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<journal-id journal-id-type="publisher-id">ibero</journal-id>
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<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">00017</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2018.1.27482</article-id>
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<subject>Se&#xE7;&#xE3;o Livre</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>&#x201C;Uma cr&#xF4;nica sobre os fatos do momento&#x201D;: o jogo do bicho nas poesias de mon&#xF3;logos interpretados e publicados no Rio de Janeiro entre 1892 e 1894</article-title>
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<trans-title><bold>&#x201C;A chronicle on the instant facts&#x201D;:</bold> The jogo do bicho in monologues poems interpreted and published in Rio de Janeiro in 1892 and 1894</trans-title></trans-title-group>
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<trans-title><bold>&#x201C;Una cr&#xF3;nica sobre los hechos del momento&#x201D;:</bold> El jogo do bicho en las poes&#xED;as de mon&#xF3;logos interpretados y publicados en R&#xED;o de Janeiro entre 1892 y 1894</trans-title></trans-title-group>
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<name><surname>Souza</surname><given-names>Silvia Cristina Martins de</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref>
<bio>
<p>S<sc>ilvia</sc> C<sc>ristina</sc> M<sc>artins de</sc> S<sc>ouza</sc> <email>smartins@uel.br</email></p>
<p>&#x2022; Professora associada do Departamento de Hist&#xF3;ria da Universidade Estadual de Londrina e dos Programas de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o desta universidade e da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Doutora pela Universidade Estadual de Campinas. Autora de <italic>As Noites do Gin&#xE1;sio: teatro e tens&#xF5;es culturais na Corte - 1832-1868</italic> (2002); <italic>O palco como tribuna: uma interpreta&#xE7;&#xE3;o de O Dem&#xF4;nio Familiar, de Jos&#xE9; de Alencar</italic> (2004); <italic>Carpinteiros teatrais, cenas c&#xF4;micas e diversidade cultural no Rio de Janeiro oitocentista</italic> (2010) e <italic>Scenas Comicas de Francisco Correa Vasques</italic> (Prismas, 2017, no prelo). Bolsista Produtividade N&#xED;vel 2 do CNPq.</p>
<p>&#x25CB; Associate professor in the Department of History and the Graduate Programs of State University of Londrina (Paran&#xE1;, Brazil) and State University of Ponta Grossa (Paran&#xE1;, Brazil). PhD from State University of Campinas (S&#xE3;o Paulo, Brazil) and author of <italic>As Noites do Gin&#xE1;sio: teatro e tens&#xF5;es culturais na Corte - 1832-1868</italic> (2002); <italic>O palco como tribuna: uma interpreta&#xE7;&#xE3;o de O Dem&#xF4;nio Familiar, de Jos&#xE9; de Alencar</italic> (2004); <italic>Carpinteiros teatrais, cenas c&#xF4;micas e diversidade cultural no Rio de Janeiro oitocentista</italic> (2010) and <italic>Scenas Comicas de Francisco Correa Vasques</italic> (Prismas, 2017, in press). Scholarship holder of Productivity Level 2 of CNPq.</p></bio></contrib>
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<label>*</label>
<institution content-type="original">Doutora pela Universidade Estadual de Campinas. Professora associada do Departamento de Hist&#xF3;ria da Universidade Estadual de Londrina.</institution>
<country country="BR">Brasil</country></aff></contrib-group>
<pub-date pub-type="epub-ppub">
<season>Jan-Apr</season>
<year>2018</year></pub-date>
<volume>44</volume>
<issue>1</issue>
<fpage>200</fpage>
<lpage>212</lpage>
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<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<title>Resumo:</title>
<p>De acordo com o historiador Robert Darnton, em sociedades do passado com baixo &#xED;ndice de letramento, as poesias criaram redes de comunica&#xE7;&#xE3;o que funcionavam como cr&#xF4;nicas do cotidiano. Partindo deste pressuposto, neste artigo s&#xE3;o analisadas as poesias de dois mon&#xF3;logos interpretados e publicados no Rio de Janeiro entre 1892 e 1894, cujo tema &#xE9; o jogo do bicho. Nosso objetivo &#xE9; compreender de que forma seus autores delas se utilizaram para inserirem-se num debate mais amplo de cr&#xED;tica ao processo de moderniza&#xE7;&#xE3;o pelo qual passou o Rio de Janeiro em fins do s&#xE9;culo XIX, no qual se assistiu &#xE0; criminaliza&#xE7;&#xE3;o de certas pr&#xE1;ticas populares, dentre elas a do jogo do bicho.</p></abstract>
<trans-abstract xml:lang="en">
<title>Abstract:</title>
<p>According to historian Robert Darnton, in past societies with low literacy rates, poetry created communication networks that functioned as chronicles of everyday life. Based on this assumption, this article analyzes the poems of two monologues interpreted and published in Rio de Janeiro between 1892 and 1894, whose theme is the jogo do bicho. Our goal is to understand how their authors used them to enter into a broader debate of criticism of the process of modernization through which Rio de Janeiro passed in the late nineteenth century, which saw the criminalization of certain popular practices, Among them the game of the jogo do bicho.</p></trans-abstract>
<trans-abstract xml:lang="es">
<title>Resumen:</title>
<p>De acuerdo con el historiador Robert Darnton, en sociedades del pasado con bajo &#xED;ndice de letramento, las poes&#xED;as crearon redes de comunicaci&#xF3;n que funcionaban como cr&#xF3;nicas de lo cotidiano. A partir de este presupuesto, en este art&#xED;culo se analizan las poes&#xED;as de dos mon&#xF3;logos interpretados y publicados en R&#xED;o de Janeiro entre 1892 y 1894, cuyo tema es el jogo do bicho. Nuestro objetivo es comprender de qu&#xE9; forma sus autores se utilizaron para insertarse en un debate m&#xE1;s amplio de cr&#xED;tica al proceso de modernizaci&#xF3;n por el que pas&#xF3; R&#xED;o de Janeiro a fines del siglo XIX en el que se asisti&#xF3; a la criminalizaci&#xF3;n de ciertas pr&#xE1;cticas populares, Entre ellas la del jogo do bicho.</p></trans-abstract>
<kwd-group xml:lang="pt">
<title>Palavras-chave:</title>
<kwd>hist&#xF3;ria</kwd>
<kwd>poesias</kwd>
<kwd>imprensa</kwd>
<kwd>jogo do bicho</kwd></kwd-group>
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<title>Keywords:</title>
<kwd>history</kwd>
<kwd>poetry</kwd>
<kwd>press</kwd>
<kwd>jogo do bicho</kwd></kwd-group>
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<title>Palabras clave:</title>
<kwd>historia</kwd>
<kwd>poes&#xED;as</kwd>
<kwd>prensa</kwd>
<kwd>jogo do bicho</kwd></kwd-group>
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<p>No carnaval do ano de 1892, enquanto aproveitavam as folias de Momo, um grupo de rapazes precedido pela banda do Primeiro Batalh&#xE3;o de Infantaria distribuiu impressos para as pessoas que os assistiam passar pelas ruas do Rio de Janeiro. Os panfletos por eles entregues continham os seguintes versinhos:</p>
<verse-group>
<verse-line>Quem nunca jogou nos bichos&#x2026;.</verse-line>
<verse-line>Experimente e ver&#xE1;?</verse-line>
<verse-line>Que se ganha mais dinheiro,</verse-line>
<verse-line>Do que em todo <italic>Amap&#xE1;</italic>&#x2026;</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>(&#x2026;) J&#xE1; v&#xEA;m pois que o jogo</verse-line>
<verse-line>Dos bichos esta reinando</verse-line>
<verse-line>Inda que o chefe <italic>Bar&#xE3;o</italic></verse-line>
<verse-line>Esteja sempre chorando.<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref></verse-line>
<verse-line>[grifos no original]</verse-line></verse-group>
<p>A exposi&#xE7;&#xE3;o de certos temas ao riso por meio da divulga&#xE7;&#xE3;o de impressos que passavam mensagens ao p&#xFA;blico assistente durante as comemora&#xE7;&#xF5;es carnavalescas, j&#xE1; era algo conhecido no carnaval do Rio desde os anos 1880. Apostando na mordacidade para elaborar cr&#xED;ticas e contando com uma grande dose de simpatia entre a popula&#xE7;&#xE3;o da cidade, pequenos grupos de foli&#xF5;es ou pr&#xE9;stitos das grandes sociedades carnavalescas estabeleceram a pr&#xE1;tica de trazer para a festa a discuss&#xE3;o de assuntos do cotidiano que mobilizavam a aten&#xE7;&#xE3;o dos cariocas. No ano de 1892, o sucesso do jogo do bicho foi o tema que serviu de mote aos panfletos distribu&#xED;dos por aqueles rapazes.</p>
<p>Tr&#xEA;s meses depois do carnaval, a revista de ano <italic>P&#xE3;o, p&#xE3;o, queijo, queijo</italic>, que estava em cartaz no teatro Lucinda, recebeu um novo quadro no qual se tratava de alguns assuntos do momento de forma cr&#xED;tica, mas &#x201C;com bastante gra&#xE7;a e esp&#xED;rito&#x201D;.<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> Dentre estes assuntos encontravam-se o jogo do bicho e a pol&#xED;cia.<xref ref-type="fn" rid="fn3"><sup>3</sup></xref> Assim como o carnaval, o teatro foi um espa&#xE7;o de divulga&#xE7;&#xE3;o de cr&#xED;ticas de ideias e valores na segunda metade do s&#xE9;culo XIX. No que diz respeito &#xE0;s revistas de ano e a seu esp&#xED;rito jornal&#xED;stico, tamb&#xE9;m j&#xE1; se tornara comum, naquele contexto, que elas ganhassem novos atos e quadros ao longo da temporada, os quais &#x201C;atualizavam&#x201D; os assuntos nelas contidos. A inclus&#xE3;o do jogo do bicho e sua persegui&#xE7;&#xE3;o pela pol&#xED;cia na revista <italic>P&#xE3;o, p&#xE3;o, queijo, queijo</italic> revela, mais uma vez, esta preocupa&#xE7;&#xE3;o com captar as discuss&#xF5;es do momento levando-as para o debate p&#xFA;blico.</p>
<p>A recorr&#xEA;ncia com que o tema do jogo do bicho apareceu em diferentes espa&#xE7;os na Capital Federal, nos idos dos anos 1890, tem justificativa. Foi justamente num momento em que &#x201C;o ar do Rio cintilava com a promessa de dinheiro f&#xE1;cil&#x201D;, em fun&#xE7;&#xE3;o da febre de especula&#xE7;&#xE3;o financeira que assolou o pa&#xED;s, conhecida pelo nome de Encilhamento, que o jogo do bicho por ela espraiou-se e colocou-se ao alcance de todos que dispusessem de parcos r&#xE9;is para fazer uma aposta.</p>
<p>O per&#xED;odo que abrange de 1892 e 1895 foi pr&#xF3;digo em a&#xE7;&#xF5;es que colocaram o jogo do bicho na mira da a&#xE7;&#xE3;o judicial e da pol&#xED;cia. Nele foram proibidas as apura&#xE7;&#xF5;es do jogo e levou-se &#xE0; Casa de Deten&#xE7;&#xE3;o os primeiros grupos de vendedores e compradores dos bilhetes do bicho. Neste tenso contexto, n&#xE3;o surpreende que o assunto jogo do bicho tenha sido &#x201C;debatido&#x201D; em espa&#xE7;os informais da pol&#xED;tica e que nele que tenham sido publicados e representados os dois mon&#xF3;logos que interessam particularmente a este artigo e sobre os quais nos deteremos no momento oportuno: <italic>O jogo dos bichos</italic> (1893), de autoria de Augusto F&#xE1;bregas e <italic>Jogo Novo</italic> (1894), de Moreira Sampaio.<xref ref-type="fn" rid="fn4"><sup>4</sup></xref></p>
