Entrevista
A influência e a relevância do pensamento arendtiano para as Humanidades em nosso tempo é mais do que clara. Isso se demonstra pela qualidade e diversidade dos artigos apresentados neste dossiê, pela crescente produção interpretativa de seu pensamento ou, ainda, pela utilização de suas reflexões para fazer avançar novas análises e ações, tanto no meio acadêmico quanto fora dele. Mais ainda, nas transformações políticas a que temos assistido nos últimos anos e no avanço de ideias e políticas conservadoras e retrógradas, no desenvolvimento do populismo e do extremismo de direita, percebemos a atualidade premente de sua obra.
Evidências dessa atualidade não faltam. Uma delas é a indicação do livro de Bethânia Assy (2015), resenhado por Adriano Correia neste dossiê, ao prêmio Jabuti, o maior do mercado livreiro brasileiro, na categoria de Ciências Humanas/Não Ficção no ano de 2016. Ética, Responsabilidade e Juízo em Hannah Arendt traz considerações urgentes para a reflexão sobre o contexto brasileiro, mas em especial sobre a condição da ação, da responsabilização pelos atos de cada um de nós. A irreflexão que assalta o campo político, a aparente incapacidade de pensar e agir em consonância com os semelhantes ou de assumir sua responsabilidade no corpo social são elementos observados cotidianamente em nossa sociedade. Da mesma forma, a objetificação do semelhante – em um tempo no qual assédios sexuais e morais parecem normalizados – e a falta de empatia e de responsabilidade no trato com o outro não parecem levar nunca a uma reflexão e a uma ação socialmente responsável, mas apenas a ataques obtusos ao “politicamente correto” ou à “sensibilidade excessiva” do outro.
A responsabilidade pelo caos e pela dominação de toda forma de corrupção do tecido social é múltipla, ela pode ser de cada um, por suas (in)ações e falta de reflexão, e das instituições, por suas conivências e incentivos manifestados pelos indivíduos que dela fazem parte. Afinal, é na invisibilidade das estruturas burocráticas, que envolvem desde o mais alto nível do governo até as fábricas, empresas, forças de segurança, universidades e escolas, que a permissividade e a banalidade se manifestam. Hannah Arendt nos instiga a nos perguntar se uma existência moral é possível nessa realidade. Ela nos ensina que é na reflexão e na responsabilização que começamos a construir esse mundo, ao menos para nós mesmos. Se não cometemos um delito, é porque não queremos viver com um criminoso. Não podemos fugir de nossa própria companhia – onde eu vou, lá estarei. Assassinos estão condenados a conviver com assassinos, corruptos com corruptos. O inferno não são mais os outros. Bethânia Assy sintetiza, assim, três formas centrais de responsabilidade: a responsabilidade de escolher a si mesmo – e a seus atos –, a responsabilidade de escolher seus exemplos e dessa forma o espelho de sua conduta, e a responsabilidade pela preservação do mundo (amor mundi). A ciência dessa situação e a responsabilização pelos atos seria o princípio da construção dessa sociedade moralmente mais aguçada.
Outra evidência da atualidade de Hannah Arendt é a volta de Origens do Totalitarismo, estudo seminal da autora, à lista dos mais vendidos em todo o mundo após a ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Sua relevância não está na caracterização do movimento totalitário propriamente dito, mas sim na observação do atomismo social e do esvaziamento do sentido da política no mundo contemporâneo. Donald Trump pode não ser Hitler ou Stalin, mas a sociedade que lhe garante o poder é também uma sociedade de desvalidos, de desacreditados na política, de indivíduos que não se sentem representados e se percebem traídos pelas promessas e pelas ideologias. É nesse sentido que a obra retorna com insights preciosos, que nos apontam elementos para compreender o fenômeno da ascensão do populismo de direita no mundo e os perigos que ele pode representar. Esses exemplos, em meio a muitos outros, demonstram que não apenas a obra arendtiana ainda nos tem muito a ensinar, mas também que existe uma grande quantidade de pessoas que seguem seus passos e buscam, frente ao desconhecido e ao absurdo, compreender o mundo.
Mas diante desse cenário, uma questão retorna continuamente às nossas mentes: o que podemos de fato aprender com Arendt? Qual o papel de Arendt na educação, na reflexão e na construção de um saber cidadão? Buscamos as respostas para essas perguntas com um de seus alunos mais importantes, herdeiro direto que é de seu trabalho.
