Resenha
As narrativas entre o dito e o feito: Alberto Tavares Silva e sua inscrição na memória e na história do Piauí
Narratives between the said and the done: Alberto Tavares Silva and his inscription in memory and history of Piauí
Narrativas entre dicho y hecho: Alberto Tavares Silva y su aplicación en la memoria y la historia de Piauí
As narrativas entre o dito e o feito: Alberto Tavares Silva e sua inscrição na memória e na história do Piauí
Estudos Ibero-Americanos, vol. 43, núm. 3, pp. 693-696, 2017
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
| FONTINELES Cláudia Cristina da Silva. O Recinto do elogio e da crítica: maneiras de durar de Alberto Silva na memória e na história do Piauí. 2015. Teresina. EDUFPI. 543 p.pp. |
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Recepção: 22 Dezembro 2016
Aprovação: 07 Março 2017
Cláudia Cristina da Silva Fontineles é, sem dúvidas, uma das mais contundentes e influentes historiadoras piauienses – levando-se em consideração a classificação da historiografia local proposta por Teresinha Queiroz (2007) –, que se propõe a discutir a política, a história e a memória, dando destaque ao espaço do estado do Piauí, sem perder de vista suas inter-relações com o restante do país. É professora do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil, da Universidade Federal do Piauí – UFPI, desenvolvendo pesquisas voltadas para as temáticas da política, cidade e memória, que se apresentam, também, em suas pesquisas voltadas ao ensino de história. No seio desse leque temático, o seu estudo de maior reverberação é, indubitavelmente, O Recinto do Elogio e da Crítica. Trata-se do resultado de suas pesquisas de Doutorado, realizado no Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, e concluído no ano de 2009. A historiadora enfatiza que as pesquisas iniciais, que engendraram a problemática da tese de Doutorado, já se realizavam desde o ano de 2001, quando começou seus estudos de Mestrado, na UFPI. Desde então, ela notou que havia, em boa medida, uma relação indelével entre as práticas e ações de Alberto Tavares da Silva com a história e a memória dos momentos em que ele foi governador em duas oportunidades, em 1971-1975 e 1987-1991. A qualidade do livro pode ser atestada pelos comentários do Prefácio, de orelha e de quarta-capa, escritos por historiadores renomados como Antônio Paulo Resende, Teresinha Queiroz, Francisco Alcides Nascimento e Pedro Vilarinho Castelo Branco. O livro possui, além de tudo, uma boa estrutura, visto que está dividido em três partes: a primeira contém dois capítulos; a segunda apresenta três capítulos; e a terceira traz outros dois capítulos. Assim, são sete capítulos que transitam entre os dois governos de Alberto Silva, permeando, de forma não linear, os aspectos biográficos do então governador, de forma em que a biografia do sujeito estudado é utilizada como um pretexto, ou melhor, o fio condutor para compreender sua atuação como político e como engenheiro, visto que são esses os principais adjetivos destacados no âmbito “do elogio” e “da crítica”, que ora se complementam e se confundem. Isso, inclusive, dá indícios de como “os palácios da memória” (FONTINELES, 2015, p. 29), como a autora destaca, “repercutem até os dias atuais na memória da sociedade piauiense” (FONTINELES, 2015, p. 37). É importante frisar que a autora não faz uma narrativa da biografia do sujeito Alberto Silva, pois seu objeto primeiro são as memórias (re)construídas a partir de sua atuação como governador em duas oportunidades. Cláudia Fontineles esclarece que não pretende realizar comparativos entre suas duas gestões e a de outros governadores, pois sua meta é “analisar quais elementos contribuíram para que essas administrações permanecessem presentes na memória coletiva” (FONTINELES, 2015, p. 31). Não significa dizer que traços biográficos não sejam mencionados, ao passo em que aparecem diluídos ao longo do livro, ancorados nos muitos momentos em que a historiadora recorre às fontes orais e faz suas análises sobre a memória. Os capítulos fazem bom uso da variedade de fontes, que vão desde bibliográficas, hemerográficas a fontes orais. A escritora fez isso no intuito de contemplar a pluralidade de olhares das diferentes fontes, tentando localizar os discursos em suas matrizes sociais e institucionais, destacando as subjetividades e interesses que movem cada fonte.