<p>A dissemina&#xE7;&#xE3;o de poesias, muitas vezes acompanhadas por can&#xE7;&#xF5;es, muito deveu ao teatro, &#xE0; imprensa e ao carnaval naqueles tempos. Mas existe certo consenso entre os historiadores brasileiros de que parte significativa desta dissemina&#xE7;&#xE3;o foi feita por meio de panfletos, brochuras baratas e cancioneiros (<xref ref-type="bibr" rid="B16">MENCARELLI, 2003</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B1">ABREU, 1999</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B10">FERLIN, 2006</xref>).<xref ref-type="fn" rid="fn5"><sup>5</sup></xref> Neles, as poesias para serem lidas (ou cantadas) encontraram mais um espa&#xE7;o que lhes garantiu divulga&#xE7;&#xE3;o e os transformaram em produtos de consumo num mercado editorial em est&#xE1;gio inicial de expans&#xE3;o e em mais um elemento que compunha uma rede informal de comunica&#xE7;&#xE3;o da cidade. (<xref ref-type="bibr" rid="B16">MENCARELLI, 2003</xref>, p. 209).</p>
<p>Levando em considera&#xE7;&#xE3;o esta &#xED;ntima rela&#xE7;&#xE3;o entre as poesias e o tempo vivido, elegemos como fontes para este artigo as poesias dos mon&#xF3;logos <italic>O jogo dos bichos</italic> e <italic>Jogo novo.</italic> Nosso objetivo &#xE9; compreender como seus autores utilizaram-se delas se utilizaram para inserirem-se num debate mais amplo de cr&#xED;tica ao processo de moderniza&#xE7;&#xE3;o pelo qual passou o Rio de Janeiro em fins do s&#xE9;culo XIX, no qual se assistiu &#xE0; criminaliza&#xE7;&#xE3;o de certas pr&#xE1;ticas populares, dentre elas a do jogo do bicho.</p>
<p>Ao elegermos estas poesias como fontes, tomamos como ponto de partida algumas observa&#xE7;&#xF5;es de Robert Darnton. Para ele, em sociedades do passado com baixo &#xED;ndice de letramento, como a parisiense do s&#xE9;culo XVIII, as poesias exerceram o papel de redes de comunica&#xE7;&#xE3;o que funcionavam como jornais ou cr&#xF4;nicas sobre os fatos do momento (<xref ref-type="bibr" rid="B5">DARNTON, 2014</xref>, p. 84). No caso da sociedade brasileira oitocentista, reconhecida como majoritariamente iletrada, as poesias parecem ter assumido este mesmo papel de ve&#xED;culo de opini&#xF5;es, valores, ideias e identidades tornando-se, portanto, importantes para o historiador, posto que pass&#xED;veis de revelar-lhe zonas menos iluminadas de processos sociais, conflitos, paix&#xF5;es e interesses.<xref ref-type="fn" rid="fn6"><sup>6</sup></xref></p>
<p>* * *</p>
<p>Estamos no Rio de Janeiro da primeira metade do s&#xE9;culo XIX, mais precisamente nos anos 1840, nos quais foram introduzidos jogos e loterias na cidade, a&#xE7;&#xE3;o esta que partiu do pr&#xF3;prio governo imperial que deles se utilizou como forma de aumentar reservas para suprir investimentos no pa&#xED;s tais como o estabelecimento de f&#xE1;bricas e a subven&#xE7;&#xE3;o a institui&#xE7;&#xF5;es (<xref ref-type="bibr" rid="B15">MELLO, 1989</xref>). Na ocasi&#xE3;o, a comercializa&#xE7;&#xE3;o dos bilhetes de jogos e loterias n&#xE3;o era feita por agentes do poder p&#xFA;blico, mas por pessoas que, ap&#xF3;s assinarem um termo de fian&#xE7;a com o Tesouro e de posse de uma licen&#xE7;a, os vendiam e recebiam uma comiss&#xE3;o pelo servi&#xE7;o executado.</p>
<p>Desde o per&#xED;odo colonial, os vendedores am-bulantes eram uma presen&#xE7;a constante nas ruas do Rio. Em meados do s&#xE9;culo XIX, estes personagens eram denominados &#x201C;vendedores de vig&#xE9;simos&#x201D;, e j&#xE1; haviam se tornado t&#xE3;o populares que chegaram a servir de fonte de inspira&#xE7;&#xE3;o para pe&#xE7;as de teatro como a cena c&#xF4;mica <italic>O fim do ano por um vendedor de vig&#xE9;simos</italic>, escrita e encenada pelo ator e dramaturgo carioca Francisco Correa Vasques.<xref ref-type="fn" rid="fn7"><sup>7</sup></xref> Nela, ele cedeu espa&#xE7;o para que se escutassem as vozes destes trabalha-dores constantemente criticados pelos jornais nos quais eram identificados por meio de express&#xF5;es pejorativas tais como &#x201C;cancros roedores das algibeiras alheias&#x201D;.<xref ref-type="fn" rid="fn8"><sup>8</sup></xref></p>
<p>A presen&#xE7;a deste grande contingente de ambulantes e pregoeiros na cidade, na sua maioria n&#xE3;o licenciados, foi fundamental para que os bilhetes de loterias se tornassem parte da vida da cidade e emergissem como um dentre outros itens que circulavam no pequeno com&#xE9;rcio urbano. Nas &#xFA;ltimas duas d&#xE9;cadas do s&#xE9;culo, o Rio j&#xE1; podia ser descrito como uma &#x201C;cidade de camel&#xF4;s, vendedores que apregoavam suas mercadorias nas ruas e em quiosques provis&#xF3;rios que vendiam itens pequenos e g&#xEA;neros aliment&#xED;cios&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CHAZKEL, 2014</xref>, 153).<xref ref-type="fn" rid="fn9"><sup>9</sup></xref> Negociando bilhetes fracionados, muitas vezes com pre&#xE7;os majorados, os &#x201C;vendedores de vig&#xE9;simos&#x201D; podiam ser encontrados em lugares t&#xE3;o variados quanto frente de teatros, quiosques, lojas, sal&#xF5;es de engraxates, barbearias e caf&#xE9;s. Diante disto, pode-se dizer que, nos anos 1890, quando surgiu o jogo do bicho, a cidade j&#xE1; possu&#xED;a um mercado consumidor prop&#xED;cio a este tipo de com&#xE9;rcio e uma rede de vendas que envolvia desde lojas e escrit&#xF3;rios <xref ref-type="fn" rid="fn10"><sup>10</sup></xref> a um batalh&#xE3;o de vendedores ambulantes n&#xE3;o licenciados (<xref ref-type="bibr" rid="B17">MISSE, 1999</xref>, p. 59).</p>
<p>&#xC9; conhecida e alguns autores j&#xE1; exploraram com resultados apreci&#xE1;veis a hist&#xF3;ria do jogo do bicho no Rio de Janeiro (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CHAZKEL, 2014</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>; MATOS, 1992; <xref ref-type="bibr" rid="B15">MELLO, 1989</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B17">MISSE, 1999</xref>).<xref ref-type="fn" rid="fn11"><sup>11</sup></xref> N&#xE3;o &#xE9; nossa inten&#xE7;&#xE3;o neste artigo oferecer mais uma interpreta&#xE7;&#xE3;o sobre este tema. Para nossos objetivos, basta elaborarmos algumas considera&#xE7;&#xF5;es, com base nos trabalhos destes autores, que nos forne&#xE7;am elementos necess&#xE1;rios para analisarmos as poesias dos mon&#xF3;logos que aqui privilegiaremos.</p>
<p>O jogo do bicho, como se sabe, est&#xE1; intimamente ligado &#xE0; figura do Bar&#xE3;o de Drummond e a seu zool&#xF3;gico. Embora o zool&#xF3;gico constru&#xED;do por Drummond n&#xE3;o fosse propriamente uma novidade no Rio de Janeiro Oitocentista, o dele guardava peculiaridades em rela&#xE7;&#xE3;o ao primeiro zool&#xF3;gico conhecido pelos cariocas, de propriedade do banqueiro Ant&#xF4;nio Jos&#xE9; Alves Souto. Erguido numa ch&#xE1;cara deste banqueiro, localizada nas proximidades da Quinta Imperial da Boa Vista, este zool&#xF3;gico tinha por objetivo reunir esp&#xE9;cimes da fauna brasileira e animais importados da Europa, &#xC1;sia e &#xC1;frica para deleite pessoal do seu propriet&#xE1;rio e de seus amigos e convidados, embora Souto o franqueasse &#xE0; visita&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica aos domingos e feriados (<xref ref-type="bibr" rid="B12">GERSON, 2000</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B21">SOUZA, 2014</xref>).</p>
<p>O zool&#xF3;gico de Drummond, ao contr&#xE1;rio do de Souto, aliou interesses empresariais do bar&#xE3;o &#x201C;ao interesse publico de concretiza&#xE7;&#xE3;o dos ideais de moderniza&#xE7;&#xE3;o da capital do Imp&#xE9;rio&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>, p. 21). Homem de empreendimentos, Drumonnd fundou a Companhia de bondes de Vila Izabel, foi acionista do <italic>Jornal do Brasil</italic> e s&#xF3;cio da Companhia Arquitet&#xF4;nica, juntamente com Visconde de Silva, Bar&#xE3;o de S. Francisco Filho, Bezerra de Meneses e Tem&#xED;stocles Petrochino. A Companhia Arquitet&#xF4;nica urbanizou e loteou a antiga Fazenda do Macaco, dando origem ao bairro de Vila Isabel. O zool&#xF3;gico de Drumonnd, constru&#xED;do neste bairro, n&#xE3;o apenas contribuiu para valoriz&#xE1;-lo, como passou a proporcionar distra&#xE7;&#xE3;o a seus moradores e aos de outros bairros que a ele se dirigiam em seus momentos de lazer (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>, p. 21).</p>
<p>Para ergu&#xEA;-lo, Drummond firmou um contrato com a C&#xE2;mara do Rio em que se comprometeu a criar um jardim zool&#xF3;gico que seria aberto &#xE0; visita&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica mediante o pagamento de uma entrada que n&#xE3;o deveria ultrapassar o valor de mil r&#xE9;is. Al&#xE9;m disto, uma vez por semana o parque seria fechado ao p&#xFA;blico e franqueado aos alunos de cursos superiores, devidamente acompanhados por seus professores, para que pudessem &#x201C;fazer seus trabalhos de estudos, livres da concorr&#xEA;ncia e embara&#xE7;os dos visitantes&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>, p. 21). Em contrapartida, a C&#xE2;mara isentou o zool&#xF3;gico do pagamento de impostos e garantiu a Drummond exclusividade na explora&#xE7;&#xE3;o deste tipo de empreendimento pelo prazo de vinte e cinco anos.</p>
<p>Em janeiro de 1888, em car&#xE1;ter provis&#xF3;rio, foi aberto o zool&#xF3;gico do bar&#xE3;o, que foi oficialmente inaugurado seis meses depois. O in&#xED;cio das suas atividades ocorreu num contexto em que o mercado de divers&#xF5;es comercializadas do Rio de Janeiro come&#xE7;ara a passar por um processo de expans&#xE3;o no qual o poder p&#xFA;blico tornou-se respons&#xE1;vel pela permiss&#xE3;o e proibi&#xE7;&#xE3;o da instala&#xE7;&#xE3;o de espa&#xE7;os de lazer tais como front&#xF5;es, jogos de pelotas, turfes, corridas de cavalos, regatas, bel&#xF3;dromos e boliches.</p>
<p>Para que tais estabelecimentos tivessem aprovados seus pedidos de licen&#xE7;a ou renovados os j&#xE1; concedidos, exigia-se que a eles estivessem aliadas a no&#xE7;&#xE3;o de divertimento moderno e saud&#xE1;vel, que se imbricava com a de utilidade p&#xFA;blica consubstanciada na ideia de que o tempo destinado ao lazer deveria ser de car&#xE1;ter pedag&#xF3;gico e voltado para o aprimoramento social.</p>
<p>Foi com base nesta linha de pensamento que combinava saneamento, ordem e moderniza&#xE7;&#xE3;o que, em 1891, Drummond enviou uma nova peti&#xE7;&#xE3;o ao Conselho da Intend&#xEA;ncia Municipal da Capital Federal. Argumentando que os acionistas do seu neg&#xF3;cio encontravam-se incapacitados de reaver seus investimentos, ele propunha transformar o zool&#xF3;gico num Jardim de Aclima&#xE7;&#xE3;o de animais e plantas ex&#xF3;ticas e ind&#xED;genas. Para tanto, solicitava um aux&#xED;lio governamental que seria fornecido n&#xE3;o em termos pecuni&#xE1;rios, mas atrav&#xE9;s da aprova&#xE7;&#xE3;o de uma licen&#xE7;a para explorar jogos l&#xED;citos no interior de parque.</p>
<p>Aprovada e assinada um m&#xEA;s ap&#xF3;s ter sido encaminhada ao Conselho da Intend&#xEA;ncia, a proposta de Drummond foi inclu&#xED;da como aditamento ao acordo anteriormente celebrado.<xref ref-type="fn" rid="fn12"><sup>12</sup></xref> No dia 3 de julho de 1892 foi realizada a primeira extra&#xE7;&#xE3;o do jogo do bicho (ou jogo dos bichos e sorteio dos bichos, como tamb&#xE9;m era chamado) que funcionava da seguinte maneira: ao adquirir a entrada de mil r&#xE9;is para o zool&#xF3;gico, o comprador recebia um bilhete que, al&#xE9;m de incluir a passagem de ida e volta de bonde ao parque, trazia impressa a figura de um animal. Era o pr&#xF3;prio Drumonnd quem no in&#xED;cio do dia selecionava o animal a ser sorteado, dentre os vinte e cinco por ele selecionados para o jogo. Diariamente &#xE0;s cinco horas da tarde era revelado ao p&#xFA;blico o nome do bicho sorteado exposto numa caixa suspensa num mastro e os ganhadores voltavam para casa com um pr&#xEA;mio em dinheiro (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CHAZKEL, 2014</xref>, p. 58).</p>
