Seção Livre
Karl Marx: um balanço biográfico
Karl Marx: an overview of his biographies
Karl Marx: un panorama de sus biografias
Karl Marx: um balanço biográfico
Estudos Ibero-Americanos, vol. 43, núm. 3, pp. 601-611, 2017
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Recepção: 09 Março 2017
Aprovação: 15 Junho 2017
Resumo: Muitos balanços bibliográficos/teóricos foram feitos sobre o pensamento e obras de Marx, entretanto, nunca foi realizado um balanço biográfico sobre o pensador alemão, no sentido de um balanço das biografias que foram escritas sobre sua vida, independentemente de sua obra teórica. É este balanço inédito que é oferecido aqui. Serão examinadas as principais biografias de Marx, desde a primeira (surgida dois anos após sua morte) até as lançadas no século XXI. Procurar-se-á mostrar a evolução na qualidade deste tipo de trabalho, tanto no aspecto metodológico-formal como no aspecto de novas facetas factuais da vida de Marx sendo descobertas ao longo do tempo.
Palavras-chave: Karl Marx, Marxismo, Biografia.
Abstract: Many books and articles were written about the thought of Karl Marx, but much fewer were written about Marx´s life per se. This article aims at providing an overview of the biographies of Marx written so far, covering from the first ones in the nineteenth-century to the ones in the twenty-first century. We will analyze the evolution of these biographies both in terms of formal-methodological quality and in terms of new factual evidence provided by them about Marx´s life.
Keywords: Karl Marx, Marxism, Biography.
Resumen: Muchos libros y artículos fueron escritos sobre el pensamiento de Karl Marx, pero menos se escribieron sobre la vida de Marx en sí. Este artículo pretende ofrecer una visión general de las biografías de Marx escritas hasta el momento, desde las primeras del siglo XIX hasta las del siglo XXI. Analizaremos la evolución de estas biografías tanto en términos de calidad formal-metodológica como en términos de nuevas pruebas fácticas proporcionadas por ellas sobre la vida de Marx.
Palabras clave: Karl Marx, Marxismo, Biografía.
2017 marca o aniversário de 150 anos de publicação do livro O Capital e 100 anos da Revolução Russa de 1917. Em virtude da efeméride, surgiram vários artigos de balanço bibliográfico sobre a obra de Karl Marx e seus efeitos no mundo. Eles se ajuntam aos muitos balanços bibliográficos já existentes. Mas existe um tipo de balanço que ainda não foi feito: um balanço biográfico de Marx. Biográfico não no sentido de um balanço da vida de Marx e sim um balanço das biografias de Marx já publicadas. A maioria dos trabalhos acadêmicos é sobre a obra de Marx, mas já existe uma literatura suficientemente encorpada sobre a vida do pensador alemão. E esta literatura ainda não sofreu nenhum balanço (livro ou artigo acadêmico) mais profundo analisando seus pontos fortes e fracos. É esse balanço pioneiro que propomos fazer aqui.1
Não só 2017, mas a época atual do século XXI que vivemos como um todo é um período interessante para fazer esse balanço. Afinal, temos agora um recuo histórico longo para tal empreitada. Não só possuímos uma visão retrospectiva do século XIX, em que o socialismo marxista era apenas uma visão teórica, como passamos pela experiência prática do chamado socialismo real no século XX, pelo seu (parcial, mas profundo) desmoronamento no final do século e agora vivemos um admirável e irônico novo mundo “pós-Muro de Berlim” em que “o socialismo acabou”, mas o cerne mais dinâmico da economia mundial (com possibilidade de ter em breve o maior PNB do mundo) é um país… socialista (a China). É interessante ver como as biografias de Marx, e a visão que projetavam desse pensador, eram afetadas pelo clima da época em que viviam os biógrafos ao longo de todas essas diferentes experiências históricas.
Uma pergunta que se põe logo de início: há muitas biografias de Marx? Acredito que a maioria das pessoas (mesmo as que têm familiaridade com o marxismo) se atrapalharia inicialmente, em dúvida sobre essa pergunta. E a resposta é: depende da definição que usarmos para “biografia”. Karl Marx é um dos pensadores mais estudados e há uma miríade de livros sobre ele e sua obra. Mas “biografia” é estudo sobre a “vida” de um autor, não necessariamente sobre sua obra. É claro que, especialmente com Marx, fica difícil separar a vida e a obra do autor. Mas essa diferenciação é importante para podermos diferenciar o que é uma biografia stricto sensu desse personagem da enorme quantidade de livros que existem sobre sua teoria e obras.
A tarefa se torna ainda mais complexa pela existência das chamadas biografias intelectuais. Ou seja, são livros que até narram, de forma geralmente resumida, aspectos biográficos da vida de Marx, mas se concentram primariamente na formação e desenvolvimento de seu pensamento e suas obras. A mais famosa dessas biografias intelectuais foi a escrita pelo filósofo Isaiah Berlin em 1939: Karl Marx: his life and environment.2 Algumas biografias intelectuais nem chegam a se importar com a parte factual da vida de Marx, dedicando-se quase que unicamente à análise (da evolução) de seu pensamento. Assim, por exemplo, é o livro Karl Marx, escrito pelo teórico alemão Karl Korsch em 1938.
