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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.0 20120330//EN" "http://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.0/JATS-journalpublishing1.dtd">
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<journal-id journal-id-type="publisher-id">ibero</journal-id>
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<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">00013</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2017.2.25742</article-id>
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<subj-group subj-group-type="heading">
<subject>Dossi&#xEA;: Hist&#xF3;ria, cotidiano e mem&#xF3;ria social &#x2013; a vida comum sob as ditaduras no s&#xE9;culo XX</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>Imagens que faltam, imagens que sobram: pr&#xE1;ticas visuais e cotidiano em regimes de exce&#xE7;&#xE3;o 1960-1980</article-title>
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<trans-title>Missing images and remaining images: visual practices and saily life during dictatorial regimes 1960-1980</trans-title></trans-title-group>
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<trans-title>Im&#xE1;genes que faltan, im&#xE1;genes que sobran: practicas visuales y cotidiano en los reg&#xED;menes de excepci&#xF3;n 1960-1980</trans-title></trans-title-group>
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<contrib contrib-type="author">
<name><surname>Mauad</surname><given-names>Ana Maria</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref>
<xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>14</sup></xref>
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<label>*</label>
<institution content-type="original">Professora Titular do Departamento de Hist&#xF3;ria da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do Laborat&#xF3;rio de Hist&#xF3;ria Oral e Imagem da UFF</institution>
<institution content-type="orgname">Universidade Federal Fluminense</institution>
<institution content-type="normalized">Universidade Federal Fluminense</institution>
<institution content-type="orgdiv1">Departamento de Hist&#xF3;ria</institution>
<country country="BR">Brasil</country>
<email>anamauad@id.uff.br</email>
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<pub-date pub-type="epub-ppub">
<season>May-Aug</season>
<year>2017</year></pub-date>
<volume>43</volume>
<issue>2</issue>
<fpage>397</fpage>
<lpage>413</lpage>
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<day>11</day>
<month>11</month>
<year>2016</year></date>
<date date-type="accepted">
<day>05</day>
<month>01</month>
<year>2017</year></date>
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<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<title>Resumo:</title>
<p>Atrav&#xE9;s de experi&#xEA;ncia pessoal compartilhada inicia-se uma reflex&#xE3;o que tem como quest&#xE3;o central a dimens&#xE3;o pol&#xED;tica das lembran&#xE7;as cotidianas registradas em imagens durante dos regimes de exce&#xE7;&#xE3;o na Am&#xE9;rica do Sul. A abordagem orienta-se pela hist&#xF3;ria das imagens e das pr&#xE1;ticas de ver analisando o percurso das fotografias familiares e seus instant&#xE2;neos dom&#xE9;sticos ao migrarem para o espa&#xE7;o p&#xFA;blico visual da imprensa e dos mundos da arte. Discute-se o papel da fotografia na elabora&#xE7;&#xE3;o da imagina&#xE7;&#xE3;o civil contempor&#xE2;nea.</p></abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title>Summary:</title>
<p>From shared experience begins a reflection that concerns the political dimension of daily memories registered in images during the dictatorship in South America. It is oriented by history of images and the study of the practices of looking to analyze the way taken by family daily snapshots when they migrate from home to the visual public space of press and art worlds. It is also discussed the whole played by photography in the elaboration of contemporary civil imagination.</p></trans-abstract>
<trans-abstract xml:lang="es">
<title>Resumen:</title>
<p>Por medio de experi&#xEA;ncia personal compartida iniciase una reflexi&#xF3;n que tiene como cuesti&#xF3;n central la dimensi&#xF3;n pol&#xED;tica de los recuerdos cotidianos registrados en im&#xE1;genes durante los reg&#xED;menes de excepci&#xF3;n en Am&#xE9;rica del Sur. El abordaje apoyase en la historia de las im&#xE1;genes y de las practicas de ver analizando el itinerario de las fotograf&#xED;as familiares y sus instant&#xE1;neas dom&#xE9;stica al migraren hacia el espacio publico visual de la prensa y de los mundos del arte. Discutiese el rol de la fotografia em la elaboraci&#xF3;n de la imaginaci&#xF3;n civil contempor&#xE1;nea.</p></trans-abstract>
<kwd-group xml:lang="pt">
<title>Palavras-chave:</title>
<kwd>&#xC1;lbum de fam&#xED;lia</kwd>
<kwd>Fotografia p&#xFA;blica</kwd>
<kwd>Cotidiano</kwd>
<kwd>Mem&#xF3;ria</kwd></kwd-group>
<kwd-group xml:lang="en">
<title>Keywords:</title>
<kwd>Family album</kwd>
<kwd>Public photography</kwd>
<kwd>Daily life</kwd>
<kwd>Memory</kwd></kwd-group>
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<title>Palabras clave:</title>
<kwd>&#xC1;lbum familiar</kwd>
<kwd>Fotograf&#xED;a publica</kwd>
<kwd>Cotidiano</kwd>
<kwd>Memoria</kwd></kwd-group>
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<equation-count count="0"/>
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<body>
<p>Essa reflex&#xE3;o parte de uma experi&#xEA;ncia pr&#xF3;pria e pessoal: o estranhamento provocado ao assistir trechos de um filme super-8 produzido em 1968, em que observo imagens da minha fam&#xED;lia, inclusive eu, aos oito anos, passeando e divertindo-se, no Rio de Janeiro. O estranhamento reside no fato das imagens datarem de 1968, momento em que as passeatas e a repress&#xE3;o ditatorial crescem exponencialmente. Ano em que AI5 foi publicado e o regime de exce&#xE7;&#xE3;o consolidado, enquanto isso, crian&#xE7;as com a sua bab&#xE1; negra devidamente uniformizada de branco, brincam, fazem careta, revelam-se descontra&#xED;das no seu cotidiano. Imagens confinadas, crian&#xE7;as confinadas, protegidas do perigo pol&#xED;tico.</p>
<p>A experi&#xEA;ncia fotogr&#xE1;fica compartilhada assumiu a dimens&#xE3;o de um problema historiogr&#xE1;fico, que nos levou a perseguir a hist&#xF3;ria dessas imagens, os produtores, as viv&#xEA;ncias que envolveram a sua produ&#xE7;&#xE3;o, coloc&#xE1;-las em perspectiva com outras imagens confinadas que comp&#xF5;em a &#x201C;iconosfera&#x201D; dom&#xE9;stica de uma fam&#xED;lia burguesa em plena ditadura militar, orientam os percursos desse estudo. Na busca evidenciam-se imagens que sobram, por replicarem cenas, poses e viv&#xEA;ncias que instituem uma mem&#xF3;ria enclausurada aos limites confi&#xE1;veis de uma Kodak ou de uma c&#xE2;mera Super-8.</p>
<p>Enquanto isso, as outras imagens que faltam a esse registro familiar instituem a mem&#xF3;ria p&#xFA;blica dos processos de rea&#xE7;&#xE3;o e de resist&#xEA;ncia aos regimes de exce&#xE7;&#xE3;o. O reverso da imagem privada s&#xE3;o as fotografias p&#xFA;blicas, sobretudo,da imprensa, que definem o espa&#xE7;o p&#xFA;blico visual. Publicadas, essas fotografias atuam como a reserva de mem&#xF3;ria da a&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica e abrem caminho para se escrever a hist&#xF3;ria com imagens.</p>
<p>Imagens que sobram pela aus&#xEA;ncia de outras, as figura&#xE7;&#xF5;es do passado transmutam fotografias de fam&#xED;lia em avatares de desaparecidos. Objetiva-se, portanto, compreender na experi&#xEA;ncia fotogr&#xE1;fica familiar, dos anos 1960 e 1970, aspectos do confinamento que as fam&#xED;lias reservaram &#xE0;s suas mem&#xF3;rias em confronto com o espa&#xE7;o p&#xFA;blico visual produzido pelo fotojornalismo e nos mundos da arte, e seu impacto na produ&#xE7;&#xE3;o da mem&#xF3;ria das ditaduras. Um contraponto &#xE0; bolha em que flutua as lembran&#xE7;as fotograf&#xE1;veis das fam&#xED;lias produzidas durante os regimes de exce&#xE7;&#xE3;o. Avalia-se os usos p&#xFA;blicos da fotografia de fam&#xED;lia, sobretudo, aquelas que integraram as manifesta&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas e as que migram para os mundos da arte em exposi&#xE7;&#xF5;es fotogr&#xE1;ficas sobre as ditaduras colocando o Brasil em perspectiva sul-americana.</p>
<sec>
<title>Imagens que faltam: o confinamento das imagens de fam&#xED;lia</title>
<p>A provoca&#xE7;&#xE3;o que levou &#xE0;s reflex&#xF5;es que resultou neste estudo foi feita por um filme, produzido em Super-8, no ano de 1968.<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref> Trata-se de uma produ&#xE7;&#xE3;o dom&#xE9;stica em que se observa a reuni&#xE3;o de sequ&#xEA;ncias f&#xED;lmicas registradas em momentos distintos, mas com pouca dist&#xE2;ncia temporal entre si. O conjunto de sequ&#xEA;ncias perfaz o total de nove minutos e alguns segundos e, em todas elas, eu me encontro com oito anos de idade, ora junto &#xE0;s minhas tr&#xEA;s irm&#xE3;s, minha m&#xE3;e, nossa bab&#xE1;, meu pai, entre outros familiares de ambos os lados da fam&#xED;lia.<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref></p>
