<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.0 20120330//EN" "http://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.0/JATS-journalpublishing1.dtd">
<article xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" dtd-version="1.0" specific-use="sps-1.7" article-type="book-review" xml:lang="pt">
<front>
<journal-meta>
<journal-id journal-id-type="publisher-id">ibero</journal-id>
<journal-title-group>
<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
<publisher>
<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id pub-id-type="publisher-id">00021</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2017.3.26990</article-id>
<article-categories>
<subj-group subj-group-type="heading">
<subject>Resenha</subject></subj-group></article-categories>
<title-group>
<article-title>Di&#xE1;logos fascistas: os fascismos espanhol e alem&#xE3;o e os traumas da Segunda Guerra Mundial</article-title>
<trans-title-group xml:lang="en">
<trans-title>Fascist dialogues: the Spanish and German fascisms and the Second World War&#xB4;s traumas</trans-title></trans-title-group>
<trans-title-group xml:lang="es">
<trans-title>Di&#xE1;logos fascistas: los fascismos espa&#xF1;ol y alem&#xE1;n y los traumas de la Segunda Guerra Mundial</trans-title></trans-title-group>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name><surname>Bertonha</surname><given-names>Jo&#xE3;o F&#xE1;bio</given-names></name> <xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref>
<bio>
<p>J<sc>o&#xE3;o</sc> F<sc>&#xE1;bio</sc> B<sc>ertonha</sc> <email>fabiobertonha@hotmail.com</email></p>
<p>&#x2022; Professor Associado. Departamento de Hist&#xF3;ria, Universidade Estadual de Maring&#xE1;.</p>
<p>&#x25E6; Associate Professor. History Department, State University of Maring&#xE1;.</p></bio></contrib>
<aff id="aff1">
<label>*</label>
<institution content-type="original">Professor Associado. Departamento de Hist&#xF3;ria, Universidade Estadual de Maring&#xE1;</institution><country country="BR">Brasil</country></aff></contrib-group>
<pub-date pub-type="epub-ppub">
<season>Sep-Dec</season>
<year>2017</year></pub-date>
<volume>43</volume>
<issue>3</issue>
<fpage>697</fpage>
<lpage>700</lpage> <product product-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>SEIXAS</surname><given-names>Xos&#xE9; M. N&#xFA;&#xF1;ez</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt"><italic>Fascismo, guerra e mem&#xF3;ria</italic>: Olhares ib&#xE9;ricos e europeus</source>
<publisher-loc>Porto Alegre, Santiago de Compostela</publisher-loc>
<publisher-name>EdiPUCRS, USC</publisher-name>
<year>2016</year></product>
<history>
<date date-type="received">
<day>30</day>
<month>03</month>
<year>2017</year></date>
<date date-type="accepted">
<day>07</day>
<month>04</month>
<year>2017</year></date>
</history>
<permissions>
<license xml:lang="en" license-type="open-access" xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">
<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p></license></permissions>
<counts>
<fig-count count="0"/>
<table-count count="0"/>
<equation-count count="0"/>
<ref-count count="2"/>
<page-count count="4"/></counts></article-meta></front>
<body>
<p>Xos&#xE9; Manuel N&#xFA;&#xF1;ez Seixas &#xE9; um historiador espanhol, atualmente professor na Universidade de Munique, Alemanha. Seus interesses de pesquisa s&#xE3;o m&#xFA;ltiplos, mas podemos identificar alguns eixos centrais, como os estudos migrat&#xF3;rios, da guerra e do nacionalismo europeu, normalmente seguindo um vi&#xE9;s comparativo ou transnacional. Bastante conhecido entre os especialistas nesses temas, especialmente na Europa, tem agora, por iniciativa da Editora da PUCRS, um dos seus livros editados no Brasil.</p>
