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<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
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<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2017.2.27337</article-id>
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<subject>Apresenta&#xE7;&#xE3;o</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>Por uma hist&#xF3;ria do cotidiano dos regimes autorit&#xE1;rios no s&#xE9;culo XX</article-title>
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<trans-title>Por una historia del cotidiano de los reg&#xED;menes autoritarios en el siglo XX</trans-title></trans-title-group>
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<trans-title>For a history of the daily lives in authoritarian regimes in the 20th century</trans-title></trans-title-group>
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<institution content-type="original">Professora Adjunta de Hist&#xF3;ria Contempor&#xE2;nea do Departamento e do Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Hist&#xF3;ria da Universidade Federal Fluminense (UFF)</institution>
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<institution content-type="original">Professora Adjunta de Hist&#xF3;ria do Brasil Republicano do Departamento e do Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Hist&#xF3;ria da Universidade Federal Fluminense (UFF)</institution>
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<pub-date pub-type="epub-ppub">
<season>May-Aug</season>
<year>2017</year></pub-date>
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<p>Em l&#xED;ngua portuguesa, os dicion&#xE1;rios comportam pelo menos duas defini&#xE7;&#xF5;es para a palavra <italic>cotidiano</italic>: primeiramente, significa o &#x201C;conjunto das a&#xE7;&#xF5;es que ocorrem todos os dias&#x201D;, mas &#xE9; tamb&#xE9;m aquilo que &#x201C;n&#xE3;o &#xE9; extraordin&#xE1;rio; comum ou banal&#x201D;. J&#xE1; no idioma ingl&#xEA;s, as palavras <italic>everyday</italic> e <italic>daily</italic> aparecem como sin&#xF4;nimos podendo significar, de acordo com o <italic>Oxford English Dictionary</italic>, &#x201C;happening or used every day&#x201D;. O voc&#xE1;bulo <italic>daily</italic>, por sua vez, se tem uma defini&#xE7;&#xE3;o muito pr&#xF3;xima da de <italic>everyday</italic> (&#x201C;one, produced, or occurring every day or every weekday&#x201D;), comporta tamb&#xE9;m outros sentidos. &#xC9; o que verificamos, por exemplo, na express&#xE3;o <italic>daily life</italic>, a qual possui acep&#xE7;&#xE3;o bastante similar ao segundo significado que a palavra <italic>cotidiano</italic> possui em portugu&#xEA;s: &#x201C;the activities and experiences that constitute a person&#x27;s normal existence&#x201D;. Na l&#xED;ngua espanhola, tamb&#xE9;m &#xE9; poss&#xED;vel distinguir dois termos diferentes: <italic>cotidiano</italic>, para se referir ao que &#x201C;ocurre con frecuencia, habitual&#x201D; e <italic>cotidianidad</italic>, entendido como a &#x201C;caracter&#xED;stica de lo que es normal porque pasa todos los d&#xED;as&#x201D;. Assim, o <italic>cotidiano</italic> pode estar ligado, ao mesmo tempo, &#xE0;s ideias de repeti&#xE7;&#xE3;o e rotina e &#xE0; de normalidade.</p>
<p>O dossi&#xEA; <italic>Hist&#xF3;ria, cotidiano e mem&#xF3;ria social: a vida comum sob as ditaduras no s&#xE9;culo XX</italic>, que ora apresentamos ao leitor, tem como proposta justamente a reflex&#xE3;o sobre o <italic>cotidiano</italic>. A rigor, uma dupla reflex&#xE3;o: pretende, em primeiro lugar, debater as possibilidades, os contornos e os limites do que podemos denominar uma <italic>hist&#xF3;ria da vida cotidiana</italic> e sua inscri&#xE7;&#xE3;o no &#xE2;mbito dos m&#xFA;ltiplos significados que o termo pode admitir. Assim, trata-se de refletir sobre o cotidiano como objeto historiogr&#xE1;fico a partir daquilo que ele representa em termos de repeti&#xE7;&#xE3;o, de rotina, ou antes, de rotiniza&#xE7;&#xE3;o da vida; mas tamb&#xE9;m como aquilo que pertence ao universo do <italic>ordin&#xE1;rio</italic>, de uma &#x201C;exist&#xEA;ncia normal&#x201D;. Ao mesmo tempo, a proposta se concentra principalmente nas possibilidades de se pensar o universo do <italic>cotidiano</italic> em um quadro de <italic>exce&#xE7;&#xE3;o</italic>; o <italic>ordin&#xE1;rio</italic> no contexto do <italic>extraordin&#xE1;rio</italic>. Dito de outra forma, trata-se de questionar: &#xE9; poss&#xED;vel pensar a reprodu&#xE7;&#xE3;o da vida cotidiana no quadro dos diversos regimes autorit&#xE1;rios que tiveram lugar no s&#xE9;culo XX? Como podemos elaborar uma reflex&#xE3;o sobre os fatos banais da vida daqueles que n&#xE3;o se sentiram concernidos por tais regimes, os quais tinham como base o terror de Estado e a dissemina&#xE7;&#xE3;o do medo? Como se davam as reivindica&#xE7;&#xF5;es de uma &#x201C;exist&#xEA;ncia normal&#x201D; em conjunturas excepcionais, de viol&#xEA;ncia pol&#xED;tica e de ditaduras?</p>
<p>Para as ci&#xEA;ncias sociais, para a hist&#xF3;ria, em particular, tratar o cotidiano pode constituir desafiadora empreitada, na medida mesmo em que o interesse historiogr&#xE1;fico pelo objeto reside justamente nas possibilidades de articular a reflex&#xE3;o a partir de ambas as dimens&#xF5;es: a an&#xE1;lise das atividades do dia-a-dia como aspecto decisivo para a compreens&#xE3;o de determinada sociedade no tempo; bem como as perspectivas de elaborar historicamente este sentido que o voc&#xE1;bulo comporta do que n&#xE3;o &#xE9; <italic>extraordin&#xE1;rio</italic>, do que &#xE9; <italic>banal e comum</italic>. Michel de Certeau, em seu estudo pioneiro, <italic>A inven&#xE7;&#xE3;o do cotidiano</italic>, fala das pesquisas que desenvolveu sobre o tema como uma &#x201C;interroga&#xE7;&#xE3;o sobre as <italic>opera&#xE7;&#xF5;es dos usu&#xE1;rios</italic>, supostamente entregues &#xE0; passividade e &#xE0; disciplina&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B7">CERTEAU, 1998, p. 37</xref>). Dialogando, ent&#xE3;o, com o que eram as recentes pesquisas de Michel Foucault, Certeau questiona:</p> <disp-quote>
