavam  ao  PNAE,  por  meio  de  grupo  informal, desde 2010, e, a partir de 2012, pela associação  de  agricultores  do  município.  A  COOPERDOM foi criada no mesmo ano em que a COOAFA e, da mesma forma, o PNAE foi um aspecto importante para a decisão dos agricultores   em   criar   a   cooperativa,   pois,   anteriormente à sua criação, as vendas para a alimentação   escolar   eram   realizadas   via   associação   dos   agricultores.   A   COOPAF   Fervedouro foi criada em 2013 e, desde então, toda  a  venda  da  cooperativa  é  destinada  ao  PNAE.  A  COOPAF  Muriaé  foi  criada  em  2012,  mas  apenas  em  2015  os  agricultores  fizeram  a  primeira  venda  para  o  PNAE  via  cooperativa.     Antes     da     criação dessa cooperativa,  de  2007  a  2010,  os  agricultores  forneciam  para  o  PAA  e,  a  partir  de  2010,  passaram a fornecer para o PNAE, por meio de   uma   associação.   No   ano   2015,   os   agricultores suspenderam as vendas, por meio da  associação,  e  passaram  a  comercializar pela COOPAF Muriaé. O Quadro 4 sumariza as características de cada organização.</p>
<p>
<table-wrap id="gt5">
<alternatives>
<graphic xlink:href="133475550009_gt6.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
<table id="gt6-526564616c7963">
<tbody>
<tr/>
<tr/>
<tr>
<td>COOAFA</td>
<td>2015</td>
<td>2010</td>
<td>34</td>
<td>9</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPERDOM</td>
<td>2015</td>
<td>2009</td>
<td>36</td>
<td>29</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPAF Fervedouro</td>
<td>2013</td>
<td>2009</td>
<td>45</td>
<td>5</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPAF Muriaé</td>
<td>2012</td>
<td>2010</td>
<td>120</td>
<td>160</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</alternatives>
</table-wrap>
</p>
<p>A  caracterização  das  organizações  dos      dois      territórios      revela      que,      distintamente do Mato Grande/RN, na Serra do      Brigadeiro/MG      existem      apenas      cooperativas que acessam o PNAE, não há associações.  No  entanto,  a  gênese  dessas  cooperativas     está     na     formação     de     associações,   a   priori,   para   criação   de   cooperativas,  a  posteriori.  Rios  e  Carvalho  (2007)    apresentam    as    associações    de    produtores     rurais     como     um     eficaz     mecanismo     de     transição     entre     uma     informalidade  dos  primeiros  passos  e  a  inserção solidária no mercado, uma vez que as    associações    possuem    personalidade    jurídica,  mas  não  são  empresas,  tendo  um  caráter marcadamente sociopolítico.</p>
<p>Além disso, Rios e Carvalho (2007) destacam  que  as  associações  apresentam  a  dupla  vantagem  de  poderem  organizar  os  interessados de uma maneira mais orgânica, socialmente,  sem  o  peso  administrativo  e  econômico  de  uma  estrutura  empresarial.  Para     os     autores,     essa     organização     administrativa  das  associações  apresenta,  naturalmente, suas limitações em termos de uma plena inserção no mercado, mas o seu interesse  e  funcionalidade  estão  no  fato  de  que seriam estruturas de ensaio, em termos de uma transição a ser construída na prática. Esse  aspecto  foi  verificado  na  análise  das  cooperativas   do   Território   da   Serra   do   Brigadeiro/MG,  isto  é,  o  papel  importante  que   as   associações   tiveram   para   que,   posteriormente, os agricultores pudessem se organizar  em  cooperativas  e  ter  acesso  à  política pública por meio delas.</p>
<p>Nos  dois  territórios,  na  maioria  das  organizações, a decisão para a constituição partiu dos  próprios  agricultores,  sendo  um  processo bottom-up,     assim     como     a     iniciativa   em   participar   do   PNAE.   O   modelo bottom-upenfatiza  elementos  dos  contextos   de   ação   nos   quais   a   política   pública   é   implementada   e   toma   como   variáveis  as  condições  dos  espaços  locais (LIMA; D’ASCENZI, 2013). Outro aspecto relevante   está   associado   à   inter-relação entre políticas públicas, pois, como mostra a  análise  de  frequência  do  código  “PAA”,  em  todas  as  associações  e  cooperativas  do  Território    do    Mato    Grande/RN    e    na    COOAFA  e  COOPAF  Muriaé  na  Serra  do  Brigadeiro/MG,   o   acesso   ao   PAA,   que   também    é    uma    política    de    compra    governamental  de  alimentos  da  agricultura  familiar,    foi    um    evento    anterior    à    participação dessas organizações no PNAE, o que mostra também como o acesso a uma política  pública  pode  servir  de  elo  para  novos mercados.</p>
