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<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">00019</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2017.2.26477</article-id>
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<subject>Resenha</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>O cotidiano sob a ditadura civil-militar: o espa&#xE7;o de intera&#xE7;&#xE3;o entre a milit&#xE2;ncia clandestina e os habitantes do sub&#xFA;rbio</article-title>
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<trans-title>The everyday life under the civil-military dictatorship: the space of interaction between the clandestine militancy and the residents of the suburb</trans-title></trans-title-group>
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<trans-title>La vida cotidiana durante la dictadura militar civil: el espacio de interacci&#xF3;n entre la militancia ilegal y residentes suburbanos</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Carvalho</surname><given-names>Keila Auxiliadora</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref>
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<institution content-type="original">Professora Adjunta de Hist&#xF3;ria do Brasil Republicano na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Doutora em Hist&#xF3;ria Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF)</institution>
<institution content-type="normalized">Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri</institution>
<institution content-type="orgname">Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri</institution>
<country country="BR">Brasil</country>
<email>keilaacarvalho@gmail.com</email>
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<pub-date pub-type="epub-ppub">
<season>May-Aug</season>
<year>2017</year></pub-date>
<volume>43</volume>
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<name><surname>ACSELRAD</surname><given-names>Henri</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt"><italic>Sinais de fuma&#xE7;a na cidade:</italic> uma sociologia da clandestinidade na luta contra a ditadura no Brasil</source>
<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
<publisher-name>Lamparina, FAPERJ</publisher-name>
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<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p></license></permissions>
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<p>O economista Henri Acselrad &#xE9; professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A obra <italic>Sinais de fuma&#xE7;a na cidade: uma sociologia da clandestinidade na luta contra a ditadura no Brasil</italic>, publicada em 2015 &#xE9; um convite &#xE0; reflex&#xE3;o sobre a rela&#xE7;&#xE3;o entre os militantes clandestinos, o espa&#xE7;o urbano e seus habitantes durante a ditadura civil militar, inaugurada a partir do golpe de 1964. Assim, embora seja produzida sob a l&#xF3;gica de uma sociologia urbana, procurando analisar a intera&#xE7;&#xE3;o entre militantes clandestinos e pessoas comuns em determinados espa&#xE7;os do Rio de Janeiro &#x2013; os sub&#xFA;rbios &#x2013;, a obra traz elementos interessantes para pensar uma hist&#xF3;ria do cotidiano sob a ditadura. N&#xE3;o pela an&#xE1;lise historiogr&#xE1;fica propriamente, dado que n&#xE3;o &#xE9; o ponto de partida do autor, mas principalmente pela empiria materializada nas fontes orais, cuja riqueza pode ser constatada na leitura dos depoimentos citados ao longo do texto.</p>
