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			<journal-id journal-id-type="publisher-id">ibero</journal-id>
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				<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
			<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
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				<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2019.1.32818</article-id>
			<article-id pub-id-type="publisher-id">00011</article-id>
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				<subj-group subj-group-type="heading">
					<subject>Entrevista</subject>
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			<title-group>
				<article-title>Terrorismo de Estado, Direitos Humanos e Justi&#xE7;a de Transi&#xE7;&#xE3;o (Argentina e Brasil) &#x2013; entrevista com Carlos Artur Gallo</article-title>
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					<trans-title>State terrorism, Human Right and transitional Justice (Argentine and Brazil) &#x2013; interview with Carlos Artur Gallo</trans-title>
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					<trans-title>Terrorismo de Estado, derechos humanos y justicia transicional (Argentina y Brasil) &#x2013; entrevista com Carlos Artur Gallo</trans-title>
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						<surname>Maia</surname>
						<given-names>Tatyana de Amaral</given-names>
					</name>
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					<bio>
						<p>
							<sc>Tatyana</sc>
							<sc>De</sc>
							<sc>Amaral</sc>
							<sc>Maia</sc>
							<email>tatyana.maia@pucrs.br</email>
						</p>
						<p>&#x2022; Professora adjunta do curso de gradua&#xE7;&#xE3;o em Hist&#xF3;ria e do Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Hist&#xF3;ria da Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul. P&#xF3;s-Doutorado em Hist&#xF3;ria pela Universidade Federal Fluminense (2012) e pela Universidade do Porto (2014). Doutora em Hist&#xF3;ria pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2010), Rio de Janeiro, Brasil.</p>
					</bio>
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					<institution content-type="normalized">Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</institution>
					<institution content-type="orgname">Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</institution>
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						<named-content content-type="city">Porto Alegre</named-content>
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					<institution content-type="original">Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil.</institution>
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			<pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
				<day>24</day>
				<month>04</month>
				<year>2019</year>
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			<pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
				<season>Jan-Apr</season>
				<year>2019</year>
			</pub-date>
			<volume>45</volume>
			<issue>1</issue>
			<fpage>125</fpage>
			<lpage>129</lpage>
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					<day>20</day>
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					<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p>
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			</permissions>
			<abstract>
				<p>
					<sc>Carlos</sc> 
					<sc>Artur</sc> 
					<sc>Gallo</sc> 
					&#xE9; professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), onde atua em cursos de gradua&#xE7;&#xE3;o e p&#xF3;s-gradua&#xE7;&#xE3;o. Atualmente, &#xE9; o Coordenador Adjunto do Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica da UFPEL. &#xC9; doutor em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com est&#xE1;gio doutoral na Universidade Complutense de Madrid, na Espanha e coordena o N&#xFA;cleo de Pesquisa sobre Pol&#xED;ticas de Mem&#xF3;ria, vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&#xED;fico e Tecnol&#xF3;gico (CNPQ). Publicou diversos artigos sobre a tem&#xE1;tica da viol&#xEA;ncia do Estado, das pol&#xED;ticas de mem&#xF3;ria e da justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o em pa&#xED;ses do Cone Sul. &#xC9; autor do livro 
					<italic>Um acerto de contas com o passado: crimes da ditadura, &#x201C;leis de impunidade&#x201D; e decis&#xF5;es das Supremas Cortes no Brasil e na Argentina</italic>, publicado no ano de 2018, fruto da sua tese de doutorado.
