<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.0 20120330//EN" "http://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.0/JATS-journalpublishing1.dtd">
<article xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" dtd-version="1.0" specific-use="sps-1.7" article-type="other" xml:lang="pt">
<front>
<journal-meta>
<journal-id journal-id-type="publisher-id">ibero</journal-id>
<journal-title-group>
<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
<publisher>
<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id pub-id-type="publisher-id">00012</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2017.3.29059</article-id>
<article-categories>
<subj-group subj-group-type="heading">
<subject>Entrevista</subject>
<subj-group>
<subject>Amor Mundi &#x2013; Atualidade e Recep&#xE7;&#xE3;o de Hannah Arendt</subject></subj-group></subj-group></article-categories>
<title-group>
<article-title>&#x201C;Pensar, julgar e aplicar julgamento &#xE0;s nossas pr&#xF3;prias a&#xE7;&#xF5;es&#x201D; &#x2013; entrevista com Jerome Kohn<xref ref-type="fn" rid="fn1">*</xref></article-title>
<trans-title-group xml:lang="en">
<trans-title>&#x201C;To think, to judge and to apply judgement to our actions in the world&#x201D; &#x2013; interview with Jerome Kohn</trans-title></trans-title-group>
<trans-title-group xml:lang="es">
<trans-title>&#x201C;Pensar, juzgar y aplicar juicio a nuestras propias acciones&#x201D; &#x2013; entrevista con Jerome Kohn</trans-title></trans-title-group>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name><surname>Heuer</surname><given-names>Wolfgang</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">**</xref>
<bio>
<p>W<sc>olfgang</sc> H<sc>euer</sc> <email>wolfgang.heuer@gmx.de</email></p>
<p>&#x2022; Professor livre-docente no Instituto Otto-Suhr de Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica da Freie Universit&#xE4;t Berlin, &#xE9; historiador e doutor em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica pela Freie Universit&#xE4;t Berlin. Entre suas principais publica&#xE7;&#xF5;es ent&#xE3;o os livros <italic>Hannah Arendt</italic> (Rowohlt, 1987), <italic>Citizen: Politische Integrit&#xE4;t und politisches Handeln</italic> (Akademie, 1992), <italic>Couragiertes Handeln</italic> (zu Klampen, 2002) e a organiza&#xE7;&#xE3;o, com B. Heiter e S. Rosenm&#xFC;ller, do dicion&#xE1;rio <italic>Arendt Handbuch: Leben &#x2013; Werken &#x2013; Wirkung</italic> (J. B. Metzler, 2011).</p>
<p>&#x2218; Associate professor of the Otto-Suhr Institut at the Freie Universit&#xE4;t Berlin. He is historian and holds a PhD in Political Science from the Freie Universit&#xE4;t Berlin. Among his publications, stand out <italic>Hannah Arendt</italic> (Rowolt, 1987), <italic>Citizen: Politische Integrit&#xE4;t und politisches Handeln</italic> (Akademie, 1992), <italic>Couragiertes Handeln</italic> (zu Klampen, 2002) and the edition, togheter with B. Heiter and S. Rosenm&#xFC;ller, of the dictionary <italic>Arendt Handbuch: Leben &#x2013; Werken &#x2013; Wirkung</italic> (J. B. Metzler, 2011).</p></bio></contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name><surname>Liebel</surname><given-names>Vin&#xED;cius</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff2">***</xref>
<bio>
<p>V<sc>in&#xED;cius</sc> L<sc>iebel</sc> <email>y_liebel@yahoo.de</email></p>
