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				<journal-title>Estudos Ibero-Americanos</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Estud. Ibero-Am. (Online)</abbrev-journal-title>
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			<issn pub-type="ppub">0101-4064</issn>
			<issn pub-type="epub">1980-864X</issn>
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				<publisher-name>Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.15448/1980-864X.2019.3.35268</article-id>
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					<subject>Dossi&#xEA;: Justi&#xE7;a de Transi&#xE7;&#xE3;o, Experi&#xEA;ncias Autorit&#xE1;rias e Democracia</subject>
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						<subject>Entrevista</subject>
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				<article-title>Justi&#xE7;a de Transi&#xE7;&#xE3;o, experi&#xEA;ncias autorit&#xE1;rias e democracia&#x2013; Entrevista com Paulo Abr&#xE3;o</article-title>
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					<trans-title>Transitional Justice, authoritarian experiences and democracy &#x2013; Interview with Paulo Abr&#xE3;o</trans-title>
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					<trans-title>Justicia Transicional, experiencias autoritarias y democracia &#x2013; Entrevista con Paulo Abr&#xE3;o</trans-title>
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					<contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-1600-4044</contrib-id>
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						<surname>Hollanda</surname>
						<given-names>Cristina Buarque de</given-names>
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					<!--bio>
						<p>C
							<sc>ristina</sc> B
							<sc>uarque de</sc> H
							<sc>ollanda</sc>
						</p>
						<p>&#x2022; Doutora em Ciencia Politica pelo Instituto Universitario de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ); Professora do Instituto de Estudos Sociais e Politicos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), RJ, Rio de Janeiro, Brasil.</p>
						<p>&#x25E6; PhD in Political Science from the Rio de Janeiro University Research Institute (IUPERJ); Professor at the Institute of Social and Political Studies, Rio de Janeiro State University (IESP/ UERJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil.</p>
						<p>&#x25E6; Doctor en Ciencias Politicas por el Instituto de Investigacion de la Universidad de Rio de Janeiro (IUPERJ); Profesor en el Instituto de Estudios Sociales y Politicos, Universidad Estatal de Rio de Janeiro (IESP / UERJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.</p>
					</bio-->
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					<institution content-type="orgname">Universidade do Estado do Rio de Janeiro</institution>
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						<named-content content-type="city">Rio de Janeiro</named-content>
						<named-content content-type="state">RJ</named-content>
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					<institution content-type="original">Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil</institution>
					<email>cristinabuarque@iesp.uerj.br</email>
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			<author-notes>
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					<bold>Endere&#xE7;o para correspond&#xEA;ncia:</bold> Cristina Buarque de Hollanda, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), Rua da Matriz, 82 &#x2013; Botafogo, 
					<!--postal-code>22260-100</postal-code-->, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
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			</author-notes>
			<!--pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
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				<year>2020</year>
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				<season>Sep-Dec</season>
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			<volume>45</volume>
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			<fpage>76</fpage>
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					<license-p>Except where otherwise noted, the material published in this journal is licensed in the form of a Creative Commons Attribution 4.0 International license.</license-p>
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	</front>
	<body>
		<p>P
			<sc>aulo Abr&#xE3;o</sc> foi Professor da Faculdade de Direito da Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul e da UNISINOS. Foi Presidente da Comiss&#xE3;o de Anistia (2007-2016) do Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a, Secret&#xE1;rio Nacional de Justi&#xE7;a (2011-2016), diretor do Instituto em Pol&#xED;ticas P&#xFA;blicas dos Direitos Humanos do Mercosul (2015-2017) e, desde 2016, &#xE9; Secret&#xE1;rio Executivo da Comiss&#xE3;o Interamericana de Direitos Humanos.
		</p>
		<p>Paulo era um jovem ativista e professor de Direitos Humanos da Pontif&#xED;cia Universidade Cat&#xF3;lica do Rio Grande do Sul quando um ex-aluno entrou na sua sala com um convite que mudou sua vida: &#x201C;&#x2013; Estou em Bras&#xED;lia trabalhando com o Ministro da Justi&#xE7;a e ele est&#xE1; buscando algu&#xE9;m de Direitos Humanos. Pensei em voc&#xEA;. O que acha?&#x201D;</p>
		<p>O ano era 2007 e o Ministro era Tarso Genro. A busca por um especialista em Direitos Humanos era para remodelar a Comiss&#xE3;o de Anistia, uma comiss&#xE3;o burocr&#xE1;tica que ganhava as p&#xE1;ginas de jornais em raz&#xE3;o dos altos valores de indeniza&#xE7;&#xE3;o concedidos a perseguidos pela ditadura. Paulo e Tarso, sem saber, estavam em vias de protagonizar uma inflex&#xE3;o de f&#xF4;lego na maneira como o tema da anistia era abordado na cena p&#xFA;blica brasileira. At&#xE9; ent&#xE3;o, as den&#xFA;ncias sobre a Lei da Anistia de 1979 &#x2013; que poupa criminosos da ditadura dos tribunais &#x2013; tendiam ao confinamento entre familiares e ex-perseguidos pol&#xED;ticos. Nos espa&#xE7;os formais do Estado, o conforto da anistia para militares parecia intocado. Paulo e Tarso estiveram &#xE0; frente de um programa robusto de mem&#xF3;ria pol&#xED;tica e empreenderam uma s&#xE9;rie de iniciativas no sentido de promover o enquadramento dos crimes da ditadura nos moldes do direito internacional, sugerindo a ilegitimidade do 
			<italic>status quo</italic> brasileiro. Levaram a tens&#xE3;o para dentro do Estado, sobretudo com segmentos militares representados no Minist&#xE9;rio da Defesa.
		</p>
		<p>Nesta entrevista, Paulo Abr&#xE3;o envolve o leitor em uma narrativa a um tempo sistem&#xE1;tica, emotiva e anal&#xED;tica. Ele rememora o ativismo das primeiras gera&#xE7;&#xF5;es de familiares e perseguidos pela ditadura e percorre, passo a passo, a institucionaliza&#xE7;&#xE3;o de suas demandas, com aten&#xE7;&#xE3;o para os avan&#xE7;os e as tens&#xF5;es nessa trajet&#xF3;ria. Entre muitas outras coisas, observa a incorpora&#xE7;&#xE3;o de novos atores, motivados pela identifica&#xE7;&#xE3;o com a causa dos &#x201C;mortos e desaparecidos pol&#xED;ticos&#x201D; ou pelo objetivo de repara&#xE7;&#xE3;o laboral. Nota tamb&#xE9;m a proximidade entre movimentos sociais e iniciativas de Estado, trazendo elementos relevantes para compreender os pontos de injun&#xE7;&#xE3;o e disjun&#xE7;&#xE3;o da trajet&#xF3;ria de &#x201C;mem&#xF3;ria, verdade e justi&#xE7;a&#x201D; no Brasil. Trata-se de uma leitura valiosa para os interessados nos processos da Justi&#xE7;a de Transi&#xE7;&#xE3;o no Brasil
			<xref ref-type="fn" rid="fn1">
				<sup>1</sup>
			</xref>.
