<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<!DOCTYPE article
  PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.0 20120330//EN" "http://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.0/JATS-journalpublishing1.dtd">
<article article-type="research-article" dtd-version="1.0" specific-use="sps-1.7" xml:lang="pt" xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink">
<front>
<journal-meta>
<journal-id journal-id-type="publisher-id">ibero</journal-id>
<journal-title-group>
<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
<publisher>
<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id pub-id-type="publisher-id">00008</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2018.2.31190</article-id>
<article-categories>
<subj-group subj-group-type="heading">
<subject>Entrevista</subject></subj-group></article-categories>
<title-group>
<article-title>&#x201C;A Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 os paradoxos da democracia brasileira&#x201D; &#x2013; entrevista com Olivier Dab&#xE8;ne</article-title>
<trans-title-group xml:lang="en">
<trans-title>&#x201C;The Constitution of 1988 and the paradoxes of the Brazilian democracy&#x201D; &#x2013; interview with Olivier Dab&#xE8;ne</trans-title></trans-title-group>
<trans-title-group xml:lang="es">
<trans-title>&#x201C;La Constituci&#xF3;n de 1988 y los paradojos de la democracia brasile&#xF1;a&#x201D; &#x2013; entrevista con Olivier Dab&#xE8;ne</trans-title></trans-title-group>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name><surname>Louault</surname><given-names>Fr&#xE9;d&#xE9;ric</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref> <bio>
<p>F<sc>r&#xE9;d&#xE9;ric</sc> L<sc>ouault</sc> <email>flouault@ulb.ac.be</email></p>
<p>&#x2022; Doutor em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica pelo Institut d&#x27;&#xC9;tudes Politiques de Paris (Sciences Po-Paris). Professor de Ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica na Universit&#xE9; libre de Bruxelles.</p>
<p>&#x2218; PhD in Political Science from Institut d&#x27;&#xC9;tudes Politiques de Paris (Sciences Po, Paris), Political Science Professor at the Universit&#xE9; Libre de Bruxelles (ULB). Researcher of the Centre d&#x27;&#xC9;tudes de la Vie Politique (CEVIPOL).</p></bio></contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name><surname>Marques</surname><given-names>Teresa Cristina Schneider</given-names></name><xref ref-type="aff" rid="aff2">**</xref> <bio>
<p>T<sc>eresa</sc> C<sc>ristina</sc> S<sc>chneider</sc> M<sc>arques</sc> <email>teresa.marques@pucrs.br</email></p>
<p>&#x2022; Doutora em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professora adjunta do Programa de P&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o em Ci&#xEA;ncias Sociais da Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul (PUCRS).</p>
<p>&#x2218; PhD in Political Science from Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Associate Professor of the Graduate Program in Social Sciences at Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Researcher of the Centro Brasileiro de Pesquisa em Democracia (CBPD).</p></bio></contrib>
</contrib-group>
<aff id="aff1">
<label>*</label>
<institution content-type="orgname">Universit&#xE9; libre de Bruxelles</institution>
<country country="BE">Belgium</country>
<institution content-type="original">Professor de Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica na Universit&#xE9; libre de Bruxelles.</institution></aff>
<aff id="aff2">
<label>**</label>
<institution content-type="normalized">Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</institution>