<p>&#x2022; Historiador, doutor em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica pela Freie Universit&#xE4;t Berlin. Autor de <italic>Politische Karikaturen und die Grenzen des Humors und der Gewalt</italic> (Budrich, 2011) e <italic>Humor, Propaganda e Persuas&#xE3;o: As Charges na Propaganda Nazista &#x2013; uma an&#xE1;lise dos jornais Der St&#xFC;rmer (Alemanha) e Deutscher Morgen (Brasil)</italic> (NEA, 2017). Pesquisador associado do N&#xFA;cleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e &#xC1;rabes (Niej), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).</p>
<p>&#x2218; Historian, PhD in Political Science from the Freie Universit&#xE4;t Berlin. Author of <italic>Politische Karikaturen und die Grenzen des Humors und der Gewalt</italic> (Budrich, 2011) and <italic>Humor, Propaganda e Persuas&#xE3;o: As Charges na Propaganda Nazista &#x2013; uma an&#xE1;lise dos jornais Der St&#xFC;rmer (Alemanha) e Deutscher Morgen (Brasil)</italic>. Associate researcher of the Interdisciplinar Nucleus for Jewish and Arabian Studies (Niej), at the Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).</p></bio></contrib>
<aff id="aff1">
<label>**</label>
<institution content-type="original">Professor livre-docente no Instituto Otto-Suhr de Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica da Freie Universit&#xE4;t Berlin</institution><country country="GR">Alemania</country></aff>
<aff id="aff2">
<label>***</label>
<institution content-type="original">Historiador, doutor em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica pela Freie Universit&#xE4;t Berlin</institution><country country="GR">Alemania</country></aff></contrib-group>
<pub-date pub-type="epub-ppub">
<season>Sep-Dec</season>
<year>2017</year></pub-date>
<volume>43</volume>
<issue>3</issue>
<fpage>597</fpage>
<lpage>600</lpage>
<permissions>
<license xml:lang="en" license-type="open-access" xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">
<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p></license></permissions>
<counts>
<fig-count count="0"/>
<table-count count="0"/>
<equation-count count="0"/>
<ref-count count="5"/>
<page-count count="4"/></counts></article-meta></front>
<body>
<p>A influ&#xEA;ncia e a relev&#xE2;ncia do pensamento arendtiano para as Humanidades em nosso tempo &#xE9; mais do que clara. Isso se demonstra pela qualidade e diversidade dos artigos apresentados neste dossi&#xEA;, pela crescente produ&#xE7;&#xE3;o interpretativa de seu pensamento ou, ainda, pela utiliza&#xE7;&#xE3;o de suas reflex&#xF5;es para fazer avan&#xE7;ar novas an&#xE1;lises e a&#xE7;&#xF5;es, tanto no meio acad&#xEA;mico quanto fora dele. Mais ainda, nas transforma&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas a que temos assistido nos &#xFA;ltimos anos e no avan&#xE7;o de ideias e pol&#xED;ticas conservadoras e retr&#xF3;gradas, no desenvolvimento do populismo e do extremismo de direita, percebemos a atualidade premente de sua obra.</p>
<p>Evid&#xEA;ncias dessa atualidade n&#xE3;o faltam. Uma delas &#xE9; a indica&#xE7;&#xE3;o do livro de Beth&#xE2;nia <xref ref-type="bibr" rid="B2">Assy (2015)</xref>, resenhado por Adriano Correia neste dossi&#xEA;, ao pr&#xEA;mio Jabuti, o maior do mercado livreiro brasileiro, na categoria de Ci&#xEA;ncias Humanas/N&#xE3;o Fic&#xE7;&#xE3;o no ano de 2016. <italic>&#xC9;tica, Responsabilidade e Ju&#xED;zo em Hannah Arendt</italic> traz considera&#xE7;&#xF5;es urgentes para a reflex&#xE3;o sobre o contexto brasileiro, mas em especial sobre a condi&#xE7;&#xE3;o da a&#xE7;&#xE3;o, da responsabiliza&#xE7;&#xE3;o pelos atos de cada