Ou seja, se contarmos as chamadas biografias intelectuais, há sim um número relativamente grande de biografias de Marx. Isso para não falarmos de diversos outros tipos de trabalhos “de fronteira”, como textos políticos comemorativos em que se descrevem ou discutem aspectos da vida de Marx (um exemplo seria Karl Marx und Sein Lebenswerk da líder comunista alemã Klara Zetkin em 1913). Mas, se adotarmos uma exigente definição de biografia stricto sensu como sendo um trabalho que se dedica primariamente à vida de Marx e, mais ainda, cumpra as exigências acadêmicas de uma referenciação rigorosa às fontes primárias e documentos originais que validem o que é narrado sobre os episódios ocorridos, então o número é bem limitado. Com algumas exceções, poderíamos mesmo dizer que esse tipo de biografia com rigorosa referenciação a fontes primárias para acontecimentos da vida de Marx é um fenômeno relativamente novo, da segunda metade ou final do século XX em diante. As primeiras biografias de Marx, no final do século XIX ou início do século XX, referenciavam mais a sua parte teórica, indicando os textos em que apareciam as citações, mas eram bem menos rigorosos na descrição dos acontecimentos da vida de Marx, muitas vezes se valendo de conhecimento através de relatos orais de contemporâneos ou assumindo que certas versões do ocorrido eram realmente verdadeiras. Na segunda metade do século XX apareceram biografias como as de David McLellan (de 1973, considerada por muitos a melhor e mais completa até hoje), de Francis Wheen (1999) e Jonathan Sperber (2013) que preenchem perfeitamente as mais estritas exigências acadêmicas para um trabalho biográfico.
Neste artigo procuraremos dar um panorama geral como foi surgindo esse mosaico diferenciado de livros que se assumem como biografias de Marx, procurando denotar características peculiares adotadas por alguns dos biógrafos mais importantes quando de sua descrição do Mouro (“Mouro” era o apelido de Marx, entre sua família e amigos, devido à cor da sua pele e cabelos).
Marx morreu em 14 de março de 1883. Em 1885 já aparecia, publicada por uma editora de Leipzig, o primeiro livro que se assumia como uma biografia (descrição da vida) daquele pensador. Era Karl Marx: Eine Studie do professor de economia política da universidade de Viena, Gustav Gross. Essa primeira tentativa já prenunciava as dificuldades de separar a vida do Mouro de sua obra. Como o próprio título denota (“Karl Marx: um estudo”), o livro, apesar de narrar aspectos da vida de Marx, inclusive em ordem cronológica, se ocupa majoritariamente em comentar suas obras. O próprio autor já anunciava, no prefácio, que a vida do pensador alemão não era conhecida em detalhes e que ele não era a pessoa mais indicada para narrá-la em profundidade, e sim os executores do testamento literário de Marx: Engels e a filha de Marx, Eleanor. Mas que, na falta de obras destes, o seu trabalho talvez pudesse ser útil. Anunciava que seu objetivo era mais comentar e elucidar aspectos não tão conhecidos da obra de Marx. Importante notar que esta primeira biografia (mesmo sendo mais uma biografia intelectual que um trabalho de investigação da vida de Marx propriamente dito) não foi escrita por um marxista, e sim por um liberal: Gustav Gross teve ativa carreira política como deputado nesse campo. No prefácio da obra, Gross prometia suas “preferências subjetivas reprimir e manter as críticas ao mínimo”. (Gross, 1885, p. VI) Realmente, ao longo do livro, Gross tenta descrever as ações e ideias de Marx do jeito mais “objetivo” possível inicialmente, ou seja, da maneira como o próprio Marx as expunha e somente após, e ocasionalmente, fazia as críticas das mesmas de um ponto de vista liberal.
Essa primeira biografia já prenunciava a dificuldade dos futuros biógrafos de se aterem à descrição da vida de Marx, sem quase automaticamente pularem para o lado da biografia “intelectual”, isto é, fazerem uma obra de discussão das ideias de Marx. O caráter controverso e combativo do pensamento marxiano tornava difícil uma descrição indiferente, “neutra” de suas ideias.
Outra característica que essa primeira obra já denotava era a tendência de a vida de Marx ser descrita mais baseada em testemunhos e noções passadas oralmente ao longo do tempo (principalmente nos meios da esquerda política) do que em uma real pesquisa de fontes primárias e documentos escritos. As primeiras biografias de Marx (digamos, até meados do século XX) seguem esse padrão geral. Biografias stricto sensu centradas na vida de Marx (não em sua obra) e utilizando minuciosa pesquisa histórica de fontes primárias para a investigação são características da segunda metade do século XX, em que apareceram trabalhos como os de David Mclellan, Francis Wheen, Jonathan Sperber e outros.
