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Ditadura, memória e literatura no Paraguai: Asunción Bajo Toque de Siesta (2007) e a crítica do testemunho *
Paulo Renato da Silva
Paulo Renato da Silva
Ditadura, memória e literatura no Paraguai: Asunción Bajo Toque de Siesta (2007) e a crítica do testemunho *
Dictatorship, memory and literature in Paraguay: Asunción Bajo Toque de Siesta (2007) and the criticism of testimony
Dictadura, memoria y literatura en Paraguay: Asunción Bajo Toque de Siesta (2007) y la crítica del testimonio
Estudos Ibero-Americanos, vol. 44, núm. 2, pp. 326-339, 2018
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
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Resumo: O objetivo deste artigo é analisar as representações da ditadura de Alfredo Stroessner e de seus opositores no romance paraguaio Asunción Bajo Toque de Siesta (2007), de Hermes Giménez Espinoza. Consideramos que essas representações configuram uma crítica a testemunhos sobre a ditadura ao assinalarem um “esvaziamento” do espaço público e uma descrença na política partidária e institucional enquanto instrumentos transformadores da sociedade. No romance, a desilusão com a política partidária e institucional desencadeia processos de reelaboração da memória não apenas do período stronista, mas de toda a história paraguaia. A partir da história paraguaia e da literatura do país, apontamos possíveis explicações sobre esses processos de reelaboração e as suas implicações político-identitárias.

Palavras-chave: ParaguaiParaguai,ditadura militarditadura militar,literaturaliteratura,testemunhotestemunho,memóriamemória.

Abstract: The goal of this paper is to analyze the representations of the Stroessner dictatorship and its opponents in the Paraguayan novel Asunción Bajo Toque de Siesta (2007), by Hermes Giménez Espinoza. We believe that these representations constitute a criticism of testimonies about the dictatorship because point to a “emptying” of public space and a disbelief in partisan and institutional politics as transforming instruments of society. In the novel, the disappointment with partisan and institutional politics triggers memory processes not only of stronista period, but also of the entire Paraguayan history. Based on the Paraguayan history and literature, we aim to possible explanations about these memory processes and their political and identity implications.

Keywords: Paraguay, military dictatorship, Literature, testimony, memory.

Resumen: El objetivo de este artículo es analizar las representaciones de la dictadura Stroessner y de sus opositores en la novela paraguaya Asunción Bajo Toque de Siesta (2007), de Hermes Giménez Espinoza. Consideramos que esas representaciones configuran una crítica a testimonios sobre la dictadura al señalar un “vaciamiento” del espacio público y una incredulidad en la política partidista e institucional como instrumentos transformadores de la sociedad. En la novela, la desilusión con la política partidista e institucional desencadena procesos de reelaboración de la memoria no sólo del período stronista, sino de toda la historia paraguaya. A partir de la historia paraguaya y de la literatura del país, señalamos posibles explicaciones sobre esos procesos de reelaboración y sus implicaciones político-identitarias.

Palabras clave: Paraguay, dictadura militar, literatura, testimonio, memoria.

Carátula del artículo

Seção Livre

Ditadura, memória e literatura no Paraguai: Asunción Bajo Toque de Siesta (2007) e a crítica do testemunho *

Dictatorship, memory and literature in Paraguay: Asunción Bajo Toque de Siesta (2007) and the criticism of testimony

Dictadura, memoria y literatura en Paraguay: Asunción Bajo Toque de Siesta (2007) y la crítica del testimonio

Paulo Renato da Silva
Universidade Federal da Integração Latino-Americana, Brasil
Estudos Ibero-Americanos, vol. 44, núm. 2, pp. 326-339, 2018
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Financiamento
Fonte: CNPq
Número do contrato: 14/2014
Descrição completa: Este artigo é fruto de pesquisa realizada com apoio do CNPq (Edital MCTI/CNPq/Universal 14/2014).
Introdução

Al llegar a la calle Colón percibo que sube un viento desde el río, que ni aún a esta hora se siente fresco. Es el mismo horrible viento que asfixia en la siesta produciendo desgano, abulia, sopor. Rodea a la ciudad como el río. Nadie puede escapar de sus efectos. Es una cosa semisólida que se pega al cuerpo y lo envuelve como una gelatina.

Miro hacia el puerto y luego hacia el sur. Doce menos cuarto. Tengo sueño, estoy cansada, estoy borracha, pero no quiero ir a dormir.

Nita, narradora-protagonista de Asunción Bajo Toque de Siesta ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 15).

(…) encontrei na literatura (tão hostil a que se estabeleçam sobre ela limites de verdade) as imagens mais exatas do horror do passado recente e de sua textura de idéias e experiências.

Beatriz Sarlo (2007, p. 117)

A ditadura (1954-1989) do general Alfredo Stroessner (1912-2006) marca o Paraguai. Apesar das permanências do stronismo na política e na sociedade paraguaia, o conhecimento sobre o período da ditadura avança no país e fora dele. A pesquisadora argentina Liliana M. Brezzo destaca o peso do nacionalismo e da política sobre a historiografia paraguaia, o que seriam heranças da ditadura. Porém, a autora considera que existem mudanças importantes em curso desde a queda de Stroessner em 1989:

El necesario eclipse del influjo nacionalista en la práctica de la historia en Paraguay aún no se ha producido. No obstante, una serie de acontecimientos originados en la transición ha abierto un contexto histórico optimista. La caída del régimen de Alfredo Stroessner, en 1989, el inicio del proceso de redemocratización y la integración regional del MERCOSUL, en 1991, han favorecido los esfuerzos por superar el aislamiento, y procurar una historia más abierta a nuevos enfoques teóricos y temáticos (…). Los estudios históricos siguen ocupando un lugar importante en las actividades culturales del país, aunque persiste aún “mucho fuego y poca luz” en la práctica de la historia, quizás por la pervivencia de un interés no genuinamente cultural, sino condicionado y plegado a las exigencias y a los objetivos de la política ( BREZZO, 2010, p. 29).

Após a queda da ditadura, a Associação Nacional Republicana (ANR), partido de Stroessner – mais conhecido como Partido Colorado –, continuou dominando a política paraguaia e vencendo as eleições presidenciais. Contudo, esse período também foi marcado pela (re)organização de movimentos políticos e sociais de oposição, os quais denunciavam os crimes cometidos pela ditadura. Esses movimentos pressionavam os presidentes colorados a atenderem às demandas por justiça e reparação às vítimas da ditadura e cobravam por ações contra as desigualdades sociais existentes no país. O fortalecimento gradual desses movimentos somado à incapacidade dos governos colorados para atender a essas demandas levaram à eleição de Fernando Lugo em 2008. A ascensão de Fernando Lugo ao governo do Paraguai colaborou para o amadurecimento dos debates e das pesquisas históricas, particularmente sobre o stronismo. Seu governo implantou e apoiou políticas em relação às vítimas da ditadura. Políticas de reparação econômica, mas também histórica. Após a ditadura, foi o primeiro presidente que não pertencia ao Partido Colorado. Lugo, ex-bispo da Igreja Católica, se filiou ao Partido Democrata Cristão 1 e liderou uma coalizão de partidos e de movimentos sociais de oposição – nem todos de esquerda, o que aprofundaremos a seguir. Desde a campanha, Lugo buscou se legitimar como um rompimento com a política paraguaia anterior e as políticas voltadas às vítimas da ditadura fizeram parte deste processo de legitimação. Um exemplo dessas políticas pode ser visto na criação, em 2009, da “Dirección General de Verdad, Justicia y Reparación”. A Direção foi criada para dar prosseguimento ao trabalho da “Comisión de Verdad y Justicia”, cujo relatório final, sobre os crimes cometidos pela ditadura, foi finalizado em 2008. 2

A deposição do governo Lugo em 2012 através do golpe parlamentário orquestrado pelos partidos Colorado e Liberal trouxe novamente à tona as imagens tradicionalmente relacionadas ao país. Federico Franco, vice de Lugo, era do Partido Liberal, rompeu com o governo e viu na deposição uma oportunidade para os liberais voltarem à presidência do país, posto que não ocupavam desde 1940; aos colorados, por sua vez, interessava destituir um governo que tinha promovido rupturas – ainda que tímidas – em relação ao stronismo e à estrutura social do país. Com o golpe parlamentário, o Paraguai parecia, mais uma vez, estar na contramão dos seus vizinhos, o que resultou, por exemplo, na suspensão do país no Mercosul. O retorno do Partido Colorado ao governo nacional em 2013, com a eleição de Horacio Cartes, parece confirmar as perspectivas menos otimistas em relação ao país. Essas perspectivas destacam a permanência do stronismo e as barreiras existentes para o “desenvolvimento” econämico e a democracia no país.