<p>O sucesso do sorteio dos bichos foi imediato e logo o zool&#xF3;gico passou a ser maci&#xE7;amente procurado pelos cariocas a ponto de novas linhas de bondes serem criadas pela Companhia de Vila Isabel para atender &#xE0; aflu&#xEA;ncia ao parque. Fernando Magalh&#xE3;es apresenta dados interessantes sobre esta repercuss&#xE3;o. Segundo ele, se no primeiro dia de apura&#xE7;&#xE3;o &#x201C;o avestruz pagou 460$000 de pr&#xEA;mios, duas semanas depois o cachorro pagaria 2:080$000&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>, p. 30).</p>
<p>N&#xE3;o conseguindo atender &#xE0; grande demanda pelos bilhetes do jogo, Drummond estabeleceu pontos de venda dos mesmos fora das depend&#xEA;ncias do parque, mais especificamente em uma loja situada no n&#xBA; 129 da Rua do Ouvidor. Al&#xE9;m disto, os bilhetes passaram a trazer o aviso &#x201C;V&#xE1;lido por 4 dias&#x201D;, o que significa que o apostador n&#xE3;o precisava ir ao parque para adquiri-lo, nem nele estar presente no momento da apura&#xE7;&#xE3;o.<xref ref-type="fn" rid="fn13"><sup>13</sup></xref> Diante disto, pode-se dizer que este novo sistema de vendas transformou o sorteio dos bichos numa loteria il&#xED;cita, pois extrapolou os termos do aditamento firmado com a C&#xE2;mara.</p>
<p>O clima de euforia em torno da novidade introduzida pela venda dos bilhetes provocou pol&#xEA;micas e n&#xE3;o tardaram a aparecer men&#xE7;&#xF5;es e cr&#xED;ticas ao &#x201C;antro de jogatina&#x201D; em que o zool&#xF3;gico supostamente se transformara. As reprova&#xE7;&#xF5;es se avolumaram e nos primeiros meses de 1893, o <italic>Jornal do Brasil</italic> noticiou que o chefe de pol&#xED;cia Bernardino da Silva mandara acabar com o jogo dos bichos no Jardim Zool&#xF3;gico.<xref ref-type="fn" rid="fn14"><sup>14</sup></xref> Na mesma ocasi&#xE3;o, um oficial do tesouro escreveu um memorando interno dando conta do que acontecia no interior do zool&#xF3;gico. Neste, ele acusava a companhia que dirigia o parque de descumprir cl&#xE1;usulas do contrato firmado com a C&#xE2;mara quanto ao mau tratamento dos animais existentes e a n&#xE3;o aquisi&#xE7;&#xE3;o de novos; por negligenciar as aulas de zoologia que nele deveriam ser ministradas e por vender os bilhetes fora das depend&#xEA;ncias do parque.</p>
<p>Em abril de 1895 foi rescindido o contrato com Drumonnd e exigida a imediata cessa&#xE7;&#xE3;o dos jogos no zool&#xF3;gico.<xref ref-type="fn" rid="fn15"><sup>15</sup></xref> Nesta ocasi&#xE3;o, por&#xE9;m, o jogo do bicho j&#xE1; se espalhara pela cidade e pequenos comerciantes e vendedores ambulantes atuavam diariamente nas opera&#xE7;&#xF5;es do mesmo pagando os vencedores com recursos pr&#xF3;prios obtidos com a venda de bilhetes ou na revenda de bilhetes oficiais.</p>
<p>Agora estamos no ano de 1892. Nele, a r&#xE1;pida propaga&#xE7;&#xE3;o do jogo do bicho foi assunto bastante explorado nos jornais e tablados, o que n&#xE3;o chega a surpreender. A imprensa e o teatro foram ve&#xED;culos de comunica&#xE7;&#xE3;o significativos no Brasil Oitocentista e este fen&#xF4;meno foi registrado, dentre outros, por Machado de Assis, que definiu o palco e o jornal como os dois grandes canais de inicia&#xE7;&#xE3;o, o &#x201C;grande <italic>fiat</italic> de todos os tempos&#x201D;.<xref ref-type="fn" rid="fn16"><sup>16</sup></xref></p>
<p>A partir de fins dos anos 1860, o denominado teatro musicado paulatinamente fincou ra&#xED;zes fortes nos tablados da ent&#xE3;o capital do Imp&#xE9;rio. Voltados para quest&#xF5;es do cotidiano das pessoas comuns, os diferentes g&#xEA;neros do teatro musicado investiam na espetacularidade c&#xEA;nica, na <italic>performance</italic> dos atores e na m&#xFA;sica como forma de atingir o p&#xFA;blico heterog&#xEA;neo das cidades transformando-se, desta maneira, em &#x201C;um dos primeiros momentos de forma&#xE7;&#xE3;o de uma ampla e diversificada rede de produtos culturais&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B16">MENCARELLI, 2003</xref>, p. 6-7).<xref ref-type="fn" rid="fn17"><sup>17</sup></xref></p>
<p>Os temas explorados nos tablados dialogavam no calor da hora com assuntos de interesse da popula&#xE7;&#xE3;o com os quais muitos dos espectadores encontravam-se envolvidos direta ou indiretamente, sendo este um dos segredos da atra&#xE7;&#xE3;o exercida pelo teatro musicado sobre as audi&#xEA;ncias. Dentre estes temas, um se tornou significativo nos anos 1890: os jogos de azar e, dentre eles, o jogo do bicho.</p>
<p>Como j&#xE1; mencionado, em 12 de fevereiro de 1893, o <italic>Jornal do Brasil</italic> divulgou a noticia de que o chefe de pol&#xED;cia da Capital Federal havia proibido as apura&#xE7;&#xF5;es do jogo do bicho. Nove dias depois desta proibi&#xE7;&#xE3;o, estreou no teatro Santana o mon&#xF3;logo <italic>O jogo dos bichos</italic> de autoria do jornalista, m&#xFA;sico e dramaturgo Augusto F&#xE1;bregas, numa r&#xE9;cita oferecida em comemora&#xE7;&#xE3;o ao aniversario da proclama&#xE7;&#xE3;o da Republica.<xref ref-type="fn" rid="fn18"><sup>18</sup></xref></p>
<p>De acordo com <italic>Dicion&#xE1;rio do Teatro Portugu&#xEA;s</italic> de Antonio de Souza Bastos, mon&#xF3;logos eram curtas pe&#xE7;as dram&#xE1;ticas ou c&#xF4;micas escritas em versos para serem declamados com ou sem fundo musical nos intervalos dos espet&#xE1;culos teatrais. Souza Bastos tamb&#xE9;m observou no seu verbete que a caracter&#xED;stica mais importante do mon&#xF3;logo era que, para que fosse bom ele deveria ser curto, n&#xE3;o enfastiando o p&#xFA;blico (<xref ref-type="bibr" rid="B19">SOUZA BASTOS, 1898</xref>, p. 92). N&#xE3;o enfastiar o p&#xFA;blico, naqueles tempos, era algo que dizia respeito n&#xE3;o apenas ao texto em si, mas tamb&#xE9;m &#xE0; <italic>performance</italic> do ator e neste sentido deve ter pesado para a boa recep&#xE7;&#xE3;o deste mon&#xF3;logo o fato de ele ter sido escrito especialmente para ser interpretado pelo ator c&#xF4;mico Jo&#xE3;o Augusto Soares Brand&#xE3;o, tamb&#xE9;m conhecido como &#x201C;o popular&#xED;ssimo&#x201D;.<xref ref-type="fn" rid="fn19"><sup>19</sup></xref></p>
<p>A respeito do mon&#xF3;logo <italic>O jogo dos bichos</italic> sabe-se que, no m&#xEA;s seguinte ao da sua estreia no teatro, foi impressa uma cole&#xE7;&#xE3;o de pequenas pe&#xE7;as de autoria de Augusto F&#xE1;bregas, denominada <italic>Mon&#xF3;logos e can&#xE7;onetas exibidos nos teatros do Rio de Janeiro</italic>, dentre as quais ele se encontrava. Esta cole&#xE7;&#xE3;o podia ser adquirida na entrada de alguns teatros da cidade <xref ref-type="fn" rid="fn20"><sup>20</sup></xref> assim como na charutaria junto ao teatro Apolo e no escrit&#xF3;rio do jornal <italic>O Tempo</italic>.<xref ref-type="fn" rid="fn21"><sup>21</sup></xref> N&#xE3;o tardaria para que dela sa&#xED;sse uma segunda edi&#xE7;&#xE3;o que, al&#xE9;m do escrit&#xF3;rio d&#x27;O Tempo, podia ser encontrada nas &#x201C;v&#xE1;rias casas comerciais onde essas brochuras s&#xE3;o anunciadas&#x201D; e at&#xE9; mesmo na elegante livraria Garnier.<xref ref-type="fn" rid="fn22"><sup>22</sup></xref> Mesmo que as outras pe&#xE7;as que compunham a cole&#xE7;&#xE3;o possam ter ajudado na venda da brochura, uma vez que todas elas j&#xE1; haviam feito sucesso nos tablados, o fato de <italic>O jogo dos bichos</italic> ter sido posteriormente publicado numa edi&#xE7;&#xE3;o em separado, vendida por duzentos r&#xE9;is numa &#x201C;loja da rua da Concei&#xE7;&#xE3;o, n&#xBA; 108, sobrado&#x201D;, pode ser visto como mais um indicativo de que este mon&#xF3;logo fez bastante sucesso.<xref ref-type="fn" rid="fn23"><sup>23</sup></xref></p>
<p>A aten&#xE7;&#xE3;o dispensada pelos autores que se dedicaram aos diferentes g&#xEA;neros do teatro musicado a quest&#xF5;es que mobilizavam a aten&#xE7;&#xE3;o p&#xFA;blica transformava seus textos em esp&#xE9;cies de pequenas cr&#xF4;nicas que dialogavam com seus ouvintes de forma bem humorada. O mon&#xF3;logo <italic>O jogo dos bichos</italic> n&#xE3;o escapou a esta regra. Nele, F&#xE1;bregas dava conta, de forma cr&#xED;tica e ris&#xED;vel, da situa&#xE7;&#xE3;o vivenciada pelo jogo e jogadores do bicho na cidade do Rio de Janeiro naquele ano de 1892. Reproduzimos, a seguir, alguns versos deste mon&#xF3;logo:</p>
<verse-group>
<verse-line>O jogo dos bichos</verse-line><verse-line>(Entra, como quem continuava uma alterca&#xE7;&#xE3;o com algu&#xE9;m que ficou no bastidor)</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>N&#xE3;o, senhor! Foi um abuso</verse-line><verse-line>Da for&#xE7;a policial.</verse-line><verse-line>Que! Voc&#xEA; &#xE9; despeitado,</verse-line><verse-line>N&#xE3;o pega na sua moral.</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>Quer por for&#xE7;a convencer-me,</verse-line><verse-line>Mas perde a sua per&#xED;cia.</verse-line><verse-line>Com o joguinho dos bichos</verse-line><verse-line>N&#xE3;o tinha nada a pol&#xED;cia.</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>Digam s&#xF3; que mal havia,</verse-line><verse-line>Se uma lei h&#xE1; que regule,</verse-line><verse-line>Na compra de um gafanhoto,</verse-line><verse-line>Ou na venda de uma <italic>poule</italic>.</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>Acabar com este jogo!</verse-line><verse-line>Vamos l&#xE1;, pr&#xE1; que isto presta?</verse-line><verse-line>&#xC9; tirar meio de vida</verse-line><verse-line>A muita gente honesta</verse-line><verse-line>(<xref ref-type="bibr" rid="B9">FABREGAS, 1893</xref>, p. 71).</verse-line></verse-group>
<p>A proibi&#xE7;&#xE3;o do jogo vista como um &#x201C;abuso&#x201D; &#xE9; a mensagem que emerge destes versos de imediato, apontando para a quest&#xE3;o central que, na vis&#xE3;o do seu autor, estava sendo levantada naquele ano de 1892: as ambiguidades geradas entre a aplica&#xE7;&#xE3;o da lei e uma pr&#xE1;tica j&#xE1; bastante disseminada entre a popula&#xE7;&#xE3;o do Rio. Fora em nome da ordem moral, como ent&#xE3;o se argumentava, que se proibira o jogo, embora esta justificativa servisse para encobrir outros objetivos.</p>
<p>As loterias, como todos os habitantes do Rio sabiam, eram um neg&#xF3;cio tradicionalmente utilizado pelo governo para obter recursos pr&#xF3;prios para aplicar em obras p&#xFA;blicas. O jogo do bicho, todavia, escapara do controle governamental possibilitando que uma multid&#xE3;o de vendedores varejistas n&#xE3;o licenciados atuassem sem que deste com&#xE9;rcio o estado pudesse auferir lucros na forma de impostos e taxas de licen&#xE7;a. Desta forma, ele amea&#xE7;ava &#x201C;uma variedade de atores que tinham o poder de promulgar e de fazer cumprir leis&#x201D;, os quais buscavam delimitar as fronteiras que envolviam uma competi&#xE7;&#xE3;o comercial indesejada que tinha, de um lado, os vendedores varejistas n&#xE3;o licenciados e, de outro, os concession&#xE1;rios com privil&#xE9;gios legais garantidos pelo governo para atuar nestas transa&#xE7;&#xF5;es (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CHAZKEL, 2014</xref>, p. 93-94).</p>