<p>Escobal et  al.  (2015)  destacam  a  importância  de  reconhecer  que  políticas  públicas e/ou programas implementados em um   território   encontram   uma   série   de   estruturas e processos já em andamento que podem   fortalecer   ou   enfraquecer   seus   efeitos.  O  que  se  percebe  nesta  pesquisa  é  que   a   organização   dos   agricultores   em   ambos   os   territórios,   seja   por   meio   de   associações ou de cooperativas, assim como o   acesso   prévio   ao   PAA,   fortaleceu   a   implementação do PNAE, que, por sua vez, contribuiu    para    o    fortalecimento    das    estruturas  associativas  e  cooperativas.  A  análise  do  plano,  aqui  representada  pelas  características      das      organizações      da      agricultura  familiar  pertencentes  a  esses territórios,     contribui,     assim,     para     a     identificação  de  particularidades  no  que  se  refere      à      organização      do      aparato      administrativo  e  à  atuação  dos  diretores  dessas organizações.</p>
<p>Categoria   2:   Organização   do   aparato   administrativo</p>
<p>A  Tabela  2  apresenta  a  análise  de  frequência dos códigos dessa categoria. Os códigos  associados  ao  acesso  aos  recursos  mostram  como  estes  estão  relacionados  ao  cotidiano da implementação, assim como as parcerias  estabelecidas.  Outros  elementos  que  influenciam  a  forma  como  ocorre  a  apropriação e implementação do plano nos espaços locais referem-se às regras formais e   informais,   por   meio   dos   dispositivos   institucionais    do    PNAE    e    respectivas    interfaces,      com      peculiaridades      da      agricultura  familiar  e  dos  fornecedores  em  particular, mediadas por normas específicas das associações e cooperativas.</p>
<p>
<table-wrap id="gt6">
<alternatives>
<graphic xlink:href="133475550009_gt7.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
<table id="gt7-526564616c7963">
<tbody>
<tr/>
<tr>
<td rowspan="6">Mato Grande/RN</td>
<td>Associação de Pedregulho</td>
<td>2</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>6</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Riachão</td>
<td>3</td>
<td>2</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>8</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Rosário</td>
<td>0</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>4</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Boqueirão</td>
<td>3</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>7</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPABEV</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>5</td>
</tr>
<tr>
<td>COOAFES</td>
<td>2</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>0</td>
<td>5</td>
</tr>
<tr>
<td colspan="4">Serra do Brigadeiro/MG</td>
<td>COOAFA</td>
<td>0</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>0</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPERDOM</td>
<td>2</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>0</td>
<td>5</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPAF Fervedouro</td>
<td>2</td>
<td>3</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>0</td>
<td>7</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPAF Muriaé</td>
<td>5</td>
<td>4</td>
<td>2</td>
<td>1</td>
<td>0</td>
<td>12</td>
</tr>
<tr>
<td>20</td>
<td>16</td>
<td>11</td>
<td>10</td>
<td>5</td>
<td>62</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</alternatives>
</table-wrap>
</p>
<p>Nesta     categoria,     foi     possível     verificar que a maioria das organizações do Território  do  Mato  Grande/RN,  exceto  a  Associação  de  Boqueirão  e  a  COOAFES,  não possuem veículos de transporte próprio para a entrega dos alimentos nas escolas. A Associação  de  Boqueirão  possui  um  carro  semitérmico  e  uma  “caminhonete  baú”.  A  COOAFES  possui  duas  caminhonetes  que  foram conseguidas por meio de um edital de 2011/2012     do     Banco     Nacional     de     Desenvolvimento   (BNDES)   em   parceria   com      a      Companhia      Nacional      de      Abastecimento (CONAB) com a finalidade de apoiar a logística no âmbito do PNAE no estado do Rio Grande do Norte. As demais associações e cooperativas do Território do Mato  Grande/RN  alugam  caminhões  para  poderem   entregar   os   produtos   para   as   escolas.</p>