Jerome Kohn foi aluno e assistente pessoal de Hannah Arendt, auxiliando-a em seu trabalho docente. Depois da morte da autora, em 1975, ele gerenciou seus bens e se tornou o diretor do Hannah Arendt Center na New School University, em Nova York. Reeditou o livro Entre Passado e Futuro (2006) e organizou os volumes Hannah Arendt – Essays in Understanding, 1954-1975 (1994), que tem o segundo volume com previsão de lançamento para 2017, Responsabilidade e Julgamento (2003), e, juntamente com Ron Feldman, Os Escritos Judaicos (2007) e A Promessa da Política (2009). No site da The Hannah Arendt Papers, na Biblioteca do Congresso, publicou três ensaios sob o título The Role of Experience in Hannah Arendt's Political Thought. Em alemão, publicou Urteilen und eine gemeinsame Welt no volume organizado por Wolfgang Heuer e Irmela von der Lühe, Hannah Arendt und die Künste (2007), Die geistsprühende Arendt – Erinnerungen, na revista Text + Kritik, In Arendts Seminar, na revista Offener Horizont, Jahrbuch der Karl Jaspers-Gesellschaft, Hannah Arendt: Unter Freunden, na mesma Offener Horizont, além de vários verbetes e ensaios no Arendt Handbuch, organizado por Wolfgang Heuer, Stefanie Rosenmüller e Bernd Heiter. As respostas abaixo dão sua perspectiva pessoal sobre a obra de Arendt, a produção que a seguiu e sobre a importância e atualidade de sua obra.
Boa leitura!
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■ Heuer/Liebel: Professor Kohn, muito obrigado por nos atender para esta entrevista. Podemos começar com uma questão mais pessoal. O senhor foi estudante de Hannah Arendt e se tornou posteriormente seu pesquisador assistente. Quando isso ocorreu e qual foi a sua primeira impressão dela?
□ Kohn:Eu trabalhei como assistente, ou monitor, de Arendt de 1979 até o ano de sua morte, em 1975, ou seja, por sete anos. O que primeiro me causou impressão em Arendt foi a sua espontaneidade. Eu estava na universidade de Columbia naquele momento e queria participar de seus cursos, oferecidos na New School de Nova York. Lá eu fui informado de que eu poderia assistir apenas a um dos dois cursos que ela oferecia então. Eu perguntei se poderia me encontrar com Arendt. Mostraram-me o caminho até o seu escritório, e lá eu falei para ela que ela era a única razão de eu estar lá na New School. Ela me disse, “Olha, aqui, o que eu posso fazer a respeito dessas regras?” Eu agradeci a ela e saí de sua sala. Era um longo corredor até a saída do prédio. Então eu ouvi passos apressados atrás de mim. Era ela. Quando ela me alcançou, ela agarrou meu braço e disse: “Está bem, por favor, venha para os dois cursos, mas não conte para ninguém!” Esse foi o primeiro exemplo de sua espontaneidade, a qual eu testemunharia inúmeras vezes nos anos que se seguiriam.
■ Heuer/Liebel: E o que as aulas de Hannah Arendt tinham de especial?
□ Kohn:Estudar com Arendt foi diferente de todas as minhas outras experiências de estudo, com qualquer outra pessoa. Ela era imensamente erudita, a gente aprendia muito durante todo o processo. Ainda, era muito diferente da experiência típica do professor ensinando e o estudante escutando e aprendendo. O mais importante era que a gente aprendia com ela a questionar. Em seminários, principalmente, ela mesma levantava questões sobre o texto que estava sendo lido. Se era um texto antigo, vamos dizer, um dos Diálogos de Platão, por exemplo, ela passaria aos estudantes o sentido de uma conversação pública. Ela respondia a Sócrates não só com as palavras de seus interlocutores no texto, mas também com as suas próprias. Isso implicava também na explicação de uma grande parte da sintaxe e da gramática gregas. Mas o evento em si mesmo – e suas aulas eram eventos – tinham o efeito de transportar seus estudantes para uma arena pública na qual sua mais profunda necessidade era a de questionar um ao outro e, principalmente, de questioná-la.1
■ Heuer/Liebel: A obra de Hannah Arendt não se enquadra bem em nenhuma das disciplinas científicas convencionais. Filósofos criticam o seu pensamento, acusando-o de não-normativo; cientistas políticos a acusam de ser elitista e conservadora, enquanto historiadores argumentaram que seu estudo sobre o Totalitarismo não remetia ao estado da arte. Todas essas alegadas fraquezas acabaram lançando uma luz negativa sobre o pensamento de Arendt em alguns círculos. Como soaria uma descrição positiva de seu trabalho? Qual o lugar de Arendt?