As recentes tensões políticas que resultaram no incêndio do Congresso paraguaio em 31 de março de 2017 cresceram no decorrer da escrita deste artigo. As tensões surgiram em torno de uma proposta de reeleição presidencial apoiada por colorados e luguistas. A reeleição é proibida pela Constituição de 1992 – a primeira após a ditadura –, pois Stroessner usou o mecanismo da reeleição para se manter no poder por mais de três décadas. Apesar das versões plausíveis que ressaltam a atuação e a responsabilidade do Partido Liberal e dos meios de comunicação no episódio do incêndio do Congresso, somos levados a crer que as manifestações anteriores e as que ocorreram em Assunção e no interior do país naquele dia também estiveram relacionadas a grupos e setores mais amplos da sociedade paraguaia, mobilizados por uma recusa da política partidária e institucional vigente no país. Apesar de ser algo que marca diversos países nos últimos anos – e não apenas na América Latina –, consideramos que, no caso paraguaio, essa recusa da política partidária e institucional seja potencializada pela memória da ditadura Stroessner. Além da ditadura paraguaia ter sido liderada por um partido político que já existia, o Colorado, conseguiu cooptar setores importantes de outros partidos ao permitir uma oposição moderada. Ao permitir essa oposição, a intenção da ditadura era legitimar as (re)eleições – fraudulentas – de Stroessner. 3 Além disso, nomes ligados a esses partidos teriam sido favorecidos por práticas clientelistas e ilegais como o contrabando. 4 Ainda que existam evidentes diferenças programáticas entre luguistas e colorados, a aproximação recente em torno da proposta de reeleição presidencial – apesar de terem se enfrentado no golpe parlamentário de 2012 – parece ter evocado com força a memória de práticas questionáveis dos partidos políticos paraguaios. 5 Conforme lembra Antonio Mitre, “(…) a memória contribui para organizar o torvelinho de nossas percepções, atualizando-as e fixando-as dentro de uma ordem reconhecível (…)” ( MITRE, 2003, p. 13).

Desde a ditadura e principalmente após a sua queda em 1989, a literatura paraguaia é um espaço privilegiado de representações, denúncias e debates sobre o país. Muita coisa mudou desde que o peruano Alberto Hidalgo (1897-1967) escreveu em 1926 que “Del Paraguay sé que no conoce ni de oídas la palabra arte. Allí solo se dan loros y yerba mate” (apud PIZARRO, 2010, p. 391). Ou desde que o também peruano Luis Alberto Sánchez (1900-1994) se referiu à literatura do país como uma “incógnita” em Nueva Historia de la Literatura Americana (1944) (apud PIZARRO, 2010, p. 391). Tais considerações não se referem apenas ou necessariamente ao estado da literatura paraguaia, pois também indicam a falta de circulação de suas obras, assim como o desconhecimento ou desinteresse dos países vizinhos em relação à produção paraguaia. Tampouco a literatura mais recente do país se resume a Augusto Roa Bastos (1917-2005), o escritor paraguaio mais (re)conhecido nacional e internacionalmente, sobretudo em virtude do livro Yo, el Supremo (1974) 6, escrito no exílio durante a ditadura de Alfredo Stroessner. Como destaca Mar Langa Pizarro sobre a produção literária posterior a 1980, a “(…) narrativa paraguaya se ha alejado del folclorismo, ha actualizado su temática y ha sucumbido a la necesidad de forjarse un estilo” (apud PIZARRO, 2010, p. 404). E, quanto ao que nos interessa mais diretamente neste trabalho, a autora destaca a presença do romance histórico na literatura paraguaia e como, “Últimamente, la novela ha denunciado el stronismo” (apud PIZARRO, 2010, p. 407).

No entanto, essa denúncia contra o stronismo não se limita à ditadura em si, aos seus saudosistas ou ao Partido Colorado, que continua sendo o maior e mais poderoso do país. A crítica se estende aos demais partidos políticos e setores da sociedade paraguaia que foram coniventes com a ditadura e continuam sendo com as suas heranças. A partir de Asunción Bajo Toque de Siesta (2007), de Hermes Giménez Espinoza (1953-2010), o objetivo deste artigo é analisar o romance enquanto crítica de testemunhos sobre a ditadura Stroessner. Em 2007, quando o romance foi publicado, o Partido Colorado vivia uma de suas maiores crises junto à opinião pública paraguaia e, desde o ano anterior, avançava a candidatura de Fernando Lugo à presidência. A memória da ditadura Stroessner foi um dos principais temas que marcaram a campanha e a própria candidata colorada, Blanca Ovelar, endossava as críticas à ditadura e frisava o seu distanciamento político e pessoal em relação ao stronismo. Durante a campanha, a candidata declarou que o “(…) nome do Partido Colorado foi usurpado por Stroessner e seus comparsas. Fui vítima da ditadura, meu pai foi um perseguido político por suas tendências socialistas. Foi preso muitas vezes. Não tenho nada a ver com essa história nefasta (…)” (apud CARMO, 2008).

Se por um lado a candidatura de Lugo, oriundo da Igreja Católica, representava a crise da tradicional política partidária e institucional do país, por outro era apoiada por uma coalizão de partidos opositores, dentre os quais estava o já mencionado e tradicional Partido Liberal, que indicou o vice Federico Franco. Com a sedução e os perigos que o olhar retrospectivo oferece, Asunción Bajo Toque de Siesta parece destoar das perspectivas de mudança que marcavam o clima pré-eleitoral em 2007. A aliança entre os colorados e os liberais na queda de Lugo em 2012 e a recente tentativa de aproximação entre luguistas e colorados em torno da proposta de reeleição para presidente ressignificam o livro para além do período histórico representado – o da ditadura – e daquele em que foi publicado – 2007 –, pois Assunção e o Paraguai seguiriam “bajo toque de siesta”.

Nita é a narradora-protagonista de Asunción Bajo Toque de Siesta. Ainda sob os últimos anos da ditadura, conta a sua vida desde a infância, se concentrando nos anos de militância contra Stroessner e no seu posterior desencantamento e afastamento da luta político-partidária. Giménez Espinoza estrutura a maior parte do romance como um testemunho dado por Nita. Sobre a condição de testemunha e o testemunho como relato, Márcio Seligmann-Silva destaca o seguinte:

Em latim pode-se denominar o testemunho com duas palavras: testis e superstes. A primeira indica o depoimento de um terceiro em um processo. (…). Também o sentido de superstes é importante no nosso contexto: ele indica a pessoa que atravessou uma provação, o sobrevivente. O conceito de mártir está próximo a essa acepção do sobrevivente. Martyros em grego significa justamente testemunha. Se a noção de testemunha como terceiro já anuncia o tema da verificação da “verdade”, (…) a acepção de testemunho como sobrevivente e como mártir indica a categoria excepcional do “real” que o testemunho tenta dar conta a posteriori ( SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 373-374).

Jaime Ginzburg (2008) considera que os testemunhos têm uma dupla importância: expressariam experiências de vítimas do autoritarismo que marca os Estados nacionais e as sociedades latino-americanas e questionariam o autoritarismo no estabelecimento dos cânones literários, que tendem a colocar os testemunhos como uma expressão “inferior” esteticamente. Em Asunción Bajo Toque de Siesta, a representação literária do testemunho de Nita contempla essas características. Porém, apesar de expor diferentes manifestações de autoritarismo – político, social, de gênero, entre outros –, o testemunho de Nita não se apresenta como “verdade”, tampouco como representativo de um grupo ou capaz de transformar o Estado nacional ou a sociedade paraguaia.