<p>Se &#xE9; verdade que por toda a parte se estende e se precisa a rede da &#x201C;vigil&#xE2;ncia&#x201D;, mais urgente ainda &#xE9; descobrir como &#xE9; que uma sociedade inteira n&#xE3;o se reduz a ela: que procedimentos populares (tamb&#xE9;m &#x201C;min&#xFA;sculos&#x201D; e cotidianos) jogam com os mecanismos da disciplina e n&#xE3;o se conformam com ela a n&#xE3;o ser para alter&#xE1;-los; enfim, que &#x201C;maneiras de fazer&#x201D; formam a contrapartida, do lado dos consumidores (ou &#x201C;dominados&#x201D;?) dos processos mudos que organizam a ordena&#xE7;&#xE3;o s&#xF3;cio-pol&#xED;tica (<xref ref-type="bibr" rid="B7">CERTEAU, 1998, p. 41</xref>).</p></disp-quote>
<p>Assim, Certeau descreve seu trabalho como uma tentativa de constituir certo aparato metodol&#xF3;gico para que se possa delimitar um campo, refletindo sobre o estudo do cotidiano a partir da ideia de <italic>pr&#xE1;ticas comuns</italic>, introduzindo-as &#x201C;com as experi&#xEA;ncias particulares, as frequenta&#xE7;&#xF5;es, as solidariedades e as lutas que organizam o espa&#xE7;o onde essas narra&#xE7;&#xF5;es v&#xE3;o abrindo caminho&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B7">CERTEAU, 1998, p. 35</xref>). A delimita&#xE7;&#xE3;o do campo, no entanto e apesar da vigorosa proposta metodol&#xF3;gica de Certeau, n&#xE3;o &#xE9; algo simples. Como bem lembrou Peter Burke, citando Norbert Elias, do ponto de vista das ci&#xEA;ncias sociais, &#x201C;a no&#xE7;&#xE3;o de cotidiano &#xE9; menos precisa e mais complicada do que parece. Elias distingue oito significados atuais do termo, desde a vida privada at&#xE9; o mundo das pessoas comuns&#x201D;. O historiador continua, sinalizando para o fato de que</p> <disp-quote>
<p>Igualmente dif&#xED;cil de descrever ou analisar &#xE9; a rela&#xE7;&#xE3;o entre as estruturas do cotidiano e a mudan&#xE7;a. Visto de seu interior, o cotidiano parece eterno. O desafio para o historiador social &#xE9; mostrar como ele de fato faz parte da hist&#xF3;ria, relacionar a vida cotidiana aos grandes acontecimentos, como a Reforma ou a Revolu&#xE7;&#xE3;o Francesa, ou a tend&#xEA;ncias de longo prazo, como a ocidentaliza&#xE7;&#xE3;o ou a ascens&#xE3;o do capitalismo. O famoso soci&#xF3;logo Max Weber criou um termo famoso que pode ser &#xFA;til aqui: &#x201C;rotiniza&#xE7;&#xE3;o&#x201D; (<italic>Verallt&#xE4;glichung</italic>, literalmente &#x201C;cotidianiza&#xE7;&#xE3;o&#x201D;). Um foco de aten&#xE7;&#xE3;o para os historiadores sociais poderia ser o processo de intera&#xE7;&#xE3;o entre acontecimentos importantes e as tend&#xEA;ncias por um lado, e as estruturas da vida cotidiana por outro (<xref ref-type="bibr" rid="B5">BURKE, 1992, p. 23</xref>).</p></disp-quote>
<p>Burke considera, portanto, o cotidiano como um objeto dentro do amplo espectro da Hist&#xF3;ria Social. Nesse sentido, o desafio seria justamente refletir sobre a articula&#xE7;&#xE3;o entre os grandes acontecimentos e a rotiniza&#xE7;&#xE3;o da vida; a estrutura e a mudan&#xE7;a; o eterno e o repetitivo de um lado e o instante e a ruptura de outro. Assim, caberia a pergunta: existe, como campo ou como &#xE1;rea de estudos uma <italic>Hist&#xF3;ria do Cotidiano</italic>? Se existe, como e de qu&#xEA; ela se constitui? Luis Castells nos lembra que &#x201C;no existe una corriente que se englobe tras esta denominaci&#xF3;n, con la excepci&#xF3;n de Alemania, donde el movimiento <italic>Al1tagsgeschichte</italic> se ha constituido como un referente de aquella historiografia&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B6">CASTELLS, 1995, p. 11</xref>).</p>
<p>Na Alemanha, desde pelo menos a d&#xE9;cada de 1970, historiadores como Richard van D&#xFC;lmen, Hans Medick, Alf L&#xFC;dtke ou Dorothee Wierling v&#xEA;m encarando, &#x201C;o desafio de fundar uma antropologia hist&#xF3;rica&#x201D;, a qual por sua vez, se distancia do estruturalismo, dando lugar &#xE0; subjetividade dos atores e &#xE0;s suas experi&#xEA;ncias pessoais. Da&#xED; a apropria&#xE7;&#xE3;o do conceito de <italic>habitus</italic> caro a Pierre Bourdieu, que concilia determina&#xE7;&#xF5;es sociais e oportunidades de desenvolvimento individual. Isso explica tamb&#xE9;m a prefer&#xEA;ncia, por exemplo, por estudos que se concentram em processos locais e regionais, bairros ou at&#xE9; mesmo algumas fam&#xED;lias. &#xC9; sob este aspecto que a <italic>Alltagsgeschichte</italic> alem&#xE3; se aproxima e dialoga com a micro-hist&#xF3;ria praticada na It&#xE1;lia por Giovanni Levi e Carlo Ginzburg (<xref ref-type="bibr" rid="B13">LE MOIGNE, 2005, p. 30</xref>).</p>