Na primeira parte do livro, intitulada Memórias (re)citadas, a historiadora retoma o termo athanalídzein proposto por Aristóteles (2002), para enfatizar a crença na imortalidade, ou, no caso de Alberto Silva, os desejos e disputas da permanência na história por meio da criação e manutenção de memórias. Por esse viés, “as maneiras de durar que fizeram da imagem de Alberto Silva um elemento presente na memória e na história da sociedade piauiense, que o fizeram resistir à erosão gerada pelo transcurso do tempo” (FONTINELES, 2015, p. 49) são o objetivo do primeiro capítulo, “assim como os mecanismos usados tanto por seus aliados quanto por seus adversários para a construção de tal imagem” (FONTINELES, 2015, p. 49). No processo dessa construção da imagem de Alberto Silva, a historiadora pontua que “uns o consideravam o maior empreendedor que o Estado já conhecera; outros o veem como um visionário que teve sua trajetória administrativa marcada por excessos ou por desvios nas prioridades assumidas” (FONTINELES, 2015, p. 54). E aponta que, em meio às divergências, os discursos convergem, ao indicar que “as marcas deixadas pelas administrações albertistas repercutem de forma significativa na memória piauiense, emitindo suas ressonâncias no presente, de forma intensa, indicando sua força” (FONTINELES, 2015, p. 54). Por meio da contemplação feita pelos aliados do então governador do Piauí, “pretendia-se, assim, que o primeiro governo de Alberto Silva na década de 1970 tornasse-se aquilo que Paul Ricoeur (2007, 1994) denominou de ‘recinto do elogio’” (FONTINELES, 2015, p. 57). Segundo a autora, é nesse recinto do elogio que Alberto Silva fez uso do “ato de recitar” proposto por Ricoeur (2007), visto que o político não esperava outros agentes para ele mesmo recitar e recordar os seus feitos. Cláudia Fontineles faz análises, também, dos discursos de opositores de Alberto Silva, que também disputaram eleições contra ele. Mesmo como oposição, os adversários aumentam “o coro dos que reconheciam os feitos desse governo na década de 1970” (FONTINELES, 2015, p. 59). Nas tramas políticas, por meio de eleições, a historiadora traça a participação de Alberto Silva nos rearranjos dos partidos políticos no país e no Estado, sobretudo suas conexões com as políticas e ações do regime militar. Nesse sentido, “o próprio Alberto Silva afirma que sua indicação pelos militares ao governo do Piauí no início da década de 1970 teria gerado uma série de reações contrárias nos grupos dirigentes que governavam o Piauí até então” (FONTINELES, 2015, p. 79). Além disso, sua trajetória profissional possibilitou “construir uma rede de aliados, sobretudo no Ceará, que o apoiou bastante em sua trajetória política” (FONTINELES, 2015, p. 79). A partir disso, “Alberto Silva não só é tratado como o construtor da autoestima do piauiense, mas também como o responsável pelo conhecimento nacional de sua existência” (FONTINELES, 2015, p. 95). Cláudia Fontineles considera que “Alberto Silva transformou a luta pelo registro e pela manutenção de sua imagem na memória e na história locais o principal símbolo de sua luta contra o perecimento” (FONTINELES, 2015, p. 153). Nessa luta, as inúmeras obras, sobretudo na capital, Teresina, deram-lhe a imagem de o engenheiro na e da política. Dentre suas mais emblemáticas intervenções no espaço público está o estádio de futebol “Albertão”, que despertou lutas de significado, visto que tais lutas “surgiram antes mesmo de sua construção, sendo considerada pelos correligionários do governador a marca da introdução do Piauí em um outro tempo, um tempo de conquistas e de realizações modernas” (FONTINELES, 2015, p. 167).