<p>Para al&#xE9;m deste fato, os versos &#x201C;&#xC9; tirar meio de vida/A muita gente honesta&#x201D; nos sugerem que ricos e pobres faziam apostas, embora o jogo tenha assumido diversos significados para eles e, poder&#xED;amos completar, tamb&#xE9;m o tratamento que estes dois tipos de jogadores recebiam da pol&#xED;cia. Os ricos ou de poder aquisitivo mediano gozavam de imunidade e n&#xE3;o sofriam retalia&#xE7;&#xF5;es legais, ao passo que os pobres eram constantemente presos. Para os segmentos mais pobres, al&#xE9;m de ser uma divers&#xE3;o, como tamb&#xE9;m era para os ricos e remediados, o jogo era muitas vezes a &#xFA;nica oportunidade de trabalho encontrada num mercado escasso de ocupa&#xE7;&#xF5;es remuneradas.</p>
<p>Do tratamento seletivo dispensado aos diferentes sujeitos envolvidos com jogos, notadamente aos que dele tiravam seu sustento e o de sua fam&#xED;lia, nos d&#xE1; conta uma nota publicada na <italic>Revista Ilustrada,</italic> ainda nos anos 1870, na qual pode-se ler que os v&#xE1;rios chefes de pol&#xED;cia que atuavam na Corte faziam cerco &#xE0;s pequenas casas de jogos de v&#xED;spora e pacau enquanto grandes jogadores se entregavam despreocupadamente a &#xE0; banca, &#xE0; roleta e ao bacarat.<xref ref-type="fn" rid="fn24"><sup>24</sup></xref> Sendo estas situa&#xE7;&#xF5;es conhecidas da popula&#xE7;&#xE3;o da cidade havia duas d&#xE9;cadas, entende-se porque o autor destes versos considerava a proibi&#xE7;&#xE3;o do jogo do bicho uma forma de &#x201C;tirar meio de vida a muita gente honesta&#x201D; palavras estas quer, por extens&#xE3;o, tamb&#xE9;m registravam a amplitude que o com&#xE9;rcio varejista alcan&#xE7;ara na cidade. Na sua vis&#xE3;o ficava claro que as alegadas inquieta&#xE7;&#xF5;es com os efeitos morais que o jogo supostamente poderia provocar eram um argumento fr&#xE1;gil, na medida em que ele era perseguido n&#xE3;o por ser um jogo, mas por ser uma determinada modalidade de com&#xE9;rcio.</p>
<p>Este mon&#xF3;logo tamb&#xE9;m explorava outros pontos relacionados ao jogo, como se pode ver nos seguintes versos:</p>
<verse-group>
<verse-line>Eu, por exemplo,</verse-line><verse-line>confesso N&#xE3;o passava um santo dia,</verse-line><verse-line>Sem que ganhasse dinheiro,</verse-line><verse-line>Jogando na bicharia.</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>E l&#xE1; em casa &#xE9;ramos todos,</verse-line>
<verse-line>De extraordin&#xE1;rio palpite:</verse-line>
<verse-line>Eu, a mulher e um primo,</verse-line>
<verse-line>&#x2013; Custa at&#xE9; que se acredite.</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>(&#x2026;) Se achava a mulher zangada,</verse-line>
<verse-line>Cara feia, ar petulante,</verse-line>
<verse-line>Pensava eu &#x201C;mulher de trombas&#x2026;&#x201D;</verse-line>
<verse-line>E comprava o elefante</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>(&#x2026;) Vejam l&#xE1; se &#xE9; suport&#xE1;vel,</verse-line>
<verse-line>Se tem justifica&#xE7;&#xE3;o,</verse-line>
<verse-line>Jogo em que as mo&#xE7;as se empenham</verse-line>
<verse-line>Ser sujeito a suspens&#xE3;o.</verse-line>
<verse-line>(<xref ref-type="bibr" rid="B9">FABREGAS, 1893</xref>, p. 71-73)</verse-line></verse-group>
<p>Alguns autores argumentam que, entre 1892 e 1895, parece n&#xE3;o ter havido uma tend&#xEA;ncia de &#x201C;oferecer palpites para o sorteio do Jardim&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>, p. 62). O que estes versos sugerem, no entanto, &#xE9; que a pr&#xE1;tica de palpitar j&#xE1; era comum ao jogo do bicho neste per&#xED;odo, mas que, ao inv&#xE9;s de os palpites circularem por jornais, como ficou mais comum a partir de meados da d&#xE9;cada de 1890, eles eram disseminados de boca em boca por meio de verdadeiras redes informais de comunica&#xE7;&#xE3;o.</p>
<p>Outros pontos que devem ser levados em con-sidera&#xE7;&#xE3;o nestes versos s&#xE3;o aqueles que apontam para dois elementos que se tornaram cruciais para a popularidade e poder de perman&#xEA;ncia do jogo do bicho: a opera&#xE7;&#xE3;o di&#xE1;ria e sua depend&#xEA;ncia de intermedi&#xE1;rios. As facilidades para apostar no bicho eram muitas, pois seus vendedores podiam ser encontrados em casas de particulares, corti&#xE7;os, pontos de bondes, quiosques, lojas, enfim, numa infinidade de locais. As apostas variavam de pre&#xE7;os que iam do equivalente a uma x&#xED;cara de caf&#xE9; at&#xE9; o sal&#xE1;rio di&#xE1;rio de um trabalhador, o que nos permite dizer que o jogo adequava-se com facilidade ao tamanho do bolso de diferentes apostadores (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CHAZKEL, 2014</xref>, p. 68). O jogo do bicho era atrativo, tamb&#xE9;m, porque propiciava ao ganhador receber pr&#xEA;mios que, ainda que menores do que os pagos por outros jogos e loterias, eram di&#xE1;rios e estavam sujeitos a menos riscos.</p>
<p>&#xC9; tamb&#xE9;m digno de nota, nestes versos, que o autor tenha se preocupado em mencionar a participa&#xE7;&#xE3;o de mulheres no jogo, assunto este que j&#xE1; foi tratado por v&#xE1;rios historiadores. Sabe-se que mulheres &#x201C;respeit&#xE1;veis&#x201D; jogavam; que mulheres pobres jogavam e vendiam bilhetes, havendo ainda as que davam palpites, tal como estes versos sugerem. O interessante neles, por&#xE9;m, &#xE9; que para al&#xE9;m de serem mais um testemunho que desmistifica uma vis&#xE3;o do mundo do jogo do bicho como exclusivamente masculino, seu autor utilizava-se do fato de mo&#xE7;as de &#x201C;fam&#xED;lia&#x201D; apostarem nos bichos como argumento em defesa da moralidade e dec&#xEA;ncia do jogo, e como questionamento do <italic>status</italic> criminoso que lhe era atribu&#xED;do. Ou, dito com outras palavras, colocando-se na contram&#xE3;o dos argumentos defendidos por juristas, pol&#xED;ticos e literatos, o jogo, para o autor destes versos e provavelmente para outros contempor&#xE2;neos, n&#xE3;o destru&#xED;a a fam&#xED;lia; ao contr&#xE1;rio, ele funcionava como fator de uni&#xE3;o, uma vez que todos de uma fam&#xED;lia colaboravam ao jogar.</p>
<p>As apresenta&#xE7;&#xF5;es do mon&#xF3;logo <italic>O jogo dos bichos</italic> atingiram cem representa&#xE7;&#xF5;es dez meses ap&#xF3;s sua estreia,<xref ref-type="fn" rid="fn25"><sup>25</sup></xref> tendo sido ele encenado nos teatros de Variedades, Santana, Lucinda e no Politheama Fluminense. Bem antes de atingir esta marca, no entanto, come&#xE7;aram a aparecer par&#xF3;dias &#xE0; interpreta&#xE7;&#xE3;o do ator Brand&#xE3;o, tal como uma realizada pelo ator Leonardo, no teatro Santana.<xref ref-type="fn" rid="fn26"><sup>26</sup></xref> At&#xE9; mesmo grupos amadores utilizaram o mon&#xF3;logo de F&#xE1;bregas em suas representa&#xE7;&#xF5;es, como a Arcada Dram&#xE1;tica Esther de Carvalho, na qual ele foi interpretado pelo ator Mariano,<xref ref-type="fn" rid="fn27"><sup>27</sup></xref> e o Club Dram&#xE1;tico, onde foi representado pelo menino Jos&#xE9; Continentino.<xref ref-type="fn" rid="fn28"><sup>28</sup></xref></p>
<p>No ano de 1895, a edi&#xE7;&#xE3;o do mon&#xF3;logo ainda podia ser adquirida no sagu&#xE3;o do teatro Lucinda para os que quisessem se deleitar com sua letra nos seus momentos de lazer<xref ref-type="fn" rid="fn29"><sup>29</sup></xref> e, no ano de 1898, o jornal <italic>Rio Nu</italic> anunciava sua venda ao mesmo pre&#xE7;o em que fora vendido durante dois anos: $200.<xref ref-type="fn" rid="fn30"><sup>30</sup></xref> No carnaval deste mesmo ano, a Sociedade Estrela do Oriente ofereceu uma s&#xE9;rie de interm&#xE9;dios durante seus bailes, dentre eles este mon&#xF3;logo, que foi interpretado por L. Curcino.<xref ref-type="fn" rid="fn31"><sup>31</sup></xref> Vindo coroar esta trajet&#xF3;ria de sucesso, <italic>O jogo dos bichos</italic> foi transformado em polca que foi interpretada pela primeira vez no intervalo de uma r&#xE9;cita oferecida no teatro Recreio Dram&#xE1;tico, posteriormente gravada pela Casa Edison, em 1902, pelo can&#xE7;onetista Bahiano (<xref ref-type="bibr" rid="B22">ULHOA, 2008</xref>).</p>
<p>Foi no ano de 1895, como j&#xE1; dito, que teve lugar a primeira tentativa efetiva do governo republicano de estabelecer limites aos jogos de azar, com a aprova&#xE7;&#xE3;o do Decreto n. 126 que limitou a a&#xE7;&#xE3;o dos front&#xF5;es e <italic>book-makers</italic> a apenas um dia da semana. A partir da aprova&#xE7;&#xE3;o deste decreto, de acordo com o jornal <italic>D. Quixote</italic>, a pol&#xED;cia deflagrou uma verdadeira ca&#xE7;a &#x201C;aos bichos, aos <italic>book-makers</italic>, aos que palpitam e aos que d&#xE3;o palpites&#x201D;.<xref ref-type="fn" rid="fn32"><sup>32</sup></xref></p>
<p>Os contratos firmados com Drummond foram examinados por dois pareceristas que, al&#xE9;m de enumerarem as cl&#xE1;usulas que n&#xE3;o foram cumpridas pelo bar&#xE3;o, atacaram diretamente a pr&#xE1;tica do sorteio dos bichos. Um dos pareceristas fez quest&#xE3;o de sublinhar que:</p> <disp-quote>
<p>A empresa pediu para transformar seu parque em jardim de aclima&#xE7;&#xE3;o e para estabelecer jogos l&#xED;citos e esses n&#xE3;o podiam ser sen&#xE3;o os pr&#xF3;prios de estabelecimentos dessa ordem e neles admitidos em todos os pa&#xED;ses, e n&#xE3;o os de azar, dependentes da sorte (&#x2026;)</p></disp-quote> <disp-quote>
<p>N&#xE3;o &#xE9; l&#xED;cito o jogo que depende da vontade de quem escolhe o nome premiado, e o fecha em uma caixa, colocada sob a vigil&#xE2;ncia do p&#xFA;blico e fixado como provoca&#xE7;&#xE3;o &#xE0; ambi&#xE7;&#xE3;o do lucro e para exclusivo interesse da empresa.</p></disp-quote> <disp-quote>
<p>N&#xE3;o &#xE9; mais um jardim de aclama&#xE7;&#xE3;o, mas um ponto de reuni&#xE3;o para o jogo &#xE0; c&#xE9;u aberto a julgar-se pela extraordin&#xE1;ria concorr&#xEA;ncia, que o aflui, como afirma a imprensa, que publica no dia seguinte o nome sorteado (&#x2026;) (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>, p. 148)</p></disp-quote>
<p>A persegui&#xE7;&#xE3;o aos jogos de azar no Rio n&#xE3;o era nova, tanto que em in&#xED;cios dos anos 1830 foi publicada a primeira legisla&#xE7;&#xE3;o sobre os jogos no Brasil. (<xref ref-type="bibr" rid="B15">MELLO, 1989</xref>, p. 8) Mas, a partir da d&#xE9;cada de 1890, a pol&#xED;cia se concentrou na persegui&#xE7;&#xE3;o de um deles com mais determina&#xE7;&#xE3;o: o jogo dos bichos. Este, todavia, j&#xE1; se tornara parte efetiva da paisagem da cidade, adentrando por todos os lugares, at&#xE9; mesmo naqueles que se esmeravam em critic&#xE1;-lo. A imprensa, por exemplo, n&#xE3;o apenas divulgava o nome do bicho sorteado, como sublinhou o parecerista no texto anteriormente destacado. De acordo com um certo Mariano Garcia, que publicou uma notinha no <italic>Jornal do Brasil</italic>, a imprensa, que se dizia &#x201C;amiga da ordem e da lei&#x201D;, permitia que se vendesse bilhetes do jogo do bicho em seus escrit&#xF3;rios.<xref ref-type="fn" rid="fn33"><sup>33</sup></xref></p>