Como afirmamos, a primeira “biografia” de Marx foi escrita por um não marxista. Essa situação não poderia perdurar por muito tempo senão o marxismo arriscaria perder a corrida pela “memória” de Marx. Assim, logo um peso pesado do campo marxista se dispôs a escrever uma obra nesse sentido. Em 1896, Wilhelm Liebknecht lançou o seu Karl Marx zum Gedächtnis: ein Lebensabriß und Erinnerungen (na versão inglesa traduzido como Karl Marx: Biographical Memoirs). Liebknecht foi um dos principais líderes do partido social-democrata na Alemanha, era muito ligado a Marx, com cuja família conviveu intimamente por longo tempo durante o exílio em Londres. No prefácio, Liebknecht avisa que, devido à ocupação de quase todo seu tempo por atividades políticas práticas na Alemanha, sobrava-lhe pouco tempo para o trabalho teórico e, quando lhe solicitaram que escrevesse algo biográfico sobre Marx, o compromisso que conseguiu fazer foi de escrever não propriamente uma biografia de Marx, mas sim um livro autobiográfico seu em que descreveria os muitos acontecimentos comuns que teve com Marx e sua família, de modo que o público pudesse ter uma ideia melhor da vida íntima daquele grande pensador. Essas palavras iniciais são importantes para se entender o real objetivo do livro, que tem sido frequentemente mal compreendido. Ao contrário da obra já citada de Gustav Gross, o livro de Liebknecht quase não se aventura em explicar a obra ou o pensamento de Marx: após um breve início com um curto resumo cronológico da vida de Marx, o livro descreve passagens da vida do Mouro que Liebknecht compartilhou. Apesar do notável interesse da obra para historiadores, muitos observadores (em especial de esquerda) criticam o caráter algo mundano (formado de episódios do dia a dia, sem consequências políticas maiores) de várias das passagens descritas. Como o objetivo de Liebknecht era descrever Marx sob uma luz simpática, muitos não entenderam por que colocou passagens em que o Mouro aparecia de maneira até algo pueril. Por exemplo, descreveu um episódio em que ele, Marx e Edgar Bauer ouviram, em Londres, críticas de alguns ingleses à Alemanha e, tomados de súbito patriotismo, resolveram responder à altura defendendo as façanhas dos artistas e pensadores alemães contra a alienação filosófico-política dos ingleses. Mais ainda, por terem tomado algumas cervejas, comportaram-se posteriormente como adolescentes e, seguindo o exemplo sardônico de Bauer, arrancaram pedras do pavimento da rua e quebraram postes de luz, antes de fugirem da polícia. Muitos críticos se perguntaram por que Liebknecht perderia tempo em descrever episódios infantis como esse, que poderiam inclusive colocar Marx sob uma luz ruim. Gostaríamos aqui de avançar uma hipótese para explicar este tipo de descrição de Liebknecht. Tem a ver com o ambiente político da época em que o livro foi escrito. Na década de 1890 o partido social-democrata alemão tinha sido tirado da ilegalidade como partido “subversivo” e iniciava sua ascensão como organização “respeitável” e legítima na competição política. Liebknecht, ao redigir um livro em que descrevia Marx em seu dia a dia, como um amoroso pai, e como uma pessoa normal, “como todas as outras” (apesar de seu brilhantismo intelectual acima da média), tentava fazer com a imagem de Marx o que estava se passando com o partido social-democrata: tornando-se normal e respeitável. Ao contrário do Marx subversivo, carrancudo, conspirador, “fora da lei”, como tinha sido descrito até aqui pelos governos conservadores, os episódios prosaicos do livro de Liebknecht passavam a ideia de um Marx mais “humano”, “brincalhão” e, portanto, mais aceitável no jogo político legal em que agora tomavam parte.
Para bem da justiça com o biógrafo, é preciso dizer que, apesar do livro ser amplamente favorável a Marx, Liebknecht não deixou de apontar os momentos em que teve diferenças com o Mouro, como quando comentou que Marx não era um bom orador ou que Marx tinha errado ao prever a data de certas crises capitalistas vindouras. Dentro do espírito em que foi construída (uma biografia “indireta” através da autobiografia do outro autor, ambos personagens políticos importantes), a obra certamente tem alta relevância histórica.
O próximo grande passo (para muitos, o primeiro passo) no campo das biografias do Mouro viria dos Estados Unidos. Foi o livro Karl Marx: his life and work, de John Spargo (1910), um intelectual do Partido Socialista da América. A menção supra ao “primeiro passo” se refere ao fato de que muitos consideram que os primeiros trabalhos descritos acima não constituem uma biografia stricto sensu de Marx (o de Liebknecht seria um livro de recordações e o de Gustav Gross, em sua maior parte, uma biografia intelectual). Spargo pesquisou durante 13 anos (em meio a suas atividades jornalísticas e políticas) para escrever a obra e, realmente, se concentrou majoritariamente na vida de Marx e não apenas em suas obras ou ideias. Foi um grande salto qualitativo para a época em termos de biografia stricto sensu, mas tinha limitações por não ser escrita por um historiador profissional ou acadêmico. Como a maioria das biografias de Marx até a primeira metade do século XX, a citação de fontes primárias é errática, na maioria das vezes com os fatos sendo narrados sem citação de fontes, baseados em estórias correntes no meio da esquerda, aceitas no valor de face. De qualquer jeito pode ser considerado o primeiro grande passo nos sentido das biografias stricto sensu de Marx. É interessante que Spargo (assim como Gustav Gross em sua obra original) foi modesto e dizia que não se achava o mais indicado para escrever a biografia definitiva de Marx e indicava, como potencial candidato para isso, o grande historiador da social democracia alemã, Franz Mehring (uma profecia que se realizou, pois Mehring depois escreveria uma biografia de Marx que seria considerada o trabalho padrão por muitas décadas, pelo menos até que chegasse a de David McLellan nos anos 1970). Interessante notar o percurso ideológico da obra de Spargo. John Spargo era um socialista moderado. A despeito disso, descreveu em cores bem simpáticas o desenvolvimento intelectual de Marx e seu papel no movimento socialista mundial. Apesar de mostrar o radicalismo de Marx ao longo da narrativa, na conclusão do livro, de caráter teórico, faz uma leitura do pensamento marxiano quase como se fosse mais evolucionista (seguindo as tendências da história) que revolucionário. Ilustrou isso na passagem em que descrevia a previsão errada que Marx fizera uma vez de que o capitalismo não resistiria ao impacto da eletricidade (ou seja, das transformações tecnológicas trazidas pela eletricidade, que revolucionaria o mundo). Spargo comenta:
[…] Marx pertence ao grupo dos grandes evolucionistas do século XIX […] Que a eletricidade está revolucionando o mundo é um fato corriqueiro há mais de uma geração. Marx estava correto em observar esse fato como um “revolucionista”, mas errado na rapidez e duração da revolução. A eletricidade exemplifica admiravelmente a “evolução revolucionária” que estava na base mais profunda do pensamento de Marx (SPARGO, 1912, p. 329-330).
