Resenha
Diálogos fascistas: os fascismos espanhol e alemão e os traumas da Segunda Guerra Mundial
Fascist dialogues: the Spanish and German fascisms and the Second World War´s traumas
Diálogos fascistas: los fascismos español y alemán y los traumas de la Segunda Guerra Mundial
Diálogos fascistas: os fascismos espanhol e alemão e os traumas da Segunda Guerra Mundial
Estudos Ibero-Americanos, vol. 43, núm. 3, pp. 697-700, 2017
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
| SEIXAS Xosé M. Núñez. Fascismo, guerra e memória: Olhares ibéricos e europeus. 2016. Porto Alegre, Santiago de Compostela. EdiPUCRS, USC |
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Recepção: 30 Março 2017
Aprovação: 07 Abril 2017
Xosé Manuel Núñez Seixas é um historiador espanhol, atualmente professor na Universidade de Munique, Alemanha. Seus interesses de pesquisa são múltiplos, mas podemos identificar alguns eixos centrais, como os estudos migratórios, da guerra e do nacionalismo europeu, normalmente seguindo um viés comparativo ou transnacional. Bastante conhecido entre os especialistas nesses temas, especialmente na Europa, tem agora, por iniciativa da Editora da PUCRS, um dos seus livros editados no Brasil.
O livro reúne seis ensaios, dos quais um inédito e cinco previamente publicados em revistas e livros do Brasil, Argentina, Espanha e Portugal entre 2007 e 2015. Apesar da sua heterogeneidade, os artigos têm um eixo temporal bem delimitado, ou seja, o período entre as guerras mundiais e a Segunda Guerra. Do mesmo modo, há vários focos temáticos – os fascismos, as identidades nacionais, a guerra e a memória da guerra – que dão identidade e coerência ao volume.
O livro se inicia com um capítulo teórico, conceitual, no qual o autor apresenta a necessidade de discutir conceitos chave para a historiografia do fascismo, como, por exemplo, o de nacionalismo. Há um consenso de que o nacionalismo é um elemento central da visão de mundo fascista, mas faltaria uma discussão rigorosa sobre o significado do termo dentro do fascismo.
O nacionalismo, na verdade, é um grande guarda-chuva, podendo incluir perspectivas de direita ou de esquerda, autoritárias ou democráticas, culturais ou econômicas e outras. Mesmo dentro do fascismo, há diferenças entre um nacionalismo quase tradicional, etno-linguístico, como o italiano, e outro que enfatizou a raça, como o alemão, além de contínuos diálogos e adaptações entre um e outro. O autor faz um inventário dos vários tipos de nacionalismo dentro e fora do universo fascista, o que é um exercício bem-vindo.
Em linhas gerais, para o autor, o nacionalismo fascista não seria particularmente novo, mas uma reciclagem de propostas nacionais já presentes no pensamento da direita tradicionalista. O nacionalismo fascista, como sua matriz tradicionalista, se distanciaria da proposta liberal-democrática e de suas propostas de Nação como o lugar onde se daria a soberania popular e se exerceriam os direitos de cidadania. Para tradicionalistas e fascistas, a Nação seria uma comunidade política baseada em laços comuns de cultura, história ou raça.
A novidade do fascismo teria sido adaptar esse nacionalismo tradicionalista aos seus dogmas centrais, como a revolução, o irracionalismo e outros. A partir dessa adaptação, emergiriam certas particularidades do nacionalismo fascista: a ênfase no sacrifício e da disciplina sobre os direitos individuais, uma visão darwinista da Nação e da política internacional, a subordinação da religião à Nação e desta ao Estado e a crença cega no princípio do líder.
O nacionalismo serviria de ponte entre os fascistas e os nacionalistas conservadores. Mesmo que a visão de Nação dos conservadores fosse, em geral, diferente da dos fascistas (já que eles avaliavam de forma diversa o papel do Estado e da religião na construção nacional), era próxima o suficiente para promover a aliança e a colaboração, especialmente porque ambas se opunham às versões liberais e de esquerda de Nação.
No tocante ao darwinismo na política internacional, uma discussão que chama a atenção é a relacionada ao imperialismo. O fascismo, com certeza, era imperialista, mas definir melhor esse imperialismo é uma discussão praticamente inevitável quando se problematiza o nacionalismo. O imperialismo fascista apenas trouxe para o cenário europeu o sistema já instalado na Ásia ou na África ou representou algo novo? Uma discussão ainda não conclusiva, mas que mereceria ser feita.