				</p>
			</abstract>
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		<sec>
			<title>&#x25AA; Tatyana de Amaral Maia</title>
			<p>Prof. Gallo, voc&#xEA; poderia nos contar um pouco sobre a sua trajet&#xF3;ria acad&#xEA;mica?</p>
			<sec>
				<title>&#x25A1; Carlos Artur Gallo</title>
				<p>Eu sou graduado em Direito e em Ci&#xEA;ncias Sociais. Embora uma trajet&#xF3;ria acad&#xEA;mica n&#xE3;o seja algo necessariamente linear, visto que temas e interesses de pesquisa v&#xE3;o se sobrepondo e modificando com o passar do tempo, eu poderia dizer que me acompanhou, desde que iniciei minhas gradua&#xE7;&#xF5;es (ambas em 2003), um interesse maior pela ci&#xEA;ncia pol&#xED;tica e, em especial, pela abordagem de temas que pudessem aproximar as &#xE1;reas nas quais realizava meus estudos. Quando j&#xE1; estava graduado em Direito e me aproximava do fim do bacharelado em Ci&#xEA;ncias Sociais, entre os anos de 2008 e 2009, essa aproxima&#xE7;&#xE3;o come&#xE7;ou a ser realizada a partir do tema das ditaduras no Cone Sul. &#xC9; um per&#xED;odo no qual se intensificaram no Pa&#xED;s debates sobre o tema. Podendo mencionar, neste sentido, o in&#xED;cio da ADPF 153 no STF, que tratava da interpreta&#xE7;&#xE3;o dada &#xE0; Lei da Anistia, bem como, e, na sequ&#xEA;ncia, da implementa&#xE7;&#xE3;o do projeto Mem&#xF3;rias Reveladas e, ainda, o lan&#xE7;amento do PNDH-3, que previa a cria&#xE7;&#xE3;o da uma Comiss&#xE3;o da Verdade. Algo que me intrigou muito, naquele contexto, era tentar entender por qual raz&#xE3;o ningu&#xE9;m havia sido julgado pelos crimes cometidos pela ditadura brasileira. Assim, em 2010, quando iniciei o mestrado em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica e, em 2012, o doutorado, ambos na UFRGS, fui aprofundando minhas an&#xE1;lises e trabalhando com temas que, de algum modo, me acompanhavam desde a reta final da gradua&#xE7;&#xE3;o em Ci&#xEA;ncias Sociais. Eram e continuam sendo temas evidentemente marcados pela dimens&#xE3;o pol&#xED;tica, mas sempre com pontos de conex&#xE3;o com a &#xE1;rea jur&#xED;dica e com a Hist&#xF3;ria.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>&#x25AA; Tatyana</title>
			<p>O seu livro 
				<italic>Um acerto de contas com o passado</italic>, publicado em 2018 pela editora Appris, prop&#xF5;e uma an&#xE1;lise comparada da transi&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica vivenciada pelo Brasil e pela Argentina ap&#xF3;s a crise das &#xFA;ltimas ditaduras, al&#xE9;m de investigar o processo de justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o empreendidos e a manuten&#xE7;&#xE3;o de enclaves autorit&#xE1;rios nos dois pa&#xED;ses. Poderia nos falar mais sobre os prop&#xF3;sitos da obra?
			</p>
			<sec>
				<title>&#x25A1; Gallo</title>
				<p>Ent&#xE3;o, com o passar dos anos, lendo e estudando cada vez mais sobre a mem&#xF3;ria das ditaduras, fui ampliando interesses tem&#xE1;ticos. A obra que publiquei recentemente, que se trata de uma vers&#xE3;o revisada da tese defendida em 2016 no Programa de P&#xF3;s-Gradua&#xE7;&#xE3;o em Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica da UFRGS, &#xE9; o resultado deste movimento de amplia&#xE7;&#xE3;o de perspectivas sobre o tema. Quanto mais eu estudava o caso brasileiro, tentando entender como e por qual raz&#xE3;o a agenda