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<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title></journal-title-group>
<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
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<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name></publisher>
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<subject>Resenha</subject></subj-group></article-categories>
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<article-title>Os colonos africanos do Caribe espanhol</article-title>
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<trans-title>The African Settlers of the Spanish Caribbean</trans-title></trans-title-group>
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<trans-title>Los colonos africanos del Caribe espa&#xF1;ol</trans-title></trans-title-group>
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	<given-names>Kara D.</given-names>
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<institution content-type="normalized">Vanderbilt University</institution>
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<email>kara.d.schultz@vanderbilt.edu</email>
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P&#xF3;s-doutoranda junto ao centro de pesquisa &#x201C;Slave Societies Digital Archive&#x201D; da Universidade Vanderbilt, Estados Unidos. Ela obteve o doutorado em hist&#xF3;ria pela mesma institui&#xE7;&#xE3;o em 2016. Sua pesquisa se concentra na escravid&#xE3;o e no tr&#xE1;fico de escravos nos s&#xE9;culos XVI e XVII, no Atl&#xE2;ntico sul.</institution>
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<name><surname>WHEAT</surname> <given-names>David</given-names></name></person-group>.
<source>Atlantic Africa and the Spanish Caribbean, 1570-1640</source>.
<publisher-loc>Chapel Hill</publisher-loc>:
<publisher-name>University of North Carolina Press</publisher-name>,
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<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p></license></permissions>
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<p>Nesta inovadora monografia, David Wheat considera o Caribe espanhol como uma extens&#xE3;o da &#xC1;frica ocidental e do mundo ib&#xE9;rico no inicio da &#xE9;poca moderna. Ao empregar uma variedade de fontes prim&#xE1;rias dispon&#xED;veis em arquivos localizados em Cuba, Col&#xF4;mbia, Portugal e Espanha, <italic>Atlantic Africa and the Spanish Caribbean</italic> demonstra a import&#xE2;ncia demogr&#xE1;fica, social e econ&#xF4;mica dos africanos e dos seus descendentes &#x2013; os &#x201C;colonos <italic>de fato</italic>&#x201D; da regi&#xE3;o &#x2013; bem antes da ascens&#xE3;o da agricultura monocultora (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 8).</p>
<p>A narrativa de Wheat come&#xE7;a em fins do s&#xE9;culo XVI, quando as ind&#xFA;strias do ouro, do cobre e das p&#xE9;rolas, que inicialmente serviram como incentivo para a introdu&#xE7;&#xE3;o de africanos escravizados no Caribe, tinham em grande medida se esgotado. As estruturas imperiais espanholas foram reorganizadas para concentrarem-se na extra&#xE7;&#xE3;o da riqueza mineral do continente americano, e o Caribe assumiu um novo papel como parada obrigat&#xF3;ria para as frotas das &#xCD;ndias, criadas no inicio da d&#xE9;cada de 1560. Nas regi&#xF5;es interiores de cidades portu&#xE1;rias fortificadas, como Cartagena de &#xCD;ndias, Cidade do Panam&#xE1;, Santo Domingo e Havana &#x2013; &#x201C;estaleiros, centros de escravid&#xE3;o e centros para o com&#xE9;rcio regional&#x201D; &#x2013; os africanos escravizados e os seus descendentes eram essenciais para a agricultura, a cria&#xE7;&#xE3;o de gado e a produ&#xE7;&#xE3;o de alimentos (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 10). Tais empreendimentos supriam tanto as popula&#xE7;&#xF5;es locais como as frotas, e favoreciam, ainda, interc&#xE2;mbios comerciais por todo o Caribe.</p>
