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<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
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<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2017.3.26718</article-id>
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<subject>Resenha</subject>
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<subject>Amor Mundi &#x2013; Atualidade e Recep&#xE7;&#xE3;o de Hannah Arendt</subject></subj-group></subj-group></article-categories>
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<article-title>Uma &#xE9;tica da responsabilidade pessoal</article-title>
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<trans-title>An ethics of personal responsibility</trans-title></trans-title-group>
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<trans-title>Una &#xE9;tica de la responsabilidad personal</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Correia</surname><given-names>Adriano</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref>
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<p>A<sc>driano</sc> C<sc>orreia</sc> <email>correiaadriano@yahoo.com.br</email></p>
<p>&#x2022; Professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goi&#xE1;s (UFG). &#xC9; bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. Doutor em Filosofia pela Unicamp. Autor de <italic>Hannah Arendt</italic> (ZAHAR, 2006) e <italic>Hannah Arendt e a modernidade &#x2013; pol&#xED;tica, economia e a disputa por uma fronteira</italic> (Forense Universit&#xE1;ria, 2014). Pesquisa e ensina nas &#xE1;reas de filosofia pol&#xED;tica, &#xE9;tica e filosofia do direito.</p>
<p>&#x2218; Professor of the Faculty of Philosophy at Universidade Federal de Goi&#xE1;s (UFG). CNPq Research Productivity Fellow in Philosophy. PhD in Philosophy from Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Author of Hannah Arendt (ZAHAR, 2006) and Hannah Arendt e a modernidade &#x2013; pol&#xED;tica, economia e a disputa por uma fronteira (Forense Universit&#xE1;ria, 2014). Research interests: Political Philosophy, Ethics and Philosophy of Law.</p></bio></contrib>
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<institution content-type="original">Professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goi&#xE1;s (UFG)</institution><country country="BR">Brasil</country></aff></contrib-group>
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<name><surname>ASSY</surname><given-names>Bethania</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">&#xC9;tica responsabilidade e ju&#xED;zo em Hannah Arendt</source>
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<publisher-name>Perspectiva</publisher-name>
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<p>Quando Hannah Arendt informou a Karl Jaspers, bem no in&#xED;cio dos anos 1960, que acompanharia como rep&#xF3;rter o julgamento de Adolf K. Eichmann em Jerusal&#xE9;m, ele, com zelosa clarivid&#xEA;ncia, buscou desestimul&#xE1;-la, pois dizia antever problemas na empreitada. N&#xE3;o obstante, Arendt acabou por acompanhar o julgamento e, algum tempo depois, relat&#xE1;-lo em <italic>Eichmann em Jerusal&#xE9;m: um relato sobre a banalidade do mal</italic>. O livro provocou pol&#xEA;micas v&#xE1;rias e uma repercuss&#xE3;o amplamente negativa nas comunidades judaicas de diversas partes (principalmente nos EUA e na Europa) e entre os intelectuais seus contempor&#xE2;neos, muitos deles amigos de remota data.</p>
<p>Com sua caracteriza&#xE7;&#xE3;o de Eichmann como um palha&#xE7;o irreflexivo, ela teria diminu&#xED;do a estatura do dano &#xE0;s v&#xED;timas; com a indica&#xE7;&#xE3;o da coopera&#xE7;&#xE3;o de parte da lideran&#xE7;a judaica, teria criminalizado as v&#xED;timas e as tornado correspons&#xE1;veis por seu pr&#xF3;prio exterm&#xED;nio; por sua cr&#xED;tica a v&#xE1;rios aspectos procedimentais e legais, havia destitu&#xED;do o Estado nacional que representava os judeus do mundo da legitimidade para julgar seus algozes; ao associar a conduta de Eichmann e de muitos como ele &#xE0; no&#xE7;&#xE3;o de banalidade do mal, teria trivializado os eventos e os privado de sua pung&#xEA;ncia e singularidade.</p>