<institution content-type="orgname">Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</institution>
<institution content-type="orgdiv1">PPG em Ci&#xEA;ncias Sociais</institution>
<country country="BR">Brazil</country>
<institution content-type="original">Professora adjunta do PPG em Ci&#xEA;ncias Sociais, Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul (PUCRS).</institution></aff>
<pub-date pub-type="epub-ppub">
<season>May-Aug</season>
<year>2018</year></pub-date>
<volume>44</volume>
<issue>2</issue>
<fpage>293</fpage>
<lpage>296</lpage>
<permissions>
<license xml:lang="en" license-type="open-access" xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/">
<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<p>O<sc>livier</sc> D<sc>ab&#xE8;ne</sc> &#xE9; doutor em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica pelo Institut d&#x27;&#xC9;tudes Politiques de Grenoble (Sciences Po &#x2013; Grenoble). Atualmente &#xE9; professor do Institut d&#x27;&#xC9;tudes Politiques de Paris (Sciences Po &#x2013; Paris), onde atua desde 2005. Dab&#xE8;ne &#xE9; fundador e presidente do Observat&#xF3;rio pol&#xED;tico da Am&#xE9;rica Latina e Caribe (OPALC). Foi professor convidado em diversas universidades no exterior, inclusive no Brasil. Conv&#xE9;m ainda destacar a sua atua&#xE7;&#xE3;o enquanto respons&#xE1;vel cultural no Consulado da Fran&#xE7;a em S&#xE3;o Paulo-SP, Brasil, entre 2000 e 2002. Suas pesquisas se voltam para a an&#xE1;lise dos processos de integra&#xE7;&#xE3;o regional nas Am&#xE9;ricas e da democracia na Am&#xE9;rica Latina.</p></abstract>
<counts>
<fig-count count="0"/>
<table-count count="0"/>
<equation-count count="0"/>
<ref-count count="4"/>
<page-count count="4"/></counts></article-meta></front>
<body>
<p>As constitui&#xE7;&#xF5;es constituem o pilar da legitimidade pol&#xED;tica, mas sobretudo o fundamento &#x2013; necess&#xE1;rio ainda que insuficiente &#x2013; dos regimes democr&#xE1;ticos contempor&#xE2;neos. Como sublinhou o polit&#xF3;logo Georges Couffignal, &#x201C;um dos grandes desafios do constitucionalismo latinoamericano do fim do s&#xE9;culo XX &#xE9; ultrapassar a quest&#xE3;o da legitimidade dos governantes para estabelecer regimes efetivamente democr&#xE1;ticos&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B2">COUFFIGNAL, 2013</xref>, p. 59)<xref ref-type="fn" rid="fn1"><sup>1</sup></xref>. No caso do Brasil, a Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 desestruturou juridicamente as heran&#xE7;as autorit&#xE1;rias do regime militar e estabeleceu as bases democr&#xE1;ticas da Nova Rep&#xFA;blica. Os constituintes assumiram a vontade de romper com a ordem antidemocr&#xE1;tica da ditadura. Uma ruptura simbolicamente teatralizada durante os dezoito meses de elabora&#xE7;&#xE3;o do texto (<xref ref-type="bibr" rid="B4">MONCLAIRE; BARROS FILHO, 1988</xref>, p. 71). A promulga&#xE7;&#xE3;o da Carta, no dia 5 de outubro de 1988, at&#xE9; foi considerada por alguns estudos como o ponto final do processo de democratiza&#xE7;&#xE3;o do Brasil. Mas o que trouxe concretamente essa &#x201C;Constitui&#xE7;&#xE3;o cidad&#xE3;&#x201D; &#x2013; muitas vezes gabada por seu car&#xE1;ter inovador e progressista &#x2013; &#xE0; democracia brasileira?</p>
