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<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
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<article-id pub-id-type="publisher-id">1980-864X.2018.3.32130</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2018.3.32130</article-id>
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<subject>Entrevista</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>&#x201C;O racismo tem uma hist&#xF3;ria&#x201D; &#x2013; Entrevista com Silvia Hunold Lara</article-title>
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<trans-title>&#x201C;The Racism Has a History&#x201D; &#x2013; Interview with Silvia Hunold Lara</trans-title></trans-title-group>
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<trans-title>&#x201C;El racismo tiene una historia&#x201D; &#x2013; Entrevista con Silvia Hunold Lara</trans-title></trans-title-group>
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<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-8186-801X</contrib-id>
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	<surname>Candido</surname>
	<given-names>Mariana P.</given-names>
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	<surname>Rodrigues</surname>
	<given-names>Eug&#xE9;nia</given-names>
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<institution content-type="orgdiv1">Centro de Hist&#xF3;ria</institution>
<country country="PT">Portugal</country>
<email>mcandido@nd.edu</email>
<institution content-type="original">Doutora em Hist&#xF3;ria pela Universidade Nova de Lisboa, &#xE9; investigadora do Centro de Hist&#xF3;ria da Universidade de Lisboa e ensina na Faculdade de Letras da mesma universidade. Entre as suas publica&#xE7;&#xF5;es est&#xE3;o, com Mariana P. Candido, ed., African Women&#x27;s Access and Rights to Property in the Portuguese Empire, n&#xFA;mero especial de >African Economic History (n. 43, 2015), e Portugueses e africanos nos rios de Sena: os prazos da coroa em Mo&#xE7;ambique nos s&#xE9;culos XVII e XVIII(2013).</institution>
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<label>2</label>
<institution content-type="normalized">University of Notre Dame</institution>
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<country country="US">Estados Unidos da Am&#xE9;rica</country>
<email>rodrigues6@campus.ul.pt</email>
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Doutora em Hist&#xF3;ria pela York University, &#xE9; professora na University of Notre Dame. Lecionou tamb&#xE9;m na University of Kansas, Princeton University e University of Wisconsin-La Crosse. &#xC9; autora de Fronteiras da escravid&#xE3;o. Escravatura, com&#xE9;rcio e identidade em Benguela, 1780-1850 (Ondijara/Katyavala Bwila, 2018) e de An African Slaving Port and the Atlantic World: Benguela and its Hinterland (Cambridge University Press, 2013). Organizou Crossing Memories: Slavery and African Diaspora, com Ana Lucia Araujo e Paul Lovejoy (Africa World Press, 2011); La&#xE7;os atl&#xE2;nticos: &#xC1;frica e africanos durante a era do com&#xE9;rcio transatl&#xE2;ntico de escravos, com Carlos Liberato, Paul Lovejoy e Ren&#xE9;e Soulodre-La France (Museu da Escravatura, 2017); African Women&#x27;s Access and Rights to Property in the Portuguese Empire, n&#xFA;mero especial de African Economic History (n. 43, 2015), com Eug&#xE9;nia Rodrigues.</institution>
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<pub-date pub-type="epub-ppub">
<season>Sep-Dec</season>
<year>2018</year></pub-date>
<volume>44</volume>
<issue>3</issue>
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<year>2018</year></date>
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<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p></license></permissions>
<abstract>
<p>Silvia Hunold Lara graduou-se em Hist&#xF3;ria (1977) e doutorou-se em Hist&#xF3;ria Social (1986) pela Universidade de S&#xE3;o Paulo. Nesse ano, tornou-se professora do Departamento de Hist&#xF3;ria da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), passando a professora livre-docente em 2004 e a titular em 2009. Atualmente, &#xE9; professora colaboradora aposentada. Foi pesquisadora visitante em diversas institui&#xE7;&#xF5;es, como o centro Latin American and Caribbean Studies da Northwestern University (2006). Dirigiu e integrou diversos projetos de pesquisa financiados por ag&#xEA;ncias p&#xFA;blicas, sendo pesquisadora 1A do CNPq. Suas pesquisas incidem sobre a hist&#xF3;ria da escravid&#xE3;o, das rela&#xE7;&#xF5;es entre cultura e poder na Am&#xE9;rica portuguesa e Hist&#xF3;ria e Direito. &#xC9; autora de <italic>Campos da Viol&#xEA;ncia. Escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808</italic> (1988) e <italic>Fragmentos Setecentistas. Escravid&#xE3;o, cultura e poder</italic> (2007); editora, com Joseli M. Nunes Mendon&#xE7;a, de <italic>Direitos e Justi&#xE7;as no Brasil</italic> (2006) e, com Gustavo Pacheco, de <italic>Mem&#xF3;ria do Jongo</italic> (2007); e organizadora da edi&#xE7;&#xE3;o comentada de <italic>Ordena&#xE7;&#xF5;es Filipinas</italic>, livro V (1999) e do repert&#xF3;rio <italic>Legisla&#xE7;&#xE3;o sobre Escravos Africanos na Am&#xE9;rica Portuguesa,</italic> in: Jos&#xE9; Andr&#xE9;s-Gallego (coord), <italic>Nuevas Aportaciones a la Historia Jur&#xED;dica de Iberoam&#xE9;rica</italic> (2000, CD-Rom).</p></abstract>