<p>Esta dissemina&#xE7;&#xE3;o, sem d&#xFA;vida, tornava dif&#xED;cil o controle do jogo e contra ela manifestaram-se alguns literatos na imprensa. Numa cr&#xF4;nica escrita para o jornal <italic>A Semana</italic>, publicada no dia 10 de mar&#xE7;o de 1895, Machado de Assis diria que &#x201C;Os bichos de Vila Isabel, mansos ou bravios, fazem ganhar dinheiro depressa&#x201D;, e tudo isto &#x201C;sem trabalho, tanto como fazem perd&#xEA;-lo, igualmente depressa e sem trabalho, tudo sem trabalho, n&#xE3;o contando a viagem de bonde, que &#xE9; longa, v&#xE1;ria e alegre&#x201D;. (<xref ref-type="bibr" rid="B3">ASSIS, 1996</xref>. p. 246) Neste mesmo ano, Olavo Bilac deixaria registradas suas impress&#xF5;es negativas sobre o jogo por meio das seguintes palavras: &#x201C;Hoje, no Rio de Janeiro, o jogo &#xE9; tudo. N&#xE3;o h&#xE1; criados, porque todos os criados passam o dia a comprar bilhetes de bichos. N&#xE3;o h&#xE1; conforto nas casas, porque as fam&#xED;lias gastam todo o dinheiro do m&#xEA;s no elefante ou no cachorro. Ningu&#xE9;m trabalha! Todo o mundo joga&#x2026;&#x201D; (apud <xref ref-type="bibr" rid="B23">VIDAL, 1917</xref>, p. 5) Tamb&#xE9;m Arthur Azevedo, que era colaborador do jornal <italic>A Not&#xED;cia</italic> em 1895, mencionou o jogo do bicho em uma de suas cr&#xF4;nicas. Nela, ao comentar a falta de recursos das companhias teatrais, ele diria correr um boato que o empres&#xE1;rio teatral Jacinto Heller, cuja companhia funcionava no teatro Santana, estava pensando em &#x201C;estabelecer no seu teatro um jogo semelhante ao do Jardim Zool&#xF3;gico&#x201D;, com a diferen&#xE7;a que o seu &#x201C;jogaria com 25 t&#xED;tulos de pe&#xE7;as&#x201D;, mas que &#x201C;felizmente parece que n&#xE3;o se realiza esse desacato supremo ao nosso m&#xED;sero teatro; a coisa n&#xE3;o passou de um projeto sesquipedal e absurdo&#x201D;.<xref ref-type="fn" rid="fn34"><sup>34</sup></xref></p>
<p>Embora Arthur Azevedo entendesse que a not&#xED;cia era descabida e a considerasse um desacato ao teatro, por levar o jogo para seu interior, n&#xE3;o &#xE9; improv&#xE1;vel que Heller tenha cogitado esta ideia, at&#xE9; porque ela n&#xE3;o era nova. A aprova&#xE7;&#xE3;o de loterias para companhias teatrais foi algo disputado palmo a palmo pelos os empres&#xE1;rios por d&#xE9;cadas. Em 1847, o teatro de S&#xE3;o Pedro, onde atuava uma companhia portuguesa, teve um pedido de loteria aprovado pela C&#xE2;mara do Rio, ao passo que o teatro de S&#xE3;o Francisco, no qual se encontrava Jo&#xE3;o Caetano com sua companhia, que naquele mesmo ano solicitara aprova&#xE7;&#xE3;o de uma loteria, teve seu pedido foi indeferido.</p>
<p>Nos bailes de carnaval de 1847, visando fazer concorr&#xEA;ncia aos bailes do S&#xE3;o Pedro, Jo&#xE3;o Caetano colocou a venda dos bilhetes do S&#xE3;o Francisco</p> <disp-quote>
<p>(&#x2026;) por metade do pre&#xE7;o dos de S&#xE3;o Pedro, e o povo, que conhece perfeitamente a diferen&#xE7;a que vai de mil a dois mil r&#xE9;is, correu em chusma atr&#xE1;s da barateza. Ainda desconfiou Jo&#xE3;o Caetano que a diminui&#xE7;&#xE3;o do pre&#xE7;o seria pouca coisa, n&#xE3;o para ganhar, mas para igualar a partida que S&#xE3;o Fran-cisco jogava com S&#xE3;o Pedro, anunciou uma esp&#xE9;cie de loteria, que apelidou de t&#xF4;mbola (<xref ref-type="bibr" rid="B20">SOUZA, 2002</xref>, p. 47).<xref ref-type="fn" rid="fn35"><sup>35</sup></xref></p></disp-quote>
<p>V&#xEA;-se, assim, que Jo&#xE3;o Caetano instituiu sua pr&#xF3;pria loteria e sua ideia encontrou adeptos, pois, em 1852, o Circo Ol&#xED;mpico Franc&#xEA;s<xref ref-type="fn" rid="fn36"><sup>36</sup></xref> e um prestidigitador de nome Mr. Debarr, que se apresentaram ambos no teatro de S&#xE3;o Francisco, tamb&#xE9;m anunciaram a apura&#xE7;&#xE3;o de t&#xF4;mbolas nos intervalos de suas representa&#xE7;&#xF5;es.<xref ref-type="fn" rid="fn37"><sup>37</sup></xref> Ou seja, quando Arthur Azevedo escreveu sua cr&#xF4;nica, o jogo tamb&#xE9;m j&#xE1; havia adentrado ao espa&#xE7;o do teatro e n&#xE3;o espanta que Jacinto Heller tivesse aventado a possibilidade de instituir uma loteria no seu embora, ao que parece, a ideia n&#xE3;o tenha se concretizado.</p>
<p>Amy Chazkel observou que, na &#xFA;ltima d&#xE9;cada do s&#xE9;culo XIX, o que se chamava de jogo do bicho era uma refer&#xEA;ncia a uma s&#xE9;rie de loterias clandestinas com as quais os cariocas e os habitantes de outras cidades do pa&#xED;s estavam habituados. Tais loterias tinham em comum o fato de trabalharem com uma lista de vinte e cinco nomes de animais os quais correspondiam a um n&#xFA;mero espec&#xED;fico (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CHAZKEL, 2014</xref>, p. 65). Ou seja, o jogo dos bichos eram muitos e suas m&#xFA;ltiplas vers&#xF5;es tinham diferentes nomes. Segundo Luiz Edmundo,</p> <disp-quote>
<p>de um jogo s&#xF3;, h&#xE1; quase seiscentos! H&#xE1; o Antigo, o Moderno, o Rio, o Salteado, o Agave Americano, o da Buraca, o da Caridade, o da Companhia Industrial Americana&#x2026; E quantos ainda? Popular, Companhia Elegante, Moderno Loto, Industrial Brasileira, Museu das Flores, Gr&#xEA;mio Fluminense, Nascente, Ocidental, Carioca, Garantia, Luz do C&#xE9;u, Esperan&#xE7;a, Estrela do Destino, Seguran&#xE7;a, Ajuda de Nossa Senhora, Talism&#xE3; da Sorte e dezenas de outros que, para n&#xE3;o fatigar, deixam de ser citados (<xref ref-type="bibr" rid="B7">EDMUNDO, 2003</xref>, p. 551).</p></disp-quote>
<p>Al&#xE9;m de mais um testemunho da significativa capilariza&#xE7;&#xE3;o do jogo, as palavras de Luiz Edmundo s&#xE3;o tamb&#xE9;m um registro do quanto ele se transformara parte efetiva do <italic>pequeno com&#xE9;rcio popular a ponto de o carioca ter acesso a &#x201C;quase seiscentas&#x201D; vers&#xF5;es clandestinas do jogo do bicho no seu cotidiano</italic>.</p>
<p>As propagandas do mon&#xF3;logo <italic>Jogo Novo</italic> come&#xE7;aram a ser apregoadas, sem indica&#xE7;&#xE3;o de autoria, no jornal <italic>O Paiz</italic>, em maio de 1894. Ele compunha uma brochura intitulada <italic>Can&#xE7;onetas e mon&#xF3;logos</italic>, impressa na tipografia do jornal <italic>O Bin&#xF3;culo</italic> e vendida a 200 r&#xE9;is <xref ref-type="fn" rid="fn38"><sup>38</sup></xref> que, em agosto do mesmo ano, tamb&#xE9;m passou a ser anunciada na <italic>Gazeta de Not&#xED;cias</italic>.<xref ref-type="fn" rid="fn39"><sup>39</sup></xref></p>
<p>Apenas em outubro o nome do autor deste mon&#xF3;logo &#x2013; Moreira Sampaio &#x2013; apareceu estampado no an&#xFA;ncio de uma r&#xE9;cita que teve lugar no teatro Lucinda, na qual ele foi interpretado pelo ator Brand&#xE3;o, o mesmo que interpretou O Jogo dos bichos.<xref ref-type="fn" rid="fn40"><sup>40</sup></xref> Nele, Brand&#xE3;o se dirigia &#xE0;s plateias dizendo:</p>
<verse-group>
<verse-line>Apostam todos decerto</verse-line><verse-line>Dez por cinco, cem por dez,</verse-line><verse-line>Que eu venho o jogo do bicho,</verse-line><verse-line>Impingir mais uma vez.</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>Pois n&#xE3;o tenho, n&#xE3;o, senhores,</verse-line><verse-line>C&#xE1; o degas do Brand&#xE3;o</verse-line><verse-line>Entre muitos predicados</verse-line><verse-line>Tem o g&#xEA;nio da inven&#xE7;&#xE3;o!</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>Se eu n&#xE3;o inventei a p&#xF3;lvora,</verse-line><verse-line>Se o bal&#xE3;o n&#xE3;o inventei</verse-line><verse-line>Foi porque chegando ao mundo,</verse-line><verse-line>J&#xE1; tudo inventado achei.</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>(&#x2026;) E j&#xE1; que o jogo dos bichos,</verse-line><verse-line>Tanto sucesso alcan&#xE7;ou,</verse-line><verse-line>Eu vou ver se um jogo novo,</verse-line><verse-line>Pega como o outro pegou.</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>O jogo nesta terrinha</verse-line><verse-line>Febre foi, &#xE9;, e ser&#xE1;!</verse-line><verse-line>Quem n&#xE3;o gostar d&#x27;outros jogos</verse-line><verse-line>O meu jogo jogar&#xE1;</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>Desbancarei a roleta,</verse-line><verse-line>O jogo do patac&#xE3;o,</verse-line><verse-line>O jogo da vermelhinha,</verse-line><verse-line>E as p&#xE2;ndegas do Front&#xE3;o.</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>(&#x2026;) Jogo novo! A bicharia!</verse-line><verse-line>Come&#xE7;ava a ter bolor</verse-line><verse-line>Joguemos pois nas pessoas</verse-line><verse-line>Que me parece melhor!</verse-line>
<verse-line>(<italic>Biblioteca do Amador Dram&#xE1;tico</italic>, 1895, p. 121-123).</verse-line></verse-group>
<p>A ideia de uma &#x201C;febre&#x201D; do jogo que acometera o pa&#xED;s parece reafirmar as vis&#xF5;es de alguns literatos, juristas e jornalistas sobre as especula&#xE7;&#xF5;es financeiras dos anos do Encilhamento, no&#xE7;&#xE3;o que aos poucos foi sendo substitu&#xED;da pela de &#x201C;v&#xED;cio nacional&#x201D;, que atribu&#xED;a ao brasileiro uma suposta fascina&#xE7;&#xE3;o &#x201C;natural&#x201D; pela pr&#xE1;tica de jogar.<xref ref-type="fn" rid="fn41"><sup>41</sup></xref> Mas, como nestes versos esta &#x201C;febre&#x201D; n&#xE3;o associava jogadores em geral a financistas, somos levados a cogitar a hip&#xF3;tese de que talvez Moreira Sampaio reconhecesse e tenha considerado (embora n&#xE3;o explicitado!) as dissemelhan&#xE7;as e objetivos espec&#xED;ficos subjacentes &#xE0;s diferentes formas de &#x201C;jogar&#x201D;: de um lado financistas que especulavam na bolsa, jogando com flutua&#xE7;&#xF5;es nos pre&#xE7;os ou valores da moeda, expondo-se a altos riscos para auferir maiores lucros e, de outro lado, pequenos jogadores que apostavam na roleta, patac&#xE3;o, vermelhinha, bichos e front&#xE3;o, evitavam o risco porque o jogo era, para eles, &#x201C;uma salvaguarda durante momentos dif&#xED;ceis contra a pobreza e o desemprego &#x2013; mas isto porque era <italic>trabalho</italic>, n&#xE3;o porque era jogo&#x201D; [grifo no original] (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CHAZKEL, 2014</xref>, p. 189).</p>
<p>A revista de ano <italic>O Tribofe</italic>, escrita pelo mesmo Moreira Sampaio em parceria com Arthur Azevedo, encenada em 1891, oferece elementos para outras leituras poss&#xED;veis destes versos que foram escritos dois anos depois. Nela, numa passagem em que a personagem Frivolina fazia um passeio com o personagem Fonseca pelas ruas do Rio, este era por ela apresentado &#xE0;s casas de jogos da cidade frequentadas por pessoas sem poder aquisitivo, ao mesmo tempo em que Frivolina explicava a diferen&#xE7;a entre estas casas e as frequentadas por conselheiros, generais, etc. Neste &#xED;nterim, entrava uma figura importante numa das casas de jogos de terceira classe e na sequ&#xEA;ncia chegava um subdelegado com policiais que cercavam o pr&#xE9;dio e prendiam alguns jogadores. Todavia, ao perceber que prendera um figur&#xE3;o e dele exigira o pagamento de uma multa, o subdelegado pedia desculpas e sa&#xED;a sorrateiramente do local.</p>