<p>A primeira metade do livro concentra-se em eventos na Alta Guin&#xE9; e na &#xC1;frica Centro-Ocidental &#x2013; as duas principais regi&#xF5;es de embarque para os escravos enviados para as Am&#xE9;ricas, durante o per&#xED;odo em considera&#xE7;&#xE3;o &#x2013; e suas reverbera&#xE7;&#xF5;es no Caribe espanhol. O primeiro cap&#xED;tulo do livro examina os &#x201C;Rios da Guin&#xE9;&#x201D;, uma regi&#xE3;o do litoral ocidental da &#xC1;frica que engloba Alta Guin&#xE9;, Seneg&#xE2;mbia e Serra Leoa. At&#xE9; o inicio da d&#xE9;cada 1590, a maioria dos navios transatl&#xE2;nticos tinha sua origem na Alta Guin&#xE9;; contudo, o com&#xE9;rcio de escravos ocupou s&#xF3; uma parte de um &#x201C;sistema extenso&#x201D; de trocas entre europeus, luso-africanos e africanos, desde fins do s&#xE9;culo XV. Como demonstra Wheat, o legado de mais de um s&#xE9;culo de rela&#xE7;&#xF5;es interculturais nos rios da Guin&#xE9; teve implica&#xE7;&#xF5;es profundas para as intera&#xE7;&#xF5;es de pessoas da Alta Guin&#xE9; no Caribe espanhol, indiv&#xED;duos que &#x201C;chegaram com um sentido forte de suas origens etno-lingu&#xED;sticas&#x201D;, as quais eram &#x201C;bem reconhecidas&#x201D; pelos ib&#xE9;ricos. Em contraste com os oriundos da &#xC1;frica Centro-Ocidental, chamados pelas fontes espanholas da &#xE9;poca invariavelmente como <italic>angolas, congos</italic> ou <italic>enchicos</italic>, existiam mais de vinte etn&#xF4;nimos e top&#xF4;nimos que se referiam a pessoas da Alta Guin&#xE9;, incluindo jolofo, ca&#xE7;anga, ba&#xF1;on, folupo, biafara, bioho, bran e zape (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 24-26). Embora essas classifica&#xE7;&#xF5;es possam ser desprezadas como mais uma ferramenta de mercadores de escravos ansiosos por lucros para diferenciar entre sua carga humana, Wheat mostra convincentemente como essas identidades etno-lingu&#xED;sticas &#x201C;desempenharam papeis sociais importantes para a gente da Alta Guin&#xE9; em di&#xE1;spora&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 54).</p>
<p>Em contraste, os agentes ib&#xE9;ricos n&#xE3;o possu&#xED;am os mesmos conhecimentos n&#xED;tidos de diferen&#xE7;as &#xE9;tnicas entre indiv&#xED;duos dos &#x201C;Reinos de Angola&#x201D;, de longe a maior zona de proveni&#xEA;ncia de africanos enviados para a Am&#xE9;rica espanhola. Os cativos eram obtidos em grande parte por meio da guerra e da capta&#xE7;&#xE3;o de tributos ligados &#xE0; forma&#xE7;&#xE3;o do estado colonial portugu&#xEA;s. Al&#xE9;m de fornecer milhares de cativos para exporta&#xE7;&#xE3;o, as &#x201C;elites&#x201D; de Luanda e os colonos &#x2013; oficiais reais, procuradores, mercadores e burocratas &#x2013; conectaram diretamente a coloniza&#xE7;&#xE3;o portuguesa de Angola e a coloniza&#xE7;&#xE3;o espanhola das Am&#xE9;ricas ao impulsionar a exporta&#xE7;&#xE3;o de africanos para o Caribe espanhol. Assim, o governador de Angola, Jo&#xE3;o Correia de Sousa (1621-1623), tendo fugido da col&#xF4;nia ap&#xF3;s a guerra contra Cassanje, embarcou para Cartagena na companhia de outro oficial real e um bom n&#xFA;mero de africanos escravizados, os quais provavelmente vendeu nos dom&#xED;nios castelhanos (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 85-86). Um outro elemento que diferenciava o tr&#xE1;fico angolano do seu precedente na Alta Guin&#xE9; era a proemin&#xEA;ncia das crian&#xE7;as entre os escravizados, uma caracter&#xED;stica geralmente associada ao tr&#xE1;fico de escravos de fins do s&#xE9;culo XVIII e XIX. Wheat atribui a preval&#xEA;ncia de jovens a v&#xE1;rios fatores, incluindo a escraviza&#xE7;&#xE3;o de comunidades inteiras, o pagamento de crian&#xE7;as como tributo, e a prefer&#xEA;ncia dos Imbangala, que vendiam escravos aos portugueses, por reter os cativos adultos e vender crian&#xE7;as e jovens. A pouca idade de muitos cativos oriundos da &#xC1;frica Centro-Ocidental, como sugere Wheat, pode ajudar a explicar por que muitos africanos centro-ocidentais raramente usavam etn&#xF4;nimos ou top&#xF4;nimos espec&#xED;ficos para identificarem-se aos agentes ib&#xE9;ricos (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 72, 103).</p>