<p>Analisando os processos a partir dos quais a <italic>Alltagsgeschichte</italic> tomou corpo na academia da Rep&#xFA;blica Federal da Alemanha ao longo da d&#xE9;cada de 1970, Nicolas Le Moigne explica que, no contexto alem&#xE3;o daquele per&#xED;odo, tais premissas n&#xE3;o estavam isentas de &#x201C;implica&#xE7;&#xF5;es universit&#xE1;rias e mesmo pol&#xED;ticas&#x201D;. Tamb&#xE9;m Alf L&#xFC;dtke, um dos grandes expoentes da <italic>Alltagsgeschichte</italic> alem&#xE3;, reconhece que em fins dos anos 1970, formaram-se na RFA, grupos locais, preocupados com a <italic>Geschichte von unten</italic> (<italic>Hist&#xF3;ria dos de baixo</italic>) e com a <italic>Geschichte vor Ort</italic> (<italic>Hist&#xF3;ria local</italic>). Para o historiador, tais iniciativas partiam, frequentemente, dos fortes conflitos surgidos a partir de 1968 em centros de ensino, em meios burocr&#xE1;ticos de conforma&#xE7;&#xE3;o de pol&#xED;ticas culturais e outros espa&#xE7;os p&#xFA;blicos em torno do tema de um novo ensino de Hist&#xF3;ria (<xref ref-type="bibr" rid="B15">L&#xDC;DTKE, 1995, p. 54</xref>). Assim, se na Fran&#xE7;a an&#xE1;lises de micro-hist&#xF3;ria encontraram espa&#xE7;o prop&#xED;cio para se desenvolver no &#xE2;mbito de uma Hist&#xF3;ria Social que se renovava, o mesmo n&#xE3;o se passou na Alemanha com a <italic>Alltagsgeschichte</italic>: determinados historiadores passaram a &#x201C;acusar os defensores da <italic>Alltag</italic> de fazerem pouco da tradi&#xE7;&#xE3;o iluminista, colocando emo&#xE7;&#xF5;es e subjetividades no cora&#xE7;&#xE3;o da an&#xE1;lise hist&#xF3;rica&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">LE MOIGNE, 2005, p. 31</xref>).</p>
<p>Sobre a <italic>Alltagsgeschichte</italic> alem&#xE3;, L&#xFC;dtke explica:</p> <disp-quote>
<p>La <italic>Alltagsgeschichte</italic> no es una disciplina especial. Se trata m&#xE1;s bien de un enfoque espec&#xED;fico del pasado. Este punto de vista no se limita a las &#x2018;acciones de los dirigentes y de hombres de Estado&#x2019; tal y como se hac&#xED;a predominantemente en la historia pol&#xED;tica y militar de antes. Por otro lado, esta visi&#xF3;n de las experiencias y actuaciones del pasado no se reduce tampoco a coacciones an&#xF3;nimas de mecanismos estructurales. En el centro se encuentra m&#xE1;s bien la conducta diaria de los hombres: tanto los prominentes como los supuestamente an&#xF3;nimos son considerados como actores hist&#xF3;ricos. Se reconstruyen las formas de la pr&#xE1;ctica en las que los hombres se &#x2018;apropiaban&#x2019; de las situaciones en las que se encontraban.</p>
<p>Este enfoque insiste en que cada hombre y cada mujer ha &#x2018;hecho historia&#x2019; diariamente (<xref ref-type="bibr" rid="B15">L&#xDC;DTKE, 1995, p. 50</xref>).</p></disp-quote>
<p>Nesse sentido, a <italic>Alltagsgeschichte</italic>, embora tribut&#xE1;ria em alguma medida desta se afasta da <italic>History from below</italic> inglesa(<xref ref-type="bibr" rid="B15">L&#xDC;DTKE, 1995, p. 54</xref>). O conceito remete &#xE0;s quest&#xF5;es da reprodu&#xE7;&#xE3;o da vida dos indiv&#xED;duos an&#xF4;nimos ou n&#xE3;o, de origem popular ou das elites, buscando na din&#xE2;mica entre as esferas p&#xFA;blica e privada elementos que possam contribuir para a compreens&#xE3;o dos modos de pensar e agir das pessoas em seu cotidiano. Nesse sentido, a amplitude do conceito pode resultar em problemas de delimita&#xE7;&#xE3;o do objeto ou da natureza mesma da <italic>Hist&#xF3;ria do Cotidiano</italic>. Luis Castells chama aten&#xE7;&#xE3;o para o fato de que:</p> <disp-quote>
<p>Buena parte de sus problemas a la hora de precisar lo que se entiende por historia de la vida cotidiana deriva de su imprecisi&#xF3;n, de sus vagos contornos, as&#xED; como de su escasa teorizaci&#xF3;n, cuando menos desde la perspectiva de los historiadores (<xref ref-type="bibr" rid="B6">CASTELLS, 1995, p. 11</xref>).</p></disp-quote>
<p>N&#xE3;o obstante, Castells relembra tamb&#xE9;m que tais problemas s&#xE3;o inerentes ao pr&#xF3;prio campo da Hist&#xF3;ria Social. O que n&#xE3;o se pode perder de vista quando se trata deste objeto ou campo de estudos, supostamente de contornos imprecisos, &#xE9; justamente suas rela&#xE7;&#xF5;es com o p&#xFA;blico. Dedicando-se ao estudo dos aspectos talvez mais triviais do dia-a-dia dos atores sociais, a Hist&#xF3;ria do Cotidiano n&#xE3;o pode, no entanto, ser pensada separadamente da esfera pol&#xED;tica. Ao contr&#xE1;rio, ao centrar as aten&#xE7;&#xF5;es no quadro <italic>microssocial</italic>, os historiadores do cotidiano concebem a hist&#xF3;ria como um processo <italic>multidirecional</italic>, em constante transforma&#xE7;&#xE3;o, em uma tentativa de apreender em sua complexidade os comportamentos coletivos (KOSLOV, 2010).</p>
<p>Ainda sobre a corrente alem&#xE3;, Le Moigne explica que a <italic>Alltagsgeschichte</italic> deu prioridade a tr&#xEA;s campos de pesquisa: em primeiro lugar, os &#x201C;par&#xE2;metros gerais da vida humana&#x201D; que tendiam a ser considerados &#x201C;a-hist&#xF3;ricos&#x201D; na Alemanha: a sexualidade, o nascimento, as doen&#xE7;as, o amor, a morte; depois, ela se ocupou dos meios desenvolvidos pelos homens para gerir seu cotidiano: o vestu&#xE1;rio, a habita&#xE7;&#xE3;o, nutri&#xE7;&#xE3;o e o trabalho. Por fim, a Hist&#xF3;ria do Cotidiano voltou-se para os comportamentos e as formas de adapta&#xE7;&#xE3;o em situa&#xE7;&#xF5;es excepcionais, notadamente a Guerra, a crise econ&#xF4;mica, as priva&#xE7;&#xF5;es de liberdade, as ditaduras (<xref ref-type="bibr" rid="B13">LE MOIGNE, 2005, p. 32</xref>).</p>
<p>Aplicado ao caso do nazismo, a Hist&#xF3;ria do Cotidiano ajudava a melhor perceber a atra&#xE7;&#xE3;o que o regime exerceu sobre a sociedade e as maneiras a partir das quais as &#x201C;emo&#xE7;&#xF5;es se combinaram com interesses materiais e necessidades individuais durante o processo que possiblitou que a pol&#xED;tica de destrui&#xE7;&#xE3;o e persegui&#xE7;&#xE3;o nazista fosse colocada em marcha&#x201D; (KOSLOV, 2010). Em 1989, Alf L&#xFC;dtke publicava na Alemanha um trabalho com uma s&#xE9;rie de estudos sobre Hist&#xF3;ria do Cotidiano<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>. Especificamente no que concernia ao per&#xED;odo do nazismo, o autor evocava algumas vezes o sofrimento dos atores e a necessidade por parte do historiador de elaborar &#x2013; social e historicamente &#x2013; tal sofrimento. N&#xE3;o obstante, no caso do nazismo, compreender as pen&#xFA;rias impostas pelo regime significava igualmente refletir sobre os comportamentos que as produziram ou que, de maneira mais recorrente, ao menos coexistiram com elas. Tratava-se de compreender aquilo que o autor chamou de <italic>fascismo comum</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B19">REVEL, 1995, p. 805-808</xref>).</p>