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<title>&#x25AA; Mariana P. Candido - Eug&#xE9;nia Rodrigues</title>
<p>A sua trajet&#xF3;ria acad&#xEA;mica come&#xE7;a com a investiga&#xE7;&#xE3;o sobre a viol&#xEA;ncia contra a popula&#xE7;&#xE3;o escrava em meados da d&#xE9;cada de 1980, &#xE1;rea na qual o livro <italic>Campos da Viol&#xEA;ncia</italic> abriu novos paradigmas e revelou novos temas e fontes. Como v&#xEA; a quest&#xE3;o da produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica no Brasil e no exterior sobre a escravid&#xE3;o e a viol&#xEA;ncia, um tema recorrente na sua obra?</p>
<sec>
<title>&#x25A1; Silvia Hunold Lara</title>
<p>Desde a d&#xE9;cada de 1980 a historiografia brasileira sobre a escravid&#xE3;o cresceu e se diversificou muito. At&#xE9; ent&#xE3;o, os principais debates situavam-se em torno das caracter&#xED;sticas econ&#xF4;micas do escravismo (se capitalista, feudal ou um modo de produ&#xE7;&#xE3;o pr&#xF3;prio) e do car&#xE1;ter da rela&#xE7;&#xE3;o senhor-escravo (se paternalista ou violenta). Hoje h&#xE1; uma profus&#xE3;o de estudos acad&#xEA;micos sobre v&#xE1;rios temas, com discuss&#xF5;es sobre t&#xF3;picos espec&#xED;ficos e muita pesquisa baseada em fontes prim&#xE1;rias. Esse desenvolvimento decorre em grande parte das mudan&#xE7;as historiogr&#xE1;ficas ocorridas na d&#xE9;cada de 1980, que colocaram os escravos no centro da hist&#xF3;ria da escravid&#xE3;o &#x2013; um movimento que ocorreu quase simultaneamente no Brasil e nos Estados Unidos, ent&#xE3;o os principais centros de estudos sobre essa tem&#xE1;tica.</p>
<p>Quando fiz a pesquisa e escrevi o <italic>Campos da Viol&#xEA;ncia</italic>, um dos debates importantes era aquele sobre o car&#xE1;ter benevolente ou cruel da escravid&#xE3;o. Procurei quebrar essa oposi&#xE7;&#xE3;o, mostrando que &#x201C;rigor&#x201D; e &#x201C;merc&#xEA;&#x201D; (para usar palavras do s&#xE9;culo XVIII) se combinavam no exerc&#xED;cio do dom&#xED;nio senhorial sobre os escravos. Tratei de entender como funcionava a rela&#xE7;&#xE3;o de domina&#xE7;&#xE3;o, como poucos homens brancos exerciam seu poder sobre muitos homens e mulheres escravizados, deslocando o modo como a quest&#xE3;o era apreendida at&#xE9; ent&#xE3;o. E mostrei que havia pelo menos duas maneiras de analis&#xE1;-la, examinando a l&#xF3;gica senhorial e o ponto de vista dos escravos. V&#xE1;rios colegas que estavam pesquisando e escrevendo suas teses e livros nesse momento tamb&#xE9;m buscavam entender a perspectiva escrava, procurando analisar a hist&#xF3;ria da escravid&#xE3;o &#x201C;a partir de baixo&#x201D;, como ent&#xE3;o se dizia.</p>
<p>Incluir a vis&#xE3;o escrava da escravid&#xE3;o redimensionou a abordagem de temas e quest&#xF5;es que at&#xE9; ent&#xE3;o haviam orientado os estudos sobre a escravid&#xE3;o no Brasil. Essa &#x201C;virada&#x201D; historiogr&#xE1;fica foi marcante e, desde ent&#xE3;o, os historiadores passaram a prestar mais aten&#xE7;&#xE3;o aos sujeitos hist&#xF3;ricos &#x2013; n&#xE3;o apenas em senhores e escravos, em geral e de forma abstrata, mas em senhores de grandes e pequenas posses, que viviam da explora&#xE7;&#xE3;o de escravos em lavouras, minas ou nas cidades, exercendo seu dom&#xED;nio direto ou colocando-os ao ganho; em traficantes que transportavam muitos ou poucos cativos, pelo Atl&#xE2;ntico ou pelas rotas internas; em cativos rec&#xE9;m-chegados ou nascidos no Brasil, procedentes desta ou daquela regi&#xE3;o da &#xC1;frica, especializados ou n&#xE3;o; em libertandos que estavam em vias de obter a liberdade de diversos modos; em libertos de primeira ou segunda gera&#xE7;&#xE3;o, antes ou depois da aboli&#xE7;&#xE3;o do tr&#xE1;fico ou da pr&#xF3;pria escravid&#xE3;o; em homens livres pobres que n&#xE3;o tinham escravos ou tinham um ou dois cativos. Uma sociedade bem mais complexa, composta por categorias sociais que tinham interesses e l&#xF3;gicas diversos. A pr&#xF3;pria hist&#xF3;ria da escravid&#xE3;o ganhou modula&#xE7;&#xF5;es importantes, conforme a periodiza&#xE7;&#xE3;o e as caracter&#xED;sticas regionais. Ainda que se possa falar em escravismo, h&#xE1; muitas diferen&#xE7;as entre o modo como escravos e senhores viveram a escravid&#xE3;o em Pernambuco no s&#xE9;culo XVII ou nas Minas do ouro na primeira metade do s&#xE9;culo XVIII, por exemplo.</p>
