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<article-title xml:lang="pt">“Cadê o tatuador?” Construção da identidade profissional e estigma de mulheres na profissão tatuadora</article-title>
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<title>1 INTRODUÇÃO</title>
<p>É  difícil  definir,  ao  certo,  quando  a  prática  da  tatuagem  teve  início;  porém,  no  final  do  século  XX,  a  tatuagem  adquiriu  uma   nova   forma   de   reconhecimento   e   prática social, em que foi deixada de lado a ideia  de  que  a  tatuagem  estava associada apenas     à     marginalidade,     rebeldia     e     contestação, e  então  passou  a  representar  um   processo   de   ressignificação   para   a   pessoa (FARLEY; VAN     HOOVER; RADEMEYER,      2019;      THOMPSON,      2019a) com    base,    muitas    vezes,    naapropriação mercantil (SCHLÖSSERet al., 2020). Nessa  perspectiva,  a obtenção  de  uma  tatuagem  faz  parte  do  processo  de  transformação de identidade (LANE, 2014).</p>
<p>Evidências  empíricas  sugerem  que  as  tatuagens  não  estão  mais  associadas  a  grupos antissociais ou à   marginalização. No entanto,   isso   não   significa   que   a   arte   corporal não tenha nenhuma concepção ou associação     negativa,     sobretudo para mulheres   (SCHLÖSSERet al.,   2020; SWAMI;   FURNHAM,   2007).   A   maior   regulamentação da atividade e o aumento na popularidade das tatuagens contribuiu para mitigar algumas dessas avaliações culturais negativas (SIMPSON; PULLEN, 2018).</p>
<p>Mesmo      com      mudanças na percepção  das  tatuagens,  é  notório  que,  quando  os  homens  se  tatuam,  a  prática  muitas vezes fortalece a sua masculinidade; por outro lado, nas mulheres, a prática pode diminuir a  sua  identidade  feminina,  mas  essa  ameaça  pode  ser  contornada  quando  escolhem         tatuagens         consideradas femininas, que são mais delicadas, discretas e        pequenas(KLUGER,        2015;        THOMPSON,  2015;  2019b). A  identidade  com o trabalho tem mais particularidades do que a simples realização da atividade; além disso, a  identidade  individual  no  trabalho  considera   significativa   a   influência   dos   grupos   sociais   sobre   a   construção   da   identidade       (PRATT;       ROCKMANN;       KAUFMANN,    2006).Nesse    sentido, examinar    o    impacto    do    estigma    na construção  da  identidade  profissional  das  tatuadoras  é  relevante  para  esse  campo  do  conhecimento,  uma  vez  que o  processo  de  construção  da  identidade  profissional  nas  carreiras      contemporâneas      pode      ser      diferente,     ou     pelo     menos     alterado,     principalmente em   membros   de   grupos   considerados estigmatizados(SLAY; SMITH, 2011), como o das tatuadoras.</p>
<p>Profissionais             estigmatizados acreditam  que  as  percepções  dos  clientes  sobre  eles  desvalorizam  suas  profissões  e isso  fica  ainda  mais  evidente no  contexto  das tatuadoras, uma vez que a tatuagem se encontra,    historicamente, associada    às    culturas        fortemente        masculinizadas        (VOUGHet   al.,   2012; THOMPSON, 2015).   Nesses   ambientes,   o assédio   a mulheres é relativamente comum,  sendo visto como forma de testar a    sua resiliência em  um  ambiente  hostil  e  masculinizado(OLIVEIRA;  MOURA,  2021). Ademais, constata-se,   nos   últimos   anos,   que as mulheres estão se tatuando mais do que os homens (FARLEY et al., 2019).</p>
<p>No modelo de Slay e Smith (2011), a  construção  da  identidade  profissional  de grupos  estigmatizados  gera a  necessidade  de   tarefas   de   redefinição,   ao   invés   de   adaptação, como ocorre nos demais grupos. Nesse  sentido,  esse  modelo  analisa  quatro perspectivas: (i) identificaçãodas influências  iniciais  que  fizeram  o  sujeito  iniciar     na     profissão;     (ii)     vivênciasprofissionais   referentes   ao   estigma   e   à diferenciação  daquele  indivíduo como  um  “estranho no ninho”; (iii) repertórios que as pessoas podem utilizar para ressignificar as suas    experiências;    e    (iv)    tarefas    de    redefinição, especificamente com     a     redefinição de si mesmo, da profissão e do estigma.</p>
<p>Diante  dessas  abordagens,  surge  o  seguinte       questionamento       para       o       desenvolvimento  desta  pesquisa:  como  o  estigma  de  gênero  interfere  na  construção da  identidade  profissional  de  tatuadoras? Sendo  assim,  delimitou-se  como  objetivo  investigar   como   o   estigma   de   gênero interfere    na    construção    da    identidade    profissional   de   tatuadoras,   baseado   no modelo de Slay e Smith (2011).</p>
<p>O      campo      de      investigações científicas   sobre   identidade   profissional   ainda   é   escasso   e   difícil   de   mapear. Pesquisas   sugerem   que,   não   apenas   os   indivíduos   estão   inclinados   a   escolher   ocupações    que    correspondam    as    suas    características inatas, mas que os ambientes ocupacionais   também   podem   motivar   a   mudança  em  características  pessoais  e  de  identidade  (WILLE;  DE  FRUYT,  2014).  Portanto,   este   estudo fornece   elementos   para          pesquisas de          carreiras          contemporâneas. Em  relação  à  segregação  sexual, é notório que o gênero desempenha um  papel  importante  na  subcultura  com representação na comunidade de tatuagens, já    que    esta    tem    sido    historicamente    associada a subculturas    masculinas    e    artistas homens (THOMPSON, 2019b).</p>
<p>Esta  pesquisa  se  justifica  porque, muitas  vezes,  os  papéis  envolvidos  dentro  de  uma  profissão  trazem  prestígio,  porém,  quando           pessoas           estigmatizadas desempenham esses papéis, recebem pouco reconhecimento social, uma vez que as suas identidades   estão   associadas   a   práticas negativas   (SLAY;   SMITH,   2011).   Em relação  a  mulheres  e  emprego  em  campos  não tradicionais, de acordo com as ideias de Thompson (2015),  ao comparar a indústria da     tatuagem     com     outras     atividades     qualificadas, é      possívelencontrar semelhanças e diferenças significativas para as  mulheres  entenderem  quando  decidem  ingressar  na  profissão  de  tatuadora.   Este estudo busca ampliar  entendimentos  sobrecomo    acontece    a    ressignificação    da    identidade      profissional      de      grupos      estigmatizados,   permitindo trazer   novas   perspectivas sobre a tatuagem. Isso impacta no campo do  conhecimento  científico  dos  estudos    sobre    gênero,    sobretudo    das    barreiras  enfrentadas  pelas  mulheres  em ambientes predominantemente masculinos.</p>