<p>N&#xE3;o obstante, L&#xFC;dtke reconhecia as dificuldades e controv&#xE9;rsias que as propostas da <italic>Alltagsgeschichte</italic> poderiam suscitar especificamente quando dedicadas a refletir sobre o nazismo (<xref ref-type="bibr" rid="B14">L&#xDC;DTKE, 1994, p. 2</xref>). Sob este aspecto, &#xE9; fundamental nos colocarmos diante das quest&#xF5;es levantadas por Detlev J.K. Peukert tamb&#xE9;m para o caso alem&#xE3;o:</p> <disp-quote>
<p>podemos, ou mesmo devemos, falar de &#x201C;vida cotidiana&#x201D; em uma era que, para as v&#xED;timas de persegui&#xE7;&#xE3;o e guerra, significou um perp&#xE9;tuo estado de emerg&#xEA;ncia? Em face da monstruosidade dos crimes do nacional-socialismo, n&#xE3;o dever&#xED;amos ficar em sil&#xEA;ncio sobre as rotinas di&#xE1;rias banais da maioria que n&#xE3;o sente que foi afetada ou envolvida? (<xref ref-type="bibr" rid="B18">PEUKERT, 1987, p. 21</xref>)</p></disp-quote>
<p>Assim, se a &#xEA;nfase nos estudos dos fatos da vida cotidiana sob um regime criminoso pode colocar o historiador diante de importante quest&#xE3;o &#xE9;tica, o mesmo Peukert nos lista uma s&#xE9;rie de raz&#xF5;es pelas quais o estudo de um regime autorit&#xE1;rio &#x2013; o nazismo, no caso &#x2013; sob a perspectiva da Hist&#xF3;ria do Cotidiano pode tamb&#xE9;m fornecer bases interessantes para uma historiografia cr&#xED;tica, na medida em que retira o seu objeto de interesse justamente das contradit&#xF3;rias e complexas experi&#xEA;ncias da &#x201C;gente comum&#x201D;.</p>
<p>Tamb&#xE9;m Alf L&#xFC;dtke defende que</p> <disp-quote>
<p>apenas um estudo detalhado dos comportamentos e das tomadas de consci&#xEA;ncia individuais pode identificar as contradi&#xE7;&#xF5;es com as quais lideram indiv&#xED;duos e grupos sociais sob o nazismo. Assim, pode-se entender o funcionamento do movimento de massas que esteve na origem do triunfo e da manuten&#xE7;&#xE3;o do regime nacional-socialista (<xref ref-type="bibr" rid="B12">KOTT; L&#xDC;DTKE, 1991, p. 153</xref>).</p></disp-quote>
<p>Mas, as reflex&#xF5;es em torno da vida cotidiana sob regimes autorit&#xE1;rios no s&#xE9;culo XX n&#xE3;o ficaram, evidentemente, restritas ao caso alem&#xE3;o. A historiografia sobre tais experi&#xEA;ncias vem passando por um processo de renova&#xE7;&#xE3;o desde pelo menos as d&#xE9;cadas de 1970 e 1980 na Europa e, mais recentemente, processo similar se verifica para o caso da Am&#xE9;rica Latina. Nesse sentido, o trabalho com categorias como <italic>mem&#xF3;ria, opini&#xE3;o, consenso, consentimento</italic> e <italic>resist&#xEA;ncia</italic> t&#xEA;m sido fundamentais para compreender os regimes autorit&#xE1;rios do s&#xE9;culo XX, em suas mais diversas ess&#xEA;ncias e temporalidades em ambos os continentes. No mesmo movimento, o <italic>cotidiano</italic> foi tomado como objeto, interrogando sobre a pluralidade das atitudes coletivas e sobre as formas a partir das quais se teceram as rela&#xE7;&#xF5;es sociais em seus ambientes cotidianos, moldadas pelos pressupostos dos Estados autorit&#xE1;rios que as governavam.</p>
<p>Assim, &#xE9; importante destacar, dentre tantos outros, o estudo realizado por Sheila Fitzpatrick sobre a vida cotidiana sob o stalinismo. Nele, a autora avalia que existem in&#xFA;meras teorias sobre a forma de se escrever a hist&#xF3;ria da vida cotidiana. Algumas delas consideram que o <italic>cotidiano</italic> abrange essencialmente a esfera da vida privada: a fam&#xED;lia, o lar, a educa&#xE7;&#xE3;o das crian&#xE7;as, os lazeres, as rela&#xE7;&#xF5;es de amizade e a sociabilidade. Outros voltam suas aten&#xE7;&#xF5;es para o mundo do trabalho, os comportamentos e atitudes nos locais de trabalho. J&#xE1; os especialistas da vida cotidiana sob regimes autorit&#xE1;rios se interessaram principalmente pelas diferentes formas de resist&#xEA;ncia &#x2013; ativa ou passiva &#x2013; elaboradas pelos cidad&#xE3;os ou pela quest&#xE3;o da <italic>resist&#xEA;ncia cotidiana</italic>, no campo ou nas cidades (<xref ref-type="bibr" rid="B9">FITZPATRICK, 2002, p. 13</xref>).</p>
<p>&#xC9; o que ocorre, por exemplo, no caso do Brasil, onde apenas muito recentemente verifica-se um processo de renova&#xE7;&#xE3;o historiogr&#xE1;fica que busca refletir sobre a ditadura como um processo de constru&#xE7;&#xE3;o social<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref>. No que se refere aos debates a respeito das reflex&#xF5;es sobre o cotidiano e, especificamente, sobre as problem&#xE1;ticas em torno da articula&#xE7;&#xE3;o entre uma reflex&#xE3;o sobre as possibilidades de uma Hist&#xF3;ria do cotidiano sob ditaduras, os trabalhos existentes retomam, em primeiro plano, as quest&#xF5;es que envolvem o dia-a-dia dos grupos de resist&#xEA;ncia e oposi&#xE7;&#xE3;o ao regime.</p>
<p>Neste caso, trabalho pioneiro foi a reflex&#xE3;o desenvolvida por Maria Herm&#xED;nia Tavares e Luiz Weiz a respeito do cotidiano de oposi&#xE7;&#xE3;o da classe m&#xE9;dia brasileira durante a ditadura e que comp&#xF5;e o volume 4 da colet&#xE2;nea <italic>Hist&#xF3;ria da vida privada no Brasil</italic>. Os autores estudaram especificamente setores a que chamaram &#x201C;classe m&#xE9;dia intelectualizada&#x201D;: &#x201C;estudantes politicamente ativos, professores universit&#xE1;rios, profissionais liberais, artistas, jornalistas, publicit&#xE1;rios, etc&#x201D; e a vasta gama de comportamentos que definiam a oposi&#xE7;&#xE3;o durante a ditadura (<xref ref-type="bibr" rid="B21">TAVARES; WEIZ, 1998, p. 327-328</xref>).</p>