<p>As  verbas  destinadas  de  projetos  também    foram    fundamentais    para    a    aquisição  de  veículos  nas  cooperativas  da  Serra   do   Brigadeiro/MG.   Na   COOPAF   Muriaé,  o  caminhão  para  transporte  das  mercadorias  foi  uma  ação  do  Plano  de Desenvolvimento  Territorial  da  Serra  do  Brigadeiro,   em   2009.      A   Kombi   foi   concedida  por  meio  de  um  acordo  com  comodato  de  um  projeto  de  um  deputado federal7 e a caminhonete foi uma conquista do  Centro  de  Tecnologias  Alternativas  da  Zona da Mata (CTA) e a moto foi adquirida com   recursos   próprios   da   cooperativa.   Também  na  COOPERDOM,  o  CTA  doou  uma      caminhonete      no      âmbito      do      desenvolvimento de um projeto em parceria com   a   associação   de   agricultores   do   município.   Na   COOPAF   Fervedouro,   a   caminhonete  é  um  veículo  utilizado  em  parceria com a associação. Já na COOAFA os  agricultores  utilizam  seus  transportes  próprios,       entregando       os       produtos       diretamente nas escolas.</p>
<p>Outros    tipos    de    recursos    são    máquinas,  equipamentos  e  utensílios.  No  Território  do  Mato  Grande/RN,  apenas  a  COOPABEV  possui  um  computador  com  internet   disponível.   Há   as   câmaras   de   resfriamento e máquinas de processamento das  frutas  da  Associação  de  Boqueirão,  os  equipamentos  para  a  produção  dos  bolos  (utensílios,  mesas  de  inox,  fogão,  forno  industrial)  da  Associação  de  Pedregulho  e  três    microtratores    da    Associação    de    Riachão.    No    Território    da    Serra    do    Brigadeiro/MG,    todas    as    cooperativas    possuem       computador,       embora       na       COOAFA, o computador utilizado seja o de uso pessoal da diretora.</p>
<p>Quanto  aos  recursos  de  pessoal,  no  Território  da  Serra  do  Brigadeiro/MG,  A  COOPAF Muriaé e a COOPAF Fervedouro são     as     cooperativas     que     possuem     funcionários:   a   primeira   dispõe   de   um   técnico  agrícola,  um  funcionário  na  área  administrativa  e  os  membros  da  diretoria  são  cooperados,  mas  trabalham  de  forma  remunerada;   a   segunda   conta   com   o   trabalho  de  uma  estagiária  do  curso  de  Administração e de um técnico agrícola. No Mato  Grande/RN,  o  trabalho  das  próprias  7 A atuação de agentes políticos em Muriaé consiste na  relação  dos  facilitadores  na  implementação  do  PNAE,  por  meio  da  concessão  de  veículos  para  o  transporte  dos  gêneros  alimentícios  da  agricultura  familiar para as 160 escolas para as quais a COOPAF entrega produtos.   A   kombi,   por   exemplo,   foi   agricultoras  é  presente  na  Associação  de  Boqueirão e na Associação de Pedregulho, pois as associadas trabalham conjuntamente para  a  produção  das  polpas  de  frutas,  na  primeira, e para a produção de bolos e horta coletiva,  na  segunda.  Na  Associação  de  Riachão,     os     filhos     dos     agricultores     trabalham,    também,    na    entrega    das    mercadorias nas escolas, entretanto, não são associados,       nem       funcionários       da       Associação,  eles  recebem  por  diárias.  No  Mato   Grande/RN,   nenhuma   organização   estudada  possui  técnico  agrícola  exclusivo  para   prestar   serviços   aos   membros;   na   Associação de Rosário, o filho da diretora é técnico agrícola e presta assistência técnica de maneira voluntária aos associados.</p>
<p>Santos,  Ferreira  e  Campos  (2019)  mostram  como  a  carência  de  assistência  técnica constitui uma barreira para o acesso ao    PNAE    em    uma    cooperativa    da    agricultura familiar. Além disso, os autores constataram  que,  não  basta  assessorar  os  empreendimentos  da  agricultura  familiar  para   constituí-los,   é   preciso   um   apoio   contínuo     para     que     eles     funcionem     plenamente.    Apesar    da    maioria    das    organizações   não   possuírem   assistênciatécnica própria, elas contam com o suporte de  diversas  parcerias  para  tal  finalidade,  como     a     Secretaria     da     Agricultura,     Abastecimento,     Aquicultura     e     Pesca     (SEAP)   de   Ceará-Mirim/RN,   o   Serviço   Nacional      de      Aprendizagem      Rural      (SENAR), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro  e  Pequenas  Empresas  (SEBRAE),  a  Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural  (EMATER)  e  o  CTA.  Isso  mostra  a  análise    da    implementação    da    política    pública dentro da uma geração que concebe a  implementação  como  processo  que  se  desenvolve  gradativamente  por  meio  da interação   dos   vários   atores   envolvidos   (BONELLI et al., 2019).</p>