A segunda parte, intitulada O Fascínio e as Provocações do Moderno, traz três capítulos que, em larga medida, são as discussões que a historiadora faz acerca da notoriedade que a cidade de Teresina alcançou, no que concerne aos benefícios de obras durante os governos de Alberto Silva. Para tanto, a historiadora faz uso das metáforas da mitologia grega, chamando de Alberto-Zeus como o responsável para a existência da Teresina-Atenas, visto que muitos de seus entrevistados afirmavam que, se retirassem o que Alberto Silva construiu, a cidade deixaria de existir. Cláudia Fontineles chama a atenção para o fato de que, desde o século XIX, a cidade de Teresina “tem sua história marcada pela ideia do futuro antecipado” (FONTINELES, 2015, p. 200) e, dessa forma, ela “tornou-se o palco privilegiado dos sonhos e desejos, mas também dos embates em relação aos caminhos trilhados pelo Piauí” (FONTINELES, 2015, p. 201). As ações de infraestrutura realizadas nos governos de Alberto Silva, na cidade de Teresina, possuem “relevância atribuída à ideia de progresso em oposição ao que seria considerado com a decadência vivida em Teresina em outras administrações” (FONTINELES, 2015, p. 211). Alberto Silva pretende-se como o que conduz o Estado e a cidade para o novo, pois “ele faz questão de apresentar-se como símbolo do novo na política piauiense em oposição às oligarquias lideradas pelos Portella, apresentando seus governos como o emblema do novo, os atos de suas administrações são proclamados como uma alternativa ao antigo” (FONTINELES, 2015, p. 212). A capital piauiense, então, seria a vitrine dessa pretensão de ícone do novo e da modernidade, muito embora, como adverte a historiadora, ele tenha sua trajetória política atrelada a grupos e pessoas ligadas a forças tradicionais da política nacional e local. É no seio dessa intencionalidade de novo que “a condição de condutor da locomotiva do progresso seria assumida pelo governador do Estado de então. Atribuía-se a ele o papel não só de guardião, como também de construtor e de condutor dessa locomotiva” (FONTINELES, 2015, p. 217), tendo que enfrentar os “desafios a um Engenheiro-Maquinista” (FONTINELES, 2015, p. 219). Isso estava ligado às suas ações de incentivo e implantação de serviços no setor ferroviário em suas administrações, visto que “a luta pela implantação do metrô em Teresina é uma pauta que acompanha toda a trajetória política de Alberto Silva” (FONTINELES, 2015, p. 227), mas foi implantado apenas em seu segundo mandato, tornando-se “instrumento de propaganda entre seus correligionários e de crítica entre seus oponentes” (FONTINELES, 2015, p. 327). Nesse sentido, a historiadora assevera que “os governos de Alberto Silva são atravessados por essa ideia constantemente, ora simbolizando o progresso, ora sendo associados ao atraso que ameaçava engolir o Estado” (FONTINELES, 2015, p. 317-318). Ela traça os conflitos que povoaram, principalmente, a segunda gestão do governo de Alberto Silva, sobretudo o descontentamento de funcionários públicos, como professores. Para isso, ela faz uso da interpretação das fontes orais e de charges de jornais da época. Assim, a Teresina das décadas de 1970 e 1980, que presenciou os fios do prestígio de Alberto Silva, “viu nas décadas seguintes esses fios desgastarem-se” (FONTINELES, 2015, p. 376).