Outro ponto interessante do livro é quando ele ressalta como a proposta nacionalista do nazismo, assim como de outros regimes autoritários, não significava automaticamente repressão dos regionalismos ou das tradições locais. Tal repressão era efetivada nos casos em que isso pudesse significar separatismo, mas não quando o regional era identificado como construtor do nacional. Autores como Alon Confino (2016) já tinham identificado isso no tocante ao nazismo alemão, ressaltando como o folclore e as tradições locais, do Heimat alemão, eram interpretados como reservatórios do “verdadeiro espírito nacional”, em oposição a ideologias que seriam estranhas a ele, como o comunismo ou o liberalismo.
Em outro dos ensaios, o autor retoma essa tensão entre o regional e o nacional para o caso espanhol. Fica evidente como o regionalismo foi incorporado ao discurso do franquismo de forma a mobilizar as áreas não castelhanas da Espanha e como os regionalismos eram vistos como uma reserva de tradições e identidades capaz de combater a modernidade liberal e de esquerda. O problema era quando o regionalismo se convertia em separatismo (real ou imaginado), ameaçando a integridade nacional, o que gerava ambiguidades e políticas muitas vezes contraditórias, entre a repressão e a tolerância, com relação a regiões como a Catalunha e a Galícia.
Dois dos textos seguintes trabalham a relação entre o fascismo espanhol, representado pela Falange Española (FE), e o nacional-socialismo alemão. O autor ressalta como, até a eclosão da Guerra Civil, a principal influência externa no fascismo espanhol foi Mussolini, o qual, inclusive, forneceu fundos para o movimento. O estilo alemão de liderança, a sua fórmula de conquista do poder e o seu anticomunismo e radicalismo eram admirados, mas o racismo e o antissemitismo ao estilo nazista não agradavam aos espanhóis.
Com a guerra civil e o apoio alemão a Franco, o cenário se alterou e a Falange intensificou seus laços com a Alemanha. Nos anos a seguir, muitos falangistas visitaram a Alemanha (e vice-versa), estreitando os laços entre a FE-JONS e o NSDAP. Organizações nazistas serviram de inspiração para suas equivalentes espanholas e professores e intelectuais falangistas foram estudar na Alemanha, com ou sem associação com os organismos culturais do franquismo.
O autor indica como a relação entre a Falange e o NSDAP acabou por influenciar os equilíbrios internos dentro do bloco de poder franquista. Hitler enviou, como seu representante junto a Franco, o antigo representante nazista no Peru e na Argentina Wilhelm Faupel. Era uma imposição do NSDAP, que priorizava a sua relação com a Falange, a qual havia crescido muito em poder e número de militantes desde o inicio do conflito. Em fevereiro de 1937, ele foi nomeado embaixador alemão, mas continuou uma atividade incessante em prol da Falange, a qual Faupel via como um verdadeiro partido nacional-socialista adaptado à realidade local e uma força que poderia tomar o poder de Franco, aliando-se permanentemente com a Alemanha. Ele também empreendeu iniciativas para se aproximar dos falangistas e retirá-los da órbita italiana.
Faupel apoiou, por exemplo, Manuel Hedilla, a dissidência da FE, se opôs ao decreto de Unificação e irritou tanto Franco que esse conseguiu que Hitler o removesse em agosto de 1937. Ele voltou para a Alemanha, onde assumiu a direção do Instituto Ibero-Americano, para o qual levou vários falangistas. De lá, continuou a tentar influenciar o falangismo – segundo ele, uma verdadeira força revolucionária – e a Espanha.
Franco, contudo, teria conseguido anular os ímpetos radicais da Falange e controlá-la dentro do seu bloco de poder, que incluía, como é conhecido, falangistas, conservadores, reacionários carlistas e outras forças de direita. E mesmo esse falangismo radicalizado não teria se tornado um nacional-socialismo espanhol, permanecendo dentro dos padrões do falangismo, mais próximo do fascismo italiano do que do padrão nazista. A partir de 1943, a FE começou, de qualquer forma, seguindo a orientação de Franco, a romper seus laços com o passado, negando ser fascista e assumindo-se como uma variação do tradicionalismo católico. Os falangistas pró-nazis começaram a ser silenciados e ficaram isolados desde então.