<p>Além  dessa  introdução,  este  artigo  ainda  conta  com  mais  cinco  seções.  Na  segunda seção, são feitas explanações sobremulheres, tatuagens  e  estigmas  atrelados  a  essa     prática.     Na     terceira     seção,     é     apresentado um embasamento teórico sobre identidade   profissional   e   seus   estigmas, desencadeando  no  modelo  utilizado  nesta pesquisa. Na quarta seção, são abordados os procedimentos   metodológicos.   A   seguir, são apresentados e analisados os resultados da  pesquisa.  Por  fim,  na  sexta  e  últimaseção,  destacam-se  as  considerações  finaisdo estudo com as contribuições da pesquisa e  inspirações  para  futuros  estudos  sobre  o  tema.</p>
<p>2  MULHERES,  TATUAGEM  E  SEUS ESTIGMAS</p>
<p>Cabe   mencionar   que,   apesar   das   conquistas   femininas   advindas   da   luta   constante  das  mulheres  em  busca  da  tão  sonhada inserção  e  igualdade,  a  divisão  sexual       do       trabalho       ainda       gera       discriminação, distinção e preconceito para que  elas  possam  se  inserir  no  mercado  de  trabalho (SIQUEIRA;  SAMPARO,  2017).  Além    disso,    outro    aspecto    que    pode dificultar o acesso das mulheres no mercado do   trabalho   é   a   conciliação   entre   vida   familiar   e   vida   profissional,   em   que   a mulher  geralmente  assume  uma  dupla  ou  tripla   jornada   de   trabalho,   tendo   que   conciliar  o  trabalho  dentro  e  fora  de  casa,  sobretudo precisando lidar com os serviços domésticos   e   o   cuidado   com   os   filhos   (CAPPELLE; MELO, 2010).</p>
<p>Historicamente,    a    profissão    de    tatuador    era associada    às    subculturas    masculinas    (militares,    motociclistas)    e    operários  da  construção  civil.  A  partir  da  década  de  1970  até  a  década  de  1990,  ocorreu  uma  ressignificação  da  tatuagem,  levando a arte da tatuagem a novos grupos demográficos,   como   mulheres   e   classe   média   (KLUGER,   2015; THOMPSON, 2019a). Mesmo   com   o   surgimento   da máquina   elétrica de   tatuagem   e   com   o conhecimento de normas de biossegurança, a participação de mulheres como   tatuadoras ainda é  vista  como  uma  “novidade”  nesse  mercado, e isto faz com que elas lutem por reconhecimento   e   espaço   (OLIVEIRA; MOURA, 2021).</p>
<p>A aparência do corpo tem sido usada como  uma  característica  para  discernir  o caráter  do  indivíduo  (ADAMS,  2012).  A  tatuagem    é    carregada    de    significados culturais e pessoais, mas, apesar desse tipo de   arte   estar   cada   vez   mais   em   alta,   indivíduos       com       tatuagens       podem       experimentar     estigma,     estereótipos     e     discriminação  em  suas  vidas  pessoais  e  profissionais     (DANN;     CALLAGHAN,     2019;DELUCA; GRISCI; LAZZAROTTO,  2018;  FARLEY et  al.,2019),   uma   vez   que,   muitas   vezes,    a tatuagem pode  ser  vista  como um  sinal  de  comportamento    de    risco    em    adultos    (SCHLÖSSERet al., 2020).</p>
<p>Mulheres          tatuadas          foram          classificadas     como     menos     atraentes     fisicamente,   sexualmente   promíscuas   e   mais  propícias  ao  abuso  de  álcool  quando comparada com as mulheres não tatuadas – com avaliações mais negativas conforme o número       de       tatuagens       aumentava (BROUSSARD; HARTON,        2017;        SWAMI;  FURNHAM,  2007).  Além  disso,  para    essas    mulheres,    as    práticas    de    resistência e conformidade são constituídas em contextos sociais, culturais e históricos que produzem valores normativos em torno de tatuagens “boas” e “más”. Isso significa dizer    que    quando    as    tatuagens    são    contextualizadas  por  meio  de  significados, tornam-se  mais  aceitáveis,  especialmente quando   se   trata   de mulheres   (DANN;   CALLAGHAN,   2019).   Por   outro   lado,   Schlösser et al. (2020),  ao analisarem uma amostra brasileira de 316 mulheres, em que 50%  tinham  tatuagem,  constataram  que  as  mulheres tatuadas se sentem melhores com as suas  aparências,  porém  ainda  há  uma  associação  negativa  entre  a  prática  de se tatuar  e  comportamentos  de  risco,  como  consumo de drogas.</p>
<p>Segundo Kluger (2015), a tatuagem sempre esteve   mais   ligada   ao   público   masculino. O número de mulheres tatuadas é  menor  que  a  dos  homens  em  muitos  estudos,  especialmente  nas  faixas  etárias  mais  velhas.  Porém,  a  partir  do  início  da  década de 1990, estimou-se que metade das tatuagens já era vinculada  às  mulheres. Broussard   e Harton   (2017)   acrescentam   que,  referente  ao  mercado  de  trabalho,  a  maioria        dos        gerentes        declarouexplicitamente   que   não   contrataria   um   candidato visivelmente tatuado, isso porque poderia  prejudicar  a  imagem  da  empresa, causando antipatia  pessoal  por  tatuagens.  Em  relação  aos  potenciais  clientes,  estes  também tendem a perceber os funcionários tatuados como menos capazes.</p>
<p>De  acordo  com  a  perspectiva  de  Adams (2012), a indústria da tatuagem é um tipo  de  "dirty  work",  pois  permite  que  o  tatuador  seja  estigmatizado  ao  longo  de  várias   configurações   do   que   seria   um   trabalho     com     características     "sujas",     fazendo-se  necessário  que os  profissionais reformulem  ativamente  e  legitimem  suas  atividades.    Além    disso,    embora    nas    profissões  regulamentadas  a  discriminação  sexual   seja   combatida,   o   mesmo   não   acontece     na     indústria     da     tatuagem     (THOMPSON, 2015). DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016) mencionam que, a partir da década   de   2000,   houve   um   boom   que ocasionou   um   aumento   da   prática da tatuagem, e isto contribuiu para o   aumento da        regulamentaçãonessa        área, principalmente nas ferramentas e normas de trabalho.</p>