<p>Na primeira sequ&#xEA;ncia (00:00-2:16), casa da fam&#xED;lia apresenta-se como cen&#xE1;rios para as quatro irm&#xE3;s, suas brincadeiras no jardim, almo&#xE7;o no quintal caretas e performances para a c&#xE2;mera, outros membros da fam&#xED;lia atravessam a filmagem. Estamos no Jardim Bot&#xE2;nico, bairro da zona sul do Rio de Janeiro, situado entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e a maci&#xE7;o da Tijuca, com destaque para o pico do Corcovado, em que desde 1939 situa-se a est&#xE1;tua do Cristo Redentor. Viv&#xED;amos no &#x2018;sovaco do Cristo&#x2019;, balan&#xE7;ado pelas sucessivas explos&#xF5;es para a constru&#xE7;&#xE3;o do t&#xFA;nel Rebou&#xE7;as, que ligaria a Zona Sul &#xE0; Zona Norte do Rio, obra realizada no governo de Negr&#xE3;o de Lima (1964-1968), na &#xE9;poca em que o Rio era a capital do Estado da Guanabara (KNAUSS, MOTTA e MAUAD, 2016).</p>
<p>A sequ&#xEA;ncia dois (2:17-3:17) revela uma das boas lembran&#xE7;as de inf&#xE2;ncia: o passeio de carro na estrada de Furnas, com direito a milho verde comprado na mo&#xE7;a com panel&#xE3;o fumegante. A sequ&#xEA;ncia inclui a compra do milho, a caminhada pela ponte da estrada, m&#xE3;e e as filhas comendo milho. A c&#xE2;mera, com certeza operada por meu pai, arrisca um &#x2018;travelling&#x2019; em que se apresenta um S&#xE3;o Conrado sem edifica&#xE7;&#xF5;es, estendendo-se verdejante pela praia. Situado entre o Leblon e a Barra da Tijuca, o acesso a S&#xE3;o Conrado, trecho de praia entre os Morros Dois Irm&#xE3;os e a Pedra da G&#xE1;vea, se fazia pelo alto da G&#xE1;vea, via Rocinha, bairro popular conhecido desde os anos 1930 pela produ&#xE7;&#xE3;o da ro&#xE7;a - frutas, legumes e verduras comercializadas nas feiras livres da zona sul. Ou ent&#xE3;o pela Floresta da Tijuca, na estrada de Furnas, local onde se filmou a segunda sequ&#xEA;ncia.</p>
<p>Na terceira sequ&#xEA;ncia, uma das mais curtinhas, voltamos &#xE0; casa do Jardim Bot&#xE2;nico, em cenas de &#x2018;plano americano&#x2019;, mais pr&#xF3;ximas e intimistas. Nelas vemos uma menina de dois anos tomando sorvete de palito, sentada na cadeira e protegida por um grande guardanapo de pano, uma atividade supervisionada pela m&#xE3;e. A sequ&#xEA;ncia do sorvete de palito, com roupas de ver&#xE3;o, associa-se ao clima de calor da cidade do Rio de Janeiro. Esse ambiente de ver&#xE3;o, prolonga-se pela quarta sequ&#xEA;ncia (4:33 branco 4:44-6:40) em que se registra a visita &#xE0; mans&#xE3;o do patriarca da fam&#xED;lia materna, situada &#xE0; rua S&#xE3;o Sebasti&#xE3;o, na Urca, uma das primeiras ruas do bairro, que remontava a sua estrutura&#xE7;&#xE3;o para a Exposi&#xE7;&#xE3;o Nacional de 1908. A casa situada no centro do terreno suspenso, com rampa de acesso para autom&#xF3;veis, permitia a tomada de vistas da Ba&#xED;a de Guanabara que se descortinava das muradas dos jardins suspensos por um muro de mais de dez metros. A casa se prolongava pela encosta do morro do P&#xE3;o de A&#xE7;&#xFA;car, com mirantes em que a vista se tornava ainda mais ampla com direito a identificar a praia do Flamengo e o Aterro que havia sido urbanizado, na gest&#xE3;o do ent&#xE3;o governador do rec&#xE9;m-criado Estado da Guanabara, Carlos Lacerda (1960-1964). O percurso das meninas, acompanhadas da tia, da m&#xE3;e e da bab&#xE1;, entre o jardins e o mirante do alto comp&#xF5;e a narrativa dessa sequ&#xEA;ncia. A c&#xE2;mera acompanha o percurso como parte do grupo, a troca de olhares entre os participantes e o dispositivo, indicam uma cena montada para ser filmada.</p>
<p>De volta &#xE0; casa no Jardim Bot&#xE2;nico, a quinta sequ&#xEA;ncia (6:41-7:12), retoma o ritmo da vida familiar: a irm&#xE3; mais nova com a bab&#xE1; no quintal, corta para uma tomada em &#x201C;contra plongee&#x201D;,<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref> em que se identifica a m&#xE3;e no terra&#xE7;o da casa confeitando bolo, que retorna o olhar para a c&#xE2;mera. A troca de olhares entre os personagens filmados e a c&#xE2;mera define uma esp&#xE9;cie de padr&#xE3;o de tomada das sequ&#xEA;ncias em que se valoriza o ato mesmo de ser filmado buscando valorizar a a&#xE7;&#xE3;o por meio da identifica&#xE7;&#xE3;o da mirada.</p>
<p>Essa estrat&#xE9;gia est&#xE1; presente nas duas sequ&#xEA;ncias finais tomadas em lugares distintos dos bairros do Leblon e Ipanema, na Zona Sul do Rio. Na sequ&#xEA;ncia seis (7:13-8:26), o Fusca estaciona ao lado da cal&#xE7;ada que d&#xE1; para o mar, dele descem um grupo de crian&#xE7;as, entre meninos e meninas, acompanhadas de um casal. As crian&#xE7;as brincam na areia e o casal abra&#xE7;ado acompanha o movimento, at&#xE9; que se d&#xE3;o um beijo, que &#xE9; repetido mais tr&#xEA;s vezes, com certeza, por solicita&#xE7;&#xE3;o do &#x2018;filmaker&#x2019; da cena. A sequ&#xEA;ncia encerra-se com a entrada da m&#xE3;e no carro, quando esta acena para a c&#xE2;mera, claramente, identificando a sua presen&#xE7;a. O bairro do Leblon foi a loca&#xE7;&#xE3;o da sexta cena, em que o acesso &#xE0; praia se faz por poucos degraus, a faixa de areia n&#xE3;o &#xE9; muito grande, mas comporta as traves de madeira para o futebol, a avenida Delfim Moreira, j&#xE1; havia sido duplicada, mas ainda sem o canteiro central de estacionamento, entre os pr&#xE9;dios da orla, se identifica o Cine Miramar, uma das confort&#xE1;veis salas de cinema, com s&#xF3;lidas cadeiras estofadas e um potente ar condicionado que protegia o p&#xFA;blico do ver&#xE3;o carioca nas sess&#xF5;es da tarde. Essa &#xFA;ltima cena, liga-se &#xE0; sequ&#xEA;ncia final, em um &#xFA;nico momento de encadeamento entre todas as sequ&#xEA;ncias, pois percebemos pela roupa e adere&#xE7;os de cada um que se trata de um mesmo dia em que as filmagens se sucederam.</p>
<p>A sequ&#xEA;ncia final (8:26-9:06) se passa no parque Jardim de Alah, ponto de liga&#xE7;&#xE3;o entre os bairros de Ipanema e Leblon, criado durante a prefeitura de Carlos Sampaio, para canalizar as &#xE1;guas que ligavam o mar &#xE0; Lagoa Rodrigo de Freitas. Nela, o casal caminha abra&#xE7;ado rumo &#xE0; c&#xE2;mera e vemos as crian&#xE7;as brincando nos balan&#xE7;os do parque. No final dos anos 1960, j&#xE1; com um projeto paisag&#xED;stico conclu&#xED;do, o parque era um espa&#xE7;o civilizado, que ganhou terreno &#xE0;s favelas da Praia do Pinto e Praia das Dragas, removidas durante o Governo de Carlos Lacerda (1960-1964), respectivamente do bairro do Leblon e da orla da Lagoa Rodrigo de Freitas.</p>
<p>Essas sete sequ&#xEA;ncias integravam um conjunto maior de fragmentos filmados pelo dono da c&#xE2;mera Super-8, um amigo italiano pr&#xF3;ximo da fam&#xED;lia que a havia ganhado de sua m&#xE3;e em uma das suas visitas, e dedicava-se a registrar a vida familiar. Como as fam&#xED;lias viviam pr&#xF3;ximas, as cenas filmadas poderiam ter sido feitas pelo dono da c&#xE2;mera, ou pelo meu pai, que a tomaria de empr&#xE9;stimo por alguns dias. Interessante notar que nas imagens filmadas da minha fam&#xED;lia, aos poucos se observa uma familiaridade com o dispositivo, denotada pela performance corporal dos seus &#x2018;atores&#x2019;. Assim, se nos primeiros registros nos posicionamos diante da c&#xE2;mera como se esper&#xE1;ssemos o &#x2018;click&#x2019; da fotografia, nos registros finais, a troca de olhares com a c&#xE2;mera em pleno movimento dos corpos, j&#xE1; apontava a familiaridade com esse novo dispositivo de traduzir o cotidiano familiar em imagens.</p>
<p>O lan&#xE7;amento das c&#xE1;meras Super-8, pela empresa KODAK, em 1965, veio acompanhada de uma campanha publicit&#xE1;ria em todo o mundo, em que se valorizava a instantaneidade da tomada, a facilidade do uso e a simplifica&#xE7;&#xE3;o dos processos de revela&#xE7;&#xE3;o (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BOSI, 2016</xref>, p. 43).</p>
<p>
<fig id="f1">
<caption>
<title>Publicidade Kodak, 1968, <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://br.pinterest.com">https://br.pinterest.com</ext-link> acesso em 12 out. 2016.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf01.jpg"/></fig>
</p>
<p>
<fig id="f2">
<caption>
<title>Publicidade Kodak, 1965, <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://br.pinterest.com">https://br.pinterest.com</ext-link> acesso em 12 out. 2016.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf02.jpg"/></fig>
</p>
<p>A publicidade das c&#xE2;meras Super-8 KODAK, evidenciavam proced&#xEA;ncia da tecnologia Instamatic, proveniente das c&#xE2;meras fotogr&#xE1;ficas, para o registro das imagens em movimento. Essa estrat&#xE9;gia de caracterizar uma linhagem de dispositivos em torno de uma mesma pr&#xE1;tica - a fotografia familiar - possibilitaria atrair os fieis consumidores da quase centen&#xE1;ria fotografia KODAK para uma nova modalidade de registro. A facilita&#xE7;&#xE3;o do uso ficaria evidente na pr&#xF3;pria economia visual da publicidade que se limitaria a poucas palavras: &#x201C;Abra, carregue e filme&#x201D;.</p>
<p>No Brasil, a comercializa&#xE7;&#xE3;o das c&#xE1;meras Super-8 KODAK, iniciou-se em 1968, fortemente taxado pelos impostos de importa&#xE7;&#xE3;o, o que limitou o uso desse aparato &#xE0;s fam&#xED;lias com maior poder aquisitivo (<xref ref-type="bibr" rid="B3">BOSI, 2016</xref>, p. 45) ou, como no caso do nosso vizinho, com contatos no exterior. Embora, tenha passado a atrair um grupo de aficionados na filmagem em Super-8, essa modalidade de registro n&#xE3;o se afirmou no Brasil como uma pr&#xE1;tica t&#xE3;o disseminada quanto a fotografia (idem, p. 47).</p>