<p>Desde ent&#xE3;o, os historiadores tamb&#xE9;m passaram a desconfiar cada vez mais de explica&#xE7;&#xF5;es gen&#xE9;ricas e abstratas, estruturadas por l&#xF3;gicas sist&#xEA;micas, distanciando-se dos cientistas sociais. J&#xE1; n&#xE3;o basta mais ter bons conceitos e uma boa teoria, e fazer um &#x201C;estudo de caso&#x201D; para test&#xE1;-los; tornou-se imprescind&#xED;vel realizar uma pesquisa emp&#xED;rica extensiva e fazer emergir dela as explica&#xE7;&#xF5;es capazes de abarcar a complexidade das situa&#xE7;&#xF5;es hist&#xF3;ricas examinadas.</p>
<p>Como j&#xE1; disse no <italic>Campos da Viol&#xEA;ncia</italic>, afirmar simplesmente que a escravid&#xE3;o &#xE9; violenta explica pouco. Qual a rela&#xE7;&#xE3;o de domina&#xE7;&#xE3;o que n&#xE3;o &#xE9; violenta? No in&#xED;cio do s&#xE9;culo XVIII, alguns padres achavam que ministrar 400 chicotadas em lotes de 40, por dez dias alternados, era um castigo &#x201C;justo, moderado e crist&#xE3;o&#x201D;. Hoje uma &#xFA;nica chicotada &#xE9; um inadmiss&#xED;vel. Contudo, consideramos &#x201C;normal&#x201D; ter o tempo de trabalho controlado em horas. Mas, no s&#xE9;culo XVIII, houve revoltas contra isso e muitos rel&#xF3;gios foram destru&#xED;dos. O trabalho do historiador &#xE9; justamente mostrar essas diferen&#xE7;as. Mais que qualificar a escravid&#xE3;o como violenta &#xE9; preciso identificar o que caracteriza o dom&#xED;nio escravista e o distingue das demais formas de domina&#xE7;&#xE3;o e explora&#xE7;&#xE3;o. &#xC9; por isso que, hoje em dia, o bin&#xF4;mio escravid&#xE3;o e viol&#xEA;ncia j&#xE1; n&#xE3;o orienta as pesquisas hist&#xF3;ricas, que se voltam para diversos outros aspectos da experi&#xEA;ncia de senhores, escravos e libertos durante a vig&#xEA;ncia do escravismo e depois dele.</p>
<p>No entanto, esse bin&#xF4;mio ainda permanece vivo a orientar debates importantes &#x2013; n&#xE3;o na pesquisa hist&#xF3;rica, mas em v&#xE1;rias &#xE1;reas das ci&#xEA;ncias humanas e no Direito. A discuss&#xE3;o sobre a escravid&#xE3;o contempor&#xE2;nea &#xE9; um bom exemplo. Do ponto de vista legal, desde 2003 no Brasil, esse crime se define por submeter algu&#xE9;m a trabalhos for&#xE7;ados, jornada exaustiva ou condi&#xE7;&#xF5;es degradantes de trabalho, ou por restringir a locomo&#xE7;&#xE3;o do trabalhador em raz&#xE3;o de d&#xED;vida ou reten&#xE7;&#xE3;o de documentos, ou ainda por manter vigil&#xE2;ncia ostensiva no local de trabalho. Sem ser nomeada, a viol&#xEA;ncia est&#xE1; presente &#x2013; j&#xE1; n&#xE3;o &#xE9; a do castigo f&#xED;sico como na escravid&#xE3;o hist&#xF3;rica, mas se desdobra em v&#xE1;rios elementos que v&#xE3;o al&#xE9;m da presen&#xE7;a de armas e capangas para vigiar os trabalhadores. A defini&#xE7;&#xE3;o diz muito sobre os limites do que pode ser tolerado em termos de explora&#xE7;&#xE3;o do trabalho no nosso mundo e esse &#xE9; um tema interessant&#xED;ssimo para a pesquisa hist&#xF3;rica. No entanto, j&#xE1; li o pronunciamento de um juiz que se opunha a caracterizar uma situa&#xE7;&#xE3;o como sendo de escravid&#xE3;o, pois os trabalhadores &#x201C;resgatados&#x201D; n&#xE3;o haviam sido encontrados presos (literalmente!) dentro dos barrac&#xF5;es da fazenda&#x2026; Esse juiz tinha uma imagem da escravid&#xE3;o hist&#xF3;rica, que a associava diretamente ao uso de grilh&#xF5;es e ao confinamento nas senzalas, e queria aplic&#xE1;-la para caracterizar as rela&#xE7;&#xF5;es de trabalho numa fazenda no s&#xE9;culo XX! Evidentemente adotava uma abordagem conservadora ao julgar a situa&#xE7;&#xE3;o, mas n&#xE3;o &#xE9; isso que quero ressaltar aqui. O que quero destacar &#xE9; a enorme dist&#xE2;ncia entre essa forma de ver a escravid&#xE3;o e aquela que resulta das pesquisas que v&#xEA;m sendo feitas nos &#xFA;ltimos 30 anos.</p>
</sec>
</sec>
<sec>
<title>&#x25AA; MPC-ER</title>
<p>A sua obra trouxe importantes contribui&#xE7;&#xF5;es n&#xE3;o s&#xF3; ao tema da escravid&#xE3;o no Brasil, mas, igualmente, sobre legisla&#xE7;&#xE3;o e justi&#xE7;a. Tamb&#xE9;m publicou importantes artigos sobre Palmares e sobre a batalha de Pungo Andongo, em Angola. Como foi essa transi&#xE7;&#xE3;o e a sua aproxima&#xE7;&#xE3;o a esses temas?</p>
<sec>
<title>&#x25A1; SHL</title>
<p>A legisla&#xE7;&#xE3;o sempre esteve presente em minhas pesquisas. Foi por onde comecei: fazendo um levantamento da legisla&#xE7;&#xE3;o portuguesa sobre a escravid&#xE3;o no Brasil no per&#xED;odo colonial. O primeiro artigo que publiquei compara as determina&#xE7;&#xF5;es referentes aos cativos (apreendidos nas guerras contra os mouros) com aquelas sobre os escravos africanos, constatando que, al&#xE9;m de n&#xE3;o haver uma continuidade entre essas determina&#xE7;&#xF5;es, do ponto de vista legal, as rela&#xE7;&#xF5;es escravistas na Am&#xE9;rica portuguesa eram pouco reguladas. Estudando temas do Direito, da administra&#xE7;&#xE3;o e do governo no Antigo Regime, compreendi que o exerc&#xED;cio do poder senhorial se fazia no &#xE2;mbito dom&#xE9;stico e que a lei tinha um significado bem diferente do que tem hoje. Era preciso ir al&#xE9;m das normas legais, buscar o modo como as rela&#xE7;&#xF5;es entre senhores e escravos eram operadas cotidianamente. Para isso, era preciso superar uma dificuldade em termos de fontes: a documenta&#xE7;&#xE3;o oficial &#xE9; silenciosa sobre o modo de vida de senhores e escravos e h&#xE1; poucos relatos de viajantes para o per&#xED;odo colonial. Foi a documenta&#xE7;&#xE3;o judicial que me permitiu conhecer o dia a dia das fazendas e reconstituir aspectos da experi&#xEA;ncia dos escravos. Para poder utiliz&#xE1;-la, &#xE9; preciso compreender seus filtros e ent&#xE3;o continuei a lidar com os temas do Direito e da justi&#xE7;a.</p>
