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“Cadê o tatuador?” Construção da identidade profissional e estigma de mulheres na profissão tatuadora
Gestão & Regionalidade, vol. 38, núm. 114, pp. 41-62, 2022
Universidade Municipal de São Caetano do Sul

Artigos



Recepción: 24 Noviembre 2020

Aprobación: 19 Noviembre 2021

1 INTRODUÇÃO

É difícil definir, ao certo, quando a prática da tatuagem teve início; porém, no final do século XX, a tatuagem adquiriu uma nova forma de reconhecimento e prática social, em que foi deixada de lado a ideia de que a tatuagem estava associada apenas à marginalidade, rebeldia e contestação, e então passou a representar um processo de ressignificação para a pessoa (FARLEY; VAN HOOVER; RADEMEYER, 2019; THOMPSON, 2019a) com base, muitas vezes, naapropriação mercantil (SCHLÖSSERet al., 2020). Nessa perspectiva, a obtenção de uma tatuagem faz parte do processo de transformação de identidade (LANE, 2014).

Evidências empíricas sugerem que as tatuagens não estão mais associadas a grupos antissociais ou à marginalização. No entanto, isso não significa que a arte corporal não tenha nenhuma concepção ou associação negativa, sobretudo para mulheres (SCHLÖSSERet al., 2020; SWAMI; FURNHAM, 2007). A maior regulamentação da atividade e o aumento na popularidade das tatuagens contribuiu para mitigar algumas dessas avaliações culturais negativas (SIMPSON; PULLEN, 2018).

Mesmo com mudanças na percepção das tatuagens, é notório que, quando os homens se tatuam, a prática muitas vezes fortalece a sua masculinidade; por outro lado, nas mulheres, a prática pode diminuir a sua identidade feminina, mas essa ameaça pode ser contornada quando escolhem tatuagens consideradas femininas, que são mais delicadas, discretas e pequenas(KLUGER, 2015; THOMPSON, 2015; 2019b). A identidade com o trabalho tem mais particularidades do que a simples realização da atividade; além disso, a identidade individual no trabalho considera significativa a influência dos grupos sociais sobre a construção da identidade (PRATT; ROCKMANN; KAUFMANN, 2006).Nesse sentido, examinar o impacto do estigma na construção da identidade profissional das tatuadoras é relevante para esse campo do conhecimento, uma vez que o processo de construção da identidade profissional nas carreiras contemporâneas pode ser diferente, ou pelo menos alterado, principalmente em membros de grupos considerados estigmatizados(SLAY; SMITH, 2011), como o das tatuadoras.

Profissionais estigmatizados acreditam que as percepções dos clientes sobre eles desvalorizam suas profissões e isso fica ainda mais evidente no contexto das tatuadoras, uma vez que a tatuagem se encontra, historicamente, associada às culturas fortemente masculinizadas (VOUGHet al., 2012; THOMPSON, 2015). Nesses ambientes, o assédio a mulheres é relativamente comum, sendo visto como forma de testar a sua resiliência em um ambiente hostil e masculinizado(OLIVEIRA; MOURA, 2021). Ademais, constata-se, nos últimos anos, que as mulheres estão se tatuando mais do que os homens (FARLEY et al., 2019).

No modelo de Slay e Smith (2011), a construção da identidade profissional de grupos estigmatizados gera a necessidade de tarefas de redefinição, ao invés de adaptação, como ocorre nos demais grupos. Nesse sentido, esse modelo analisa quatro perspectivas: (i) identificaçãodas influências iniciais que fizeram o sujeito iniciar na profissão; (ii) vivênciasprofissionais referentes ao estigma e à diferenciação daquele indivíduo como um “estranho no ninho”; (iii) repertórios que as pessoas podem utilizar para ressignificar as suas experiências; e (iv) tarefas de redefinição, especificamente com a redefinição de si mesmo, da profissão e do estigma.

Diante dessas abordagens, surge o seguinte questionamento para o desenvolvimento desta pesquisa: como o estigma de gênero interfere na construção da identidade profissional de tatuadoras? Sendo assim, delimitou-se como objetivo investigar como o estigma de gênero interfere na construção da identidade profissional de tatuadoras, baseado no modelo de Slay e Smith (2011).

O campo de investigações científicas sobre identidade profissional ainda é escasso e difícil de mapear. Pesquisas sugerem que, não apenas os indivíduos estão inclinados a escolher ocupações que correspondam as suas características inatas, mas que os ambientes ocupacionais também podem motivar a mudança em características pessoais e de identidade (WILLE; DE FRUYT, 2014). Portanto, este estudo fornece elementos para pesquisas de carreiras contemporâneas. Em relação à segregação sexual, é notório que o gênero desempenha um papel importante na subcultura com representação na comunidade de tatuagens, já que esta tem sido historicamente associada a subculturas masculinas e artistas homens (THOMPSON, 2019b).