<p>As fotografias da minha fam&#xED;lia do final da d&#xE9;cada de 1960 e in&#xED;cio da d&#xE9;cada de 1970, foram todas feitas por uma KODAK Instamatic, que pertencia ao meu pai. Esse equipamento, lan&#xE7;ado em meados dos anos 1960, no Brasil ganharia adeptos, justamente, por estar associado &#xE0; estrutura da KODAK Co., que incluiria a comercializa&#xE7;&#xE3;o de c&#xE1;meras, venda de filmes e controle dos laborat&#xF3;rios de revela&#xE7;&#xE3;o e amplia&#xE7;&#xE3;o dos filmes, que nessa &#xE9;poca ainda demoravam cerca de uma semana para serem devolvidos. Os rolos de filme podia ser de 12, 24 e 36 poses, colorido ou P&#x26;B, o custo do filme de 36 poses limitava a compra a dois rolos por cada temporada de f&#xE9;rias e a um rolo para registrar anivers&#xE1;rios.</p>
<p>Ambas as publicidades est&#xE3;o endere&#xE7;adas &#xE0;s fam&#xED;lias de classe m&#xE9;dia alta com or&#xE7;amento de ao menos vinte vezes mais, que o sal&#xE1;rio m&#xED;nimo do ano de 1968, cujo valor era de NCR$ 129,60. Al&#xE9;m disso, associavam a produ&#xE7;&#xE3;o de fotografias do registro memor&#xE1;vel, que poderia variar de acordo com o perfil da fam&#xED;lia, mas se utilizavam de um repert&#xF3;rio que inclu&#xED;a: viagens de f&#xE9;rias, passeios, cenas cotidianas posadas, festas de anivers&#xE1;rio e comemora&#xE7;&#xF5;es, marcadas pela alegria. Julia Hirsch, reflete sobre as aus&#xEA;ncias nas fotografias familiares, indicando que o contraponto da abund&#xE1;ncia de fotos de beb&#xEA;s fofos e casais felizes, &#xE9; a interdi&#xE7;&#xE3;o de imagens sobre a fal&#xEA;ncia, o insucesso, a separa&#xE7;&#xE3;o dos casais, familiares renegados, dos fora da lei, caberia nesse tipo de registro fotogr&#xE1;fico aquilo que nos glorifica e melhor nos representa em termos de sucesso (<xref ref-type="bibr" rid="B13">HIRSCH, 1981</xref>, p. 98). A morte, a perda e a tristeza, sentimentos que n&#xE3;o pertenciam ao tempo encapsulado da viv&#xEA;ncia familiar fotograf&#xE1;vel, mantinham-se fora do quadro fotografado.</p>
<p>
<fig id="f3">
<caption>
<title>Publicidade de produtos KODAK em 1968 e 1969, <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://br.pinterest.com">https://br.pinterest.com</ext-link> acesso em 12 out. 2016.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf03.jpg"/></fig>
</p>
<p>As quatro fotos da sequ&#xEA;ncia comp&#xF5;em o extra quadro do filme produzido em 1968, pela mesma fam&#xED;lia. Observa-se na presen&#xE7;a dos instant&#xE2;neos n&#xE3;o posados, como foto de anivers&#xE1;rio, que guarda as marcas do negativo e a inscri&#xE7;&#xE3;o a caneta, para ser escolhida, entre as que deveria ser guardadas, junto a instant&#xE2;neos posados, como a fotografia das f&#xE9;rias na Bahia. Como tamb&#xE9;m a atualiza&#xE7;&#xE3;o do retrato familiar, na composi&#xE7;&#xE3;o m&#xE3;e e as quatro filhas e na &#x2018;tradicional&#x2019; fotografia da escola, registrada por um fot&#xF3;grafo profissional.</p>
<p>
<fig id="f4">
<caption>
<title>F&#xE9;rias de ver&#xE3;o, Arembepe, Bahia, 1970.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf04.jpg"/></fig>
</p>
<p>
<fig id="f5">
<caption>
<title>Festa de anivers&#xE1;rio, Bairro do Jardim Bot&#xE2;nico, Rio de Janeiro, 1968.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf05.jpg"/></fig>
</p>
<p>
<fig id="f6">
<caption>
<title>M&#xE3;e e filhas, Bairro do Jardim Bot&#xE2;nico, Rio de Janeiro, 1970.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf06.jpg"/></fig>
</p>
<p>
<fig id="f7">
<caption>
<title>Escola P&#xFA;blica Thales de Mello Carvalho, Bairro do Jardim Bot&#xE2;nico, Rio de Janeiro, 1969.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf07.jpg"/></fig>
</p>
<p>Os estudos sobre fotograf&#xED;a popular produzida na segunda metade do s&#xE9;culo XX, entre as quais se incluem os &#x2018;instant&#xE2;neos familiares&#x2019;, concentram-se, sobretudo, do campo da antropologia e da sociologia. Nessa disciplina, destaca-se a cl&#xE1;ssica obra coordenada por Pierre Bourdieu, <italic>Unartmoyen. Essai sur les usages sociaux de la photographie</italic> (1965), na qual os autores se debru&#xE7;am sobre a rela&#xE7;&#xE3;o entre a produ&#xE7;&#xE3;o fotogr&#xE1;fica familiar e cotidiana e a conforma&#xE7;&#xE3;o de um <italic>habitus</italic> de classe.</p>
<p>O foco dos estudos desenvolvidos pelo grupo coordenado por Bourdieu reca&#xED;a, n&#xE3;o sobre fotografia como uma no&#xE7;&#xE3;o abstrata, mas na pr&#xE1;tica social cujo resultado eram fotografias produzidas em diferentes circuitos sociais e com usos e fun&#xE7;&#xF5;es bem variados. Nesse sentido, a rela&#xE7;&#xE3;o que cada grupo social estabelece com a fotografia estaria diretamente relacionada com a sua vis&#xE3;o de mundo e com pr&#xE1;ticas sociais concretas que fornecem sentido &#xE0;s suas viv&#xEA;ncias cotidianas, ao ponto de se tornarem fotograf&#xE1;veis. O car&#xE1;ter quase incidental da fotografia, uma atividade sem grandes tradi&#xE7;&#xF5;es ou exig&#xEA;ncias, a colocaria entre o trivial e o sublime, pelo prosaico dos temas que convoca e pelo valor evocativo da experi&#xEA;ncia que registra.</p>
<p>O car&#xE1;ter precursor da obra organizada por Bourdieu diz respeito ao fato de tomar uma atividade considerada menor no campo das artes e of&#xED;cios, e reconhecer-lhe o valor de uma pr&#xE1;tica social que revela aspectos dos grupos e classes que n&#xE3;o poderiam ser conhecidos de outra forma. O princ&#xED;pio adotado na obra compreende a fotografia como resultado de trabalho de produ&#xE7;&#xE3;o de sentido social que implica em um compartilhamento de valores, h&#xE1;bitos, regras est&#xE9;ticas e princ&#xED;pios &#xE9;ticos. Se a inten&#xE7;&#xE3;o do ato fotogr&#xE1;fico &#xE9; a de fixar, solenizar e eternizar a experi&#xEA;ncia social, n&#xE3;o pode ficar ref&#xE9;m do acaso da fantasia individual, mas por media&#xE7;&#xE3;o dos valores culturais o grupo subordina essa pr&#xE1;tica a uma regra coletiva, de modo que a fotografia mais insignificante, expressa tanto as inten&#xE7;&#xF5;es impl&#xED;citas do fot&#xF3;grafo, quanto o sistema de percep&#xE7;&#xE3;o, pensamento e de aprecia&#xE7;&#xE3;o comum a todo o circuito social que produz e consome a imagem.</p>
<p>Embora sem estabelecer um di&#xE1;logo mais estreito com o mundo acad&#xEA;mico franc&#xEA;s, desenvolve-se no campo da antropologia americana, um conjunto de estudos associados &#xE0; fotografia instant&#xE2;nea, que em ingl&#xEA;s, se traduz em uma s&#xF3; palavra: <italic>snapshot.</italic> Nessa linha de reflex&#xE3;o, cunha-se a express&#xE3;o &#x201C;cultura Kodak&#x201D; e adota-se a perspectiva de um modo dom&#xE9;stico de comunica&#xE7;&#xE3;o associado &#xE0;s camadas m&#xE9;dias urbanas americanas, em que fotografias e filmes dom&#xE9;sticos atribuiriam significado &#xE0;s experi&#xEA;ncias pessoais no cotidiano familiar (<xref ref-type="bibr" rid="B6">CHALFEN, 1987</xref>)</p>
<p>A defini&#xE7;&#xE3;o de um modo dom&#xE9;stico de comunica&#xE7;&#xE3;o pict&#xF3;rica, nos estudos sobre fotografia popular nos Estados Unidos, compreende que &#x201C;<italic>snapshots, home movies, and home video as forms of home mode communication. The &#x2018;home mode&#x2019; is described as a pattern of interpersonal and small group communication centered around the home</italic>&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B6">CHALFEN, 1987</xref>, p. 8). Nessa linha de compreens&#xE3;o da pr&#xE1;tica fotogr&#xE1;fica, trata-se de um processo social de produ&#xE7;&#xE3;o de mensagens, elaborado em contextos espec&#xED;ficos, apoiado em um estruturado sistema de transmiss&#xE3;o composto pela experi&#xEA;ncia fotogr&#xE1;fica amadora.</p>
<p>O antrop&#xF3;logo americano Richard <xref ref-type="bibr" rid="B6">Chalfen (1987</xref>, p. 10) cunhou dois conceitos para dar conta da experi&#xEA;ncia fotogr&#xE1;fica da segunda metade do s&#xE9;culo XX: &#x201C;cultura Kodak&#x201D; e &#x201C;povo Polaroid&#x201D;. Ambos termos foram elaborados em fun&#xE7;&#xE3;o de padr&#xF5;es de comportamentos compartilhados socialmente, em que o instant&#xE2;neo fotogr&#xE1;fico e o filme dom&#xE9;stico s&#xE3;o compreendidos como artefatos inscritos na cultura visual e urbana americana como meios pelos quais a experi&#xEA;ncia de ter um filho ou sair de f&#xE9;rias associavam-se &#xE0; compra de uma nova c&#xE2;mera.</p>
<p>A &#x201C;cultura Kodak&#x201D; se comp&#xF5;e pelas formas de fotografar e se deixar fotografar, pelas c&#xE2;meras fotogr&#xE1;ficas dispon&#xED;veis para o fot&#xF3;grafo n&#xE3;o profissional e os recursos de visualiza&#xE7;&#xE3;o, entre os quais, &#xE1;lbuns e projetores. Entretanto, essa no&#xE7;&#xE3;o tem a voca&#xE7;&#xE3;o para delinear o campo simb&#xF3;lico em que a mensagem fotogr&#xE1;fica inscreve uma a&#xE7;&#xE3;o comunicativa - aquela elaborada no espa&#xE7;o dom&#xE9;stico da casa. A perspectiva de uma &#x201C;cultura Kodak&#x201D; nos possibilitaria compreender como as pessoas se organizavam socialmente para produzir vers&#xF5;es personalizadas das suas pr&#xF3;prias experi&#xEA;ncias de vida, quanto essas mesmas pessoas apreenderam a compreender as fotografias pessoais e compartilhar os seus significados de suas mensagens de forma significativa (<xref ref-type="bibr" rid="B6">CHALFEN, 1987</xref>, p. 10).</p>