<p>As celebra&#xE7;&#xF5;es dos trinta anos da Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 acontecem em um clima de profunda desconfian&#xE7;a do povo brasileiro com as institui&#xE7;&#xF5;es democr&#xE1;ticas, de in&#xE9;dita polariza&#xE7;&#xE3;o social e pol&#xED;tica, e de insatisfa&#xE7;&#xE3;o com respeito &#xE0; competi&#xE7;&#xE3;o eleitoral. A destitui&#xE7;&#xE3;o da presidenta eleita Dilma Rousseff em 2016 consagrou o desvio de ferramentas democr&#xE1;ticas (nesse caso o procedimento de impeachment) a fins pol&#xED;ticos. Os congressistas corromperam a democracia brasileira, no sentido etimol&#xF3;gico da palavra, do latim <italic>corrumpere</italic>, que significa &#x201C;destruir totalmente&#x201D;. Essa corrup&#xE7;&#xE3;o moral do regime constitucional veio acrescentar-se &#xE0; corrup&#xE7;&#xE3;o moral e financeira do sistema pol&#xED;tico, refor&#xE7;ando o desacredito da democracia. O apoio &#xE0; democracia como regime pol&#xED;tico passou de 54% a 32% entre 2015 e 2016, ou seja uma queda de 22 pontos, o maior recuo em toda Am&#xE9;rica Latina (<xref ref-type="bibr" rid="B3">LATINOBAR&#xD3;METRO, 2016</xref>).</p>
<p>Nesse contexto, a Constitui&#xE7;&#xE3;o aparece mais como um instrumento da &#x201C;blindagem&#x201D; elitista do sistema pol&#xED;tico brasileiro (para retomar a palavra do fil&#xF3;sofo Marcos Nobre) do que como uma incubadora de inclus&#xE3;o democr&#xE1;tica. Essa &#x201C;<italic>Constitui&#xE7;&#xE3;o-programa</italic>&#x201D; pode ser considerada como essencialmente contradit&#xF3;ria e paradoxal. Por um lado, ela traz novidades pol&#xED;ticas e abre a possibilidade de inova&#xE7;&#xF5;es democr&#xE1;ticas (democracia participativa, mobiliza&#xE7;&#xF5;es sociais, liberdades individuais, etc.). Mas ela tamb&#xE9;m reflete e serve os interesses das elites que moldaram essa &#xFA;ltima fase da democratiza&#xE7;&#xE3;o: congressistas, grupos de press&#xE3;o, industriais, fazendeiros, etc.). Essas elites e seus herdeiros s&#xE3;o os guardi&#xF5;es do sistema pol&#xED;tico, impedindo toda iniciativa para uma reforma pol&#xED;tica. Apesar de ter passado por diversas reformas ao longo dos &#xFA;ltimos trinta anos, a Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 &#xE9; a armadura do Congresso. A democracia &#xE9; ref&#xE9;m da Constitui&#xE7;&#xE3;o. E a Constitui&#xE7;&#xE3;o &#xE9; ref&#xE9;m do Congresso.</p>
<p>Como interpretar essa rela&#xE7;&#xE3;o paradoxal entre Constitui&#xE7;&#xE3;o e democracia no Brasil contempor&#xE2;neo? Buscamos algumas respostas para essa pergunta com Olivier Dab&#xE8;ne, um dos grandes pensadores das democracias contempor&#xE2;neas. Doutor em ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica (1987), Olivier Dab&#xE8;ne &#xE9; professor na Sciences Po Paris (Fran&#xE7;a), com atua&#xE7;&#xE3;o em pol&#xED;tica comparada e em sociologia pol&#xED;tica. Pesquisador no Centro de estudos internacionais de Sciences Po (CERI), presidente do Observat&#xF3;rio pol&#xED;tico da Am&#xE9;rica latina e do Caribe (OPALC-Sciences Po), Olivier Dab&#xE8;ne acompanhou atrav&#xE9;s de suas pesquisas os processos de democratiza&#xE7;&#xE3;o na Am&#xE9;rica latina. Ele explora desde o final dos anos 1980 as l&#xF3;gicas das democratiza&#xE7;&#xF5;es e as transforma&#xE7;&#xF5;es das democracias na Am&#xE9;rica latina contempor&#xE2;nea. Ele dedicou dezenas de publica&#xE7;&#xF5;es a essa tem&#xE1;tica central da ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica internacional. Alguns livros dele prop&#xF5;em an&#xE1;lises comparativas sobre as democracias na Am&#xE9;rica latina: <italic>Am&#xE9;rique latine, la d&#xE9;mocratie d&#xE9;grad&#xE9;e</italic> (Complexe, 1997); <italic>Am&#xE9;rica latina no s&#xE9;culo XX</italic> (EDIPUCRS, 2003); <italic>La surprise &#xE9;lectorale. Paradoxes du suffrage universel</italic> (Karthala, 2007); <italic>Am&#xE9;rique Latine, les &#xE9;lections contre la d&#xE9;mocratie?