<p>Tavares e Weiz chamam aten&#xE7;&#xE3;o, nesse sentido, para os diferentes modos de se relacionar com o espa&#xE7;o urbano que a clandestinidade impunha: o isolamento social em alguns casos, as dificuldades por parte das fam&#xED;lias de jovens militantes em &#x201C;retomar uma exist&#xEA;ncia cotidiana regular&#x201D; e, por fim, a transforma&#xE7;&#xE3;o do medo e da inseguran&#xE7;a em &#x201C;sensa&#xE7;&#xF5;es b&#xE1;sicas cotidianas e comuns a quem quer que tenha feito oposi&#xE7;&#xE3;o &#xE0; ditadura, marcando a fundo a vida privada dos oposicionistas&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B21">TAVARES; WEIZ, 1998, p. 328</xref>).</p>
<p>&#xC9; importante, no entanto, considerar que n&#xE3;o foi apenas a vida cotidiana da oposi&#xE7;&#xE3;o &#xE0; ditadura que sofreu profunda altera&#xE7;&#xE3;o. Tampouco as sensa&#xE7;&#xF5;es de medo e inseguran&#xE7;a ficaram restritas a tais meios. Ao contr&#xE1;rio, a tem&#xE1;tica da viol&#xEA;ncia pol&#xED;tica e a sensa&#xE7;&#xE3;o de que se <italic>poderia</italic> estar sob vigil&#xE2;ncia teria caracterizado o dia-a-dia de parcelas muito mais expressivas da sociedade e n&#xE3;o apenas daqueles que se opuseram ao regime. A pr&#xF3;pria Doutrina de Seguran&#xE7;a Nacional (DSN), que ao fim forneceu a justificativa para o golpe e para a manuten&#xE7;&#xE3;o da ditadura, ao operar a partir de no&#xE7;&#xF5;es como as de <italic>guerra permanente</italic> e <italic>guerra total</italic>, contribu&#xED;a de forma expressiva para moldar a vida cotidiana sob a ditadura. O dia-a-dia do &#x201C;cidad&#xE3;o comum&#x201D; foi, dessa maneira, invadido por tais no&#xE7;&#xF5;es e estes incorporaram, sob muitos aspectos, a ess&#xEA;ncia da DSN, a qual residia mesmo &#x201C;no enquadramento da sociedade nas exig&#xEA;ncias de uma guerra interna, f&#xED;sica e psicol&#xF3;gica, de caracter&#xED;stica anti-subversiva contra o inimigo comum&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B4">BORGES, 2007, p. 29</xref>).</p>
<p>N&#xE3;o obstante e de maneira geral, se em um primeiro momento a ideia de tomar o <italic>cotidiano</italic> sob regimes autorit&#xE1;rios como objeto esteve vinculada &#xE0;s possibilidades de ampliar os estudos sobre as diversas formas de <italic>resist&#xEA;ncia</italic>, trabalhos mais recentes v&#xEA;m propondo transcender este &#xE2;mbito. Ainda de acordo com Fitzpatrick, tais an&#xE1;lises buscam &#x201C;dar &#xEA;nfase &#xE0;s pr&#xE1;ticas, ou seja, &#xE0;s formas de comportamento e estrat&#xE9;gias pessoais elaboradas para fazer face &#xE0; condi&#xE7;&#xF5;es sociais e pol&#xED;ticas particulares&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B9">FITZPATRICK, 2002, p. 14</xref>).</p>
<p>Sobre tais pr&#xE1;ticas e estrat&#xE9;gias, talvez seja interessante ter em vista, de um ponto de vista te&#xF3;ricometodol&#xF3;gico, aquilo que o historiador Andrew Stuart Bergerson observa para o caso alem&#xE3;o. Em seu estudo sobre <italic>alem&#xE3;es comuns em tempos incomuns</italic>, que toma como base as rela&#xE7;&#xF5;es de vizinhan&#xE7;a e em outros espa&#xE7;os cotidianos na cidade de Hildesheim, Bergerson busca compreender justamente &#x201C;como pessoas comuns buscaram manter uma cultura de normalidade enquanto, n&#xE3;o obstante, transformavam <italic>amigos</italic> e <italic>vizinhos</italic> em <italic>judeus</italic> e <italic>arianos</italic>&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BERGERSON, 2004, p. 6</xref>)<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref>. Por &#x201C;cultura de normalidade&#x201D;, o historiador explica que n&#xE3;o se refere a um estado natural, mas a um subproduto da cultura humana: &#x201C;uma experi&#xEA;ncia gerada por uma forma espec&#xED;fica de ser, acreditar e se comportar&#x201D;. Nesse sentido, a cultura de normalidade fornece os elementos a partir dos quais as pessoas comuns se autodefinem como tais, tendo em vista ideias de impot&#xEA;ncia e insignific&#xE2;ncia, refor&#xE7;ando a constru&#xE7;&#xE3;o de uma percep&#xE7;&#xE3;o sobre si mesmo que os aparta da Hist&#xF3;ria com H mai&#xFA;sculo, mas que, de fato, apenas os habilita a &#x201C;moldar a hist&#xF3;ria&#x201D; enquanto os envolve em uma autoilus&#xE3;o de inoc&#xEA;ncia (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BERGERSON, 2004, p. 6</xref>).</p>
<p>Sob este aspecto e como a ideia de <italic>homem comum</italic> ou de uma <italic>vida ordin&#xE1;ria</italic> est&#xE3;o presentes e ligadas de certa maneira &#xE0;s possibilidades e questionamentos em torno da Hist&#xF3;ria do Cotidiano, &#xE9; importante destacar que tais termos s&#xE3;o entendidos aqui de maneira similar &#xE0; proposta de Bergerson e relaciona-se, antes de tudo, &#xE0; uma autoimagem ou autodefini&#xE7;&#xE3;o de si mesmos. Assim, para o autor, o termo <italic>comum</italic><xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref> <italic>serve</italic></p> <disp-quote>
<p>n&#xE3;o tanto para descrever um conjunto de pessoas que permaneceram fora dos c&#xED;rculos do poder p&#xFA;blico e da responsabilidade hist&#xF3;rica. Ser comum era engajar-se em uma estrat&#xE9;gia cultural espec&#xED;fica de sobreviv&#xEA;ncia. Uma resposta criativa &#xE0;s r&#xE1;pidas e perturbadoras transforma&#xE7;&#xF5;es hist&#xF3;ricas, essa forma de comportamento foi caracteristicamente moderna, mais que especificamente alem&#xE3;, um h&#xE1;bito de vida di&#xE1;rio (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BERGERSON, 2004, p. 6</xref>).</p></disp-quote>