		</p>
		<list list-type="simple">
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>Cristina Buarque</bold>: Paulo, muit&#xED;ssimo obrigada pela disponibilidade para conversar comigo. Desde 2012, eu comecei a olhar com muita aten&#xE7;&#xE3;o para a experi&#xEA;ncia da Comiss&#xE3;o Nacional [da Verdade] e tamb&#xE9;m para as comiss&#xF5;es estaduais, municipais, universit&#xE1;rias e todas aquelas que compuseram a impressionante rede de comiss&#xF5;es [da verdade] que se estabeleceu no Brasil. Para compreender esse fen&#xF4;meno 
					<italic>sui generis</italic>, senti a necessidade de recuar no tempo. Investigando a hist&#xF3;ria recente da justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o no Brasil, tive a impress&#xE3;o de que o seu mandato &#xE0; frente da Comiss&#xE3;o da Anistia do Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a corresponde a um momento importante de inflex&#xE3;o no tratamento dos temas da mem&#xF3;ria e da verdade na agenda p&#xFA;blica, quando esses assuntos ganham um protagonismo que, me parece, nunca tinham tido. Voc&#xEA; poderia me ajudar a compreender o que explica, depois de d&#xE9;cadas da transi&#xE7;&#xE3;o para a democracia, esse interesse t&#xE3;o expressivo pela ditadura por parte de novas gera&#xE7;&#xF5;es, de pessoas que n&#xE3;o foram afetadas pela viol&#xEA;ncia de Estado e nem s&#xE3;o familiares de afetados?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Paulo Abr&#xE3;o</bold>: J&#xE1; passou algum tempo, ent&#xE3;o eu posso perder alguns detalhes ao buscar recapitular. Eu vou te fazer uma descri&#xE7;&#xE3;o f&#xE1;tica, gen&#xE9;rica, que eu acho que de alguma maneira det&#xE9;m alguns momentos-chave que foram determinantes e condicionaram a possibilidade de uma nova mobiliza&#xE7;&#xE3;o ao redor dessa agenda de justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o no Brasil. N&#xF3;s t&#xED;nhamos um ciclo hist&#xF3;rico pr&#xE9;-democratiza&#xE7;&#xE3;o, em que os Comit&#xEA;s Brasileiros pela Anistia [CBAs] e os comit&#xEA;s de mortos, desaparecidos e seus familiares desempenharam um papel muito importante para conquistar a pr&#xF3;pria Lei de Anistia, impor essa lei ao regime e em seguida tamb&#xE9;m junto ao Congresso Nacional. Na Comiss&#xE3;o de Direitos Humanos do governo Fernando Henrique houve a aprova&#xE7;&#xE3;o da Lei 9.140 [Lei dos Mortos e Desaparecidos Pol&#xED;ticos, de 4 de dezembro de 1995]. Essa comiss&#xE3;o foi criada a partir de uma lista que a Comiss&#xE3;o de Direitos Humanos da C&#xE2;mara dos Deputados, que havia sido presidida pelo Nilm&#xE1;rio Miranda, que era deputado ainda [pelo PT de Minas Gerais]. Houve uma esp&#xE9;cie de CPI
					<xref ref-type="fn" rid="fn2">
						<sup>2</sup>
					</xref> que gerou uma primeira lista de cerca de cem mortos e desaparecidos e resultou na cria&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o de Mortos e Desaparecidos, em 1995. Essa primeira gera&#xE7;&#xE3;o, que lutou por mem&#xF3;ria e verdade dentro da ditadura brasileira atinge seu &#xE1;pice na conquista da Lei de Anistia [Lei n&#xBA; 6.683, de 28 de agosto de 1979] e, em seguida, na conquista da Lei de cria&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o de Mortos e de Desaparecidos Pol&#xED;ticos, em 1995. Em paralelo, quando come&#xE7;a a redemocratiza&#xE7;&#xE3;o, se intensifica a organiza&#xE7;&#xE3;o de outros movimentos sociais que tamb&#xE9;m haviam sido atingidos pela repress&#xE3;o &#x2013; n&#xE3;o dentro do eco da sua express&#xE3;o mais brutal, que s&#xE3;o as mortes e desaparecimentos &#x2013; no conjunto das outras persegui&#xE7;&#xF5;es, t&#xED;picas de uma ditadura que durou mais de 21 anos. Esse movimento s&#xF3; p&#xF4;de acumular for&#xE7;as a partir do momento em que se instaurou de volta a democracia e o ambiente de liberdade permite a conex&#xE3;o desses atores e, muito especialmente, o crescimento do pr&#xF3;prio movimento sindical no Brasil. S&#xE3;o aqueles que foram atingidos por atos de exce&#xE7;&#xE3;o de outra natureza: os estudantes, que foram expulsos das universidades e n&#xE3;o tinham sido reparados ainda, os trabalhadores que participaram de greves e que n&#xE3;o receberam anistia para que pudessem recuperar seus empregos, a massa de camponeses que sofreu a brutalidade no campo, servidores privados e p&#xFA;blicos que foram demitidos arbitrariamente por seus chefes; enfim, outros modos de persegui&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica. Em paralelo ao movimento pelos mortos e desaparecidos pol&#xED;ticos, tamb&#xE9;m atuaram junto ao Congresso Nacional para conquistar uma lei de a&#xE7;&#xE3;o complement&#xE1;ria que pudesse alcan&#xE7;ar o conjunto global dos perseguidos pol&#xED;ticos, e n&#xE3;o apenas os familiares dos mortos e desaparecidos.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Paulo, quem foram os principais atores, individuais ou institucionais, dessa articula&#xE7;&#xE3;o em favor de uma nova Lei [para cria&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o de Anistia]? Quem assumiu a linha de frente nessa interface com o Congresso e com a Comiss&#xE3;o de Direitos Humanos?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Eu acho que nesse momento houve um importante protagonismo dos sindicatos. Dentro dos sindicatos tamb&#xE9;m tinham sido criados comit&#xEA;s de anistia, nos sindicatos dos Correios, Petrobr&#xE1;s, estatais em geral, dos petroqu&#xED;micos. Em paralelo existia o movimento dos presos pol&#xED;ticos, que tamb&#xE9;m era um conjunto importante. Esse momento dentro do governo Fernando Henrique Cardoso &#xE9; muito importante tamb&#xE9;m porque se toma a decis&#xE3;o de unificar duas agendas dentro de uma mesma comiss&#xE3;o: a agenda dos perseguidos pol&#xED;ticos no sentido estrito do termo, que haviam sido atingidos pela exce&#xE7;&#xE3;o, e outra, dos trabalhadores, que haviam sido demitidos por haverem participado de greves durante uma &#xE9;poca de lei antigreve, em que era proibido faz&#xEA;-la. Por uma decis&#xE3;o pragm&#xE1;tica, se resolveu juntar esse coletivo dentro de uma mesma legisla&#xE7;&#xE3;o e se criou a Comiss&#xE3;o de Anistia.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Imagino que o Nilm&#xE1;rio [Miranda] tenha sido uma figura importante nesse processo.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: O Nilm&#xE1;rio foi muito importante.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Na jun&#xE7;&#xE3;o dessas duas agendas?