Nita é uma sobrevivente. O relato em primeira pessoa potencializa a força da narrativa e das “provações” sofridas. Entretanto, a relação entre sobrevivente e mártir não se estabelece no romance. De família opositora, sofreu dificuldades econômicas, prisão, abusos sexuais e outras torturas na cadeia. Nita resiste a esses problemas, mas desiste da causa. Não reivindica para si a condição de mártir, pois tem consciência de suas próprias contradições. Ao situar a desilusão e a desistência de Nita ainda sob a ditadura, o romance parece apontar para os pontos de desencontro que existem entre experiência e relato, funcionando como um contradiscurso ou como um terceiro vértice das memórias sobre o período: nem a reivindicação da “modernidade” que, segundo os saudosistas, teria sido empreendida por Stroessner – não há sinais desta “modernidade” no livro –, nem a reivindicação da vitória contra o ditador, tendo em vista as evidentes permanências do stronismo e as cumplicidades existentes entre diferentes forças político-partidárias do país.

A forma como Giménez Espinoza estrutura o romance reforça a crítica aos testemunhos. Poucas falas estão entre aspas indicando fidedignidade. Não há marcas como travessão ou aspas para indicar a grande maioria das falas de outros personagens que, por vezes, se confundem com o relato de Nita. Contudo, ainda que mínimas, há falas entre aspas, o que nos indicam que há crítica, mas não negação do testemunho em Asunción Bajo Toque de Siesta. O testemunho de Nita se configura, assim, entre a evidência e a representação do vivido.

Ao analisar o caso argentino, Beatriz Sarlo destaca que os testemunhos foram fundamentais após a queda da última ditadura militar. Para as vítimas, narrar era uma forma de restabelecer laços pessoais e sociais destruídos pela ditadura. O valor jurídico e moral dado aos testemunhos das vítimas, por sua vez, era uma forma do Estado e da sociedade argentina restabelecerem laços com as vítimas e construírem uma transição mais consistente para a democracia:

De todas as matérias com que se pode compor uma história, os relatos em primeira pessoa são os que demandam maior confiança, e ao mesmo tempo são os que se prestam menos abertamente à comparação com outras fontes. A demanda de crença exigida por quem pode dizer “Falo porque sofri na própria carne o que conto” se projeta sobre outro (ou o mesmo) sujeito, que afirma: “Digo isso porque soube diretamente” ( SARLO, 2007, p. 117).

Sarlo destaca que a inegável necessidade e importância dos testemunhos levam a uma dificuldade de se exercer uma crítica sobre eles, como a que é feita sobre outras fontes históricas. A dificuldade ou mesmo impossibilidade de comparação com outras fontes, dado o caráter traumático, excepcional e clandestino de muitas experiências narradas, representariam um obstáculo para a apreensão dos processos culturais e políticos de construção dos testemunhos e do sentido fidedigno que lhes são atribuídos. Sarlo esclarece que não se trata “(…) de questionar o testemunho em primeira pessoa como instrumento jurídico, como modalidade de escrita ou como fonte da história (…)” (2007, p. 21), mas de analisar a “(…) visibilidade que “o pessoal” adquiriu como lugar não simplesmente de intimidade, mas de manifestação pública” (2007, p. 20-21), o que levaria a implicações – e apropriações – políticas para além das experiências individuais das vítimas:

Muitas vezes se disse: vivemos na era da memória e o temor ou a ameaça de uma “perda de memória” corresponde, mais que à supressão efetiva de algo que deveria ser lembrado, a um “tema cultural” que, em países onde houve violência, guerra ou ditaduras militares, se entrelaça com a política ( SARLO, 2007, p. 21).

Segundo a autora, um dos papeis da literatura seria o de crítica aos testemunhos, ao representar “Aquilo que não foi dito” ( SARLO, 2007, p. 118). Acrescentamos: aquilo que não foi, aquilo que não pode e aquilo que não aceitariam que fosse dito enquanto testemunho em primeira pessoa, seja a solidão do militante social que carrega consigo um comprimido de veneno para escapar à prisão e à tortura, como em Glosa, de Juan José Saer, ou ainda o trabalho do oficial repressor e do soldado raso em Duas vezes Junho de Martín Kohan, movidos pela dúvida sobre a idade em que seria possível torturar uma criança – exemplos dados por Sarlo. Conforme indicamos acima, consideramos que Asunción Bajo Toque de Siesta, de Hermes Giménez Espinoza, exerce esse papel de crítica aos testemunhos sobre a ditadura na sociedade paraguaia. Em 2007, quando a oposição crescia e se colocava como alternativa às heranças do stronismo; quando os próprios colorados procuravam se dissociar do stronismo, Asunción Bajo Toque de Siesta coloca em primeiro plano o “vento quente” do qual “ninguém pode escapar de seus efeitos”, inclusive na madrugada assuncena: “É uma coisa semissólida que gruda no corpo e o envolve como uma gelatina” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 15). Coloca em primeiro plano um passado que não passa. No entanto, existem particularidades importantes em relação ao caso argentino analisado por Sarlo.

A crítica aos testemunhos proposta por Sarlo se dá em um país no qual houve e segue em curso um expressivo (re)conhecimento social, político e institucional das memórias das vítimas da ditadura militar, apesar da chegada de Maurício Macri à presidência em 2015 ter diminuído bastante a sintonia entre o Estado e os movimentos sociais envolvidos com a questão. No caso do Paraguai existem poucas políticas públicas efetivas e contínuas sobre o tema, apesar de medidas importantes terem sido tomadas durante o governo Lugo e inclusive sob governos colorados, como a criação da “Comisión de Verdad y Justicia” em 2003. Do Poder Judiciário vale ressaltar o papel decisivo na organização do “Archivo del Terror” e do “Museo de la Justicia”. 7 Contudo, o levantamento, divulgação e preservação das memórias das vítimas continua sendo um trabalho essencialmente desenvolvido por organizações não-governamentais e representantes da sociedade civil. No caso da Argentina, o “excesso” de memória parece demandar a crítica proposta por Sarlo. No caso do Paraguai, justamente o contrário: o caráter “intermitente” desta memória no espaço público, emergindo apenas sob circunstâncias específicas e ao sabor das disputas político-partidárias.

Consideramos que Asunción Bajo Toque de Siesta realiza essa crítica a partir do que Renato Franco chama de “a cultura da derrota” ao se referir ao romance brasileiro posterior a 1968, quando a ditadura aumentou a repressão no Brasil e desarticulou a oposição de esquerda. Segundo Franco, além de representar o autoritarismo, a literatura do período colocava em primeiro plano os próprios escritores, que se perguntavam sobre qual deveria ser o seu papel naquela sociedade:

(…) a literatura se viu forçada ou a elaborar intensa sensação de sufoco (“de esquartejamento”) que contaminava a atmosfera truculenta de então (…) ou a narrar os impasses do escritor que não sabia decidir se era mais necessário escrever ou fazer política, constituindo assim um tipo de romance desiludido tanto com as possibilidades de transformação revolucionária da sociedade como com sua própria condição (…) ( FRANCO, 2003, p. 354).

No caso do Paraguai, essa crítica aos testemunhos a partir da literatura também nos indica a busca – e o exercício – de autonomia artística e intelectual em um país de escasso mercado editorial e de forte dependência de artistas, escritores e intelectuais em relação ao Estado e empregos públicos. O autor de Asunción Bajo Toque de Siesta tem uma história ligada à busca dessa autonomia. Durante a ditadura, Hermes Giménez Espinoza se destacou como ator no teatro independente. Participou do “Teatro Popular de Vanguardia”, do “Teatro Estudio Libre”, do “Grupo de Teatro AtyÑeé” e do “Grupo Pax Teatro”, do qual foi diretor. Diante dos interesses e das recorrentes pressões político-partidárias existentes no país, a ficção e sua liberdade representacional se apresentam como resistência e evasão: resistência porque evasão e evasão porque resistência. A literatura permitiria apreender processos da sociedade paraguaia para além dos partidos políticos tradicionais e de uma suposta cultura política autoritária que marcaria o Estado e a sociedade ( GOIRIS, 2008). Em Asunción Bajo Toque de Siesta esses elementos não são negados, mas vemos a literatura como expressão crítica de sua existência.