um de n&#xF3;s. A irreflex&#xE3;o que assalta o campo pol&#xED;tico, a aparente incapacidade de pensar e agir em conson&#xE2;ncia com os semelhantes ou de assumir sua responsabilidade no corpo social s&#xE3;o elementos observados cotidianamente em nossa sociedade. Da mesma forma, a objetifica&#xE7;&#xE3;o do semelhante &#x2013; em um tempo no qual ass&#xE9;dios sexuais e morais parecem normalizados &#x2013; e a falta de empatia e de responsabilidade no trato com o outro n&#xE3;o parecem levar nunca a uma reflex&#xE3;o e a uma a&#xE7;&#xE3;o socialmente respons&#xE1;vel, mas apenas a ataques obtusos ao &#x201C;politicamente correto&#x201D; ou &#xE0; &#x201C;sensibilidade excessiva&#x201D; do outro.</p>
<p>A responsabilidade pelo caos e pela domina&#xE7;&#xE3;o de toda forma de corrup&#xE7;&#xE3;o do tecido social &#xE9; m&#xFA;ltipla, ela pode ser de cada um, por suas (in)a&#xE7;&#xF5;es e falta de reflex&#xE3;o, e das institui&#xE7;&#xF5;es, por suas coniv&#xEA;ncias e incentivos manifestados pelos indiv&#xED;duos que dela fazem parte. Afinal, &#xE9; na invisibilidade das estruturas burocr&#xE1;ticas, que envolvem desde o mais alto n&#xED;vel do governo at&#xE9; as f&#xE1;bricas, empresas, for&#xE7;as de seguran&#xE7;a, universidades e escolas, que a permissividade e a banalidade se manifestam. Hannah Arendt nos instiga a nos perguntar se uma exist&#xEA;ncia moral &#xE9; poss&#xED;vel nessa realidade. Ela nos ensina que &#xE9; na reflex&#xE3;o e na responsabiliza&#xE7;&#xE3;o que come&#xE7;amos a construir esse mundo, ao menos para n&#xF3;s mesmos. Se n&#xE3;o cometemos um delito, &#xE9; porque n&#xE3;o queremos viver com um criminoso. N&#xE3;o podemos fugir de nossa pr&#xF3;pria companhia &#x2013; onde eu vou, l&#xE1; estarei. Assassinos est&#xE3;o condenados a conviver com assassinos, corruptos com corruptos. O inferno n&#xE3;o s&#xE3;o mais os outros. Beth&#xE2;nia Assy sintetiza, assim, tr&#xEA;s formas centrais de responsabilidade: a responsabilidade de escolher a si mesmo &#x2013; e a seus atos &#x2013;, a responsabilidade de escolher seus exemplos e dessa forma o espelho de sua conduta, e a responsabilidade pela preserva&#xE7;&#xE3;o do mundo (<italic>amor mundi</italic>). A ci&#xEA;ncia dessa situa&#xE7;&#xE3;o e a responsabiliza&#xE7;&#xE3;o pelos atos seria o princ&#xED;pio da constru&#xE7;&#xE3;o dessa sociedade moralmente mais agu&#xE7;ada.</p>
<p>Outra evid&#xEA;ncia da atualidade de Hannah Arendt &#xE9; a volta de <italic>Origens do Totalitarismo</italic>, estudo seminal da autora, &#xE0; lista dos mais vendidos em todo o mundo ap&#xF3;s a ascens&#xE3;o de Donald Trump &#xE0; presid&#xEA;ncia dos Estados Unidos. Sua relev&#xE2;ncia n&#xE3;o est&#xE1; na caracteriza&#xE7;&#xE3;o do movimento totalit&#xE1;rio propriamente dito, mas sim na observa&#xE7;&#xE3;o do atomismo social e do esvaziamento do sentido da pol&#xED;tica no mundo contempor&#xE2;neo. Donald Trump pode n&#xE3;o ser Hitler ou Stalin, mas a sociedade que lhe garante o poder &#xE9; tamb&#xE9;m uma sociedade de desvalidos, de desacreditados na pol&#xED;tica, de indiv&#xED;duos que n&#xE3;o se sentem representados e se percebem tra&#xED;dos pelas promessas e pelas ideologias. &#xC9; nesse sentido que a obra retorna com <italic>insights</italic> preciosos, que nos apontam elementos para compreender o fen&#xF4;meno da ascens&#xE3;o do populismo de direita no mundo e os perigos que ele pode representar. Esses exemplos, em meio a muitos outros, demonstram que n&#xE3;o apenas a obra arendtiana ainda nos tem muito a ensinar, mas tamb&#xE9;m que existe uma grande quantidade de pessoas que seguem seus passos e buscam, frente ao desconhecido e ao absurdo, compreender o mundo.</p>
