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<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
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<subject>Resenha</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>Mem&#xF3;ria familiar, identidade e ditadura</article-title>
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<trans-title>Memoria familiar, identidad y dictadura</trans-title></trans-title-group>
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<trans-title>Family memory, identity and dictatorship</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Santoro</surname><given-names>Mauricio</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref>
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<institution content-type="original">Professor Adjunto do Departamento de Rela&#xE7;&#xF5;es Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Doutor em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica (Iuperj)</institution>
<institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de Janeiro</institution>
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<email>mauricio.rocha@uerj.br</email>
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<name><surname>FUKS</surname><given-names>Juli&#xE1;n</given-names></name></person-group>
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<p><italic>A Resist&#xEA;ncia</italic> &#xE9; um h&#xED;brido de fic&#xE7;&#xE3;o e mem&#xF3;rias que rendeu a Fuks os pr&#xEA;mios Jabuti de melhor romance e livro do ano de 2016. &#xC9; uma narrativa magistral sobre um casal de psiquiatras e ativistas pol&#xED;ticos argentinos que fogem de sua ditadura para o Brasil na d&#xE9;cada de 1970 e criam tr&#xEA;s filhos em S&#xE3;o Paulo. Anos depois, um deles reflete sobre o ex&#xED;lio que herdou dos pais e acerca da dif&#xED;cil rela&#xE7;&#xE3;o que um de seus irm&#xE3;os, adotivo, mant&#xE9;m com o resto da fam&#xED;lia.</p>
<p>Fuks &#xE9; um exemplo da tend&#xEA;ncia contempor&#xE2;nea de artistas latino-americanos que refletem a respeito dos regimes autorit&#xE1;rios das d&#xE9;cadas de 1960-1980 a partir de experi&#xEA;ncias familiares que atravessam v&#xE1;rios pa&#xED;ses. Outros exemplos incluem as documentaristas brasileiras Fl&#xE1;via Castro (&#x201C;Di&#xE1;rio de uma Busca&#x201D;) e Isa Grinspum Ferraz (&#x201C;Mariguella&#x201D;), as chilenas Camila Guzm&#xE1;n (&#x201C;Cortina de A&#xE7;&#xFA;car&#x201D;) e Marcia Tambutti (&#x201C;Allende, mi abuelo Allende&#x201D;) a escritora colombiana Laura Restreppo (&#x201C;H&#xE9;rois Demais&#x201D;) e o brasileiro Marcelo Rubens Paiva (&#x201C;Ainda estou aqui&#x201D;).</p>
<sec>
<title>Tr&#xEA;s resist&#xEA;ncias</title>
<p><italic>A Resist&#xEA;ncia</italic> do t&#xED;tulo de Fuks na realidade s&#xE3;o tr&#xEA;s enfrentamentos: o dos pais do narrador com a ditadura argentina; o do irm&#xE3;o adotivo com sua fam&#xED;lia; e o do pr&#xF3;prio escritor em narrar a hist&#xF3;ria. O primeiro &#xE9; o mais tradicional desse g&#xEA;nero. O pai era um rapaz judeu de uma fam&#xED;lia marcada por fugas e ex&#xED;lios. A m&#xE3;e, prole de uma dinastia cat&#xF3;lica conservadora do interior da Argentina. Os dois se conhecem na faculdade de Medicina em Buenos Aires e se apaixonam entre aulas e o ativismo pol&#xED;tico na esquerda: &#x201C;Um filho nunca ser&#xE1; o mais indicado para estimar a rela&#xE7;&#xE3;o entre os pais, para compreender o que atraiu um ao outro, para destrinchar seus sentimentos&#x201D;, observa Fuks.</p>
<p>O real n&#xED;vel de engajamento dos pais na luta contra a ditadura &#xE9; um mist&#xE9;rio nunca de todo esclarecido aos filhos, mas o jovem casal deixou a Argentina ap&#xF3;s a pris&#xE3;o de amigos, revistas em seus locais de trabalho e avisos de que seriam os pr&#xF3;ximos. H&#xE1; epis&#xF3;dios obscuros, envoltos em rumores, como se o pai guardara em algum momento rev&#xF3;lveres embaixo de sua cama: &#x201C;Tenho a idade que meu pai tinha naquela &#xE9;poca &#x2013; o bastante para saber que as armas dele n&#xE3;o s&#xE3;o as minhas, que n&#xE3;o me cabe querer empunh&#xE1;-las e fazer dele um irm&#xE3;o em armas, que s&#xF3; me resta sondar conceitos, tentar compreend&#xEA;-las&#x201D;.</p>
<p>Mas se o filho rejeita a heran&#xE7;a da milit&#xE2;ncia pol&#xED;tica, h&#xE1; um peso de mem&#xF3;rias que n&#xE3;o pode ser apagado. Um exemplo &#xE9; a lembran&#xE7;a de uma amiga dos pais desaparecida na ditadura e marco da decis&#xE3;o de deixarem o pa&#xED;s: &#x201C;Mas sua aus&#xEA;ncia morava em nossa casa, e sua aus&#xEA;ncia mora em c&#xED;rculos infinitos de outras casas ignoradas &#x2013; a aus&#xEA;ncia de muitas Martas, diferentes nos restos desencontrados, nos tra&#xE7;os deformados, nas ru&#xED;nas silenciosas&#x201D;.</p>