pol&#xED;tica da transi&#xE7;&#xE3;o silenciou as demandas por mem&#xF3;ria, verdade e justi&#xE7;a no Pa&#xED;s, mais me impactava a diferen&#xE7;a do que ocorreu no Brasil em compara&#xE7;&#xE3;o aos pa&#xED;ses vizinhos do Cone Sul. Eu queria entender, analisar, por qual raz&#xE3;o pa&#xED;ses que passaram por experi&#xEA;ncias autorit&#xE1;rias muito semelhantes solucionaram a quest&#xE3;o da puni&#xE7;&#xE3;o dos agentes da repress&#xE3;o de modo t&#xE3;o diferente. O livro, e a tese que deu origem a ele, cumpre este objetivo. A partir da an&#xE1;lise das transi&#xE7;&#xF5;es &#xE0; democracia, eu tento identificar elementos que ajudem a entender por que ningu&#xE9;m foi punido no Brasil enquanto na Argentina n&#xE3;o s&#xF3; houve como ainda est&#xE1; havendo puni&#xE7;&#xE3;o dos setores envolvidos com as viola&#xE7;&#xF5;es aos direitos humanos praticadas entre 1976 e 1983.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>&#x25AA; Tatyana</title>
			<p>Elizabeth Jelin, tamb&#xE9;m em um livro publicado em 2018, chamou aten&#xE7;&#xE3;o para a necessidade de an&#xE1;lises comparativas acerca das ditaduras no Cone Sul, destacando a escassez de an&#xE1;lises deste tipo. Como acha que um estudo comparativo sobre as ditaduras no Cone Sul como o seu pode contribuir com o desenvolvimento das pesquisas e a amplia&#xE7;&#xE3;o da compreens&#xE3;o sobre o per&#xED;odo?</p>
			<sec>
				<title>&#x25A1; Gallo</title>
				<p>A pol&#xED;tica comparada &#xE9; uma &#xE1;rea da Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica que ajuda no estabelecimento de pontos de aproxima&#xE7;&#xE3;o e distanciamento entre um conjunto de casos selecionados para an&#xE1;lise, de modo que, ao final, seja poss&#xED;vel identificar elementos que expliquem como e porque os fen&#xF4;menos analisados ocorrem. Acredito que estudos comparados sobre as ditaduras de Seguran&#xE7;a Nacional no Cone Sul como o que eu realizei podem contribuir bastante para a compreens&#xE3;o sobre o per&#xED;odo &#xE0; medida em que ajudem na identifica&#xE7;&#xE3;o daquilo que, em cada caso, bloqueia ou n&#xE3;o o avan&#xE7;o das pol&#xED;ticas de mem&#xF3;ria. Havia aspectos espec&#xED;ficos do caso brasileiro comparado ao argentino que me intrigavam bastante. Como podia, na Argentina, ter sido revogada a lei de autoanistia que as For&#xE7;as Armadas editaram no apagar das luzes da ditadura ao passo que, no Brasil, n&#xE3;o ocorreu o mesmo no in&#xED;cio da Nova Rep&#xFA;blica? A compara&#xE7;&#xE3;o dos processos de transi&#xE7;&#xE3;o &#xE0; democracia me permitiu verificar parte das vari&#xE1;veis (institucionais, culturais, hist&#xF3;ricas) que tornaram as solu&#xE7;&#xF5;es adotadas em cada contexto poss&#xED;veis. Uma perspectiva comparada permite que o pesquisador v&#xE1; al&#xE9;m daquilo que parece &#xF3;bvio, verificando nuances de processos que, &#xE0; primeira vista, podem parecer essencialmente semelhantes, mas, no fundo, s&#xE3;o muito diferentes.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>&#x25AA; Tatyana</title>
			<p>Sua obra trata de temas sens&#xED;veis, marcados pela emerg&#xEA;ncia de quest&#xF5;es como o dever de mem&#xF3;ria, o protagonismo do Estado na supera&#xE7;&#xE3;o dos legados autorit&#xE1;rios, o direito &#xE0; justi&#xE7;a, os direitos humanos e a imprescritibilidade dos crimes de lesa-humanidade. Poderia nos falar sobre como esses temas emergiram nas Ci&#xEA;ncias Sociais e exigem um comportamento &#xE9;tico-pol&#xED;tico do pesquisador? Quais os desafios de produzir uma pesquisa dedicada aos passados dolorosos?</p>