<p>O autor explica que os depoimentos orais foram realizados entre 2008 e 2011, no &#xE2;mbito de um projeto de pesquisa &#x2013; intitulado &#x201C;Clandestinidade e Cidade&#x201D;. Segundo Acselrad, foram entrevistados cinquenta ex-militantes de organiza&#xE7;&#xF5;es clandestinas, cuja maioria atuou na cidade do Rio de Janeiro entre os anos de 1969 e 1973. Esse conjunto de depoimentos serviu de refer&#xEA;ncia para as an&#xE1;lises que o autor empreende acerca da inser&#xE7;&#xE3;o desses atores no espa&#xE7;o cotidiano da cidade.</p>
<p>O t&#xED;tulo da obra &#x201C;sinais de fuma&#xE7;a&#x201D; faz alus&#xE3;o &#xE0; pr&#xE1;tica corrente dos clandestinos que precisavam, por raz&#xF5;es de seguran&#xE7;a, queimar pap&#xE9;is contendo anota&#xE7;&#xF5;es e ideias, nessa perspectiva, a a&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica perdeu seu lugar e espa&#xE7;o, gra&#xE7;as ao arb&#xED;trio do Estado ditatorial, passando a se realizar pelas margens e, mesmo assim, atrav&#xE9;s de vest&#xED;gios espalhados &#x201C;pelo ar&#x201D;. Portanto, &#xE9; sobre esses &#x201C;sinais de fuma&#xE7;a&#x201D; que trata a an&#xE1;lise de Acselrad, sobretudo, da intera&#xE7;&#xE3;o entre a milit&#xE2;ncia que produzia tais sinais e os espa&#xE7;os restritos aonde se viram obrigados a atuar.</p>
<p>O livro &#xE9; dividido em cinco cap&#xED;tulos que, embora escritos em momentos diferentes, estabelecem di&#xE1;logo entre si. Nos quatro primeiros tra&#xE7;a uma sociologia hist&#xF3;rica da milit&#xE2;ncia clandestina com a cidade do Rio de Janeiro na d&#xE9;cada de 1960, e no &#xFA;ltimo apresenta uma reflex&#xE3;o sobre o lugar da pol&#xED;tica no Brasil contempor&#xE2;neo, destacando continuidades e rupturas no processo de constru&#xE7;&#xE3;o de uma esfera p&#xFA;blica no pa&#xED;s. Para isso, toma como marco final de sua an&#xE1;lise o ano de 2013, particularmente os movimentos de junho do referido ano.</p>
<p>O argumento central da obra &#xE9; de que ap&#xF3;s o golpe civil-militar de 1964, os militantes foram &#x201C;empurrados&#x201D; para o sub&#xFA;rbio carioca e, nele, tiveram esfor&#xE7;o dobrado para se manterem ocultos, pois, precisaram se misturar &#xE0; malha suburbana, marcada por uma cultura caracter&#xED;stica; expressa na fala, nos trejeitos, na forma de se relacionar com os outros e, sobretudo, na diferen&#xE7;a socioecon&#xF4;mica. Os militantes clandestinos eram, em sua maioria, jovens oriundos das classes m&#xE9;dias e altas da Zona Sul carioca, com n&#xED;vel de escolaridade superior ao da m&#xE9;dia geral dos habitantes dos sub&#xFA;rbios.</p>
<p>O profundo distanciamento entre os dois mundos &#x2013; dos militantes da Zona Sul e das pessoas do sub&#xFA;rbio &#x2013; n&#xE3;o estava circunscrito ao espa&#xE7;o geogr&#xE1;fico que os separava, mas tamb&#xE9;m, &#xE0;s experi&#xEA;ncias daqueles sujeitos. Foi na tens&#xE3;o do encontro entre esses dois mundos que o espa&#xE7;o da pol&#xED;tica foi constru&#xED;do durante a ditadura civil-militar, e para o autor interessa entender &#x201C;como isso foi poss&#xED;vel&#x201D; e &#x201C;de que formas&#x201D;. An&#xE1;lise dif&#xED;cil, dado a complexidade de acessar esse universo, mas que Acselrad procura alcan&#xE7;ar atrav&#xE9;s da utiliza&#xE7;&#xE3;o de conceitos importantes, destacadamente, o de cotidiano. O autor esclarece que em linhas gerais o cotidiano &#xE9; compreendido como um conjunto de pr&#xE1;ticas que as pessoas experimentam na dimens&#xE3;o privada de suas exist&#xEA;ncias, por isso mesmo, tende a ser considerado apartado das transforma&#xE7;&#xF5;es hist&#xF3;ricas, bem como das estruturas econ&#xF4;micas e pol&#xED;ticas. N&#xE3;o