<p>O dom&#xED;nio do &#x201C;povo Polaroid&#x201D; <italic>(Polaroid people)</italic> seria o mundo simb&#xF3;lico composto por personagens e lugares da fotografia dom&#xE9;stica. Chalfen explica que o termo foi proposto para convocar uma compreens&#xE3;o topogr&#xE1;fica das cole&#xE7;&#xF5;es fotogr&#xE1;ficas constitu&#xED;das por um repert&#xF3;rio de pessoas, lugares e coisas que aparecem reiteradamente nas fotografias. Trata-se, na perspectiva do autor, de buscar os atributos padronizados desse mundo simb&#xF3;lico, que se assemelha ao que vivemos, mas encontra-se guardado em caixas de sapatos, &#xE1;lbuns de fam&#xED;lia e filmes dom&#xE9;sticos. Trata-se, portanto, de mapear comunidades de sentido que existem a partir da experi&#xEA;ncia de fotografar e ter sido fotografado.</p>
<p>Os desdobramentos das duas no&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o elucidativos para compreendermos a extens&#xE3;o desse modo dom&#xE9;stico de comunica&#xE7;&#xE3;o, para al&#xE9;m das fronteiras dos Estados Unidos. Isso porque, os meios de sua propaga&#xE7;&#xE3;o encontram-se na publicidade pedag&#xF3;gica e nos manuais que ensinam a operar a c&#xE2;mera, ao mesmo tempo em que prescrevem a constru&#xE7;&#xE3;o social do olhar e uma forma de narrar visualmente a experi&#xEA;ncia social. A m&#xE1;xima <italic>You press the Button and we do therest,</italic> que tornou o automatismo Kodak a forma instant&#xE2;nea do olhar, no in&#xED;cio do s&#xE9;culo XX, seria complementada por uma outra, a da <italic>Kodak Storytelling.</italic> O automatismo do olhar, complementado pelo repert&#xF3;rio de eventos, pessoas e lugares memor&#xE1;veis, consolidaria, a partir da d&#xE9;cada de 1960, por meio da amplia&#xE7;&#xE3;o da cultura Kodak, a grande narrativa do <italic>American Way oflife.</italic></p>
<p>
<fig id="f8">
<caption>
<title>Publicidade Kodak, 1980, <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://br.pinterest.com">https://br.pinterest.com</ext-link> acesso em 12 out. 2016.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf08.jpg"/></fig>
</p>
<p>As reflex&#xF5;es de Chalfen orientam-se pela perspectiva conceitual proposta por <xref ref-type="bibr" rid="B26">Sol Worth (1980</xref>), ao considerar o deslocamento da antropologia visual para a antropologia da comunica&#xE7;&#xE3;o visual. Nesse sentido, a fotografia n&#xE3;o seria simplesmente uma evid&#xEA;ncia do que se viveu, mas sobretudo, uma interpreta&#xE7;&#xE3;o visual do vivido transmitida por uma forma comunicativa, um processo social de produ&#xE7;&#xE3;o de sentido. Essa perspectiva valorizaria a fotografia como mensagem que para ser compreendida deveria considerar sobretudo a ret&#xF3;rica do enunciado visual - articula&#xE7;&#xE3;o dos temas, lugares e pessoas &#xE0;s poses, performances e recursos da linguagem fotogr&#xE1;fica -, mas tamb&#xE9;m, seu entorno social.<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref></p>
<p>Interessante considerar que os estudos sobre a fotografia familiar, ou como Chalfen denomina, o modo dom&#xE9;stico de comunica&#xE7;&#xE3;o envolve um aprendizado e um conjunto de condi&#xE7;&#xF5;es culturais para a sua produ&#xE7;&#xE3;o, al&#xE9;m do fator de dissemina&#xE7;&#xE3;o como padr&#xE3;o de representa&#xE7;&#xE3;o e c&#xF3;digo de comportamento. Nos anos 1980, nos EUA, esse debate foi tribut&#xE1;rio da aproxima&#xE7;&#xE3;o da Antropologia com a Sociolingu&#xED;stica. No Brasil, caminho adotado pela historiografia foi a aproxima&#xE7;&#xE3;o entre a hist&#xF3;ria cultural/mentalidades, tribut&#xE1;ria da antropologia cultural, com os estudos de semi&#xF3;tica e produ&#xE7;&#xE3;o de sentido.<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref></p>
<p>Entretanto, h&#xE1; que se ponderar que os desdobramentos de uma sobrevaloriza&#xE7;&#xE3;o dos processos comunicativos em detrimento das condi&#xE7;&#xF5;es materiais que os sustentam, levou &#xE0; uma cr&#xED;tica, ao longo dos anos 1990 e 2000, em que se associou &#xE0;s condi&#xE7;&#xF5;es da cultura material e &#xE0; materialidade das pr&#xE1;ticas visuais ao universo da cultura visual. Ou seja, h&#xE1; que se considerar que a fotografia n&#xE3;o se reduz a ser somente produtora de mensagens e discursos, identificando em seus circuitos sociais, o seu valor de objeto, suporte de rela&#xE7;&#xF5;es sociais que n&#xE3;o s&#xF3; aderem &#xE0; superf&#xED;cie fotogr&#xE1;fica, mas s&#xE3;o engendradas como experi&#xEA;ncia hist&#xF3;rica por diversos tipos de pr&#xE1;ticas fotogr&#xE1;ficas.</p>
<p>Observa-se que a dissemina&#xE7;&#xE3;o da &#x2018;cultura Kodak&#x2019; acaba por criar padr&#xF5;es de representa&#xE7;&#xE3;o do universo familiar comuns ao mundo ocidental. O programa que se adotaria para produzir as representa&#xE7;&#xF5;es familiares, no Brasil de 1968, por gente comum, pertencentes &#xE0; burguesia carioca, sem engajamento pol&#xED;tico e aliadas &#xE0; um perfil ideol&#xF3;gico que n&#xE3;o pactuava com a tortura, mas celebrou a ordem e assumiu o otimismo como projeto, seria semelhante &#xE0;s fam&#xED;lias que tiveram seus filhos desaparecidos, ou ainda, a outras fam&#xED;lias em outros regimes de exce&#xE7;&#xE3;o da Am&#xE9;rica do Sul. Protocolos de representa&#xE7;&#xE3;o visual que encapsulariam a vida familiar em uma redoma de viv&#xEA;ncias excepcionais, plenas de felicidade e dominadas pela tranquilidade de crian&#xE7;as rindo ao sol. Lembran&#xE7;as que flutuam como bolhas de sab&#xE3;o alienadas do seu entorno.</p>
<p>
<fig id="f9">
<caption>
<title>Parque Manuel Belgrano, Santa Fe, Argentina 1973.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf09.jpg"/></fig>
</p>
<p>
<fig id="f10">
<caption>
<title>Barrio Mor&#xF3;n, Conurbanobonaerense, 1976.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf10.jpg"/></fig>
</p>
<p>As fotografias familiares quando solicitadas para apresentar esse mundo passado em imagens, v&#xEA;m acompanhadas de lembran&#xE7;as e breves relatos que agregam valor vivencial. Entretanto, o trabalho de mem&#xF3;ria associa-se ao tempo em que esse exerc&#xED;cio de busca das imagens se localiza e &#xE0; compet&#xEA;ncia do sujeito da rememora&#xE7;&#xE3;o. Assim, calibra-se a rela&#xE7;&#xE3;o entre hist&#xF3;ria e mem&#xF3;ria na forma como a contextualiza&#xE7;&#xE3;o da fotografia se desenrola, a exemplo, o relato que acompanha a foto de 1976, em que um conjunto de informa&#xE7;&#xF5;es contextuais permitem dimensionar a historicidade da experi&#xEA;ncia fotogr&#xE1;fica na Argentina dos anos 1970:</p> <disp-quote>
<p>&#x201C;esta es la foto de familia que consegu&#xED;. Fui a buscarla a la casa de mi mam&#xE1;.</p>
<p>La sac&#xF3; un vecino de mis abuelos, que viv&#xED;an en la localidad de Mor&#xF3;n (conurbanobonaerense). es del a&#xF1;o 1976 o a lo sumo de 1977. Estoy segura que fue entre esos a&#xF1;os porque mi abuelo paterno -Emilio Gonzalez, el canoso-falleci&#xF3; a inicios de 1978. Y debe ser el verano porque estamos con ropa de verano. La casa que se ve al fondo no es la de mis abuelos, sino la de los vecinos de enfrente (de otros vecinos, no del que sac&#xF3; la foto). De grande me dicuenta que esa familia ten&#xED;a un frente de casa muy austero (reboque grueso) pero ten&#xED;an aire acondicionado, algo no popularizado para los a&#xF1;os 70 en argentina, y ellos lo ten&#xED;an. Estamos todos, mis padres, mis cuatroabuelos, mi hermana y yo (adem&#xE1;s de una vecinita colada). En general, &#xED;bamos los domingos a la casa de mis abuelos paternos (los que rodean a mis padres) as&#xED; que esa foto se habr&#xE1; hecho un domingo. Estamos en la vereda de la casa de mis abuelos (que no se ve) apoyados en el auto de mi pap&#xE1; (que era taxi).</p>
<p>Siempre me gust&#xF3; esa foto de familia. Es, creo, la &#xFA;nica que tenemos as&#xED; todos juntos. Supongo que fue sacada en la calle por un cuesti&#xF3;n de luz. creo que en esa &#xE9;poca no era tan com&#xFA;n tener flash incorporado en las c&#xE1;maras. Como te dije en el mail anterior, en mi familia tuvimos una c&#xE1;mara buena reci&#xE9;n en 1984. En 1973, a mi hermana (cuando cumpli&#xF3; 10 a&#xF1;os) le regalaron una &#x2018;kodakfiesta&#x2019; pero esta foto que te env&#xED;o claramente no est&#xE1; sacada con ese tipo de c&#xE1;mara por el tipo de foto (revelado)&#x201D; (relato de Paula Gonzalez, historiadora e professora universit&#xE1;ria argentina, por email em outubro de 2016).</p></disp-quote>
<p>A imagem seguinte, tamb&#xE9;m, produzida na Argentina, sozinha revela aspectos compartilhados pelas mensagens fotogr&#xE1;ficas familiares elaboradas no contexto de uma cultura visual mundializada pelos efeitos &#x201C;Kodak&#x201D;. Entretanto, quando acompanhadas da legenda que as contextualiza e as projeta no devir hist&#xF3;rico, assumem uma nova miss&#xE3;o, a de den&#xFA;ncia.</p>