<p>Mas diante desse cen&#xE1;rio, uma quest&#xE3;o retorna continuamente &#xE0;s nossas mentes: o que podemos de fato aprender com Arendt? Qual o papel de Arendt na educa&#xE7;&#xE3;o, na reflex&#xE3;o e na constru&#xE7;&#xE3;o de um saber cidad&#xE3;o? Buscamos as respostas para essas perguntas com um de seus alunos mais importantes, herdeiro direto que &#xE9; de seu trabalho.</p>
<p>Jerome Kohn foi aluno e assistente pessoal de Hannah Arendt, auxiliando-a em seu trabalho docente. Depois da morte da autora, em 1975, ele gerenciou seus bens e se tornou o diretor do <italic>Hannah Arendt Center</italic> na New School University, em Nova York. Reeditou o livro <italic>Entre Passado e Futuro</italic> (2006) e organizou os volumes <italic>Hannah Arendt &#x2013; Essays in Understanding, 1954-1975</italic> (1994), que tem o segundo volume com previs&#xE3;o de lan&#xE7;amento para 2017, <italic>Responsabilidade e Julgamento</italic> (2003), e, juntamente com Ron Feldman, <italic>Os Escritos Judaicos</italic> (2007) e <italic>A Promessa da Pol&#xED;tica</italic> (2009). No site da <italic>The Hannah Arendt Papers</italic>, na Biblioteca do Congresso, publicou tr&#xEA;s ensaios sob o t&#xED;tulo <italic>The Role of Experience in Hannah Arendt&#x27;s Political Thought.</italic> Em alem&#xE3;o, publicou <italic>Urteilen und eine gemeinsame Welt</italic> no volume organizado por Wolfgang Heuer e Irmela von der L&#xFC;he, <italic>Hannah Arendt und die K&#xFC;nste</italic> (2007), <italic>Die geistspr&#xFC;hende Arendt &#x2013; Erinnerungen</italic>, na revista <italic>Text + Kritik, In Arendts Seminar</italic>, na revista <italic>Offener Horizont, Jahrbuch der Karl Jaspers-Gesellschaft, Hannah Arendt: Unter Freunden</italic>, na mesma <italic>Offener Horizont</italic>, al&#xE9;m de v&#xE1;rios verbetes e ensaios no <italic>Arendt Handbuch</italic>, organizado por Wolfgang Heuer, Stefanie Rosenm&#xFC;ller e Bernd Heiter. As respostas abaixo d&#xE3;o sua perspectiva pessoal sobre a obra de Arendt, a produ&#xE7;&#xE3;o que a seguiu e sobre a import&#xE2;ncia e atualidade de sua obra.</p>
<p>Boa leitura!</p>
<p>***</p>
<p>&#x25A0; <bold>Heuer/Liebel:</bold> Professor Kohn, muito obrigado por nos atender para esta entrevista. Podemos come&#xE7;ar com uma quest&#xE3;o mais pessoal. O senhor foi estudante de Hannah Arendt e se tornou posteriormente seu pesquisador assistente. Quando isso ocorreu e qual foi a sua primeira impress&#xE3;o dela?</p>
<p>&#x25A1; <bold>Kohn:</bold> <italic>Eu trabalhei como assistente, ou monitor, de Arendt de 1979 at&#xE9; o ano de sua morte, em 1975, ou seja, por sete anos. O que primeiro me causou impress&#xE3;o em Arendt foi a sua espontaneidade. Eu estava na universidade de Columbia naquele momento e queria participar de seus cursos, oferecidos na New School de Nova York. L&#xE1; eu fui informado de que eu poderia assistir apenas a um dos dois cursos que ela oferecia ent&#xE3;o. Eu perguntei se poderia me encontrar com Arendt. Mostraram-me o caminho at&#xE9; o seu escrit&#xF3;rio, e l&#xE1; eu falei para ela que ela era a &#xFA;nica raz&#xE3;o de eu estar l&#xE1; na New School. Ela me disse, &#x201C;Olha, aqui, o que eu posso fazer a respeito dessas regras?&#x201D; Eu agradeci a ela e sa&#xED; de sua sala. Era um longo corredor at&#xE9; a sa&#xED;da do pr&#xE9;dio. Ent&#xE3;o eu ouvi passos apressados atr&#xE1;s de mim. Era ela. Quando ela me alcan&#xE7;ou, ela agarrou meu bra&#xE7;o e disse: &#x201C;Est&#xE1; bem, por favor, venha para os dois cursos, mas n&#xE3;o conte para ningu&#xE9;m!&#x201D; Esse foi o primeiro exemplo de sua espontaneidade, a qual eu testemunharia in&#xFA;meras vezes nos anos que se seguiriam.</italic></p>