			<sec>
				<title>&#x25A1; Gallo</title>
				<p>No tocante ao modo como estes temas emergiram nas Ci&#xEA;ncias Sociais, acredito que o contexto pol&#xED;tico interno e externo impactou diretamente na produ&#xE7;&#xE3;o acad&#xEA;mica sobre o tema. &#xC9; vis&#xED;vel, na &#xFA;ltima d&#xE9;cada e meia, a amplia&#xE7;&#xE3;o de an&#xE1;lises sobre a mem&#xF3;ria das ditaduras, sobre as pol&#xED;ticas de mem&#xF3;ria implementadas em cada contexto, sobre a imprescritibilidade dos crimes de lesa-humanidade etc. Na Argentina, por exemplo, j&#xE1; havia desde a d&#xE9;cada de 1990 uma agenda de estudos mais consolidada sobre a ditadura e seus legados. No Brasil, me parece que o tema ganha destaque, saindo de uma agenda mais historiogr&#xE1;fica sobre o per&#xED;odo, com a intensifica&#xE7;&#xE3;o das medidas implementadas pelo Estado brasileiro a partir dos anos 2000. Em ambos os casos, contudo, e cada um com suas diferen&#xE7;as, as agendas de pesquisa se intensificam e v&#xE3;o sendo diversificadas. Ou seja, tenho a impress&#xE3;o de que um contexto pol&#xED;tico que parecia cada vez mais distante do final das ditaduras e, ao mesmo tempo, cada vez mais alinhado a debates realizados em &#xE2;mbito internacional em torno da ideia de justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o (com a cria&#xE7;&#xE3;o e implementa&#xE7;&#xE3;o de novas medidas) incentivou os estudos sobre as demandas por mem&#xF3;ria, verdade e justi&#xE7;a. Pensando nas exig&#xEA;ncias &#xE9;tico-pol&#xED;ticas implicadas em estudar um tema como este, acredito que a principal quest&#xE3;o que permeia tais pesquisas &#xE9; assumir como premissa a ideia de que, n&#xE3;o importa os motivos, o Estado nunca poderia ter cometido os crimes que cometeu em nome da Doutrina de Seguran&#xE7;a Nacional. Complementando a ideia, assumo como essencial, ainda, um compromisso com a democracia e os direitos humanos. S&#xE3;o premissas que, acho, evidenciam os desafios enfrentados, sobretudo em tempos marcados pelo fortalecimento de discursos negacionistas. Estudar o tema exige persist&#xEA;ncia dentro e fora da academia. Dentro, por que existem pessoas que acham que o recorte tem&#xE1;tico carece de &#x201C;neutralidade&#x201D;. Fora, porque lida com as resist&#xEA;ncias de setores que, mesmo ap&#xF3;s o final das ditaduras, trabalham pela oculta&#xE7;&#xE3;o do que ocorreu no per&#xED;odo. Seja negando o que foi feito, seja impossibilitando o acesso aos arquivos da repress&#xE3;o.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>&#x25AA; Tatyana</title>
			<p>A &#x201C;justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o&#x201D; tem sido o instrumento pelo qual os Estados que vivenciaram experi&#xEA;ncias traum&#xE1;ticas ap&#xF3;s a Segunda Guerra Mundial tentam promover uma repara&#xE7;&#xE3;o poss&#xED;vel, responsabilizar judicialmente (em alguns casos) os perpetradores do arb&#xED;trio e promover pol&#xED;ticas de valoriza&#xE7;&#xE3;o dos direitos humanos. Contudo, cada Estado adotou um modelo de &#x201C;justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o&#x201D;? Poderia nos falar um pouco sobre isso e, em especial, as experi&#xEA;ncias do Brasil e da Argentina?</p>
