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Das Relações Internacionais
On international relations
Relaciones internacionales
Estudos Ibero-Americanos, vol. 44, núm. 2, pp. 397-399, 2018
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Resenha

BATTISTELLA Dario. Théories des relations internationales. 2015. Paris. Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques

DOI: 10.15448/1980-864X.2018.2.28040

Théories des relations internationales de Dario Battistella é um manual. Um manual de Relações Internacionais. Um manual comparável aos notáveis Handbook of international relations de Walter Carlsnaes; Thomas Risse e Beth Simmons (Londres: Sage, 2012), The Oxford handbook of international relations de Christian Reus-Smit e Duncan Snidal (Oxford: Oxford University Press, 2008) e Theories of international relations de Steven Chan e Cerwyn Moore (Londres: Sage, 2006). Para ficar apenas em alguns. Um manual que alia História das relações internacionais e história das Relações Internacionais. Ou seja, análise do fluxo do meio internacional e análise da evolução da disciplina.

E, dessa maneira, no plano teórico, Théories des relations internationales consiste em um apanhado do processo de consolidação da disciplina. Com uma síntese de suas teorias. Uma análise de seus debates. Uma abordagem de seus usos e abusos. Uma avaliação profunda, medida, complexa e comedida de suas origens, de seu percurso, de seu presente e de seu destino enquanto desse campo de estudos com forte pretensão de cientificidade.

Desde a sua aparição em 2003 que Théories des relations internationales condensa promessas de virar obra referência. Suas diversas reimpressões e edições comprovam essa tendência. A mais recente edição, contou com alentada revisão e ampliação. O que, por certo, não modifica a essência do livro. Mas o renova. Torna-o quase uma nova obra que merece nova abordagem.

Seu autor é um experimentado teórico francês. Professor na Sciences Po Bordeaux, Dario Battistella já nos brindou com obras de muito valor como Un monde unidimensionnel (Paris: Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, 2015), Paix et guerres au 21e siècle (Auxerre: Editions Sciences Humaines, 2011), Retour de l'état de guerre (Paris: Armand Colin, 2006) e (com Marie-Claude Smouts e Pascal Vennesson) Dictionnaire des relations internationales (Paris: Dalloz, 2003).

Mas foi Théories des relations internationales – esse discreto, mas imponente manual – que caiu ostensivamente no gosto do público e da crítica.

Dividido em quatro partes, ele permite ao leitor – iniciante ou já maduro observador do meio internacional – dimensionar questões ontológicas, epistemológicas e metodológicas da disciplina.

Na primeira parte, Les Relations internationales comme science sociale, vão analisados em três capítulos os fundamentos da disciplina. Do delineamento de seu objeto na viragem do século 18 ao 19 ao seu enquadramento científico ao longo dos séculos seguintes. Na segunda, Théories générales, emergem em seis capítulos os paradigmas da disciplina – realismo, liberalismo, transnacionalismo, marxismo, radicais e construtivismo. Na terceira, Débats sectoriels, são apresentadas em seis capítulos questões transparadigmáticas como definições e apreciações sobre política externa, integração, cooperação, economia política internacional, segurança, guerra e paz. Na quarta e última parte, Les relations internationales face au monde contemporain, encontramos três capítulos e três discussões de valor. Uma sobre o confronto entre teoria e prática após o 11 de setembro de 2001. Outra sobre o presente e o futuro das relações internacionais após o conflito Leste-Oeste e o 11 de setembro de 2001. E, por fim, as Relações Internacionais na França.

Essa última parte representa o momento mais reflexivo do livro. Que representa, por certo, a sua maior contribuição.

O argumento geral de Battistella reconhece que novos cenários históricos internacionais conduzem a novos aportes teóricos. Todos os capítulos do livro são imantados nessa tônica.

Como seu recurso de contextualização, primeiro foi a falência do contratualismo idealista da Sociedade de Nações do presidente Woodrow Wilson que gerou a emergência e consolidação do realismo em Hans Morgenthau. Depois foi o behaviorismo dos anos de 1950, que, com seu questionamento aos fundamentos científicos do realismo (e do liberalismo), daria vazão à Escola Inglesa de Hedley Bull e Martin Wight, ao realismo francês de Raymond Aron, ao transnacionalismo de Joseph Nye e Robert Keohane assim como ao neomarxismo de Immanuel Wallerstein e ao neorrealismo Kenneth Waltz e Robert Gilpin. A teoria crítica de Robert Cox e Richard Ashley – e todos os seus desdobramentos – foram reações diretas às limitações desses produtos do behaviorismo.

Mas foi a ausência de previsão do fim da Guerra Fria que colocou em questão o alcance das teorias. Nenhum desses esforços teóricos antecipou o feito de 1989-1991. John Mearsheimer e seu realismo ofensivo e Joseph Nye e seus soft e smart power procuraram, nesse sentido, e para ficar apenas neles, revigorar os ensinamentos dos clássicos do realismo e do liberalismo. É difícil afirmar que conseguiram. Pois os ataques de 11 de setembro de 2001 voltaram a questionar o poder preditivo das teorias. Mas foram os principais responsáveis pela reabilitação da noção de trágico no meio internacional.

E, nessa senda, Battistella reafirma ser assente a indeterminação do meio internacional neste século 21. A complexidade da globalização está para além da interdependência complexa. As decorrências da crise financeira de 2007-2009 esfacelaram as noções de polaridade – seja do duo, do uni, do zero e do multipolar. A segurança internacional invadiu a agenda diplomática dos países centrais e o Oriente Médio passou a monopolizar atenções como jamais. O protecionismo voltou à cena em países como Estados Unidos e Reino Unido. Os países emergentes voltam, desde 2012-2013, à condição de emergentes perpétuos. China, Rússia, Índia reivindicam mais e mais o seu lugar ao sol. O continente africano também. Enquanto a América do Sul segue imersa em crises políticas e morais. E a União Europeia, em crises existenciais.

Nesse contexto, a que servem as Relações Internacionais (disciplina e teoria)? Essa é a grande pergunta do livro. E sua mensagem forte e definitiva é um apelo à modéstia. Modéstia diante do meio internacional e modéstia diante dos clássicos de todos os tempos.

Dario Battistella não defende um ou outro clássico. Uma ou outra tendência. Não advoga por realistas ou liberais, marxistas ou transnacionalistas – embora deixe entrever certa simpatia pelo autor de Paix et guerre entre les nations e Qu'est-ce qu'une théorie des relations internationales?, que é seu mestre Raymond Aron, e pela sociologia das relações internacionais de Marcel Merle. Mas nos convida a ler e reler e meditar e remeditar sobre as grandes obras e os grandes autores de todas as tendências. E, claro: em seus contextos.

Por evidente, esse singelo e sincero conselho merece atenção. Reconhece que o caminho da apreensão, compreensão, explicação e mutação do meio internacional é longo e ruidoso. Mas deve ser começado ou recomeçado. Théories des relations internationales de Dario Battistella é, por seguro, um excelente estímulo a esse início.



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