<p>&#x201C;Em 1969, Gustavo Germano (&#xE0; esq.) e seus tr&#xEA;s irm&#xE3;os posaram para este retrato de fam&#xED;lia na Argentina. V&#xE1;rios anos depois, eles acabariam sendo v&#xED;timas da chamada &#x2018;Guerra Suja&#x2019; do pa&#xED;s, na qual cerca de 30 mil pessoas foram sequestradas, torturadas ou mortas pelos governantes militares do pa&#xED;s, que tomaram o poder em um golpe em 1976. Muitos dos que foram capturados passaram a ser conhecidos como &#x2018;desaparecidos&#x2019; e seus restos mortais nunca foram encontrados&#x201D; fotografia e legenda que integram o projeto &#x201C;Aus&#xEA;ncias e Presen&#xE7;as&#x201D;, exposto em S&#xE3;o Paulo, em 2013, cf. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/02/130228_galeria_fotos_desaparecidos_bg.shtml">http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/02/130228_galeria_fotos_desaparecidos_bg.shtml</ext-link>, acesso em 5 nov. 2016.</p>
<p>
<fig id="f11">
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf11.jpg"/></fig>
</p>
<p>
<fig id="f12">
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf12.jpg"/></fig>
</p>
<p>A sequ&#xEA;ncia foi retirada do livro <italic>Inf&#xE2;ncia roubada: crian&#xE7;as atingidas pela ditadura no Brasil</italic> (2014), publicado pela Comiss&#xE3;o da Verdade, Assembleia Legislativa de S&#xE3;o Paulo, a sequ&#xEA;ncia refere-se a fam&#xED;lia Arantes, Aldo e Maria Auxiliadora (p. 9).</p>
<p>As imagens que faltam a esse encontro de fam&#xED;lia assombram o passado e fraturam a redoma que protege as lembran&#xE7;as do grupo familiar. Do lado de fora da bolha, em algum lugar pr&#xF3;ximo &#xE0; foto do passeio de domingo, ou pass&#xED;vel de ser vislumbrado no &#x2018;travelling&#x2019; do filme de super-8, em que se registra, a praia do Flamengo, a sede da UNE, ou mais adiante, na Av. Presidente Vargas, as marchas de protesto contra a ditadura militar, fora o governo golpista.</p>
<p>Oito anos depois do primeiro filme que abre essa reflex&#xE3;o, em 1976, no pres&#xED;dio carioca Talavera Bruce, situado em Bangu, a militante do movimento ALN (Alian&#xE7;a Libertadora Nacional) Jesse Jane, recebe a visita de uma amiga que porta clandestina, uma c&#xE2;mera Super-8, e consegue registrar Jesse e sua filha de poucos meses, em cenas de amamenta&#xE7;&#xE3;o, banho ao ar livre e sorrisos. A sequ&#xEA;ncia filmada tornou-se nas m&#xE3;os da m&#xE3;e de Jesse, ent&#xE3;o exilada, uma pe&#xE7;a de den&#xFA;ncia e protesto no mundo todo. A redoma criada pelo modo dom&#xE9;stico de comunica&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o resiste &#xE0;s press&#xF5;es do mundo da pol&#xED;tica e fratura-se. A imagem dom&#xE9;stica torna-se uma imagem p&#xFA;blica.<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref></p>
<p>Ariela Azoulay, ao reconhecer a pot&#xEA;ncia da experi&#xEA;ncia fotogr&#xE1;fica em gerar aquilo que denomina de imagina&#xE7;&#xE3;o civil (<xref ref-type="bibr" rid="B1">AZOULAY, 2012</xref>), nos provoca a pensar os meios pelos quais essa imagina&#xE7;&#xE3;o se plasma. A fotografia, na reflex&#xE3;o de Azoulay, deve ser compreendida como um evento coletivo em que a vis&#xE3;o, o discurso e a a&#xE7;&#xE3;o interligam-se &#xE0;s lutas sociais e s&#xE3;o insepar&#xE1;veis do confronto da viol&#xEA;ncia de estado pela sociedade civil. A migra&#xE7;&#xE3;o de imagens dom&#xE9;sticas para os espa&#xE7;os p&#xFA;blicos das manifesta&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas e dos mundos da arte, apresenta-se com um dos percursos para enfrentarmos o desafio conceitual que Azoulay nos prop&#xF5;e.</p>
</sec>
<sec>
<title>Futuro que assombra o passado</title>
<p>&#x201C;Como se a foto fosse visitada pelo espectro de um futuro aterrador&#x201D; teria sido a express&#xE3;o de Andreas Huyssen diante da obra do artista argentino Marcelo Brodsky.<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref></p>
<p>
<fig id="f13">
<caption>
<title>Col&#xE9;gio Nacional, Buenos Aires, 1967, s/a <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://jaquealarte.files.wordpress.com/2013/05/marcelo-brodsky-1996.jpg?w=460">http://jaquealarte.files.wordpress.com/2013/05/marcelo-brodsky-1996.jpg?w=460</ext-link>, acesso em 5 nov. 2016.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf13.jpg"/></fig>
</p>
<p>
<fig id="f14">
<caption>
<title>Convite para a exposi&#xE7;&#xE3;o de Marcelo Brodsky em 1997, <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://xumucuis.wordpress.com/2012/10/06/exposicao-buena-memoria-do-fotografo-argentmo-marcelo-brodsky-laboratorio-das-artes-onze-janelas/">https://xumucuis.wordpress.com/2012/10/06/exposicao-buena-memoria-do-fotografo-argentmo-marcelo-brodsky-laboratorio-das-artes-onze-janelas/</ext-link>, acesso em 5 nov. 2016.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf14.jpg"/></fig>
</p>
<p>A obra que recebeu o nome de &#x201C;Buena Mem&#xF3;ria&#x201D;, exibida pela primeira vez, em 1997, no col&#xE9;gio Nacional de Buenos Aires, e depois transformada em livro (2006), Marcelo, ele mesmo um exilado pol&#xED;tico da ditadura argentina. Ao retornar de seu ex&#xED;lio da Espanha, Brodsky realiza uma interven&#xE7;&#xE3;o em uma fotografia de seu grupo escolar datada de 1967, atrav&#xE9;s dessa a&#xE7;&#xE3;o, ele amplia a fotografia em grandes dimens&#xF5;es e inscreve na imagem grafismos de diversas cores e anota&#xE7;&#xF5;es relacionadas a cada um dos personagens da fotografia. A mostra/livro complementa-se com fotos atuais dos personagens da fotografia ampliada, fotos dos personagens vendo a fotografia exibida e imagens do &#xE1;lbum de fam&#xED;lia pessoal de Marcelo em que ele convive com o seu irm&#xE3;o desaparecido. As fotografias acompanhadas das narrativas biogr&#xE1;ficas que assinam o seu futuro causaram o efeito espectral observado por Huyssen.<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref></p>
<p>O tr&#xE2;nsito de imagens familiares para o espa&#xE7;o visual p&#xFA;blico tornou-se uma estrat&#xE9;gia pol&#xED;tica plasmada no trabalho de mem&#xF3;ria de cada gera&#xE7;&#xE3;o. Pais, m&#xE3;es, tios, tias, av&#xF3;s e av&#xF4;s assumiram o espa&#xE7;o p&#xFA;blico para reclamar o paradeiro de seus entes queridos, filhos, filhas, irm&#xE3;os e irm&#xE3;s invadiram o mundo das artes para expressar a sua dor e necessidade da repara&#xE7;&#xE3;o. Em ambos os movimentos, o pessoal torna-se pol&#xED;tico e a fratura na redoma familiar &#xE9; inevit&#xE1;vel.</p>
<p>Como formas de reconhecer o primeiro movimento de inscri&#xE7;&#xE3;o no espa&#xE7;o p&#xFA;blico das fotos dos desaparecidos, destaca-se a import&#xE2;ncia do fotojornalismo e suas t&#xE1;ticas para tornar vis&#xED;vel a demanda social. Duas imagens podem ser convocadas para observarmos esse movimento.</p>
<p>
<fig id="f15">
<caption>
<title>Congresso Nacional, Bras&#xED;lia, Milton Guran, 1978.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf15.jpg"/></fig>
</p>
<p>Na &#xE9;poca em que tirou a foto, Milton Guran era fot&#xF3;grafo <italic>freelance</italic> e atuava em Bras&#xED;lia, cobrindo o processo de redemocratiza&#xE7;&#xE3;o, juntamente, com uma gera&#xE7;&#xE3;o de fot&#xF3;grafos que seriam os respons&#xE1;veis pelo movimento das ag&#xEA;ncias independentes nos anos 1980.<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref> Em entrevista, o ent&#xE3;o fotojornalista rememora a forma como a imagem foi produzida:</p> <disp-quote>
<p><italic>Essa foto das m&#xE3;es de militantes desaparecidos, em minha opini&#xE3;o, &#xE9; terr&#xED;vel segurando cartazes, no sal&#xE3;o verde do congresso nacional exigindo anistia e apura&#xE7;&#xE3;o dos crimes a repress&#xE3;o. E &#x2026; aconteceu muito r&#xE1;pido, elas entraram no congresso com apoio de alguns deputados de esquerda, deputados de oposi&#xE7;&#xE3;o ao regime, talvez seja melhor at&#xE9; dizer assim, elas abriram aqueles cartazes e a televis&#xE3;o, evidentemente, ampliando seus limites de cobertura permitida, jogaram a fonte de luz na cara delas e come&#xE7;aram a filmar. E a&#xED; eu cliquei com aquela luz muito dura, dram&#xE1;tica mesmo, e a foto ela carrega mesmo a dramaticidade desse momento. &#xC9; uma foto que me toca muito&#x2026;</italic> (<xref ref-type="bibr" rid="B21">MAUAD, 2009</xref>, p. 3).</p></disp-quote>
<p>A dramaticidade da foto ressaltada pela ilumina&#xE7;&#xE3;o direta, sem nuances e em enquadramento &#x201C;contraplong&#xE9;e&#x201D;, que valoriza o tema fazendo com que os personagens e o cartaz se elevem no quadro da foto em plano central. No cartaz duas pequenas imagens se insertam na cena, trazendo a presen&#xE7;a do ausente para o centro da quest&#xE3;o. Fotos que em formato 3&#xD7;4 ampliadas acompanhadas dos nomes, buscam reintegrar ao espa&#xE7;o social a identidade roubada pela cassa&#xE7;&#xE3;o, pelo ex&#xED;lio e pelo desaparecimento na pris&#xE3;o. O exerc&#xED;cio historiogr&#xE1;fico de recompor as mem&#xF3;rias da pr&#xE1;tica fotogr&#xE1;fica para evidenciar a a&#xE7;&#xE3;o dos sujeitos na din&#xE2;mica social, problematiza o passado com as quest&#xF5;es que o seu futuro coloca. Nessa tens&#xE3;o anacr&#xF4;nica a fotografia se torna, ela mesma, num &#x2018;lugar de consci&#xEA;ncia&#x2019;.<xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref></p>