<p>Ante a mir&#xED;ade de obje&#xE7;&#xF5;es, Arendt inicialmente decidiu-se por silenciar-se sobre a pol&#xEA;mica quase por completo, com exce&#xE7;&#xE3;o das reformula&#xE7;&#xF5;es realizadas na segunda edi&#xE7;&#xE3;o da obra e da correspond&#xEA;ncia com seus amigos e tamb&#xE9;m com alguns dos sobreviventes do exterm&#xED;nio que se sentiram ofendidos por seu relato. Jaspers persistiu sendo um interlocutor privilegiado e foi em grande medida na discuss&#xE3;o epistolar com ele que ela aos poucos se apercebeu da relev&#xE2;ncia moral da express&#xE3;o &#x201C;banalidade do mal&#x201D;, a qual durante certo tempo ela insistiu em compreender apenas como a descri&#xE7;&#xE3;o de um fen&#xF4;meno. Passado o turbilh&#xE3;o inicial em torno do livro, sobreviveu, entretanto, a discuss&#xE3;o em torno da no&#xE7;&#xE3;o de &#x201C;banalidade do mal&#x201D;, da qual ela tratou de extrair as implica&#xE7;&#xF5;es filos&#xF3;ficas j&#xE1; em palestras e cursos de meados da d&#xE9;cada de 1960, nos quais os conceitos de &#x201C;pensamento&#x201D; e de &#x201C;responsabilidade&#x201D; adquirem papel fundamental.</p>
<p>Amainado o alarido e dissipadas as incompreens&#xF5;es propagadas pelos que, nas palavras de Arendt, combatiam um livro que n&#xE3;o leram e que ela n&#xE3;o havia escrito, restaram, n&#xE3;o obstante, uma s&#xE9;rie de quest&#xF5;es que vinculavam decisivamente este evento a problemas fundamentais da hist&#xF3;ria do pensamento moral e pol&#xED;tico: o que &#xE9; o mal? Como agir bem? A responsabilidade pessoal harmoniza-se com a responsabilidade pol&#xED;tica? Em que consiste a personalidade moral? Qual a rela&#xE7;&#xE3;o entre mal e tenta&#xE7;&#xE3;o? &#xC9; poss&#xED;vel um mal n&#xE3;o radical? &#xC9; poss&#xED;vel ser mau sem ter um &#x201C;cora&#xE7;&#xE3;o maligno&#x201D; ou motivos pervertidos? O mal pode ao mesmo tempo ser gigantesco e superficial?</p>
<p>O fen&#xF4;meno da banalidade do mal, para o qual o tipo Eichmann operava como uma met&#xE1;fora precisa, foi o in&#xED;cio da trilha percorrida por Arendt na tentativa de responder a estas quest&#xF5;es, &#xE0; margem de uma tradi&#xE7;&#xE3;o cuja fal&#xEA;ncia foi evidenciada, nesse particular, em sua incapacidade de fornecer respostas a estas quest&#xF5;es. A tradi&#xE7;&#xE3;o, na verdade, era parte do problema, na medida em que n&#xE3;o havia concebido, com raras exce&#xE7;&#xF5;es, fen&#xF4;menos como o querer o mal pelo mal e o mal desencadeado pela assimila&#xE7;&#xE3;o irrefletida &#xE0; normalidade.</p>
<p>J&#xE1; a partir de 1964, ano da segunda edi&#xE7;&#xE3;o de <italic>Eichmann em Jerusal&#xE9;m</italic>, at&#xE9; <italic>A vida do esp&#xED;rito</italic>, publicada postumamente em 1978, Arendt empreende uma vasta incurs&#xE3;o por quest&#xF5;es morais que se desdobraram do julgamento e da pol&#xEA;mica em torno do livro, algumas delas mencionadas acima. Esse material inclui uma s&#xE9;rie de textos que permaneceram in&#xE9;ditos at&#xE9; sua morte, em 1975, boa parte deles gravitando em torno da quest&#xE3;o sobre se o pensamento pode evitar o mal e, caso possa, como. Esta quest&#xE3;o se desdobrava da hip&#xF3;tese, desenvolvida no livro-reportagem, de que para compreender a participa&#xE7;&#xE3;o de Eichmann no exterm&#xED;nio era necess&#xE1;rio ter em mente que seu tra&#xE7;o de car&#xE1;ter mais not&#xE1;vel era sua consp&#xED;cua incapacidade de pensar, no sentido de dialogar consigo mesmo e de situar-se, pela imagina&#xE7;&#xE3;o, no ponto de vista de outrem.</p>