<p>&#x25A0; <bold>Heuer/Liebel:</bold> E o que as aulas de Hannah Arendt tinham de especial?</p>
<p>&#x25A1; <bold>Kohn:</bold> <italic>Estudar com Arendt foi diferente de todas as minhas outras experi&#xEA;ncias de estudo, com qualquer outra pessoa. Ela era imensamente erudita, a gente aprendia muito durante todo o processo. Ainda, era muito diferente da experi&#xEA;ncia t&#xED;pica do professor ensinando e o estudante escutando e aprendendo. O mais importante era que a gente aprendia com ela a questionar. Em semin&#xE1;rios, principalmente, ela mesma levantava quest&#xF5;es sobre o texto que estava sendo lido. Se era um texto antigo, vamos dizer, um dos Di&#xE1;logos de Plat&#xE3;o, por exemplo, ela passaria aos estudantes o sentido de uma conversa&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica. Ela respondia a S&#xF3;crates n&#xE3;o s&#xF3; com as palavras de seus interlocutores no texto, mas tamb&#xE9;m com as suas pr&#xF3;prias. Isso implicava tamb&#xE9;m na explica&#xE7;&#xE3;o de uma grande parte da sintaxe e da gram&#xE1;tica gregas. Mas o evento em si mesmo &#x2013; e suas aulas eram eventos &#x2013; tinham o efeito de transportar seus estudantes para uma arena p&#xFA;blica na qual sua mais profunda necessidade era a de questionar um ao outro e, principalmente, de question&#xE1;-la</italic>.<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>1</sup></xref></p>
<p>&#x25A0; <bold>Heuer/Liebel:</bold> A obra de Hannah Arendt n&#xE3;o se enquadra bem em nenhuma das disciplinas cient&#xED;ficas convencionais. Fil&#xF3;sofos criticam o seu pensamento, acusando-o de n&#xE3;o-normativo; cientistas pol&#xED;ticos a acusam de ser elitista e conservadora, enquanto historiadores argumentaram que seu estudo sobre o Totalitarismo n&#xE3;o remetia ao estado da arte. Todas essas alegadas fraquezas acabaram lan&#xE7;ando uma luz negativa sobre o pensamento de Arendt em alguns c&#xED;rculos. Como soaria uma descri&#xE7;&#xE3;o positiva de seu trabalho? Qual o lugar de Arendt?</p>
<p>&#x25A1; <bold>Kohn:</bold> <italic>Isso &#xE9; menos verdade nos Estados Unidos, talvez, do que na Alemanha, pelo menos hoje em dia. A reputa&#xE7;&#xE3;o de Arendt nas universidades norte-americanas &#x2013; e em muitos outros lugares do mundo &#x2013; &#xE9; enorme e vem crescendo bastante. A esterilidade da abordagem cient&#xED;fica social a quest&#xF5;es pol&#xED;ticas &#xE9; um dos importantes fatores que levam a sua nova proemin&#xEA;ncia nas universidades e a seu extraordin&#xE1;rio apelo entre os estudantes. Outro &#xE9; a grande diversidade de seu pensamento. Classicistas, filologistas, cr&#xED;ticos culturais, bem como fil&#xF3;sofos e cientistas pol&#xED;ticos e te&#xF3;ricos pol&#xED;ticos est&#xE3;o se voltando a ela com uma frequ&#xEA;ncia cada vez maior.</italic></p>