<p>Esta passagem aponta para um quadro mais complexo sobre a ideia de &#x201C;febre&#x201D; do jogo, n&#xE3;o s&#xF3; porque <italic>O Tribofe</italic> foi escrita e encenada no mesmo contexto de especula&#xE7;&#xE3;o financeira de o <italic>Jogo Novo</italic>, mas tamb&#xE9;m porque apresentava lado a lado jogadores ricos e pobres nas mesmas casas de jogos e, simultaneamente, delineava a imagem de uma pol&#xED;cia suspeita, que se confundia com a contraven&#xE7;&#xE3;o. Com isto, &#xE9; poss&#xED;vel pensar que alguns dos que escutaram ou leram o <italic>Jogo Novo</italic> possam ter associado seus versos &#xE0; revista de Moreira Sampaio (cujo sucesso alcan&#xE7;ado ainda deveria estar vivo na lembran&#xE7;a dos cariocas, at&#xE9; porque foi reencenada algumas vezes em 1893) e ambos a uma situa&#xE7;&#xE3;o que lhes era familiar: a exist&#xEA;ncia de jogadores ricos e pobres apostando indiscriminadamente e o papel question&#xE1;vel de uma pol&#xED;cia que, ao fazer uso da lei de forma seletiva, n&#xE3;o ficava t&#xE3;o distante de outros &#x201C;tribofes&#x201D;.</p>
<p>Chama aten&#xE7;&#xE3;o nos versos do <italic>Jogo Novo</italic>, a estrutura que seu autor propunha para o jogo que pretendia &#x201C;criar&#x201D;. Esta estrutura de vinte e cinco nomes de pessoas, animais ou flores tornou-se mais conhecida em 1892, quando um comerciante mexicano chamado Manoel Ismael Zevada, que tamb&#xE9;m era gerente do zool&#xF3;gico de Drummond, passou a comercializar bilhetes de um jogo por ele inventado, denominado jogo das flores, num sobrado do centro da cidade localizado na esquina da Rua do Ouvidor com a Rua Gon&#xE7;alves Dias. Neste local, qualquer um podia apostar em vinte e cinco flores com seus n&#xFA;meros correspondentes.</p>
<p>A ideia de Zevada, contudo, talvez n&#xE3;o fosse t&#xE3;o original quanto parece &#xE0; primeira vista e, quem sabe, ele possa ter se baseado no <italic>Dicion&#xE1;rio Linguagem das Flores</italic> ou outras publica&#xE7;&#xF5;es francesas da mesma natureza, que se tornaram comuns na Europa e nas Am&#xE9;ricas neste per&#xED;odo. Estes dicion&#xE1;rios funcionavam como uma esp&#xE9;cie de &#x201C;tel&#xE9;grafo amat&#xF3;rio&#x201D;, no qual cada flor representava uma mensagem que permitia que pessoas apaixonadas se comunicassem &#x201C;sem embara&#xE7;os ou repress&#xF5;es&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B8">EL FAR, 2004</xref>, p. 90).</p>
<p>Tal como consta do pref&#xE1;cio da edi&#xE7;&#xE3;o portuguesa do <italic>Dicion&#xE1;rio Linguagem das Flores</italic>, do ano de 1868, o uso desta linguagem exigia o conhecimento de certas regras, bem como a capacidade de decifrar o que cada flor significava dependendo da posi&#xE7;&#xE3;o em que ela aparecia (<xref ref-type="bibr" rid="B6">DICION&#xC1;RIO DA LINGUAGEM DAS FLORES, 1868</xref>). Ou seja, o princ&#xED;pio b&#xE1;sico desta &#x201C;linguagem&#x201D; era a decifra&#xE7;&#xE3;o de uma mensagem passada por pequenos sinais que n&#xE3;o eram dados a ver de imediato o que, por sua vez, era similar &#xE0; pr&#xE1;tica utilizada pelos jogadores do bicho que ficou conhecida como &#x201C;palpite&#x201D;, que remetia diretamente &#xE0;s no&#xE7;&#xF5;es de intui&#xE7;&#xE3;o e sorte.<xref ref-type="fn" rid="fn42"><sup>42</sup></xref></p>
<p>&#xC9; prov&#xE1;vel que os dicion&#xE1;rios desta natureza tenham chegado ao Brasil por meio de importa&#xE7;&#xF5;es de Portugal, ainda nos anos 1860, uma vez que por algum tempo o mercado livreiro do Rio dependeu das exporta&#xE7;&#xF5;es portuguesas.<xref ref-type="fn" rid="fn43"><sup>43</sup></xref> Mas com certeza sabe-se da exist&#xEA;ncia da publica&#xE7;&#xE3;o de um dicion&#xE1;rio similar a este, pela editora Garnier, nos anos 1880, e de outra pela Livraria Quaresma, vendida a $400, que parece ser de in&#xED;cios de 1890 (<xref ref-type="bibr" rid="B8">EL FAR, 2004</xref>, p. 32).</p>
<p>Enfim, o que procuramos sugerir, levando em conta estas informa&#xE7;&#xF5;es, &#xE9; que Zevada pode ter se inspirado em algo j&#xE1; bastante conhecido da popula&#xE7;&#xE3;o do Rio, valendo-se deste conhecimento pr&#xE9;vio para dar forma a seu jogo, f&#xF3;rmula esta que estava presente em outros jogos em disponibilidade naquele contexto. Esta parece ser a ideia contida nos versos &#x201C;Que eu venho o jogo do bicho/Impingir mais uma vez&#x201D;. Neste confronto entre uma s&#xE9;rie de vers&#xF5;es do jogo do bicho presentes na cidade (dos quais os apostadores talvez nem percebessem as diferen&#xE7;as, por serem muito semelhantes!), em que um procurava &#x201C;desbancar&#x201D; o outro, o inventor fict&#xED;cio deste &#x201C;jogo novo&#x201D; procurava delimitar um diferencial para o seu entre os j&#xE1; existentes, contando apenas com sua &#x201C;cachola&#x201D; para ser bem sucedido j&#xE1; que, como ele satiricamente mencionava, n&#xE3;o possu&#xED;a os &#x201C;predicados&#x201D; e o &#x201C;g&#xEA;nio de inven&#xE7;&#xE3;o do Brand&#xE3;o&#x201D;, numa expl&#xED;cita brincadeira com o p&#xFA;blico uma vez que foi este ator quem interpretou o mon&#xF3;logo.</p>
<p>Outros versos do <italic>Jogo Novo</italic> tamb&#xE9;m apresentam elementos sugestivos:</p>
<verse-group>
<verse-line>Por exemplo, a D. Rita</verse-line>
<verse-line>Entre mil suspiros e ais</verse-line>
<verse-line>Faz car&#xED;cias ao marido,</verse-line>
<verse-line>Mas, do primo gosta mais&#x2026;</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>O marido vai pra rua,</verse-line>
<verse-line>O primo pr&#xE1; casa vem,</verse-line>
<verse-line>Jogo neste contra aquele,</verse-line>
<verse-line>Cinco, dez, cinquenta, cem!</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>A filha do taverneiro,</verse-line>
<verse-line>Mora nos fundos do pai,</verse-line>
<verse-line>E se este rouba aos fregueses,</verse-line>
<verse-line>A filha roubando vai&#x2026;</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>(&#x2026;) Na rua do Lavradio</verse-line>
<verse-line>Mora uma mo&#xE7;a de truz!</verse-line>
<verse-line>O Queir&#xF3;s paga-lhe a casa,</verse-line>
<verse-line>E ela gosta do Cruz!</verse-line></verse-group>
<verse-group>
<verse-line>Jogo no Cruz quando tenho</verse-line>
<verse-line>Deixo de lado o Queiroz!</verse-line>
<verse-line>&#xC9; coisa muito sabida</verse-line>
<verse-line>Que o Cruz paga pr&#xE1; n&#xF3;s</verse-line>
<verse-line>(<italic>Biblioteca do Amador Dram&#xE1;tico</italic>, 1895, p. 123-124).<xref ref-type="fn" rid="fn44"><sup>44</sup></xref></verse-line></verse-group>
<p>Diferente da vis&#xE3;o passada pelo outro mon&#xF3;logo, em que o jogo do bicho n&#xE3;o era reputado uma amea&#xE7;a &#xE0; dec&#xEA;ncia feminina, este associava a ideia do jogo &#xE0; corrup&#xE7;&#xE3;o dos costumes das fam&#xED;lias, uma vez que nele se envolviam tanto por mulheres &#x201C;de truz&#x201D; quanto as que enganavam os maridos.</p>
<p>Sabe-se que na condena&#xE7;&#xE3;o ao jogo do bicho foram utilizadas justificativas que iam de uma alegada influencia negativa sobre a moral aos supostos danos que causava ao car&#xE1;ter, passando pelo incentivo &#xE0; pregui&#xE7;a, ao ganho de dinheiro sem trabalho e &#xE0; malandragem. No entanto, esta condena&#xE7;&#xE3;o, al&#xE9;m de n&#xE3;o ser algo consensual, como os versos destes dois mon&#xF3;logos sugerem, assumia significados espec&#xED;ficos em fun&#xE7;&#xE3;o da pessoa, do lugar e do momento a que se referia. No caso dos versos do <italic>Jogo Novo</italic> &#xE9; sugestivo que o mesmo personagem que o criticava, atribuindolhe o papel de instrumento de pervers&#xE3;o de valores, n&#xE3;o se furtasse a dizer ser ele pr&#xF3;prio um jogador, reiterando a ambival&#xEA;ncia das a&#xE7;&#xF5;es e interpreta&#xE7;&#xF5;es que o jogo alimentava.</p>
<p>Mas as apostas que este suposto jogador fazia eram realizadas apenas com o &#x201C;Cruz&#x201D;, por ser &#x201C;coisa muito sabida/Que o Cruz paga pr&#xE1; n&#xF3;s&#x201D;, o que nos direciona a outro assunto que ocupou as p&#xE1;ginas dos jornais da &#xE9;poca: as reclama&#xE7;&#xF5;es que apareciam em notinhas publicadas por jogadores ludibriados (ou, quem sabe, por banqueiros rivais!), que procuravam alertar os apostadores, como esta assinada por &#x201C;Borboletas a 10 mil r&#xE9;is&#x201D; que dizia: &#x201C;Previne-se aos incautos que tem uma casa em frente ao Hospital Militar que quando os fregueses ganham s&#xF3; recebem metade&#x201D;.<xref ref-type="fn" rid="fn45"><sup>45</sup></xref></p>
<p>Nos anos 1890, os la&#xE7;os de confian&#xE7;a entre jogadores e banqueiros ainda n&#xE3;o podiam ser sintetizados na express&#xE3;o &#x201C;vale o que est&#xE1; escrito&#x201D;. Isto s&#xF3; ocorreria no ano de 1917, quando a repress&#xE3;o violenta ao jogo contribuiu para criar um c&#xF3;digo de &#xE9;tica partilhado por banqueiros e jogadores. Foi neste novo contexto que as express&#xF5;es &#x201C;vale o escrito&#x201D; ou &#x201C;confira, vale 3 dias&#x201D; passaram a ser impressas ou escritas nos bilhetes, transformando-os em esp&#xE9;cie de notas promiss&#xF3;rias, bem como paulatinamente come&#xE7;ou a se definir e disseminar um certo sentimento popular, entre apostadores e banqueiros, &#x201C;que o jogo do bicho era n&#xE3;o s&#xF3; mais confi&#xE1;vel, mas tamb&#xE9;m mais leg&#xED;timo do que o sistema judicial que o censurava&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B4">CHAZKEL, 2014</xref>, p. 262).</p>
<p>Tudo leva a crer que o mon&#xF3;logo <italic>Jogo Novo</italic> n&#xE3;o fez o mesmo sucesso nos tablados do que <italic>O Jogo dos Bichos</italic>. Poucas foram as informa&#xE7;&#xF5;es sobre ele localizadas nos jornais pesquisados e nem mesmo o fato de ter sido encenado pelo ator Brand&#xE3;o parece ter contribu&#xED;do para alavancar seu sucesso.<xref ref-type="fn" rid="fn46"><sup>46</sup></xref> Dif&#xED;cil compreender esta parca repercuss&#xE3;o diante da escassez de documentos, mas podemos levantar algumas hip&#xF3;teses a este respeito. A pouca receptividade a este mon&#xF3;logo nos leva a considerar que o uso de uma mesma &#x201C;f&#xF3;rmula&#x201D; teatral, lan&#xE7;ando m&#xE3;o de recursos dram&#xE1;ticos &#x201C;pouco originais&#x201D; e &#x201C;repetitivos&#x201D;, como v&#xE1;rios cr&#xED;ticos teatrais insistiam em pejorativamente apontar ser a receita utilizada por certos autores que se voltavam para a produ&#xE7;&#xE3;o de mon&#xF3;logos e outros g&#xEA;neros do teatro musicado, n&#xE3;o era garantia de &#xEA;xito. Para os autores que a eles se dedicavam, a tarefa n&#xE3;o era t&#xE3;o f&#xE1;cil como a cr&#xED;tica procurava fazer crer, pois tinham que encontrar um ponto de equil&#xED;brio entre suas escolhas pessoais como criadores art&#xED;sticos e, simultaneamente, contemplar os interesses do seu p&#xFA;blico receptor. &#xC9; poss&#xED;vel que a Moreira Sampaio tenha faltado este ponto de equil&#xED;brio e talvez este tenha sido o motivo de seu mon&#xF3;logo n&#xE3;o ter a mesma repercuss&#xE3;o nos tablados do que <italic>O Jogo dos Bichos</italic>.</p>