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: N&#xE3;o sei dizer, porque sinceramente quem aprovou essa segunda legisla&#xE7;&#xE3;o foi o Fernando Henrique [Cardoso] e acho que quem conhece melhor essa hist&#xF3;ria sobre como se conseguiu aprovar a Lei de Anistia no Congresso, inclusive, quem o pressionou ao enviar essa Lei, foi a Associa&#xE7;&#xE3;o Brasileira de Anistiados Pol&#xED;ticos, a ABAP. Mas seus fundadores j&#xE1; faleceram, n&#xE3;o est&#xE3;o mais conosco e por isso &#xE9; um pouco complicado resgatar com mais detalhes essa mem&#xF3;ria. Mas a tramita&#xE7;&#xE3;o legislativa da Lei no Congresso est&#xE1; registrada nos documentos e ali est&#xE3;o as discuss&#xF5;es e quem atuou nas distintas comiss&#xF5;es de avalia&#xE7;&#xF5;es da Lei dentro do processo legislativo at&#xE9; a sua aprova&#xE7;&#xE3;o final. Acho que o Nilm&#xE1;rio &#xE9; um personagem para explicar a Lei de Desaparecidos Pol&#xED;ticos e a Lei 9140, porque al&#xE9;m de ter sido o presidente da C&#xE2;mara dos Deputados quando se CRIOU a Lei, que criou tamb&#xE9;m a Comiss&#xE3;o de Mortos e Desaparecidos Pol&#xED;ticos, depois, como Secret&#xE1;rio de Direitos Humanos, ele presidiu a Comiss&#xE3;o [de Mortos e Desaparecidos Pol&#xED;ticos] e foi relator dela na Casa dos Deputados. Ele esteve na ORIGEM dos v&#xE1;rios processos de cria&#xE7;&#xE3;o. Mas a cria&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o de Anistia tem essa dupla for&#xE7;a en&#xE9;rgica: uma que vem do movimento sindical, dos trabalhadores que queriam anistia pelas greves em que tinham atuado e pelas quais foram demitidos. Por outro lado, havia o conjunto dos outros atores sociais que tinham sido atingidos pela ditadura e esse segundo conjunto era mais desorganizado, porque n&#xE3;o tinham necessariamente uma entidade que o representasse. Eu quero chegar exatamente ao seguinte ponto: at&#xE9; a conquista dessas duas comiss&#xF5;es de repara&#xE7;&#xE3;o e que, na minha vis&#xE3;o, foram e s&#xE3;o efetivas comiss&#xF5;es de verdade, mas n&#xE3;o tiveram esse nome. S&#xE3;o comiss&#xF5;es de verdade e repara&#xE7;&#xE3;o porque era imposs&#xED;vel reparar aquilo que n&#xE3;o se conhecia, ent&#xE3;o se fazia necess&#xE1;rio construir a mem&#xF3;ria para poder RECONHECER fatos e organizar esse conjunto de trabalhos para permitir os elementos probat&#xF3;rios suficientes para se gerar uma repara&#xE7;&#xE3;o. A conquista dessas duas comiss&#xF5;es de repara&#xE7;&#xE3;o estabeleceu um novo ciclo de novos movimentos sociais nessa agenda. Como voc&#xEA; sabe, at&#xE9; o fim da ditadura todos tinham um inimigo comum e depois de 88 os movimentos se fragmentam muito. Diferentemente da experi&#xEA;ncia em outros pa&#xED;ses, o Brasil n&#xE3;o teve a mesma intensidade de integra&#xE7;&#xE3;o nos movimentos por repara&#xE7;&#xE3;o, verdade e justi&#xE7;a que pudesse ter selado uma capacidade de mobiliza&#xE7;&#xE3;o para [que] j&#xE1; no in&#xED;cio da redemocratiza&#xE7;&#xE3;o conseguisse, por exemplo, [avan&#xE7;ar] agendas mais substantivas como a responsividade dos torturadores. E, de alguma maneira, o movimento social ficou ao redor da agenda da repara&#xE7;&#xE3;o, talvez por pragmatismo talvez por consci&#xEA;ncia da correla&#xE7;&#xE3;o de for&#xE7;as naquele momento. Com o funcionamento da Comiss&#xE3;o de Anistia surge um conjunto de novas associa&#xE7;&#xF5;es &#x2013; acho que esse conjunto faz parte de um processo que ainda n&#xE3;o foi bem mapeado: Associa&#xE7;&#xE3;o dos Militares Anistiados, Associa&#xE7;&#xE3;o dos Camponeses do Araguaia&#x2026;
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: S&#xE3;o in&#xFA;meras.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Sim, s&#xE3;o mais de oitenta organiza&#xE7;&#xF5;es. Dentro dos militares s&#xE3;o cinco ou seis, que representam o movimento do Rio Grande do Sul, da Bahia e do Rio de Janeiro, principalmente. O Movimento dos Cabos &#xE9; diferente do Movimento dos Sargentos, por exemplo. Acho que ser&#xE1; muito interessante mapear todos esses movimentos. Agora, eles todos estavam focados na agenda da repara&#xE7;&#xE3;o, no direito &#xE0; repara&#xE7;&#xE3;o, como se houvesse uma esp&#xE9;cie de imagin&#xE1;rio social ou consenso naquele momento e contexto hist&#xF3;rico de que a repara&#xE7;&#xE3;o era o eixo estruturante no pacto da transi&#xE7;&#xE3;o democr&#xE1;tica.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Junto com isso voc&#xEA; considera que tamb&#xE9;m havia um discurso de insatisfa&#xE7;&#xE3;o com a Lei de Anistia e a sua interpreta&#xE7;&#xE3;o vigente? Ou esse discurso era mais vocalizado pelas pessoas ligadas 
					<italic>&#xE0; Comiss&#xE3;o de Mortos e Desaparecidos Pol&#xED;ticos?</italic>
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Eu acho que esse era um discurso muito sofisticado e que tinha sobrevida num circuito muito restrito, que &#xE9; um conjunto dos familiares de mortos e desaparecidos, mas n&#xE3;o TODOS. O comit&#xEA; dos familiares representava essa voz, que n&#xE3;o era majorit&#xE1;ria.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Isso come&#xE7;a depois, ent&#xE3;o?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Um grupo MAIS de intelectuais e de filhos etc. dentro da comiss&#xE3;o, que foram &#xE0; universidade, &#xE0; academia e de alguma maneira foram tamb&#xE9;m dedicar as suas vidas acad&#xEA;micas ao tema da ditadura brasileira e que tamb&#xE9;m acompanhavam os processos noutros pa&#xED;ses e por isso eram mais antenados com o que estava ocorrendo em uma perspectiva mais ampla. Assistiam ao que ocorria no sistema ONU, com a cria&#xE7;&#xE3;o dos princ&#xED;pios sobre o direito &#xE0; verdade. Tamb&#xE9;m acompanhavam a cria&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o da Verdade pela ONU em El Salvador, tamb&#xE9;m havia Comiss&#xE3;o da Verdade no Peru. Esse MOVIMENTO INTERNACIONAL paralelo era de acesso de muito poucas pessoas e, na minha vis&#xE3;o, o que eu consegui identificar nesse tempo de nove anos em que eu atuei [na Comiss&#xE3;o de Anistia] e estudei o tema &#xE9; que esse discurso em rela&#xE7;&#xE3;o ao questionamento do alcance da Lei de Anistia era muito restrito. Eu ouso dizer que era circunscrito a um n&#xFA;cleo de milit&#xE2;ncia mais ativo dentro do comit&#xEA; de familiares, mas n&#xE3;o necessariamente presente na integralidade desse movimento. Vinha de um n&#xFA;cleo intelectual instalado em algumas universidades, mas que tampouco tinha capacidade suficiente de gerar mobiliza&#xE7;&#xE3;o. A minha sensa&#xE7;&#xE3;o sempre foi que, de alguma maneira, j&#xE1; havia alguma conforma&#xE7;&#xE3;o de que [a repara&#xE7;&#xE3;o] era a nossa tradi&#xE7;&#xE3;o, de que esse era um elemento central do &#x201C;pacto negociado&#x201D; da transi&#xE7;&#xE3;o em 79 e que n&#xE3;o havia mais espa&#xE7;o para question&#xE1;-lo na medida em que, depois, a pr&#xF3;pria Emenda Constitucional em 85, pr&#xE9;-Constitui&#xE7;&#xE3;o, REAFIRMOU os termos dessa Lei de impunidade. Tamb&#xE9;m a Constitui&#xE7;&#xE3;o Federal [de 1988], em seu ato de disposi&#xE7;&#xF5;es constitucionais transit&#xF3;rias e os GOVERNOS p&#xF3;s-democratiza&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o inclu&#xED;ram esse item em suas agendas. Pelo contr&#xE1;rio, todos os pronunciamentos das autoridades p&#xFA;blicas brasileiras refor&#xE7;avam a ideia de que esse era um tema do passado e que poderia reabrir feridas. Esse foi um senso comum que durante muito tempo foi predominante. Ent&#xE3;o, acho que era uma milit&#xE2;ncia de um grupo mais restrito; eu n&#xE3;o identifico uma expressividade nessa cr&#xED;tica capaz de contaminar o pr&#xF3;prio funcionamento da Comiss&#xE3;o de Mortos e Desaparecidos, a fazer reparar cada uma das pessoas e o pr&#xF3;prio funcionamento da Comiss&#xE3;o de Anistia. Para mim, a virada desse discurso veio noutro momento. Se voc&#xEA; olhar at&#xE9; mesmo o pronunciamento dos outros presidentes da Comiss&#xE3;o de Mortos e Desaparecidos e dos primeiros Ministros de Direitos Humanos durante o primeiro ciclo de funcionamento at&#xE9; o seu final, NENHUM deles inclu&#xED;a na sua ret&#xF3;rica pol&#xED;tica e em cada ato de repara&#xE7;&#xE3;o a defesa da puni&#xE7;&#xE3;o dos torturadores. Esse era um tabu. Foi um tabu durante muito tempo e muita gente trabalhava com aquela l&#xF3;gica [de que] era melhor n&#xE3;o mexer mais nesse tema. A repara&#xE7;&#xE3;o dos familiares e aos perseguidos avan&#xE7;ava. Acho que isso s&#xF3; veio a mudar por dois fatores: uma mudan&#xE7;a desse discurso e inclusive de uma terceira fase dos movimentos sociais. Falo dessa fase original que foi a fase dos movimentos sociais que surgiram para lutar pela redemocratiza&#xE7;&#xE3;o e pelas PRIMEIRAS conquistas de repara&#xE7;&#xE3;o, para permitir o retorno dos exilados &#x2013; a Lei de Anistia e a redemocratiza&#xE7;&#xE3;o; uma segunda fase foi a dos movimentos que giraram ao redor do processo de repara&#xE7;&#xE3;o e acho que a&#xED; surgiu uma terceira fase: houve um terceiro movimento de organiza&#xE7;&#xF5;es sociais, de NOVOS movimentos sociais e que inclusive s&#xE3;o muito marcados por uma gera&#xE7;&#xE3;o que n&#xE3;o havia vivido ou lutado contra a ditadura. Eu vejo grande diferen&#xE7;a na linguagem e na liberdade de elabora&#xE7;&#xE3;o que essa terceira fase de movimentos tem [em rela&#xE7;&#xE3;o aos movimentos anteriores]. Eles questionam de maneira mais intensa a pr&#xF3;pria ideia de pacto, talvez porque n&#xE3;o viveram esses traumas, n&#xE3;o passaram pelos mesmos processos. E, querendo ou n&#xE3;o, o Brasil estava vivendo momentos de afirma&#xE7;&#xE3;o da sua democracia cada vez mais intensos.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Paulo, voc&#xEA; associaria essa inflex&#xE3;o ao que voc&#xEA; descreveu em alguns artigos acad&#xEA;micos