Ao contrário de Gustav Gross, outro político moderado, que, apesar da descrição relativamente simpática de Marx, explicitava quando discordava de seu pensamento, Spargo, na verdade, faz uma leitura algo contorcida da filosofia de Marx de modo a aproximar o pensamento do teórico alemão de sua própria filosofia política.
Como previu Spargo, o político e historiador da social-democracia alemã, Franz Mehring, em 1918 lançaria uma biografia de Marx (Karl Marx: Geschichte seines Lebens) que viria a ser, por décadas, considerada a melhor. Essa reputação alcançada talvez tenha a ver com o perfil intelectual/político do autor. Franz Mehring foi um importante intelectual e político alemão que, iniciando sua carreira no campo liberal, derivou para se tornar um dos grandes nomes do partido social-democrata alemão até a Primeira Guerra Mundial. Discordando do apoio do partido social-democrata ao esforço de guerra, participou da fundação da Liga Espartaquista, juntamente com Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e sua grande amiga Klara Zetkin. Ou seja, em sua fase final, pertencia à ala esquerda da social-democracia, aquela mais próxima do marxismo. Isso, juntamente com sua condição de intelectual extremamente lido e culto, dava-lhe um conhecimento profundo do marxismo teórico, o que permitia contextualizar os fatos cotidianos da vida de Marx e relacioná-los ao seu desenvolvimento intelectual. Ou seja, eventuais dificuldades teóricas dos primeiros biógrafos em entender a (complicada) teoria de Marx foram superadas aqui. Por outro lado, o fato de Mehring ter provindo originalmente de outra tradição política (o liberalismo) e nunca ter sido um marxista “ortodoxo” (no sentido daqueles que seguiam o marxismo quase como se fosse uma cartilha religiosa) dava-lhe certa latitude de pensamento crítico em relação ao próprio Marx. Ou seja, seu livro não seria uma mera hagiografia do Mouro.
E realmente esse foi o perfil do livro. Além de enfatizar os fatos da vida de Marx, na análise de seu pensamento (que também ocupa uma boa parte do livro) sua visão, apesar de simpática no geral, não deixa de apresentar o contraditório, por vezes apoiando o contraditório contra Marx. Um grande exemplo seria o relacionamento entre Marx e o líder trabalhista alemão Ferdinand Lassalle. Mehring várias vezes defenderá Lassalle contra Marx.
Além de todos os motivos mencionados acima, a outra razão para explicar o prestígio da biografia de Mehring é que ele tinha uma larga experiência como historiador já que escreveu uma reputada História da Social-Democracia Alemã. O trabalho com as fontes da história partidária em geral lhe deu uma base prática e teórica forte para realizar a futura obra biográfica sobre Marx.
O resultado de tudo isso foi sua biografia ter ficado como padrão por longo tempo.
Após Franz Mehring ter elevado o nível do trabalho biográfico sobre Marx, a década de 1920 viu o aparecimento de outros trabalhos em tal nível mais elevado. Muito semelhante à biografia de Mehring foi a escrita por Otto Rühle em 1926, Karl Marx: Leben und Werk. Semelhante até por um perfil parecido dos autores: ambos da ala esquerda do partido social-democrata alemão e que, durante a Primeira Guerra Mundial, participaram da fundação da Liga Espartaquista. A parte formal da biografia de Rühle era muito semelhante à de Mehring: realmente descrevendo a vida de Marx, mas também analisando bastante a parte teórica das suas obras. Entretanto, refletindo talvez as diferenças de perfil entre os dois autores (Mehring morreu pouco depois da Primeira Guerra Mundial enquanto que Rühle viveu até 1943 e desenvolveu uma posição semelhante à de um “conselhista de esquerda” com críticas ao autoritarismo centralista da experiência soviética leninista), Rühle, apesar de também aceitar a grandeza do pensamento e ação de Marx, expunha mais críticas ao Mouro no livro. Inclusive, sua conclusão final é que a extrema ânsia de Marx em superar o capitalismo e os vícios capitalistas era uma forma de compensação ao senso de inferioridade em virtude de sua condição inicial de vida como judeu com problemas de saúde em meio estranho.
Podemos dizer que três características da individualidade de Marx (má saúde, origem judia, o fato de ser o filho mais velho) interagiram e combinaram para produzir um senso de inferioridade. A compensação resultante começou com a formulação de um objetivo. Quanto mais baixa a autoestima, maior será o objetivo […] Inferioridade busca compensação […] Marx buscou compensação espiritual no reino das ideias. Seu esforço compensatório o tornou fundador de uma teoria econômica, o criador de um novo sistema econômico […] Inquestionavelmente, Marx era neurótico […] Tivesse Marx, como neurótico, se contentado com a aparência de ter realizado algo, seu trabalho teria caído no vazio e ele mesmo teria sido uma figura trágica em sua futilidade. Como as coisas se desenrolaram, entretanto, ele realizou uma tarefa suprema […] (RÜHLE, 1929, p. 187-196).