<p>Dentre os v&#xE1;rios temas que abordei ao analisar as rela&#xE7;&#xF5;es entre senhores e escravos em Campos dos Goitacases no s&#xE9;culo XVIII, inclu&#xED;am-se as fugas e a apreens&#xE3;o dos fugitivos. Em 1995, Jo&#xE3;o Reis e Fl&#xE1;vio Gomes estavam organizando uma colet&#xE2;nea (que depois foi publicada com o t&#xED;tulo de <italic>Liberdade por um fio</italic>) e me convidaram para escrever um artigo. Resolvi retomar o tema das fugas e fiz uma pesquisa sobre os capit&#xE3;es-do-mato, que resultou no artigo que foi publicado naquele volume. Ao fazer essa pesquisa, topei com um livro in&#xE9;dito de Ernesto Ennes, que dava continuidade &#xE0; compila&#xE7;&#xE3;o de fontes sobre Palmares que ele havia publicado em 1938. Isso, por si s&#xF3;, j&#xE1; indicava que havia mais documentos sobre Palmares dos que os que eram conhecidos&#x2026; Nesse per&#xED;odo, por&#xE9;m, eu estava envolvida na elabora&#xE7;&#xE3;o de um invent&#xE1;rio da legisla&#xE7;&#xE3;o sobre a escravid&#xE3;o africana na Am&#xE9;rica Portuguesa (desdobramento das pesquisas sobre legisla&#xE7;&#xE3;o iniciadas no final dos anos 1970, que foi publicado em 2000). Nesse conjunto documental, havia um alvar&#xE1;, de 1682, que trazia determina&#xE7;&#xF5;es sobre a escravid&#xE3;o e a liberdade dos negros dos Palmares. Era o &#xFA;nico documento legal do per&#xED;odo colonial publicado por Perdig&#xE3;o Malheiro, cujo livro (publicado em 1866) at&#xE9; ent&#xE3;o servia como uma esp&#xE9;cie de manual para os que quisessem saber algo sobre os aspectos legais da escravid&#xE3;o no Brasil. A dificuldade de entender o sentido daquele alvar&#xE1;, que remetia a um epis&#xF3;dio pouco conhecido da hist&#xF3;ria de Palmares, e a leitura que dele fazia Perdig&#xE3;o Malheiro, completamente alheia ao contexto palmarista, refor&#xE7;avam a percep&#xE7;&#xE3;o de que havia muito o que investigar sobre Palmares e seus significados ao longo da hist&#xF3;ria do Brasil. Mas, nesse per&#xED;odo, eu tamb&#xE9;m estava desenvolvendo outras pesquisas, sobre as rela&#xE7;&#xF5;es entre cultura, escravid&#xE3;o e poder no s&#xE9;culo XVIII, que resultaram no <italic>Fragmentos setecentistas</italic> (publicado em 2007).</p>
<p>Palmares foi ficando para depois &#x2013; e tornou-se o centro de minhas preocupa&#xE7;&#xF5;es nos &#xFA;ltimos dez anos. Comecei pela documenta&#xE7;&#xE3;o: primeiro compilando tudo o que havia sido publicado e, depois, indo atr&#xE1;s dos originais. Como eu suspeitava, havia muito mais documentos do que at&#xE9; ent&#xE3;o se imaginava &#x2013; muita coisa importante que n&#xE3;o havia sido publicada e muitos problemas de transcri&#xE7;&#xE3;o nas compila&#xE7;&#xF5;es de fontes e nas refer&#xEA;ncias presentes na bibliografia. Na pesquisa, me concentrei em estudar alguns epis&#xF3;dios que eram mencionados apenas de passagem pela historiografia &#x2013; o principal deles &#xE9; o acordo de paz entre Gana Zumba e o governo de Pernambuco, firmado em 1678. Foi esse acordo que deu origem &#xE0; aldeia de Cuca&#xFA;, destru&#xED;da em 1680. A reescraviza&#xE7;&#xE3;o dos que estavam em Cuca&#xFA; causou pol&#xEA;micas em Portugal e est&#xE1; na origem das determina&#xE7;&#xF5;es do alvar&#xE1; de 1682, que mencionei h&#xE1; pouco. Esse enigma me parece bem resolvido &#x2013; seja a respeito dos encaminhamentos que levaram a sua promulga&#xE7;&#xE3;o, seja em rela&#xE7;&#xE3;o ao interesse que ele despertou em meados dos anos 1860 em juristas como Perdig&#xE3;o Malheiro.</p>
<p>Realizar uma pesquisa extensiva nos arquivos e reler toda a bibliografia sobre Palmares foram atividades instigantes, especialmente em virtude do di&#xE1;logo entre o que eu ia descobrindo nas fontes e os caminhos interpretativos que haviam ficado em segundo plano na historiografia sobre Palmares mas que se revelavam importantes tanto para compreender a hist&#xF3;ria desses mocambos e sua gente, quanto em termos dos movimentos historiogr&#xE1;ficos mais amplos sobre a di&#xE1;spora africana nas Am&#xE9;ricas. Explicando melhor: nos &#xFA;ltimos quinze anos, cada vez mais, os estudos sobre a escravid&#xE3;o africana e a experi&#xEA;ncia dos escravos nas Am&#xE9;ricas passaram a levar em conta a cultura dos escravizados. Paradoxalmente, no