<p>Nessa linha de reflex&#xE3;o, o trabalho da pesquisadora argentina Cora Gamarnik, nos apresenta outra importante fotografia, a primeira tirada das &#x201C;Madres de la Plaza de Mayo&#x201D;, acompanhada da entrevista que realizou com o fot&#xF3;grafo e a lideran&#xE7;a do movimento Nora Corti&#xF1;as.</p>
<p>
<fig id="f16">
<caption>
<title>Manifestantes na Plaza de Mayo, 28 de abril de 1983, Daniel Garc&#xED;a, apud <xref ref-type="bibr" rid="B12">GAMARNIK, 2014</xref>, p. 9.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf16.jpg"/></fig>
</p>
<p>Em sua entrevista com a pesquisadora, Daniel relata que, &#x201C;era quinta-feira. Lembro-me que foi a &#xFA;nica vez que vi inundada. Pode ser que os mesmos milicos tivessem tapado os bueiros para que a pra&#xE7;a se inundasse e as manifestantes desistissem de aparecer&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B12">GAMARNIK, 2014</xref>, p. 9).</p>
<p>A dramaticidade dessa foto associa-se tanto nos recursos fotogr&#xE1;ficos adotados pelo fot&#xF3;grafo na realiza&#xE7;&#xE3;o do registro, quanto na presen&#xE7;a de fotos ampliadas como estandartes que se destacam pelo tamanho. O fot&#xF3;grafo para evidenciar a inunda&#xE7;&#xE3;o da pra&#xE7;a toma dist&#xE2;ncia e destaca, num primeiro plano que se estende at&#xE9; o meio do quadro, o lago que se tornou a pra&#xE7;a. A adversidade das condi&#xE7;&#xF5;es clim&#xE1;ticas ressaltada na composi&#xE7;&#xE3;o da fotografia, refor&#xE7;a os atributos de perseveran&#xE7;a e vontade identificados &#xE0; imagem, como chama aten&#xE7;&#xE3;o Gamarnik em sua an&#xE1;lise. Entretanto, a tenacidade do movimento n&#xE3;o se limita a perman&#xEA;ncia na pra&#xE7;a p&#xFA;blica inundada, ela se estende a busca incans&#xE1;vel pela imagem representada nos cartazes, cujo tamanho as destaca das pr&#xF3;prias manifestantes, evidenciado pela distancia da tomada da foto.</p>
<p>A ditadura argentina evitou a difus&#xE3;o de not&#xED;cias sobre os desaparecidos, como afirma Gamarnik, negando reiteradamente a pr&#xE1;tica de sequestro e desapari&#xE7;&#xE3;o de prisioneiros. Estabelece-se no contexto de busca de not&#xED;cias e da verdade em torno do paradeiro dos militantes, uma rela&#xE7;&#xE3;o estreita entre os fotojornalistas engajados e o movimento das &#x201C;Madres&#x201D;. Rela&#xE7;&#xE3;o essa que, n&#xE3;o s&#xF3; renderia fotografias de valor hist&#xF3;rico incontest&#xE1;vel, mas sobretudo, garantiria ao movimento uma dupla visibilidade. Por um lado, tornou vis&#xED;vel a demanda - onde est&#xE3;o os desaparecidos, eles existem como tal -, e por outro lado, apresentou ao mundo o pr&#xF3;prio movimento das Madres tornando-o vis&#xED;vel politicamente, em que pese toda a dificuldade de divulgar essas imagens dentro da pr&#xF3;pria imprensa argentina (<xref ref-type="bibr" rid="B12">GAMARNIK, 2014</xref>, p. 4).</p>
<p>Portanto, a presen&#xE7;a de imagens gigantes como estandartes na cruzada pelos desaparecidos, portava tamb&#xE9;m um duplo sentido: de dar corpo de imagem &#xE0; aus&#xEA;ncia e de apresentar a presen&#xE7;a que as autoridades querem negar &#xE0; exist&#xEA;ncia. As fotos 3&#xD7;4 de seu filho que uma m&#xE3;e carrega na carteira, fotografias tiradas na escola, casamentos, batizados, festas de anivers&#xE1;rios, todas essas imagens marcaram presen&#xE7;a na pra&#xE7;a p&#xFA;blica. Esse tr&#xE2;nsito de imagens do privado para o p&#xFA;blico se insere em uma estrat&#xE9;gia pol&#xED;tica desenvolvida pelo movimento, como explica Cora Gamarnik:</p> <disp-quote>
<p>La fotograf&#xED;a tornaba visible la desaparici&#xF3;n y permit&#xED;a reconstruir la identidad de la persona desaparecida, darle un rostro, recuperarlo en su densidad personal, familiar e hist&#xF3;rica [&#x2026;] La fotograf&#xED;a de los desaparecidos desde entonces, en sus m&#xFA;ltiples usos y soportes, se constituy&#xF3; en una de las principales formas de representaci&#xF3;n de la desaparici&#xF3;n (<xref ref-type="bibr" rid="B12">GAMARNIK, 2014</xref>, p. 6).</p></disp-quote>
<p>Nos mundos da arte potencializa-se a fratura no encapsulamento das lembran&#xE7;as promovido pelo modo dom&#xE9;stico de comunica&#xE7;&#xE3;o pict&#xF3;rica. Nas fendas provocadas pela dor e perda escorrem fotografias que faltaram ao &#xE1;lbum de fam&#xED;lia ou estavam ausentes da biografiados descendentes, mas que se tornaram a base de sustenta&#xE7;&#xE3;o dos trabalhos de mem&#xF3;ria promovidos pela pr&#xE1;tica art&#xED;stica.<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref></p>
<p>No continente sul-americano os regimes autorit&#xE1;rios cobriram os &#xFA;ltimos 40 anos do s&#xE9;culo XX, n&#xE3;o sem rea&#xE7;&#xE3;o mais ou menos intensa. Entretanto, a forma de lidar fotograficamente com essa experi&#xEA;ncia nos mundos das artes difere entre os pa&#xED;ses. Nesse dom&#xED;nio, n&#xE3;o se observa um certo padr&#xE3;o que o fotojornalismo engajado imprimiu, ao menos, no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Chile.<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref></p>
<p>No Brasil, um breve mapeamento das exposi&#xE7;&#xF5;es fotogr&#xE1;ficas sobre a tem&#xE1;tica da ditadura e do regime autorit&#xE1;rio indica o predom&#xED;nio das imagens produzidas no &#xE2;mbito da imprensa e dos aparatos de repress&#xE3;o. De um conjunto de exposi&#xE7;&#xF5;es registradas em pesquisa online, destacam-se tr&#xEA;s propostas em que se evidenciou a migra&#xE7;&#xE3;o de imagens de fam&#xED;lia para o espa&#xE7;o p&#xFA;blico expositivo.</p>
<p>Uma delas, intitula-se &#x201C;Marcas da mem&#xF3;ria - Hist&#xF3;ria oral da anistia em Pernambuco aos 50 anos do golpe militar de 1964&#x201D;, um projeto do fot&#xF3;grafo italiano Diego Di Niglio, que por meio do trabalho de documenta&#xE7;&#xE3;o fotogr&#xE1;fica, registrou objetos antigos - jamais recuperados pelos detidos durante o regime - e reconstruiu cenas vividas ou imaginadas no passado. O retorno do l&#xED;der estudantil Fernando Santa Cruz ao lar, por exemplo (algo que nunca ocorreu), foi transformado em autorretrato - o contorno do pr&#xF3;prio Diego cruzando a porta entreaberta, com rel&#xF3;gio sobre a mesa. &#x201C;Ele foi levado quando o filho tinha pouco mais de um ano, a idade que o meu filho tem agora. &#xC9; muito impactante&#x201D;, reflete o fot&#xF3;grafo italiano.<xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>13</sup></xref></p>
<p>A outra exposi&#xE7;&#xE3;o, realizada no Memorial da Resist&#xEA;ncia em S&#xE3;o Paulo trata-se do desdobramento para o Brasil, do projeto &#x201C;Aus&#xEA;ncias&#x201D;, iniciado pelo fot&#xF3;grafo Gustavo Germano, o garotinho loiro da foto de fam&#xED;lia da primeira parte do artigo. A primeira vers&#xE3;o do projeto &#x201C;Aus&#xEA;ncias&#x201D; foi realizada na Argentina em outubro de 2007, tomando como marco os 30 anos depois do golpe militar de 1976, que deu in&#xED;cio &#xE0; &#xFA;ltima ditadura daquele pa&#xED;s. Partindo das fotos de &#xE1;lbuns familiares, Gustavo Germano acompanhou e fotografou familiares e amigos de mortos e desaparecidos pol&#xED;ticos nos mesmos locais em que haviam sido fotografados anteriormente. Em 2012, Gustavo Germano produziu a vers&#xE3;o brasileira de Aus&#xEA;ncias, viajando do Cear&#xE1; ao Rio Grande do Sul, contando sempre com a coopera&#xE7;&#xE3;o dos familiares e amigos de desaparecidos pol&#xED;ticos para recriarem seus &#xE1;lbuns de fam&#xED;lia.</p>
<p>
<fig id="f17">
<caption>
<title>A sequencia completa das proje&#xE7;&#xF5;es com os duplos passado/ presente podem ser acessadas em cf. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/02/130228_galeria_fotos_desaparecidos_bg.shtml">http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/02/130228_galeria_fotos_desaparecidos_bg.shtml</ext-link>, acesso em 5 nov. 2016.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf17.jpg"/></fig>
</p>
<p>Em 2010, a fot&#xF3;grafa Nair Benedicto organizou no Centro Cultural S&#xE3;o Paulo a exposi&#xE7;&#xE3;o &#x201C;Labirinto - Na Parede da Mem&#xF3;ria&#x201D;, que no ano seguinte seria montada no Rio, como parte do FOTORIO 2011, no primeiro andar do Centro Cultural Correios. Segundo o texto que acompanha a abertura da exposi&#xE7;&#xE3;o: &#x201C;Brincando com as palavras, com muitas fotos e letras de m&#xFA;sicas, &#x2018;Na Parede de Mem&#xF3;ria&#x2019; &#xE9; uma reflex&#xE3;o sobre os acontecimentos no per&#xED;odo da ditadura militar no Brasil&#x201D;. Essa reflex&#xE3;o, se tornar&#xE1; livro a ser publicado pelo Memorial da Resist&#xEA;ncia de S&#xE3;o Paulo. O t&#xED;tulo alude ao verso da m&#xFA;sica de Belchior, que se tornou famosa na voz da saudosa Elis Regina, <italic>&#x201C;na parede da mem&#xF3;ria, a sua lembran&#xE7;a &#xE9; o quadro que d&#xF3;i mais</italic>&#x201D;. Uma met&#xE1;fora poderosa que orientou a montagem da exposi&#xE7;&#xE3;o, onde entremeavam-se trechos de m&#xFA;sicas populares do per&#xED;odo, fotos pessoais da pr&#xF3;pria fot&#xF3;grafa, seus filhos, grupos de amigos, associadas &#xE0;s fotografias em formato retrato de an&#xF3;nimos desaparecidos, acrescida de fotografias produzidas por Nair nas manifesta&#xE7;&#xF5;es em seu trabalho como fotojornalista e documentarista.</p>
