Apresentação
Memórias da Violência Colonial: reconhecimentos do passado e lutas pelo futuro *
Memories of Colonial Violence: recognizing the past and struggles for the future
Memorias de la Violencia Colonial: reconocimientos del pasado y luchas por el futuro
Memórias da Violência Colonial: reconhecimentos do passado e lutas pelo futuro *
Estudos Ibero-Americanos, vol. 45, núm. 2, pp. 1-3, 2019
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Recepção: 01 Abril 2019
Aprovação: 01 Abril 2019
Publicado: 11 Julho 2019
Financiamento
Fonte: Conselho Europeu para a Investigação
Número do contrato: StG-ERC-715593
Descrição completa: O presente dossier foi organizado no âmbito do projeto CROME – Crossed Memories, Politics of Silence. The Colonial-Liberation Wars in Postcolonial Times, financiado pelo Conselho Europeu para a Investigação (StG-ERC-715593).
O crescente interesse sobre a memória dos colonialismos tem tornado cada vez mais evidente a necessidade de se confrontarem os legados das violências instauradas pelos impérios modernos. Nesse sentido, este dossiê reúne artigos que contribuem para uma reflexão sobre a atualidade do passado colonial português em uma perspectiva que privilegia o peso das heranças da violência colonial. Pretende-se, por um lado, avaliar uma realidade social invadida pelas implicações das lógicas que instauraram genocídios, escravidões, elisão de culturas ancestrais, guerras coloniais, deslocamentos, trabalhos forçados e todo um rol de opressões quotidianamente reiteradas. Por outro lado, pretende-se reconhecer de que modo o presente é também, e significativamente, o resultado de resistências e lutas anticoloniais que, inscritas historicamente, contribuíram para o fim do colonialismo político e que legaram ao tempo presente inspiradoras narrativas de dignidade humana. É esse o sentido mais amplo dos artigos aqui reunidos.
Em “As múltiplas vidas de Batepá: memórias de um massacre colonial em São Tomé e Príncipe (1953-2018)”, Inês Nascimento Rodrigues examina as reverberações memoriais produzidas por um evento disruptivo ocorrido na ilha de São Tomé em fevereiro de 1953, quando um número indeterminado de são-tomenses foi massacrado a mando do poder colonial. Posteriormente conhecido como o “Massacre de Batepá”, ele viria a transformar-se em um marco paradigmático da violência, mas também em um dia comemorativo que, a partir de 1975, permitirá conectar o imaginário de sofrimento e resistência ao colonialismo com a legitimação da nova nação independente. A autora analisa diacronicamente as três vidas do “Massacre de Batepá”, mostrando como a sua evocação é sensível a mudanças políticas e socioculturais e como o evento se mantém em uma relação espectral com o percurso pós-colonial da nação são-tomense.
Rosa Cabecinhas, por seu turno, compara representações sociais sobre o passado colonial em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e Timor Leste. Socorrendo-se do conceito de Mia Couto de “luso(a)fonias” – implicitamente denunciador de desencontros entre antigos países colonizadores e colonizados e recorrendo a uma noção como a de lusofonia, ela própria problemática nas suas emanações neocoloniais –, a autora analisa um amplo conjunto de dados que denotam diferenças substanciais no modo como se caracterizam e valorizam as histórias nacionais ligadas a um “passado comum” colonial. Não obstante as diferenças de percepção detetadas entre os jovens participantes nos estudos, denota-se uma distinção essencial entre os participantes portugueses, que de forma dominante referem-se positivamente ao passado dos “Descobrimentos” e secundarizam a violência colonial e os jovens dos países africanos, que valorizam as lutas de libertação e tendem a visibilizar o peso e o carácter desestruturante dos modos de violência intrínsecos à experiência colonial.
No texto de Clodomir Cordeiro Matos Júnior, “A perspectiva das vítimas e a teoria social contemporânea: entre memórias do passado e futuros alternativos”, é explorada a centralidade da figura da vítima para a compreensão da violência colonial. Nessa perspectiva, a partir das contribuições de Enrique Dussel, Aníbal Quijano e Boaventura de Sousa Santos, o autor procura aprofundar a importância do processo de reconhecimento das vítimas do colonialismo na produção de uma teoria social comprometida com a superação de políticas de esquecimento. Debruçando-se sobre as críticas que envolvem a versão eurocêntrica e hegemônica da Modernidade ( DUSSEL, 1993), as heranças materiais e subjetivas dos arranjos coloniais ( QUIJANO, 2005) e as possibilidades das Epistemologias do Sul ( SANTOS, 2018), o artigo faz emergir o reconhecimento da figura da vítima e suas experiências dentro de processos significativos para a validação de memórias silenciadas e a imaginação de futuros impensados.