<p>Por fim, o que pretendemos ao propor este dossi&#xEA; tem&#xE1;tico, considerando os pressupostos e as discuss&#xF5;es em torno da chamada <italic>Hist&#xF3;ria do Cotidiano</italic>, foi chamar aten&#xE7;&#xE3;o para as possibilidades &#x2013; e os limites &#x2013; de se tomar como objeto de estudos a vida cotidiana sob regimes autorit&#xE1;rios e/ou situa&#xE7;&#xF5;es de guerra no s&#xE9;culo XX.</p>
<p>Nesse sentido, indagamos sobre como as vidas de pessoas n&#xE3;o implicadas diretamente nos embates pol&#xED;ticos em quest&#xE3;o foram modificadas &#x2013; ou n&#xE3;o &#x2013; por eles. Mais que isso, como estas pessoas perceberam, reagiram e se adaptaram a tais regimes em seus espa&#xE7;os de viv&#xEA;ncia cotidiana. Como segmentos sociais diversos lideram com os regimes pol&#xED;ticos em quest&#xE3;o, <italic>naturalizando</italic>, em n&#xED;veis distintos, suas pr&#xE1;ticas e linguagem pr&#xF3;prias? Quais comportamentos e &#x201C;estrat&#xE9;gias pessoais&#x201D; utilizados diante das novas situa&#xE7;&#xF5;es? Por outro, consideramos importante tamb&#xE9;m pensar atores n&#xE3;o t&#xE3;o &#x201C;comuns&#x201D; e seus espa&#xE7;os cotidianos: meios de comunica&#xE7;&#xE3;o, participantes de organiza&#xE7;&#xF5;es armadas, &#xED;dolos musicais. Como veremos nas p&#xE1;ginas que seguem, o conceito de cotidiano &#xE9; ampliado, enriquecendo os questionamentos aqui apresentados.</p>
<p>Esta edi&#xE7;&#xE3;o conta com quinze artigo, tr&#xEA;s resenhas e duas entrevistas. Abrindo o dossi&#xEA;, o artigo de Fernando Perlatto &#x201C;Svetlana Aleksi&#xE9;vitch, a Grande Utopia e o cotidiano: testemunhos e mem&#xF3;rias do Homo Sovieticus&#x201D;, analisa a obra da escritora bielorrussa a partir da reflex&#xE3;o da vida cotidiana dos homens e mulheres &#x201C;comuns&#x201D; ao longo dos anos de autoritarismo sovi&#xE9;tico. A autora contribui para pensarmos a rela&#xE7;&#xE3;o entre grandes acontecimentos e a vida cotidiana do &#x201C;Homo Sovieticus&#x201D;. Por sua vez, Daniel Lvovich em seu texto &#x201C;Vida cotidiana y dictadura militar en la Argentina: Un balance historiogr&#xE1;fico&#x201D; faz um levantamento e uma an&#xE1;lise dos estudos que tomam como objeto a quest&#xE3;o do cotidiano durante a &#xFA;ltima ditadura militar argentina (1976-1983).</p>
<p>Em &#x201C;Mortes no mar, dor na terra. Brasileiros atingidos pelo ataque do submarino alem&#xE3;o U-507 (agosto de 1942)&#x201D;, o terceiro artigo de nosso dossi&#xEA;, Jorge Ferreira parte do ataque de retalia&#xE7;&#xE3;o do governo nazista a navios brasileiros para trabalhar as rea&#xE7;&#xF5;es das v&#xED;timas e seus familiares sobre o referido epis&#xF3;dio a partir de cartas publicadas em jornais. Tamb&#xE9;m no contexto da d&#xE9;cada 1940, mas em Portugal, Carla Ribeiro em &#x201C;A educa&#xE7;&#xE3;o est&#xE9;tica da Na&#xE7;&#xE3;o e a &#x201C;Campanha do Bom Gosto&#x201D; de Ant&#xF3;nio Ferro (1940-1949)&#x201D; analisa a iniciativa cultural durante o Estado Novo e sua proposta de criar uma consci&#xEA;ncia est&#xE9;tica entre os portugueses, assim como as marcas que essa campanha deixou na identidade do pa&#xED;s no s&#xE9;culo XX.</p>
<p>Os artigos de Lorena Soler e Diogo Cunha trabalham o cotidiano e quest&#xF5;es de sociabilidade no contexto sul-americano: em &#x201C;Sociabilidad y vida cotidiana. Los rituales del festejo de amistad durante el stronismo en Paraguay&#x201D;, a autora tamb&#xE9;m utiliza a imprensa como caminho de an&#xE1;lise das formas de recrea&#xE7;&#xE3;o cotidianas que geravam ades&#xF5;es ao autoritarismo stronista, com foco na organiza&#xE7;&#xE3;o civil Cruzada Mundial de la Amistad, apoiada pelo regime J&#xE1; Diogo Cunha em &#x201C;Sociabilidade, mem&#xF3;rias e valores compartilhados: o cotidiano na Academia Brasileira de Letras durante a ditadura militar atrav&#xE9;s da Revista da Academia Brasileira de Letras&#x201D; prop&#xF5;e, atrav&#xE9;s da an&#xE1;lise da revista citada no t&#xED;tulo, pensar como esta institui&#xE7;&#xE3;o pode ter servido como espa&#xE7;o de legitima&#xE7;&#xE3;o da &#xFA;ltima ditadura em nosso pa&#xED;s. O autor destaca a intensa sociabilidade entre os membros da ABL e representantes do regime como parte desta legitima&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Nina Schneider tamb&#xE9;m trabalha o regime brasileiro em &#x201C;Propaganda ditatorial e invas&#xE3;o do cotidiano: a ditadura militar em perspectiva comparada&#x201D;. A historiadora prop&#xF5;e uma reflex&#xE3;o sobre os impactos da propaganda governamental no cotidiano sob ditadura, assim como os limites no respeito &#xE0; vida privada por parte do regime. Para a autora, diferente dos casos do varguismo e do nazismo, a &#xFA;ltima ditadura brasileira n&#xE3;o procurou politizar e mobilizar a sociedade atrav&#xE9;s da propaganda.</p>
<p>Os trabalhos que seguem de Marcos Napolitano e Rodrigo Patto S&#xE1; Motta t&#xEA;m como foco a an&#xE1;lise da grande imprensa como ator durante a ditadura civilmilitar no Brasil. Em &#x201C;A imprensa e a constru&#xE7;&#xE3;o da mem&#xF3;ria do regime militar brasileiro (1965-1985)&#x201D;, Napolitano parte da an&#xE1;lise desse ator para pensar o cotidiano ditatorial. Analisando os editoriais de quatro jornais da grande m&#xED;dia (<italic>O Estado de S&#xE3;o Paulo</italic>, <italic>Folha de S&#xE3;o Paulo</italic>, <italic>Jornal do Brasil</italic> e <italic>O Globo</italic>) no anivers&#xE1;rio do Golpe de 1964, o autor trabalha com a hip&#xF3;tese de que foi a linhagem ideol&#xF3;gica, das guinadas e revis&#xF5;es da mem&#xF3;ria liberal sobre o regime presente nestes editoriais, que definiu as bases da mem&#xF3;ria hegem&#xF4;nica de &#x201C;resist&#xEA;ncia democr&#xE1;tica&#x201D; sobre