</italic> (Presses de Sciences Po, 2008); <italic>Autoritarismes d&#xE9;mocratiques et d&#xE9;mocraties autoritaires. Convergences Nord-Sud</italic> (La D&#xE9;couverte, 2008); <italic>La gauche en Am&#xE9;rique latine, 1998-2012</italic> (Presses de Sciences Po, 2012). Mas Olivier Dab&#xE8;ne tamb&#xE9;m trabalhou mais especificamente sobre algumas situa&#xE7;&#xF5;es nacionais, como a Costa Rica e o Brasil: <italic>Costa Rica: Juicio a la Democracia</italic> (FLACSO-CEMCA, 1992); <italic>Exclusion et politique &#xE0; S&#xE3;o Paulo. Les outsiders de la d&#xE9;mocratie au Br&#xE9;sil</italic> (Karthala, 2006); <italic>Atlas du Br&#xE9;sil. Promesses et d&#xE9;fis d&#x27;une puissance &#xE9;mergente</italic> (Autrement, 2. ed., 2018).</p>
<p>Olivier Dab&#xE8;ne recentemente iniciou dois projetos de pesquisa que v&#xEA;m prolongar as suas refex&#xF5;es comparativas sobre a qualidade das democracias na Am&#xE9;rica latina que lhe permitem explorar as pr&#xE1;ticas democr&#xE1;ticas a diferentes n&#xED;veis de poder: a) um projeto sobre a qualidade de democracia a n&#xED;vel local (<italic>grassroots democracy</italic>) analisando o papel do <italic>street art</italic> no espa&#xE7;o p&#xFA;blico urbano e as rela&#xE7;&#xF5;es entre os artistas e as autoridades locais em cinco pa&#xED;ses da regi&#xE3;o; b) um projeto sobre o ciclo eleitoral de 2017-2019 na Am&#xE9;rica latina, no qual ele questiona as caracter&#xED;sticas da competi&#xE7;&#xE3;o eleitoral num contexto de degrada&#xE7;&#xE3;o da confian&#xE7;a dos eleitores com as institui&#xE7;&#xF5;es representativas (corrup&#xE7;&#xE3;o, crise econ&#xF4;mica, etc.).</p>
<p>As reflex&#xF5;es de Olivier Dab&#xE8;ne apresentadas a seguir refletem esse encontro entre um conhecimento fino e detalhado da democracia brasileira contempor&#xE2;nea e um conhecimento mais geral e comparativo sobre as democracias na Am&#xE9;rica latina (transi&#xE7;&#xF5;es, consolida&#xE7;&#xF5;es, degrada&#xE7;&#xF5;es). A entrevista permite vincular os trinta anos da Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 com algumas carater&#xED;sticas da democracia brasileira contempor&#xE2;nea. Esse balan&#xE7;o de trinta anos da Nova Rep&#xFA;blica brasileira tamb&#xE9;m alimenta reflex&#xF5;es mais gerais sobre a qualidade da democracia nos pa&#xED;ses da terceira onda de democratiza&#xE7;&#xE3;o, ao apontar algumas fragilidades dos modelos democr&#xE1;ticos, os desafios atuais e os riscos de &#x201C;des-democratiza&#xE7;&#xE3;o&#x201D;.</p>
<p>&#x25AA; <bold>Fr&#xE9;d&#xE9;ric Louault / Teresa Marques:</bold> Tr&#xEA;s anos ap&#xF3;s o retorno dos civis ao poder, a Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 chegou para concretizar um lento processo de democratiza&#xE7;&#xE3;o do Brasil, essencialmente negociado entre elites do pa&#xED;s. O povo brasileiro influenciou os debates durante a prepara&#xE7;&#xE3;o da carta, mas foram sobretudo os grupos de press&#xE3;o que conseguiram ter os seus interesses atendidos pelos deputados da Assembleia Constituinte. Como explicar essa dificuldade da popula&#xE7;&#xE3;o brasileira para se reestruturar e ter um peso maior no processo de transi&#xE7;&#xE3;o?</p>
<p>&#x25A1; <bold>Olivier Dab&#xE8;ne:</bold> <italic>A participa&#xE7;&#xE3;o da popula&#xE7;&#xE3;o brasileira na prepara&#xE7;&#xE3;o foi importante se n&#xF3;s a compararmos com outras experi&#xEA;ncias da regi&#xE3;o. Mas ela assumiu a forma de demandas pontuais direcionadas por organiza&#xE7;&#xF5;es, sindicatos, grupos de press&#xE3;o, etc., sobre as bases setoriais. A sociedade brasileira efetivamente teve dificuldades para articular projetos coerentes e fazer valer o interesse geral. A profus&#xE3;o de proposi&#xE7;&#xF5;es explica a extens&#xE3;o do texto final. Essa situa&#xE7;&#xE3;o se explica ao meu ver pelo contexto de sa&#xED;da de uma longa ditadura que relativamente guiou a transi&#xE7;&#xE3;o.</italic></p>