<p>Outras  organizações  relevantes  que  foram     citadas     pelos     diretores     das     associações  pertencentes  a  assentamentos  rurais do Território do Mato Grande/RN são o   Movimento   dos   Trabalhadores   Rurais   Sem Terra (MST) e o Instituto Nacional de Colonização  e  Reforma  Agrária  (INCRA),  o  que  reforça  a  presença  de  elementos  ideológicos na análise da implementação do PNAE  no  Território  do  Mato  Grande/RN,  uma vez que são duas entidades vinculadas à  causa  da  reforma  agrária.  Pereira  e  Reis  (2018)   registram   que   o   MST   é   uma   construção   histórica   originada   em   1984   com  o  movimento  camponês  pela  reforma  agrária,  em  uma  articulação  internacional  entre os países da América Latina e mais 21 países da Europa, África, Ásia e América do Norte.  Realçam  que  o  Movimento  traduz, na  sua  trajetória, a  luta  para  além  da  terra,  em  um  engajamento  na  emancipação  de  fração     da     classe     trabalhadora     dos     camponeses organizados.</p>
<p>No   território   potiguar,   todas   as   organizações  de  assentamentos  rurais  são  associações e as duas organizações que não pertencem    a    assentamentos    rurais    – COOPABEV e COOAFES – se estruturam em  formato  de  cooperativas.  Esse  dado  é  um   indício   de   que,   para   a   amostra   de   organizações  estudadas,  há  limitação  da  agricultura  familiar  em  se  organizar  em  cooperativas,         em         contexto         de         assentamentos rurais. No Território da Serra do  Brigadeiro/MG  não  há  incidência  de  cooperativas de assentamentos rurais.</p>
<p>Quanto   aos   recursos   financeiros,   referem-se ao capital levantado por meio de projetos e da cota parte, que são os valores financeiros        que        os        agricultores        integralizaram  para  tornarem-se  membros  das associações e cooperativas, assim como também    os    recursos    provenientes    das    receitas  de  vendas  geradas,  principalmente  pela  venda  para  as  escolas,  uma  vez  que  o  PNAE  é  o  principal  mercado  em  todas  as  organizações       estudadas,       exceto       a       COOAFES,  que  passa  por  um  processo  de  reestruturação   para   poder   participar   do   mercado institucional.</p>
<p>A     estrutura     das     organizações,     representadas     pela     análise     da     sede,     evidencia   que,   no   Território   do   Mato   Grande/RN,   apenas   a   COOAFES   não   possui  uma  sede  definitiva,  uma  vez  que,  por ser uma cooperativa territorial, existem núcleos  em  cidades  potiguares.  As  demais  associações  e  cooperativas  desse  território  possuem  sede  própria,  localizada  na  zona  rural. Na Serra do Brigadeiro/MG, as sedes da  COOPERDOM  e  da  COOPAF  Muriaé  pertencem  ao  STR,  sendo  feito  um  acordo  de comodato. A COOAFA utiliza o espaço cedido   pela   associação   de   agricultores   familiares  de  Araponga/MG  e  a  COOPAF  Fervedouro    aluga    a    sede    na    qual    a    cooperativa  funciona.  Enquanto  a  sede  de  todas as organizações do Território do Mato Grande/RN  se  localiza  na  zona  rural,  as  quatro  cooperativas  do  Território  da  Serra  do  Brigadeiro/MG  se  localizam  na  zona  urbana e todas funcionam ao lado do STR.</p>
<p>Essa   categoria   demonstra   que   a   organização    do    aparato    administrativo    influencia  na  implementação  da  política  pública     conforme     disponibilidade     de     recursos    e    participação    financeira    no    PNAE.  Esse  fato  contribui  para  ampliar  as  díspares condições de transporte, de acesso a computador com internet e de assistência técnica  encontradas  no  Território  da  Serra  do  Brigadeiro/MG,  quando  comparadas  às condições     do     Território     do     Mato     Grande/RN.   Tais   condições   influenciam   nos     resultados     da     política     pública,     especialmente pelo fato de que o transporte próprio diminui os custos das mercadorias, o  acesso  à  internet  facilita  processos  de  comunicação  e  fluxo  de  informações  e  a  assistência técnica garante fluxo regular de produção.</p>
<p>Categoria 3: Atuação dos diretores</p>