O objetivo deste artigo é analisar as representações da ditadura Stroessner e de seus opositores no romance paraguaio Asunción Bajo Toque de Siesta (2007), de Hermes Giménez Espinoza. Consideramos que essas representações configuram uma crítica a testemunhos sobre a ditadura ao assinalarem um “esvaziamento” do espaço público e uma descrença na política partidária e institucional enquanto instrumentos transformadores da sociedade. No romance, a desilusão com a política partidária e institucional desencadeia processos de reelaboração da memória não apenas do período stronista, mas de toda a história paraguaia. A partir da história paraguaia e da literatura do país, apontamos possíveis explicações sobre esses processos de reelaboração e as suas implicações político-identitárias. Antes, porém, apresentamos alguns dos principais personagens e elementos do romance.

Narrativa, testemunho e crítica em Asunción Bajo Toque de Siesta, de Hermes Giménez Espinoza

Em Asunción Bajo Toque de Siesta, de Hermes Giménez Espinoza, a protagonista e narradora é a jovem Nita. A narrativa se passa entre as décadas de 1970 e 1980, portanto, sob a ditadura Stroessner. A queda do ditador em 1989 não está representada no livro. Como indica o título, o romance é ambientado em Asunción, capital do Paraguai. Inicialmente a narrativa se desenvolve nos últimos anos da ditadura de Stroessner: Nita, desiludida com os seus “companheiros” de militância, busca abrigo na casa da mãe. O local desperta suas memórias e a narrativa se direciona para o passado.

O pai de Nita é um advogado filiado ao Partido Liberal que, sob a ditadura Stroessner, do Partido Colorado, passa a ter dificuldades para trabalhar. Ainda adolescente, Nita começa a namorar Ramón, de família colorada, o que gera desconforto no pai da protagonista pelas diferenças políticas entre as duas famílias. Logo depois do início do namoro, o pai de Nita adoece e faleceria no ano seguinte.

Roberto, irmão de Nita, milita na esquerda e é perseguido pela ditadura. Como represália pelas atividades do irmão, Nita é presa durante uma ação policial na casa da família. Na cadeia, é abandonada pelo namorado Ramón e, além disto, é abusada sexualmente por policiais e sofre diversos outros tipos de torturas.

Após ser solta, Nita começa um relacionamento amoroso com Raúl, amigo de militância do seu irmão Roberto. Nita e Raúl se casam rapidamente. Logo após o casamento, Nita descobre estar grávida e dá à luz uma menina, que também é chamada de Nita. A protagonista divide seu tempo entre a família, o emprego em um banco e a faculdade de Contabilidade. Ela tem certeza que sua filha é fruto da violência sexual sofrida na cadeia. “Era idéntica al policía” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 128), pensou Nita ao ver a sua filha pela primeira vez. Contudo, Nita e Raúl não conversam abertamente sobre isso e ambos se distanciam de questões políticas.

Cerca de um ano depois, Raúl é acusado de delação por ex-companheiros de militância, o que perturba o seu comportamento. Torna-se sexualmente agressivo, o que aumenta as lembranças de Nita sobre o estupro sofrido na prisão. Nita, então, se distancia de Raúl – e da filha – e inicia um relacionamento a três com José Luis, cliente do banco no qual trabalhava, e uma prima dele. Na mesma época se envolve com um partido de esquerda – não nomeado no romance.

Nita participa do partido, mas possui uma consciência crítica em relação aos seus “companheiros” de militância. “(…) uno de los seis viejos dueños del partido se sienta a mi mesa trayendo una cara botella de vino francés. Y yo que pedí la cerveza más barata” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 17). Haveria, portanto, uma contradição entre o discurso e a condição de classe dos membros do partido, o que repercutiria em suas práticas. Sobre a citação anterior, é interessante que um bar seja um dos espaços nos quais se evidenciam essas contradições. Sobre a “cultura da derrota” em romances brasileiros no pós-1968, Franco destaca o seguinte:

(…) o espaço privilegiado desses romances, no qual se verificam grande parte dos acontecimentos, é o bar e, portanto, o local da boêmia, que é, a um só tempo, refúgio (in)seguro e local de oposição, fato sem dúvida bastante significativo, visto que tal espaço não é propriamente o da ação, mas o da tagarelice ( FRANCO, 2003, p. 355).

Nita enxerga a mesma contradição em seu irmão Roberto que, após ser liberado da prisão, “(…) vivia en su lujoso exilio en Canadá dando conferencias sobre la realidad política y social paraguaya de la que no tenía peregrina idea” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 21). São desilusões como essas que levam Nita a buscar abrigo na casa da mãe e provocam uma reavaliação de sua vida.

Essa percepção quanto a Roberto e aos membros do partido repercute nas preferências literárias de Nita, como se observa em sua crítica a cânones latino-americanos e paraguaios da literatura engajada de esquerda. A exemplo do que aponta Franco sobre a “cultura da derrota”, Asunción Bajo Toque de Siesta questiona o potencial transformador da literatura, a sua capacidade de representar a “realidade” e de mobilizar a sociedade. Nita, por exemplo, aprecia apenas as poesias eróticas de Neruda, pois o “resto de sua obra” seria “chato e politiqueiro”:

Del endiosado Neruda me gustan solamente sus poesías eróticas. El resto de su obra me cae plomífero y politiquero, así como el idolatrado poeta nacional Elvio Romero. Insufrible. Se pasó la vida imaginando una revolución que no existía sino en su imaginación ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 111).

A crítica a Neruda não é casual. Conforme lembra João Camillo Penna, o poema “Alturas de Machu Picchu”, de Canto Geral, teria fundado um paradigma para os escritores e intelectuais de esquerda enquanto representantes do povo e da nação. Segundo o autor, a literatura latino-americana seria marcada por uma “(…) exclusividade da representação político-literária da nação, que se constitui ao constituir o sujeito subalterno (ao subjetivá-lo), posicionando-se como seu representante” ( PENNA, 2003, p. 313). Ao analisar o crescente espaço e reconhecimento político-institucional do testemunho e suas implicações na narrativa hispano-americana, o autor destaca que “(…) está em jogo (…) uma crítica da função representativa da literatura, levada a cabo tradicionalmente pelo intelectual concebido como porta-voz do povo, e a estruturação de um novo conceito de representação, ligado ao estabelecimento de identidades políticas” ( PENNA, 2003, p. 312). Nita representa essa crítica ao extremo, pois questiona a própria representatividade do que relata e não apenas da literatura engajada.

Nita não aponta problemas somente na esquerda, mas nas “ideologias” de uma maneira geral. Além das dificuldades econômicas para celebrar o aniversário de 15 anos no Clube Centenário, um tradicional clube assunceno, Nita relata que teria recusado a festa devido ao oportunismo dos colorados e liberais que frequentavam o local:

Ambos [os pais] reconocieron que yo tenía razón. (…). La mayoría de las caras que se veían ahora allí era de gente del entorno del dictador, nuevos ricos, nuevos colorados, nueva clase social en rápida ascensión o viejos liberales mimetizados que negociaban con ellos sin vergüenza ni pudor, aunque con sus íntimos fingieran seguir siendo los portadores de la inmaculada antorcha de la dignidad ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 43).