Esta pesquisa se justifica porque, muitas vezes, os papéis envolvidos dentro de uma profissão trazem prestígio, porém, quando pessoas estigmatizadas desempenham esses papéis, recebem pouco reconhecimento social, uma vez que as suas identidades estão associadas a práticas negativas (SLAY; SMITH, 2011). Em relação a mulheres e emprego em campos não tradicionais, de acordo com as ideias de Thompson (2015), ao comparar a indústria da tatuagem com outras atividades qualificadas, é possívelencontrar semelhanças e diferenças significativas para as mulheres entenderem quando decidem ingressar na profissão de tatuadora. Este estudo busca ampliar entendimentos sobrecomo acontece a ressignificação da identidade profissional de grupos estigmatizados, permitindo trazer novas perspectivas sobre a tatuagem. Isso impacta no campo do conhecimento científico dos estudos sobre gênero, sobretudo das barreiras enfrentadas pelas mulheres em ambientes predominantemente masculinos.

Além dessa introdução, este artigo ainda conta com mais cinco seções. Na segunda seção, são feitas explanações sobremulheres, tatuagens e estigmas atrelados a essa prática. Na terceira seção, é apresentado um embasamento teórico sobre identidade profissional e seus estigmas, desencadeando no modelo utilizado nesta pesquisa. Na quarta seção, são abordados os procedimentos metodológicos. A seguir, são apresentados e analisados os resultados da pesquisa. Por fim, na sexta e últimaseção, destacam-se as considerações finaisdo estudo com as contribuições da pesquisa e inspirações para futuros estudos sobre o tema.

2 MULHERES, TATUAGEM E SEUS ESTIGMAS

Cabe mencionar que, apesar das conquistas femininas advindas da luta constante das mulheres em busca da tão sonhada inserção e igualdade, a divisão sexual do trabalho ainda gera discriminação, distinção e preconceito para que elas possam se inserir no mercado de trabalho (SIQUEIRA; SAMPARO, 2017). Além disso, outro aspecto que pode dificultar o acesso das mulheres no mercado do trabalho é a conciliação entre vida familiar e vida profissional, em que a mulher geralmente assume uma dupla ou tripla jornada de trabalho, tendo que conciliar o trabalho dentro e fora de casa, sobretudo precisando lidar com os serviços domésticos e o cuidado com os filhos (CAPPELLE; MELO, 2010).

Historicamente, a profissão de tatuador era associada às subculturas masculinas (militares, motociclistas) e operários da construção civil. A partir da década de 1970 até a década de 1990, ocorreu uma ressignificação da tatuagem, levando a arte da tatuagem a novos grupos demográficos, como mulheres e classe média (KLUGER, 2015; THOMPSON, 2019a). Mesmo com o surgimento da máquina elétrica de tatuagem e com o conhecimento de normas de biossegurança, a participação de mulheres como tatuadoras ainda é vista como uma “novidade” nesse mercado, e isto faz com que elas lutem por reconhecimento e espaço (OLIVEIRA; MOURA, 2021).

A aparência do corpo tem sido usada como uma característica para discernir o caráter do indivíduo (ADAMS, 2012). A tatuagem é carregada de significados culturais e pessoais, mas, apesar desse tipo de arte estar cada vez mais em alta, indivíduos com tatuagens podem experimentar estigma, estereótipos e discriminação em suas vidas pessoais e profissionais (DANN; CALLAGHAN, 2019;DELUCA; GRISCI; LAZZAROTTO, 2018; FARLEY et al.,2019), uma vez que, muitas vezes, a tatuagem pode ser vista como um sinal de comportamento de risco em adultos (SCHLÖSSERet al., 2020).

Mulheres tatuadas foram classificadas como menos atraentes fisicamente, sexualmente promíscuas e mais propícias ao abuso de álcool quando comparada com as mulheres não tatuadas – com avaliações mais negativas conforme o número de tatuagens aumentava (BROUSSARD; HARTON, 2017; SWAMI; FURNHAM, 2007). Além disso, para essas mulheres, as práticas de resistência e conformidade são constituídas em contextos sociais, culturais e históricos que produzem valores normativos em torno de tatuagens “boas” e “más”. Isso significa dizer que quando as tatuagens são contextualizadas por meio de significados, tornam-se mais aceitáveis, especialmente quando se trata de mulheres (DANN; CALLAGHAN, 2019). Por outro lado, Schlösser et al. (2020), ao analisarem uma amostra brasileira de 316 mulheres, em que 50% tinham tatuagem, constataram que as mulheres tatuadas se sentem melhores com as suas aparências, porém ainda há uma associação negativa entre a prática de se tatuar e comportamentos de risco, como consumo de drogas.