<p>O livro re&#xFA;ne seis ensaios, dos quais um in&#xE9;dito e cinco previamente publicados em revistas e livros do Brasil, Argentina, Espanha e Portugal entre 2007 e 2015. Apesar da sua heterogeneidade, os artigos t&#xEA;m um eixo temporal bem delimitado, ou seja, o per&#xED;odo entre as guerras mundiais e a Segunda Guerra. Do mesmo modo, h&#xE1; v&#xE1;rios focos tem&#xE1;ticos &#x2013; os fascismos, as identidades nacionais, a guerra e a mem&#xF3;ria da guerra &#x2013; que d&#xE3;o identidade e coer&#xEA;ncia ao volume.</p>
<p>O livro se inicia com um cap&#xED;tulo te&#xF3;rico, conceitual, no qual o autor apresenta a necessidade de discutir conceitos chave para a historiografia do fascismo, como, por exemplo, o de nacionalismo. H&#xE1; um consenso de que o nacionalismo &#xE9; um elemento central da vis&#xE3;o de mundo fascista, mas faltaria uma discuss&#xE3;o rigorosa sobre o significado do termo dentro do fascismo.</p>
<p>O nacionalismo, na verdade, &#xE9; um grande guarda-chuva, podendo incluir perspectivas de direita ou de esquerda, autorit&#xE1;rias ou democr&#xE1;ticas, culturais ou econ&#xF4;micas e outras. Mesmo dentro do fascismo, h&#xE1; diferen&#xE7;as entre um nacionalismo quase tradicional, etno-lingu&#xED;stico, como o italiano, e outro que enfatizou a ra&#xE7;a, como o alem&#xE3;o, al&#xE9;m de cont&#xED;nuos di&#xE1;logos e adapta&#xE7;&#xF5;es entre um e outro. O autor faz um invent&#xE1;rio dos v&#xE1;rios tipos de nacionalismo dentro e fora do universo fascista, o que &#xE9; um exerc&#xED;cio bem-vindo.</p>
<p>Em linhas gerais, para o autor, o nacionalismo fascista n&#xE3;o seria particularmente novo, mas uma reciclagem de propostas nacionais j&#xE1; presentes no pensamento da direita tradicionalista. O nacionalismo fascista, como sua matriz tradicionalista, se distanciaria da proposta liberal-democr&#xE1;tica e de suas propostas de Na&#xE7;&#xE3;o como o lugar onde se daria a soberania popular e se exerceriam os direitos de cidadania. Para tradicionalistas e fascistas, a Na&#xE7;&#xE3;o seria uma comunidade pol&#xED;tica baseada em la&#xE7;os comuns de cultura, hist&#xF3;ria ou ra&#xE7;a.</p>
<p>A novidade do fascismo teria sido adaptar esse nacionalismo tradicionalista aos seus dogmas centrais, como a revolu&#xE7;&#xE3;o, o irracionalismo e outros. A partir dessa adapta&#xE7;&#xE3;o, emergiriam certas particularidades do nacionalismo fascista: a &#xEA;nfase no sacrif&#xED;cio e da disciplina sobre os direitos individuais, uma vis&#xE3;o darwinista da Na&#xE7;&#xE3;o e da pol&#xED;tica internacional, a subordina&#xE7;&#xE3;o da religi&#xE3;o &#xE0; Na&#xE7;&#xE3;o e desta ao Estado e a cren&#xE7;a cega no princ&#xED;pio do l&#xED;der.</p>
<p>O nacionalismo serviria de ponte entre os fascistas e os nacionalistas conservadores. Mesmo que a vis&#xE3;o de Na&#xE7;&#xE3;o dos conservadores fosse, em geral, diferente da dos fascistas (j&#xE1; que eles avaliavam de forma diversa o papel do Estado e da religi&#xE3;o na constru&#xE7;&#xE3;o nacional), era pr&#xF3;xima o suficiente para promover a alian&#xE7;a e a colabora&#xE7;&#xE3;o, especialmente porque ambas se opunham &#xE0;s vers&#xF5;es liberais e de esquerda de Na&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>No tocante ao darwinismo na pol&#xED;tica internacional, uma discuss&#xE3;o que chama a aten&#xE7;&#xE3;o &#xE9; a relacionada ao imperialismo. O fascismo, com certeza, era imperialista, mas definir melhor esse imperialismo &#xE9; uma discuss&#xE3;o praticamente inevit&#xE1;vel quando se problematiza o nacionalismo. O imperialismo fascista apenas trouxe para o cen&#xE1;rio europeu o sistema j&#xE1; instalado na &#xC1;sia ou na &#xC1;frica ou representou algo novo? Uma discuss&#xE3;o ainda n&#xE3;o conclusiva, mas que mereceria ser feita.</p>