			<sec>
				<title>&#x25A1; Gallo</title>
				<p>O conceito de justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o surge na d&#xE9;cada de 1990, para fazer refer&#xEA;ncia a uma s&#xE9;rie de mecanismos que foram implementados, desde o contexto posterior ao final da Segunda Guerra Mundial, para possibilitar a supera&#xE7;&#xE3;o dos crimes cometidos pelos regimes nazifascistas ou de outros regimes autorit&#xE1;rios. Observando as experi&#xEA;ncias do Brasil e da Argentina, verifica-se que cada um dos pa&#xED;ses lida de maneiras diferentes com a realiza&#xE7;&#xE3;o de demandas por mem&#xF3;ria, verdade e justi&#xE7;a. Na Argentina, por exemplo, logo ap&#xF3;s o final da transi&#xE7;&#xE3;o, em dezembro de 1983, foi instalada uma Comiss&#xE3;o da Verdade. Entre 1984 e 1985, foram julgadas as juntas militares que governaram o Pa&#xED;s durante a ditadura, e, com o passar do tempo foram concedidas indeniza&#xE7;&#xF5;es &#xE0;s v&#xED;timas. Nos anos 2000, ap&#xF3;s um per&#xED;odo marcado por recuos no tocante &#xE0; realiza&#xE7;&#xE3;o da justi&#xE7;a, os julgamentos dos envolvidos com as viola&#xE7;&#xF5;es aos direitos humanos foram retomados e seguem sendo realizados at&#xE9; hoje. No Brasil, apenas em 1995, dez anos ap&#xF3;s a sa&#xED;da das For&#xE7;as Armadas do Poder Executivo, foi criada uma comiss&#xE3;o para indenizar os familiares de mortos e desaparecidos pol&#xED;ticos. Em 2012, foi criada a Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade, ap&#xF3;s grande resist&#xEA;ncia. Acho que os exemplos mencionados evidenciam que, apesar de ter elementos que seriam suas caracter&#xED;sticas b&#xE1;sicas, a ideia de uma justi&#xE7;a transicional encontra, na pr&#xE1;tica, condicionantes locais que, no final das contas, sugerem que talvez seja mais correto falar em &#x201C;justi&#xE7;as de transi&#xE7;&#xE3;o&#x201D;.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>&#x25AA; Tatyana</title>
			<p>Ao longo do seu livro, atrav&#xE9;s da sistematiza&#xE7;&#xE3;o de dados, voc&#xEA; demonstra as diferen&#xE7;as entre as pol&#xED;ticas de mem&#xF3;ria, de justi&#xE7;a e de repara&#xE7;&#xE3;o entre os dois pa&#xED;ses, assim como a perman&#xEA;ncia de entraves autorit&#xE1;rios. Uma das hip&#xF3;teses mais recorrentes &#xE9; que as diferen&#xE7;as entre os modelos de redemocratiza&#xE7;&#xE3;o na Argentina e no Brasil (l&#xE1; por ruptura e aqui por negocia&#xE7;&#xE3;o) interferem diretamente nos caminhos da justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o adotados. Em parte, me parece que seu livro corrobora com essa perspectiva e vai al&#xE9;m, ao verificar que ambos os pa&#xED;ses possuem limites no seu processo de promo&#xE7;&#xE3;o da justi&#xE7;a. Como avalias os avan&#xE7;os e os limites das experi&#xEA;ncias de justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o na Argentina e no Brasil?</p>
			<sec>
				<title>&#x25A1; Gallo</title>