Em “Escrita e cicatriz: da colonização à prisão”, de Ivete Walty, são colocadas em diálogo algumas imagens da série Cicatriz, de Rosângela Rennó, com a escrita de/sobre a prisão em diferentes momentos da história da literatura brasileira, à luz do conceito de colonização em seu sentido lato, em relação com os conceitos de biopolítica (Foucault) e necropolítica (Mbembe). Representando momentos ditatoriais diversos, a autora analisa, sob o enfoque da imagem da cicatriz/tatuagem associada à da escrita, cenas de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos (1954), Cartas da Prisão (1977), O canto na fogueira (1977) e Batismo de Sangue (2006), de Frei Betto, para além da trilogia de Luis Alberto Mendes: Memórias de um sobrevivente (2001), Às cegas (2005) e Confissões de um homem livre (2015).
No artigo “Existências deslocadas pelo colonialismo e pela guerra”, Fátima da Cruz Rodrigues toma como pano de fundo a experiência da guerra colonial combatida, entre 1961 e 1974, pelo Estado português e por movimentos de libertação africanos. Depois de uma guerra, os que lhe sobrevivem têm de se reconstruir e de recompor as suas vidas em articulação com a realidade que o fim do conflito inaugura. É de algumas dessas heranças que trata esse texto que apresenta uma reflexão sobre a forma como a guerra colonial interferiu nas existências de antigos combatentes africanos que integraram as Forças Armadas Portuguesas (FAP) e que passaram a residir em Portugal após a libertação dos territórios onde nasceram. Com base em um trabalho de pesquisa de caracter qualitativo, com recurso a histórias de vida, reconstroem-se os percursos de alguns desses homens e procura-se perceber o sentido que os mesmos atribuíram às suas existências marcadas por descontinuidades e momentos particularmente fraturantes no que toca a construção dos seus projetos de vida. Nesse texto, caracterizam-se os diversos tipos de percursos que resultaram dessa análise, bem como os principais eixos discursivos que esses homens mobilizaram para justificar as diversas opções tomadas. A análise desses percursos e discursos permitiu, por sua vez, interpelar a problemática da construção de identidades marcadas por descontinuidades e por posicionamentos múltiplos, ambíguos e aparentemente contraditórios.
Este volume conta ainda com uma detalhada entrevista a Mustafah Dhada, professor na California State University e um estudioso da violência colonial no Império português. Percorremos, nessa entrevista, aspectos relacionados com o seu último livro sobre o massacre de Wiriyamu, perpetrado pelas tropas portuguesa em 1972, em Moçambique, no contexto da guerra colonial. Dhada revela-nos desafios associados ao trabalho com entrevistas, examina a articulação entre violência e colonialismo e traz-nos uma cuidadosa autorreflexão sobre o posicionamento do historiador na escrita da história. Ao mesmo tempo, levanta um pouco o véu sobre o seu próximo livro – que terá ainda como tema o massacre de Wiriyamu – e faz um balanço, mais de quinze anos depois, sobre a originalidade e também os limites da sua obra Warriors at Work, um trabalho seminal sobre o PAIGC e a guerrilha anticolonial na Guiné.
Os textos aqui reunidos colocam ao centro a violência colonial e se posicionam ante os quadros de sentido complacentes com políticas do esquecimento e com versões triunfalistas dos mundos que o colonialismo criou. Olhar o futuro a partir das tensões, discriminações e lutas instauradas pelo passado-presente da imaginação eurocêntrica, racista e imperial convida, nessa perspectiva, a uma imaginação política renovada e ampliada por um dever cívico da memória, ou seja, por um imperativo ético que conecte o necessário reconhecimento do passado com as lutas por futuros questionadores das heranças de violência instauradas pelos colonialismos.
Referências
DUSSEL, Enrique. Eurocentrism and modernity: Introduction to the Frankfurt lectures. Boundary 2, Durham, v. 20, n. 3, p. 65-76, 1993. Disponível em: https://doi.org/10.2307/303341. Acesso em: 7 maio 2019.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2005.
SANTOS, Boaventura de Sousa. O fim do império cognitivo. Coimbra: Almedina, 2018.