obstante, alerta o autor, &#x201C;n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel tra&#xE7;ar rigorosamente uma linha divis&#xF3;ria entre o comportamento cotidiano e o n&#xE3;o cotidiano&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 16). A dificuldade em fazer tal distin&#xE7;&#xE3;o incide no fato de os comportamentos estarem sempre vinculados a determinadas circunst&#xE2;ncias sociais, desse modo, &#xE9; perfeitamente poss&#xED;vel que &#x201C;em momentos de efervesc&#xEA;ncia social, a dimens&#xE3;o privada da vida tenda a retrair-se, fazendo com que a exist&#xEA;ncia social torne-se cada vez mais p&#xFA;blica, podendo, inclusive, levar a que o pr&#xF3;prio cotidiano abra-se para hist&#xF3;ria&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 16). No entanto, no caso do Brasil da d&#xE9;cada de 1960, principalmente no per&#xED;odo que precedeu o AI-5, a efervesc&#xEA;ncia p&#xFA;blica ao contr&#xE1;rio de penetrar no cotidiano, se esvaiu, e foi se alojar no subterr&#xE2;neo da vida social, em espa&#xE7;os semip&#xFA;blicos e privados, e para Acselrad a grande quest&#xE3;o &#xE9;: como explicar isto? Em busca de resposta a essa indaga&#xE7;&#xE3;o o autor desenvolve as reflex&#xF5;es de cada um dos cap&#xED;tulos de sua obra.</p>
<p>Assim, no primeiro cap&#xED;tulo &#x201C;<italic>Entre a lua e rua: uma topologia social da clandestinidade pol&#xED;tica na cidade do Rio de Janeiro</italic>&#x201D;, o autor analisa os depoimentos de ex-militantes, partindo da premissa de que quando se viram &#x201C;angustiados com os sinais de seu isolamento, ativistas da luta clandestina de diferentes grupos, coincidentemente, subiram ao ponto mais alto da cidade, como se buscassem uma perspectiva mais ampla, uma &#x201C;vis&#xE3;o&#x201D; mais elucidativa do espa&#xE7;o social sobre o qual atuavam&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 33). Seu foco no cap&#xED;tulo &#xE9; analisar esse processo de deslocamento para os sub&#xFA;rbios, ou como ele chama essa &#x201C;topologia das dist&#xE2;ncias e altitudes&#x201D;, que n&#xE3;o se constitui apenas das dist&#xE2;ncias pol&#xED;ticas, &#x201C;mas das dist&#xE2;ncias sociais e culturais que tamb&#xE9;m estiveram presentes na experi&#xEA;ncia da luta clandestina no Brasil e que est&#xE3;o dialeticamente ligadas aos impasses daquela luta pol&#xED;tica&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 33). Na explica&#xE7;&#xE3;o de Acselrad, ao empreender esse tipo de reflex&#xE3;o, ele pretende abster-se de considerar como ponto de partida o desfecho do processo &#x2013; a destrui&#xE7;&#xE3;o das organiza&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas de esquerda entre 1969 e 1973 &#x2013;, para acessar elementos que constituem a experi&#xEA;ncia daquela luta efetivamente. Faz isso, a partir da an&#xE1;lise de trechos de depoimentos nos quais os ex-militantes relatam situa&#xE7;&#xF5;es que revelam a rea&#xE7;&#xE3;o dos habitantes dos sub&#xFA;rbios diante deles.</p>
<p>Em &#x201C;<italic>O morador, o transeunte e o terrorista: a cidade e as a&#xE7;&#xF5;es armadas contra a ditadura na narrativa dram&#xE1;tica da imprensa no Rio de Janeiro</italic>&#x201D;, segundo cap&#xED;tulo da obra, o autor faz uma an&#xE1;lise das not&#xED;cias publicadas nos jornais <italic>O Dia</italic> e <italic>Jornal do Brasil</italic> sobre as a&#xE7;&#xF5;es armadas entre os anos de 1969 e 1972. O foco foi principalmente as mat&#xE9;rias que procuravam reproduzir as falas dos transeuntes e testemunhas das a&#xE7;&#xF5;es armadas. Nesse sentido, Acselrad