Nos anos 1920 uma realidade nova surgiu. A União Soviética, um país fundado na base do marxismo, após as destruições do período inicial da guerra civil de 1918-1921, se reconstruiu e apareceu para o mundo como um novo centro de estudos da obra (e vida) de Marx. Não apareceu uma biografia de porte específica de Marx, mas foi escrito em 1927 o livro Karl Marx e Frederick Engels: uma introdução a suas vidas e trabalho de David Riazanov, uma espécie de biografia mista de Marx e Engels. O importante aí não é tanto a forma do livro, mas a maneira como ele seria trabalhado. David Riazanov fundou em Moscou (em 1921) o Instituto Marx-Engels e foi seu diretor ao longo dos anos 1920. O Instituto Marx-Engels foi encarregado de publicar as obras completas de Marx e Engels, um projeto que viria, cheio de vicissitudes políticas, paradas e reinícios, ao longo das décadas até hoje (atualmente é a chamada MEGA, Marx-Engels-Gesamtausgabe, um projeto gigantesco em andamento para publicar tudo de Marx e Engels em 114 volumes). A biografia escrita por Riazanov contou exatamente com a ajuda de todo esse trabalho coletivo de base. Além disso, esse esforço coletivo seria a base do que, no pós-Segunda Guerra Mundial, seria a biografia padrão de Marx na União Soviética, o livro Karl Marks: Biografiya [“Karl Marx: uma biografia”] publicado como obra coletiva do Institut Marksisma-Leninisma pri TsK KPSS [“Instituto de Marxismo-Leninismo do Comitê Central do PCUS”, o novo nome do antigo Instituto Marx-Engels]. Esse é um dos livros mais subestimados no Ocidente. Apesar de ter sido amplamente consultado e possivelmente sido a base factual de muitos trabalhos de autores ocidentais, é frequentemente qualificado por estes como uma obra dogmática, típica do marxismo ortodoxo soviético. Realmente, é um livro com a linguagem algo estereotipada soviética, mas é fruto de um profundo trabalho de pesquisa de muitos especialistas, contando com uma base bibliográfica maior que a disponível aos autores ocidentais. Se as conclusões do livro podem ser algo estereotipadas e controversas, a parte factual dele (dados da vida de Marx, quando certos conceitos primeiramente aparecem em que textos de Marx, etc.) é extremamente forte e embasada. Tem a força de um trabalho coletivo, com muitos especialistas trabalhando juntos para aprofundar pesquisas em uma base de fontes primárias poderosa. E muito dessa poderosa base de fontes primárias (incluindo a própria MEGA) tem suas origens no pioneirismo de Riazanov e seu Instituto Marx-Engels.
Na década de 1930 começam a se multiplicar trabalhos biográficos (ou, pelo menos, parcialmente biográficos, como no caso das “biografias intelectuais”) sobre Marx. Três obras podem ser especialmente destacadas: 1) Karl Marx: Man and Fighter, de Boris Nicolaevsky (1936); 2) Karl Marx: His Life and Environment, de Isaiah Berlin (1939); 3) Karl Marx: A Study in Fanaticism, de E.H. Carr (1934).
Boris Nicolaevsky estava numa posição favorável a esse tipo de trabalho. Foi menchevique russo que, após a Revolução de 1917, chegou a participar da direção no Instituto Marx-Engels de Moscou, como David Riazanov. Deportado da Rússia soviética em 1922, mudar-se-ia para Berlim onde trabalharia como historiador e arquivista no Instituto Marx-Engels de lá, tornando-se depois diretor do Instituto Internacional de História Social de Amsterdam, que era o repositório dos arquivos da Internacional Socialista. Com essa profunda experiência nos arquivos socialistas, tinha um enorme material de fontes primárias disponível ao escrever sua biografia de Marx. É um livro que tem características parecidas com o de David Riazanov: uma biografia de Marx embasada em uma pesquisa de arquivo e documentos (alguns inéditos) em nível bem acima dos primeiros escritos do gênero. Inclusive, o mero fato de Nicolaevsky estar escrevendo na década de 1930, e tendo tido acesso às últimas pesquisas mais avançadas, fazia que em sua biografia fossem mencionados textos importantes de Marx que nunca tinham sido publicados durante sua vida. Por exemplo, o crucial livro A Ideologia Alemã foi publicado pela primeira vez por David Riazanov em 1932 em Moscou. Nicolaevsky pôde incorporar esses textos, antes inéditos, em sua biografia, o que representava um pulo de qualidade em relação ao que era descrito até então. A biografia de Nicolaevsky, assim como a de Riazanov nos anos 1920, era um passo adiante no sentido de uma biografia stricto sensu, pois, apesar de contextualizarem e comentarem a obra de Marx, enfatizavam, na maior parte, sua vida. Nesse sentido, ultrapassavam as biografias anteriores (mesmo, talvez, a de Mehring) que geralmente pendiam para o lado da biografia intelectual, no sentido em que a vida de Marx era descrita mais como um apoio para a contextualização das obras de Marx do que um fim em si. A de Nicolaevsky (e a “mista” de Riazanov) enfatizavam a vida de Marx e dentro dela encaixavam suas obras. Finalmente, é interessante notar que a biografia de Nicolaevsky é muito simpática à Marx, que é descrito como o maior teórico socialista. Isso poderia surpreender não só por Nicolaevsky ter sido um menchevique, mas à luz de sua posterior trajetória para posições mais conservadoras no pós-Segunda Guerra Mundial, quando emigrou para os EUA e se tornou um dos fundadores do campo da kremlinologia. Nessa biografia da década de 1930, Nicoloaevsky parecia manter ainda o seu ímpeto fortemente socialista da década de 1920 quando tinha uma afinidade intelectual forte e uma ligação orgânica com o movimento socialista.
O destino do livro de E.H. (Edward Hallett) Carr, Karl Marx: A Study in Fanaticism (1934), é paradoxal. E.H. Carr viria a ser um dos maiores historiadores sobre a URSS, com sua monumental A History of Soviet Russia (14 volumes). E, posteriormente, evoluiria politicamente para a esquerda aproximando-se do socialismo. Mas na época do lançamento de sua biografia de Marx, tinha posições bem mais à direita e seu livro traçava um perfil algo desfavorável do Mouro (visível pelo subtítulo!). Era um livro bem elaborado (apesar de ainda não no altíssimo nível da fase madura de Carr em que escreveria obras históricas com pleno domínio da linguagem e das fontes originais), mas Carr o renegaria posteriormente e inclusive proibiria sua republicação quando a primeira edição se esgotou. É um caso semelhante (apenas em polos opostos) à relação de Jorge Amado com seu livro O Mundo da Paz (1951), em que tecia elogios à Stalin: ambos os autores renegaram, em termos ideológicos, as obras posteriormente e, inclusive, proibiram novas edições.