entanto, nos estudos sobre Palmares, essa vertente historiogr&#xE1;fica &#x2013; que havia sido importante no in&#xED;cio do s&#xE9;culo XX &#x2013; ficou praticamente relegada ao esquecimento diante de abordagens que enfatizavam interpreta&#xE7;&#xF5;es mais classistas, multiculturalistas ou atl&#xE2;ntica de Palmares. Retomei a tradi&#xE7;&#xE3;o historiogr&#xE1;fica que enfatizava as ra&#xED;zes africanas de Palmares, combinando-a com os estudos mais recentes sobre a hist&#xF3;ria da &#xC1;frica Central (proveni&#xEA;ncia da maioria esmagadora dos escravos levados para Pernambuco) pois elas ajudam a entender melhor a percep&#xE7;&#xE3;o que as autoridades coloniais tinham dos mocambos e de seus habitantes. E eles sabiam que estavam lidando com gente africana, que havia organizado um mundo que seguia valores e procedimentos pol&#xED;ticos centro-africanos. As fontes indicam isso. Por exemplo: governantes de Angola e Pernambuco e conselheiros do Ultramarino concordavam n&#xE3;o ser conveniente que os herdeiros do reino do Ndongo que havia sido aprisionados depois da batalha de Pungo Andongo, em 1671, ficassem no Brasil pois poderiam voltar para Angola ou fugir para Palmares! Eles percebiam muito bem os significados das conex&#xF5;es pol&#xED;ticas entre as duas margens do Atl&#xE2;ntico para os escravizados e para os habitantes dos Palmares. A hist&#xF3;ria da &#xC1;frica Central de coloniza&#xE7;&#xE3;o portuguesa nos s&#xE9;culos XVI e XVII ajuda tamb&#xE9;m a entender melhor o que vai dito nas entrelinhas da documenta&#xE7;&#xE3;o sobre os habitantes dos mocambos palmaristas e sobre como sobreviveram ao longo de tanto tempo (e de diferentes modos) nas matas de Pernambuco.</p>
<p>A di&#xE1;spora dos herdeiros do Ndongo deportados para Portugal chamou minha aten&#xE7;&#xE3;o e investiguei um pouco mais o tema, escrevendo um artigo sobre eles. Nessa pesquisa, outra quest&#xE3;o se fez presente: depois da batalha de Pungo Andongo, n&#xE3;o apenas n&#xE3;o se cogitou transformar os pr&#xED;ncipes do Ndongo em escravos, como houve debates sobre a impossibilidade de escravizar outros africanos que haviam sido aprisionados na guerra ou que dela haviam fugido para reinos vizinhos. Os processos de escraviza&#xE7;&#xE3;o em curso nos sert&#xF5;es angolanos e, especialmente, os debates que geraram entre centro-africanos, autoridades coloniais e metropolitanas t&#xEA;m sido pouco estudados&#x2026; Estou levantando fontes interessant&#xED;ssimas sobre isso em minhas &#xFA;ltimas visitas aos arquivos.</p>
<p>Como se v&#xEA;, um fio puxa o outro&#x2026; Mas, de certo modo, acabo acompanhando um movimento historiogr&#xE1;fico mais amplo, que vai africanizando cada vez mais a hist&#xF3;ria da Am&#xE9;rica portuguesa!</p>
</sec>
</sec>
<sec>
<title>&#x25AA; MPC-ER</title>
<p>Considerando o tema deste dossier, como v&#xEA; a quest&#xE3;o das classifica&#xE7;&#xF5;es baseadas na cor e da estrutura&#xE7;&#xE3;o de hierarquias sociais na hist&#xF3;ria do Brasil e da &#xC1;frica? E, designadamente, retomando os seus estudos, por exemplo em <italic>The Signs of Color</italic>, como v&#xEA; o papel de c&#xF3;digos como os de vestu&#xE1;rio e outros adere&#xE7;os na configura&#xE7;&#xE3;o de categorias sociais em sociedades escravistas e p&#xF3;s-escravistas?</p>
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<title>&#x25A1; SHL</title>
<p>Tenho estudado o tema nos s&#xE9;culos XVII e XVIII e posso falar algo sobre cor e hierarquias sociais no Antigo Regime. Nesse per&#xED;odo, a condi&#xE7;&#xE3;o social das pessoas se definia sobretudo pelo nascimento e pela honra. A riqueza contava, mas bem menos e de modo diferente de como acontece hoje. A posi&#xE7;&#xE3;o de cada um nas hierarquias sociais era exibida visualmente, por meio de roupas e adornos, s&#xE9;quitos, lugar na igreja e em prociss&#xF5;es, etc. A cor da pele e outras caracter&#xED;sticas f&#xED;sicas eram lidas como parte desse c&#xF3;digo visual, mas fazia diferen&#xE7;a se essa &#x201C;leitura&#x201D; acontecia em uma sociedade estruturada ou n&#xE3;o pela escravid&#xE3;o dos africanos. Assim, &#xE9; importante considerar que a cor da pele n&#xE3;o serviu de base para a classifica&#xE7;&#xE3;o social, mas foi incorporada como mais um elemento a diferenciar a condi&#xE7;&#xE3;o social das pessoas. No mundo colonial, em que a escravid&#xE3;o africana era estruturante, a associa&#xE7;&#xE3;o entre a cor branca e a liberdade serviu para aproximar todos os n&#xE3;o brancos da escravid&#xE3;o. O argumento que desenvolvo no <italic>Fragmentos setecentistas</italic> &#xE9; que, no momento em que cada vez mais e em maior n&#xFA;mero os n&#xE3;o brancos se tornavam livres, essa ordem social se desestabilizou. Isso aconteceu na segunda metade do s&#xE9;culo XVIII, quando se pode captar nas fontes um movimento no qual a men&#xE7;&#xE3;o &#xE0; cor passa a substituir a refer&#xEA;ncia &#xE0; condi&#xE7;&#xE3;o