					<xref ref-type="fn" rid="fn3">
						<sup>3</sup>
					</xref> como uma &#x201C;virada hermen&#xEA;utica&#x201D; da Comiss&#xE3;o de Anistia?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: H&#xE1; duas quest&#xF5;es principais. Primeiramente, a atua&#xE7;&#xE3;o de alguns membros do Minist&#xE9;rio P&#xFA;blico Federal que nesse momento come&#xE7;aram tamb&#xE9;m a estudar a possibilidade de questionamento do ambiente de impunidade. Procuradores que acompanhavam de maneira atenta a jurisprud&#xEA;ncia do sistema interamericano e algumas senten&#xE7;as [de condena&#xE7;&#xE3;o que] j&#xE1; tinham sido produzidas na Corte Interamericana, &#xE0; qual o Brasil havia aderido em 95. Ent&#xE3;o, a partir da&#xED;, come&#xE7;a tamb&#xE9;m a surgir influ&#xEA;ncia do direito internacional e de um movimento que vem de fora determinando ao Peru, &#xE0; Argentina e ao Chile que revisassem suas leis de anistia. Isso foi gerando novos argumentos jur&#xED;dicos, uma transforma&#xE7;&#xE3;o que vem de fora e que alcan&#xE7;a aquelas pessoas que se dedicavam ao mundo jur&#xED;dico dentro da procuradoria, porque isso REFOR&#xC7;OU argumentos jur&#xED;dicos. [Eles atentavam para] as obriga&#xE7;&#xF5;es internacionais que o Brasil TINHA para permiti-los internamente explorar algumas teses jur&#xED;dicas para buscar uma responsabiliza&#xE7;&#xE3;o civil e n&#xE3;o penal, como foram as primeiras tentativas, dos autores dos crimes da ditadura. Ent&#xE3;o, surgem as primeiras a&#xE7;&#xF5;es e coincidentemente era um momento favor&#xE1;vel &#x2013; estamos falando de 2007. Houve um segundo fator importante, que penso que tem a ver com a nova fase que a Comiss&#xE3;o de Anistia vive nesse momento, quando ela foi totalmente reestruturada dentro da gest&#xE3;o do Ministro da Justi&#xE7;a Tarso Genro. Ele reestrutura a Comiss&#xE3;o de Anistia abrindo-a para uma maior representatividade e isso vai ter reflexos na forma&#xE7;&#xE3;o de movimentos em distintos estados, incluindo conselheiros do Cear&#xE1;, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul. Antes os conselheiros eram muito concentrados em S&#xE3;o Paulo, Bras&#xED;lia e Rio de Janeiro. Aumenta a representatividade da Comiss&#xE3;o de Anistia e desburocratiza o processo de repara&#xE7;&#xE3;o &#xE0;s v&#xED;timas, levando essa discuss&#xE3;o ao plano da disputa pela mem&#xF3;ria. Da&#xED; surgem as caravanas da Anistia. N&#xF3;s come&#xE7;amos a percorrer o Brasil inteiro com as sess&#xF5;es de julgamento que passam a ter um efeito psicol&#xF3;gico importante nas pessoas que antes trabalhavam na s&#xED;ndrome do medo &#x2013; porque o tema era um tabu que n&#xE3;o se podia discutir. E, depois da reestrutura&#xE7;&#xE3;o, o Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a em sess&#xF5;es oficiais ia a v&#xE1;rias cidades do Brasil inteiro e verbalizava a possibilidade de questionar tudo isso, rompendo o tabu da discuss&#xE3;o da possibilidade de punir os torturadores. Isso vai empoderando e contaminando positivamente de forma exponencial uma massa estudantil que acompanha essas sess&#xF5;es. Jovens, movimentos sociais e sindicatos, que v&#xE3;o se REARTICULANDO ou RESSIGNIFICANDO uma agenda para sair de uma l&#xF3;gica da luta por repara&#xE7;&#xE3;o para uma l&#xF3;gica de implementa&#xE7;&#xE3;o de uma justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o. N&#xF3;s come&#xE7;amos ent&#xE3;o a fazer uma modifica&#xE7;&#xE3;o conceitual nesse trabalho que foi a de marcar o trabalho da Comiss&#xE3;o de Anistia n&#xE3;o apenas num eixo estrito de repara&#xE7;&#xE3;o, mas de uma agenda mais ampla de justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o que englobasse tamb&#xE9;m a&#xE7;&#xF5;es educativas para a n&#xE3;o repeti&#xE7;&#xE3;o e a&#xE7;&#xF5;es de mem&#xF3;ria, com homenagens, monumentos, as caravanas da Anistia e publica&#xE7;&#xF5;es. Tamb&#xE9;m nesse momento o Ministro resolve verbalizar [essa inten&#xE7;&#xE3;o] publicamente numa entrevista, num dos atos em que ocorreu uma das edi&#xE7;&#xF5;es da caravana da Anistia dentro do terreno da UNE, no Rio de Janeiro. Pela primeira vez, ele d&#xE1; uma entrevista em que faz um questionamento p&#xFA;blico &#xE0; Lei de Anistia. Isso foi em abril e em julho de 2009 n&#xF3;s organizamos uma audi&#xEA;ncia p&#xFA;blica dentro do Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a; na minha opini&#xE3;o, essa audi&#xEA;ncia p&#xFA;blica foi uma a&#xE7;&#xE3;o muito ousada. Foi a primeira vez DESDE 79 em que dentro de uma estrutura estatal brasileira fazia-se uma discuss&#xE3;o sobre a possibilidade de se responsabilizar aquelas pessoas que haviam praticado a tortura. A tortura estava sendo discutida como crime contra a humanidade, assim como a responsabiliza&#xE7;&#xE3;o dos torturadores. Esse foi o caminho de entrada para fazer uma discuss&#xE3;o com as pessoas sobre a tortura como crime inafian&#xE7;&#xE1;vel e impass&#xED;vel de anistia e, portanto, pela jurisprud&#xEA;ncia internacional, a Lei de Anistia de 79 n&#xE3;o alcan&#xE7;aria esses fatos. N&#xE3;o foi um questionamento da validade da Lei de 79, foi um questionamento sobre a interpreta&#xE7;&#xE3;o AUT&#xCA;NTICA que tem de ser dada na aplica&#xE7;&#xE3;o dessa Lei &#xE0; luz da ordem jur&#xED;dica internacional dos dias de hoje. Esse movimento da Comiss&#xE3;o de Anistia em todos os estados, o Ministro da Justi&#xE7;a verbalizando essa discuss&#xE3;o e a esses fatos soma-se ainda o Minist&#xE9;rio dos Direitos Humanos, de Paulo Vanucchi. [Eles] d&#xE3;o uma reativada nessa nova agenda e come&#xE7;am a surgir novos movimentos, que ainda n&#xE3;o eram chamados de comit&#xEA;s por verdade, mem&#xF3;ria e justi&#xE7;a. Essa express&#xE3;o vir&#xE1; a surgir um pouco mais tarde, mas esses movimentos come&#xE7;am a surgir de n&#xFA;cleos estudantis, de organiza&#xE7;&#xF5;es num novo alinhamento da UNE, da OAB e da ABI. Essas tr&#xEA;s organiza&#xE7;&#xF5;es come&#xE7;am a seguir as a&#xE7;&#xF5;es da Caravana da Anistia e essas tr&#xEA;s organiza&#xE7;&#xF5;es ocuparam papel-chave na luta pela anistia [nos anos 1970]. Um campo social &#xE9; rearticulado para reconectar a continuidade de uma luta que de alguma maneira havia sido dissolvida por outras prioridades democr&#xE1;ticas p&#xF3;s-85.
				</p>
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			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Voc&#xEA; diria ent&#xE3;o que a Comiss&#xE3;o de Anistia foi uma propulsora desse movimento?