<p>&#x25AA; <bold>FL/TM:</bold> Ap&#xF3;s mais de vinte anos de regime militar, os constituinte procuraram fortalecer o vigor democr&#xE1;tico da nova carta. Muito avan&#xE7;ada em v&#xE1;rias dimens&#xF5;es, ela estimula por exemplo a participa&#xE7;&#xE3;o cidad&#xE3; e d&#xE1; abertura para novas pr&#xE1;ticas democr&#xE1;ticas. Podemos considerar essa Constitui&#xE7;&#xE3;o como uma exce&#xE7;&#xE3;o na paisagem latino-ameicana da &#xE9;poca?</p>
<p>&#x25A1; <bold>OD:</bold> <italic>Eu n&#xE3;o falaria em exce&#xE7;&#xE3;o, mas sobretudo diria que se trata de uma experi&#xEA;ncia pioneira. A Constitui&#xE7;&#xE3;o colombiana de 1991 &#xE9; igualmente um texto que prev&#xEA; v&#xE1;rias modalidades de participa&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica. A Am&#xE9;rica Latina dos anos 1990 conheceu uma onda de reformas constitucionais que buscaram aprofundar a democracia ao ampliar a express&#xE3;o cidad&#xE3; para al&#xE9;m das elei&#xE7;&#xF5;es (referendos, consultas populares, etc.), como no Peru, onde uma nova carta foi adotada em 1993.</italic></p>
<p>&#x25AA; <bold>FL/TM:</bold> A despeito do seu car&#xE1;ter democr&#xE1;tico, a carta de 1988 rapidamente se tornou objeto de numerosas cr&#xED;ticas. Muito detalhada e com restri&#xE7;&#xF5;es &#xE0;s emendas, muitas vezes &#xE9; vista como um fardo que pesa &#xE0; governabilidade e, <italic>in fine</italic>, bloqueia os principais movimentos reformistas. Dessa forma, os constituintes concederam um enorme poder ao congresso. Deputados e senadores agem como porteiros do sistema pol&#xED;tico: eles t&#xEA;m a capacidade de impedir todas as reformas capazes de contrariar os seus interesses. A Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 paralisou o Brasil?</p>
<p>&#x25A1; <bold>OD:</bold> <italic>Eu acredito que o texto possui um tom progressista que representou um verdadeiro avan&#xE7;o. Mas &#xE9; verdade que a Constitui&#xE7;&#xE3;o tamb&#xE9;m est&#xE1; entre as disposi&#xE7;&#xF5;es que penalizam a governabilidade do pa&#xED;s. A explica&#xE7;&#xE3;o provavelmente reside no fato de que a Constitui&#xE7;&#xE3;o foi elaborada por um congresso eleito em 1986 e n&#xE3;o por uma assembleia constituinte. Os deputados e senadores tinham a suas pr&#xF3;prias agendas na cabe&#xE7;a (elei&#xE7;&#xF5;es municipais e depois, elei&#xE7;&#xF5;es presidenciais) e eles se apressaram em garantir para si mesmos os poderes importantes. Prevendo que as reformas constitucionais devem ser adotadas pela maioria de dois ter&#xE7;os em cada das duas c&#xE2;maras, eles se certificaram tamb&#xE9;m que o equil&#xED;brio dos poderes n&#xE3;o mudaria t&#xE3;o facilmente.</italic></p>
<p>&#x25AA; <bold>FL/TM:</bold> O Partido dos Trabalhadores, que nos anos 1990 foi um incentivador da reforma pol&#xED;tica e de &#x201C;uma outra maneira de governar&#x201D;, parece tamb&#xE9;m ter sido absorvido pelo sistema ap&#xF3;s a elei&#xE7;&#xE3;o de Lula para a presid&#xEA;ncia da Rep&#xFA;blica (2002). Lula n&#xE3;o teria tido os meios para uma profunda reforma constitucional?</p>
<p>&#x25A1; <bold>OD:</bold> <italic>Com efeito, o PT se adaptou &#xE0;s institui&#xE7;&#xF5;es que ele criticava. Ele chegou mesmo a mostrar ser capaz de fazer um uso excepcional do sistema para garantir a governabilidade do pa&#xED;s. Lula com certeza teve os meios necess&#xE1;rios para lan&#xE7;ar uma importante reforma constitucional no come&#xE7;o do seu segundo mandato, quando ele se beneficiava de uma imensa popularidade. Nenhum parlamentar ousaria se opor a ele. Ele n&#xE3;o o fez, para mim, por raz&#xF5;es suficientemente racionais: ele tinha uma grande agenda de reformas e a maioria do congresso para ajud&#xE1;-lo a efetiv&#xE1;-la. Em certa medida, uma reforma constitucional teria paralizado essa agenda e ele n&#xE3;o precisava de forma alguma reformar a Constitui&#xE7;&#xE3;o para garantir a sua autoridade.</italic></p>