Raúl, assim como Nita, era filho de um advogado filiado ao Partido Liberal. Porém, para Nita, o pai de Raúl era muito diferente do seu. “Era un viejo abogado liberal como papá, con la pequeña diferencia que se trataba de aquellos que habían sabido acomodarse al aire de los tiempos (…)” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 114). Essas incoerências desencadeavam relações suspeitas entre as cúpulas partidárias. Em um dos encontros do seu partido de esquerda, Nita chega a ver entre os participantes “(…) a dos connotados miembros de la ‘Junta de Gobierno del Partido Colorado’ ” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 19). 8

Nita duvida inclusive de si própria, de sua coerência e militância. As memórias do seu namoro com Ramón, de família colorada, são marcadas pelo desejo e pela atração sexual que sentia pelo rapaz, mas também pela dúvida se teria se envolvido com ele para amenizar as dificuldades econômicas enfrentadas em sua casa, pois a família de Ramón utilizou suas relações com os colorados para conseguir trabalho para o pai de Nita. Após se desiludir com as lideranças de seu partido, Nita reavalia sua trajetória. Apesar do apego afetivo à “biblioteca liberal” de seu pai, Nita questiona a possibilidade de “salvação” a partir da política partidária e institucional:

Tenía mucha vergüenza. No podía especificar muy bien de qué. Posiblemente de ser frágil. De seguir siendo una niña frágil e ingenua. De haber aprendido tantas cosas con las lecturas de la biblioteca liberal de papá para hacer luego carne en mí todas las teorías socialistas de mí hipócrita hermano Roberto (…). Tenía vergüenza de haber callado tantos años. De no haber dicho lo que debía en el momento en que aún había tiempo para salvarnos. Y esa era quizás la más tonta de las ideas; que hubiese alguna clase de salvación ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 21).

A inconsistência dos partidos também criava incertezas quanto às transformações que o país viveria em uma eventual transição para a democracia:

(…). Cuando caiga el régimen, van a hacer todo lo que esté a su alcance para que estas estructuras permanezcan tal cual están y suba un régimen idéntico, aunque no sea colorado.

Lo que me decía José Luis no me asustaba tanto como el conocer por dentro lo que la oposición ya estaba arreglando por arriba para que todo siguiera tal cual ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 187).

Portanto, em Asunción Bajo Toque de Siesta, a representação dos partidos políticos e das suas lideranças é caracterizada pela contradição entre o discurso e a prática, o que levava a uma ampla cumplicidade com a ditadura. Essa contradição desilude aqueles que, por princípios, aderem às causas que os partidos – supostamente – representam. A política partidário-institucional é associada ao enriquecimento rápido e ilícito.

Para Nita, o resultado desse quadro político-partidário e institucional seria a existência de um “povo” despreparado para um “regime de liberdade”, devido ao clientelismo que marcava as relações entre o Estado e a sociedade. Ora Nita parece acreditar na mudança, mas ora parece considerar que a manutenção desse quadro interessaria ao conjunto da sociedade:

A este pueblo atontado y corroído hasta los huesos, no le sería muy fácil habituarse a un régimen de libertad. Mi intención era llevar las discusiones hacia tópicos eminentemente prácticos, como el camino para la anulación o por lo menos, para un enfrentamiento claro a la estructura del Estado-patrón (…).

En una de las reuniones de los viernes aseguré que todos los habitantes de la República, sin excepción, se beneficiaban con algún negocio sucio o ilegal, teniendo al Estado como contrapartida, socio, contratante o protector.

Uno de los viejos del partido saltó de su silla.

No podemos generalizar de esa manera. En este país hay mucha gente que, de ninguna manera, se ha ensuciado con esa clase de negocios.

Le desafío a que me nombre un comerciante o industrial honesto, repliqué ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 180).

Portanto, para Nita, os comerciantes e industriais eram mais responsáveis pela situação do país do que os demais “habitantes da República”. Na cadeia, já havia percebido o quanto a repressão estava recaindo sobretudo sobre as lideranças camponesas: “Pregunté por las otras mujeres. Eran de diversos lugares del país, campesinas, madres, esposas o hermanas de líderes agrarios” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 90). Assim, não considerava que todos tinham o mesmo grau de comprometimento com a ditadura, pois tinha conhecido grupos, como os camponeses, que tinham lutado contra o governo.

A experiência na cadeia merece um comentário adicional. Quando foi presa, Nita ainda não era uma militante como no discurso acima. Porém, a relação que estabelece na cadeia com uma jovem de “cabelo curto” não passa pela política tradicional, mas pela atração sexual. A atração sexual que sente pela jovem se configura como um ato político que foge às regras e padrões. Paradoxalmente, a cadeia é repressão e liberação. Ao abraçar a jovem e sentir que suas costas estavam feridas pelas torturas, Nita começou a menstruar:

En ese momento empecé a menstruar. Sentí que me salía líquido caliente entre las piernas. Me toqué para comprobar que no fuera simplemente que me estaba orinando. Pero era sangre. De alguna manera mi cuerpo decidió solidarizarse.

La chica que me abrazaba no se podía mover mucho. (…). Quise hacerla sentir bien. Quería curar su espalda. Agradecerle que estando dolorida y sufriente, en un estado tan calamitoso, aún fuera capaz de darme calor y afecto. Levanté la cabeza hacia ella y sin pensar en lo que hacía besé sus labios. Respondió tiernamente a mi gesto y luego acostó mi cabeza en su regazo murmurando “pobre criatura”, varias veces acariciándome la cabeza ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 91).

Não se trata de uma exceção na narrativa. O sexo parece ser a transgressão e a redenção possíveis. Após a primeira transa com Raúl, Nita começou a superar as memórias das torturas sofridas na cadeia. “Me sentía un ser humano después de largos días” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 121). Quando o casamento com Raúl entra em crise, Nita se envolve com José Luis e sua prima: a transa entre os três é precedida por um cigarro de maconha. “Me sentía bien. Me sentía completa. (…). Había algo que mi subconsciente me decía que estaba mal. Pero carecía de importancia” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 169).

Em Asunción Bajo Toque de Siesta, o falecimento do pai de Nita representaria a morte dos ideais político-partidários no Paraguai. O falecimento é relacionado a dois episódios: um é o já citado namoro de Nita com Ramón, de família colorada, pautado por necessidades econômicas – o namoro teria adoecido seu pai; o outro episódio se refere à formatura de Nita no secundário. Como melhor aluna, receberia uma medalha de ouro de Stroessner. “(…) papá me preguntó como al descuido si pensaba asistir a la ceremonia. Contesté que sí” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 33). O pai de Nita não comparece à formatura e falece quinze dias depois, justamente na véspera de Natal que, na tradição cristã, representa vida e renovação:

Ramón quiso tranquilizarme diciendo que cuidaría que nada faltara en casa aunque papá ya no tuviera trabajo. Pero papá, en víspera de Navidad, tuvo una recaída. Se moriría exactamente un año más tarde, quince días después de recibir mi título de bachiller y estrechar la mano del Presidente Stroessner. Sus últimos delirios eran párrafos completos de “Yo el Supremo”, entre los que iba mezclando el monólogo de su propia agonía que desnudaba por fin el dolor de su soledad ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 62-63).

Se por um lado o falecimento do pai de Nita representaria a morte dos ideais sob a ditadura, por outro a relação conturbada de Nita com a política partidária e institucional desencadeia processos de reelaboração de toda a história do Paraguai, e não apenas do período stronista. Os ideais político-partidários pertenceriam à conduta individual, nunca teriam se manifestado coletiva e institucionalmente no país. Quando o pai de Nita falece recitando Yo el Supremo é estabelecida uma estreita relação entre os séculos XIX e XX. Yo El Supremo, de Augusto Roa Bastos, retrata como uma ditadura o governo (1814-1840) de José Gaspar Rodríguez de Francia (1766-1840), o qual comandou a organização inicial do Estado paraguaio. Roa Bastos publicou o livro em 1974, quando vivia exilado pela ditadura Stroessner. Daí a obra ser considerada uma metáfora do stronismo. Assim, em Asunción Bajo Toque de Siesta, a ditadura Stroessner é projetada, inclusive, para as “origens” do Paraguai. Como sugere o título, Nita compara a ditadura a uma sesta, o tradicional sono paraguaio depois do almoço. “Una pequeña siesta de treinta años. No. Son como cien. Más, diría un argentino. Son como ciento setenta” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 184-185). O período aproximado da ditadura Stroessner, “trinta anos”, se torna “cento e setenta”, ou seja, a ditadura não é considerada um lapso, uma ruptura, mas uma continuidade na história do país. Segundo Nita, “(…) el aislamiento del Paraguay entrando en la década de los ochenta, era muy semejante al que la sometió el Dr. Francia en los inicios de nuestra historia independiente” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 178). 9 E essa situação permaneceria, como acreditam José Luis e a prima dele, amantes de Nita: “A los primos les molestaba mi tiempo perdido en las actividades políticas. Ellos no concebían tener ninguna esperanza en el futuro. Nuestro país estaba condenado por toda la eternidad. Había nacido condenado y seguirá condenado” ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 185).