				<p>Sim, em parte, a an&#xE1;lise do meu livro refor&#xE7;a a hip&#xF3;tese de que os tipos de transi&#xE7;&#xE3;o impactam na redemocratiza&#xE7;&#xE3;o, gerando legados autorit&#xE1;rios, isto &#xE9;, resqu&#xED;cios das ditaduras, que em curto, m&#xE9;dio e longo prazo limitam a nova democracia. Acho que esta pergunta &#xE9; importante pelo seguinte: a forma como se refere o caso argentino como exemplar, entre os pa&#xED;ses da regi&#xE3;o, e no tocante &#xE0; forma como a justi&#xE7;a e transi&#xE7;&#xE3;o ocorre nele, precisa ser ponderada. &#xC9; claro que os avan&#xE7;os da Argentina em torno ao tema s&#xE3;o mais profundos dos que aquilo que foi realizado no Brasil, no Chile e no Uruguai. Mas isso n&#xE3;o significa que uma pa&#xED;s cujo processo transicional tenha gerado legados autorit&#xE1;rios menos intensos ter&#xE1;, necessariamente, pol&#xED;ticas de mem&#xF3;ria mais efetivas o tempo todo. No Brasil, n&#xE3;o foi poss&#xED;vel, ainda, responsabilizar penalmente os envolvidos com os crimes da ditadura. Na Argentina, h&#xE1; uma nova fase de processos iniciada em 2005 e j&#xE1; foram punidos diferentes setores envolvidos com a repress&#xE3;o (desde as Juntas Militares que comandaram o pa&#xED;s at&#xE9; setores empresariais e, inclusive, ju&#xED;zes que colaboraram com a ditadura). Recuos, no entanto, tamb&#xE9;m marcaram a trajet&#xF3;ria argentina no tocante &#xE0; justi&#xE7;a transicional. A d&#xE9;cada de 1990, por exemplo, &#xE9; conhecida como a &#x201C;fase da impunidade&#x201D;, visto que, ap&#xF3;s o julgamento das Juntas Militares, na d&#xE9;cada de 1980, leis e indultos foram editados com vistas ao bloqueio da realiza&#xE7;&#xE3;o da demanda por justi&#xE7;a no pa&#xED;s.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>&#x25AA; Tatyana</title>
			<p>As experi&#xEA;ncias traum&#xE1;ticas ganharam outra dimens&#xE3;o nas pesquisas na &#xE1;rea das Ci&#xEA;ncias Humanas quando o testemunho se tornou fonte/objeto de trabalhos dedicados aos temas sens&#xED;veis. Como tais experi&#xEA;ncias/mem&#xF3;ria individuais podem contribuir para compreens&#xE3;o das viv&#xEA;ncias coletivas?</p>
			<sec>
				<title>&#x25A1; Gallo</title>
				<p>Dar voz &#xE0;s v&#xED;timas &#xE9; essencial na tarefa de recomposi&#xE7;&#xE3;o do passado por v&#xE1;rias raz&#xF5;es. Primeiro, porque s&#xE3;o elas que podem fornecer informa&#xE7;&#xF5;es que nenhum documento &#xE9; capaz de abarcar. Segundo, porque mem&#xF3;rias individuais, todas elas combinadas, ajudam a compor um panorama que, obviamente possuindo um eixo comum, &#xE9; marcado por particularidades. Em outras palavras, cada v&#xED;tima sente e interpreta suas viv&#xEA;ncias de modo &#xFA;nico. Sejam elas as lembran&#xE7;as das experi&#xEA;ncias cotidianas, sejam elas mem&#xF3;rias da viol&#xEA;ncia pol&#xED;tica. Uma narrativa que se proponha a abranger o testemunho das v&#xED;timas &#xE9;, na minha percep&#xE7;&#xE3;o, essencialmente uma narrativa que parte da premissa de que a mem&#xF3;ria coletiva &#xE9;, tamb&#xE9;m, um espa&#xE7;o marcado por contradi&#xE7;&#xF5;es, nuances e plural como as pessoas.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>&#x25AA; Tatyana</title>