Segundo Kluger (2015), a tatuagem sempre esteve mais ligada ao público masculino. O número de mulheres tatuadas é menor que a dos homens em muitos estudos, especialmente nas faixas etárias mais velhas. Porém, a partir do início da década de 1990, estimou-se que metade das tatuagens já era vinculada às mulheres. Broussard e Harton (2017) acrescentam que, referente ao mercado de trabalho, a maioria dos gerentes declarouexplicitamente que não contrataria um candidato visivelmente tatuado, isso porque poderia prejudicar a imagem da empresa, causando antipatia pessoal por tatuagens. Em relação aos potenciais clientes, estes também tendem a perceber os funcionários tatuados como menos capazes.

De acordo com a perspectiva de Adams (2012), a indústria da tatuagem é um tipo de "dirty work", pois permite que o tatuador seja estigmatizado ao longo de várias configurações do que seria um trabalho com características "sujas", fazendo-se necessário que os profissionais reformulem ativamente e legitimem suas atividades. Além disso, embora nas profissões regulamentadas a discriminação sexual seja combatida, o mesmo não acontece na indústria da tatuagem (THOMPSON, 2015). DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016) mencionam que, a partir da década de 2000, houve um boom que ocasionou um aumento da prática da tatuagem, e isto contribuiu para o aumento da regulamentaçãonessa área, principalmente nas ferramentas e normas de trabalho.

O ato de se tornar "fortemente tatuado", com sua associação histórica com subculturas desviantes, continuou a manter um estigma social e a evocar sanções negativas dos observadores. Isso se dá para as mulheres que também devem lidar com as normas de gênero nessa subcultura, que têm sido associadas a outros grupos masculinos (THOMPSON, 2019a). As tatuagens e as práticas de tatuagem, ligadas a valores culturais dentro da indústria da tatuagem, podem ser vistas como representativas de um desejo de autenticidade e de representar a “si mesmo”, ao mesmo tempo em que capturam algumas características, como criatividade, rebeldia e desafio (SIMPSON; PULLEN, 2018).

Diversas pesquisas científicas sobre estigma foram realizadas por psicólogos sociais, que usaram os insights da abordagem social cognitiva, com o intuito de compreender como as pessoas constroem categorias e as ligam às crenças estereotipadas (LINK; PHELAN, 2001). Na perspectiva de Goffman (1988, p.11), estigma pode ser compreendido como sinais corporais com os quais se procura evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem o apresenta. Link e Phelan (2001) destacam que pessoas são estigmatizadas quando rotuladas, separadas e ligadas a características indesejáveis, levando-as à perda de status.

A maior parte das definições acerca do estigma tem em comum a suposição de que as pessoas estigmatizadas carregam uma característica ou atributo que as diferenciam das demais, tornando-as mais desvalorizadas pelos outros. Tais marcas podem ser controladas ou incontroladas, visíveis ou invisíveis, ligadas à aparência, comportamento ou membros de um grupo específico. É importante salientar que o estigma não está na pessoa, mas, sim, em um contexto social (MAJOR; O’BRIEN, 2005).

Os estigmas físicos são aqueles com os quais os indivíduos nascem; enquanto os estigmas de características comportamentais são de responsabilidade e escolha própria, influenciando na percepção dos outros acerca das pessoas estigmatizadas. Por exemplo, um indivíduo com característica estigmatizada, como a tatuagem, pode não receber a mesma empatia daqueles que sofrem com alguma deficiência física (LARSEN; PATTERSON; MARKHAM, 2014).Tatuar-se vai em direção oposta à efemeridade no contexto atual da sociedade líquida, configurando-se como uma espécie de expressão e resistência, já que a tatuagem é uma marca que fica permanente nas pessoas(DELUCA; GRISCI; LAZZAROTTO, 2018).

Diante do apresentado, é possível perceber que, apesar da ressignificação que a tatuagem vem tendo nos últimos anos, ela ainda está carregada de estigmas para aqueles que pertencem a essa subcultura.Destaca-se, ainda, conceitos e abordagens sobre identidade profissional e estigma.

3 IDENTIDADE PROFISSIONAL E ESTIGMA

A construção da identidade, incluindo a identidade profissional, é uma construção narrativa, em que se conta para si e para os outros sobre quem se é, sendo revisadas ao longo do tempo, sobretudo em resposta às forças internas e externas (DELUCA; ROCHA-DE-OLIVEIRA, 2016; BROWN, 2014). A identidade profissional é um fenômeno complexo, que contempla a conscientização e a conexão com as habilidades, qualidades, comportamentos, valores e padrões da profissão escolhida, assim como o entendimento do “eu” profissional comrelação ao “eu” geral mais amplo (JACKSON, 2017).

De acordo com Kira e Balkin (2014), a identidade é capaz de influenciar o ambiente de trabalho, como uma falta de alinhamento entre a identidade profissional preferida e a situação de trabalho podeminfluenciar tentativas de modificar o ambiente. As formas de identidade de trabalho se associam às transições de papéis,principalmentequando os profissionais mudam de local de trabalho ou papel (IBARRA; BARBULESCU, 2010).Rossi e Hunger (2020) afirmam que a compreensão da construção de identidades sociais é uma condição sine qua nonpara o estudo da identidade profissional. Uma identidade estigmatizada traz, como efeito, o poder de marginalizar um indivíduo, resultando na sua desqualificação diante da aceitação plena pela sociedade. Indivíduos e grupos estigmatizados são frequentemente capazes de cultivar concepções positivas alternativas de si, apresentando autoestima e táticas de gestão de impressões (TOYOKI; BROWN, 2013).