A dificuldade de Nita para falar sobre as experiências vividas na cadeia se estendia, assim, a toda a história do país. À crítica ao testemunho e à literatura se soma uma crítica à própria História e suas limitações para apreender uma história marcada por “tormentos”, “torturas” e “sangue”. Sobre o que viveu e presenciou na cadeia, Nita relata o seguinte:

Todas las barbaridades que papá me había tratado de contar sin explicitar en qué consistían exactamente acerca de los tormentos y las torturas que el Dr. Francia infligía a sus detenidos políticos, los interrogatorios del Mariscal López asesorado por la Madama en los Tribunales de sangre de San Fernando, las historias a las que había accedido sobre el destino final de los intentos guerrilleros del cincuenta y nueve y sesenta, ya en plena era stronista, eran pálidos e ingenuos relatos enfrentados a lo que constaté en las primeras veinticuatro horas en ese lugar ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 95). 10

A solução das dúvidas e dos confrontos vividos por Nita não se dá na esfera pública, não ocorre no âmbito da política partidária e institucional. O tempo da narrativa retorna ao início do romance e a protagonista alcança o equilíbrio junto à sua família. Apesar dos problemas que surgiram entre Nita e Raúl, Asunción Bajo Toque de Siesta termina com a conciliação entre os dois. Um membro do partido inocenta Raúl da acusação de ter delatado ex-companheiros de militância. Além disso, Raúl afirma que sempre soube que a pequena Nita não era filha dele. Em uma releitura da tradição melodramática que marca a história da literatura paraguaia – e latino-americana –, a redenção de Nita acontece graças ao amor:

[Raúl:] Yo te amaba. (…). Y aunque no fuera el padre, amaba a esa criatura porque era tuya. (…).

Yo seguía llorando. Escuchaba su voz como un bálsamo cayendo sobre mi cabeza.

(…).

Nos abrazamos los tres. Me sentía ligera. Libre.

Vamos. La comida huele bien.

Tomé de la mano a Nita, la pequeña. Raúl me abrazó y fuimos caminando hacia el comedor ( GIMÉNEZ ESPINOZA, 2007, p. 207-208).

Ao concluir o romance com uma releitura da tradição melodramática, consideramos que Hermes Giménez Espinoza inverte hierarquias de valor que se estabeleceram na literatura, as quais tendem a considerar os melodramas como “previsíveis” ou como narrativas que mascarariam as tensões políticas e sociais. Ao valorizarem as emoções e os sentimentos na caracterização dos personagens, os melodramas seriam estruturados a partir de oposições entre “bons” e “maus”, o que colocaria em segundo plano as diferenças e os conflitos políticos e sociais. Ao contrário da instabilidade e da complexidade que marcam a caracterização de Nita no decorrer do romance, no final a personagem é representada a partir do papel tradicional de esposa e mãe envolvida e movida pelo amor. Há, assim, um brusco deslocamento estético e de expectativa na conclusão do romance. Consideramos que esse deslocamento seja outro aspecto da “cultura da derrota”, que chega a duvidar da importância e representatividade da literatura, sobretudo em contextos autoritários. Segundo Jesús Martín-Barbero, o melodrama iria na contramão da educação burguesa, marcada pelo (auto)controle das emoções e dos sentimentos; mais amplamente, iria na contramão da objetividade e racionalidade que fundamentam a modernidade ocidental e o Estado moderno. Logo, ao invés de mascarar as tensões políticas e sociais, acreditamos que a opção pelo melodrama no final de Asunción Bajo Toque de Siesta indicaria justamente o contrário e evidenciaria a falta de representatividade do Estado e das lideranças político-partidárias, assim como de artistas, escritores e intelectuais referendados pelos cânones estabelecidos. Jesús Martín-Barbero destaca o poder do melodrama para simbolizar o social e o “popular” em um mundo dessacralizado pela modernidade ocidental:

(…) a operação simbólica que vertebra o melodrama (…) tem outra face (…): a “afirmação de uma significação moral num universo dessacralizado”. Essa afirmação moral já fala, no início do século XIX, uma linguagem duplamente anacrônica: a das relações familiares, de parentesco, como estrutura das fidelidades primordiais, e a do excesso.

(…) o enorme e espesso enredamento das relações familiares, que como infra-estrutura fazem a trama do melodrama, seria a forma pela qual a partir do popular se compreende e se expressa a opacidade e a complexidade que revestem as novas relações sociais. O anacronismo se torna, assim, metáfora, modo de simbolizar o social ( MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 165-166).

Considerações finais

Cabe ressaltar que há vários outros exemplos de romances paraguaios que dialogam com a memória da ditadura Stroessner. 11 Conforme alerta Peter Burke, a “(…) tentação a que o historiador cultural não deve sucumbir é a de tratar os textos e as imagens de um certo período como espelhos, reflexos não problemáticos de seu tempo” ( BURKE, 2005, p. 32-33). Algumas das questões presentes em Asunción Bajo Toque de Siesta e outros romances vão muito além da memória da ditadura Stroessner e estão relacionadas, mais amplamente, a “esquemas” clássicos da literatura e, particularmente, da literatura sobre as ditaduras latino-americanas. Dentre esses “esquemas”, podemos mencionar os confrontos entre o “público” e o “privado”, entre o pensamento e a ação, entre o engajamento político e o amor e entre a “ideologia” e os interesses pessoais, dentre vários outros. No entanto, em Asunción Bajo Toque de Siesta, consideramos que há uma leitura desses “esquemas” a partir da história e da cultura paraguaia, o que ressalta alguns “esquemas” em detrimento de outros. E, nessa leitura, se condensam processos histórico-culturais para além da ditadura Stroessner.

Como aponta Gerardo Caetano, há um “mito trágico de coisificação do Paraguai”, caracterizado por uma “visão fatalista” segundo a qual o país seria governado “eternamente – ou seja, desde sempre e para sempre – pelo Partido Colorado” ( CAETANO, 2012, p. 9). Assim, toda e qualquer alternativa ao Partido Colorado seria condenada ao fracasso ou à cooptação pelos colorados, o que, acreditamos, potencializaria a “cultura da derrota” representada em Asunción Bajo Toque de Siesta. Após a queda da ditadura em 1989, o Partido Colorado permaneceu no controle da presidência do Paraguai até 2008 e, desde 2013, voltou a ocupá-la. Além das permanências no âmbito da política partidária e institucional, o Paraguai ainda apresenta indicadores sociais muito negativos e desiguais, o que também alimentaria a “cultura da derrota” após a queda da ditadura. Em tempo, Gerardo Caetano destaca a necessidade de superar esse “mito trágico” que existe sobre o país.

A explicação para esse “mito trágico” também pode partir de outros pontos, mas, neste trabalho, consideramos que esteja relacionado, sobretudo, à (re)leitura que Stroessner fez dos governantes do século XIX, dos quais se colocava como um continuador, com destaque para Bernardino Caballero (1839-1912) e principalmente Francisco Solano López (1827-1870). Vale lembrar que Solano López enfrentou Argentina, Brasil e Uruguai na Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870) e que Bernardino Caballero foi um dos primeiros presidentes (1880-1886) após a guerra, o que lhe tornou conhecido como “reconstrutor” do país: Stroessner, por vezes, se apresentou como “segundo reconstrutor”. 12 Caballero também foi um dos fundadores do Partido Colorado. Luc Capdevilla, baseando-se em François Hartog e Marshall Sahlins, considera que se desenvolveu no Paraguai um “regime de historicidade heroica”, pautado pela ação de “grandes homens” que representariam todos os demais (apud TELESCA, 2011). Haveria, assim, uma centralidade do Estado em detrimento da sociedade e as permanências predominariam sobre as rupturas. Daí as idas e vindas entre os séculos XIX e XX em Asunción Bajo Toque de Siesta. Nita não reivindica para si a condição de mártir e não existe espaço para a sua “heroicização”, pois a sociedade seria um mero prolongamento do Estado. Restaria o refúgio no âmbito privado/familiar ou mesmo a saída do país, como se observa em outros romances que representam a ditadura paraguaia.