<p>No entanto, a aus&#xEA;ncia de repercuss&#xE3;o no teatro Lucinda n&#xE3;o implica em car&#xEA;ncia de qualquer reverbera&#xE7;&#xE3;o, sobretudo se levarmos em conta que o <italic>Jogo Novo</italic> foi reimpresso, em 1898, por um editor de S&#xE3;o Paulo, na cole&#xE7;&#xE3;o intitulada <italic>Biblioteca do Amador Dram&#xE1;tico. Cole&#xE7;&#xE3;o de poesias dram&#xE1;ticas, mon&#xF3;logos, can&#xE7;onetas, lundus, duetos, tangos etc.,</italic> o que significa que estes versos talvez fossem melhores para serem lidos do que encenados. Ou, tamb&#xE9;m, sendo este mon&#xF3;logo parte de uma cole&#xE7;&#xE3;o direcionada a atores n&#xE3;o profissionais, talvez isto seja um ind&#xED;cio de que ele tenha tido aceita&#xE7;&#xE3;o entre alguns dos in&#xFA;meros grupos de amadores existentes na cidade (<xref ref-type="bibr" rid="B11">FRANCA, 2011</xref>), que o encenavam nos tablados das sociedades dram&#xE1;ticas, clubes ou outras associa&#xE7;&#xF5;es dedicadas ao teatro.</p>
<p>Independente do maior ou menor sucesso do qual tenham desfrutado, estes dois mon&#xF3;logos s&#xE3;o exemplares de quanto o jogo do bicho foi capaz de provocar pol&#xEA;micas e alimentar posi&#xE7;&#xF5;es controversas e amb&#xED;guas. Visto a partir desta perspectiva, poder&#xED;amos dizer que, por estar situado nas fronteiras entre o mundo da ordem e o da desordem, o jogo do bicho explicitava as tens&#xF5;es decorrentes da grande dist&#xE2;ncia existente entre aquilo que a lei ditava e como ela funcionava na pr&#xE1;tica. Neste movimento, as redes informais de comunica&#xE7;&#xE3;o, das quais as poesias faziam parte, ao lado do tablado, da imprensa e do carnaval, emergem como um espa&#xE7;o a mais para observa&#xE7;&#xE3;o de elementos presentes no jogo de poder ou expressando outros tipos de poderes, ao converterem pol&#xED;tica em poesia no Rio de Janeiro dos anos 1890.</p></body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn1">
<label>1</label>
<p><italic>Jornal do Brasil,</italic> 18 de fevereiro de 1892. O territ&#xF3;rio do atual Amap&#xE1; foi por longo tempo uma &#xE1;rea de lit&#xED;gio entre o Brasil e a Guiana Francesa. Em 1892, as rela&#xE7;&#xF5;es entre os dois pa&#xED;ses eram tensas e tornaram-se ainda mais problem&#xE1;ticas com a descoberta de jazidas de ouro na regi&#xE3;o. Para este assunto ver ROMANI, 2010. O Bar&#xE3;o, mencionado nestes versos, &#xE9; o Bar&#xE3;o de Drummond, sobre o qual maiores informa&#xE7;&#xF5;es ser&#xE3;o fornecidas no momento oportuno.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn2">
<label>2</label>
<p>Esta revista de ano era de autoria de Demetrio Toledo e Orlando Teixeira. Revista de ano era um g&#xEA;nero teatral composto por m&#xFA;sica e texto constru&#xED;do por meio da &#x201C;costura&#x201D; de diferentes epis&#xF3;dios a partir de uma espinha dorsal. O condutor desta espinha dorsal era um personagem denominado <italic>comp&#xE9;re</italic> e a partir dele o dramaturgo revisava e comentava os acontecimentos mais significativos do ano anterior.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn3">
<label>3</label>
<p><italic>Jornal do Brasil</italic>, 4 de maio de 1896, p. 2.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn4">
<label>4</label>
<p>Mon&#xF3;logos teatrais s&#xE3;o textos que podem ser escritos em prosa ou em versos, nos quais uma personagem fala consigo mesma, expondo os seus pensamentos e sentimentos.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn5">
<label>5</label>
<p>Cancioneiros eram publica&#xE7;&#xF5;es que continham as partes po&#xE9;ticas de can&#xE7;&#xF5;es e, mais raramente, partituras.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn6">
<label>6</label>
<p>Embora a alfabetiza&#xE7;&#xE3;o fosse um obst&#xE1;culo concreto &#xE0; dissemina&#xE7;&#xE3;o de impressos, n&#xE3;o se pode esquecer que a leitura em voz alta e comunit&#xE1;ria era uma das mais importantes formas de circula&#xE7;&#xE3;o e apropria&#xE7;&#xE3;o de textos na sociedade brasileira oitocentista.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn7">
<label>7</label>
<p><italic>Jornal do Commercio</italic>, 30 de dezembro de 1872.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn8">
<label>8</label>
<p><italic>Di&#xE1;rio do Rio de Janeiro</italic>, 27 de junho de 1856.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn9">
<label>9</label>
<p>De acordo com Fernando Magalh&#xE3;es, nas primeiras d&#xE9;cadas de exist&#xEA;ncia do jogo do bicho n&#xE3;o existia um espa&#xE7;o fixo para a venda dos bilhetes, mas tudo leva a crer que a venda se concentrava na regi&#xE3;o central da cidade por ser este o local de maior circula&#xE7;&#xE3;o de pessoas e de concentra&#xE7;&#xE3;o uma de ag&#xEA;ncias de lot&#xE9;ricas e vendedores ambulantes. (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn10">
<label>10</label>
<p>Na d&#xE9;cada de 1860 surgiram os primeiros escrit&#xF3;rios especia-lizados no com&#xE9;rcio de bilhetes de jogos.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn11">
<label>11</label>
<p>Como o leitor ter&#xE1; oportunidade de constatar, nossa abordagem inspira-se de maneira mais pr&#xF3;xima &#xE0; da historiadora social da cultura Ammy Chazkel. No seu trabalho sobre o jogo do bicho, esta autora <italic>prioriza as rela&#xE7;&#xF5;es e tens&#xF5;es entre os projetos urban&#xED;sticos e especula&#xE7;&#xE3;o imobili&#xE1;ria; pol&#xED;cia e formas de exist&#xEA;ncia e sobreviv&#xEA;ncia dos segmentos populares; grandes neg&#xF3;cios e economia informal, e a ilegalidade da a&#xE7;&#xE3;o policial cotidiana, mostrando que a lei tinha efeitos e usos estrat&#xE9;gicos constru&#xED;dos nas disputas cotidianas, em fun&#xE7;&#xE3;o dos diferentes atores envolvidos, o que lhe permitiu questionar o tradicional argumento do suposto &#x201C;fracasso&#x201D; da sua aplica&#xE7;&#xE3;o.</italic></p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn12">
<label>12</label>
<p>No aditamento ficou determinado que a empresa transformaria o parque em Jardim de Aclima&#xE7;&#xE3;o de animais e plantas ex&#xF3;ticas ind&#xED;genas, que manteria uma aula de Zoologia e Zootecnia e &#x201C;um pal&#xE1;cio de exposi&#xE7;&#xE3;o permanente para os produtos da Flora Brasileira e de animais de utilidade p&#xFA;blica&#x201D;, al&#xE9;m do que se comprometia em conservar as matas do jardim e das montanhas do seu entorno. Em contrapartida, o Conselho da Intend&#xEA;ncia concedia &#xE0; empresa &#x201C;o direito de estabelecer pelo prazo de seu privil&#xE9;gio jogos p&#xFA;blicos l&#xED;citos e mediante m&#xF3;dica contribui&#xE7;&#xE3;o, ficando sujeitos &#xE0; imediata fiscaliza&#xE7;&#xE3;o da pol&#xED;cia&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>, 41).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn13">
<label>13</label>
<p>An&#xFA;ncios de vendas dos bilhetes fora do zool&#xF3;gico chegaram a ser publicados nos jornais. No exemplar do dia 16 de julho de 1892, do jornal <italic>O Tempo</italic>, podia-se ler: &#x201C;Jardim Zool&#xF3;gico &#x2013; Pr&#xEA;mios di&#xE1;rios sobre animais de 20$ a 40:000$ &#x2013; Vendas de entradas na Rua do Ouvidor n&#xBA; 129 e no Jardim&#x201D;.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn14">
<label>14</label>
<p><italic>Jornal do Brasil</italic>, 12 de fevereiro de 1893.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn15">
<label>15</label>
<p>A partir da proibi&#xE7;&#xE3;o do jogo do bicho, o zool&#xF3;gico passou de m&#xE3;o em m&#xE3;o sem que novamente tivesse conseguido auxilio oficial para seu funcionamento, a n&#xE3;o ser em ocasi&#xF5;es espor&#xE1;dicas. Inicialmente ele foi arrendado a Luis Galvez, famoso empres&#xE1;rio do ramo de divers&#xF5;es no Rio que, em 1896, repassou todos os direitos adquiridos em rela&#xE7;&#xE3;o ao Jardim para Marques, Ribeiro &#x26; Cia. (<xref ref-type="bibr" rid="B13">MAGALH&#xC3;ES, 2005</xref>, p. 32).</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn16">
<label>16</label>
<p><italic>O Espelho</italic>, 2 de outubro de 1859.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn17">
<label>17</label>
<p>O teatro musicado, tamb&#xE9;m chamado teatro ligeiro, era composto por espet&#xE1;culos c&#xF4;micos que inclu&#xED;am m&#xFA;sica, n&#xFA;meros de canto, efeitos c&#xEA;nicos, cenas dram&#xE1;ticas faladas, improvisa&#xE7;&#xF5;es e n&#xFA;meros de dan&#xE7;a. Dentre os g&#xEA;neros de teatro musicado encontram-se as operetas, m&#xE1;gicas, revistas de ano, cenas c&#xF4;micas, mon&#xF3;logos, burletas e <italic>vaudeville</italic>s.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn18">
<label>18</label>
<p><italic>O Tempo,</italic> 21 de fevereiro de 1893. Augusto F&#xE1;bregas foi dramaturgo, jornalista e m&#xFA;sico. Como jornalista ele colaborou nos jornais <italic>Tempo</italic>, <italic>O Paiz</italic> e <italic>Vida Fluminense</italic>. Como m&#xFA;sico ele notabilizou-se por compor mon&#xF3;logos, polcas e can&#xE7;onetas, sendo que alguns deles se tornaram bastante populares como as can&#xE7;onetas <italic>Fandaguass&#xFA;</italic> (grande &#xEA;xito do ator Leonardo) e <italic>Gondoleiro do amor</italic> (em parceria com Castro Alves) e a polca <italic>Quem comeu do cabrito?</italic>, em parceria com J.J. Barata. Como dramaturgo ele escreveu m&#xE1;gicas, operetas e cenas c&#xF4;micas, dentre eles <italic>Festa no c&#xE9;u, Jogo dos bichos, M&#xE3;e Joana</italic> (encenada v&#xE1;rias vezes pelo ator Bernardo Lisboa) e <italic>Quando a desgra&#xE7;a penetra</italic>, al&#xE9;m de imita&#xE7;&#xF5;es de dramas e romances, a mais famosa delas do romance <italic>O crime do padre Amaro</italic>, de E&#xE7;a de Queir&#xF3;s. Ver <xref ref-type="bibr" rid="B19">BASTOS, 1898</xref>, p. 614.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn19">
<label>19</label>
<p>Portugu&#xEA;s que imigrou para o Brasil com onze anos, Brand&#xE3;o tornou-se famoso atuando no interior de Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Nos anos 1890, ele j&#xE1; fazia as del&#xED;cias das plateias da Capital Federal e sua presen&#xE7;a em cena era certeza de bilheteria.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn20">
<label>20</label>
<p><italic>Jornal do Brasil</italic>, 3 de mar&#xE7;o de 1893 p. 2.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn21">
<label>21</label>
<p><italic>O Tempo,</italic> 12 de mar&#xE7;o de 1893 p. 1.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn22">
<label>22</label>
<p><italic>O Tempo,</italic> 23 de mar&#xE7;o de 1893, p. 2.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn23">
<label>23</label>
<p><italic>O Paiz,</italic> 18 de junho de 1894.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn24">
<label>24</label>
<p><italic>Revista Illustrada</italic>, 29 de janeiro de 1879.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn25">
<label>25</label>
<p><italic>O Paiz,</italic> 16 de dezembro de 1893.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn26">
<label>26</label>
<p><italic>O Paiz,</italic> 12 de maio de 1893.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn27">
<label>27</label>
<p><italic>O Paiz,</italic> 26 de junho de 1893.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn28">
<label>28</label>