<p>Esta  categoria  revela  a  atuação  dos  diretores         das         organizações         na         implementação   do   PNAE.   A   Tabela   3   apresenta   a   frequência   dos   códigos   da   categoria. Por meio do código “escolaridade e    treinamento”    foi    constado    que,    no    território   potiguar,   uma   diretora   possui ensino    fundamental    incompleto,    uma    diretora      possui      ensino      fundamental      completo,  dois  diretores  têm  ensino  médio  e   dois   diretores   concluíram   o   ensino   superior    (Administração    e    Gestão    de    Cooperativas).  No  território  mineiro,  um  diretor      possui      ensino      fundamental incompleto,  dois  diretores  possuem  ensino  médio   e   uma   diretora   concluiu   ensino   superior em Ciências Contábeis.</p>
<p>
<table-wrap id="gt7">
<alternatives>
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<table id="gt8-526564616c7963">
<tbody>
<tr/>
<tr>
<td>Mato Grande/RN</td>
<td rowspan="6">Associação de Pedregulho</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Riachão</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Rosário</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>Associação de Boqueirão</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPABEV</td>
<td>2</td>
<td>2</td>
<td>1</td>
<td>5</td>
</tr>
<tr>
<td>COOAFES</td>
<td>2</td>
<td>2</td>
<td>1</td>
<td>5</td>
</tr>
<tr>
<td rowspan="4">Serra do Brigadeiro/MG</td>
<td>COOAFA</td>
<td>2</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>4</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPERDOM</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPAF Fervedouro</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>COOPAF Muriaé</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>1</td>
<td>3</td>
</tr>
<tr>
<td>13</td>
<td>12</td>
<td>10</td>
<td>35</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</alternatives>
</table-wrap>
</p>
<p>Os   diretores   que   concluíram   o   Ensino Superior são bacharéis em cursos da área  de  Gestão,  o  que  é  um  fator  positivo  para   o   gerenciamento   das   organizações.   Ademais,  foi  verificado  que  a  maioria  dos  entrevistados    (exceto    as    diretoras    das    Associações  de  Rosário  e  Boqueirão),  já participou       de       algum       tipo       de       treinamento/curso           referente           ao           gerenciamento de cooperativas, promovido por  entidades  especializadas  de  ATER.  A  diretora  da  Associação  de  Boqueirão,  que  nunca          participou          de          algum          treinamento/curso,   relatou   ter   aprendido   tudo no dia a dia de trabalho na associação. Apesar de não ter um conhecimento formal específico       de       gerenciamento       de       cooperativas, existe vontade da entrevistada em  participar  de  reuniões  do  Território  do  Mato  Grande/RN,  dessa  forma,  é  possível  perceber  a  importância  do  conhecimento  tácito,   que   está   presente,   também,   no   cotidiano da implementação do PNAE. Já o entrevistado da COOPABEV relatou como sua    formação    em    Administração    foi    importante      para      a      criação      e      o      desenvolvimento    da    cooperativa,    pela    facilidade  na  utilização  de  ferramentas  de  gestão.</p>
<p>Com  isso,  é  possível  perceber  a  importância tanto do conhecimento formal, quanto  do  conhecimento  informal,  pois  a  entrevistada         que         não         realizou         cursos/treinamentos        encontrou        nos        aprendizados práticos diários uma forma de aprender      aspectos      relacionados      ao      gerenciamento     da     associação     e     da     implementação do PNAE. O conhecimento prévio,   a   necessidade   de   evolução   da   atividade  rural,  por  meio  da  melhoria  de  práticas   e   processos,   e   a   agregação   de   recursos    são    fatores    identificados    na    pesquisa  de  Furlan,  Sachser  e  Morozini  (2018), como antecedentes que influenciam a  capacidade  absortiva  em  agricultores  de  uma    cooperativa,    que    se    refere    ao    reconhecimento, compreensão, assimilação e aplicação do conhecimento. No caso desta pesquisa,    o    conhecimento    tácito    da    agricultura  e  a  organização  em  associação  são antecedentes do acesso ao PNAE.</p>