Na terceira parte do livro, “Dobras” que se tocam no “Lenço” da História, além de ampliar e aprofundar as discussões sobre as concepções de tempo e da pesquisa histórica, feitas desde a primeira parte do livro, a historiadora recorre a tais reflexões para “analisar como as duas gestões do Estado do Piauí assumidas por Alberto Tavares Silva ficaram registradas na memória da população e repercutiram em sua história” (FONTINELES, 2015, p. 382). De maneira mais enfática, Fontineles “analisa as diferentes faces da relação estabelecida entre esse administrador e os servidores públicos estaduais e os desdobramentos disso na história local” (FONTINELES, 2015, p. 44). Para isso, ela analisa as leituras e interpretações sobre as duas gestões do então governador, bem como ele conseguia reverter, na medida do possível, as críticas em elogios, valendo-se, segundo a historiadora, da estratégia da “trampolinagem”, conforme denominou Michel de Certeau (2000). Esse poder de articulação do administrador deu-se, também, em momentos em que ele não estava no cargo de governador. Isso se justifica, em larga medida, ao fato de que, “mesmo fora do governo, Alberto Silva continuava influência entre o funcionalismo público estadual” (FONTINELES, 2015, p. 389). Ao mostrar as tensões em torno das imagens do administrador em seus dois governos, o livro salienta que a glorificação e a representação “heroica” atribuídas a ele escondiam as relações de poder política que o levaram ao poder em sua primeira gestão. Assim, Fontineles aponta para as “discordâncias existentes dentro do mesmo partido político – a ARENA – que muitos acreditavam não existir dadas as conjunturas políticas do país” (FONTINELES, 2015, p. 395). No entanto, ela salienta que tais relações “se mostraram bastante intensas ao ponto de terem marcado o cenário político piauiense nas três últimas décadas do século XX” (FONTINELES, 2015, p. 395). De seu primeiro mandato Alberto Silva “herdou” o bom relacionamento com setores do funcionalismo público, em especial os professores. Isso criou grande identificação entre o administrador e os professores, de tal maneira que “é considerada tão expressiva que esse grupo é tratado pelas fontes escritas e orais consultadas como seu principal ‘cabo eleitoral’ nas eleições a que ele concorrera desde que se encerra o seu primeiro governo” (FONTINELES, 2015, p. 426). Contudo, em seu segundo governo, essa boa relação com o funcionalismo público, principalmente com os professores, será rompida, pois “a expectativa e a ansiedade com a reedição do sucesso do primeiro governo em relação aos benefícios que se esperava para os professores cederam lugar ao sentimento de frustração” (FONTINELES, 2015, p. 430). E tal frustração reverberou nos setores econômicos, alcançando outros grupos do funcionalismo, que realizaram uma sequência de paralisações e greves.
Como salienta Cláudia Fontineles, sua pesquisa mostrou a “possibilidade de tornar perene o perecível por meio da narrativa histórica, e com ela, os sujeitos envolvidos em sua trama” (FONTINELES, 2015, p. 45), relacionando, assim, história e biografia. É no recinto do elogio e da crítica que a historiadora imprime suas reflexões e análises sobre as nuances da história e da memória, marcadas pelas ranhuras e disputas da memória. Nesse sentido, “as reminiscências deixadas na memória piauiense pelo próprio governo albertista também foram reivindicadas por seus críticos para acentuar ainda mais o que chamaram de descaminho ocorrido nas décadas seguintes” (FONTINELES, 2015, p. 478). Ao transitar pelas disputas das memórias nos dois governos de Alberto Silva, a historiadora apresenta as imagens do administrador em diferentes dimensões da vida pública. Os (re)arranjos políticos e partidários, entre as décadas de 1970 e 1990, são pensados e analisados em uma interação entre o local e o nacional – nas ranhuras e enlaces da política partidária, de regimes de governo –, destacando aspectos, também, socioculturais, na esteira do que se pode chamar de nova história política. Suas ações na vida urbana, por meio de projetos de modernização e urbanização, dão norteamentos para pesquisas voltadas para as discussões acerca da cidade. Seu livro, em linhas gerais, lança possibilidades para debates voltados para política, cidade, biografias, memória, narrativa, representações, imagens e discursos. É um trabalho que não se prende a limites e/ou fronteiras, visto que o Piauí é pensado em sua ligação indissociável à vida política, econômica e social nacional. Assim, constitui-se como salutar trabalho de construção histórica e historiográfica.
Referências
ARISTÓTELES. Da Lembrança e da Rememoração. Cláudio Veloso (tradução, notas e comentário). In: Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Campinas, Unicamp, s. 3, v. 12, n. especial, jan.-dez, 2002.
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
QUEIROZ, Teresinha de Jesus Mesquita. Historiografia piauiense. In: QUEIROZ, Teresinha de Jesus Mesquita. Do singular ao plural. Recife: Edições Bagaço, 2006, p. 141-170.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: EDUNICAMP, 2007.
Tempo e narrativa. Tradução: Constança Marcondes César. Campinas, SP: Papirus, 1994. Tomos I e II.