Lorena Soler toca em um ponto que ajudaria a difundir a imagem da sociedade paraguaia – ou de setores expressivos dela – como um simples prolongamento do Estado e de suas elites autoritárias e corruptas. Soler destaca que falta conhecimento sobre o país e sua sociedade, o que teria colaborado para circunscrever a ordem política paraguaia apenas ao stronismo, desconsiderando outras formas de se compreender e de se fazer política no país:

(…) en un país poco frecuentado por las ciencias sociales, la mayoría de las producciones/representaciones sobre la historia del orden político paraguayo reciente obedecen a los estudios realizados desde la llamada “apertura democrática”, los cuales circunscribieron el estudio del orden político al stronismo mismo y, desde allí, proyectaron afirmaciones a todo el sistema político paraguayo ( SOLER, 2012, p. 15). 13

Outro elemento necessário para se compreender a “cultura da derrota” representada em Asunción Bajo Toque de Siesta é o acentuado anticomunismo que marca a política partidária e institucional do país. Bernardo Neri Farina, em El Último Supremo, lembra que o anticomunismo da ditadura também estava presente no discurso de opositores, como os liberais ( FARINA, 2011). O anticomunismo continuou – e continua – muito presente depois da queda da ditadura: para mencionar um exemplo conhecido – ainda que posterior à publicação de Asunción Bajo Toque de Siesta –, muitos parlamentares alegavam que Fernando Lugo estimulava a “luta de classes” no país e, por isto, teriam decidido pelo juízo político do presidente em 2012 após o “Massacre de Curuguaty” 14, o qual foi usado como pretexto para a destituição do seu governo ( CARBONE; SOLER, 2012). Ainda que o romance apresente críticas à política partidária e institucional como um todo, não nos parece casual a opção narrativa por uma protagonista ex-militante de esquerda e desiludida.

Consideramos que as permanências que marcariam a história paraguaia e que estão representadas no romance também estejam relacionadas ao incipiente processo de industrialização vivido pelo país, o que colocaria o Paraguai à margem da “modernidade” e de suas concepções de “progresso” e de linearidade/horizontalidade do tempo. Segundo essa perspectiva, o Paraguai seria um país “atrasado”, “lento” ou mesmo “parado no tempo”. A ditadura Stroessner alimentou essa imagem como uma forma de valorizar o suposto progresso que estaria proporcionando aos paraguaios, uma forma de se colocar como uma ruptura na história do país. Trata-se de uma imagem recorrente sobre o Paraguai e está presente, inclusive, na historiografia – aqui entendida em um sentido amplo, para além da produção de historiadores de formação. Ao descrever o interior do Paraguai em 1954, ano da ascensão de Stroessner, Bernardo Neri Farina chega a usar a metáfora da “sesta”, também escolhida por Giménez Espinoza no título do seu romance:

Si Asunción era fornidamente pobre, las poblaciones del interior (ninguna de las cuales podía tener la denominación de ciudad) lo eran más aún. Aisladas por la falta de caminos, vegetaban en su propia historia de centenares de años. Algunas no habían sufrido casi cambios desde su fundación en el siglo XVII o XVIII. Su vida era una eterna, inamovible siesta. (…).

El progreso era un término exótico en el Paraguay. No quería decir absolutamente nada [grifos meus] ( FARINA, 2011, p. 110). 15

Além de explicar o que desencadearia a desilusão com a política partidária e institucional retratada no romance, é preciso analisar, ainda, o papel da literatura na construção da memória histórica. Asunción Bajo Toque de Siesta indica a necessidade de se debater – e de se rever – o estatuto da literatura não apenas no Paraguai, mas na América Latina de uma forma geral, conforme defende Idelber Avelar em Alegorias da Derrota: a ficção pós-ditatorial e o trabalho do luto na América Latina. O autor destaca a crítica feita por George Yúdice, para quem a literatura é uma das portadoras privilegiadas da identidade nacional. Isso permitiria a determinados sujeitos e grupos estabelecer normas e padrões a partir da literatura e, assim, excluir outros deste processo político-identitário. A literatura seria, portanto, a expressão de um elitismo ( AVELAR, 2003, p. 37). No entanto, existem processos inovadores e questionadores na produção literária paraguaia e latino-americana.

Avelar reconhece o propósito de restituição que motiva a literatura pós-ditatorial:

A literatura pós-ditatorial testemunharia, então, esta vontade de reminiscência, chamando a atenção do presente a tudo o que não se realizou no passado, recordando ao presente sua condição de produto de uma catástrofe anterior, do passado entendido como catástrofe ( AVELAR, 2003, p. 238).

Asunción Bajo Toque de Siesta se configura como uma crítica a testemunhos sobre a ditadura ao chamar a atenção para “tudo o que não se realizou no passado”. Em meio ao entusiasmo pré-eleitoral de 2007, quando foi publicado, o romance lembrava “ao presente sua condição de produto de uma catástrofe anterior”.

Pizarro menciona outras características da produção literária do Paraguai que, em nosso entender, reforçam a necessidade de se rever o estatuto da literatura, conforme aponta Avelar: “(…) falta apoyo oficial, las tiradas no superan los mil ejemplares, la distribución resulta poco ágil, escasea la crítica seria y el precio de libros es inalcanzable para buena parte de la ciudadanía” ( PIZARRO, 2010, p. 408). Para Tereza Méndez-Faith, a literatura paraguaia seria marcada por dois tipos de exílio, o “de fuera” e o “de dentro”. O “de fuera” se refere ao exílio ao exterior ao qual muitos escritores foram condenados ou tiveram – e ainda têm – que “optar”. Quanto ao “de dentro”, a autora enfatiza os fatores políticos e os econämico-sociais – censura, analfabetismo, etc. – que condenariam os escritores paraguaios a viverem “exilados” em seu próprio país ( MÉNDEZ-FAITH, 2009). Ainda que os fatores apontados pelas autoras certamente coíbam o potencial da literatura paraguaia junto à opinião pública do país, pensamos que o “isolamento” pode ser menor do que o indicado. A literatura seria uma das expressões daqueles setores que não encontram representatividade nos partidos políticos tradicionais, mas que ainda não visualizam uma alternativa ou a possibilidade de sua renovação – daí a negação da política partidária e institucional em Asunción Bajo Toque de Siesta e outros romances. Em um país de tradicional dependência de artistas, escritores e intelectuais em relação ao Estado, a negação desse sistema político-partidário através da literatura não nos parece indicar “isolamento”, mas respaldo em setores importantes da sociedade paraguaia.

Segundo Avelar, a mercantilização da vida social, processo acelerado pelas ditaduras militares, reforça a necessidade de se debater o estatuto da literatura na América Latina. Avelar acredita que essa mercantilização colaborou para a crise de representação da literatura, ou seja, para a sua dificuldade em transmitir experiência, em conciliar o vivido e o narrável. “Se a razão de ser das ditaduras foi a eliminação física e simbólica de toda resistência à imposição da lógica do mercado, como o triunfo de tal projeto determinou o destino da memória histórica na América Latina?” ( AVELAR, 2003, p. 237). Para Avelar, a mercantilização “(…) nega a memória porque a operação própria de toda nova mercadoria é substituir a mercadoria anterior, lançá-la à lata de lixo da história” ( AVELAR, 2003, p. 238).