social. Isso &#xE9; particularmente percept&#xED;vel no caso dos libertos mesti&#xE7;os, que passam a ser designados como &#x201C;pardos&#x201D; ou &#x201C;mulatos&#x201D; conforme a avalia&#xE7;&#xE3;o positiva ou negativa de seu nascimento (se associado &#xE0; bastardia ou n&#xE3;o) e de sua liberdade (se julgada indevida ou n&#xE3;o). O uso dos termos para designar a cor das pessoas variou ao longo do tempo e teve significados diversos conforme quem chamava algu&#xE9;m de algo. Assim, no final do s&#xE9;culo XVIII, era poss&#xED;vel interditar o envio de &#x201C;pretos&#x201D; para Portugal (para proibir o tr&#xE1;fico de escravos para a metr&#xF3;pole) ou falar mal dos &#x201C;mulatos soberbos&#x201D; que n&#xE3;o &#x201C;queriam servir a senhor algum&#x201D; (para criticar os libertos).</p>
<p>Essa substitui&#xE7;&#xE3;o da condi&#xE7;&#xE3;o social pela cor foi o terreno no qual as ideias racistas se desenvolveram. Isso significa dizer que o racismo tem uma hist&#xF3;ria: est&#xE1; enraizado em um contexto social espec&#xED;fico, diretamente relacionado &#xE0; liberdade. &#xC9; comum ouvir dizer que o racismo decorre da escravid&#xE3;o ou que a justifica; nem uma coisa nem outra: o ide&#xE1;rio racista fortaleceu os instrumentos que serviam para associar os n&#xE3;o brancos &#xE0; escravid&#xE3;o justamente quando eles conseguiam alcan&#xE7;ar a liberdade. Isso quer dizer tamb&#xE9;m que o racismo est&#xE1; diretamente ligado ao jogo de for&#xE7;as que constitui certa sociedade. A racializa&#xE7;&#xE3;o das rela&#xE7;&#xF5;es sociais que se desenvolveu a partir do final do s&#xE9;culo XVIII e o modo como o racismo se enraizou na sociedade brasileira ao longo do s&#xE9;culo XIX fazem parte dos mecanismos de domina&#xE7;&#xE3;o que integram o mundo em que vivemos. &#xC9; por isso que os &#x201C;negros que n&#xE3;o sabem seu lugar&#x201D; incomodam tanto os que n&#xE3;o querem abrir m&#xE3;o de seus privil&#xE9;gios: se negros e pardos permanecessem submissos e servi&#xE7;ais, reconhecendo &#x201C;que todo branco era seu senhor&#x201D;, como dizia Lu&#xED;s Vilhena no in&#xED;cio do s&#xE9;culo XIX, o racismo n&#xE3;o teria tanta import&#xE2;ncia&#x2026; &#xC9;,tamb&#xE9;m, por isso que s&#xE3;o necess&#xE1;rias pol&#xED;ticas p&#xFA;blicas para o combate ao racismo.</p>
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<title>&#x25AA; MPC-ER</title>
<p>Ao longo da sua carreira, manteve-se sempre muito ligada &#xE0; pesquisa de arquivo e pr&#xF3;xima das fontes prim&#xE1;rias. Na sua opini&#xE3;o, quais s&#xE3;o os arquivos ou tipo de fontes que permitem aprofundar o conhecimento do papel dos africanos no Brasil e os processos de classifica&#xE7;&#xE3;o social?</p>
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<title>&#x25A1; SHL</title>
<p>Ao comentar as dificuldades enfrentadas pelos historiadores dos movimentos populares, Eric Hobsbawm observou que &#x201C;muitas fontes s&#xF3; foram reconhecidas como tais porque algu&#xE9;m fez uma pergunta e depois sondou desesperadamente em busca de alguma maneira &#x2013; qualquer maneira &#x2013; de respond&#xEA;-la&#x201D;. Creio que a afirma&#xE7;&#xE3;o se aplica muito bem para responder a essa quest&#xE3;o: todas as fontes podem fornecer informa&#xE7;&#xF5;es preciosas sobre a experi&#xEA;ncia dos africanos no Brasil &#x2013; tudo depende da pergunta que fazemos a elas e dos instrumentos que usamos para analis&#xE1;-las. Veja o caso de Palmares. Muitos historiadores discutiram o vi&#xE9;s ideol&#xF3;gico das fontes dispon&#xED;veis, todas &#x201C;oficiais&#x201D;, produzidas por aqueles que queriam destruir os Palmares, concluindo ser praticamente imposs&#xED;vel colher o ponto de vista dos palmaristas. Mas se iluminarmos essas fontes com o que sabemos sobre o mundo centro-africano no s&#xE9;culo XVII, podemos achar nelas muitos dados sobre o modo como os habitantes dos mocambos organizaram suas vidas e quais eram seus projetos. Tenho um colega, Aldair Rodrigues, que est&#xE1; usando fontes cartoriais &#x2013; registros de alforrias e testamentos &#x2013; para reconstituir a di&#xE1;spora de escravizados levados para as Minas Gerais desde zonas no interior da &#xC1;frica Ocidental no s&#xE9;culo XVIII. Ele utiliza uma documenta&#xE7;&#xE3;o produzida no interior do Brasil para estudar guerras e deslocamentos ocorridos na outra margem do Atl&#xE2;ntico!</p>
<p>N&#xE3;o basta, portanto, ter documentos &#x2013; &#xE9; preciso transform&#xE1;-los em fontes. Isso &#xE9; parte essencial do trabalho do historiador: fazer perguntas e achar formas de respond&#xEA;-las por meio da an&#xE1;lise dos registros deixados pelos homens e mulheres do passado. Quaisquer registros: visuais, sonoros, textuais; diretos ou indiretos. Quantos mais, melhor. Para todos eles &#xE9; preciso sofisticar os recursos de an&#xE1;lise, ter sempre em conta que foram produzidos em contextos espec&#xED;ficos, por sujeitos hist&#xF3;ricos definidos, dirigidos a uma audi&#xEA;ncia determinada, com inten&#xE7;&#xF5;es deliberadas, e seguem normas discursivas ou c&#xF3;digos particulares. Ou seja, todas as informa&#xE7;&#xF5;es que podemos colher v&#xEA;m impregnadas de elementos que precisam ser tamb&#xE9;m analisados.</p>