<p>
<fig id="f18">
<caption>
<title>Conjunto de arranjos visuais que integraram a exposi&#xE7;&#xE3;o - &#x201C;Labirintos: Na Parede da Mem&#xF3;ria&#x201D;, no Centro Cultural dos Correios, durante o FotoRio 2011, reproduzida na obra de Nair Benedicto, pelo Memorial da Resist&#xEA;ncia em S&#xE3;o Paulo, no prelo.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf18.jpg"/></fig>
</p>
<p>Nair Benedicto foi presa em 1969, junto ao seu companheiro Jacques Breyton, e solta em 1970, mantida em pris&#xE3;o domiciliar. O livro que resultou da exposi&#xE7;&#xE3;o conclui-se com breve narrativa, que tamb&#xE9;m integrou a exposi&#xE7;&#xE3;o, que serve de legenda a &#xFA;ltima foto da sequ&#xEA;ncia acima, em que o grupo familiar em cor &#xE9; visitado por uma personagem em p&#x26;b:</p> <disp-quote>
<p>In Memoriam de Fab&#xED;ola de Souza Camargo, que nos anos 70 tornou-se uma das grande amigas de minha filha Danielle, sendo uma presen&#xE7;a constante em nossa fam&#xED;lia. Fab&#xED;ola era filha de um dos conhecidos delegados do DOPS nos anos mais duros da repress&#xE3;o. S&#xF3; falamos da minha pris&#xE3;o nos anos 80, quando Fab&#xED;ola morando e estudando na Fran&#xE7;a, tomou conhecimento do livro Tortura nunca mais. Fab&#xED;ola suicidou-se em 15/06/1986, com um tiro na cabe&#xE7;a, aos 20 anos de idade (BENEDICTO, p. 261).</p></disp-quote>
<p>Os paralelos entre as pr&#xE1;ticas art&#xED;sticas nos pa&#xED;ses do Cone Sul que passaram por regimes de exce&#xE7;&#xE3;o mereceriam um investimento mais alentado. Entretanto, para os objetivos dessa reflex&#xE3;o, em que investimos na migra&#xE7;&#xE3;o das fotografias familiares para o espa&#xE7;o visual p&#xFA;blico, como forma de trabalho de mem&#xF3;ria, merece destaque a reflex&#xE3;o de <xref ref-type="bibr" rid="B10">Natalia Fortuny (2014</xref>), por abordar justamente esse tr&#xE2;nsito nos trabalhos realizados por artistas visuais argentinos, sobretudo, os pertencentes &#xE0; gera&#xE7;&#xE3;o dos filhos dos desaparecidos.</p>
<p>Para lidar com as diferentes manifesta&#xE7;&#xF5;es e com artefatos visuais art&#xED;sticos, baseados no recurso da fotografia, e que prop&#xF5;em um di&#xE1;logo com o passado ditatorial recente, Fortuny prop&#xF5;e o conceito de &#x201C;mem&#xF3;rias fotogr&#xE1;ficas&#x201D;, que se orientam por tr&#xEA;s peculiaridades indissoci&#xE1;veis:</p> <disp-quote>
<p>Su calidad de memorias sociales de un pasado com&#xFA;n - en juego entre las vivencias y memorias individuales - su formato visual fotogr&#xE1;fico -, con todas las potencialidades temporales, est&#xE9;ticas y pol&#xED;ticas que este lenguaje comporta - y su elaboraci&#xF3;n art&#xED;stica - ya que su producci&#xF3;n se distingue por la creaci&#xF3;n y puesta en marcha de recursos visuales singulares en cada obra (<xref ref-type="bibr" rid="B10">FORTUNY, 2014</xref>, p. 14).</p></disp-quote>
<p>A abordagem da autora se apoia em s&#xE9;ries visuais que envolvem desde a presen&#xE7;a das marcas do regime autorit&#xE1;rio no espa&#xE7;o urbano at&#xE9; o &#xE1;lbum de fam&#xED;lia, passando pelas instala&#xE7;&#xF5;es e aparatos da repress&#xE3;o. Interessa-nos, sobretudo, as s&#xE9;ries que investem na produ&#xE7;&#xE3;o de uma biografia para as imagens imposs&#xED;veis, ou seja, imagens que seriam poss&#xED;veis se a ditadura n&#xE3;o tivesse existido. O exerc&#xED;cio contra factual, reiteradamente, negado pelos historiadores como uma impossibilidade hist&#xF3;rica cobra vida no tempo anacr&#xF4;nico da montagem, por exemplo, de Lucilia Quieto, na s&#xE9;rie &#x201C;Arqueologia da Aus&#xEA;ncia&#x201D;.</p>
<p>Essa s&#xE9;rie produzida por Lucilia, em 1999, como trabalho de final de curso na escola de fotografia, perseguia um objetivo: completar seu &#xE1;lbum de fotografias com a foto de seu pai desaparecido durante a ditadura. A estrat&#xE9;gia adotada pela artista reunia imagens de seu pai desaparecido, devidamente digitalizadas e projetada em um fundo branco. Nessa cena projetada a artista se posicionava junto a seu pai e produzida um novo registro fotogr&#xE1;fico, a foto que tanto queria (<xref ref-type="bibr" rid="B10">FORTUNY, 2014</xref>, p. 86). Uma imagem que anacr&#xF3;nica em que a figura do pai se reunia &#xE0; sua filha, pela primeira vez, mas sem evidenciar a passagem do tempo que organizam as diferentes gera&#xE7;&#xF5;es, reconhece aus&#xEA;ncia como mat&#xE9;ria significativa.</p>
<p>A repercuss&#xE3;o das montagens de Quieto gerou um jogo coletivo de buscar a imagem imposs&#xED;vel, uma imagem reparadora, em que o luto vivido pela perda, n&#xE3;o se veste de negro e nega a aus&#xEA;ncia, todo o contr&#xE1;rio, pois investe no l&#xFA;dico num jogo de <italic>mise-en-ab&#xEE;me,</italic> em que a evid&#xEA;ncia &#xE9; colocada em evid&#xEA;ncia. Na percep&#xE7;&#xE3;o de Fortuny, o recurso &#xE0; montagem revela a tens&#xE3;o entre o tempo hist&#xF3;rico e o tempo da mem&#xF3;ria:</p> <disp-quote>
<p>El montaje no se esconde sino que se presenta, precisamente para hacer evidente el encuentro fallido [&#x2026;] Algo est&#xE1; mal en la imagen, algo falta, sobra o tambalea, como una foto movida. La reuni&#xF3;n de im&#xE1;genes no prioriza el pasado ni el presente sino una nueva ocurrencia temporal [&#x2026;] un tercer tiempo ficcionado que no est&#xE1; claro. Este tiempo puede describirse como un tiempo anacr&#xF3;nico, ya que el anacronismo, permite pensar en aquella supervivencia o latencia que en la imagen interrumpe la linealidad temporal del relato hist&#xF3;rico, montando y superponiendo a la vez dos o m&#xE1;s tiempos heterog&#xE9;neos (<xref ref-type="bibr" rid="B10">FORTUNY, 2014</xref>, p. 89).</p></disp-quote>
<p>Nos mundos da arte, as imagens familiares ganham um novo estatuto, diferente daquele que assumem quando se inscrevem nas tomadas do fotojornalismo, essa nova vida da imagem resulta da sua ascens&#xE3;o &#xE0; uma nova condi&#xE7;&#xE3;o de exist&#xEA;ncia. N&#xE3;o se trata mais de uma evid&#xEA;ncia do registro de uma a&#xE7;&#xE3;o ou manifesta&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica, mas torna-se evid&#xEA;ncia da sua pr&#xF3;pria exist&#xEA;ncia como imagem que falta no &#xE1;lbum familiar. Uma imagem dial&#xE9;tica (<xref ref-type="bibr" rid="B8">DIDI-HUBERMAN, 2010</xref>, p. 122), que volta ao passado para o recriar, mas em uma nova condi&#xE7;&#xE3;o a de imagem presente e de fato poss&#xED;vel para uma nova miss&#xE3;o, a de repara&#xE7;&#xE3;o, como esclarece Fortuny:</p>
<p>
<fig id="f19">
<caption>
<title>Sequ&#xEA;ncia produzida com as montagens de superposi&#xE7;&#xE3;o de imagens por Lucilia Quieto, <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://casanovaarqueologia.blogspot.com.br/">http://casanovaarqueologia.blogspot.com.br/</ext-link>, acesso em 5 nov. 2016.</title></caption>
<graphic xlink:href="ibero-43-0397-gf19.jpg"/></fig>
</p>
<disp-quote>
<p>Al usar las fotos familiares para reconstruir la foto que falta enel &#xE1;lbum, los artistas evidencian con nuevas im&#xE1;genes el hueco de la ausencia. Aqu&#xED; la imagen se vuelve reconstrucci&#xF3;n de una foto y un pasado imposibles de rehacer (donde los padres ver&#xED;an crecer a sus hijos y registrar&#xED;an esos momentos para el &#xE1;lbum). Constituido por dos tiempos imposiblemente coexistentes, el montaje ficcional y anacr&#xF3;nico funciona a la vez como exposici&#xF3;n y a veces como sutura simb&#xF3;lica de una tremenda falta (<xref ref-type="bibr" rid="B10">FORTUNY, 2014</xref>, p. 101).</p></disp-quote>
<p>Como foi lembrado por Nair Benedicto em sua homenagem, nem sempre, a ruptura da bolha familiar se transborda em ato criativo. Entretanto, a tens&#xE3;o entre os tempos, a mistura de viv&#xEA;ncias entre as gera&#xE7;&#xF5;es presentes nessas express&#xF5;es visuais, em que imagens se liberam do inv&#xF3;lucro familiar e cobram uma nova condi&#xE7;&#xE3;o social, desafia a consci&#xEA;ncia hist&#xF3;rica e convida a perceber que &#x201C;a arte pode sustentar a pol&#xED;tica por meio da constru&#xE7;&#xE3;o do olhar e das pr&#xE1;ticas de ver&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B16">KNAUSS, 2013</xref>, p. 64).</p>
</sec>
<sec sec-type="conclusions">
<title>Considera&#xE7;&#xF5;es finais</title>
<p>Um balan&#xE7;o da an&#xE1;lise apresentada nos permite algumas conclus&#xF5;es, mesmo que provis&#xF3;rias, sobre os percursos das imagens fotogr&#xE1;ficas, sobretudo as familiares, que se politizam ao ganhar o espa&#xE7;o p&#xFA;blico nos regimes de exce&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Observamos que cada grupo social estabelece com a fotografia uma rela&#xE7;&#xE3;o orientada por pr&#xE1;ticas sociais concretas que conferem sentido &#xE0;s viv&#xEA;ncias fotograf&#xE1;veis no espa&#xE7;o dom&#xE9;stico. Essa pr&#xE1;ticas inscrevem-se na cultura visual de cada &#xE9;poca e orientam-se pelos dispositivos e prescri&#xE7;&#xF5;es compartilhadas segundo as media&#xE7;&#xF5;es culturais espec&#xED;ficas. No caso da fotografia, sua produ&#xE7;&#xE3;o envolve um saber-fazer que implica a opera&#xE7;&#xE3;o de uma c&#xE2;mera fotogr&#xE1;fica que, dependendo dos recursos de opera&#xE7;&#xE3;o requer uma atribui&#xE7;&#xE3;o espec&#xED;fica que, ao longo do tempo, diferenciou o fot&#xF3;grafo profissional do amador. A economia visual circunscreve o acesso aos meios t&#xE9;cnicos de produ&#xE7;&#xE3;o fotogr&#xE1;fica orientando os circuitos da fotografia p&#xFA;blica e privada.</p>