□ Kohn:Isso é menos verdade nos Estados Unidos, talvez, do que na Alemanha, pelo menos hoje em dia. A reputação de Arendt nas universidades norte-americanas – e em muitos outros lugares do mundo – é enorme e vem crescendo bastante. A esterilidade da abordagem científica social a questões políticas é um dos importantes fatores que levam a sua nova proeminência nas universidades e a seu extraordinário apelo entre os estudantes. Outro é a grande diversidade de seu pensamento. Classicistas, filologistas, críticos culturais, bem como filósofos e cientistas políticos e teóricos políticos estão se voltando a ela com uma frequência cada vez maior.
■ Heuer/Liebel: O trabalho de Arendt contém algumas posições teóricas contestadas em alguns círculos. Sua distinção intransigente entre política e o campo social, por exemplo, ou seu ensaio crítico sobre a integração forçada de alunos negros em Little Rock, em 1958. Arendt, com sua distinção aristotélica de que A não é o mesmo que B, estava inclinada a um esquematismo ou ela tem sido mal interpretada nesses pontos? Você acredita que Arendt é ainda relevante hoje em dia, e se sim, em que sentido?
□ Kohn:Arendt via o mundo contemporâneo – nos aspectos históricos, políticos, científicos e filosóficos – destroçado por sucessivas crises (ver Entre o Passado e o Futuro). Hoje, mais e mais pensadores acabam concordando com ela ao conceber que essas crises ocorrem em franca oposição à tradição do pensamento ocidental e assim elude respostas tradicionais. Em minha opinião, o fato da grande tradição, para Arendt, ser parte do passado e poder ser entendida e mesmo festejada como tal, ultrapassa todo criticismo convencional (e tradicional) que é direcionado a ela, todas as críticas. Isso as torna irrelevantes. Isso também faz de Arendt uma autora bastante difícil de compreender. É apenas após o fim da tradição que alguém pode pensar substituindo os focos tradicionais e os propósitos educacionais, promovendo a habilidade de fazer distinções a partir da percepção de cada um e de desenvolver impressões do mundo real. Em outras palavras, o pensamento hoje busca fundar suas raízes na experiência.
■ Heuer/Liebel: Como você vê os desenvolvimentos atuais da pesquisa acerca da obra e do pensamento arendtianos?
□ Kohn:A pesquisa atual sobre Arendt é muito variada. Algumas das melhores contribuições não vêm de acadêmicos, mas de ativistas, como Fred Dewey2. Mas também existem acadêmicos – como você mesmo, Wolfgang – que permanecem ativos no mundo real. A escrita acadêmica sobre Arendt, ainda que bem intencionada e respeitável, geralmente cai nas mesmas armadilhas que ela mesma apontou.
■ Heuer/Liebel: Se você fosse recomendar uma publicação ao leitor, qual seria?
□ Kohn:Para mim, pessoalmemente, o mais completo estudo sobre o pensamento de Arendt ainda é o de Margaret Canovan, Hannah Arendt: A Reinterpretation of her Political Thought. Mas a literatura secundária sobre Arendt é bastante vasta, e certamente existem muitos livros e ensaios que lidam bem com aspectos particulares de seu pensamento.
■ Heuer/Liebel: O que podemos todos nós, acadêmicos e não acadêmicos, aprender a partir da obra e do pensamento de Hannah Arendt?
□ Kohn: Nós podemos aprender a pensar e a julgar, e a aplicar julgamento a nossas ações no mundo.
■ Heuer/Liebel: Muito obrigado!
Referências
ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2014.
ASSY, Bethânia. Ética, responsabilidade e juízo em Hannah Arendt. São Paulo: Perspectiva, 2015.
CANOVAN, Margaret. Hannah Arendt: a reinterpretation of her political thought. Cambridge: Cambridge University Press, 1992. https://doi.org/10.1017/CBO9780511521300
DEWEY, Fred. The school of public life. Berlin: Errant Bodies, 2014.
GORDON, Mordechai (Ed.). Hannah Arendt and Education: Renewing Our Common World. Westview Press 2001.
Notas