<p>O   ato   de   se   tornar   "fortemente   tatuado", com sua associação histórica com subculturas desviantes, continuou a manter um   estigma   social   e   a   evocar   sanções   negativas dos observadores. Isso se dá para as  mulheres  que  também  devem  lidar  com  as  normas  de  gênero  nessa  subcultura,  que  têm   sido   associadas    a   outros   grupos   masculinos    (THOMPSON,    2019a). As tatuagens e as práticas de tatuagem, ligadas a  valores  culturais  dentro  da  indústria  da  tatuagem, podem     ser     vistas     como     representativas      de      um      desejo      de      autenticidade    e    de    representar    a    “si mesmo”,    ao    mesmo    tempo    em    que    capturam algumas características,    como criatividade, rebeldia e desafio (SIMPSON; PULLEN, 2018).</p>
<p>Diversas pesquisas científicas sobre estigma foram  realizadas por  psicólogos  sociais, que    usaram    os    insights    da abordagem  social  cognitiva,  com  o  intuito  de compreender como as pessoas constroem categorias     e     as     ligam     às     crenças     estereotipadas (LINK; PHELAN, 2001). Na perspectiva   de Goffman   (1988,   p.11),   estigma pode ser compreendido como sinais corporais    com    os    quais    se    procura    evidenciar  alguma  coisa  de  extraordinário  ou  mau  sobre  o  status  moral  de  quem  o  apresenta. Link  e Phelan  (2001) destacam que pessoas   são   estigmatizadas   quando   rotuladas,      separadas      e      ligadas      a características  indesejáveis,  levando-as à perda de status.</p>
<p>A maior parte das definições acerca do estigma tem em comum a suposição de que  as  pessoas  estigmatizadas  carregam  uma   característica   ou   atributo   que   as diferenciam das  demais,  tornando-as  mais  desvalorizadas  pelos  outros.  Tais  marcas  podem  ser  controladas  ou  incontroladas,  visíveis  ou  invisíveis,  ligadas  à  aparência,  comportamento  ou  membros  de  um  grupo  específico.  É  importante  salientar  que  o  estigma  não  está  na  pessoa,  mas,  sim,  em um  contexto  social  (MAJOR;  O’BRIEN,  2005).</p>
<p>Os estigmas físicos são aqueles com os quais os indivíduos nascem; enquanto os estigmas               de               características               comportamentais são de responsabilidade e escolha própria, influenciando na percepção dos       outros       acerca       das       pessoas       estigmatizadas. Por exemplo, um indivíduo com  característica  estigmatizada,  como  a  tatuagem,   pode não   receber   a   mesma   empatia  daqueles  que  sofrem  com  alguma deficiência física (LARSEN; PATTERSON;      MARKHAM,      2014).Tatuar-se    vai    em    direção    oposta    à efemeridade no contexto atual da sociedade líquida, configurando-se como uma espécie de expressão e resistência, já que a tatuagem é   uma   marca   que   fica   permanente   nas   pessoas(DELUCA; GRISCI; LAZZAROTTO, 2018).</p>
<p>Diante  do  apresentado,  é  possível  perceber que, apesar da ressignificação que a tatuagem vem tendo nos últimos anos, ela ainda   está   carregada   de   estigmas   para   aqueles  que  pertencem  a  essa  subcultura.Destaca-se,  ainda,  conceitos  e  abordagens  sobre identidade profissional e estigma.</p>
<p>3   IDENTIDADE   PROFISSIONAL   E ESTIGMA</p>
<p>A construção     da     identidade,     incluindo  a  identidade  profissional,  é  uma  construção narrativa, em que se conta para si  e  para  os  outros  sobre  quem  se  é,  sendo  revisadas ao longo do tempo, sobretudo em resposta   às   forças   internas   e   externas   (DELUCA;         ROCHA-DE-OLIVEIRA, 2016; BROWN,    2014).    A    identidade    profissional é um fenômeno complexo, que contempla a  conscientização  e  a  conexão  com       as       habilidades,       qualidades,       comportamentos,   valores   e   padrões   da   profissão     escolhida,     assim     como     o     entendimento   do   “eu”   profissional   comrelação    ao    “eu” geral    mais    amplo    (JACKSON, 2017).</p>
<p>De   acordo   com   Kira   e   Balkin   (2014), a identidade é capaz de influenciar o ambiente de trabalho, como uma falta de alinhamento entre a identidade profissional preferida  e  a  situação  de  trabalho  podeminfluenciar    tentativas    de    modificar    o ambiente.   As   formas   de   identidade   de   trabalho   se   associam   às   transições   de   papéis,principalmentequando      os      profissionais mudam de local de trabalho ou papel  (IBARRA;  BARBULESCU,  2010).Rossi   e   Hunger   (2020)   afirmam   que   a   compreensão  da  construção  de  identidades sociais é uma condição sine qua nonpara o estudo   da   identidade   profissional.   Uma identidade estigmatizada traz, como efeito, o   poder   de   marginalizar   um   indivíduo,   resultando na sua desqualificação diante da aceitação  plena  pela  sociedade.  Indivíduos  e grupos estigmatizados são frequentemente capazes  de  cultivar  concepções  positivas alternativas  de  si,  apresentando autoestima e    táticas    de    gestão    de    impressões    (TOYOKI; BROWN, 2013).</p>
<p>Segundo Rossitet  al.  (2018), as experiências  vivenciadas  pelo  profissional  fazem   com   que   os   seus   conhecimentos   sejam internalizados, de      modo      a      compreender  e  reorganizar  saberes.  Slay  e  Smith  (2011)  mencionam  que  é  necessária  uma redefinição da identidade profissional, em   vez   de   adaptação;   tornando-se uma tarefa  central  para  os  membros  de  grupos  culturais  estigmatizados.  Em  seus  estudos,  os  autores  constataram  que  a  presença  do  estigma  e  o  fato  de  ser  outsider  também influenciam   na   formação   da   identidade   profissional. Dessa forma,   quando membros de uma minoria estigmatizada estão em uma sociedade  que  os  percebem  como  pessoas  de capacidades e potencialidades limitadas, esses  indivíduos  tendem  a  ter  uma  visão  restrita de suas possiblidades profissionais.</p>