<p>Essa  categoria  é  formada  também  pelo  código  “papel/atuação”,  que  explicita  como   as   obrigações   dos   diretores   das   associações  e  cooperativas  se  manifestam  para    o    funcionamento    destas    e    na    implementação    do    PNAE.    Além    de    gerenciar  as  associações  e  cooperativas,  exceto  na  Associação  de  Boqueirão,  que  possui  um  gestor  externo,  e  na  COOPAF  Muriaé,   que   possui   funcionários,   outras   atividades  desempenhadas  pelos  diretores  são: (i) controle da entrega da produção dos associados;   (ii)   busca   de   projetos;   (iii)   participação  na  produção;  (iv)  realização  das   atividades   associadas   à   entrega   de   produtos  para  a  alimentação  escolar;  (v)  comercialização      dos      produtos;      (vi)      representação da cooperativa em eventos e reuniões; e (vii) emissão e controle de notas fiscais,   responsabilidades   associadas   ao   pagamento aos agricultores fornecedores.</p>
<p>Quando  questionados  a  respeito  de  suas responsabilidades, em alguns casos, os diretores             demonstraram             estar             sobrecarregados  de  atividades.  Resultado  semelhante  foi  encontrado  no  estudo  de  Santos,   Ferreira   e   Campos   (2019),   que   constataram como a excessiva dependência do vice-presidente em uma das cooperativas estudadas constituiu   uma   barreira   que   prejudicou     o     bom     desempenho     da     organização, assim como também o acesso às  políticas  públicas,  visto  que  os  autores  relataram   a   existência   do   interesse   da   cooperativa  em  fornecer  alimentos  para  o  PNAE,  mas,  dentre  outras  barreiras,  os  agricultores  não  conseguiam  participar  do  mercado institucional.</p>
<p>O   código   “trajetória   individual”   relata o engajamento dos entrevistados com as   organizações   desde   sua   criação.   No   Território do Mato Grande/RN, foi possível notar esse engajamento nas falas de todos os entrevistados: a motivação deles em criar as associações e cooperativas vem da vontade em    unir    a    agricultura    familiar    para    fortalecê-la,  mas  também  de  acreditar  no  potencial      desse      segmento      para      o      desenvolvimento     das     localidades,     a     produção   de   alimentos   e   a   geração   de   trabalho e renda.</p>
<p>A  entrevistada  da  Associação  de  Boqueirão      participou      dos      trabalhos      coletivos  em  troca  do  recurso  financeiro  concedido  para  a  fabricação  de  polpas  de  frutas.      A   diretora   da   Associação   de   Pedregulho participou da reunião no dia 08 de  março  de  2003  (Dia  internacional  da  mulher),     em     que     72     mulheres     do     assentamento  fundaram  a  associação.  Nos  assentamentos rurais de Rosário e Riachão, além   de   participarem   da   criação   das   associações,  os  agricultores  entrevistados  estiveram  no  processo  de  desapropriação  das  terras  em  que  foram  constituídos  os  assentamentos   rurais.   O   presidente   da   COOAFES   participou   do   processo   de   criação da cooperativa no âmbito dos fóruns territoriais.</p>
<p>Além   de   estarem   presentes   no   processo  de  criação  das  organizações,  a  maioria dos entrevistados desempenha suas funções   como   diretores   e   produz   para   comercializar  por  meio  das  organizações,  seja    no    trabalho    individual    em    suas    propriedades, seja no trabalho coletivo com os  demais  agricultores,  como  na  produção  de bolos, na Associação de Pedregulho, e na fabricação    de    polpasde    frutas    na    Associação de Boqueirão.</p>
<p>Dentre  os  entrevistados  do  Território  da  Serra  do  Brigadeiro/MG,  os  agricultores  diretores  da  COOPAF  Muriaé,  da  COOPAF  Fervedouro e da COOAFA afirmaram que já foram  presidentes  de  STR  antes  de  serem  diretores  das  cooperativas,  o  que  reforça  os  resultados desta pesquisa quanto à relação de proximidade    que    as    cooperativas    desse    território  possuem  com  o  STR.  Todos  os  diretores   das   cooperativas   desse   território   também   participaram   desde   as   primeiras   mobilizações   para   a   criação,   inicialmente   como   associações   e,   posteriormente,   na   transição para cooperativas.</p>
<p>Em     todas     as     cooperativas     do     Território   da   Serra   do   Brigadeiro/MG,   o   PNAE foi fator chave para a criação, ou seja, a política pública influenciou desde a gênese das   organizações.   Esse   fato   também   foi   verificado  na  pesquisa  de  Franzoni  e  Silva  (2016),     quando     afirmam     que     várias     cooperativas     do     município     de     Porto     Alegre/RS  não  existiriam  se  não  houvesse  a  alimentação escolar. Considerando o papel da institucionalização      do      PNAE      como      mecanismo    indutor    para    a    criação    e    fortalecimento  de  organizações  formais  da  agricultura   familiar,   é   válido   ressaltar   os   aspectos       relatados       pela       agricultora       entrevistada  da  COOAFA:  quando  sua  filha  nasceu,   em   2010,   ela   procurava   formas   alternativas para complementar a renda de sua família,      que      enfrentava      dificuldades      financeiras  e,  então,  por  intermédio  de  uma  professora  da  rede  estadual,    ficou  sabendo  que    os    agricultores    familiares    podiam    entregar alimentos para a alimentação escolar. Nesse caso, a capacidade de interpretação da agricultora  em  relação  à  política  pública  era  mínima,  mas  a  busca  pelo  conhecimento  de  como   a   política   pública   funciona   tornou   possível acessá-la.</p>