<p>V&#xE1;rios dos esfor&#xE7;os de Arendt por lidar com esses problemas est&#xE3;o registrados nos textos coligidos nas obras p&#xF3;stumas <italic>Responsabilidade e julgamento</italic> (na qual encontramos textos fundamentais, como o curso &#x201C;Algumas quest&#xF5;es de filosofia moral&#x201D;) e <italic>A vida do esp&#xED;rito</italic>. Muitos textos importantes ainda permanecem in&#xE9;ditos, como as anota&#xE7;&#xF5;es do curso &#x201C;Proposi&#xE7;&#xF5;es morais fundamentais&#x201D; (&#x201C;Basic moral propositions&#x201D;), ministrado em 1966. A trilha que segue de <italic>Eichmann em Jerusal&#xE9;m</italic> a <italic>A vida do esp&#xED;rito</italic> demarca tamb&#xE9;m o percurso fundamental da obra <italic>&#xC9;tica, responsabilidade e ju&#xED;zo em Hannah Arendt</italic>, de Bethania Assy, que acaba de ser publicada em portugu&#xEA;s pela editora Perspectiva, com o pref&#xE1;cio original de Agnes Heller e outro concebido por Celso Lafer especialmente para a edi&#xE7;&#xE3;o em portugu&#xEA;s. A autora, que &#xE9; doutora em filosofia pela New School for Social Research, participou da edi&#xE7;&#xE3;o da obra <italic>Responsabilidade e julgamento</italic> em ingl&#xEA;s e fez a introdu&#xE7;&#xE3;o &#xE0; edi&#xE7;&#xE3;o brasileira da mesma &#x2013; introdu&#xE7;&#xE3;o que, junto a este seu novo livro, constitui o material mais inspirador em l&#xED;ngua portuguesa para pensar as quest&#xF5;es morais na obra de Hannah Arendt.</p>
<p>Publicado originalmente em ingl&#xEA;s na Alemanha em 2008 com o t&#xED;tulo <italic>Hannah Arendt &#x2013; an ethics of personal responsibility</italic>, a obra foi traduzida para o portugu&#xEA;s pela pr&#xF3;pria autora, que realizou v&#xE1;rias modifica&#xE7;&#xF5;es no texto, alguma atualiza&#xE7;&#xE3;o bibliogr&#xE1;fica e reestruturou parcialmente a divis&#xE3;o em cap&#xED;tulos (excluindo, por exemplo, o cap&#xED;tulo &#x201C;Private faces in public places &#x2013; an ethics of personal responsibility&#x201D;, tema j&#xE1; abordado pela autora em outro texto j&#xE1; publicado, a introdu&#xE7;&#xE3;o &#xE0; edi&#xE7;&#xE3;o brasileira de <italic>Responsabilidade e julgamento</italic>). Afora reelabora&#xE7;&#xF5;es menores, o esp&#xED;rito da obra permanece, n&#xE3;o obstante, o mesmo: trata-se de enfatizar a centralidade da no&#xE7;&#xE3;o de responsabilidade pessoal e seu estreito v&#xED;nculo com uma &#xE9;tica da apar&#xEA;ncia e da visibilidade, para as quais as atividades da vida do esp&#xED;rito s&#xE3;o decisivas. Como a autora estabelece na introdu&#xE7;&#xE3;o, &#x201C;uma &#xE9;tica da responsabilidade pessoal est&#xE1; ligada &#xE0; visibilidade de nossas a&#xE7;&#xF5;es e opini&#xF5;es articuladas publicamente, que, por sua vez, est&#xE3;o associadas ao cultivo de um ethos p&#xFA;blico&#x201D; (ASSY, 2015, p. xxxiv).</p>
<p>Dos cinco cap&#xED;tulos do livro, tr&#xEA;s s&#xE3;o dedicados &#xE0; an&#xE1;lise das atividades espirituais &#x2013; as atividades do pensamento, da vontade e do ju&#xED;zo &#x2013;, a partir principalmente de como s&#xE3;o examinadas por Arendt em <italic>A vida do esp&#xED;rito</italic>, mas tamb&#xE9;m em textos preliminares, muitos in&#xE9;ditos, dos anos 1960 e 1970. O primeiro cap&#xED;tulo &#xE9; dedicado &#xE0; contextualiza&#xE7;&#xE3;o do julgamento de Eichmann, da an&#xE1;lise de Arendt e das implica&#xE7;&#xF5;es morais correspondentes &#x2013; notadamente a descri&#xE7;&#xE3;o do mal perpetrado por Eichmann como uma nova manifesta&#xE7;&#xE3;o do mal na moral e na pol&#xED;tica, um mal &#x201C;trivial, burocr&#xE1;tico e cotidiano&#x201D; (ASSY, 2015, p. 12), que demandaria uma nova &#x201C;gram&#xE1;tica &#xE9;tica na pol&#xED;tica&#x201D;.</p>