<p>Jornal do Brasil, 29 de julho de 1893.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn29">
<label>29</label>
<p><italic>O Paiz,</italic> 12 de fevereiro de 1895.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn30">
<label>30</label>
<p><italic>Rio Nu,</italic> 28 de novembro de 1898.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn31">
<label>31</label>
<p><italic>Jornal do Brasil,</italic> 8 de janeiro de 1898.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn32">
<label>32</label>
<p><italic>D. Quixote,</italic> 11 de janeiro de 1895.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn33">
<label>33</label>
<p><italic>Jornal do Brasil</italic>, 10 de setembro de 1895.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn34">
<label>34</label>
<p><italic>A Noticia</italic>, 18 de abril de 1895, p. 1.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn35">
<label>35</label>
<p>T&#xF4;mbola &#xE9; um jogo similar ao bingo, em que ganha quem primeiro preencher os vinte n&#xFA;meros de um cart&#xE3;o.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn36">
<label>36</label>
<p><italic>Jornal do Commercio</italic>, 4 de julho de 1852.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn37">
<label>37</label>
<p><italic>Jornal do Commercio,</italic> 13 de dezembro de 1852. Dentre os grupos de teatro amador a ideia de Jo&#xE3;o Caetano encontrou adeptos, tanto que em1883 a companhia de teatro amador Club Itamarati Dram&#xE1;tico Familiar fez o mesmo. (<italic>Jornal do Commercio</italic>, 7 de julho de 1883)</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn38">
<label>38</label>
<p><italic>O Paiz,</italic> 22 de maio de 1894. Moreira Sampaio foi autor de revistas de ano, de mon&#xF3;logos. Sua parceria com Arthur Azevedo, na composi&#xE7;&#xE3;o de revistas de ano, consagrou os dois como dramaturgos de sucesso na segunda metade do s&#xE9;culo XIX.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn39">
<label>39</label>
<p><italic>Gazeta de Not&#xED;cias</italic>, 14 de agosto de 1894.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn40">
<label>40</label>
<p><italic>O Paiz,</italic> 1 de outubro de 1894.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn41">
<label>41</label>
<p>Na primeira d&#xE9;cada do s&#xE9;culo XX, a ideia de &#x201C;vicio nacional&#x201D; j&#xE1; podia ser encontrada em relatos de folcloristas que por meio dela manifestavam seu desconforto com a dissemina&#xE7;&#xE3;o no jogo no Brasil. Ver <xref ref-type="bibr" rid="B4">CHAZKEL, 2014</xref>.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn42">
<label>42</label>
<p><italic>Gazeta de Not&#xED;cias,</italic> 7 de setembro de 1882. &#xC9; sintom&#xE1;tico, em rela&#xE7;&#xE3;o ao que vimos falando, que nos an&#xFA;ncios de vendas de livros e brochuras da Livraria Polit&#xE9;cnica, o <italic>Dicion&#xE1;rio da Linguagem das Flores</italic> aparecesse sob a rubrica &#x201C;Livros de Sortes&#x201D; ao lado de outros em que a &#x201C;decifra&#xE7;&#xE3;o&#x201D; e o &#x201C;palpite&#x201D; tamb&#xE9;m eram ele-mentos centrais.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn43">
<label>43</label>
<p><italic>Gazeta de Not&#xED;cias,</italic> 7 de setembro de 1882.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn44">
<label>44</label>
<p>Utilizamos esta edi&#xE7;&#xE3;o por ser a &#xFA;nica localizada, mas consi-deramos a data dos an&#xFA;ncios da pe&#xE7;a como referenciais.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn45">
<label>45</label>
<p><italic>Jornal de Not&#xED;cias</italic>, 21 de setembro de 1896.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn46">
<label>46</label>
<p>Foram localizados apenas dois an&#xFA;ncios da representa&#xE7;&#xE3;o deste mon&#xF3;logo, ambos na <italic>Gazeta de N&#xF3;ticias</italic>, nos dias 30 de maio e 3 de outubro de 1894.</p></fn></fn-group>
<ref-list>
<title>Refer&#xEA;ncias</title>
<ref id="B1">
	<mixed-citation>ABREU, Martha. O Império do Divino: festas religiosas e cultura
popular no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1999.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
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<name><surname>ABREU</surname> <given-names>Martha</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt"><italic>O Imp&#xE9;rio do Divino:</italic> festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro</source>
<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
<publisher-name>Nova Fronteira</publisher-name>
<year>1999</year></element-citation></ref>
<ref id="B2">
	<mixed-citation>Biblioteca do Amador Dramático. Coleção de poesias dramáticas,
monólogos, cançonetas, lundus, duetos, tangos etc... São Paulo,
Oscar Monteiro Editor, 1898.</mixed-citation>
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<collab>Biblioteca do Amador Dram&#xE1;tico</collab></person-group>
<source xml:lang="pt">Cole&#xE7;&#xE3;o de poesias dram&#xE1;ticas, mon&#xF3;logos, can&#xE7;onetas, lundus, duetos, tangos etc</source>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Oscar Monteiro Editor</publisher-name>
<year>1898</year></element-citation></ref>
<ref id="B3">
	<mixed-citation>ASSIS, Machado de. A Semana: crônicas (1892-1893). Edição,
introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Hucitec, 1996.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
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<name><surname>ASSIS</surname> <given-names>Machado de</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">A Semana: cr&#xF4;nicas (1892-1893)</source>
<comment>Edi&#xE7;&#xE3;o, introdu&#xE7;&#xE3;o e notas de John Gledson</comment>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Hucitec</publisher-name>
<year>1996</year></element-citation></ref>
<ref id="B4">
	<mixed-citation>CHAZKEL, Amy. Leis da Sorte. O jogo do bicho e a construção
da vida privada. Campinas: Unicamp, 2014.</mixed-citation>
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<name><surname>CHAZKEL</surname> <given-names>Amy</given-names></name></person-group>
<chapter-title xml:lang="pt">Leis da Sorte</chapter-title>
<source xml:lang="pt">O jogo do bicho e a constru&#xE7;&#xE3;o da vida privada</source>
<publisher-loc>Campinas</publisher-loc>
<publisher-name>Unicamp</publisher-name>
<year>2014</year></element-citation></ref>
<ref id="B5">
	<mixed-citation>DARNTON, Robert. Poesia e polícia: redes de comunicação na
Paris do século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
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<name><surname>DARNTON</surname> <given-names>Robert</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">Poesia e pol&#xED;cia: redes de comunica&#xE7;&#xE3;o na Paris do s&#xE9;culo XVIII</source>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
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	<mixed-citation>Dicionário da Linguagem das Flores. Ornado com estampas
coloridas. 3. ed. Lisboa: Tipografia Lusitana, 1868.</mixed-citation>
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<collab>Dicion&#xE1;rio da Linguagem das Flores</collab></person-group>
<source xml:lang="pt">Ornado com estampas coloridas</source>
<edition>3. ed.</edition>
<publisher-loc>Lisboa</publisher-loc>
<publisher-name>Tipografia Lusitana</publisher-name>
<year>1868</year></element-citation></ref>
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	<mixed-citation>EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu tempo. Brasília:
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<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>EDMUNDO</surname> <given-names>Luiz</given-names></name></person-group>
<source xml:lang="pt">O Rio de Janeiro do meu tempo</source>
<publisher-loc>Bras&#xED;lia</publisher-loc>
<publisher-name>Senado Federal</publisher-name>
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<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>EL FAR</surname> <given-names>Alessandra</given-names></name></person-group>
<chapter-title xml:lang="pt">P&#xE1;ginas de sensa&#xE7;&#xE3;o</chapter-title>
<source xml:lang="pt">Literatura popular e pornogr&#xE1;fica no Rio de Janeiro (1870-1924)</source>
<publisher-loc>S&#xE3;o Paulo</publisher-loc>
<publisher-name>Companhia das Letras</publisher-name>
<year>2004</year></element-citation></ref>
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	<mixed-citation>FABREGAS, Augusto. Monólogos e cançonetas exibidos nos
teatros do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Montealverne,
1893.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>FERLIN, Uliana. A polifonia das modinhas. Diversidade e tensões
musicais no Rio de Janeiro na passagem do século XIX ao XX.
Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual de
Campinas, Campinas, 2006.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>FRANCA, Luciana Penna. Teatro amador: a cena carioca
muito além do arrabalde. Dissertação (Mestrado em História) –
Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2011.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>GERSON, Brasil. História das ruas do Rio: e da sua liderança na
história política do Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Lacerda Ed., 2000.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>MAGALHÃES, Felipe Santos. Ganhou, levou.... Do vale o
impresso ao vale o escrito. Uma história social do jogo do bicho
no Rio de Janeiro (1890-1960). Tese (Doutorado em Historia) –
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	<mixed-citation>MATTOS, Cláudia. Acertei no milhar: malandragem e samba no
tempo de Getúlio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.</mixed-citation>
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no Rio de Janeiro (1808-1946). Dissertação (Mestrado) – IUPERJ,
Rio de Janeiro, 1989.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>MENCARELLI, Fernando Antônio. A Voz e a Partitura: teatro
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	<mixed-citation>MISSE, Michel. Malandros, marginais e vagabundos y acumulação
social da violência no Rio de Janeiro. Tese (Doutorado em
Sociologia) – IUPERJ, Rio de Janeiro, 1999.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>ROMANI, Carlo. O “massacre” do Amapá, a guerra imperialista
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Libânio Silva, 1898.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>SOUZA, Silvia Cristina Martins de. As Noites do Ginásio: teatro
e tensões culturais na Corte (1832-1868). Campinas: Editora da
Unicamp, 2002.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>SOUZA, Silvia Cristina Martins de. Crise! Crise! Crise! A quebra
da Casa Souto nas letras de lundus compostos no Rio de Janeiro
na segunda metade do século XIX. Topoi, Rio de Janeiro, v. 15,
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lundus. Discografia de Baiano (1902-1915). 2008.</mixed-citation>
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	<mixed-citation>VIDAL, Armando. O jogo, a administração e a justiça. Rio de
Janeiro: Tipografia dos Annaes, 1917.</mixed-citation>
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