<p>Vil&#xE9;m <xref ref-type="bibr" rid="B9">Flusser (2000</xref>) adverte que o programa est&#xE1; inscrito no dispositivo t&#xE9;cnico que, transformaria a c&#xE2;mera fotogr&#xE1;fica numa caixa preta, e os produtores de fotografia em operadores de um programa que traduziria viv&#xEA;ncias em cenas. Essa advert&#xEA;ncia de Flusser, embora relevante para compreendermos a homogeneiza&#xE7;&#xE3;o dos padr&#xF5;es de representa&#xE7;&#xE3;o fotogr&#xE1;fica da vida dom&#xE9;stica, na &#x2018;cultura Kodak&#x2019;, pode ser problematizada pela apropria&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica da imagem fotogr&#xE1;fica, como vimos no fotojornalismo, no mundo das artes, nos trabalhos de mem&#xF3;ria pelos movimentos sociais, mas tamb&#xE9;m na pr&#xE1;tica historiadora.</p>
<p>O espectro que assombra as fotografias passadas pela aus&#xEA;ncia dos desaparecidos nos regimes de exce&#xE7;&#xE3;o, se configura por uma mir&#xED;ade de a&#xE7;&#xF5;es que gestaram o futuro das imagens. Cabe ao pensamento cr&#xED;tico, transformar expectativa de um futuro para as imagens em esperan&#xE7;a, ao reconhecer na imagina&#xE7;&#xE3;o civil (<xref ref-type="bibr" rid="B1">AZOULAY, 2012</xref>), plasmada pelo tr&#xE2;nsito das imagens uma pe&#xE7;a importante de resist&#xEA;ncia e rea&#xE7;&#xE3;o ao poder arbitr&#xE1;rio.</p>
<p>Assim compreendemos os la&#xE7;os entre os trabalhos de mem&#xF3;ria dos filhos e filhas de desaparecidos, como parte do evento fotogr&#xE1;fico que elabora a imagina&#xE7;&#xE3;o civil contempor&#xE2;nea. O reencontro com as imagens de fam&#xED;lia apresentadas nessa reflex&#xE3;o nos permite reconhecer dois movimentos importantes: por um lado, as imagens de fam&#xED;lia quando migram do &#xE1;lbum familiar para o cartaz de protesto, para a instala&#xE7;&#xE3;o art&#xED;stica ou ainda para a hist&#xF3;ria p&#xFA;blica revelam-se como reserva de esperan&#xE7;a pelo reconhecimento de pertencimento ao grupo social de origem e potencializam a imagina&#xE7;&#xE3;o civil. Por outro lado, quando tomadas como problema historiogr&#xE1;fico calibram a rela&#xE7;&#xE3;o entre mem&#xF3;ria e hist&#xF3;ria abrindo espa&#xE7;o para a reflex&#xE3;o cr&#xED;tica.</p>
</sec></body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn1">
<label>1</label>
<p>Acesso ao video em <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.labhoi.uff.br">www.labhoi.uff.br</ext-link>.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn2">
<label>2</label>
<p>A narrativa dessa parte apoia-se na perspectiva da egohist&#xF3;ria, em que experi&#xEA;ncias pessoais projetadas na experi&#xEA;ncia hist&#xF3;rica provocam o estranhamento entre mem&#xF3;ria e hist&#xF3;ria. A tens&#xE3;o provocada, pelo confronto entre a evid&#xEA;ncia do vivido (mediada pelo documento f&#xED;lmico) e a abordagem historiogr&#xE1;fica, delineia uma atitude historiadora em rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; pr&#xF3;pria experi&#xEA;ncia de vida. Essa atitude historiadora implica em debru&#xE7;ar-se sobre o passado n&#xE3;o s&#xF3; como evid&#xEA;ncia (de algo que aconteceu), mas lan&#xE7;ar um olhar de 360&#xB0; e delinear o que estava fora do quadro de certas imagens e lembran&#xE7;as pessoais, ao mesmo tempo em que se indaga as condi&#xE7;&#xF5;es hist&#xF3;ricas que essas experi&#xEA;ncias foram engendradas e traduzidas por meio de imagens.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn3">
<label>3</label>
<p>&#xC2;ngulo em que se filma de baixo para cima</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn4">
<label>4</label>
<p>Sobre os textos associados &#xE0; linha de an&#xE1;lise estadunidense cf. <xref ref-type="bibr" rid="B7">COE &#x26; GATES, 1977</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B24">OLSHANDER, 1978</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B14">JENKINS, 1976</xref>.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn5">
<label>5</label>
<p>Sobre a abordagem brasileira cf. <xref ref-type="bibr" rid="B19">MAUAD, 1990</xref>.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn6">
<label>6</label>
<p>Cf. a sequ&#xEA;ncia acompanhada do depoimento de Jesse Jane em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://vimeo.com/9707469">https://vimeo.com/9707469</ext-link>, acesso em: 5 nov. 2016.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn7">
<label>7</label>
<p>Cf. FORTUNY, Nathalia. <italic>Memorias fotogr&#xE1;ficas: imagen y dictadura en la fotograf&#xED;a argentina contempor&#xE1;nea.</italic> Buenos Aires: La Luminosa, 2014, p. 84</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn8">
<label>8</label>
<p>Para uma an&#xE1;lise aprofundada da obra de Marcelo Brodsky entre outras obras tratam das mem&#xF3;rias fotogr&#xE1;ficas nos mundos da arte, cf. FORTUNY, Nathalia. <italic>Memorias fotogr&#xE1;ficas: imagen y dictadura en la fotograf&#xED;a argentina contempor&#xE1;nea.</italic> Buenos Aires: La Luminosa, 2014.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn9">
<label>9</label>
<p>Sobre o movimento das ag&#xEA;ncias e a afirma&#xE7;&#xE3;o da fotografia no Brasil dos anos 1980 cf. <xref ref-type="bibr" rid="B18">MAUAD, LOUZADA e SOUZA JR. (2014</xref>)</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn10">
<label>10</label>
<p>O desenvolvimento do conceito de &#x2018;lugares de consci&#xEA;ncia&#x2019; integra o projeto de pesquisa desenvolvido por QUADRAT, Samantha: &#x201C;O ensino de temas sens&#xED;veis e lugares de consci&#xEA;ncia nas Am&#xE9;ricas&#x201D;, Bolsa de Produtividade, CNPq, 2016-2018.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn11">
<label>11</label>
<p>Nota sobre o livro Inf&#xE2;ncias roubadas que n&#xE3;o se inscreve nesse registro, mas desenvolve uma abordagem significativa sobre a biografia dos desaparecidos no Brasil tomando como base o relato dos filhos, alguns deles se dedicaram ao trabalho de memoria por meio do mundo das artes.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn12">
<label>12</label>
<p>Sobre fotografia de imprensa engajada na Am&#xE9;rica Latina cf. <xref ref-type="bibr" rid="B22">MONTEIRO, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B23">MRAZ e MAUAD, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B11">GAMARNIK, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B20">MAUAD, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">LEIVA, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B5">BROQUETAS, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B25">RODEGHERO, GUAZZELLI e DIENSTMANN, 2013</xref></p></fn>
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<label>13</label>
<p>Mais informa&#xE7;&#xF5;es acesse: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/09/06/internas_viver,596430/fotografo-reconstroi-memorias-de-pernambucanos-afetados-pela-ditadura-militar.shtml">http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/09/06/internas_viver,596430/fotografo-reconstroi-memorias-de-pernambucanos-afetados-pela-ditadura-militar.shtml</ext-link></p></fn>
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	<label>14</label>
	<p>&#x2022; Professora Titular do Departamento de Hist&#xF3;ria da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do Laborat&#xF3;rio de Hist&#xF3;ria Oral e Imagem da UFF. Autora de <italic>Poses e Flagrantes, ensaios sobre hist&#xF3;ria e fotografias</italic> (Eduff, 2008), juntamente com Marly Mota e Paulo Knauss, <italic>Nos tempos da Guanabara, 1960-1975: uma hist&#xF3;ria visual</italic> (Edi&#xE7;&#xF5;es Janeiro, 2015) e com John Mraz, <italic>Fotografia e Historia enAmerica Latina</italic> (CdF, 2015). O artigo insere-se no projeto de pesquisa, &#x201C;Fotografia P&#xFA;blica, usos, fun&#xE7;&#xF5;es e circuitos sociais&#x201D;, bolsa de produtividade CNPq, 2015-2019, Cientista do Nosso Estado FAPERJ, 2013-2016, contou com a pesquisa de imagens de Katharina Essus.</p></fn>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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<publisher-name>Memorial da Resist&#xEA;ncia. (no prelo)</publisher-name></element-citation></ref>
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<publisher-name>Universidade Federal do Rio de Janeiro</publisher-name>
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<chapter-title xml:lang="pt">Arte e pol&#xED;tica: imagem e cultura visual</chapter-title>
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<chapter-title xml:lang="pt">Anos 1980: a afirma&#xE7;&#xE3;o de uma fotografia brasileira</chapter-title>
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<article-title>O olhar engajado: fotografia contempor&#xE2;nea e as dimens&#xF5;es pol&#xED;ticas da cultura visual</article-title>
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<article-title>Milton Guran, a fotografia em tr&#xEA;s tempos</article-title>
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<comment>inverno</comment>
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