<p>Na  trajetória  dos  informantes,  ficou  claro quem são as lideranças nos municípios nos quais as organizações estão localizadas, e até  mesmo  em  âmbito  territorial,  como  no  caso   do   entrevistado   da   COOAFES,   no   Território    do    Mato    Grande/RN.    Essas    lideranças  são  pessoas  engajadas  em  fazer  com    que    a    participação    no    mercado    institucional funcione, por serem agricultores familiares      (na      maioria      dos      casos),      beneficiários  da  política  pública,  dirigentes  das      organizações      e      ideologicamente      alinhados às causas e à defesa de interesses do segmento.</p>
<p>O Quadro 5 resume a frequência dos códigos   gerados   em   cada   uma   das   três   categorias, sendo elaborado de forma que os casos  que  apresentaram  códigos  com  maior  frequência em cada categoria foram marcados com  “X”.  A  primeira  categoria,  relacionada  ao      plano,      não      apresenta      elementos      significativos  de  distinção entre  os  casos,  sendo   que   o   acesso   ao   PAA   foi   fator   diferencial.       Na       segunda       categoria,       relacionada    à    organização    do    aparato    administrativo,   no   Território   da   Serra   do   Brigadeiro/MG, as cooperativas se destacam, especialmente, pela propriedade de veículos. Na  estrutura,  a  maioria  das  cooperativas  do  Território  do  Mato  Grande/RN  possui  sede  própria,    já    no    Território    da    Serra    do    Brigadeiro/MG,  a  sede  das  cooperativas  é  alugada  ou  funciona  em  espaço  cedido  pelo  STR.   A   ênfase   nas   parceiras   nos   dois   territórios confirma a importância do trabalho desenvolvido   em   colaboração.   Quanto   à   terceira categoria, que diz respeito à atuação dos    diretores,    a    trajetória    não    fornece    elemento    diferencial,    pois    foi    possível    constatar    o    engajamento    de    todos    os    informantes com a agricultura familiar e com as organizações que representam.</p>
<p>
<table-wrap id="gt8">
<alternatives>
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<table id="gt9-526564616c7963">
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<td rowspan="6">Mato Grande/RN</td>
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</p>
<p>A   matriz   intracasos   permitiu   a   comparação   das   3   categorias   temáticas,   favorecendo a compreensão geral de como elas   influenciam   na   implementação.   Os   resultados  apresentados  nessas  categorias  temáticas  revelam  que,  de  maneira  geral,  surgiram      11      códigos,      computando      frequência   total   de   124   aparecimentos,   distribuídos  entre  as  categorias,  conforme  síntese   das   Tabelas   1,   2   e   3,   com   a   frequência    total    de    27,    62    e    35,    respectivamente.         Tais         frequências         explicitam    que    a    segunda    categoria    (Organização do aparato administrativo) é a que   mais   revela   diferenças,   seguida   da   terceira  (Atuação  dos  diretores),  e,  com  maior    homogeneidade,    a    primeira    (O    plano).</p>
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<title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
<p>As     evidências     empíricas     aqui     pautadas são importantes para o estoque de conhecimento   no   domínio   da   CiênciaAdministrativa,     considerando     que     a     implementação  do  PNAE  pela  agricultura  familiar comporta leituras integrativas entre interesses      de      áreas      distintas      do      conhecimento,    a    exemplo:    Economia,    Sociologia,  Agronomia,  Extensão  Rural  e  Nutrição/Saúde  Coletiva.  Além  de  abordar  um   tema   com   apelo   multidisciplinar   e   interdisciplinar,  é,  também,  matéria  com  viés intersetorial em termos de gestão e de políticas  públicas.  As  constatações  deste  artigo   revelam   que   o   PNAE   é   política   pública indutiva em termos de capacidadespolítico-institucionais, com destaque para a influência do instrumento da DAP Jurídica na  formalização  de  organizações  formais  para acesso ao Programa.</p>