<p>A migra&#xE7;&#xE3;o majoritariamente volunt&#xE1;ria de portugueses e luso-africanos para o Caribe espanhol &#xE9; o t&#xF3;pico do capitulo tr&#xEA;s. Os portugueses excederam em n&#xFA;mero os outros estrangeiros europeus em muitas regi&#xF5;es da Am&#xE9;rica espanhola. Apesar das repetidas &#x201C;c&#xE9;dulas&#x201D; para expulsar os lusitanos das cidades e vilas da Am&#xE9;rica castelhana, por causa de preocupa&#xE7;&#xF5;es com contrabando e subvers&#xE3;o, oficiais no Caribe n&#xE3;o raro relutavam em seguir as ordens. Os portugueses comandavam o tr&#xE1;fico de escravos para a regi&#xE3;o, e ele era uma fonte importante de ingressos para os cofres locais. Al&#xE9;m dos seus elos com o lucrativo com&#xE9;rcio africano, os portugueses e os luso-africanos de v&#xE1;rios recursos econ&#xF4;micos muitas vezes possu&#xED;am um conhecimento importante sobre os povos, l&#xED;nguas, cren&#xE7;as, comidas, e culturas africanas, derivado da sua experi&#xEA;ncia no litoral africano. Embora esse conhecimento fosse muitas vezes usado para promover seus pr&#xF3;prios interesses no tr&#xE1;fico de escravos, os intermedi&#xE1;rios portugueses e luso-africanos reconfiguraram o Caribe espanhol, assegurando que fosse uma &#x201C;extens&#xE3;o de padr&#xF5;es anteriores da &#xC1;frica atl&#xE2;ntica&#x201D;, e n&#xE3;o tanto &#x201C;um conflito violento entre culturas ou um encontro tenso negociado por europeus e africanos que sabiam pouco uns dos outros de antem&#xE3;o&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 140, 108).</p>
<p>A segunda metade do livro concentra-se nos &#x201C;colonos negros&#x201D; dos portos do Caribe espanhol e seus sert&#xF5;es, conectando-os a padr&#xF5;es hist&#xF3;ricos e contempor&#xE2;neos da &#xC1;frica ocidental e da Pen&#xED;nsula Ib&#xE9;rica. O cap&#xED;tulo quatro analisa as mulheres livres de cor, que geralmente apareciam como donas de propriedades e residentes de vilas do Caribe espanhol. Seus pap&#xE9;is sociais e econ&#xF4;micos lembram os das <italic>nharas</italic> da costa da Alta Guin&#xE9; e o das <italic>donas</italic> da &#xC1;frica Centro-Ocidental, mulheres mercadoras africanas e luso-africanas que &#x201C;frequentemente agiam como intermedi&#xE1;rias e agentes comerciais&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 145). Como suas equivalentes na &#xC1;frica atl&#xE2;ntica, as mulheres livres no Caribe dos s&#xE9;culos XVI e XVII tinham propriedades (incluindo, &#xE0;s vezes, escravos), operavam neg&#xF3;cios, e entravam em relacionamentos com homens ib&#xE9;ricos. Wheat ressalta a complexidade de uma sociedade na qual as linhas raciais n&#xE3;o eram completamente definidas e algumas mulheres alcan&#xE7;avam mobilidade socioecon&#xF4;mica. Contudo, se algumas das mulheres livres de cor que Wheat introduz demonstram independ&#xEA;ncia econ&#xF4;mica e promin&#xEA;ncia social, outras reiteram o fato de que essas eram sociedades escravistas.</p>
<p>O cap&#xED;tulo cinco demonstra, de forma persuasiva, como os africanos eram os &#x201C;colonos <italic>de fato</italic>&#x201D; do Caribe espanhol, em particular em ocupa&#xE7;&#xF5;es agr&#xED;colas que a maioria dos ib&#xE9;ricos relutavam assumir. Os escravos trabalhavam nas regi&#xF5;es interiores pr&#xF3;ximas &#xE0;s cidades portu&#xE1;rias, criando gado e produzindo alimentos para o consumo local e a exporta&#xE7;&#xE3;o no Caribe. Suas ocupa&#xE7;&#xF5;es &#x201C;diretamente ecoavam as ocupa&#xE7;&#xF5;es de escravos rurais na Pen&#xED;nsula Ib&#xE9;rica e col&#xF4;nias portugueses na &#xC1;frica atl&#xE2;ntica&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 185).</p>
<p>O &#xFA;ltimo cap&#xED;tulo utiliza fontes eclesi&#xE1;sticas para examinar a adapta&#xE7;&#xE3;o dos africanos &#xE0; sociedade do Caribe espanhol e o seu papel em facilitar a acultura&#xE7;&#xE3;o (medida em termos da aquisi&#xE7;&#xE3;o de l&#xED;nguas ib&#xE9;ricas e do catolicismo) de seus companheiros africanos. Os ib&#xE9;ricos avaliavam a flu&#xEA;ncia cultural dos africanos numa escala que se estendia do bo&#xE7;al ao ladino, atributos que &#xE0;s vezes influenciavam os pre&#xE7;os dos escravos (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 216-218). Embora a ladiniza&#xE7;&#xE3;o fosse importante para &#x201C;sustentar a coloniza&#xE7;&#xE3;o espanhola do Caribe&#x201D;, os africanos muitas vezes tinham suas pr&#xF3;prias motiva&#xE7;&#xF5;es para adotar a l&#xED;ngua e a cultura religiosa ib&#xE9;rica. Wheat enfatiza, ademais, que a aquisi&#xE7;&#xE3;o da l&#xED;ngua e a participa&#xE7;&#xE3;o nos ritos cat&#xF3;licos n&#xE3;o obliteravam necessariamente identidades e cren&#xE7;as africanas. De fato, muitos africanos rec&#xE9;m-batizados estavam unidos a padrinhos de origens etno-lingu&#xED;sticas similares, e com isso aprofundavam interc&#xE2;mbios transculturais que ocorriam simultaneamente no litoral africano (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 240-241).</p>