<p>O segundo cap&#xED;tulo examina o que a autora nomeia como &#x201C;uma &#xE9;tica da responsabilidade pessoal calcada na apar&#xEA;ncia&#x201D; (p. 27) para a qual s&#xE3;o fundamentais as no&#xE7;&#xF5;es de pluralidade e de visibilidade, fundadas na condi&#xE7;&#xE3;o de mulheres e homens como seres do mundo em meio a seus pares, que d&#xE3;o a ver a si pr&#xF3;prios, suas singularidades, na medida mesma em que atuam e falam. O terceiro cap&#xED;tulo analisa as implica&#xE7;&#xF5;es pr&#xE1;ticas (morais e pol&#xED;ticas) do exerc&#xED;cio da atividade do pensamento. A experi&#xEA;ncia primordial da atividade &#xE9; justamente a de experimentar a si mesmo como parceiro de uma intera&#xE7;&#xE3;o, a qual possui desdobramentos nada negligenci&#xE1;veis: a figura&#xE7;&#xE3;o interior da condi&#xE7;&#xE3;o humana da pluralidade (ASSY, 2015, p. 81-82); e a exig&#xEA;ncia de consist&#xEA;ncia consigo mesmo; a experi&#xEA;ncia da pr&#xF3;pria companhia como a de uma incontorn&#xE1;vel testemunha da a&#xE7;&#xE3;o; a escolha de companhia, o zelo pela integridade do si-mesmo e a defini&#xE7;&#xE3;o de com que outro desejo ou consigo viver (ASSY, 2015, p. 103-104). Para Arendt, como bem nota Bethania Assy, em vista destes desdobramentos, o pensamento pode evitar o mal ao menos na medida em que, ao exigir que eu n&#xE3;o me torne uma m&#xE1; companhia para mim mesmo, cria obst&#xE1;culos &#xE0; perpetra&#xE7;&#xE3;o do mal.</p>
<p>N&#xE3;o obstante, n&#xE3;o se constitui uma filosofia moral ou uma &#xE9;tica da responsabilidade e da visibilidade apenas com o dizer n&#xE3;o. Seu car&#xE1;ter afirmativo desenrola-se da &#x201C;face interna da a&#xE7;&#xE3;o&#x201D;, da atividade da vontade e de seu dizer sim ou n&#xE3;o, de seu decidir-se pela a&#xE7;&#xE3;o ou pela ina&#xE7;&#xE3;o. Desse modo, redime-se da inquietude agon&#xED;stica que preside esse pr&#xF3;prio processo de decis&#xE3;o e &#xE9; fonte da pot&#xEA;ncia da vontade mesma. Como observa Bethania Assy, em seu terceiro cap&#xED;tulo, para Arendt a vontade opera como uma esp&#xE9;cie de pr&#xE9;-condi&#xE7;&#xE3;o para a a&#xE7;&#xE3;o, em sua capacidade de afirmar ou negar a exist&#xEA;ncia.</p>
<p>Trata-se ainda de buscar definir a forma como cada um aspira conformar, na medida das suas capacidades sempre contingentes, um projeto do <italic>quem</italic> que se d&#xE1; a ver no espa&#xE7;o da apar&#xEA;ncia, de modo que a vontade, &#x201C;em certo sentido, cria a <italic>pessoa</italic> que pode ser reprovada ou elogiada, ou, de qualquer modo, que pode ser responsabilizada n&#xE3;o somente por suas a&#xE7;&#xF5;es, mas por todo o seu &#x2018;Ser&#x2019;, seu car&#xE1;ter&#x201D; (ARENDT, apud ASSY, 2015, p. 133). O v&#xED;nculo de tais considera&#xE7;&#xF5;es com as quest&#xF5;es iniciais colocadas pelo tipo Eichmann, em sua recusa a tornar-se pessoa, mostra-se bastante estreito. Mediante a vontade, eu me vinculo ao meu projeto de companhia para mim mesmo e assim n&#xE3;o apenas me reconhe&#xE7;o no projeto que deslindo em minhas decis&#xF5;es, mas tamb&#xE9;m me responsabilizo pelo que enfim me torno, n&#xE3;o obstante minha n&#xE3;o-soberania sobre mim mesmo.</p>
<p>Por fim, Bethania Assy det&#xE9;m-se sobre a atividade de julgar e sobre sua capacidade de &#x2013; ao apelar para o <italic>sensus communis</italic> como um sentido comunit&#xE1;rio &#x2013; nos vincular a uma comunidade por meio da imagina&#xE7;&#xE3;o, do sair em visita a perspectivas outras e v&#xE1;rias. Por esta capacidade, o ju&#xED;zo promove sempre o alargamento da nossa mentalidade e nossa aptid&#xE3;o para imaginar exemplos operativos na defini&#xE7;&#xE3;o de nossa perspectiva sobre o certo e o errado, o belo e o feio. Tamb&#xE9;m na atividade de julgar a responsabilidade pessoal &#xE9; proeminente: trata-se n&#xE3;o apenas de julgar tomando os demais envolvidos em considera&#xE7;&#xE3;o, mas ainda da coragem de afirmar a dignidade dos particulares e de avalia-los sem dissolv&#xEA;-los em generaliza&#xE7;&#xF5;es uniformizadoras.</p>