Um verdadeiro falangismo nacional-socialista só iria aparecer de setembro de 1944 a abril de 1945, sob a batuta de Faupel e da revista Enlace, sob o comando de um sacerdote basco – Martin de Arrizubieta. A meta era criar um nacional-socialismo hispânico, incluindo antissemitismo biológico e uma ordem totalitária e laica. A revista tentava fornecer um programa aos espanhóis da SS que ainda lutavam pelo Reich. Mesmo assim, eles teriam continuado a interpretar a mensagem pelos seus valores tradicionais, falangistas.
Essa parte do livro é sumamente interessante no sentido de demonstrar os conflitos no interior do bloco de poder franquista durante a Guerra Civil e também posteriormente e como o cenário internacional foi fundamental para definir essas disputas. Na Espanha, há muito se reconhece que o franquismo sofreu mutações ideológicas de monta no decorrer de décadas de História e se discutem as disputas entre carlistas, conservadores e falangistas (e dentro de cada grupo) no interior do seu bloco de poder. No Brasil, tal informação ainda não é de domínio comum fora do campo dos especialistas e algumas pessoas ainda, em alguns casos, associam franquismo com fascismo. Isso torna esses capítulos de especial interesse para os leitores brasileiros.
A formação da División Azul (DA) – a divisão enviada por Franco para lutar na frente russa com o Exército alemão – só pode ser entendida, justamente, se levarmos em conta as pressões internas – dentro do seu sistema de poder – e externas, dos Aliados e do Eixo, a que Franco estava submetido no início da década de 1940. A invasão da URSS havia ampliado a simpatia pelo nazismo não apenas entre os falangistas, como também entre muitos conservadores e carlistas. Os falangistas, contudo, viam com muito mais clareza que uma participação espanhola no Eixo poderia ser um instrumento valioso para reforçar suas pretensões de poder, até mesmo removendo Francisco Franco do comando. A DA é justamente o objeto de dois dos artigos que se seguem no livro e sua importância é de primeira ordem.
Na Espanha, a División Azul é objeto de interesse historiográfico e público há muito tempo e as discussões sobre sua história e memória são bastante intensas. No Brasil, poucas pessoas conhecem sua história e as implicações da participação de dezenas de milhares de espanhóis na frente russa durante a Segunda Guerra Mundial. Apenas por trazer esse tópico para o público brasileiro, os artigos que se referem à Divisão já valeriam a pena.
Os artigos, contudo, vão muito mais do que simplesmente trazer uma discussão espanhola para leitores brasileiros relativamente pouco informados. Núñez Seixas faz uma análise comparada de extremo interesse, colocando a DA em perspectiva frente a outras forças que lutaram na frente oriental. Nessa comparação, incluem-se as forças regulares, como as eslovacas ou húngaras, as várias legiões de auxiliares recrutadas entre os povos soviéticos e os voluntários, como as Waffen SS.
O estudo da frente oriental é realmente um ponto forte do livro. Tradicionalmente, no Ocidente, conhece-se muito mais as batalhas dos anglo-americanos contra os exércitos alemães na Europa e na África do Norte ou nos oceanos e no ar. A frente oriental, contudo, foi o lugar onde os sonhos de dominação mundial do nazismo foram destruídos e onde as forças armadas alemãs tiveram mais baixas. O simples conhecimento das grandes batalhas e operações no espaço entre a Alemanha e a Rússia – como Stalingrado, Kursk ou Bagration – já seria um ganho para o leitor médio.
Os artigos do livro, contudo, vão além de uma reconstrução factual das batalhas e dos conflitos, adentrando no campo da análise sociológica das tropas envolvidas e ressaltando o caráter internacional e transnacional da luta ali travada. A memória particular daquela frente entre os alemães e entre outros povos envolvidos – como, em especial, os finlandeses, os espanhóis e os italianos – também é abordada, num esforço de diálogo entre História e memória, entre passado e presente.
Enquanto coletânea de artigos já publicados, o livro apresenta as deficiências inevitáveis desse modelo, como a repetição de argumentos e temáticas. No entanto, as vantagens superam as desvantagens, pois os vários textos suplementam uns aos outros. O conjunto é um material de extrema utilidade e imprescindível para os interessados no fascismo internacional, na Segunda Guerra Mundial e em temas correlatos.
Referências
CONFINO, Alon. Um mundo sem judeus. Da perseguição ao genocídio, a visão do imaginário nazista. São Paulo: Cultrix, 2016.
SEIXAS, Xosé M. Núñez. Fascismo, guerra e memória: Olhares ibéricos e europeus. Porto Alegre, Santiago de Compostela: EdiPUCRS, USC, 2016.