Segundo Rossitet al. (2018), as experiências vivenciadas pelo profissional fazem com que os seus conhecimentos sejam internalizados, de modo a compreender e reorganizar saberes. Slay e Smith (2011) mencionam que é necessária uma redefinição da identidade profissional, em vez de adaptação; tornando-se uma tarefa central para os membros de grupos culturais estigmatizados. Em seus estudos, os autores constataram que a presença do estigma e o fato de ser outsider também influenciam na formação da identidade profissional. Dessa forma, quando membros de uma minoria estigmatizada estão em uma sociedade que os percebem como pessoas de capacidades e potencialidades limitadas, esses indivíduos tendem a ter uma visão restrita de suas possiblidades profissionais.

O modelo de construção da identidade profissional de Slay e Smith (2011) apresenta como as experiências profissionais e os valores culturais e familiares ajudam a construir o repertório de “eu’s” profissionais possíveis. Em seguida, acontece a redefinição da tarefa central para membros de grupos culturais estigmatizados, ou seja, a redefinição da retórica ocupacional, o estigma e o “eu” (FIGURA 1). Nesse sentido, conforme mencionado por Rossi e Hunger (2020), ocorre uma tensão quando não há uma confluência entre o que os outros desejam que o sujeito seja e o desejo do sujeito em assumir determinadas identidades, ocorrendo, portanto, a sensação de ser um estranho no ninho.




Em seguida, o modelo apresenta o momento de uma redefinição no lugar do processo de adaptação na profissão. Nesse contexto, um antecedente importante da redefinição é a experiência de ser estigmatizado ou ser pertencente a um grupo culturalmente estigmatizado. Diante disso, torna-se importante criar retóricas profissionais, enxergar um novo valor profissional na identidade estigmatizada, e ainda encontrar equilíbrio entre a identidade profissional e a estigmatizada (IBARRA, 1999; SLAY; SMITH, 2011).

A primeira tarefa de redefinição, mencionada por Slay e Smith (2011), diz respeito ao repertório ocupacional ou profissional e como ele é importante para o entendimento da construção da identidade profissional, pois permite que os profissionais expliquem a importância de seu trabalho para outros. As representações coletivas são crenças compartilhadas sobre os estereótipos de um grupo. Nesse contexto, os indivíduos passam a tentar dissipar estereótipos e mostrar às pessoas que estão fora do grupo estigmatizado um lado antes não visto por eles.

A tarefa de redefinição do estigma tem conotações tanto positivas quanto negativas. Como a maioria dos indivíduos é fortemente ciente dos estereótipos aos quais são associados, passam a redefinir o estigma de forma positiva, muitas vezes vendo seu grupo e a respectiva identidade cultural como uma perspectiva diferenciada e única (SLAY; SMITH, 2011).

Por fim, a tarefa de definir a si próprio diz respeito às formas de alcançar o equilíbrio entre suas identidades cultural e profissional, discutindo a necessidade de qual deve vir em primeiro lugar. Os indivíduos que escolhem prioritariamente a sua identidade profissional podem experimentar um sentimento de solidão – por meio do abandono do seu grupo interno e o externo. No entanto, na maioria dos casos, é necessário que haja uma redefinição da identidade profissional e pessoal (SLAY; SMITH, 2011).

A identidade profissional é uma construção narrativa em constante reformulação. Esse processo envolve diversos estágios, que vão desde o aprendizado das tarefas da função até a interação com seus pares. Para grupos estigmatizados, esse processo é particularmente distinto por serem percebidos como outsiders, assim como acontece com mulheres que desenvolvem trabalhos com tatuagens. Com base no exposto e no modelo apresentado, levando-se em conta o arcabouço teórico de Slay e Smith (2011), mostra-se, a seguir, os procedimentos metodológicos adotados para a análise dos resultados desta pesquisa, com o intuito de ampliar discussões e reflexões sobre como o estigma de gênero interfere na construção da identidade profissional de tatuadoras.

4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Esta pesquisa é caracterizada por sua abordagem qualitativa, pois busca informações aprofundadasquanto à identidade profissional e estigma de tatuadoras (COLLIS; HUSSEY, 2005). Trata-se de uma pesquisa de natureza descritiva, já que busca mensurar as características descritas nas questões propostas no roteiro adotado. Foram realizadasentrevistas semiestruturadas, pois esse método permite que os pesquisadores fiquem livres para exercitar suas iniciativas, e isto possibilita o surgimento de informações inesperadas e esclarecedoras, que trazem reflexões e achados sobre o fenômeno investigado.