				</p>
			</list-item>
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				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: De uma maneira muito sincera, eu acho que sim, porque a mobiliza&#xE7;&#xE3;o social gerada pelas Caravanas da Anistia teve um impacto muito importante. Para voc&#xEA; ter uma ideia, ao redor dessa iniciativa se criou uma rede brasileira acad&#xEA;mica de justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o que reuniu quase 20 universidades diferentes. Foram surgindo novos grupos de pesquisa FORA dos institutos de hist&#xF3;ria, que sempre tiveram seus centros de excel&#xEA;ncia sobre a ditadura. Come&#xE7;am a surgir outros grupos de estudo [que refletem sobre o tema] desde a perspectiva da Ci&#xEA;ncia Pol&#xED;tica, do Direito e outras &#xE1;reas e eu acho que isso tudo vai mobilizando, vai criando um novo movimento.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Paulo, quando voc&#xEA; foi recrutado para ir para a Comiss&#xE3;o de Anistia, voc&#xEA; era uma figura muito jovem e fora desse circuito [de milit&#xE2;ncia por mem&#xF3;ria, verdade e justi&#xE7;a]. Eu me lembro de ter lido uma entrevista sua em que voc&#xEA; comenta que o Ministro [Tarso Genro] queria justamente algu&#xE9;m que n&#xE3;o tivesse sido afetado pela ditadura e que, suponho, talvez por isso mesmo trouxesse uma novidade para a reflex&#xE3;o sobre esse assunto. Quando voc&#xEA; foi recrutado, existia uma conversa preliminar no sentido desse redirecionamento t&#xE3;o importante que a Comiss&#xE3;o teve? Quer dizer, foi uma dire&#xE7;&#xE3;o acordada? Havia uma expectativa do Ministro nesse sentido ou voc&#xEA; diria que, uma vez que voc&#xEA; estava l&#xE1;, os fatos foram tomando esse rumo?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: N&#xE3;o houve isso n&#xE3;o. Eu n&#xE3;o o conhecia. Eu tinha sido professor de um assessor dele. Quando ele assumiu o Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a, esse assessor ex-aluno me procurou para me informar que ele era assessor do Ministro &#x2013; o que eu tampouco sabia &#x2013; e que buscava intelectuais que tivessem alguma rela&#xE7;&#xE3;o com os Direitos Humanos para assessor&#xE1;-lo. E eu, na Universidade
					<xref ref-type="fn" rid="fn4">
						<sup>4</sup>
					</xref>, tinha atua&#xE7;&#xE3;o e pesquisa nessa &#xE1;rea. Ele me fez esse convite, mencionou o escrit&#xF3;rio dele em Porto Alegre e tivemos uma conversa de cinco minutos. Anteriormente, ele me pediu por e-mail que eu lhe enviasse alguns dos meus artigos. Depois disso, houve a nossa conversa de cinco minutos em que ele disse que procurava algu&#xE9;m para trabalhar nessa assessoria com o Ministro para ajudar a formular pol&#xED;ticas no Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a. Nesse instante da primeira conversa, n&#xE3;o houve um convite j&#xE1; direcionado para a Comiss&#xE3;o de Anistia. Em seguida, ele me contou que estava procurando uma pessoa para assumir a Comiss&#xE3;o de Anistia, mas a miss&#xE3;o que ele me outorgou nesse momento inicial do convite para a Comiss&#xE3;o foi uma miss&#xE3;o de acelerar os julgamentos.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: E por que voc&#xEA; acha que n&#xE3;o ter v&#xED;nculo com o passado era um requisito importante?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Eu n&#xE3;o sei, talvez porque essa agenda care&#xE7;a de uma neutralidade ou imparcialidade muito forte; se quem tivesse na posi&#xE7;&#xE3;o de presidente dessas decis&#xF5;es tivesse esse distanciamento, poderia ajudar nos pr&#xF3;ximos passos pretendidos. Para tentar neutralizar um pouco aqueles argumentos antigos, que sempre existiram; a verdade &#xE9; que a cada vez que a Comiss&#xE3;o de Mortos e Desaparecidos tomava alguma decis&#xE3;o mais sens&#xED;vel do ponto de vista hist&#xF3;rico e pol&#xED;tico &#x2013; como anistiar os familiares do Marighela ou anistiar pessoas que participaram da luta armada &#x2013; gerava repercuss&#xF5;es. E se fazia muita explora&#xE7;&#xE3;o quando tamb&#xE9;m se concedia alguma indeniza&#xE7;&#xE3;o mais expressiva para personagens com maior notoriedade. Havia muito desgaste nesse sentido. Ele me pediu duas coisas: que n&#xF3;s aceler&#xE1;ssemos o julgamento e que pud&#xE9;ssemos fazer um trabalho de mais razoabilidade nos valores indenizat&#xF3;rios, que fiz&#xE9;ssemos uma reflex&#xE3;o sobre isso &#x2013; para entender por que umas pessoas tinham indeniza&#xE7;&#xF5;es milion&#xE1;rias e outras n&#xE3;o tinham. Quando eu entro, os trabalhos se paralisam por tr&#xEA;s meses e eu fico fazendo diagn&#xF3;stico durante tr&#xEA;s meses. Existia um atraso de 45.000 projetos. E eu disse que para resolver aquele problema ter&#xED;amos que reorganizar o trabalho, ampliar o n&#xFA;mero de conselheiros para aumentar tamb&#xE9;m a representatividade, trazer mais conselheiros da Academia para refor&#xE7;ar essa perspectiva mais neutral.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Quando voc&#xEA; fala aumentar a representatividade voc&#xEA; tem em vista, al&#xE9;m da Academia, que tipos de setores que n&#xE3;o estariam contemplados?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Durante esses tr&#xEA;s meses em TODAS as minhas tardes eu abria as minhas portas e passava o tempo escutando os movimentos, pessoas e todos que queriam vir falar comigo. Eu fui captando muita informa&#xE7;&#xE3;o e muitas insatisfa&#xE7;&#xF5;es ao longo desse processo, al&#xE9;m de muitas ideias que as pessoas me apresentavam. E percebi, no perfil dos conselheiros, que a comiss&#xE3;o precisava ter uma representatividade geogr&#xE1;fica mais importante. Existiam muitas reclama&#xE7;&#xF5;es dos movimentos do Nordeste, que afirmavam n&#xE3;o ter a mesma representatividade daqueles que lutaram no eixo Rio-S&#xE3;o Paulo. Percebi que existiam movimentos com atraso muito importante em processos de repara&#xE7;&#xE3;o de grupos sociais do sul do pa&#xED;s, que n&#xE3;o viam seus processos avan&#xE7;ando, movimentos sindicais.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: J&#xE1; eram as associa&#xE7;&#xF5;es [profissionais] que voc&#xEA; mencionou h&#xE1; pouco?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Sim, j&#xE1; eram essas associa&#xE7;&#xF5;es. Elas se mobilizam quando se cria a Comiss&#xE3;o de Anistia em 2002, mas elas atuam dentro de uma agenda de indeniza&#xE7;&#xE3;o. Por sete anos seguidos. E tamb&#xE9;m atuaram fazendo press&#xE3;o no Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a para acelerar o andamento de seus processos. Era uma agenda de car&#xE1;ter e conota&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica. Eu propus ao Ministro que n&#xF3;s ampli&#xE1;ssemos esses enfrentamentos sobre o estigma que o processo de repara&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica carregava neste momento &#x2013; os processos eram acusados de consistirem no enriquecimento dos perseguidos pol&#xED;ticos. Era um processo desconhecido e surgiam quest&#xF5;es de por qu&#xEA; as pessoas que sofreram menos ganhassem mais que outras. Eu fiz um estudo da Lei e entendi que essas quest&#xF5;es eram express&#xF5;es DA LEI. N&#xE3;o eram resultantes da atua&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o. A Lei foi elaborada estabelecendo par&#xE2;metros objetivos que n&#xE3;o correspondiam ao crit&#xE9;rio que se vinculava ao grau de persegui&#xE7;&#xE3;o. Era um crit&#xE9;rio de natureza trabalhista que se vinculava ao tipo de profiss&#xE3;o que as pessoas tinham ou cumpriram na vida. Ent&#xE3;o isso NECESSARIAMENTE ia gerar uma indisposi&#xE7;&#xE3;o, porque de alguma maneira a Lei aprofundava as diferen&#xE7;as sociais; as desigualdades na representa&#xE7;&#xE3;o das diferentes profiss&#xF5;es que o Brasil tinha. A pr&#xF3;pria categoriza&#xE7;&#xE3;o de reconhecimento social e de prest&#xED;gio que cada profiss&#xE3;o tinha. Porque a presta&#xE7;&#xE3;o mensal tinha que ser no valor correspondente que o sal&#xE1;rio que a pessoa ocuparia hoje se tivesse continuado na carreira.