<p>Outro ponto interessante do livro &#xE9; quando ele ressalta como a proposta nacionalista do nazismo, assim como de outros regimes autorit&#xE1;rios, n&#xE3;o significava automaticamente repress&#xE3;o dos regionalismos ou das tradi&#xE7;&#xF5;es locais. Tal repress&#xE3;o era efetivada nos casos em que isso pudesse significar separatismo, mas n&#xE3;o quando o regional era identificado como construtor do nacional. Autores como Alon <xref ref-type="bibr" rid="B1">Confino (2016)</xref> j&#xE1; tinham identificado isso no tocante ao nazismo alem&#xE3;o, ressaltando como o folclore e as tradi&#xE7;&#xF5;es locais, do <italic>Heimat</italic> alem&#xE3;o, eram interpretados como reservat&#xF3;rios do &#x201C;verdadeiro esp&#xED;rito nacional&#x201D;, em oposi&#xE7;&#xE3;o a ideologias que seriam estranhas a ele, como o comunismo ou o liberalismo.</p>
<p>Em outro dos ensaios, o autor retoma essa tens&#xE3;o entre o regional e o nacional para o caso espanhol. Fica evidente como o regionalismo foi incorporado ao discurso do franquismo de forma a mobilizar as &#xE1;reas n&#xE3;o castelhanas da Espanha e como os regionalismos eram vistos como uma reserva de tradi&#xE7;&#xF5;es e identidades capaz de combater a modernidade liberal e de esquerda. O problema era quando o regionalismo se convertia em separatismo (real ou imaginado), amea&#xE7;ando a integridade nacional, o que gerava ambiguidades e pol&#xED;ticas muitas vezes contradit&#xF3;rias, entre a repress&#xE3;o e a toler&#xE2;ncia, com rela&#xE7;&#xE3;o a regi&#xF5;es como a Catalunha e a Gal&#xED;cia.</p>
<p>Dois dos textos seguintes trabalham a rela&#xE7;&#xE3;o entre o fascismo espanhol, representado pela <italic>Falange Espa&#xF1;ola</italic> (FE), e o nacional-socialismo alem&#xE3;o. O autor ressalta como, at&#xE9; a eclos&#xE3;o da Guerra Civil, a principal influ&#xEA;ncia externa no fascismo espanhol foi Mussolini, o qual, inclusive, forneceu fundos para o movimento. O estilo alem&#xE3;o de lideran&#xE7;a, a sua f&#xF3;rmula de conquista do poder e o seu anticomunismo e radicalismo eram admirados, mas o racismo e o antissemitismo ao estilo nazista n&#xE3;o agradavam aos espanh&#xF3;is.</p>
<p>Com a guerra civil e o apoio alem&#xE3;o a Franco, o cen&#xE1;rio se alterou e a Falange intensificou seus la&#xE7;os com a Alemanha. Nos anos a seguir, muitos falangistas visitaram a Alemanha (e vice-versa), estreitando os la&#xE7;os entre a FE-JONS e o NSDAP. Organiza&#xE7;&#xF5;es nazistas serviram de inspira&#xE7;&#xE3;o para suas equivalentes espanholas e professores e intelectuais falangistas foram estudar na Alemanha, com ou sem associa&#xE7;&#xE3;o com os organismos culturais do franquismo.</p>
<p>O autor indica como a rela&#xE7;&#xE3;o entre a Falange e o NSDAP acabou por influenciar os equil&#xED;brios internos dentro do bloco de poder franquista. Hitler enviou, como seu representante junto a Franco, o antigo representante nazista no Peru e na Argentina Wilhelm Faupel. Era uma imposi&#xE7;&#xE3;o do NSDAP, que priorizava a sua rela&#xE7;&#xE3;o com a Falange, a qual havia crescido muito em poder e n&#xFA;mero de militantes desde o inicio do conflito. Em fevereiro de 1937, ele foi nomeado embaixador alem&#xE3;o, mas continuou uma atividade incessante em prol da Falange, a qual Faupel via como um verdadeiro partido nacional-socialista adaptado &#xE0; realidade local e uma for&#xE7;a que poderia tomar o poder de Franco, aliando-se permanentemente com a Alemanha. Ele tamb&#xE9;m empreendeu iniciativas para se aproximar dos falangistas e retir&#xE1;-los da &#xF3;rbita italiana.</p>