<p>&#x201C;&#xC9; preciso aprender a resistir. Nem ir, nem ficar, aprender a resistir&#x201D;, nota o narrador. O professor dos pais &#xE9; um colega de trabalho no hospital, que ap&#xF3;s ser preso e torturado os aconselha a buscar a seguran&#xE7;a do ex&#xED;lio no Brasil: &#x201C;Quem o afirmava tinha a autoridade dos que sabem, do dos que viram a face feia de um mundo despido de m&#xE1;scaras, dos que sentiram a dureza do mundo cravada na carne fl&#xE1;cida&#x201D;.</p>
<p>Criar&#xE3;o os filhos em S&#xE3;o Paulo e eles e as crian&#xE7;as ficar&#xE3;o pairados entre duas culturas, com os meninos estranhando as ruas retas e os longos caf&#xE9;s portenhos, e os adultos se espantando diante dos sorrisos f&#xE1;ceis dos brasileiros: &#x201C;De Buenos Aires nos sent&#xED;amos todos alijados enquanto n&#xE3;o lhes permitiam retornar &#x2013; mesmo que alguns de n&#xF3;s, minha irm&#xE3; e eu, nem sequer houv&#xE9;ssemos pousado os p&#xE9;s m&#xED;nimos em suas cal&#xE7;adas. Pode um ex&#xED;lio ser herdado?&#x201D;.</p>
</sec>
<sec>
<title>O irm&#xE3;o adotivo</title>
<p>A saga pol&#xED;tica &#xE9; complicada pela peculiaridade da fam&#xED;lia ter adotado uma crian&#xE7;a, ainda em Buenos Aires, diante da dificuldade da jovem esposa em engravidar. No Brasil, o problema de fertilidade ser&#xE1; superado e ela ter&#xE1; dois filhos. Contudo, o relacionamento do primeiro menino com os irm&#xE3;os e os pais ser&#xE1; sempre dif&#xED;cil e &#xE1;spero: &#x201C;Toda cicatriz grita, ou &#xE9; apenas a mem&#xF3;ria de um grito, um grito calado no tempo?&#x201D;.</p>
<p>Adotar um beb&#xEA; em meio &#xE0; ditadura argentina n&#xE3;o era algo trivial e o narrador &#xE9; consumido por d&#xFA;vidas de que o irm&#xE3;o pudesse ser filho de ativistas mortos por agentes do regime autorit&#xE1;rio. Improv&#xE1;vel, uma vez que os pais eram considerados subversivos pelas autoridades. Ainda assim, as inquieta&#xE7;&#xF5;es permanecem, agravadas pelo desconhecimento das origens familiares do irm&#xE3;o adotivo, de quem eram seus pais biol&#xF3;gicos. As poucas informa&#xE7;&#xF5;es dadas por uma parteira indicam apenas uma hist&#xF3;ria de pobreza e uma gravidez indesejada.</p>
<p>O tema &#xE9; dif&#xED;cil para a fam&#xED;lia e o narrador hesita, oscila entre v&#xE1;rios assuntos: &#x201C;Sei que escrevo meu fracasso. Queria escrever um livro que falasse de ado&#xE7;&#xE3;o, um livro com uma quest&#xE3;o central, uma quest&#xE3;o premente, ignorada por muitos, negligenciada at&#xE9; em autores capitais, mas o que caberia dizer afinal?&#x201D;. Em outros momentos, h&#xE1; insinua&#xE7;&#xF5;es de que o drama seria apenas um artif&#xED;cio liter&#xE1;rio e que a rela&#xE7;&#xE3;o do rapaz com os pais e irm&#xE3;os n&#xE3;o seria t&#xE3;o dura quanto o autor d&#xE1; a entender.</p>
<p>Contudo, as descri&#xE7;&#xF5;es de ang&#xFA;stia no romance s&#xE3;o eloquentes, como se o irm&#xE3;o adotivo vivesse um ex&#xED;lio individual dentro do ex&#xED;lio coletivo da fam&#xED;lia no Brasil: &#x201C;Eu n&#xE3;o sou como voc&#xEA;s, acho que ouvi, e acho que seu tom era raivoso e triste. Eu n&#xE3;o nasci para ficar lendo e estudando a vida inteira. Tudo bem que se decepcionem comigo, eu sei que n&#xE3;o &#xE9; isso que eles querem, eu sei que n&#xE3;o sou o filho-modelo&#x2026;&#x201D;.</p>
<p>Fuks trabalha nas interse&#xE7;&#xF5;es entre mem&#xF3;ria, hist&#xF3;ria e identidade, pessoais e coletivas, e essas camadas complexas s&#xE3;o ricas do ponto de vista humano e emocional. Quando fala da &#x201C;nossa incapacidade de aceitar as composi&#xE7;&#xF5;es diversas que uma fam&#xED;lia pode assumir&#x201D; parece abordar tamb&#xE9;m as limita&#xE7;&#xF5;es dos conceitos pol&#xED;ticos e nacionais em definir quem somos e o que sonhamos.</p>
<p>Dentro e fora &#x2013; da Argentina, do Brasil, da fam&#xED;lia &#x2013; o percurso do narrador e de sua fam&#xED;lia &#xE9; feito de muitos encaixes incompletos, que tornam sua vida mais dif&#xED;cil mas tamb&#xE9;m contribuem para sua sensibilidade avan&#xE7;ada e para sua capacidade de lan&#xE7;ar olhares mais ricos com rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; realidade e &#xE0; hist&#xF3;ria contempor&#xE2;nea da Am&#xE9;rica Latina.</p>
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			<label>1</label>
			<p>&#x2022; Professor Adjunto do Departamento de Rela&#xE7;&#xF5;es Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Doutor em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica (Iuperj). Autor do livro <italic>Ditaduras Contempor&#xE2;neas</italic> (Editora da FGV, 2013).</p>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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	<mixed-citation>FUKS, Julián. A resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>RESTREPO, Laura. Herois Demais. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>Cortina de Açúcar. Diretora: Camila Guzmán Urzúa. França, 2007.</mixed-citation>
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