<p>&#x25AA; <bold>FL/TM:</bold> Em 2016, o congresso brasileiro destituiu a presidenta Dilma Rousseff por raz&#xF5;es claramente pol&#xED;ticas, desviando um instrumento jur&#xED;dico de controle democr&#xE1;tico (o procedimento de impeachment). Qual &#xE9; o peso dessa altern&#xE2;ncia n&#xE3;o-eleitoral para a democracia brasileira?</p>
<p>&#x25A1; <bold>OD:</bold> <italic>O fato de que o processo de impeachment possa ter sido acionado por motivos question&#xE1;veis, at&#xE9; mesmo ilegais, aumenta as interroga&#xE7;&#xF5;es quanto &#xE0; capacidade da Constitui&#xE7;&#xE3;o de assegurar a qualidade da democracia. Ele evidenciou uma disfun&#xE7;&#xE3;o institucional uma vez que uma constitui&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o prev&#xEA; a prote&#xE7;&#xE3;o contra a vontade pol&#xED;tica de parlamentares de destituir um (uma) presidente (presidenta). A democracia brasileira sofreu na sua pr&#xF3;pria &#x201C;autenticidade&#x201D; porque as regras do jogo foram violadas. Eu acrescentaria que, partindo do meu ponto de vista, o presidente Temer agravou esse atentado &#xE0; democracia acionando reformas que v&#xE3;o contra o programa pol&#xED;tico que os brasileiros aprovaram quando elegeram Dilma Rousseff. Ele n&#xE3;o se contentou com uma gest&#xE3;o dos neg&#xF3;cios correntes, na espera de uma normaliza&#xE7;&#xE3;o com as elei&#xE7;&#xF5;es. Ele governou sem legitimidade pol&#xED;tica.</italic></p>
<p>&#x25AA; <bold>FL/TM:</bold> Em 1955, o soci&#xF3;logo Roger Bastide destacou a for&#xE7;a da in&#xE9;rcia do Brasil, ou que a novidade se sacia de tradi&#xE7;&#xF5;es enquanto a tradu&#xE7;&#xE3;o de maqueia como novidade. Ele sintetizava o paradoxo brasileiro nos seguintes termos: &#x201C;Estaca do futuro, mas no passado. Excita&#xE7;&#xE3;o da velocidade, mas como bons freios&#x201D;<xref ref-type="fn" rid="fn2"><sup>2</sup></xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B1">BASTIDE, 1955</xref>, p. 118). Em suma, a Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 n&#xE3;o &#xE9; um reflexo contempor&#xE2;neo desses paradoxos? Por tr&#xE1;s da imagem de inova&#xE7;&#xE3;o e de mudan&#xE7;a, esta Carta n&#xE3;o consolidou a tradi&#xE7;&#xE3;o de in&#xE9;rica do Brasil?</p>
<p>&#x25A1; <bold>OD:</bold> <italic>Roger Bastide destacou a imbrica&#xE7;&#xE3;o entre o antigo e o novo em diferentes setores da sociedade brasileira. No Brasil contempor&#xE2;neo, p&#xF3;s-Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988, o estudo das elites no poder constitui um exemplo claro do fen&#xF4;meno. Uma vez no poder, as novas elites que emergiram no contexto de transi&#xE7;&#xE3;o brasileira se adaptaram ao sistema pol&#xED;tico (elas chegaram mesmo a contribuir para a atualiza&#xE7;&#xE3;o do sistema). Ao mesmo tempo, as antigas elites &#x2013; como por exemplo Jos&#xE9; Sarney e outros grandes cl&#xE3;s pol&#xED;ticos do Nordeste &#x2013; se apropriaram de novos h&#xE1;bitos pol&#xED;tico com o objetivo de responder &#xE0;s novas demandas sociais sem colocar em quest&#xE3;o as l&#xF3;gicas da sua domina&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica. Efetivamente, essa imbrica&#xE7;&#xE3;o constitui um fator de in&#xE9;rcia e as cumplicidades entre as antigas elites modernizadas e as novas elites tradicionalizadas limitam as perspectivas de transforma&#xE7;&#xE3;o profunda no Brasil. As