<p>O modelo de construção     da     identidade  profissional  de  Slay  e  Smith  (2011) apresenta   como   as   experiências   profissionais   e   os   valores   culturais   e   familiares  ajudam  a  construir  o  repertório  de “eu’s” profissionais    possíveis.    Em    seguida,  acontece  a redefinição  da  tarefa central  para  membros  de  grupos  culturais  estigmatizados,  ou  seja,  a  redefinição  da retórica  ocupacional,  o  estigma  e  o  “eu” (FIGURA   1).   Nesse   sentido,   conforme mencionado  por  Rossi  e  Hunger  (2020), ocorre  uma  tensão quando  não  há  uma  confluência  entre  o  que  os  outros  desejam  que o sujeito seja e o desejo do sujeito em assumir        determinadas        identidades, ocorrendo,  portanto,  a  sensação  de  ser  um  estranho no ninho.</p>
<p>
<fig id="gf1">
<graphic xlink:href="133475550022_gf2.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
</fig>
</p>
<p>Em  seguida,  o  modelo  apresenta  o  momento  de  uma  redefinição  no  lugar  do  processo  de  adaptação  na  profissão.  Nesse contexto,  um  antecedente  importante  da  redefinição    é    a    experiência    de    ser    estigmatizado   ou   ser   pertencente   a   um   grupo  culturalmente  estigmatizado.  Diante disso,   torna-se  importante  criar  retóricas profissionais,   enxergar   um   novo   valor   profissional  na  identidade  estigmatizada,  e  ainda encontrar equilíbrio entre a identidade profissional  e  a  estigmatizada  (IBARRA,  1999; SLAY; SMITH, 2011).</p>
<p>A  primeira  tarefa  de  redefinição,  mencionada  por  Slay  e  Smith  (2011),  diz  respeito    ao    repertório    ocupacional    ou    profissional e como ele é importante para o entendimento  da  construção  da  identidade  profissional,     pois     permite     que     os     profissionais  expliquem  a  importância  de  seu trabalho para outros. As representações coletivas são crenças compartilhadas sobre os    estereótipos    de    um    grupo.    Nesse contexto,  os  indivíduos  passam  a  tentar  dissipar  estereótipos  e  mostrar  às  pessoas  que  estão  fora  do  grupo  estigmatizado  um  lado antes não visto por eles.</p>
<p>A  tarefa  de  redefinição  do  estigma  tem   conotações   tanto   positivas   quanto   negativas. Como a maioria dos indivíduos é fortemente ciente dos estereótipos aos quais são   associados,   passam   a   redefinir   o   estigma  de  forma  positiva,  muitas  vezes  vendo  seu  grupo  e  a  respectiva  identidade cultural como uma perspectiva diferenciada e única (SLAY; SMITH, 2011).</p>
<p>Por  fim,  a  tarefa  de  definir  a  si  próprio diz respeito às formas de alcançar o equilíbrio  entre  suas  identidades  cultural  e  profissional,  discutindo  a  necessidade  de  qual   deve   vir   em   primeiro   lugar.   Os   indivíduos que escolhem prioritariamente a sua      identidade      profissional      podem      experimentar  um  sentimento  de  solidão – por meio do abandono do seu grupo interno e  o  externo.  No  entanto,  na  maioria  dos  casos,    é    necessário    que    haja    uma    redefinição   da   identidade   profissional   e   pessoal (SLAY; SMITH, 2011).</p>
<p>A   identidade   profissional   é   uma   construção      narrativa      em      constante      reformulação.    Esse    processo    envolve    diversos    estágios,    que    vão    desde    o    aprendizado  das  tarefas  da  função  até  a  interação   com   seus   pares.   Para   grupos   estigmatizados,       esse       processo       é       particularmente      distinto      por      serem      percebidos  como  outsiders,  assim  como  acontece  com  mulheres  que  desenvolvem  trabalhos   com   tatuagens.   Com   base   no   exposto e no modelo apresentado, levando-se  em  conta  o  arcabouço  teórico  de  Slay  e Smith   (2011),   mostra-se,   a   seguir, os procedimentos metodológicos adotados para a análise dos resultados desta pesquisa, com   o   intuito   de   ampliar   discussões   e   reflexões  sobre  como  o  estigma  de  gênero  interfere    na    construção    da    identidade    profissional de tatuadoras.</p>
<sec>
<title>4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS</title>
<p>Esta pesquisa é caracterizada por sua abordagem qualitativa,       pois       busca       informações      aprofundadasquanto      à      identidade     profissional     e     estigma     de     tatuadoras (COLLIS; HUSSEY, 2005). Trata-se de uma pesquisa de natureza descritiva, já que    busca    mensurar as    características    descritas  nas  questões  propostas  no  roteiro  adotado. Foram     realizadasentrevistas semiestruturadas,  pois esse  método  permite  que   os   pesquisadores   fiquem   livres   para exercitar  suas  iniciativas,  e  isto  possibilita  o surgimento   de   informações   inesperadas   e   esclarecedoras,    que    trazem    reflexões    e    achados sobre o fenômeno investigado.</p>
<p>O  universo  da  pesquisa  é  composto  por   mulheres   que,    de   forma   profissional, atuam   como   tatuadoras.   A   escolha   das   participantes  se  deu  por  meio  da  amostra  de conveniência,   já   que, nesse   método, os participantes são escolhidos por estarem mais disponíveis  e  acessíveis  aos  pesquisadores(COLLIS; HUSSEY, 2005). As participantes desta pesquisa foram identificadas sob o título de   “Tatuadora”,   seguido   pela   numeração   equivalente  à  ordem  em  que  ocorreram  as  entrevistas,  que  se  encontra  compreendida entre  os  números  1  e  15. As  entrevistas  tiveram  como  tempo  médio  de  duração  24 minutos e 13 segundos, com desvio-padrão de 4,58. A partir disso, a Tabela 1 apresenta uma visão   geral do   perfil   das   entrevistadas, levando  em  consideração  a  idade,  o    estado civil,  a  formação  acadêmica e  o  tempo  de  atuação como tatuadora.</p>
<p>
<table-wrap id="gt1">
<alternatives>
<graphic xlink:href="133475550022_gt2.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
<table id="gt2-526564616c7963">
<tbody>
<tr/>
<tr>
<td>Tatuadora 1</td>
<td>30</td>
<td>Solteira</td>
<td>Doutoranda em biologia vegetal</td>
<td>8 meses</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 2</td>
<td>30</td>
<td>Casada</td>
<td>Design de moda</td>
<td>3 anos</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 3</td>
<td>33</td>
<td>União estável</td>
<td>Design de moda</td>