observa que havia uma preocupa&#xE7;&#xE3;o dos agentes da repress&#xE3;o pol&#xED;tica por controlar a impress&#xE3;o da popula&#xE7;&#xE3;o, com o claro objetivo de isolar os opositores do regime, e nessa empreitada contaram com o apoio da grande imprensa. Havia um cuidado constante de distinguir os delitos pol&#xED;ticos dos delitos comuns, bem como de descrever os militantes e seus grupos &#x201C;como personagens organizados, jovens, bonitos, elegantes, &#x201C;endinheirados&#x201D;, ousadamente perigosos, escolarizados, internacionalmente bem relacionados&#x201D;, principalmente com Cuba e Uni&#xE3;o Sovi&#xE9;tica (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 86). Com isso, criava-se a distin&#xE7;&#xE3;o entre o &#x201C;bandido comum&#x201D; e os militantes, estes &#xFA;ltimos como criaturas frias e altamente racionalizadas que teriam a viol&#xEA;ncia como valor, um &#x201C;&#x2018;externo&#x2019; &#xE0; cidade, que apenas dela se utilizaria para a consecu&#xE7;&#xE3;o de seus objetivos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 86). N&#xE3;o obstante essa imagem constru&#xED;da sobre o militante, o autor constata que havia entre os transeuntes e testemunhas das a&#xE7;&#xF5;es uma resist&#xEA;ncia recorrente em colaborar com os policiais, em sua perspectiva &#xE9; poss&#xED;vel que essa negativa estivesse associada ao agravamento do clima de repress&#xE3;o durante o per&#xED;odo ditatorial, sobretudo ap&#xF3;s a edi&#xE7;&#xE3;o do AI-5.</p>
<p>No terceiro cap&#xED;tulo &#x201C;<italic>No contratempo da cidade: a inscri&#xE7;&#xE3;o urbana da clandestinidade pol&#xED;tica</italic>&#x201D;, Acselrad analisa como a organiza&#xE7;&#xE3;o da cidade, destacadamente, dos sub&#xFA;rbios foi alvo dos reformadores sociais do regime. Nesse sentido, a cria&#xE7;&#xE3;o do Banco Nacional de Habita&#xE7;&#xE3;o (BHN), em 1964, expressava uma tentativa de neutralizar as for&#xE7;as de oposi&#xE7;&#xE3;o. Por&#xE9;m, &#xE0; medida que a repress&#xE3;o aumentava, o car&#xE1;ter social da quest&#xE3;o habitacional foi dando lugar aos interesses econ&#xF4;micos de grupos privilegiados, como os donos de empreiteiras. Mas, embora a reforma social n&#xE3;o tenha cumprido o papel inicial de minorar poss&#xED;veis oposi&#xE7;&#xF5;es, havia um silenciamento em rela&#xE7;&#xE3;o ao regime. Para o autor, no espa&#xE7;o da cidade &#x201C;o sil&#xEA;ncio significa um muro para a linguagem, aus&#xEA;ncia de comunica&#xE7;&#xE3;o, sinal de dist&#xE2;ncias que n&#xE3;o podem ser ultrapassadas&#x201D; e, dessa forma, o n&#xE3;o dito pode suscitar interpreta&#xE7;&#xF5;es a respeito do pr&#xF3;prio ambiente em que ele se instaura (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 86). No caso da milit&#xE2;ncia, o autor explica que foi criada &#x2013; nos interst&#xED;cios entre o p&#xFA;blico e o privado &#x2013; uma esp&#xE9;cie de &#x201C;espa&#xE7;o semip&#xFA;blico&#x201D;, onde estava circunscrito o comportamento militante e, consequentemente, sua a&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica. Era no cruzamento entre esses dois espa&#xE7;os que se podia vislumbrar tamb&#xE9;m alguma capacidade de cr&#xED;tica por parte dos habitantes dos sub&#xFA;rbios, cujas intera&#xE7;&#xF5;es, muitas vezes &#x201C;silenciosas&#x201D;, com os militantes clandestinos se davam a partir iniciativas sutis, tais como crian&#xE7;as levando avisos sobre a chegada da pol&#xED;cia, ou porteiros anotando placas de carros da repress&#xE3;o para ajudar as fam&#xED;lias a localizar seus entes presos.</p>
