Resenha
Memória familiar, identidade e ditadura
Memoria familiar, identidad y dictadura
Family memory, identity and dictatorship
Memória familiar, identidade e ditadura
Estudos Ibero-Americanos, vol. 43, núm. 2, pp. 472-474, 2017
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
| FUKS Julián. A resistência. 2015. São Paulo. Companhia das Letras. 144 p.pp. |
|---|
Recepção: 05 Dezembro 2016
Aprovação: 07 Fevereiro 2017
A Resistência é um híbrido de ficção e memórias que rendeu a Fuks os prêmios Jabuti de melhor romance e livro do ano de 2016. É uma narrativa magistral sobre um casal de psiquiatras e ativistas políticos argentinos que fogem de sua ditadura para o Brasil na década de 1970 e criam três filhos em São Paulo. Anos depois, um deles reflete sobre o exílio que herdou dos pais e acerca da difícil relação que um de seus irmãos, adotivo, mantém com o resto da família.
Fuks é um exemplo da tendência contemporânea de artistas latino-americanos que refletem a respeito dos regimes autoritários das décadas de 1960-1980 a partir de experiências familiares que atravessam vários países. Outros exemplos incluem as documentaristas brasileiras Flávia Castro (“Diário de uma Busca”) e Isa Grinspum Ferraz (“Mariguella”), as chilenas Camila Guzmán (“Cortina de Açúcar”) e Marcia Tambutti (“Allende, mi abuelo Allende”) a escritora colombiana Laura Restreppo (“Hérois Demais”) e o brasileiro Marcelo Rubens Paiva (“Ainda estou aqui”).
Três resistências
A Resistência do título de Fuks na realidade são três enfrentamentos: o dos pais do narrador com a ditadura argentina; o do irmão adotivo com sua família; e o do próprio escritor em narrar a história. O primeiro é o mais tradicional desse gênero. O pai era um rapaz judeu de uma família marcada por fugas e exílios. A mãe, prole de uma dinastia católica conservadora do interior da Argentina. Os dois se conhecem na faculdade de Medicina em Buenos Aires e se apaixonam entre aulas e o ativismo político na esquerda: “Um filho nunca será o mais indicado para estimar a relação entre os pais, para compreender o que atraiu um ao outro, para destrinchar seus sentimentos”, observa Fuks.
O real nível de engajamento dos pais na luta contra a ditadura é um mistério nunca de todo esclarecido aos filhos, mas o jovem casal deixou a Argentina após a prisão de amigos, revistas em seus locais de trabalho e avisos de que seriam os próximos. Há episódios obscuros, envoltos em rumores, como se o pai guardara em algum momento revólveres embaixo de sua cama: “Tenho a idade que meu pai tinha naquela época – o bastante para saber que as armas dele não são as minhas, que não me cabe querer empunhá-las e fazer dele um irmão em armas, que só me resta sondar conceitos, tentar compreendê-las”.
Mas se o filho rejeita a herança da militância política, há um peso de memórias que não pode ser apagado. Um exemplo é a lembrança de uma amiga dos pais desaparecida na ditadura e marco da decisão de deixarem o país: “Mas sua ausência morava em nossa casa, e sua ausência mora em círculos infinitos de outras casas ignoradas – a ausência de muitas Martas, diferentes nos restos desencontrados, nos traços deformados, nas ruínas silenciosas”.
“É preciso aprender a resistir. Nem ir, nem ficar, aprender a resistir”, nota o narrador. O professor dos pais é um colega de trabalho no hospital, que após ser preso e torturado os aconselha a buscar a segurança do exílio no Brasil: “Quem o afirmava tinha a autoridade dos que sabem, do dos que viram a face feia de um mundo despido de máscaras, dos que sentiram a dureza do mundo cravada na carne flácida”.
Criarão os filhos em São Paulo e eles e as crianças ficarão pairados entre duas culturas, com os meninos estranhando as ruas retas e os longos cafés portenhos, e os adultos se espantando diante dos sorrisos fáceis dos brasileiros: “De Buenos Aires nos sentíamos todos alijados enquanto não lhes permitiam retornar – mesmo que alguns de nós, minha irmã e eu, nem sequer houvéssemos pousado os pés mínimos em suas calçadas. Pode um exílio ser herdado?”.
O irmão adotivo
A saga política é complicada pela peculiaridade da família ter adotado uma criança, ainda em Buenos Aires, diante da dificuldade da jovem esposa em engravidar. No Brasil, o problema de fertilidade será superado e ela terá dois filhos. Contudo, o relacionamento do primeiro menino com os irmãos e os pais será sempre difícil e áspero: “Toda cicatriz grita, ou é apenas a memória de um grito, um grito calado no tempo?”.
Adotar um bebê em meio à ditadura argentina não era algo trivial e o narrador é consumido por dúvidas de que o irmão pudesse ser filho de ativistas mortos por agentes do regime autoritário. Improvável, uma vez que os pais eram considerados subversivos pelas autoridades. Ainda assim, as inquietações permanecem, agravadas pelo desconhecimento das origens familiares do irmão adotivo, de quem eram seus pais biológicos. As poucas informações dadas por uma parteira indicam apenas uma história de pobreza e uma gravidez indesejada.
O tema é difícil para a família e o narrador hesita, oscila entre vários assuntos: “Sei que escrevo meu fracasso. Queria escrever um livro que falasse de adoção, um livro com uma questão central, uma questão premente, ignorada por muitos, negligenciada até em autores capitais, mas o que caberia dizer afinal?”. Em outros momentos, há insinuações de que o drama seria apenas um artifício literário e que a relação do rapaz com os pais e irmãos não seria tão dura quanto o autor dá a entender.
Contudo, as descrições de angústia no romance são eloquentes, como se o irmão adotivo vivesse um exílio individual dentro do exílio coletivo da família no Brasil: “Eu não sou como vocês, acho que ouvi, e acho que seu tom era raivoso e triste. Eu não nasci para ficar lendo e estudando a vida inteira. Tudo bem que se decepcionem comigo, eu sei que não é isso que eles querem, eu sei que não sou o filho-modelo…”.
Fuks trabalha nas interseções entre memória, história e identidade, pessoais e coletivas, e essas camadas complexas são ricas do ponto de vista humano e emocional. Quando fala da “nossa incapacidade de aceitar as composições diversas que uma família pode assumir” parece abordar também as limitações dos conceitos políticos e nacionais em definir quem somos e o que sonhamos.
Dentro e fora – da Argentina, do Brasil, da família – o percurso do narrador e de sua família é feito de muitos encaixes incompletos, que tornam sua vida mais difícil mas também contribuem para sua sensibilidade avançada e para sua capacidade de lançar olhares mais ricos com relação à realidade e à história contemporânea da América Latina.
Referências
FUKS, Julián. A resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015.
RESTREPO, Laura. Herois Demais. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
Notas