<td>2 anos</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 4</td>
<td>19</td>
<td>Solteira</td>
<td/>
<td>1 ano e 6 meses</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 5</td>
<td>32</td>
<td>Casada</td>
<td>Design de moda</td>
<td>3 anos</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 6</td>
<td>24</td>
<td>Solteira</td>
<td>Graduanda em arquitetura e urbanismo</td>
<td>2 anos</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 7</td>
<td>27</td>
<td>Solteira</td>
<td/>
<td>5 anos</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 8</td>
<td>20</td>
<td>Solteira</td>
<td/>
<td>5 meses</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 9</td>
<td>21</td>
<td>Solteira</td>
<td>Design de moda</td>
<td>2 anos</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 10</td>
<td>23</td>
<td>Solteira</td>
<td/>
<td>3 anos</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 11</td>
<td>27</td>
<td>Solteira</td>
<td/>
<td>1 ano</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 12</td>
<td>24</td>
<td>Solteira</td>
<td/>
<td>1 ano e 10 meses</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 13</td>
<td>29</td>
<td>Solteira</td>
<td>Comunicação social/ Arquitetura e urbanismo</td>
<td>3 anos</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 14</td>
<td>39</td>
<td>Solteira</td>
<td>Design de moda</td>
<td>3 anos</td>
</tr>
<tr>
<td>Tatuadora 15</td>
<td>33</td>
<td>Solteira</td>
<td>Educação Física</td>
<td>3 anos</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</alternatives>
</table-wrap>
</p>
<p>Como    é    possível    observar,    as    tatuadoras  têm  idade  entre  19  e  39  anos,  trabalham com tatuagem entre 5 meses e 5 anos,   majoritariamente   solteiras; e   seis   delas não iniciaram ou concluíram nenhum curso  de  graduação.  A  Tatuadora  1  estava concluindo  o seu  doutorado  em  biologia  vegetal  e trabalhava  com  desenho  técnico  em   botânica.   Vale   observar   que,   com   exceção  da  formação  em  educação  física,  segundo     as     entrevistadas,     todas     as     formações   acadêmicas   citadas   estavam   ligadas ao desenho técnico.</p>
<p>Para  a  realização  das  entrevistas, adotou-se o modelo de Slay e Smith (2011), que    buscaavaliar a    construção    da    identidade de  grupos  estigmatizados.  Para tanto, são analisadas as influências iniciais e  as  experiências  profissionais  vividas;  em seguida,  é  visto  os  repertórios  disponíveis  para    criar    ou    redefinir a    identidade    profissional;  e, por  fim,  são  avaliadas  as  tarefas  de  redefinição  utilizadas  a  nível  individual, profissional e do estigma.</p>
<p>A   análise   foi   feita   por   meio   de   análise  de  conteúdo  (BARDIN,  2011),  por meio de três fases: (1) pré-análise, faz-se a organização e sistematização dos materiais disponíveis para a pesquisa e que colaborem com a interpretação final; (2) exploração do material,     procura-se     compreender     o     significado    dado    pelos    envolvidos    no estudo   ao   corpus   da   pesquisa;   e   (3)   tratamento   dos   resultados,   inferência   e   interpretação,            denominada            de            categorização.  Diante  disso,  por  meio  da  análise do modelo de Slay e Smith (2011), foram  estabelecidas  quatro  categorias  de  análise: influências iniciais, experiências de trabalho, possíveis “eu’s” profissionais, e as tarefas    de    redefinição,    que    inclui    a    redefinição  do  estigma,  redefinição  de  si  próprio e redefinição da profissão.</p>
<p>Para    o    tratamento    dos    dados, adotou-se o software Atlas.ti (versão 7) por ser  uma ferramenta  que  auxilia  na  análise  qualitativa,      codificando      os      dados, apontando     tendências     e     padrões     e     otimizando o tempo destinado à análise dos resultados. Assim, as  categorias de análise e as unidades de contexto estão relacionadas a elas por meio de setas em um par ordenado {x,y}, em que cada código é indicado com um par ordenado de dois números, no qual o primeiro representa a frequência com que o  código aparece,  ou  seja,  o  número  de citações ao qual o código foi relacionado ao outro;  e  o  segundo número  representa  a  quantidade de unidades de contexto que ele está associado.</p>
<p>5    ANÁLISEE    DISCUSSÃO    DOS RESULTADOS</p>
<p>5.1  O  processo  de  escolha  profissional:  tornando-se tatuadora</p>
<p>Inicialmente, foram identificadas as influências   iniciais   das   tatuadoras,   que   perpassam valores familiares e experiências de vida. Essas influências contribuem para a   criação   dos   reportórios   de   si,   com   habilidades,   atitudes   e   comportamentos   necessários  para  serem  bem-sucedidas  em  uma  carreira  (BROWN,  2014)  (FIGURA 2).</p>
<p>
<fig id="gf2">
<graphic xlink:href="133475550022_gf3.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
</fig>
</p>
<p>As influências iniciais surgiram dos familiares  das  entrevistadas,  assim  como  dos valores  culturais  que  elas  tiveram  ao  iniciarem   na   profissão.   O   fator   mais   ressaltado    pelas    entrevistadas, que    as    fizeram  decidir  aprender  o  ofício,  foi  por  “influência  de  amigos  próximos”,  e  até  mesmo  familiares,  por  exemplo,  irmão  e  marido  que  as  incentivaram  a  iniciar  na profissão, e este resultado foi encontrado de forma semelhante na pesquisa de DeLuca e Rocha-de-Oliveira    (2016), no    qual    o    tatuador   analisado   começou   na   arte   dodesenho    durante    a    sua    infância    por influência de sua avó.</p>
<p>Além disso, três delas mencionaram que   têm   um   “histórico   familiar   com   tatuagem”  e  que,  por  isso,  não  foi  um  problema o  ato  de  tomarem  a  decisão  de  iniciar  na  profissão. Esse  achado  também pode ser visto como um facilitador à entrada das  mulheres  na  profissão,  tendo  em  vista  que  dentro  de  seus  valores  familiares  a  tatuagem     não     tem     uma     conotação     marginalizada. A Tatuadora 11 trabalha em um estúdio junto com os seus irmãos, o que pode ter facilitado a sua inserção e o próprio exercício  da  profissão.  Ademais,  onze  das  quinze    entrevistadas    mencionaram    que    outro fator que facilitou a inserção delas foi o fato de que elas já tinham “contato prévio com   ilustração”   antes   da   profissão   de tatuadora; ou seja, assim como no estudo de DeLuca   e   Rocha-de-Oliveira   (2016),   as participantes   já   tinham   contato   com   a   ilustração antes de se tornarem tatuadoras.</p>