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Um crit&#xE9;rio que &#xE9; absolutamente contrafactual.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: &#xC9; louco. Se um engenheiro j&#xE1; ganhava muito naquela &#xE9;poca na Petrobras e perdeu o emprego arbitrariamente, hoje a indeniza&#xE7;&#xE3;o seria alta porque ele era engenheiro da Petrobr&#xE1;s! N&#xE3;o porque sofreu uma hist&#xF3;ria de danos mais intensos. Isso era uma quest&#xE3;o que n&#xE3;o havia como ser resolvida e eu disse isso ao Ministro, que n&#xE3;o haveria solu&#xE7;&#xE3;o, mas que pod&#xED;amos fazer um trabalho de tentar basear as repara&#xE7;&#xF5;es com base nos valores m&#xE9;dios de mercado. Esse crit&#xE9;rio nos ajudaria a diminuir o distanciamento social entre as diferentes carreiras e uma maneira para que n&#xF3;s pud&#xE9;ssemos reparar as pessoas que tiveram seus projetos de vida totalmente interrompidos. Imagina um estudante que NEM conseguiu concluir seus estudos &#xE0; &#xE9;poca ou foi ao ex&#xED;lio ou passou NOVE anos preso; a indeniza&#xE7;&#xE3;o dele como estudante seria muito baixa hoje em dia. E as torturas que ele sofreu durante os nove anos? Acredito que uma maneira de amenizar essas discrep&#xE2;ncias &#xE9; POLITIZAR essa discuss&#xE3;o: ela n&#xE3;o &#xE9; uma repara&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica, n&#xF3;s temos que falar em repara&#xE7;&#xE3;o INTEGRAL &#x2013; temos que falar em repara&#xE7;&#xE3;o simb&#xF3;lica, moral, econ&#xF4;mica e psicol&#xF3;gica.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Essa inflex&#xE3;o teve o objetivo de compensar distor&#xE7;&#xF5;es da Lei, Paulo?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Para complementar, eu diria, porque se n&#xF3;s deix&#xE1;ssemos de trabalhar exclusivamente com repara&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica e pass&#xE1;ssemos a nos guiar pelo conceito de repara&#xE7;&#xE3;o integral, o conjunto das medidas reparat&#xF3;rias que a pessoa vai receber ser&#xE3;o mais significativas para que elas se sintam efetivamente reconhecidas por parte do Estado. A dimens&#xE3;o mais ampla dos preju&#xED;zos que ela sofreu n&#xE3;o foi EXCLUSIVAMENTE de natureza econ&#xF4;mica. Foi quando numa sess&#xE3;o de julgamento de maneira muito espont&#xE2;nea acontece uma situa&#xE7;&#xE3;o muito concreta da injusti&#xE7;a de Lei. Era um casal de professores que havia sido demitido da faculdade e depois foram readmitidos, mas em paralelo eles tamb&#xE9;m foram presos e torturados. Como a repara&#xE7;&#xE3;o equivalia &#xE0; readmiss&#xE3;o, ou seja, sob a determina&#xE7;&#xE3;o da Lei n&#xE3;o houve preju&#xED;zo econ&#xF4;mico, e a Lei diz que a repara&#xE7;&#xE3;o se d&#xE1; pelo v&#xED;nculo de trabalho, o processo daquelas pessoas n&#xE3;o lhes concedeu direito a nenhuma repara&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica. Naquele momento foi um choque porque eles nos diziam que haviam entendido que n&#xE3;o tinham direito etc. E choravam muito dizendo que tinham sido presos e torturados. &#x201C;E o que acontece conosco? Por todas essas coisas que n&#xE3;o a demiss&#xE3;o do trabalho?!&#x201D;. E, de maneira muito espont&#xE2;nea, nesse momento eu reagi e disse: &#x201C;o que n&#xF3;s podemos fazer nesse momento &#xE9; pedir desculpas oficiais em nome do Estado brasileiro a voc&#xEA;s&#x201D;. E aquilo foi um CHOQUE porque percebi que era a primeira vez que estava pedindo desculpas oficiais em nome do Estado brasileiro.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Isso te surgiu de improviso?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Foi. E a rea&#xE7;&#xE3;o desse casal foi extraordin&#xE1;ria no sentido de dizer: &#x201C;isso me basta. Ficamos felizes com isso!&#x201D; A partir desse momento n&#xF3;s institu&#xED;mos o pedido de desculpas em TODAS as sess&#xF5;es para TODAS as pessoas contempladas com indeniza&#xE7;&#xE3;o. Pensando a dimens&#xE3;o simb&#xF3;lica da repara&#xE7;&#xE3;o e tamb&#xE9;m a repara&#xE7;&#xE3;o moral. Depois, n&#xF3;s criamos o Marcas da Mem&#xF3;ria, os monumentos, as Cl&#xED;nicas de Testemunha para suporte psicol&#xF3;gico, constru&#xED;mos Pol&#xED;ticas P&#xFA;blicas para estruturar esse princ&#xED;pio da repara&#xE7;&#xE3;o integral dentro do marco de uma agenda para a justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o. As primeiras Caravanas da Anistia n&#xE3;o tinham o ato formal de pedido de desculpas e a partir de 2008 elas come&#xE7;am a ter esse ato.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Paulo, e como foi a constru&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica dessa medida? Houve oposi&#xE7;&#xE3;o dentro do governo?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: A estrat&#xE9;gia foi naturalizar isso e contar um pouco com a ignor&#xE2;ncia da pr&#xF3;pria burocracia, que n&#xE3;o dava muita aten&#xE7;&#xE3;o &#xE0; Comiss&#xE3;o, e por outro lado envolver o Ministro nas participa&#xE7;&#xF5;es da Comiss&#xE3;o. E num desses atos p&#xFA;blicos, num dos discursos, eu inclu&#xED; isso e o Ministro seguiu e tamb&#xE9;m realizou esse pedido de desculpas e nesse momento est&#xE1;vamos preparados para seguir adiante. Foi uma subvers&#xE3;o de alguma maneira. Mas hoje eu considero um momento-chave de tudo isso, porque no fundo foi uma intui&#xE7;&#xE3;o que nos ajudou tamb&#xE9;m a concretizar uma virada conceitual que estava em marcha e que de alguma maneira era resultado dessas reflex&#xF5;es. Houve essa virada hermen&#xEA;utica, em que come&#xE7;amos a trabalhar teoricamente o que estava acontecendo e n&#xF3;s traduzimos dessa forma: ressignificando o processo da Comiss&#xE3;o de Anistia, onde antes as pessoas tinham que PEDIR para serem perdoadas pelo Estado e agora &#xE9; o Estado brasileiro quem pede desculpas &#xE0;s pessoas a quem ele afetou. Isso tem um efeito MUITO forte porque se a Lei de Anistia n&#xE3;o &#xE9; mais uma CONCESS&#xC3;O do Estado porque &#xE9; uma conquista e se a OBRIGA&#xC7;&#xC3;O do Estado &#xE9; reparar as v&#xED;timas, isso come&#xE7;a a empoderar tamb&#xE9;m os movimentos dentro de uma perspectiva de poder realizar uma releitura social do que aconteceu, agora num ambiente de liberdade e com o apoio do Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a. Os movimentos puderam pensar: &#x201C;por que a gente n&#xE3;o avan&#xE7;a um pouco nessa agenda?&#x201D; Esse ambiente vai ajudando, &#xE9; um processo e uma acumula&#xE7;&#xE3;o de lutas geracionais que v&#xE3;o se dando ao longo do tempo que tamb&#xE9;m permitem que nesse momento, 2008, existam as condi&#xE7;&#xF5;es pol&#xED;ticas para que se pudesse realizar isso. Claro que n&#xE3;o se trata de nenhuma ilumina&#xE7;&#xE3;o individual!
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Voc&#xEA; encontrou dificuldades e resist&#xEA;ncias nesse processo?