O universo da pesquisa é composto por mulheres que, de forma profissional, atuam como tatuadoras. A escolha das participantes se deu por meio da amostra de conveniência, já que, nesse método, os participantes são escolhidos por estarem mais disponíveis e acessíveis aos pesquisadores(COLLIS; HUSSEY, 2005). As participantes desta pesquisa foram identificadas sob o título de “Tatuadora”, seguido pela numeração equivalente à ordem em que ocorreram as entrevistas, que se encontra compreendida entre os números 1 e 15. As entrevistas tiveram como tempo médio de duração 24 minutos e 13 segundos, com desvio-padrão de 4,58. A partir disso, a Tabela 1 apresenta uma visão geral do perfil das entrevistadas, levando em consideração a idade, o estado civil, a formação acadêmica e o tempo de atuação como tatuadora.




Como é possível observar, as tatuadoras têm idade entre 19 e 39 anos, trabalham com tatuagem entre 5 meses e 5 anos, majoritariamente solteiras; e seis delas não iniciaram ou concluíram nenhum curso de graduação. A Tatuadora 1 estava concluindo o seu doutorado em biologia vegetal e trabalhava com desenho técnico em botânica. Vale observar que, com exceção da formação em educação física, segundo as entrevistadas, todas as formações acadêmicas citadas estavam ligadas ao desenho técnico.

Para a realização das entrevistas, adotou-se o modelo de Slay e Smith (2011), que buscaavaliar a construção da identidade de grupos estigmatizados. Para tanto, são analisadas as influências iniciais e as experiências profissionais vividas; em seguida, é visto os repertórios disponíveis para criar ou redefinir a identidade profissional; e, por fim, são avaliadas as tarefas de redefinição utilizadas a nível individual, profissional e do estigma.

A análise foi feita por meio de análise de conteúdo (BARDIN, 2011), por meio de três fases: (1) pré-análise, faz-se a organização e sistematização dos materiais disponíveis para a pesquisa e que colaborem com a interpretação final; (2) exploração do material, procura-se compreender o significado dado pelos envolvidos no estudo ao corpus da pesquisa; e (3) tratamento dos resultados, inferência e interpretação, denominada de categorização. Diante disso, por meio da análise do modelo de Slay e Smith (2011), foram estabelecidas quatro categorias de análise: influências iniciais, experiências de trabalho, possíveis “eu’s” profissionais, e as tarefas de redefinição, que inclui a redefinição do estigma, redefinição de si próprio e redefinição da profissão.

Para o tratamento dos dados, adotou-se o software Atlas.ti (versão 7) por ser uma ferramenta que auxilia na análise qualitativa, codificando os dados, apontando tendências e padrões e otimizando o tempo destinado à análise dos resultados. Assim, as categorias de análise e as unidades de contexto estão relacionadas a elas por meio de setas em um par ordenado {x,y}, em que cada código é indicado com um par ordenado de dois números, no qual o primeiro representa a frequência com que o código aparece, ou seja, o número de citações ao qual o código foi relacionado ao outro; e o segundo número representa a quantidade de unidades de contexto que ele está associado.

5 ANÁLISEE DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

5.1 O processo de escolha profissional: tornando-se tatuadora

Inicialmente, foram identificadas as influências iniciais das tatuadoras, que perpassam valores familiares e experiências de vida. Essas influências contribuem para a criação dos reportórios de si, com habilidades, atitudes e comportamentos necessários para serem bem-sucedidas em uma carreira (BROWN, 2014) (FIGURA 2).




As influências iniciais surgiram dos familiares das entrevistadas, assim como dos valores culturais que elas tiveram ao iniciarem na profissão. O fator mais ressaltado pelas entrevistadas, que as fizeram decidir aprender o ofício, foi por “influência de amigos próximos”, e até mesmo familiares, por exemplo, irmão e marido que as incentivaram a iniciar na profissão, e este resultado foi encontrado de forma semelhante na pesquisa de DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016), no qual o tatuador analisado começou na arte dodesenho durante a sua infância por influência de sua avó.

Além disso, três delas mencionaram que têm um “histórico familiar com tatuagem” e que, por isso, não foi um problema o ato de tomarem a decisão de iniciar na profissão. Esse achado também pode ser visto como um facilitador à entrada das mulheres na profissão, tendo em vista que dentro de seus valores familiares a tatuagem não tem uma conotação marginalizada. A Tatuadora 11 trabalha em um estúdio junto com os seus irmãos, o que pode ter facilitado a sua inserção e o próprio exercício da profissão. Ademais, onze das quinze entrevistadas mencionaram que outro fator que facilitou a inserção delas foi o fato de que elas já tinham “contato prévio com ilustração” antes da profissão de tatuadora; ou seja, assim como no estudo de DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016), as participantes já tinham contato com a ilustração antes de se tornarem tatuadoras.