Finalmente, na década de 1930, foi marcante o livro Karl Marx: His Life and Environment, de Isaiah Berlin (de 1939). Considerada por muitos o melhor exemplo de biografia intelectual de Marx, representou um trabalho interessante para o filósofo Isaiah Berlin. Berlin é reconhecidamente um dos maiores nomes da história das ideias. Judeu, nascido em 1909 em Riga, capital da atual Letônia, na época parte do império russo, viveu in loco a Revolução Russa antes de emigrar para o Ocidente e se tornar um dos grandes intelectuais da universidade de Oxford, na Inglaterra. Autor de vários trabalhos de história das ideias relacionadas à Rússia, a biografia de Marx encomendada por uma editora, foi, para ele, um desafio intelectual. Como não era marxista e até ali não tinha interesse especial nesta teoria, escrever o livro foi para ele fazer um encontro pessoal, de aprofundamento, com o marxismo, especialmente porque, como dissemos, o livro (apesar de descrever cronologicamente a vida de Marx) era basicamente uma biografia intelectual centrada na análise e discussão das obras e da evolução do pensamento do Mouro. O resultado foi um tour de force intelectual em que, apesar de não concordar (inteiramente, ou mesmo basicamente) com as ideias de Marx, consegue descrevê-las de maneira relativamente isenta e até simpática, sem perder a capacidade de tecer comentários críticos abalizados. No pós-Segunda Guerra Mundial, Berlin, (2013, p. XXV; 288) comentando sobre sua biografia escrita em 1939, a considerou basicamente válida, mas faria a autocrítica de que, por ser daquela época em que vários escritos até então inéditos do “jovem Marx” (o Marx de sua fase inicial, mais preocupado com temas filosóficos, como alienação, do que o Marx maduro, voltado principalmente para a economia) estavam acabando de vir à luz e ainda não tinham tido a grande influência que teriam posteriormente, a imagem do Mouro projetada era a do Marx “oficial” soviético, imagem criada muito em cima dos últimos textos algo ortodoxos e simplistas de Engels. Berlin especialmente lamentou não ter repercutido mais o peso dos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844, então recém-publicados, pois acreditava que mostravam a face humanista de Marx mais claramente (de forma curiosa, Berlin subestimava um pouco A Ideologia Alemã, também pela primeira vez publicada na década de 1930, em sua capacidade de realçar esta face mais “humanista” do pensador alemão).
Finalmente, é interessante notar a ironia de uma das conclusões finais de Berlin (um filósofo que valorizava a história das ideias, reino que Marx relegava à superestrutura dominada pela infraestrutura econômica): “[Marx…] partiu da posição de refutar a proposição de que as ideias determinam decisivamente o curso da história, mas a sua própria influência nos assuntos humanos fragilizou a força dessa tese”(BERLIN, 2013, p. 265).
As biografias mencionadas acima foram as mais importantes até a Segunda Guerra Mundial. Na segunda metade do século XX, as exigências metodológicas para tais trabalhos seriam elevadas e apareceriam biografias da vida de Marx que cumpririam integralmente todos os requisitos para trabalhos biográficos históricos profissionais. O grande nome dentro desse novo quadro foi Karl Marx: His Life and Thought de David McLellan, lançado em 1973. Por muitos considerada a melhor biografia de Marx até hoje (sofreu revisões em sucessivas edições), foi um marco. O que a diferencia é que McLellan conseguiu um raro equilíbrio em ter tanto uma descrição altamente documentada da vida de Marx (biografia stricto sensu) como também foi de alta qualidade no aspecto de biografia intelectual, ao descrever a evolução das ideias de Marx dentro do contexto de sua vida. Esse é um equilíbrio difícil de alcançar. Por um lado, temos hoje biografias altamente documentadas da vida de Marx, mas que no aspecto do acompanhamento da evolução de suas ideias ficam em nível mais baixo que as melhores biografias intelectuais (como Wheen, 1999, por exemplo) e, por outro, temos biografias intelectuais de alto nível (como Berlin, 1939), mas que no aspecto da documentação da vida e dia a dia de Marx não são tão fortes. O que McLellan conseguiu foi ser de alto nível nos dois lados da equação. Não apenas pesquisou, de maneira metodológica precisa, aspectos da vida do Mouro (alguns nem tão estudados antes), como conseguiu fazer o leitor acompanhar a evolução do pensamento de Marx em seus diversos ziguezagues. Além disso, fez um trabalho bastante equilibrado, sem cair na hagiografia ou na demonologia. Na verdade, o professor de Ciência Política McLellan, um discípulo do filósofo Isaiah Berlin, supriu, em sua biografia, a deficiência que Berlin apontou em seu próprio trabalho (ter, nos anos 1930, feito uma descrição de Marx muito mais baseada na versão canônica soviética-engelsiana sem ter podido explorar a versão mais humanista do jovem Marx a partir dos textos inéditos do Mouro que estavam sendo publicados pela primeira vez naquela década). McLellan explora em profundidade o trabalho de Marx a partir desses textos não publicados em sua vida, o que leva sua biografia a ter um equilíbrio maior entre a visão humanista do jovem Marx e sua maior ênfase na economia na parte posterior de sua vida. Rechaçando a ideia de Althusser do “corte epistemológico” entre o jovem Marx e o Marx maduro, McLellan traça a evolução do pensamento do Mouro de forma contínua, cheia de ziguezagues e contradições, mas ininterrupta e com coerência interna. O que a biografia de Mehring tinha sido para a primeira metade do século XX (o padrão, até então), a de McLellan foi para a segunda metade (e provavelmente até hoje). McLellan elevou a barra das exigências metodológicas para trabalhos biográficos sobre Marx e, a partir dali, vários surgiram que ficaram à altura desse novo desafio, pelo menos em termos do que se exige em padrão de qualidade de documentação e utilização de fontes primárias adequadas para tal tipo de trabalho (obras como as de Wheen, 1999, e Sperber, 2013 trouxeram diferentes novas luzes sobre a vida daquele pensador alemão), apesar de que, discutivelmente, se possa dizer que o raro equilíbrio conseguido por McLellan em ser excelente tanto como biografia stricto sensu quanto como biografia intelectual não foi novamente alcançado desde então3
Para a descrição das biografias de Marx a partir da segunda metade do século XX, talvez o melhor método seja utilizar o critério de relevância (as mais importantes ou seminais primeiro) em vez de seguir a ordem cronológica, como fizemos até a primeira metade.