<p>Outro motivo     importante     de influência inicial e que traz uma conotação negativa   para   o   início   das   atividades,   relaciona-se  aos  valores  culturais  atrelados à  tatuagem  e  à profissão.  O  primeiro  mais  mencionado   foi   a   “marginalização   da   profissão”.   Para   as   entrevistadas,   esta   marginalização  estava  desde  motivos  da  tatuagem ser vista como “algo secundário” (Tatuadora 3),   mas,   principalmente,   por   falta de controle do exercício da profissão. Essa falta de controle é relatada por diversos estudos   sobre   a   prática de   tatuagem,   incluindo o estudo de DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016).</p>
<p>Constata-se  ainda  que:  “hoje,  eles  oferecem  vários  cursos  no  Brasil  todo  de  tatuagem.   Fora   do   Brasil,   você   precisa   comprovar  que  fez  curso,  e,  se  não  me  engano,  aqui  em  Fortaleza  você  precisa  de  um curso de biossegurança” (Tatuadora 1).Esse    achado    contradiz    a    “falta    de    uniformidade  no  ensino  da  tatuagem”.  Por outro lado, a tatuadora 6 destaca que: “têm algumas pessoas que eu conheço que estão começando  a  tatuar,  ficaram  com  vontade,  pessoas  que  já  são  artistas,  ilustradores,  e  começaram a tatuar. Só que, é uma galera, que,  pelo  que  eu  observo,  não  tem  esse mesmo   senso   de   responsabilidade   que   precisa   ter,   sabe?” Diferentemente   do   apresentado    por    DeLuca    e    Rocha-de-Oliveira,  em  2016,  mesmo  não  existindo cursos   universitários   para tatuagem, é possível  realizar  cursos  profissionalizantes direcionados para a profissão de tatuador.</p>
<p>Outro      fator      que      reforça      a      marginalização    da    profissão    seria    a    “facilidade  no  acesso  à  profissão”.  Esse  problema é relatado pela tatuadora a seguir: “então,   hoje   em   dia,   por   ela   não   ser   regulamentada,    muitas    pessoas    podem    entrar  nesse  tipo  de  trabalho,  o  grande  problema disso é gente que começa a tatuar e não tem noção de biossegurança, não tem noção      de      contaminação,      processo      inflamatório”  (Tatuadora  1).  Todas  essas  características         apresentadas         pelas         tatuadoras   reforçam   a   ideia   trazida   por Adams (2012), que compara o trabalho com tatuagem a um tipo de "dirty work",  já que a  falta  de  regulamentação  pode  ocasionar  problemas        de        biossegurança        e        contaminação, práticaque, segundo Oliveira   e   Moura   (2021),   já   tem   sido   observada  tanto  por  tatuadores  quanto  por  clientes.</p>
<p>Após   identificadas   as   influências   iniciais, esta pesquisa buscou compreender quais         habilidades,         atitudes         e         comportamentos eram necessários para uma carreira de tatuadora bem-sucedida (SLAY; SMITH,       2011).       Nas       experiências       profissionais,        para        uma        melhor        compreensão  e  visualização,  os  resultados  encontrados   foram   divididos   em   duas   figuras.  A  Figura  3  ligada  a questões mais técnicas  de  entrada  na  profissão  e  motivos  relacionados; e a Figura 4 relacionada com as dificuldades e estigmas enfrentados pelas tatuadoras.</p>
<p>
<fig id="gf3">
<graphic xlink:href="133475550022_gf4.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
</fig>
</p>
<p>Em  relação  à  forma  de  inserção  no  ofício,    onze    tatuadoras    relataram    que    tiveram  seu  “início  como  aprendiz”,  tanto  sendo  convidadas  por  donos  de  estúdios  como  por  interesse  próprio  de  ir  em  busca  de   um   estúdio   que   as   aceitasse   como   aprendizes.     As     tatuadoras     que     se     consideram   autodidatas   ressaltaram   que:   “aprendizagem por meio da pele de amigos e    familiares”    foi    a    forma    que    elas    aprenderam a realizar a tatuagem, o achado também  foi  relatado  por  DeLuca  e  Rocha-de-Oliveira (2016).</p>
<p>Para compreender quais habilidades são necessárias para se tornar profissionaisda tatuagem, as entrevistadas mencionaram três:   Noções   de   desenho,   Noções   de   biossegurança e ética. Em relação às noçõesde  biossegurança,  a  Tatuadora  1  afirmou  que:  “os  materiais  são  descartáveis,  tem  gente que começa e usa a mesma agulha em várias pessoas. E isso é um problema, aí, tira a   credibilidade   de   quem   tem   a   noção,   porque  não  tem  quem  fiscalize.  Tem  a  vigilância  sanitária,  mas  não  tem  muito...  Por  isso  que  a  tatuagem  é  vista  como  marginalizada, porque não existe muito esse controle”.    Essa    realidade    confirma    o    relatado  por  Voughet  al.  (2012),  pois  o  estigma   da   profissão   é, muitas   vezes, desencadeado por estúdios de tatuagens que não seguem as normas de regulamentação, desencadeando em seus     clientesa desvalorização do trabalho. Apesar de que, conforme    mencionado    por    DeLuca    e    Rocha-de-Oliveira   (2016),   já   existe,   em   parte, uma normatização da profissão.</p>
<p>Por    último,    foi    mencionada    a    questão      da      “ética” na      profissão,      principalmente   no   que   diz   respeito   a   trabalhar  com  a  pele  de  outras  pessoas.  A  tatuadora  10  afirmou  que:  “acho  que  eu  diria que o principal seria ter ética. Porque você está lidando com a pele, uma coisa que vai  ficar  para  sempre,  né,  com  a  pessoa,  então  acho  que  é  o  principal,  ter  ética,  e  acho que dedicação mesmo”.</p>