Outro motivo importante de influência inicial e que traz uma conotação negativa para o início das atividades, relaciona-se aos valores culturais atrelados à tatuagem e à profissão. O primeiro mais mencionado foi a “marginalização da profissão”. Para as entrevistadas, esta marginalização estava desde motivos da tatuagem ser vista como “algo secundário” (Tatuadora 3), mas, principalmente, por falta de controle do exercício da profissão. Essa falta de controle é relatada por diversos estudos sobre a prática de tatuagem, incluindo o estudo de DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016).

Constata-se ainda que: “hoje, eles oferecem vários cursos no Brasil todo de tatuagem. Fora do Brasil, você precisa comprovar que fez curso, e, se não me engano, aqui em Fortaleza você precisa de um curso de biossegurança” (Tatuadora 1).Esse achado contradiz a “falta de uniformidade no ensino da tatuagem”. Por outro lado, a tatuadora 6 destaca que: “têm algumas pessoas que eu conheço que estão começando a tatuar, ficaram com vontade, pessoas que já são artistas, ilustradores, e começaram a tatuar. Só que, é uma galera, que, pelo que eu observo, não tem esse mesmo senso de responsabilidade que precisa ter, sabe?” Diferentemente do apresentado por DeLuca e Rocha-de-Oliveira, em 2016, mesmo não existindo cursos universitários para tatuagem, é possível realizar cursos profissionalizantes direcionados para a profissão de tatuador.

Outro fator que reforça a marginalização da profissão seria a “facilidade no acesso à profissão”. Esse problema é relatado pela tatuadora a seguir: “então, hoje em dia, por ela não ser regulamentada, muitas pessoas podem entrar nesse tipo de trabalho, o grande problema disso é gente que começa a tatuar e não tem noção de biossegurança, não tem noção de contaminação, processo inflamatório” (Tatuadora 1). Todas essas características apresentadas pelas tatuadoras reforçam a ideia trazida por Adams (2012), que compara o trabalho com tatuagem a um tipo de "dirty work", já que a falta de regulamentação pode ocasionar problemas de biossegurança e contaminação, práticaque, segundo Oliveira e Moura (2021), já tem sido observada tanto por tatuadores quanto por clientes.

Após identificadas as influências iniciais, esta pesquisa buscou compreender quais habilidades, atitudes e comportamentos eram necessários para uma carreira de tatuadora bem-sucedida (SLAY; SMITH, 2011). Nas experiências profissionais, para uma melhor compreensão e visualização, os resultados encontrados foram divididos em duas figuras. A Figura 3 ligada a questões mais técnicas de entrada na profissão e motivos relacionados; e a Figura 4 relacionada com as dificuldades e estigmas enfrentados pelas tatuadoras.




Em relação à forma de inserção no ofício, onze tatuadoras relataram que tiveram seu “início como aprendiz”, tanto sendo convidadas por donos de estúdios como por interesse próprio de ir em busca de um estúdio que as aceitasse como aprendizes. As tatuadoras que se consideram autodidatas ressaltaram que: “aprendizagem por meio da pele de amigos e familiares” foi a forma que elas aprenderam a realizar a tatuagem, o achado também foi relatado por DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016).

Para compreender quais habilidades são necessárias para se tornar profissionaisda tatuagem, as entrevistadas mencionaram três: Noções de desenho, Noções de biossegurança e ética. Em relação às noçõesde biossegurança, a Tatuadora 1 afirmou que: “os materiais são descartáveis, tem gente que começa e usa a mesma agulha em várias pessoas. E isso é um problema, aí, tira a credibilidade de quem tem a noção, porque não tem quem fiscalize. Tem a vigilância sanitária, mas não tem muito... Por isso que a tatuagem é vista como marginalizada, porque não existe muito esse controle”. Essa realidade confirma o relatado por Voughet al. (2012), pois o estigma da profissão é, muitas vezes, desencadeado por estúdios de tatuagens que não seguem as normas de regulamentação, desencadeando em seus clientesa desvalorização do trabalho. Apesar de que, conforme mencionado por DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016), já existe, em parte, uma normatização da profissão.

Por último, foi mencionada a questão da “ética” na profissão, principalmente no que diz respeito a trabalhar com a pele de outras pessoas. A tatuadora 10 afirmou que: “acho que eu diria que o principal seria ter ética. Porque você está lidando com a pele, uma coisa que vai ficar para sempre, né, com a pessoa, então acho que é o principal, ter ética, e acho que dedicação mesmo”.

A “possibilidade de ter um trabalho flexível” foi evidenciada por cinco tatuadoras como um dos atrativos da profissão. A Tatuadora 5 mencionou: “... é um tipo de trabalho, uma profissão que me permite ser mãe, que me permite atuar em outras áreas que não só a tatuagem, por conta do agendamento, por conta da disponibilidade de horário, né. A carga horária é você quem faz”. Esse depoimento traz à tona a questão do trabalho e da maternidade, tendo em vista que, para esta tatuadora, o fato de ter horários flexíveis fez com que ela optasse por deixar o trabalho com moda, sua formação acadêmica; e passasse a se dedicar a tatuagem. Esse achado pode estar alinhado ao que Cappelle e Melo (2010) afirmam, pois o trabalho com tatuagem fez com que a tatuadora pudesse alinhar a sua dupla jornada, conciliando o trabalho com a sua família, sobretudo no seu papel de mãe.