o per&#xED;odo. J&#xE1; Rodrigo Motta prop&#xF5;e em seu trabalho &#x201C;Entre a liberdade e a ordem: o jornal <italic>O Estado de S&#xE3;o Paulo</italic> e a ditadura (1969-1973)&#x201D; pensar as representa&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas divulgadas pelo citado jornal para tentar compreender suas estrat&#xE9;gias frente &#xE0; ditadura que, segundo o autor, variaram entre a ades&#xE3;o e a acomoda&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Retornando &#xE0; Argentina em &#x201C;Vida cotidiana, violencia pol&#xED;tica y represi&#xF3;n. La Argentina de los a&#xF1;os setenta y de la post-dictadura a partir del Archivo Marshall T. Meyer&#x201D;, Sebasti&#xE1;n Carassai parte de um arquivo pessoal para analisar as diversas experi&#xEA;ncias da sociedade do pa&#xED;s no contexto de viol&#xEA;ncia pol&#xED;tica dos anos 1970 e 1980, incluindo o p&#xF3;s-ditadura. Com uma interessante variedade de fontes o autor reflete sobre a partir da experi&#xEA;ncia concreta de uma comunidade judia de classe m&#xE9;dia em Buenos Aires.</p>
<p>No artigo que segue, Ana Maria Mauad trabalha as &#xFA;ltimas ditaduras na Am&#xE9;rica do Sul em um contexto regional, a partir da an&#xE1;lise de imagens particulares. &#x201C;Imagens que faltam, imagens que sobram: pr&#xE1;ticas visuais e cotidiano em regimes de exce&#xE7;&#xE3;o 1960-1980&#x201D; vai do contexto privado das fotografias familiares e sua migra&#xE7;&#xE3;o para o espa&#xE7;o p&#xFA;blico e prop&#xF5;e a discuss&#xE3;o do papel da fotografia na elabora&#xE7;&#xE3;o da imagina&#xE7;&#xE3;o civil na contemporaneidade. Tamb&#xE9;m no campo das manifesta&#xE7;&#xF5;es culturais, &#x201C;Entre a pol&#xED;tica e o prazer: ditadura, arte e bo&#xEA;mia atrav&#xE9;s do filme &#x201C;Garota de Ipanema&#x201D; (Leon Hirszman, 1967)&#x201D;, de Carlos Eduardo Pinto de Pinto, o autor usa a obra cinematogr&#xE1;fica citada para analisar as tens&#xF5;es entre pol&#xED;tica e prazer no cotidiano do Rio de Janeiro no &#xFA;ltimo per&#xED;odo ditatorial, trazendo ao debate imagin&#xE1;rios como a boemia, a arte e a despolitiza&#xE7;&#xE3;o na &#xE9;poca.</p>
<p>J&#xE1; o artigo de Cl&#xE1;udia Cristina da Silva Fontineles: &#x201C;O cen&#xE1;rio esportivo como arena de disputas pol&#xED;ticas: entre a mem&#xF3;ria recitada e o apagamento de rastros&#x201D; utiliza uma vasta sele&#xE7;&#xE3;o de fontes hist&#xF3;ricas para discutir que papel nas disputas entre dois grupos pol&#xED;ticos majorit&#xE1;rios tiveram o est&#xE1;dio de futebol &#x201C;Albert&#xE3;o&#x201D; e o time de futebol Tiradentes no Piau&#xED;, entre as d&#xE9;cadas de 1970 e 1980. O artigo aponta as disputas de mem&#xF3;rias entre as m&#xFA;ltiplas leituras do espa&#xE7;o esportivo feitas por aliados como parte da euforia desenvolvimentista e por opositores pelo uso como reafirma&#xE7;&#xE3;o da presen&#xE7;a do governo de Alberto Silva (1971-1975).</p>
<p>Em mais um trabalho que tem a imprensa como objeto de an&#xE1;lise, Natani&#xE9;l dal Moro utiliza o peri&#xF3;dico <italic>Correio do Estado</italic> para abordar conflitos de classe no artigo intitulado &#x201C;Conflitos entre elite e povo comum na cidade de Campo Grande (d&#xE9;cadas de 1960-70)&#x201D;. O autor destaca que as mat&#xE9;rias produzidas pelo peri&#xF3;dico representam um discurso pr&#xF3;prio do mesmo, e por isso um interessante meio de an&#xE1;lise dos conflitos cotidianos da cidade.</p>
<p>Finalmente, o trabalho de Gustavo Alves Alonso Ferreira: &#x201D;Os Vandr&#xE9;s do sert&#xE3;o: M&#xFA;sica sertaneja, ufanismo e reconstru&#xE7;&#xF5;es da mem&#xF3;ria na redemocratiza&#xE7;&#xE3;o&#x201D;, fecha a se&#xE7;&#xE3;o de artigos desse dossi&#xEA;. Alonso discute a imagem de apoiadores da ditadura que carregam os artistas sertanejos. Se por um lado muitos deles de fato apoiaram a ditadura em determinado momento, como tantos outros artistas de g&#xEA;neros musicais distintos, no per&#xED;odo da redemocratiza&#xE7;&#xE3;o os sertanejos se engajaram no processo de transi&#xE7;&#xE3;o, o que parece &#x201C;esquecido&#x201D; nas disputas de mem&#xF3;ria.</p>
<p>Essa edi&#xE7;&#xE3;o conta com tr&#xEA;s resenhas. A primeira delas, feita por Maur&#xED;cio Santoro, intitulada &#x201C;Mem&#xF3;ria familiar, identidade e ditadura&#x201D;, sobre a obra <italic>A Resist&#xEA;ncia</italic>, de Julian Fuks (Companhia das Letras, 2015). Em &#x201C;A casa dos horrores e seus agentes: o DOI-Codi de S&#xE3;o Paulo e o trabalho sujo na ditadura&#x201D;, Laurindo Mekie Pereira resenha o livro <italic>Na casa da vov&#xF3; &#x2013; Tempos da ditadura (o que vi e vivi)</italic> (Revan, 2015), de Francisco Ant&#xF4;nio Doria. Finalmente, a obra <italic>Sinais de Fuma&#xE7;a na Cidade: uma sociologia da clandestinidade na luta contra a ditadura no Brasil</italic> (Lamparina, 2015), de Henri Acselrad, deu origem &#xE0; resenha &#x201C;O Cotidiano sob a Ditadura Civil-militar: o espa&#xE7;o de intera&#xE7;&#xE3;o entre a milit&#xE2;ncia clandestina e os habitantes do sub&#xFA;rbio&#x201D;, de Keila Auxiliadora Carvalho.</p>
<p>Fechando o dossi&#xEA;, duas entrevistas que trazem como tema diferentes experi&#xEA;ncias autorit&#xE1;rias no s&#xE9;culo XX. A primeira delas realizada por L&#xED;via Gon&#xE7;alves Magalh&#xE3;es com a cientista pol&#xED;tica Pilar Calveiro, argentina sobrevivente de centros clandestinos de deten&#xE7;&#xE3;o durante a &#xFA;ltima ditadura civil-militar argentina. Vivendo no M&#xE9;xico desde seu ex&#xED;lio em 1979, Calveiro possui diversos trabalhos que procuram entender o cotidiano autorit&#xE1;rio tanto em ditadura como em democracia. A entrevista de Janaina Martins Cordeiro foi feita com Antonio Cazorla S&#xE1;nchez, espanhol e hoje professor de Hist&#xF3;ria Contempor&#xE2;nea no Canad&#xE1;. Autor de uma biografia do general espanhol Francisco Franco, Cazorla &#xE9; hoje um dos maiores especialistas no per&#xED;odo do primeiro franquismo.</p>