<p>A “possibilidade de ter um trabalho flexível”     foi     evidenciada por     cinco     tatuadoras   como   um   dos   atrativos   da   profissão. A Tatuadora 5 mencionou: “... é um tipo de trabalho, uma profissão que me permite  ser  mãe,  que  me  permite  atuar  em  outras  áreas  que  não  só  a  tatuagem,  por  conta   do   agendamento,   por   conta   da   disponibilidade  de  horário,  né.  A  carga  horária é você quem faz”. Esse depoimento traz  à  tona  a  questão  do  trabalho  e  da maternidade, tendo em vista que, para esta tatuadora,  o fato de ter horários flexíveis fez com  que  ela  optasse  por  deixar  o  trabalho  com   moda,   sua   formação   acadêmica;   e passasse  a  se  dedicar  a  tatuagem.  Esse achado pode estar alinhado ao que Cappelle e Melo (2010) afirmam, pois o trabalho com tatuagem  fez  com  que  a  tatuadora  pudesse  alinhar  a  sua  dupla  jornada,  conciliando  o  trabalho  com  a  sua  família,  sobretudo  no  seu papel de mãe.</p>
<p>Outra   vantagem   percebida   pelas entrevistadas no trabalho com tatuagem é a “possibilidade  de  viajar  para  outros  locais  para tatuar”. A Tatuadora 1 mencionou: “eu comecei  há  oito  meses,  com  três  meses  eu  já  tinha  bastante  público,  já  estava  sendo  reconhecida,    as    pessoas    vinham    falar    comigo na rua. É estranho para mim. Aí vim para cá, vou tatuar em São Paulo agora. O reconhecimento     está     sendo     incrível”.     Diante  disso,  também  é  possível  afirmar  que    a    profissão    permite    uma    rápida    ascensão, já que com três meses ela já tinha “bastante   público”,   tendo   um   trabalho   reconhecido, e isto corrobora com o que foi enfatizado por DeLuca e Rocha-de-Oliveira (2016).</p>
<p>Analisaram-se,          ainda, as experiências vividas pelas entrevistadas que ilustrassem   a   existência   do   estigma   na profissão  que  influenciam  na  definição  de  uma    identidade    estigmatizada    (SLAY;    SMITH,  2011),  conforme  observa-se  pela  Figura 4.</p>
<p>
<fig id="gf4">
<graphic xlink:href="133475550022_gf5.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
</fig>
</p>
<p>Em      relação      às      experiências      profissionais ligadas ao estigma, ressaltam-se  as  “conotações  negativas”  do  exercício  da  profissão  e  das  pessoas  tatuadas.  As  entrevistadas afirmam que, apesar de haver uma   evolução   em   relação   à   visão   da   sociedade,   a   “segregação   da   tatuagem”   ainda continua com focos específicos, como no  depoimento:  “e  ainda  tem,  sim,  um  preconceito da polícia com quem é tatuado, dependendo  do  lugar  que  você  é  tatuado...  Porque   tatuagem   na   mão,   no   rosto,   no   pescoço...  Os  locais  da  tatuagem  meio  quesegregam você na sociedade, então, assim, não deixou de ter preconceito, porque agora o   preconceito   só   mudou   de   aspecto”   (Tatuadora 5). Isso confirma o apresentado por Link e Phelan (2001), pois essas pessoas são  rotuladas  e  discriminadas  por  conta  da  região do corpo na qual decidem se tatuar.</p>
<p>Essa    “segregação    da    tatuagem”    ainda comprova  o  que  foi  abordado  por  Schlösseret  al.  (2020),  pois  a  tatuagem  pode      ser      vistacomo      sinal      de      comportamento  de  risco  em  adultos.  Além  disso, está alinhado com a ideia de Toyoki e  Brown  (2013),  uma  vez que o  estigma atrelado à  tatuagem marginaliza os  seus  adeptos,   e  isto  resulta  na  desqualificação  dessa pessoa diante da aceitação plena pela sociedade.   Outrossim,   também   vai   de   acordo com as ideias de Adams (2012), pois ele afirma que os tatuados acabam tendo o seu caráter ligado à aparência do corpo.</p>
<p>Duas entrevistadas ainda relataram a “sexualização da profissão”, assim como é possível  perceber  no  depoimento:  “mulher sofre bastante com homem dando em cima direto, homem oferecendo para, na hora do serviço,  em  vez  da  mulher  tatuar,  ela  sair  com   ele,   uma   coisa   bem   punk,assim” (Tatuadora  4).  Isso  pode  acontecer,   pois, segundo  Thompson (2015),  o  fato  de  otrabalho    com    tatuagem    não    ser    uma    profissão   totalmente regulamentada faz com  que  a  discriminação  sexual  ocorra de forma mais explícita.</p>
<p>No  que  se  refere  às  dificuldades,  sete entrevistadas relataram “dificuldade na inserção”,   pois   existem   obstáculos   para   entrada  no  mercado  de  tatuagem,  como  relatado  pela  Tatuadora  9:  “só  que  é  uma área  um  pouco  difícil,  nem  todo  mundo  se  prontifica a ensinar...”. Esse preconceito na inserção no mercado de trabalho, conforme evidenciam Siqueira   e   Samparo (2017), pode ser visto não somente por tatuadoras, mas   por   todas   as   mulheres,   e   isto   se   configura  como  uma  violência  simbólica, reflexo da divisão sexual do trabalho.</p>
<p>Quanto às “dificuldades de vender o trabalho”,    as    tatuadoras    ressaltam    as dificuldades  da  instabilidade  da  profissão  por  ser  “um  mercado  que  oscila  muito”  e  “um  produto  que  não  é  uma  necessidade”  (Tatuadora     15). Essa     dificuldade     é     evidenciada no empreendedorismo do setor de    serviços.Duas    das    entrevistadas    relataram    uma    dificuldade    inicial    no    manuseio  da  máquina,  por  nervosismo  e  falta de prática.</p>
<p>Outra     parte     das     experiências     profissionais      que      correspondem      à      estigmatização   seria   o   fato   de   ser   um   outsider,  não  pertencente  ao  grupo, em relação à “visão machista do trabalho”, que diz  respeito  aos  estereótipos  de  gênero  na  profissão.  A  Tatuadora  15  afirmou  que:  “95%  dos  tatuadores  são  homens,  é  difícil  as pessoas confiarem na mulher, entendeu? É bem difícil”. Já a Tatuadora 5 enfatizou: “mas a gente ainda sofre preconceito, ainda existe    preconceito,    um    machismo    em    relação  à  tatuagem.  Por  exemplo,  sempre  que   eu   saio   com   meu   marido,   sempre   perguntam  se  ele  é  o  tatuador,  e  não  eu”.  Isso  vai  em  direção  ao  que  Slay  e  Smith  (2011)  afirmam,  uma  vez  que  a  sociedade  tende  a  ver  as  tatuadoras  como  pessoas  de  capacidades   e   potencialidades   limitadas; contudo, diferentemente do  que  os  autores  mencionam,  isso  não  pareceu  ser  um  fator  que as façam se sentirem limitadas de suas capacidades e possiblidades profissionais.</p>