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				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Sim, houve resist&#xEA;ncia do representante do Minist&#xE9;rio da Defesa na Comiss&#xE3;o [de Anistia] num primeiro momento. Porque ele &#xE9; um conselheiro e &#xE9; um militar ali dentro. Mas a FOR&#xC7;A dos testemunhos das v&#xED;timas, a FOR&#xC7;A dos depoimentos que come&#xE7;aram a chegar &#xE0; Comiss&#xE3;o&#x2026; Antes se estava trabalhando dentro de uma l&#xF3;gica muito burocr&#xE1;tica, as pessoas mandavam suas peti&#xE7;&#xF5;es, enfim, pap&#xE9;is, e o processo de repara&#xE7;&#xE3;o era um processo administrativo. N&#xF3;s concedemos a esse processo uma dimens&#xE3;o simb&#xF3;lica, hist&#xF3;rica, pol&#xED;tica e social. Come&#xE7;amos a valorizar que nas sess&#xF5;es da Comiss&#xE3;o de Anistia n&#xE3;o viessem os advogados das v&#xED;timas falarem por elas. Que viessem AS V&#xCD;TIMAS, porque n&#xF3;s quer&#xED;amos dentro desse eixo da repara&#xE7;&#xE3;o integral construir um eixo de mem&#xF3;ria. E era muito importante para a Comiss&#xE3;o de Anistia REGISTRAR por meio da hist&#xF3;ria oral, j&#xE1; que, em muitas vezes, n&#xE3;o t&#xED;nhamos os documentos, os testemunhos de todas essas pessoas. Eles come&#xE7;aram a entender essa mudan&#xE7;a e a Comiss&#xE3;o melhorava a qualidade de suas decis&#xF5;es quando ouvia diretamente as v&#xED;timas, e n&#xE3;o os advogados ou representantes de associa&#xE7;&#xF5;es que estavam l&#xE1; nas sess&#xF5;es de julgamento representando pessoas que n&#xF3;s n&#xE3;o v&#xED;amos. &#xC9; muito interessante como existe uma &#x2013; n&#xE3;o sei se voc&#xEA; j&#xE1; ouviu, mas eu escutei v&#xE1;rias vezes &#x2013; PARTE dos movimentos sociais dessa etapa anterior, que j&#xE1; tinha uma vis&#xE3;o muito cr&#xED;tica da atua&#xE7;&#xE3;o na fase anterior da Comiss&#xE3;o de Anistia e por isso n&#xE3;o queria se ver ligado &#xE0; Comiss&#xE3;o por discordar dessa pauta centrada na indeniza&#xE7;&#xE3;o econ&#xF4;mica. E depois da nossa reestrutura&#xE7;&#xE3;o buscaram se aproximar da Comiss&#xE3;o. Pessoas que durante os sete primeiros anos nunca nem haviam solicitado seus pedidos resolveram formalizar seus respectivos pedidos de anistia. O Ministro da Justi&#xE7;a deu um apoio fundamental a essa agenda, que incorporou um eixo de repara&#xE7;&#xE3;o integral, um eixo de mem&#xF3;ria e um eixo de educa&#xE7;&#xE3;o muito importante. Come&#xE7;amos a revisar algumas discuss&#xF5;es com Minist&#xE9;rio P&#xFA;blico e com expertos internacionais para aprofundar estudos sobre justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o. Autorizados pelo Ministro tamb&#xE9;m come&#xE7;amos a questionar nos nossos pronunciamentos p&#xFA;blicos o alcance da Lei de Anistia para a impunidade das pessoas que haviam cometido crimes contra a humanidade. E se instaura no Pa&#xED;s uma discuss&#xE3;o. Realmente foi um tema que por alguns meses tomou volume ao ponto de resultar na apresenta&#xE7;&#xE3;o por parte da OAB da A&#xE7;&#xE3;o Direta de Preceitos Fundamentais, na qual o Supremo deliberou por manter a Lei de Anistia. Esse passo foi dado a partir desse ac&#xFA;mulo de discuss&#xE3;o que estava posto na opini&#xE3;o p&#xFA;blica com o Comparato [Fabio Konder Comparato], um intelectual na Universidade que desde SEMPRE escreveu questionando a validade e o alcance da Lei de Anistia, dentro daquele ciclo restrito do qual falei antes. Para mim, essa audi&#xEA;ncia p&#xFA;blica &#xE9; chave.
				</p>
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				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: &#xC9; o ponto de virada, te parece?
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				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: No m&#xED;nimo. Ali muda tudo. Foi uma audi&#xEA;ncia muito forte. E nesse momento houve a rea&#xE7;&#xE3;o das For&#xE7;as Armadas.
				</p>
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				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: E entidades que n&#xE3;o estavam associadas a essa pauta dessa maneira passam a se associar, certo? A pr&#xF3;pria OAB me parece que at&#xE9; ent&#xE3;o n&#xE3;o articulava esse tipo de discurso [confrontativo em rela&#xE7;&#xE3;o &#xE0; Lei de Anistia]. &#xC9; a partir da audi&#xEA;ncia que ela o adota?
				</p>
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				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Essa postura de reconquista de algumas organiza&#xE7;&#xF5;es importantes para a agenda da justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o se faz pelas Caravanas da Anistia. N&#xF3;s entr&#xE1;vamos em contato com o MST dizendo: &#x201C;queremos fazer uma Caravana da Anistia sobre camponeses dentro de um assentamento rural.&#x201D; A&#xED; eles nos recebiam e NESSE MOMENTO eles passavam a incorporar.
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				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Voc&#xEA;s acionavam essas redes? Voc&#xEA;s procuraram o MST ou eles tiveram essa atitude proativa?
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				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: A CNBB, o MST, a OAB, as universidades, a UNE. N&#xF3;s procur&#xE1;vamos. N&#xF3;s busc&#xE1;vamos.
				</p>
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				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: &#xC9; poss&#xED;vel ver que, nos relat&#xF3;rios da Comiss&#xE3;o de Anistia, uma rede muito impressionante constitu&#xED;da. &#xC9; realmente um universo muito amplo e heterog&#xEA;neo. Havia ali parceiros principais?
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				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Tinha.
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				<label>&#x25A0;</label>
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					<bold>CB</bold>: Quem eram?
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				<label>&#x25A1;</label>
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					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: OAB, CNBB, ABI, UNE. A UNE foi uma grande parceira. A UBES [Uni&#xE3;o Brasileira dos Estudantes Secundaristas]. Algumas universidades sempre queriam receber a Comiss&#xE3;o de Anistia nas suas sess&#xF5;es. Na UFRJ, tinha muitas portas de entrada para a gente. Muitas universidades come&#xE7;aram a pedir a Caravana da Anistia. Achei muito interessante; alguns sindicatos pediram tamb&#xE9;m. At&#xE9; que a Comiss&#xE3;o de Anistia declara que &#xED;amos fazer uma incurs&#xE3;o ao Araguaia. Esse foi outro momento importante. Pela primeira vez um avi&#xE3;o da Pol&#xED;cia Federal leva uma comitiva do Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a ao Araguaia, incluindo o pr&#xF3;prio Ministro. T&#xED;nhamos ali um problema pr&#xE1;tico: um conjunto de 400 processos de camponeses do Araguaia alegando viola&#xE7;&#xF5;es, mas n&#xE3;o tinha mais NADA, s&#xF3; isso. Eram processos pobres porque n&#xE3;o havia arquivo. Decidi que n&#xF3;s t&#xED;nhamos que ir at&#xE9; l&#xE1; e colher DIRETAMENTE dessas pessoas, desses camponeses, seus testemunhos para que a gente pudesse forjar o nosso pr&#xF3;prio ju&#xED;zo de valor e m&#xE9;rito. Eu n&#xE3;o posso reconhecer a condi&#xE7;&#xE3;o de v&#xED;tima das pessoas sem ter um respaldo documental m&#xED;nimo, ou seja, sem ter a certeza de que o foram. Ent&#xE3;o, n&#xF3;s fomos duas vezes &#xE0; regi&#xE3;o do Araguaia para colher testemunhos e foi um momento forte tamb&#xE9;m porque houve inquieta&#xE7;&#xE3;o do Minist&#xE9;rio da Defesa e das For&#xE7;as Armadas, a ponto de acionarem o Pal&#xE1;cio do Planalto para perguntarem ao Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a o que n&#xF3;s estar&#xED;amos fazendo. Tivemos que explicar que est&#xE1;vamos indo l&#xE1; para escutar as v&#xED;timas, que &#xE9; parte do trabalho da Comiss&#xE3;o de Anistia. Isso foi novidade trazida com a reestrutura&#xE7;&#xE3;o, porque a Comiss&#xE3;o, antes disso, tinha uma postura passiva: &#x201C;quem vier at&#xE9; n&#xF3;s com processo, n&#xF3;s vamos decidir&#x201D;. E a Comiss&#xE3;o passa a IR ATR&#xC1;S DA HIST&#xD3;RIA, IR ATR&#xC1;S DAS PESSOAS, se aproximar. Foi muito interessante que durante as caravanas da Anistia muitos testemunhos come&#xE7;avam da seguinte forma: &#x201C;eu n&#xE3;o falava deste tema h&#xE1; trinta anos. Hoje eu recupero a minha capacidade de falar sobre isso. Eu sinto a liberdade de falar sobre isso&#x201D;. Foram coisas muito bonitas de acompanhar, porque eram pessoas se reparando simplesmente pela nossa presen&#xE7;a. E esse poder transformador que as Caravanas de Anistia tiveram n&#xE3;o s&#xF3; nas novas mobiliza&#xE7;&#xF5;es, mas tamb&#xE9;m para que as pessoas pudessem romper o silenciamento e falassem de novo, tendo a confian&#xE7;a reconquistada nas institui&#xE7;&#xF5;es e no Estado para que elas pudessem continuar as suas vidas.
				</p>
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				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Quando estudo a experi&#xEA;ncia da Comiss&#xE3;o de Anistia, me impressiona justamente essa confian&#xE7;a depositada em um &#xF3;rg&#xE3;o de Estado. As pessoas foram embarcando nos seus ritos.