			<p>Os Estados, argentino e brasileiro, t&#xEA;m sofrido press&#xE3;o dos setores de defesa dos direitos humanos, al&#xE9;m das associa&#xE7;&#xF5;es e grupos das v&#xED;timas sobreviventes e familiares de mortos e desaparecidos pol&#xED;tico, a assumir o protagonismo na elabora&#xE7;&#xE3;o da mem&#xF3;ria coletiva sobre os anos ditatoriais. Como cada Estado t&#xEA;m atuado, seja na abertura dos arquivos, na sistematiza&#xE7;&#xE3;o das informa&#xE7;&#xF5;es, na promo&#xE7;&#xE3;o da verdade hist&#xF3;rica? Voc&#xEA; considera importante a constru&#xE7;&#xE3;o de uma mem&#xF3;ria oficial no &#xE2;mbito da chamada &#x201C;justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o&#x201D;? Como essa mem&#xF3;ria oficial pode dialogar com as disputas de mem&#xF3;ria que envolvem os passados traum&#xE1;ticos na constru&#xE7;&#xE3;o de uma mem&#xF3;ria v&#xE1;lida?</p>
			<sec>
				<title>&#x25A1; Gallo</title>
				<p>Pensar qual o papel que cumpre o Estado na recomposi&#xE7;&#xE3;o da mem&#xF3;ria de um per&#xED;odo autorit&#xE1;rio &#xE9; essencial. Tudo aquilo que vem sendo feito e constru&#xED;do por grupos de v&#xED;timas e organiza&#xE7;&#xF5;es de direitos humanos &#xE9; extremamente necess&#xE1;rio e precisa ser mantido. Mas &#xE9; diferente daquilo que o Estado faz ou deve fazer. De uma maneira bem objetiva, poder&#xED;amos dizer que se algu&#xE9;m tem o dever de garantir que os crimes da ditadura n&#xE3;o sejam esquecidos, este algu&#xE9;m &#xE9; o Estado. O Estado n&#xE3;o pode se abster do dever de mem&#xF3;ria e a pr&#xF3;pria manuten&#xE7;&#xE3;o do projeto democr&#xE1;tico necessita que este dever se cumpra. A mem&#xF3;ria constru&#xED;da pelas v&#xED;timas das ditaduras &#xE9;, repito, n&#xE3;o apenas necess&#xE1;ria, mas leg&#xED;tima. Assim como a ocupa&#xE7;&#xE3;o do espa&#xE7;o p&#xFA;blico por parte de movimentos de familiares de mortos e desaparecidos, de m&#xE3;es e av&#xF3;s de crian&#xE7;as roubadas. A mem&#xF3;ria oficial estabelecida pelo Estado que se diz democr&#xE1;tico, contudo, &#xE9; essencial de uma maneira diferente, pois ela fixa sentidos sobre o que aconteceu. Se o Estado n&#xE3;o reconhece sua participa&#xE7;&#xE3;o nos crimes cometidos durante um regime autorit&#xE1;rio, &#xE9; como se as v&#xED;timas pudessem ser questionadas e seus pr&#xF3;prios traumas relativizados. Em outros termos, sem o reconhecimento oficial do Estado, o negacionismo encontra um terreno f&#xE9;rtil para se fortalecer.</p>
			</sec>
		</sec>
		<sec>
			<title>&#x25AA; Tatyana</title>
			<p>Em seu livro, voc&#xEA; analisou o julgamento da ADPF n. 153, realizada em abril de 2010, que manteve v&#xE1;lida a Lei da Anistia, considerada por pesquisadores, grupos de Direitos Humanos e familiares de ex-presos pol&#xED;ticos e v&#xED;timas da ditadura, como uma lei forjada durante o arb&#xED;trio e que refor&#xE7;a a impunidade, ao n&#xE3;o permitir o julgamento dos agentes do Estado que cometeram crimes contra os direitos humanos. Como voc&#xEA; analisou a essa decis&#xE3;o do STF?</p>
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				<title>&#x25A1; Gallo</title>
				<p>A an&#xE1;lise da decis&#xE3;o emitida pelos ministros do Supremo Tribunal Federal se deu, em um primeiro momento, atrav&#xE9;s da leitura de todos os votos proferidos no julgamento. A partir da leitura dos votos, e, para poder comparar a decis&#xE3;o do STF com uma decis&#xE3;o emitida pela Corte Suprema na Argentina sobre as &#x201C;leis de impunidade&#x201D; (que &#xE9; o conjunto de normas que permitiu, ao longo da d&#xE9;cada de 1990 e at&#xE9; o in&#xED;cio dos anos 2000, que os agentes da repress&#xE3;o n&#xE3;o fossem julgados), criei categorias que se aplicassem aos dois casos. Assim, comparei como os integrantes das Cortes brasileira e argentina se posicionaram sobre a validade de normas que impediam a puni&#xE7;&#xE3;o dos agentes da repress&#xE3;o, qual sua posi&#xE7;&#xE3;o sobre o uso de normativa internacional de direitos humanos para solucionar o caso, se eles consideravam os crimes cometidos pelas ditaduras imprescrit&#xED;veis ou n&#xE3;o, e, por fim, qual a interpreta&#xE7;&#xE3;o de todos a respeito do direito &#xE0; mem&#xF3;ria e &#xE0; verdade.</p>