<p>&#x25A0; <bold>Heuer/Liebel:</bold> O trabalho de Arendt cont&#xE9;m algumas posi&#xE7;&#xF5;es te&#xF3;ricas contestadas em alguns c&#xED;rculos. Sua distin&#xE7;&#xE3;o intransigente entre pol&#xED;tica e o campo social, por exemplo, ou seu ensaio cr&#xED;tico sobre a integra&#xE7;&#xE3;o for&#xE7;ada de alunos negros em Little Rock, em 1958. Arendt, com sua distin&#xE7;&#xE3;o aristot&#xE9;lica de que A n&#xE3;o &#xE9; o mesmo que B, estava inclinada a um esquematismo ou ela tem sido mal interpretada nesses pontos? Voc&#xEA; acredita que Arendt &#xE9; ainda relevante hoje em dia, e se sim, em que sentido?</p>
<p>&#x25A1; <bold>Kohn:</bold> <italic>Arendt via o mundo contempor&#xE2;neo &#x2013; nos aspectos hist&#xF3;ricos, pol&#xED;ticos, cient&#xED;ficos e filos&#xF3;ficos &#x2013; destro&#xE7;ado por sucessivas crises (ver Entre o Passado e o Futuro). Hoje, mais e mais pensadores acabam concordando com ela ao conceber que essas crises ocorrem em franca oposi&#xE7;&#xE3;o &#xE0; tradi&#xE7;&#xE3;o do pensamento ocidental e assim elude respostas tradicionais. Em minha opini&#xE3;o, o fato da grande tradi&#xE7;&#xE3;o, para Arendt, ser parte do passado e poder ser entendida e mesmo festejada como tal, ultrapassa todo criticismo convencional (e tradicional) que &#xE9; direcionado a ela, todas as cr&#xED;ticas. Isso as torna irrelevantes. Isso tamb&#xE9;m faz de Arendt uma autora bastante dif&#xED;cil de compreender. &#xC9; apenas ap&#xF3;s o fim da tradi&#xE7;&#xE3;o que algu&#xE9;m pode pensar substituindo os focos tradicionais e os prop&#xF3;sitos educacionais, promovendo a habilidade de fazer distin&#xE7;&#xF5;es a partir da percep&#xE7;&#xE3;o de cada um e de desenvolver impress&#xF5;es do mundo real. Em outras palavras, o pensamento hoje busca fundar suas ra&#xED;zes na experi&#xEA;ncia.</italic></p>
<p>&#x25A0; <bold>Heuer/Liebel:</bold> Como voc&#xEA; v&#xEA; os desenvolvimentos atuais da pesquisa acerca da obra e do pensamento arendtianos?</p>
<p>&#x25A1; <bold>Kohn:</bold> <italic>A pesquisa atual sobre Arendt &#xE9; muito variada. Algumas das melhores contribui&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o v&#xEA;m de acad&#xEA;micos, mas de ativistas, como Fred Dewey</italic><xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>2</sup></xref>. <italic>Mas tamb&#xE9;m existem acad&#xEA;micos &#x2013; como voc&#xEA; mesmo, Wolfgang &#x2013; que permanecem ativos no mundo real. A escrita acad&#xEA;mica sobre Arendt, ainda que bem intencionada e respeit&#xE1;vel, geralmente cai nas mesmas armadilhas que ela mesma apontou.</italic></p>
<p>&#x25A0; <bold>Heuer/Liebel:</bold> Se voc&#xEA; fosse recomendar uma publica&#xE7;&#xE3;o ao leitor, qual seria?</p>
<p>&#x25A1; <bold>Kohn:</bold> <italic>Para mim, pessoalmemente, o mais completo estudo sobre o pensamento de Arendt ainda &#xE9; o de Margaret Canovan, Hannah Arendt: A Reinterpretation of her Political Thought. Mas a literatura secund&#xE1;ria sobre Arendt &#xE9; bastante vasta, e certamente existem muitos livros e ensaios que lidam bem com aspectos particulares de seu pensamento.</italic></p>
<p>&#x25A0; <bold>Heuer/Liebel:</bold> O que podemos todos n&#xF3;s, acad&#xEA;micos e n&#xE3;o acad&#xEA;micos, aprender a partir da obra e do pensamento de Hannah Arendt?</p>
<p>&#x25A1; <bold>Kohn</bold>: <italic>N&#xF3;s podemos aprender a pensar e a julgar, e a aplicar julgamento a nossas a&#xE7;&#xF5;es no mundo.</italic></p>
<p>&#x25A0; <bold>Heuer/Liebel:</bold> Muito obrigado!</p></body>
<back>
<fn-group>
<fn id="fn1" fn-type="other">
<label>*</label>
<p>Tradu&#xE7;&#xE3;o: Vin&#xED;cius Liebel.</p></fn>
<fn id="fn2" fn-type="other">
<label>1</label>