Outra vantagem percebida pelas entrevistadas no trabalho com tatuagem é a “possibilidade de viajar para outros locais para tatuar”. A Tatuadora 1 mencionou: “eu comecei há oito meses, com três meses eu já tinha bastante público, já estava sendo reconhecida, as pessoas vinham falar comigo na rua. É estranho para mim. Aí vim para cá, vou tatuar em São Paulo agora. O reconhecimento está sendo incrível”. Diante disso, também é possível afirmar que a profissão permite uma rápida ascensão, já que com três meses ela já tinha “bastante público”, tendo um trabalho reconhecido, e isto corrobora com o que foi enfatizado por DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016).

Analisaram-se, ainda, as experiências vividas pelas entrevistadas que ilustrassem a existência do estigma na profissão que influenciam na definição de uma identidade estigmatizada (SLAY; SMITH, 2011), conforme observa-se pela Figura 4.




Em relação às experiências profissionais ligadas ao estigma, ressaltam-se as “conotações negativas” do exercício da profissão e das pessoas tatuadas. As entrevistadas afirmam que, apesar de haver uma evolução em relação à visão da sociedade, a “segregação da tatuagem” ainda continua com focos específicos, como no depoimento: “e ainda tem, sim, um preconceito da polícia com quem é tatuado, dependendo do lugar que você é tatuado... Porque tatuagem na mão, no rosto, no pescoço... Os locais da tatuagem meio quesegregam você na sociedade, então, assim, não deixou de ter preconceito, porque agora o preconceito só mudou de aspecto” (Tatuadora 5). Isso confirma o apresentado por Link e Phelan (2001), pois essas pessoas são rotuladas e discriminadas por conta da região do corpo na qual decidem se tatuar.

Essa “segregação da tatuagem” ainda comprova o que foi abordado por Schlösseret al. (2020), pois a tatuagem pode ser vistacomo sinal de comportamento de risco em adultos. Além disso, está alinhado com a ideia de Toyoki e Brown (2013), uma vez que o estigma atrelado à tatuagem marginaliza os seus adeptos, e isto resulta na desqualificação dessa pessoa diante da aceitação plena pela sociedade. Outrossim, também vai de acordo com as ideias de Adams (2012), pois ele afirma que os tatuados acabam tendo o seu caráter ligado à aparência do corpo.

Duas entrevistadas ainda relataram a “sexualização da profissão”, assim como é possível perceber no depoimento: “mulher sofre bastante com homem dando em cima direto, homem oferecendo para, na hora do serviço, em vez da mulher tatuar, ela sair com ele, uma coisa bem punk,assim” (Tatuadora 4). Isso pode acontecer, pois, segundo Thompson (2015), o fato de otrabalho com tatuagem não ser uma profissão totalmente regulamentada faz com que a discriminação sexual ocorra de forma mais explícita.

No que se refere às dificuldades, sete entrevistadas relataram “dificuldade na inserção”, pois existem obstáculos para entrada no mercado de tatuagem, como relatado pela Tatuadora 9: “só que é uma área um pouco difícil, nem todo mundo se prontifica a ensinar...”. Esse preconceito na inserção no mercado de trabalho, conforme evidenciam Siqueira e Samparo (2017), pode ser visto não somente por tatuadoras, mas por todas as mulheres, e isto se configura como uma violência simbólica, reflexo da divisão sexual do trabalho.

Quanto às “dificuldades de vender o trabalho”, as tatuadoras ressaltam as dificuldades da instabilidade da profissão por ser “um mercado que oscila muito” e “um produto que não é uma necessidade” (Tatuadora 15). Essa dificuldade é evidenciada no empreendedorismo do setor de serviços.Duas das entrevistadas relataram uma dificuldade inicial no manuseio da máquina, por nervosismo e falta de prática.

Outra parte das experiências profissionais que correspondem à estigmatização seria o fato de ser um outsider, não pertencente ao grupo, em relação à “visão machista do trabalho”, que diz respeito aos estereótipos de gênero na profissão. A Tatuadora 15 afirmou que: “95% dos tatuadores são homens, é difícil as pessoas confiarem na mulher, entendeu? É bem difícil”. Já a Tatuadora 5 enfatizou: “mas a gente ainda sofre preconceito, ainda existe preconceito, um machismo em relação à tatuagem. Por exemplo, sempre que eu saio com meu marido, sempre perguntam se ele é o tatuador, e não eu”. Isso vai em direção ao que Slay e Smith (2011) afirmam, uma vez que a sociedade tende a ver as tatuadoras como pessoas de capacidades e potencialidades limitadas; contudo, diferentemente do que os autores mencionam, isso não pareceu ser um fator que as façam se sentirem limitadas de suas capacidades e possiblidades profissionais.