<p>No plano local, o PNAE revela que a     capacidade     de     organização     dos     agricultores    familiares    para    acesso    às políticas públicas foi um processo liderado pelos próprios beneficiários, em que pesou o  poder  indutivo  do  Programa.  O  aparato  administrativo       foi       alterado       mais       intensamente   no   Território   da   Serra   do   Brigadeiro/MG  do  que  no  Território  do  Mato      Grande/RN,      em      termos      de      infraestrutura     de     transporte,     recursos     materiais,  humanos,  financeiros,  acesso  a  tecnologias e assistência técnica. A atuação de  dirigentes  na  implementação  evidencia  participação na criação e/ou transformação das       organizações,       inclusive       pelo       engajamento   no   desempenho   de   novas   atribuições   de   funcionamento,   acesso   e   fluxo de informações e execução da política pública.</p>
<p>Há  obstáculos  que  exigem  medidas  administrativas  por  parte  dos  municípios.  No   Território   do   Mato   Grande/RN,   as   prefeituras      precisam,      por      exemplo,      disponibilizar    espaço    para    a    entrega    centralizada  dos  produtos,  sendo  o  poder  público    municipal    o    responsável    pela    distribuição  para  as  escolas.  Tal  medida  melhoraria   o   desempenho   do   Programa   pelas  organizações  do  Território,  uma  vez  que  os  agricultores  relatam  dificuldades  inerentes   ao   aluguel   de   veículos   e   ao   aumento      do      custo      com      entregas      fragmentadas.     Esta     pesquisa     indica,     também,    a    necessidade    de    cursos    e    treinamentos para os agricultores, tanto em gestão,  quanto  em  produção  agropecuária, cuidados    sanitários    e    certificação    de    produtos.     Ademais,     são     necessárias     políticas    públicas    complementares    ao    PNAE,  especialmente  no  que  se  refere  ao  crédito,  ao  financiamento  de  infraestrutura  e aos serviços de ATER.</p>
<p>O  PNAE  tem  alcance  nacional  e  a  obrigatoriedade da compra de alimentos da agricultura  familiar  é  determinada  em  lei.  Todavia,   o   contexto   no   qual   a   política   pública       é       implementada       provoca       singularidades.    Foi    possível    constatar    elementos   nos   quais   os   territórios   se   diferenciam, especialmente na organização do aparato administrativo das organizações. Os elementos de similaridade aparecem na atuação   dos   atores   e   organizações   na   governança local, o que abre espaço para a indicação   de   pesquisas   futuras,   com   a   ampliação do campo de estudo.  Mostram-se    oportunas,    por    exemplo,    pesquisas    envolvendo  o  papel  de  burocratas  de  nível  de  rua  na  implementação  do  PNAE  em  municípios  e  unidades  da  Federação,  com  alcances   e   complexidades   ampliados.   A   ampliação  do  objeto  e  de  informantes  tem  potencial  para  trazer  novos  elementos  à  interlocução  do  PNAE  com  a  agricultura  familiar em diferentes unidades e territórios da      Federação,      inclusive      sob      viés      quantitativo.</p>
<p>É  relevante  destacar  a  necessidade  de   abordagens   particulares,   tanto   entre   municípios    e    territórios,    quanto    entre    governos estaduais. Ainda que sob o regime de  Lei  Federal,  a  Lei  nº  11.947/2009,  e  de  normativos do FNDE, a implementação do PNAE    ganha,    nos    municípios    e    nas    unidades      da      Federação,      dinâmicas      específicas, como a definição de cardápios, o alcance quanto à diversidade de produtos a  serem  adquiridos,  o  volume  de  compras  (no mínimo 30%, podendo alcançar 100%) e    o    próprio    formato    de    elaboração,    execução, avaliação e controle da chamada pública.    Além    disso,    são    oportunas    pesquisas   no   âmbito   dos   Conselhos   de Alimentação  Escolar  (CAE),  notadamente  para     qualificar     sua     composição     e     aperfeiçoar  o  debate  em  torno  do  tema  de  compras  da  agricultura  familiar  em  tais  órgãos de controle social.</p>
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<title>REFERÊNCIAS</title>
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