Em termos de avanço na pesquisa da vida de Marx (biografia stricto sensu) deve ser mencionada Karl Marx: A Life, do jornalista Francis Wheen (1999). Sendo a primeira grande biografia de Marx após o final da Guerra Fria, o trabalho reflete a época em que foi escrito. Deixando de lado a ênfase quase que exclusiva no pensamento de Marx da maioria das obras sobre ele (apesar de tecer comentários informados sobre esse assunto também), Wheen vai extremamente fundo na pesquisa sobre a vida do Mouro, trazendo novos elementos e novos ângulos para sua compreensão. Além disso, refletindo provavelmente o fato de Francis W. ser jornalista, o livro é de uma leitura tremendamente fluida e agradável, com um humor (não superficial) que lhe dá um charme especial: o presente autor quase morreu de rir, por exemplo, nas páginas 84-85 do livro de Wheen (2001, edição paperback), quando este descrevia as idiossincrasias da relação de Marx com Engels! É claro que a maneira sardônica como descreveu aspectos da vida de Marx (inclusive realçando aspectos do humor do próprio Mouro!) valeu-lhe críticas de certos setores, especialmente dos marxistas mais sisudos, zelosos por uma imagem “séria” do grande pensador alemão. Para a descrição da vida de Marx, o livro de Wheen é um dos mais bem pesquisados.
Outra obra de ponta, que chegou perto do equilíbrio de McLellan em ser boa tanto no aspecto de biografia stricto sensu e de biografia intelectual, é Karl Marx: A Nineteenth-Century Life de Jonathan Sperber (2013). Sperber, professor de história da Universidade de Missouri, especialista em Alemanha do século XIX, traça a outra grande biografia de Marx da época pós-Guerra Fria. Inclusive utilizando a maior riqueza de fontes abertas com o fim dos regimes soviéticos no Leste europeu, não só explora, em riqueza de detalhes, a vida de Marx como investiga profundamente o pensamento de Marx para lançar uma tese controversa no final: como o subtítulo do livro indica, o grande Marx deve ser visto como uma figura típica do século XIX e seu pensamento também deve ser visto nesse contexto. Isso significa, por um lado, que Marx não deve ser colocado como o “culpado” do que seus seguidores soviéticos fizeram no século XX, mas também significa que seu pensamento teve validade para o século XIX, mas não é o mais apropriado para iluminar as realidades muito diferentes dos séculos XX e XXI, que têm características próprias.
As ideias e práticas políticas reais de Marx — desenvolvidas na matriz do início do século XIX, a era do pós-Revolução Francesa, da filosofia de Hegel e dos jovens hegelianos críticos, da era inicial da industrialização da Grã-Bretanha e das teorias de economia política que dali advieram — tiveram, no máximo, apenas conexões parciais com o que seus posteriores defensores e inimigos viram em seus escritos […] A vida de Marx, seus sistemas de pensamento, suas tentativas e aspirações políticas, pertencem primariamente ao século XIX, um período na história humana que ocupa um lugar estranho em relação ao presente: nem evidentemente distante e alienígena, como a Idade Média, nem um período cujas memórias de vivência ainda guardamos, como o mundo da era da guerra total, ou dos regimes comunistas do Leste Europeu [… Críticos] veem Marx como proponente do terrorismo totalitário do século XIX […] Defensores das ideias de Marx rejeitam tais asserções, frequentemente interpretando Marx como um democrata e proponente de mudança política emancipatória. Ambas as posições projetam retroativamente ao século XIX controvérsias de períodos posteriores. Marx foi proponente de revolução violenta, talvez até terrorista, mas uma que teria mais similaridades com as ações de Robespierre que com as de Stalin. De maneira análoga, os adeptos da ortodoxia econômica contemporânea, os chamados teóricos econômicos neoclássicos, descartam a teoria econômica de Marx como ultrapassada ou não científica enquanto que seus defensores sugerem que Marx compreendeu características cruciais do capitalismo, tais como as crises econômicas regularmente recorrentes, que economistas ortodoxos não podem explicar. Marx certamente entendia características cruciais do capitalismo, mas era do capitalismo que existia nas primeiras décadas do século XIX, que, tanto em seus elementos centrais quanto nos debates entre os economistas políticos que tentam entendê-lo, é bem distinto das circunstâncias atuais (SPERBER, 2013, p. XVIII-XIX; 560).
Certamente uma tese controversa, mas o livro foi escrito e documentado de maneira primorosa.