<p>Esperamos que este dossi&#xEA; gere novos debates e reflex&#xF5;es sobre o tema, que de forma alguma se esgota nas p&#xE1;ginas que seguem.</p>
<p>Boa leitura!</p></body>
<back>
<fn-group>
<fn id="fn1" fn-type="other">
<label>1</label>
<p>Cf. a edi&#xE7;&#xE3;o francesa do livro: <xref ref-type="bibr" rid="B14">L&#xDC;DTKE, 1994</xref>.</p></fn>
<fn id="fn2" fn-type="other">
<label>2</label>
<p>Cf., dentre outros, <xref ref-type="bibr" rid="B1">AAR&#xC3;O REIS, 2000</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">GRINBERG, 2009</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B20">ROLLEMBERG e QUADRAT, 2010</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B16">MAGALH&#xC3;ES, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">MOTTA, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B2">ALONSO, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B8">CORDEIRO, 2015</xref>.</p></fn>
<fn id="fn3" fn-type="other">
<label>3</label>
<p>Grifos no original.</p></fn>
<fn id="fn4" fn-type="other">
<label>4</label>
<p>O termo utilizado no original em ingl&#xEA;s &#xE9; <italic>ordinary</italic>.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn5">
	<label>5</label>
<p>Janaina Martins Cordeiro email: janainamcordeiro@gmail.com</p>
<p>&#x2022; Professora Adjunta de Hist&#xF3;ria Contempor&#xE2;nea do Departamento e do Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Hist&#xF3;ria da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutora em Hist&#xF3;ria pela mesma institui&#xE7;&#xE3;o, &#xE9; Jovem Cientista do Nosso Estado (FAPERJ, 2015-2018) e autora de A ditadura em tempos de Milagre: comemora&#xE7;&#xF5;es, orgulho e consentimento (FGV, 2015) e Direitas em movimento: a Campanha da Mulher pela Democracia e a ditadura no Brasil (FGV, 2009).</p>
<p>&#x25E6; Associate Professor of Contemporary History of the History Department and Graduate Program of the Universidade Federal Fluminense (UFF). PhD in History by the same institution, she is a Jovem Cientista do Nosso Estado (FAPERJ, 2015-2018) and author of <italic>A ditadura em tempos de Milagre: comemora&#xE7;&#xF5;es, orgulho e consentimento</italic> (FGV, 2015) and <italic>Direitas em movimento: a Campanha da Mulher pela Democracia e a ditadura no Brasil</italic> (FGV, 2009).</p>
</fn>
<fn fn-type="other" id="fn6">
	<label>6</label>
<p>L&#xED;via Gon&#xE7;alves Magalh&#xE3;es email: livinhagm@gmail.com</p>
<p>&#x2022; Professora Adjunta de Hist&#xF3;ria do Brasil Republicano do Departamento e do Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Hist&#xF3;ria da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutora em Hist&#xF3;ria pela mesma institui&#xE7;&#xE3;o e Mestra em Estudos Latino-Americanos pela Universidad Nacional de San Mart&#xED;n (UNSAM, Argentina). Possui P&#xF3;s-Doutorado em Hist&#xF3;ria pela Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES, CAPES, 2014-2016). &#xC9; autora de <italic>Com a ta&#xE7;a nas m&#xE3;os: sociedade, Copa do Mundo e ditadura no Brasil e na Argentina</italic> (Lamparina, 2014) e <italic>Hist&#xF3;rias do Futebol</italic> (APESP, 2010).</p>
<p>&#x25E6; Associate Professor in Republican Brazilian History of the History Department and Graduate Program of the Universidade Federal Fluminense (UFF). PhD in History by the same institution and Master of Latin-American Studies by the Universidad Nacional de San Mart&#xED;n (UNSAM, Argentina). Has a post-doctoral degree in History by the Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES, CAPES, 2014-2016). She is the author of <italic>Com a ta&#xE7;a nas m&#xE3;os: sociedade, Copa do Mundo e ditadura no Brasil e na Argentina</italic> (Lamparina, 2014) and <italic>Hist&#xF3;rias do Futebol</italic> (APESP, 2010).</p>
</fn> 
</fn-group>
<ref-list>
<title>Refer&#xEA;ncias</title>
<ref id="B1">
	<mixed-citation>AARÃO REIS, Daniel. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>AAR&#xC3;O REIS</surname><given-names>Daniel</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">Ditadura militar, esquerdas e sociedade</source>
<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
<publisher-name>Zahar</publisher-name>
<year>2000</year></element-citation></ref>
<ref id="B2">
	<mixed-citation>ALONSO, Gustavo. Cowboys do asfalto: música sertaneja e modernização brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>ALONSO</surname><given-names>Gustavo</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt"><italic>Cowboys do asfalto:</italic> m&#xFA;sica sertaneja e moderniza&#xE7;&#xE3;o brasileira</source>
<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
<publisher-name>Civiliza&#xE7;&#xE3;o Brasileira</publisher-name>
<year>2015</year></element-citation></ref>
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	<mixed-citation>BORGES, Nilson. A Doutrina de Segurança Nacional e os governos militares. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (Org.). O Brasil Republicano. O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. Vol. 4.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>BURKE, Peter. Abertura: a Nova História, seu passado e seu futuro. In: BURKE, Peter (Org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Artes do fazer. Petrópolis: Vozes, 1998.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>TAVARES, Maria Hermínia de Almeida; WEIZ, Luiz. Carro zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Vol. 4.</mixed-citation>
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