ra&#xED;zes das desigualdade sociais permanecem bem ancoradas e a Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 poderia facilmente romper com l&#xF3;gicas hist&#xF3;ricas de domina&#xE7;&#xE3;o que se mantiveram consolidadas durante aproximadamente cinco s&#xE9;culos. No entanto, nem tudo &#xE9; in&#xE9;rcia. A Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988 abriu a via de inova&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas que vieram pertubar a l&#xF3;gica de in&#xE9;rcia, de qualquer forma. A efetiva&#xE7;&#xE3;o de instrumentos de democracia participativa, por exemplo, que se desenvolveu desde 1989 em Porto Alegre e depois se desenvolveu em algumas cidades brasileiras, conseguiram sustenta&#xE7;&#xE3;o no novo pilar participativo da Constitui&#xE7;&#xE3;o de 1988</italic>.</p></body>
<back>
<fn-group>
<fn fn-type="other" id="fn1">
<label>1</label>
<p>Tradu&#xE7;&#xE3;o nossa.</p></fn>
<fn fn-type="other" id="fn2">
<label>2</label>
<p>Tradu&#xE7;&#xE3;o nossa.</p></fn></fn-group>
<ref-list>
<title>Refer&#xEA;ncias</title>
<ref id="B1">
<element-citation publication-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>BASTIDE</surname> <given-names>Roger</given-names></name></person-group>
<article-title>Trois livres sur le Br&#xE9;sil</article-title>
<source>Revue Fran&#xE7;aise de Science Politique</source>
<year>1955</year>
<issue>1</issue>
<fpage>110</fpage>
<lpage>118</lpage></element-citation>
<mixed-citation>BASTIDE, Roger. Trois livres sur le Br&#xE9;sil. <italic>Revue Fran&#xE7;aise de Science Politique</italic>, 1955, n. 1, p. 110-118.</mixed-citation></ref>
<ref id="B2">
<element-citation publication-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>COUFFIGNAL</surname> <given-names>Georges</given-names></name></person-group>
<chapter-title>La nouvelle Am&#xE9;rique latine</chapter-title>
<source>Laboratoire politique de l&#x27;Occident</source>
<publisher-loc>Paris</publisher-loc>
<publisher-name>Presses de Sciences Po</publisher-name>
<year>2013</year></element-citation>
<mixed-citation>COUFFIGNAL, Georges. <italic>La nouvelle Am&#xE9;rique latine</italic>. Laboratoire politique de l&#x27;Occident. Paris: Presses de Sciences Po, 2013.</mixed-citation></ref>
<ref id="B3">
<element-citation publication-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<collab>LATINOBAR&#xD3;METRO</collab></person-group>
<source>Informe Latinobar&#xF3;metro 2016</source>
<day>02</day>
<month>09</month>
<year>2016</year>
<comment>&#x3C;<ext-link xlink:href="http://www.latinobarometro.org/latNewsShowMore.jsp?evYEAR=2016&#x26;evMONTH=9" ext-link-type="uri">http://www.latinobarometro.org/latNewsShowMore.jsp?evYEAR=2016&#x26;evMONTH=9</ext-link>&#x3E;</comment></element-citation>
<mixed-citation>LATINOBAR&#xD3;METRO. <italic>Informe Latinobar&#xF3;metro 2016</italic>, 2 sept. 2016. &#x3C;http://www.latinobarometro.org/latNewsShowMore.jsp?evYEAR=2016&#x26;evMONTH=9&#x3E;.</mixed-citation></ref>
<ref id="B4">
<element-citation publication-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name><surname>MONCLAIRE</surname> <given-names>St&#xE9;phane</given-names></name> <name><surname>BARROS</surname> <given-names>Cl&#xF3;vis de</given-names> <suffix>FILHO</suffix></name></person-group>
<article-title>Br&#xE9;sil: l&#x27;&#xE9;criture d&#x27;une constitution</article-title>
<source>Politix</source>
<volume>1</volume>
<issue>2</issue>
<year>1988</year></element-citation>
<mixed-citation>MONCLAIRE, St&#xE9;phane; BARROS FILHO, Cl&#xF3;vis de. Br&#xE9;sil: l&#x27;&#xE9;criture d&#x27;une constitution. <italic>Politix</italic>, v. 1, n. 2, 1988.</mixed-citation></ref></ref-list>
</back>
</article>