<p>Certamente h&#xE1; documentos mais pr&#xF3;digos que outros, conforme as perguntas que fazemos. Ao estudar as formas de classifica&#xE7;&#xE3;o social no Brasil da segunda metade do s&#xE9;culo XVIII, preferi fontes que registrassem o cen&#xE1;rio urbano (especialmente do Rio de Janeiro e Salvador) pois nele as hierarquias se exibiam mais publicamente. Recorri a relatos de viajantes, processos de inj&#xFA;ria, descri&#xE7;&#xF5;es de festas, documentos camar&#xE1;rios, correspond&#xEA;ncia entre autoridades coloniais e metropolitanas, e consultas do Conselho Ultramarino. Paralelamente, utilizei textos de car&#xE1;ter mais amplo, como a legisla&#xE7;&#xE3;o e os dicion&#xE1;rios. O cruzamento das fontes ajudava a iluminar os dados colhidos nesses diversos registros e contribu&#xED;ram muito para a an&#xE1;lise dos poucos registros iconogr&#xE1;ficos dispon&#xED;veis para esse per&#xED;odo.</p>
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<title>&#x25AA; MPC-ER</title>
<p>Finalmente, que mudan&#xE7;as nota na produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica nos &#xFA;ltimos 30 anos na pesquisa sobre a presen&#xE7;a africana no Brasil e a pr&#xF3;pria hist&#xF3;ria da &#xC1;frica?</p>
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<title>&#x25A1; SHL</title>
<p>A minha gera&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o aprendeu praticamente nada de hist&#xF3;ria da &#xC1;frica na universidade. Sem uma disciplina nos cursos de Hist&#xF3;ria e sem especialistas nessa &#xE1;rea, no Brasil, apenas alguns pesquisadores se dedicavam aos estudos africanistas, geralmente desenvolvidos nas ci&#xEA;ncias sociais ou na literatura. Esse panorama persistiu at&#xE9; praticamente a d&#xE9;cada de 1980, mesmo com o fortalecimento do movimento negro a partir do final dos anos 1970. Foi a mobiliza&#xE7;&#xE3;o ocorrida nos anos 1990 e 2000 que fez com que a hist&#xF3;ria da &#xC1;frica entrasse nos curr&#xED;culos dos cursos de gradua&#xE7;&#xE3;o em Hist&#xF3;ria e isso promoveu a forma&#xE7;&#xE3;o de &#xE1;reas de pesquisa na p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o. Esse impulso se combinou com os desdobramentos historiogr&#xE1;ficos que vinham ocorrendo desde os anos 1980, que abriram campo para que se desenvolvesse um interesse espec&#xED;fico sobre a hist&#xF3;ria da &#xC1;frica. No in&#xED;cio, esse interesse se voltou para o estudo de temas ligados ao tr&#xE1;fico atl&#xE2;ntico e &#xE0;s &#xE1;reas de proced&#xEA;ncia dos africanos escravizados trazidos para as Am&#xE9;ricas. Mas, hoje em dia, ele se ampliou para a hist&#xF3;ria de outras regi&#xF5;es e per&#xED;odos da hist&#xF3;ria africana.</p>
<p>A produ&#xE7;&#xE3;o historiogr&#xE1;fica brasileira &#xE9; muito grande e consistente. Cresceu muito nas &#xFA;ltimas d&#xE9;cadas e a abertura de um campo &#x201C;novo&#x201D;, como a hist&#xF3;ria da &#xC1;frica tem se beneficiado muito desse vigor. H&#xE1; muitos jovens pesquisadores que est&#xE3;o fazendo teses e publicando livros sobre temas importantes da hist&#xF3;ria da &#xC1;frica, com contribui&#xE7;&#xF5;es relevantes. Essa produ&#xE7;&#xE3;o j&#xE1; come&#xE7;a a fazer diferen&#xE7;a no cen&#xE1;rio internacional e deve ter um peso cada vez maior. H&#xE1; ainda muitos passos a dar, como por exemplo aprofundar o di&#xE1;logo com a produ&#xE7;&#xE3;o africana sobre a hist&#xF3;ria da &#xC1;frica (e n&#xE3;o apenas com os estudiosos norte-americanos e europeus). Mas as coisas t&#xEA;m caminhado rapidamente e vejo com muito otimismo o desenvolvimento dos estudos africanistas no Brasil.</p>
<p>Disse h&#xE1; pouco que a hist&#xF3;ria da Am&#xE9;rica portuguesa vem se africanizando. Esse &#xE9; um movimento historiogr&#xE1;fico relativamente recente e se faz em pelo menos tr&#xEA;s dire&#xE7;&#xF5;es. A primeira &#xE9; mais imediata: se a escravid&#xE3;o africana estruturou a sociedade colonial, as duas margens do Atl&#xE2;ntico est&#xE3;o necessariamente conectadas e a hist&#xF3;ria de uma est&#xE1; imbricada na outra. N&#xE3;o se trata apenas de incorporar os elos derivados do tr&#xE1;fico negreiro, mas de entender a multiplicidade de conex&#xF5;es que ligavam as sociedades que se formaram no Brasil e na &#xC1;frica de coloniza&#xE7;&#xE3;o portuguesa. A segunda diz respeito &#xE0; incorpora&#xE7;&#xE3;o das v&#xE1;rias dimens&#xF5;es da experi&#xEA;ncia africana na hist&#xF3;ria colonial que, durante muito tempo, foi pensada a partir do processo colonizador, sem levar em conta a atua&#xE7;&#xE3;o das popula&#xE7;&#xF5;es nativas das regi&#xF5;es colonizadas. H&#xE1; duas ou tr&#xEA;s