<p>Faupel apoiou, por exemplo, Manuel Hedilla, a dissid&#xEA;ncia da FE, se op&#xF4;s ao decreto de Unifica&#xE7;&#xE3;o e irritou tanto Franco que esse conseguiu que Hitler o removesse em agosto de 1937. Ele voltou para a Alemanha, onde assumiu a dire&#xE7;&#xE3;o do <italic>Instituto Ibero-Americano</italic>, para o qual levou v&#xE1;rios falangistas. De l&#xE1;, continuou a tentar influenciar o falangismo &#x2013; segundo ele, uma verdadeira for&#xE7;a revolucion&#xE1;ria &#x2013; e a Espanha.</p>
<p>Franco, contudo, teria conseguido anular os &#xED;mpetos radicais da Falange e control&#xE1;-la dentro do seu bloco de poder, que inclu&#xED;a, como &#xE9; conhecido, falangistas, conservadores, reacion&#xE1;rios carlistas e outras for&#xE7;as de direita. E mesmo esse falangismo radicalizado n&#xE3;o teria se tornado um nacional-socialismo espanhol, permanecendo dentro dos padr&#xF5;es do falangismo, mais pr&#xF3;ximo do fascismo italiano do que do padr&#xE3;o nazista. A partir de 1943, a FE come&#xE7;ou, de qualquer forma, seguindo a orienta&#xE7;&#xE3;o de Franco, a romper seus la&#xE7;os com o passado, negando ser fascista e assumindo-se como uma varia&#xE7;&#xE3;o do tradicionalismo cat&#xF3;lico. Os falangistas pr&#xF3;-nazis come&#xE7;aram a ser silenciados e ficaram isolados desde ent&#xE3;o.</p>
<p>Um verdadeiro falangismo nacional-socialista s&#xF3; iria aparecer de setembro de 1944 a abril de 1945, sob a batuta de Faupel e da revista <italic>Enlace</italic>, sob o comando de um sacerdote basco &#x2013; Martin de Arrizubieta. A meta era criar um nacional-socialismo hisp&#xE2;nico, incluindo antissemitismo biol&#xF3;gico e uma ordem totalit&#xE1;ria e laica. A revista tentava fornecer um programa aos espanh&#xF3;is da SS que ainda lutavam pelo Reich. Mesmo assim, eles teriam continuado a interpretar a mensagem pelos seus valores tradicionais, falangistas.</p>
<p>Essa parte do livro &#xE9; sumamente interessante no sentido de demonstrar os conflitos no interior do bloco de poder franquista durante a Guerra Civil e tamb&#xE9;m posteriormente e como o cen&#xE1;rio internacional foi fundamental para definir essas disputas. Na Espanha, h&#xE1; muito se reconhece que o franquismo sofreu muta&#xE7;&#xF5;es ideol&#xF3;gicas de monta no decorrer de d&#xE9;cadas de Hist&#xF3;ria e se discutem as disputas entre carlistas, conservadores e falangistas (e dentro de cada grupo) no interior do seu bloco de poder. No Brasil, tal informa&#xE7;&#xE3;o ainda n&#xE3;o &#xE9; de dom&#xED;nio comum fora do campo dos especialistas e algumas pessoas ainda, em alguns casos, associam franquismo com fascismo. Isso torna esses cap&#xED;tulos de especial interesse para os leitores brasileiros.</p>
<p>A forma&#xE7;&#xE3;o da <italic>Divisi&#xF3;n Azul</italic> (DA) &#x2013; a divis&#xE3;o enviada por Franco para lutar na frente russa com o Ex&#xE9;rcito alem&#xE3;o &#x2013; s&#xF3; pode ser entendida, justamente, se levarmos em conta as press&#xF5;es internas &#x2013; dentro do seu sistema de poder &#x2013; e externas, dos Aliados e do Eixo, a que Franco estava submetido no in&#xED;cio da d&#xE9;cada de 1940. A invas&#xE3;o da URSS havia ampliado a simpatia pelo nazismo n&#xE3;o apenas entre os falangistas, como tamb&#xE9;m entre muitos conservadores e carlistas. Os falangistas, contudo, viam com muito mais clareza que uma participa&#xE7;&#xE3;o espanhola no Eixo poderia ser um instrumento valioso para refor&#xE7;ar suas pretens&#xF5;es de poder, at&#xE9; mesmo removendo Francisco Franco do comando. A DA &#xE9; justamente o objeto de dois dos artigos que se seguem no livro e sua import&#xE2;ncia &#xE9; de primeira ordem.</p>