<p>&#x201C;<italic>Encena&#xE7;&#xE3;o e autenticidade: paradoxos da milit&#xE2;ncia clandestina</italic>&#x201D; &#xE9; o quarto cap&#xED;tulo. Nele o autor apresenta uma discuss&#xE3;o sociol&#xF3;gica sobre a experi&#xEA;ncia da milit&#xE2;ncia, j&#xE1; que analisa de que modo os militantes clandestinos tiveram que assumir m&#xFA;ltiplos personagens para adentrar a &#x201C;cena teatral&#x201D; da cidade. A cidade como cen&#xE1;rio &#xE9; a met&#xE1;fora que Acselrad utiliza para explicar como ela se firmou como &#x201C;espa&#xE7;o de exist&#xEA;ncia da vida social no qual v&#xE1;rias seriam as maneiras de se fazer conhecer pelos outros&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 168). Ao adotarem novas identidades fict&#xED;cias os militantes tinham que reinventar as pr&#xF3;prias vidas, recorrendo a uma &#x201C;teatraliza&#xE7;&#xE3;o de sua exist&#xEA;ncia cotidiana&#x201D;, para isso, procuravam construir um enredo suficientemente convincente, capaz de neutralizar o estranhamento que sua presen&#xE7;a pudesse causar. Nesse processo de &#x201C;inven&#xE7;&#xE3;o dram&#xE1;tica&#x201D; que se dava a a&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica, &#x201C;&#xE9; atrav&#xE9;s desta que a disposi&#xE7;&#xE3;o a ouvir influencia o desempenho de um locutor, assim como toda modifica&#xE7;&#xE3;o da postura de quem ouve modifica o empenho de quem fala e a densidade do que este fala&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 183). A l&#xF3;gica pol&#xED;tica, dessa &#xF3;tica, responderia a uma dimens&#xE3;o dupla, &#x201C;de uma discuss&#xE3;o argumentada e de um evento dram&#xE1;tico que produz a discuss&#xE3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 183). N&#xE3;o obstante, observa o autor, no caso das falas entre os militantes clandestinos e os moradores dos sub&#xFA;rbios faltava o espa&#xE7;o p&#xFA;blico &#x2013; onde a encena&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica se faria vis&#xED;vel &#x2013;, pois a repress&#xE3;o o havia destru&#xED;do, tornando-o o lugar da viol&#xEA;ncia e do silenciamento, por isso, foi na cena clandestina que se refugiou o poder transformador da palavra e a dimens&#xE3;o liter&#xE1;ria e pol&#xED;tica.</p>
<p>O quinto e &#xFA;ltimo cap&#xED;tulo da obra, &#x201C;<italic>Considera&#xE7;&#xF5;es sobre o lugar e as possibilidades da pol&#xED;tica</italic>&#x201D; traz uma reflex&#xE3;o interessante sobre o lugar da pol&#xED;tica na sociedade brasileira, tra&#xE7;ando uma an&#xE1;lise desde os anos 1960 at&#xE9; os movimentos de junho de 2013. O autor explica como a sociedade, assim como as organiza&#xE7;&#xF5;es de esquerda, encontravam-se restringidas pelo aparato repressivo do regime ditatorial, pois, &#x201C;a censura &#xE0; imprensa e o empobrecimento do debate p&#xFA;blico geravam uma esp&#xE9;cie de manto de obscuridade sobre o real&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 190). Com isso, foi sendo internalizado um silenciamento da vida pol&#xED;tica, que dificultou a possibilidade de criar projetos coletivos capazes de favorecer a constru&#xE7;&#xE3;o de novos modos de ver as condi&#xE7;&#xF5;es de domina&#xE7;&#xE3;o, ou estimular um questionamento mais agu&#xE7;ado sobre o car&#xE1;ter arbitr&#xE1;rio das rela&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas e sociais. Acselrad avan&#xE7;a a an&#xE1;lise e observa como ap&#xF3;s cinquenta anos do golpe de 1964 retomou-se a discuss&#xE3;o sobre seu &#x201C;legado&#x201D; institucional: &#x201C;a viol&#xEA;ncia de Estado, a militariza&#xE7;&#xE3;o das pol&#xED;cias; a impunidade