<p>Ainda foram     identificados     10 depoimentos  em  relação  ao  “assédio  na  profissão”, destacando a escolha do público feminino de se tatuar apenas com mulheres: “não,  tem  muito  homem  que  tatua  mulher,  mas  muita  mulher  [se]  tatua  com  mulher,  porque  tem  muito  homem  que  é  abusivo.  Teve   esse   caso   de   Belo   Horizonte...”   (Tatuadora  1).  Já  a  Tatuadora  5  mostra  o  assédio  vindo  das  duas  partes:  “porque  a  gente vive  vendo  casos  de  assédio,  né?Tanto   as   tatuadoras   sofriam   assédio   no   estúdio quanto  os  tatuadores  assediavam  muito    as    clientes”.    Nesse sentido,    a    Tatuadora 14 defende a regulamentação da profissão,  inclusive  por  acreditar  que  faria  diferença   para   a   questão   do   assédio:   “melhoraria, principalmente,   para  a  gente. Lógico   que   médico   é   uma   profissão   regulamentada e têm médicos que abusam, isso nunca vai deixar de existir. Tem aquele tatuador que abusava das mulheres... Aquilo é horrível”. Esse fato vai ao encontro ao que preconiza Thompson (2015), pois o assédioé  decorrente,  muitas  vezes,  do  ambiente  hostil e masculino vinculado aos estúdios de tatuagem.</p>
<p>No       que       diz       respeito       à       “marginalização  por  ser  mulher”,  a  forma  diferenciada como as mulheres são tratadas na   profissão,   a   Tatuadora   13   se   sentiu   diferenciada  ao  ouvir  a  frase  “mas  você  tatua aqui?”, semelhantemente, a Tatuadora 15 ouviu “é tu mesmo que vai tatuar?”, além de    ressaltar    que “clientes    de    porta”,    expressão    utilizada    para    clientes    que    chegam nos estúdios sem contato prévio, se mostram  “mais  tendenciosos  a  escolher  o  tatuador      homem.      Essas      afirmativas confirmam que essas mulheres vivenciaram uma  construção de  identidade  profissional  sob  a  condição  do  estigma  e  que  sofrem  com  as  questões  relacionadas  ao  fato  de  sentirem que, naquele ambiente de trabalho, não  eram  bem-vindas,  e  isso  também  foi  evidenciado por Slay e Smith (2011). Ainda nessa   perspectiva,   Vough et   al.   (2012)consideram    que    clientes    desvalorizam    certos  trabalhos  somente  pelo  fato  de  ser  uma profissional mulher.</p>
<p>Em relação à “descrença no trabalho por  ser  mulher”,  a  Tatuadora  2  relata  que,  em  seu  antigo  estúdio:  “alguns  clientes,  algumas pessoas que visitavam, não tinham o mesmo olhar que tinham com os meninos que  trabalhavam  comigo”,  destacando  a  falta  de  valorização  do  trabalho  da  mulher  em relação ao do homem. Ainda dentro do aspecto  de  outsider,  foram  encontrados  6  depoimentos  referentes  à  “marginalização pelos  familiares”,  que  muitas  vezes  não  reconhecem   a   profissão,   como   relatado:   “minha  família  não  reconhece  como  uma  profissão,  eles  ficam  me  enchendo  o  saco  para fazer, por exemplo, estética, para fazer micropigmentação,  porque  ‘tem  a  ver’,  só  para eu ter uma formação...” (Tatuadora 4).Essa    experiência    vivenciada    por    essa    tatuadora também é confirmada por Adams (2012),    tendo    vista    que    a    indústria    cosmética  já  passou  pela  transição  de  uma  indústria de má reputação e desviante para alcançar maior grau de aceitação e sucesso comercial.</p>
<p>As unidades “marginalização por ser mulher”  e  “descrença  no  trabalho  por  ser  mulher”    corroboram com    o    que    foi    enfatizado  por  Thompson  (2015),  pois  nos  estúdios  de  tatuagem  existem  dificuldades  no combate à discriminação sexual.</p>
<p>Na     Figura     5,     observa-se     a     construção  dos  possíveis  o  repertório  de  “eu’s”      profissionais      das      tatuadoras      entrevistadas.</p>
<p>
<fig id="gf5">
<graphic xlink:href="133475550022_gf6.png" position="anchor" orientation="portrait"/>
</fig>
</p>
<p>A       partir       disso,       buscou-se compreender  o  repertório  para  criar  sua  identidade  profissional.  A  “frustração  com  a  profissão  anterior”  tanto  acontecia  por  falta  de  retorno  financeiro,  por  falta  de  reconhecimento   do   trabalho,   como   pelo   desgaste da profissão anterior. Além disso, três entrevistadas afirmaram que sentiam ter uma “vocação para a tatuagem”</p>
<p>Como “repertório”   para  redefinição  da identidade profissional”, a unidade mais expressiva  na  fala  das  tatuadoras  foi  o  “maior   esforço   por   ser   mulher”.   Essa unidade  diz  respeito  ao  fato  de  que,  por  conta  da  visão  machista  que  se  tem  na  profissão, é necessário que elas tenham que sempre   provar   a   sua   competência. Em seguida,      vem      a      unidade      “maiorprofissionalismo   por   ser   mulher”,   como   consequência da necessidade de comprovar que  são  tão  capazes  de  realizar  o  trabalho  quanto  um  homem.  Ainda  resultando  danecessidade de provarem sua competência, vem    a    “autocrítica”    atrelada    a    seus    trabalhos,  e tudo  isso  reforça  a  questão  de  gênero dentro das organizações e como elas estão presentes mesmo em trabalhos vistos como  menos  formais. A  necessidade  de  uma  maior  esforço  e  profissionalismo  das  tatuadoras   reafirma   que   até mesmo   na indústria   da   tatuagem   existe   a   divisão sexual  do  trabalho  (CAPPELLE;  MELO,  2010; SIQUEIRA;  SAMPARO,  2017),  em que a   mulher   tem   que   provar   a   suacapacidade  de  exercer  o  mesmo  trabalho  realizado por um homem.</p>
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<article-title>LA Ink: tattooing, gender, and the casual leisure of tattoo television</article-title>
<source>International Journal of the Sociology of Leisure</source>
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<article-title>Stigma, identity and power: Managing stigmatized identities through discourse</article-title>
<source>Human Relations</source>
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<article-title>What clients don't get about my profession: A model of perceived role-based image discrepancies</article-title>
<source>Academy of Management Journal</source>
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<article-title>Vocations as a source of identity: Reciprocal relations between Big Five personality traits and RIASEC characteristics over 15 years</article-title>
<source>Journal of Applied Psychology</source>
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