<p>A Uni&#xE3;o Ib&#xE9;rica (1580-1640) delimita os marcos temporais do estudo de Wheat. Ap&#xF3;s a independ&#xEA;ncia portuguesa em 1640, as redes do tr&#xE1;fico transatl&#xE2;ntico &#x201C;virtualmente desapareceram ou foram transferidas completamente para outro lugar&#x201D; (<xref ref-type="bibr" rid="B1">WHEAT, 2016</xref>, p. 262). O decl&#xED;nio no tr&#xE1;fico africano direto cortou as liga&#xE7;&#xF5;es com a &#xC1;frica subsaariana. A independ&#xEA;ncia portuguesa, seguida da guerra na Pen&#xED;nsula Ib&#xE9;rica e da captura holandesa do seu porto escravista mais lucrativo, Luanda, perturbou as redes de escraviza&#xE7;&#xE3;o. Contudo, o artigo recente de Tatiana Seijas e Pablo Miguel Sierra Silva sobre o tr&#xE1;fico de escravos para o M&#xE9;xico central ap&#xF3;s o fim do <italic>asiento</italic> portugu&#xEA;s mostra que os africanos ocidentais e centro-ocidentais continuaram a chegar ao porto de Veracruz durante o s&#xE9;culo XVII, ainda que em n&#xFA;meros reduzidos quando comparados com o in&#xED;cio do s&#xE9;culo (<xref ref-type="bibr" rid="B2">SEIJAS; SILVA, 2016</xref>). Essa constata&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o diminui a import&#xE2;ncia do trabalho de Wheat, mas sublinha a necessidade de mais estudos para o negligenciado per&#xED;odo entre 1640 e o come&#xE7;o do s&#xE9;culo XVIII, tanto em termos do tr&#xE1;fico de escravos como do papel dos africanos e de seus descendentes na coloniza&#xE7;&#xE3;o do Caribe espanhol.</p>
<p><italic>Atlantic Africa and the Spanish Caribbean</italic> se insere em muitos debates historiogr&#xE1;ficos de interesse para os estudiosos da &#xC1;frica, do Caribe e da Di&#xE1;spora Africana do in&#xED;cio da &#xE9;poca moderna. O trabalho de Wheat, fruto de uma rigorosa investiga&#xE7;&#xE3;o, ilustra muito bem o potencial das fontes documentais localizadas em arquivos na Espanha e na Am&#xE9;rica Latina para desvelar novos aspectos da hist&#xF3;ria do tr&#xE1;fico portugu&#xEA;s de escravos. O uso do material do <italic>Archivo de Indias</italic> de Sevilha para reconstruir aspectos de Angola, Cabo Verde e Alta Guin&#xE9;, nos s&#xE9;culos XVI e XVII, &#xE9; particularmente significativo dada a relativa escassez de material comparativo em cole&#xE7;&#xF5;es do mundo lus&#xF3;fono. Embora alguns dos etn&#xF4;nimos e top&#xF4;nimos fornecidos pelas fontes eclesi&#xE1;sticas examinadas por Wheat possam ser intr&#xED;nsecos aos cleros locais &#x2013; principalmente se comparados aos registros de batismos de meados do s&#xE9;culo XVII de v&#xE1;rias par&#xF3;quias no estado do Rio de Janeiro que invariavelmente se referem a africanos como angolas, congos e &#x201C;de na&#xE7;&#xE3;o guin&#xE9;&#x201D; &#x2013; <italic>Atlantic Africa and the Spanish Caribbean</italic> indica as vantagens de fazer investiga&#xE7;&#xE3;o al&#xE9;m das fronteiras imperiais.</p></body>
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<title>Refer&#xEA;ncias</title>
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<name><surname>SEIJAS</surname><given-names>Tatiana</given-names></name><name><surname>SILVA</surname><given-names>Pablo Miguel Sierra</given-names></name></person-group>
<article-title>The Persistence of the Slave Market in Seventeenth-Century Central Mexico</article-title>
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<mixed-citation>SEIJAS, Tatiana; SILVA, Pablo Miguel Sierra. The Persistence of the Slave Market in Seventeenth-Century Central Mexico. <italic>Slavery and Abolition</italic>, v. 37, n. 2, p. 307-333, 2016. https://doi.org/10.1080/0144039X.2015.1121024</mixed-citation></ref></ref-list>
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