As obras citadas acima são as que podemos considerar as principais biografias de Karl Marx, ou aquelas mais seminais que, de alguma forma, marcaram uma nova direção ou um aprofundamento na qualidade do trabalho biográfico propriamente dito. Existem outras obras biográficas que não marcaram tanto o campo, mas que trouxeram também contribuições ao conhecimento da vida de Karl Marx, cada uma de sua maneira. Há aquelas biografias mais ortodoxas escritas no campo dos países socialistas (do tipo de Stepanova, 1956, ou Genkow et al., 1968). Há as biografias (mais ou menos stricto sensu) escritas por ativistas políticos (variando aí o grau de conhecimento teórico do marxismo) como Lewis, 1965. Existem também trabalhos biográficos que cobrem um período de vida específico ou tema especial de Marx, como Cornu (1934) ou Monz (1964). Marx, de Vincent Barnett (2009), se aproxima desse grupo (e das biografias intelectuais) ao dar ênfase muito grande no aspecto econômico da teoria de Marx. O fato de não terem sido mencionadas junto com as mais importantes no início deste texto não significa que algumas dessas outras biografias não tenham trazido contribuição especial, pelo menos em certos campos ou setores específicos. Por exemplo, Karl Marx. Eine Psychographie, de Arnold Künzli (1966) é uma interessante biografia psicológica de Marx, enfatizando seus processos mentais a partir de insights do campo da psicologia e psiquiatria. Robert Payne, autor de Marx (lançado em 1968), era quase que um “biógrafo profissional”, tal o número de biografias de diferentes personagens que redigiu. O que poderia ser visto com desconfiança (são proverbiais os “escorregões” de autores não especializados em teoria marxista ao tentar descrever o complicado pensamento de Marx) pode ter ajudado a tornar o livro mais valioso em relação aos aspectos factuais da vida de Marx. Além da salutar (do ponto de vista das biografias) virada para os acontecimentos da vida de Marx, Payne realizou uma tarefa de pesquisa que trouxe conhecimentos inéditos até então (por exemplo, conseguiu melhor identificar e, pela primeira vez, apresentar detalhes e documentos, como certidão de nascimento e óbito, do filho bastardo de Marx, Frederick Demuth). Igualmente, obras como as de Schwarzschild (1954), Padover (1980), Körner (2008), Hosfeld (2009) e Thomas (2012), apesar de não trazerem algo de absolutamente novo em termos de conhecimentos factuais da vida de Marx, propiciaram relevantes discussões de pontos de vista idiossincráticos que contribuem para uma discussão mais aprofundada do complexo pensamento e controversa vida de Marx.
Conclusão
Apesar da existência de inúmeros balanços bibliográficos/teóricos do pensamento e obra de Marx, chegamos ao século XXI sem um balanço biográfico do Mouro, no sentido de balanço das biografias escritas sobre sua vida em si. Um fator que complica a realização de tal tarefa é a existência das chamadas biografias intelectuais, livros que, apesar de frequentemente fornecerem dados sobre a vida de Marx, concentram-se, na verdade, na evolução do seu pensamento e na discussão de suas teorias. Devido à interligação da vida de Marx com sua obra/teoria, fica difícil estabelecer também a fronteira entre os livros que basicamente tratam de seu pensamento (mencionando adicionalmente sua vida) e aqueles que poderiam ser considerados uma biografia stricto sensu do personagem. No presente texto, tentamos mostrar os trabalhos que mais se aproximam de uma biografia stricto sensu. Notamos que foi difícil cortar o “cordão umbilical” do útero das “biografias intelectuais”: as primeiras biografias eram, na verdade, deste tipo. Na primeira metade do século XX, mesmo quando passamos a ter trabalhos que poderíamos chamar de essencialmente biográficos (como os de Riazanov e Nicolaevsky, já que mesmo Mehring, o primeiro grande biógrafo, se concentrava muito na análise do pensamento de Marx), estes trabalhos (talvez por questão de economia de espaço no livro) faziam referenciações bibliográficas mais rigorosas para o pensamento de Marx (citando obras e páginas das citações, etc.) do que para sua vida, que era descrita como se aqueles episódios fossem de conhecimento geral. Era como se a “vida” de Marx fosse algo menor e necessitasse de menos rigor metodológico do que seu pensamento e teoria. Parafraseando o que Marx disse sobre o capital, podemos dizer que o método de estudo (pesquisa) foi diferente do método da exposição. Certamente, autores como Riazanov e Nicolaevsky pesquisaram nos diversos arquivos e documentos a eles disponíveis para narrar os episódios factuais da vida de Marx, mas mesmo eles (e, muito mais, os outros da época) tendiam a tomar como não necessários de documentação no livro as passagens da vida de Marx, consideradas como conhecidas nos meios da esquerda marxista. Essa deficiência metodológica seria dirimida na segunda metade do século XX com o aparecimento de biografias que cumprem as exigências acadêmicas para trabalhos biográficos históricos.
E que resultado final temos, no século XXI, desse balanço das biografias de Marx? Certamente o conhecimento factual da vida do Mouro foi aprofundado com as constantes pesquisas e a elevação do nível metodológico das biografias. Como seria de se esperar em relação a um personagem tão controverso, nenhum consenso foi alcançado. Desconfio que a razão não é apenas o caráter controverso da vida e obra de Marx. Cada nova época lê as anteriores com seus próprios olhos. O Marx de carne e osso foi um só, mas as interpretações que se faziam dele em sua época, nos anos imediatamente após a Revolução Russa, nos anos após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (quando ocorreu a crítica do culto à personalidade de Stalin), após a queda do Muro de Berlim e hoje variaram muito. E isso não tanto porque o Mouro se tenha modificado dentro do túmulo, mas porque os olhos exteriores o examinavam a partir de circunstâncias muito diferentes…
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Notas