<p>Na Espanha, a <italic>Divisi&#xF3;n Azul</italic> &#xE9; objeto de interesse historiogr&#xE1;fico e p&#xFA;blico h&#xE1; muito tempo e as discuss&#xF5;es sobre sua hist&#xF3;ria e mem&#xF3;ria s&#xE3;o bastante intensas. No Brasil, poucas pessoas conhecem sua hist&#xF3;ria e as implica&#xE7;&#xF5;es da participa&#xE7;&#xE3;o de dezenas de milhares de espanh&#xF3;is na frente russa durante a Segunda Guerra Mundial. Apenas por trazer esse t&#xF3;pico para o p&#xFA;blico brasileiro, os artigos que se referem &#xE0; Divis&#xE3;o j&#xE1; valeriam a pena.</p>
<p>Os artigos, contudo, v&#xE3;o muito mais do que simplesmente trazer uma discuss&#xE3;o espanhola para leitores brasileiros relativamente pouco informados. N&#xFA;&#xF1;ez Seixas faz uma an&#xE1;lise comparada de extremo interesse, colocando a DA em perspectiva frente a outras for&#xE7;as que lutaram na frente oriental. Nessa compara&#xE7;&#xE3;o, incluem-se as for&#xE7;as regulares, como as eslovacas ou h&#xFA;ngaras, as v&#xE1;rias legi&#xF5;es de auxiliares recrutadas entre os povos sovi&#xE9;ticos e os volunt&#xE1;rios, como as Waffen SS.</p>
<p>O estudo da frente oriental &#xE9; realmente um ponto forte do livro. Tradicionalmente, no Ocidente, conhece-se muito mais as batalhas dos anglo-americanos contra os ex&#xE9;rcitos alem&#xE3;es na Europa e na &#xC1;frica do Norte ou nos oceanos e no ar. A frente oriental, contudo, foi o lugar onde os sonhos de domina&#xE7;&#xE3;o mundial do nazismo foram destru&#xED;dos e onde as for&#xE7;as armadas alem&#xE3;s tiveram mais baixas. O simples conhecimento das grandes batalhas e opera&#xE7;&#xF5;es no espa&#xE7;o entre a Alemanha e a R&#xFA;ssia &#x2013; como Stalingrado, Kursk ou Bagration &#x2013; j&#xE1; seria um ganho para o leitor m&#xE9;dio.</p>
<p>Os artigos do livro, contudo, v&#xE3;o al&#xE9;m de uma reconstru&#xE7;&#xE3;o factual das batalhas e dos conflitos, adentrando no campo da an&#xE1;lise sociol&#xF3;gica das tropas envolvidas e ressaltando o car&#xE1;ter internacional e transnacional da luta ali travada. A mem&#xF3;ria particular daquela frente entre os alem&#xE3;es e entre outros povos envolvidos &#x2013; como, em especial, os finlandeses, os espanh&#xF3;is e os italianos &#x2013; tamb&#xE9;m &#xE9; abordada, num esfor&#xE7;o de di&#xE1;logo entre Hist&#xF3;ria e mem&#xF3;ria, entre passado e presente.</p>
<p>Enquanto colet&#xE2;nea de artigos j&#xE1; publicados, o livro apresenta as defici&#xEA;ncias inevit&#xE1;veis desse modelo, como a repeti&#xE7;&#xE3;o de argumentos e tem&#xE1;ticas. No entanto, as vantagens superam as desvantagens, pois os v&#xE1;rios textos suplementam uns aos outros. O conjunto &#xE9; um material de extrema utilidade e imprescind&#xED;vel para os interessados no fascismo internacional, na Segunda Guerra Mundial e em temas correlatos.</p></body>
<back>
<ref-list>
<title>Refer&#xEA;ncias</title>
<ref id="B1"><mixed-citation>CONFINO, Alon. Um mundo sem judeus. Da perseguição ao
genocídio, a visão do imaginário nazista. São Paulo: Cultrix, 2016.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>CONFINO</surname> <given-names>Alon</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">Um mundo sem judeus. Da persegui&#xE7;&#xE3;o ao genoc&#xED;dio, a vis&#xE3;o do imagin&#xE1;rio nazista</source>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Cultrix</publisher-name>
<year>2016</year></element-citation></ref>
<ref id="B2"><mixed-citation>SEIXAS, Xosé M. Núñez. Fascismo, guerra e memória: Olhares
ibéricos e europeus. Porto Alegre, Santiago de Compostela:
EdiPUCRS, USC, 2016.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>SEIXAS</surname> <given-names>Xos&#xE9; M. N&#xFA;&#xF1;ez</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">Fascismo, guerra e mem&#xF3;ria: Olhares ib&#xE9;ricos e europeus</source>
<publisher-loc>Porto Alegre, Santiago de Compostela</publisher-loc>
<publisher-name>EdiPUCRS, USC</publisher-name>
<year>2016</year></element-citation></ref></ref-list>
</back>
</article>