<p>Ver tamb&#xE9;m Jerome Kohn/Elisabeth Young-Bruehl, What and how we learned from Hannah Arendt. An exchange of letters, in: <xref ref-type="bibr" rid="B5">GORDON, 2001</xref>, p. 225-256.</p></fn>
<fn id="fn3" fn-type="other">
<label>2</label>
<p>Fred Dewey &#xE9; cofundador do Neighborhood Councils Movement em Los Angeles, al&#xE9;m de escritor, editor e professor. Ele dirigiu o Beyond Baroque, um espa&#xE7;o p&#xFA;blico para poesia, arte e debate em Los Angeles entre 1995 e 2010. Atua no Art Center College of Design, em Pasadena, California, and conduz grupos de trabalho e pesquisa sobre Arendt em espa&#xE7;os p&#xFA;blicos e universidades pela Europa. Seu livro, <italic>The School of Public Life</italic> (2014), detalha seus esfor&#xE7;os pessoais pela reconstru&#xE7;&#xE3;o do espa&#xE7;o p&#xFA;blico na pol&#xED;tica, cultura e justi&#xE7;a em Los Angeles, trabalhando diretamente com o conceito arendtiano de &#x201C;espa&#xE7;o da apar&#xEA;ncia&#x201D;.</p></fn></fn-group>
<ref-list>
<title>Refer&#xEA;ncias</title>
<ref id="B1"><mixed-citation>ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo:
Perspectiva, 2014.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>ARENDT</surname> <given-names>Hannah</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">Entre o passado e o futuro</source>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Perspectiva</publisher-name>
<year>2014</year></element-citation></ref>
<ref id="B2"><mixed-citation>ASSY, Bethânia. Ética, responsabilidade e juízo em Hannah
Arendt. São Paulo: Perspectiva, 2015.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>ASSY</surname> <given-names>Beth&#xE2;nia</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">&#xC9;tica, responsabilidade e ju&#xED;zo em Hannah Arendt</source>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Perspectiva</publisher-name>
<year>2015</year></element-citation></ref>
<ref id="B3"><mixed-citation>CANOVAN, Margaret. Hannah Arendt: a reinterpretation of her
political thought. Cambridge: Cambridge University Press, 1992.
https://doi.org/10.1017/CBO9780511521300</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>CANOVAN</surname> <given-names>Margaret</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="en">Hannah Arendt: a reinterpretation of her political thought</source>
<publisher-loc>Cambridge</publisher-loc>
<publisher-name>Cambridge University Press</publisher-name>
<year>1992</year>
<comment><ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.1017/CBO9780511521300">https://doi.org/10.1017/CBO9780511521300</ext-link></comment></element-citation></ref>
<ref id="B4"><mixed-citation>DEWEY, Fred. The school of public life. Berlin: Errant Bodies,
2014.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>DEWEY</surname> <given-names>Fred</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="en">The school of public life</source>
<publisher-loc>Berlin</publisher-loc>
<publisher-name>Errant Bodies</publisher-name>
<year>2014</year></element-citation></ref>
<ref id="B5"><mixed-citation>GORDON, Mordechai (Ed.). Hannah Arendt and Education:
Renewing Our Common World. Westview Press 2001.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="editor">
<name><surname>GORDON</surname> <given-names>Mordechai</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="en">Hannah Arendt and Education: Renewing Our Common World</source>
<publisher-name>Westview Press</publisher-name>
<year>2001</year></element-citation></ref></ref-list>
</back>
</article>