<p>Nesse movimento duplo &#xE9; importante n&#xE3;o apenas a imagina&#xE7;&#xE3;o, que deve ser treinada para sair em visita a perspectivas v&#xE1;rias, mas &#x2013; e isto &#xE9; singular na abordagem de Bethania Assy &#x2013; o &#x201C;cultivo de sentimentos p&#xFA;blicos&#x201D; (ASSY, 2015, p. 182-183), sem o qual o julgamento teria enfraquecida sua capacidade de julgar em um contexto de pluralidade. Ao julgar, vinculo-me aos outros e ao mundo e ao mesmo tempo respondo por minhas valora&#xE7;&#xF5;es, de modo an&#xE1;logo a como respondo pelo que desencadeio por meio da a&#xE7;&#xE3;o &#x2013; tamb&#xE9;m aqui, por isto mesmo, a coragem permanece como uma proeminente virtude.</p>
<p>Em sua obra, Bethania Assy enfrenta as dificuldades levantadas por Arendt com perspic&#xE1;cia, sutileza e erudi&#xE7;&#xE3;o, evidenciando as articula&#xE7;&#xF5;es entre considera&#xE7;&#xF5;es muitas vezes esparsas e inacabadas, e frequentemente fragment&#xE1;rias e prec&#xE1;rias. A autora estabelece com a obra de Arendt um di&#xE1;logo que ultrapassa em muito o &#xE2;mbito da exegese, sem, todavia, negligenci&#xE1;-lo. O esfor&#xE7;o interpretativo levado a cabo exp&#xF5;e com franqueza e precis&#xE3;o o car&#xE1;ter provisional das an&#xE1;lises de Arendt, assim como a pung&#xEA;ncia dos problemas que ela n&#xE3;o temeu levantar, mesmo e principalmente quando se viu em dificuldades para encaminhar respostas.</p>
<p>Em vista disto, cabe reiterar, a obra que ora analisamos ao mesmo tempo articula as investiga&#xE7;&#xF5;es morais de Arendt por meio do privilegiado fio condutor da responsabilidade pessoal e avan&#xE7;a em trilhas que Arendt n&#xE3;o percorreu, ainda que para elas tenha acenado. &#xC9;, assim, uma obra fundamental nos estudos sobre o tema, e tamb&#xE9;m por isto vale mencionar que, a despeito de n&#xE3;o afetar minimamente seu m&#xE9;rito filos&#xF3;fico, &#xE9; imperiosa uma revis&#xE3;o do texto nas v&#xE1;rias edi&#xE7;&#xF5;es que dever&#xE3;o se seguir a esta primeira para corrigir diversos problemas, principalmente de digita&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Talvez, do ponto de vista pessoal, o zelo de Jaspers pudesse ajudar a preservar Arendt de v&#xE1;rios dissabores decorrentes da recep&#xE7;&#xE3;o hostil a seu livro-reportagem sobre o julgamento de Eichmann em Jerusal&#xE9;m. Estudos como este revelam, todavia, a vitalidade e a capacidade de inspira&#xE7;&#xE3;o de suas an&#xE1;lises no sentido da concep&#xE7;&#xE3;o de uma filosofia moral vigorosa e vinculante em um contexto de emancipa&#xE7;&#xE3;o de uma transcend&#xEA;ncia pressuposta e celebrada at&#xE9; h&#xE1; muito pouco tempo em filosofia moral e tamb&#xE9;m de desvincula&#xE7;&#xE3;o da niilista nostalgia do absoluto que se seguiu a ela. Na dignidade da singularidade e da pluralidade humanas Arendt encontra pr&#xF3;digas fontes para a excel&#xEA;ncia moral e para a responsabilidade pessoal, como primorosamente fez notar Bethania Assy.</p></body>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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outros. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.</mixed-citation>
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<mixed-citation>Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade
do mal. Trad. José R. Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras,
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<mixed-citation>Responsabilidade e julgamento. Trad. R. Eichenberg. Rev.
Téc. Bethania Assy e André Duarte. São Paulo: Companhia das
Letras, 2004.</mixed-citation><element-citation publication-type="book">
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<mixed-citation>ASSY, Bethania. Hannah Arendt: an Ethics of personal
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