Notas
Autor notes
◦ Sociologist, and currently a researcher at the Center for Communication and Society Studies at the University of Minho. PhD in Ethnic and Cultural Studies from the University of Warwick, she has focused on post-colonial studies in her academic career, with a special focus on relations between Mozambique and Portugal, including the issue of Mozambican immigrants in Portugal. Among the themes he has worked on are contemporary Mozambican and Portuguese history and literature, narratives of life and identity from the global South, authorities of memory and post-memory. His recent books, “Portugal a Lápis de Cor: A Sul de uma pós-colonialidade” (Almedina, 2015); “Visitas a João Paulo Borges Coelho: leituras, diálogos e futuros” ( et al., 2017, Colibri); “Mozambique on the Move: Challenges and Reflections” (with Paula Meneses and Bjorn Bertelsen, Brill, 2018). She is currently a postdoc researcher on the project funded by the European Research Council, EXCHANGE and a member of the FCT / Aga Khan project research team on inter-cultural relations between Mozambique and Portugal.
◦ Socióloga, y actualmente investigadora del Centro Estudios de Comunicación y Sociedad, de la Universidad del Minho. Doctorado en Estudios Étnicos y Culturales de la Universidad de Warwick, ha sido, en su carrera académica, centrado su atención en los estudios post-coloniales, con especial atención a las relaciones entre Mozambique y Portugal, incluida la cuestión de los inmigrantes mozambiqueños en Portugal. Entre los temas que ha trabajado incluyen la historia y la literatura contemporánea y Mozambique portugués, relatos de vida y la identidad de las autoridades mundiales del Sur, memoria y post-memoria. Es de destacar sus libros recientes, “Portugal a Lápis de Cor: A Sul de uma pós-colonialidade” (Almedina, 2015); “Visitas a João Paulo Borges Coelho: leituras, diálogos e futuros” ( et al., 2017, Colibri); “Mozambique on the Move: Challenges and Reflections” (con Paula Meneses y Bjorn Bertelsen, Brill, 2018). Actualmente, el proyecto investigador doctorado financiado por el Consejo Europeo de Investigación, el intercambio y miembro del equipo de investigación del proyecto FCT / Aga Khan en las relaciones inter-culturales entre Mozambique y Portugal.
◦ Senior Researcher at the Centre for Social Studies, University of Coimbra (CES/UC). He is currently co-coordinator of the Doctoral Programme “Human Rights in Contemporary Societies” and co-coordinator of the educational outreach activity “Ces Goes to School”. He Teaches in the doctoral Programme ”Postcolonialism and global citizenship”. His research interests are centered on embodied experience, human rights and colonialism.
◦ Investigador en el Centro de Estudios Sociales de la Universidad de Coimbra (CES / UC). Actualmente es co-coordinador del Programa de Doctorado “Derechos Humanos en Sociedades Contemporáneas” y co-coordinador de la actividad de divulgación educativa “Ces Goes to School”. Enseña en el programa de doctorado “Poscolonialismo y ciudadanía global”. Sus intereses de investigación se centran en la experiencia incorporada, los derechos humanos y el colonialismo.
◦ Senior Researcher at the Centre for Social Studies of the University of Coimbra (CES). He was President of CES Scientific Board (2017-2019) and co-coordinator of the Research Group on Humanities, Migration and Peace Studies (NHUMEP) (2013-2016). In 2016 won a Starting Grant from the European Research Council (ERC) to coordinate the project “CROME - Crossed Memories, Politics of Silence. The Colonial-Liberation Wars in Postcolonial Times” (2017-2022). He is the author or co-author of several books, book chapters or papers on colonialism, anticolonialism and the colonial wars; political ideologies in the sixties and seventies; and the dynamics between history and memory.
◦ Investigador del Centro de Estudios Sociales de la Universidad de Coimbra (CES). Fue presidente del Consejo Científico del CES (2017-2019) y miembro de la coordinación del Núcleo de Humanidades, Migraciones y Estudios para la Paz (NHUMEP) (2013-2106). Coordinador del proyecto de investigación “CROME – Crossed Memories, Politics of Silence. The Colonial-Liberation Wars in Postcolonial Times” (2017-2022), com financiación del European Research Council (ERC - Consejo Europeo de Investigación). Es autor o coautor de varios libros, capítulos y artículos sobre colonialismo, anticolonialismo y guerra colonial; historia de las ideologías políticas en las décadas de 1960 y 1970; y dinámicas entre historia y memoria.