d&#xE9;cadas atr&#xE1;s era poss&#xED;vel pensar na cultura colonial sem considerar os africanos e seus descendentes, por exemplo. Apesar de contestadas, as teses freyrianas ainda balizavam an&#xE1;lises que afirmavam a incorpora&#xE7;&#xE3;o de elementos &#x201C;culturais&#x201D; (h&#xE1;bitos, comidas, palavras, religi&#xE3;o) trazidos pelos africanos que se somavam a outros de v&#xE1;rios modos, mas n&#xE3;o havia nenhum estudo que mencionasse conhecimentos africanos que tivessem feito diferen&#xE7;a, que n&#xE3;o tivesse somente &#x201C;contribu&#xED;do&#x201D; para uma cultura que se queria &#x201C;brasileira&#x201D;. Somente nos &#xFA;ltimos anos os conhecimentos africanos na minera&#xE7;&#xE3;o, na agricultura, na fabrica&#xE7;&#xE3;o de tecidos t&#xEA;m sido incorporados &#xE0; hist&#xF3;ria da ci&#xEA;ncia e das t&#xE9;cnicas no per&#xED;odo colonial, por exemplo. Mesmo &#x201C;iletrados&#x201D;, eram intelectuais, pensavam o mundo a partir de uma l&#xF3;gica diferente que precisa ser mais bem conhecida pelos historiadores. Mas h&#xE1; ainda uma terceira vertente da africaniza&#xE7;&#xE3;o da hist&#xF3;ria do Brasil colonial que considero muito importante. &#xC9; o que diz respeito &#xE0;s categorias de an&#xE1;lise, que come&#xE7;am a deixar de ser euroc&#xEA;ntricas. Estamos acostumados a pensar a pol&#xED;tica separadamente da religi&#xE3;o &#x2013; mesmo quando se trata da &#xE9;poca moderna &#x2013; e a trabalhar com um processo de individua&#xE7;&#xE3;o em desenvolvimento a partir dos s&#xE9;culos XV e XVI. Mas religi&#xE3;o e pol&#xED;tica eram indissoci&#xE1;veis nas sociedades africanas desse mesmo per&#xED;odo; na &#xC1;frica, a identidade das pessoas, mais que individual, era marcada pela experi&#xEA;ncia coletiva. Ainda que possamos encontrar muitas similitudes entre os reinos africanos e as monarquias europeias nos s&#xE9;culos XVII e XVIII, que permitiram que eles se conectassem sob o dom&#xED;nio colonial, estes eram mundos que possu&#xED;am valores e formas de organiza&#xE7;&#xE3;o bem diferentes. Africanizar a hist&#xF3;ria da Am&#xE9;rica portuguesa implica considerar esses aspectos na constru&#xE7;&#xE3;o dos argumentos, na elabora&#xE7;&#xE3;o das interpreta&#xE7;&#xF5;es que fazemos das fontes.</p>
<p>Creio que as duas historiografias &#x2013; sobre a presen&#xE7;a africana no Brasil e sobre os africanos na &#xC1;frica &#x2013; tendem a se alimentar mutuamente, com grandes ganhos anal&#xED;ticos, te&#xF3;ricos e, porque n&#xE3;o dizer, pol&#xED;ticos.</p>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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<name><surname>LARA</surname><given-names>Silvia Hunold</given-names></name></person-group>
<source><italic>Campos da Viol&#xEA;ncia.</italic> Escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808</source>
<publisher-loc>Rio de Janeiro</publisher-loc>
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<year>1988</year></element-citation>
<mixed-citation>LARA, Silvia Hunold. <italic>Campos da Viol&#xEA;ncia.</italic> Escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>LARA</surname><given-names>Silvia Hunold</given-names></name></person-group>
<source><italic>Ordena&#xE7;&#xF5;es Filipinas.</italic> Edi&#xE7;&#xE3;o comentada. Livro V</source>
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<year>1999</year></element-citation>
<mixed-citation>LARA, Silvia Hunold. (Org.). <italic>Ordena&#xE7;&#xF5;es Filipinas.</italic> Edi&#xE7;&#xE3;o comentada. Livro V. S&#xE3;o Paulo: Companhia das Letras. 1999.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>LARA</surname><given-names>Silvia Hunold</given-names></name></person-group>
<chapter-title>Legisla&#xE7;&#xE3;o sobre Escravos Africanos na Am&#xE9;rica Portuguesa</chapter-title><person-group person-group-type="editor"><name><surname>ANDR&#xC9;S-GALLEGO</surname><given-names>Jos&#xE9;</given-names></name></person-group>
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<comment>CD-Rom</comment></element-citation>
<mixed-citation>LARA, Silvia Hunold. Legisla&#xE7;&#xE3;o sobre Escravos Africanos na Am&#xE9;rica Portuguesa. In: ANDR&#xC9;S-GALLEGO, Jos&#xE9; (Coord.). <italic>Nuevas Aportaciones a la Historia Jur&#xED;dica de Iberoam&#xE9;rica.</italic> Madrid: Fundaci&#xF3;n Hist&#xF3;rica Tavera/Digibis/Fundaci&#xF3;n Hernando de Larramendi, 2000. CD-Rom.</mixed-citation></ref>
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<name><surname>LARA</surname><given-names>Silvia Hunold</given-names></name></person-group>
<source><italic>Fragmentos Setecentistas.</italic> Escravid&#xE3;o, cultura e poder</source>
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<mixed-citation>LARA, Silvia Hunold. <italic>Fragmentos Setecentistas.</italic> Escravid&#xE3;o, cultura e poder. S&#xE3;o Paulo: Companhia das Letras, 2007.</mixed-citation></ref>
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