No entanto, de acordo com o autor, esse processo nunca seria plenamente realizável. Segundo Avelar, ao “(…) produzir incessantemente o novo e descartar o velho, o mercado também cria um exército de restos que apontam para o passado, como se exigissem uma restituição do que se perdeu” ( AVELAR, 2003, p. 238). Consideramos que a força de Asunción Bajo Toque de Siesta reside nesses “restos que apontam para o passado”: o romance não reproduz o elitismo e a mercantilização da vida social; representa – e denuncia – o elitismo e a mercantilização em sua narrativa. Peter Burke, ao comentar As Três Ordens de Georges Duby, considera que as representações têm o poder de modificar a realidade que parecem refletir ( BURKE, 2005, p. 84). O romance representaria, assim, não a sociedade existente, mas aquela não mais desejada. Concordamos com Jaime Ginzburg quando defende que a literatura tem poder para interferir nos processos históricos:

A convivência com a literatura permite criar um repertório de elementos – imagens, ideias, posições, relatos, exemplos – que interessa para a constituição de orientações éticas individuais e coletivas. Esse repertório, em sua variedade, contribui para um aberto e diversificado debate. A qualidade desse debate é única, porque sua matéria são textos polissêmicos, abertos, cujas possibilidades de interpretação são renovadas constantemente ( GINZBURG, 2017, s./p.).

Enfim, Asunción Bajo Toque de Siesta, de Hermes Giménez Espinoza, nos indica uma produção literária no Paraguai que, ao criticar testemunhos sobre a ditadura, dessacraliza os partidos políticos tradicionais no pós-1989 e nos permite visualizar, na literatura, a expressão de setores da sociedade paraguaia que fogem ou que desejam fugir da (bi)polarização político-partidária à qual, muitas vezes, o país é reduzido, inclusive pela produção acadêmica.

Material suplementar
Referências
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CAETANO, Gerardo. Prólogo. El conocimiento de la historia paraguaya como deuda. In: SOLER, Lorena. Paraguay, la Larga Invención del Golpe: el stronismo y el orden político paraguayo. Buenos Aires: Imago Mundi, 2012. p. 1-9.
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Giménez ESPINOZA, Hermes. Asunción Bajo Toque de Siesta. Asunción: El Lector, 2007.
GINZBURG, Jaime. Linguagem e Trauma na Escrita do Testemunho. Conexão Letras, v. 3, n. 3, 2008. Disponível em : <http://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras/article/view/55604/33808>. Acesso em: 27 nov. 2017.
GINZBURG, Jaime. Literatura, Violência e Melancolia [livro eletrônico]. Campinas: Autores Associados, 2017.
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Notas
Notas
* Este artigo é fruto de pesquisa realizada com apoio do CNPq (Edital MCTI/CNPq/Universal 14/2014).
1 A filiação a um partido político é uma exigência da legislação paraguaia para os candidatos a presidente.
2 A “Comisión de Verdad y Justicia” foi formada em 2003 através da lei 2225/03 de outubro daquele ano. A lei resultou de uma iniciativa da sociedade civil paraguaia apresentada ao Legislativo e ao Executivo do país ainda sob o domínio do Partido Colorado na presidência. Após a sua conclusão em 2008, o relatório final da “Comisión de Verdad y Justicia” foi disponibilizado on-line pelo governo Lugo ( http://www.verdadyjusticia-dp.gov.py/informes/informe_final.php). Outra medida de seu governo foi a criação, em 2011, do “Museo Virtual Meves (Memoria y Verdad sobre el Stronismo)” ( http://www.meves.org.py/). O museu visa facilitar a divulgação das conclusões feitas pela “Comisión de Verdad y Justicia” em seu relatório final.
3 Stroessner se “elegeu” em 1954, 1958, 1963, 1968, 1973, 1978, 1983 e 1988. Nas duas primeiras eleições foi candidato único. Stroessner enfrentou protestos expressivos no final da década de 1950, o que teria levado à necessidade de legitimar as suas “eleições” com a participação de outros candidatos.
4 Havia exceções como o liberal Domingo Laíno, que foi um dos maiores opositores de Stroessner e sofreu diversas represálias durante a ditadura. Vale ressaltar que muitos membros dos partidos opositores e colorados dissidentes recusaram participar dessa oposição consentida pela ditadura e permaneceram no exílio, denunciando o autoritarismo e os crimes cometidos pelos governos de Stroessner.
5 Enquanto para os colorados a reeleição permitiria o uso da máquina do Estado em favor do Partido, os luguistas apostavam na reeleição para garantir o retorno de Fernando Lugo à presidência, pois o ex-presidente desfruta de popularidade no país. Devido à repercussão negativa da proposta, o atual presidente Horacio Cartes manifestou que não pretende disputar um novo mandato e o tema da reeleição foi colocado em suspenso.
6 Em 1989, o escritor ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes, considerado o mais importante da literatura em espanhol.
7 O “Archivo del Terror” se refere a um conjunto amplo de documentos sobre a repressão durante a ditadura Stroessner. O “Archivo” foi encontrado em 1992 em Lambaré, nos arredores de Asunción, pelo pedagogo e advogado Martín Almada. Martín Almada foi preso e torturado pela ditadura e sua esposa, Celestina Pérez de Almada, foi morta em decorrência de torturas psicológicas. O “Archivo” foi transportado para o “Palacio de Justicia” de Asunción, onde foi organizado e disponibilizado ao público. Junto ao “Archivo” foi montado o “Museo de la Justicia”, que se dedica à memória das vítimas da ditadura militar no Paraguai. O “Archivo” também é considerado uma referência sobre o Operativo Cóndor, acordo de colaboração entre as ditaduras militares da região para reprimir opositores.
8 A “Junta de Gobierno del Partido Colorado” é formada por colorados de atuação “destacada” e que seriam pautados pela “fidelidade” partidária. Trata-se, portanto, da cúpula do partido. Sob a ditadura Stroessner, a “Junta” era subordinada ao ditador. Depois, passou a gozar de relativa autonomia em relação aos presidentes colorados do país.
9 A interpretação histórica dominante entre os liberais considera que Francia implantou uma ditadura e isolou o Paraguai internacionalmente. Já os críticos dessa interpretação, pertencentes sobretudo ao revisionismo histórico, consideram que Francia protegeu o Paraguai do imperialismo, o que teria permitido a organização das “estancias de la Patria”, espécie de arrendamento de terras do Estado para camponeses.
10 A “Madama” é uma referência a Elisa Lynch (1835-1886), esposa de Solano López. Quanto aos “Tribunales de sangre de San Fernando” se trata de um episódio bastante controverso e lembrado principalmente por versões liberais da história paraguaia para ressaltar o autoritarismo que teria marcado o governo de Solano López. Em plena guerra contra a Tríplice Aliança, Solano López teria descoberto um complô para derrubá-lo e teria condenado à morte e à prisão os principais suspeitos, dentre os quais estavam familiares próximos.
11 La Generación de la Paz, de Jesús Ruiz Nestosa, El Siglo Perdido, de Bernardo Neri Farina, Dónde Estará mi Primavera, de Carlos Martini e Éramos tan Felices…?, de Rubén Sapena Brugada são apenas alguns exemplos dessa produção literária que indaga a memória da ditadura Stroessner.
12 De uma maneira geral, os liberais dominaram a presidência do Paraguai entre 1904 e 1940. A propaganda stronista difundia que o período dos liberais teria sido marcado por grande instabilidade política e econômica. Assim, Stroessner estaria “reconstruindo” o país após as presidências dos liberais.
13 O interesse e a produção sobre o Paraguai crescem expressivamente nos últimos anos, tanto dentro como fora de suas fronteiras. Acentuam-se os diálogos e a realização de eventos entre pesquisadores paraguaios e estrangeiros, que passam a conhecer uma produção até então pouco conhecida fora do país.
14 Em 15 de junho de 2012, uma forte operação policial em terras reivindicadas por camponeses na cidade de Curuguaty deixou 11 camponeses e 6 policiais mortos. Desde então, apenas camponeses foram condenados pelas mortes dos policiais, em um processo falho e marcado por questionamentos e protestos no Paraguai e no exterior. O assassinato dos camponeses continua impune.
15 Lançado em 2003, o livro chegou à sua quarta edição em 2007, o que é um resultado incomum no mercado editorial paraguaio. Neri Farina é jornalista e escritor e El Último Supremo é uma das obras mais conhecidas no Paraguai sobre a história do stronismo.
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