Ainda foram identificados 10 depoimentos em relação ao “assédio na profissão”, destacando a escolha do público feminino de se tatuar apenas com mulheres: “não, tem muito homem que tatua mulher, mas muita mulher [se] tatua com mulher, porque tem muito homem que é abusivo. Teve esse caso de Belo Horizonte...” (Tatuadora 1). Já a Tatuadora 5 mostra o assédio vindo das duas partes: “porque a gente vive vendo casos de assédio, né?Tanto as tatuadoras sofriam assédio no estúdio quanto os tatuadores assediavam muito as clientes”. Nesse sentido, a Tatuadora 14 defende a regulamentação da profissão, inclusive por acreditar que faria diferença para a questão do assédio: “melhoraria, principalmente, para a gente. Lógico que médico é uma profissão regulamentada e têm médicos que abusam, isso nunca vai deixar de existir. Tem aquele tatuador que abusava das mulheres... Aquilo é horrível”. Esse fato vai ao encontro ao que preconiza Thompson (2015), pois o assédioé decorrente, muitas vezes, do ambiente hostil e masculino vinculado aos estúdios de tatuagem.

No que diz respeito à “marginalização por ser mulher”, a forma diferenciada como as mulheres são tratadas na profissão, a Tatuadora 13 se sentiu diferenciada ao ouvir a frase “mas você tatua aqui?”, semelhantemente, a Tatuadora 15 ouviu “é tu mesmo que vai tatuar?”, além de ressaltar que “clientes de porta”, expressão utilizada para clientes que chegam nos estúdios sem contato prévio, se mostram “mais tendenciosos a escolher o tatuador homem. Essas afirmativas confirmam que essas mulheres vivenciaram uma construção de identidade profissional sob a condição do estigma e que sofrem com as questões relacionadas ao fato de sentirem que, naquele ambiente de trabalho, não eram bem-vindas, e isso também foi evidenciado por Slay e Smith (2011). Ainda nessa perspectiva, Vough et al. (2012)consideram que clientes desvalorizam certos trabalhos somente pelo fato de ser uma profissional mulher.

Em relação à “descrença no trabalho por ser mulher”, a Tatuadora 2 relata que, em seu antigo estúdio: “alguns clientes, algumas pessoas que visitavam, não tinham o mesmo olhar que tinham com os meninos que trabalhavam comigo”, destacando a falta de valorização do trabalho da mulher em relação ao do homem. Ainda dentro do aspecto de outsider, foram encontrados 6 depoimentos referentes à “marginalização pelos familiares”, que muitas vezes não reconhecem a profissão, como relatado: “minha família não reconhece como uma profissão, eles ficam me enchendo o saco para fazer, por exemplo, estética, para fazer micropigmentação, porque ‘tem a ver’, só para eu ter uma formação...” (Tatuadora 4).Essa experiência vivenciada por essa tatuadora também é confirmada por Adams (2012), tendo vista que a indústria cosmética já passou pela transição de uma indústria de má reputação e desviante para alcançar maior grau de aceitação e sucesso comercial.

As unidades “marginalização por ser mulher” e “descrença no trabalho por ser mulher” corroboram com o que foi enfatizado por Thompson (2015), pois nos estúdios de tatuagem existem dificuldades no combate à discriminação sexual.

Na Figura 5, observa-se a construção dos possíveis o repertório de “eu’s” profissionais das tatuadoras entrevistadas.




A partir disso, buscou-se compreender o repertório para criar sua identidade profissional. A “frustração com a profissão anterior” tanto acontecia por falta de retorno financeiro, por falta de reconhecimento do trabalho, como pelo desgaste da profissão anterior. Além disso, três entrevistadas afirmaram que sentiam ter uma “vocação para a tatuagem”

Como “repertório” para redefinição da identidade profissional”, a unidade mais expressiva na fala das tatuadoras foi o “maior esforço por ser mulher”. Essa unidade diz respeito ao fato de que, por conta da visão machista que se tem na profissão, é necessário que elas tenham que sempre provar a sua competência. Em seguida, vem a unidade “maiorprofissionalismo por ser mulher”, como consequência da necessidade de comprovar que são tão capazes de realizar o trabalho quanto um homem. Ainda resultando danecessidade de provarem sua competência, vem a “autocrítica” atrelada a seus trabalhos, e tudo isso reforça a questão de gênero dentro das organizações e como elas estão presentes mesmo em trabalhos vistos como menos formais. A necessidade de uma maior esforço e profissionalismo das tatuadoras reafirma que até mesmo na indústria da tatuagem existe a divisão sexual do trabalho (CAPPELLE; MELO, 2010; SIQUEIRA; SAMPARO, 2017), em que a mulher tem que provar a suacapacidade de exercer o mesmo trabalho realizado por um homem.

REFERÊNCIAS

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