dos torturadores; uma lei da Anistia pela qual respons&#xE1;veis pela ditadura perdoaram a si pr&#xF3;prios e a seus esbirros; as evid&#xEA;ncias de que grandes interesses econ&#xF4;micos lucraram com o golpe&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 200). Do ponto de vista da esfera p&#xFA;blica, enquanto <italic>l&#xF3;cus</italic> de atua&#xE7;&#xE3;o dos sujeitos pol&#xED;ticos, o autor aponta para um processo crescente de desqualifica&#xE7;&#xE3;o da pol&#xED;tica ap&#xF3;s a d&#xE9;cada de 1990, visando justificar a amplia&#xE7;&#xE3;o da esfera n&#xE3;o pol&#xED;tica, que valoriza a figura dos indiv&#xED;duos &#x201C;empres&#xE1;rios de si mesmos&#x201D;. Esse processo de despolitiza&#xE7;&#xE3;o &#xE9; caracterizado por ele como uma &#x201C;antipol&#xED;tica de mercado&#x201D;, que leva a uma retirada de certas quest&#xF5;es do campo pol&#xED;tico, al&#xE9;m de instalar um pragmatismo no campo institucional que, em nome da governabilidade, favorece a privatiza&#xE7;&#xE3;o do Estado. Acselrad finaliza sua argumenta&#xE7;&#xE3;o apontando para a possibilidade de que os movimentos de junho de 2013 pudessem representar uma ruptura nesse processo, &#x201C;recusando a instala&#xE7;&#xE3;o do cinismo em forma de racionaliza&#xE7;&#xE3;o das intera&#xE7;&#xF5;es sociais e pol&#xED;ticas&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">ACSELRAD, 2015</xref>, p. 213). Entretanto, sua hip&#xF3;tese n&#xE3;o se confirmou, j&#xE1; que o esvaziamento do espa&#xE7;o p&#xFA;blico e a privatiza&#xE7;&#xE3;o do Estado mostram-se cada vez mais latentes.</p>
<p>Em suma, a obra oferece ao leitor uma an&#xE1;lise com um variado referencial te&#xF3;rico, que subsidia as reflex&#xF5;es do autor sobre o espa&#xE7;o urbano e as intera&#xE7;&#xF5;es sociais estabelecidas entre militantes clandestinos e habitantes dos sub&#xFA;rbios cariocas. Destacam-se conceitos como cotidiano, pol&#xED;tica, esfera p&#xFA;blica, experi&#xEA;ncia, entre outros. Al&#xE9;m disso, Acselrad conta com um rico material para an&#xE1;lise, que envolve jornais e, principalmente, um conjunto significativo de entrevistas: s&#xE3;o cinquenta depoimentos de vinte e tr&#xEA;s homens e vinte sete mulheres integrantes de onze organiza&#xE7;&#xF5;es diferentes, nove delas envolvidas em a&#xE7;&#xF5;es armadas. Os trechos citados na obra s&#xE3;o expressivos e agu&#xE7;am o interesse de pesquisadores, sobretudo aqueles que se dedicam ao trabalho com hist&#xF3;ria oral, pois revelam elementos importantes para entender o cotidiano sob a ditadura. No entanto, nem sempre tais detalhes s&#xE3;o explorados em profundidade, talvez em raz&#xE3;o dos objetivos propostos por Acselrad. Mas, sem d&#xFA;vida, &#xE9; uma obra que vale a leitura, principalmente, pela originalidade no tratamento do tema da milit&#xE2;ncia pol&#xED;tica durante a ditadura civil-militar no Brasil, entre 1969 e 1973.</p></body>
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			<p>&#x2022; Professora Adjunta de Hist&#xF3;ria do Brasil Republicano na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Doutora em Hist&#xF3;ria Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF).</p></fn>
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<title>Refer&#xEA;ncia</title>
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	<mixed-citation>ACSELRAD, Henri. Sinais de Fumaça na Cidade: uma sociologia da clandestinidade na luta contra a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Lamparina, FAPERJ, 2015.</mixed-citation>
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