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			<title>&#x25AA; Tatyana</title>
			<p>Ap&#xF3;s a Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade e os avan&#xE7;os promovidos pela justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o no Brasil, como compreender que ainda circulam entre segmentos da sociedade civil discursos negacionistas em favor de uma ditadura que resultou em danos pol&#xED;ticos, sociais e econ&#xF4;micos para a sociedade brasileira?</p>
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				<title>&#x25A1; Gallo</title>
				<p>Entender como se d&#xE1; o fortalecimento de discursos negacionistas, que ganharam f&#xF4;lego e destaque no per&#xED;odo eleitoral, acho que &#xE9; algo que dialoga diretamente com o estudo do modo como se deu a transi&#xE7;&#xE3;o &#xE0; democracia no Pa&#xED;s. Os setores que estavam no poder desde 1964 se anteciparam &#xE0; perda do controle do processo transicional. Ao contr&#xE1;rio do que ocorreu em Portugal, em 1974, e na Argentina, em 1982, a coaliz&#xE3;o civil-militar que deu o Golpe em 1964 e estabeleceu a ditadura foi quem tomou as r&#xE9;deas da transi&#xE7;&#xE3;o. Embora n&#xE3;o tenha mantido o controle total do processo, que foi bastante longo, teve sucesso ao estabelecer alguns pontos que se tornaram intranspon&#xED;veis. A oculta&#xE7;&#xE3;o da mem&#xF3;ria da repress&#xE3;o e a puni&#xE7;&#xE3;o dos setores envolvidos, garantida com a Lei da Anistia, em 1979, neste sentido, s&#xE3;o o elemento-chave na compreens&#xE3;o de alguns problemas da nossa democracia. Digo isso pensando nas dificuldades que se possui no tocante &#xE0; realiza&#xE7;&#xE3;o de uma agenda alinhada ao ide&#xE1;rio da justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o no Pa&#xED;s, mas tamb&#xE9;m considerando a pr&#xF3;pria maneira como parcelas expressivas da popula&#xE7;&#xE3;o demonstram pouca ader&#xEA;ncia ao reconhecimento da democracia como a melhor forma de regime pol&#xED;tico. Soma-se a isso uma tend&#xEA;ncia &#xE0; relativiza&#xE7;&#xE3;o da defesa dos direitos humanos, vistos reiteradamente como algo problem&#xE1;tico por parte da popula&#xE7;&#xE3;o. A forma como muitas pessoas pensam democracia e direitos humanos &#xE9;, a meu ver, uma s&#xED;ntese do processo transicional brasileiro. V&#xEA;-se democracia como fonte de problemas. Pensa-se direitos humanos como algo desnecess&#xE1;rio. Acredita-se que o passado n&#xE3;o nos diz respeito. Refor&#xE7;ados, estes discursos geram efeitos que prejudicam em curto e m&#xE9;dio prazo a manuten&#xE7;&#xE3;o da democracia e, o que &#xE9; mais grave, enfraquecem a pr&#xF3;pria continuidade de uma agenda que, com vistas ao enfrentamento dos crimes cometidos pela ditadura no Pa&#xED;s, avan&#xE7;ou com grande dificuldade nos &#xFA;ltimos anos.</p>
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