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				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Elas sentiram a sinceridade do que est&#xE1;vamos fazendo. E o respaldo do Ministro foi muito importante, sem isso n&#xE3;o ter&#xED;amos condi&#xE7;&#xF5;es de faz&#xEA;-lo. Agora, queria dizer tamb&#xE9;m que, em paralelo, estavam acontecendo iniciativas na Secretaria dos Direitos Humanos, com a constitui&#xE7;&#xE3;o de um projeto novo, Direito &#xE0; Mem&#xF3;ria e &#xE0; Verdade, que foi uma outra disputa, de INCLUIR pela primeira vez no Programa Nacional de Direitos Humanos um cap&#xED;tulo de mem&#xF3;ria e verdade. O Ministro da Secretaria dos Direitos Humanos [Paulo Vannuchi] resolveu acompanhar as Caravanas da Anistia e participar ativamente. E da&#xED; come&#xE7;ou uma articula&#xE7;&#xE3;o entre Minist&#xE9;rios.
				</p>
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				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Foi o Gilnei Viana quem esteve &#xE0; frente desse projeto [de Direito &#xE0; Mem&#xF3;ria e &#xE0; Verdade], n&#xE3;o foi?
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				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Sim, ele respondeu pelo projeto durante muitos anos. Ele entendeu o que estava acontecendo na Comiss&#xE3;o de Anistia, nos buscou e disse daquele jeito dele: &#x201C;bicho, vamos somar for&#xE7;as, quero participar de tudo o que a Comiss&#xE3;o de Anistia est&#xE1; fazendo&#x201D;. Em todos os semin&#xE1;rios da Comiss&#xE3;o e atos p&#xFA;blicos come&#xE7;amos a incluir obviamente o projeto Direito &#xE0; Mem&#xF3;ria e &#xE0; Verdade da Secretaria de Direitos Humanos para somar for&#xE7;as, porque t&#xED;nhamos a mesma agenda, apesar de estarmos em Minist&#xE9;rios diferentes e termos &#xCA;NFASES diferentes. Ele tinha que fazer projetos vinculados &#xE0;s hist&#xF3;rias de mortos e desaparecidos pol&#xED;ticos e eu tinha que fazer sobre o conjunto TOTAL de perseguidos pol&#xED;ticos, incluindo-se os mortos e os desaparecidos, porque ANTES de haverem sido assassinados ou desaparecidos tiveram uma vida de persegui&#xE7;&#xE3;o pol&#xED;tica para a qual cabia repara&#xE7;&#xE3;o. O meu p&#xFA;blico, digamos assim, alcan&#xE7;ava a totalidade das pessoas perseguidas ao passo que eles se direcionavam aos mortos e desaparecidos pol&#xED;ticos. Come&#xE7;amos a somar for&#xE7;as. O Gilney teve um papel importante na estrutura&#xE7;&#xE3;o dos novos comit&#xEA;s de mem&#xF3;ria, verdade e justi&#xE7;a. Com as audi&#xEA;ncias p&#xFA;blicas, as novas articula&#xE7;&#xF5;es e uma nova rede social que se articula&#x2026; &#xE9; quando SE INCLUI no PNDH-3 a proposta de cria&#xE7;&#xE3;o de uma Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade, que n&#xF3;s j&#xE1; defend&#xED;amos em nossos discursos nas Caravanas da Anistia. E muitas pessoas sequer conheciam o termo, n&#xE3;o sabiam o que era.
				</p>
			</list-item>
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				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Voc&#xEA;s trouxeram essa concep&#xE7;&#xE3;o do sistema ONU?
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				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: E tamb&#xE9;m da ideia de justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o, que organizou a reorganiza&#xE7;&#xE3;o conceitual da Comiss&#xE3;o de Anistia. Enquanto na Secretaria de Direitos Humanos esse projeto se chamava Mem&#xF3;ria e Verdade, no Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a se chamava Justi&#xE7;a de Transi&#xE7;&#xE3;o.
				</p>
			</list-item>
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				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Me parece que foram voc&#xEA;s quem emplacaram a justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o como vocabul&#xE1;rio dos movimentos [sociais].
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			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Eu acho que o primeiro artigo p&#xFA;blico trazendo esse conceito foi um que publiquei com o Tarso n&#x27;O Globo, em abril de 2008. Acho que foi a primeira vez que essa express&#xE3;o surge na opini&#xE3;o p&#xFA;blica. Escritos acad&#xEA;micos j&#xE1; existiam no Brasil, algumas pessoas j&#xE1; estavam acompanhando isso. Falo na esfera de opini&#xE3;o p&#xFA;blica. Toda a pol&#xEA;mica em torno do PNDH-3 faz com que surjam movimentos para conquistar a aprova&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade. Eu quero chegar &#xE0; terceira fase desses novos movimentos sociais, que para mim s&#xE3;o resultado dessas novas mobiliza&#xE7;&#xF5;es da Comiss&#xF5;es de Anistia, especialmente o envolvimento da UNE, porque a gente come&#xE7;ou a alcan&#xE7;ar muitos n&#xFA;cleos jovens que participavam do congresso da UNE. Cada congresso da UNE tinha uma Caravana da Anistia. E a mobiliza&#xE7;&#xE3;o ao redor da luta pela implanta&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade. Eu fiz parte desse processo no Comit&#xEA; de Reda&#xE7;&#xE3;o junto com o Paulo S&#xE9;rgio Pinheiro, [Paulo] Vannuchi e outros. Naquele momento se pensou uma estrat&#xE9;gia de que ERA importante se criar Comit&#xEA;s Sociais, porque houve um instante de d&#xFA;vida [sobre] se a Comiss&#xE3;o ia existir ou n&#xE3;o. O governo fez o PNDH-3 [Plano Nacional de Direitos Humanos 3] e veio toda aquela pol&#xEA;mica. Outras quest&#xF5;es que estavam no programa contaminam o tema da justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o, como a democratiza&#xE7;&#xE3;o dos meios de comunica&#xE7;&#xE3;o e a legaliza&#xE7;&#xE3;o do aborto. E surge uma oposi&#xE7;&#xE3;o muito forte para [garantir] a implementa&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade. Na verdade, uma oposi&#xE7;&#xE3;o muito forte na implementa&#xE7;&#xE3;o da discuss&#xE3;o sobre a puni&#xE7;&#xE3;o dos torturadores. De alguma maneira, a proposta da Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade surge como uma alternativa &#xE0; AMEA&#xC7;A da a&#xE7;&#xE3;o no Supremo, que pedia a permiss&#xE3;o para puni&#xE7;&#xE3;o. Esse fato faz com que inclusive os militares passem a compor o comit&#xEA; de reda&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade. Ali houve toda uma discuss&#xE3;o [sobre] se a comiss&#xE3;o se chamaria Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade e da Justi&#xE7;a, mas TODA refer&#xEA;ncia &#xE0; justi&#xE7;a foi exclu&#xED;da do projeto de lei. E ficou-se apenas na busca da verdade hist&#xF3;rica e TODAS as remiss&#xF5;es que se fazia &#xE0; Lei de Anistia ficaram de alguma maneira condicionadas ao acordo que foi feito para REFOR&#xC7;AR a Lei de Anistia como regra de impunidade. A Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade, apesar de ser mais uma conquista dessa nova etapa de pensamento social e dessa nova agenda, ela foi integralmente vendida para os militares como uma alternativa &#xE0; justi&#xE7;a. J&#xE1; que n&#xE3;o vai ter a puni&#xE7;&#xE3;o dos torturadores pelo menos, vamos ter a Comiss&#xE3;o da Verdade.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Essa manobra, digamos assim, vem de onde?
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			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Dos bastidores de alto escal&#xE3;o. Eu n&#xE3;o participei disso. Veio do alto. Uma maneira de aproveitar brechas para aprovar coisas. O governo Lula envia o projeto da CNV para o Congresso no fechar das portas. E veio o governo Dilma que ent&#xE3;o tinha o desafio de conseguir aprovar isso no Congresso. Acho que tem um problema nesse 
					<italic>gap</italic> entre um governo que concebeu o projeto de Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade e depois o governo que vai IMPLEMENTAR. Esse 
					<italic>gap</italic> teve consequ&#xEA;ncias. Esse tempo entre o envio da proposta para o Congresso (do qual n&#xE3;o me lembro a data exata, talvez seis meses antes do governo Lula) at&#xE9; a aprova&#xE7;&#xE3;o do projeto da CNV no Congresso foi um intervalo que durou quase um ano. Nesse tempo, as pessoas sentem que o projeto est&#xE1; amea&#xE7;ado, que o Congresso quer descaracteriz&#xE1;-lo &#x2013; e realmente come&#xE7;am a surgir propostas de emendas ao texto, algumas das quais s&#xE3;o aprovadas. Os militares tamb&#xE9;m atuam para fazer algumas modifica&#xE7;&#xF5;es. E nesse momento, toda a rede que foi mobilizada no ciclo anterior pensa estrategicamente essa ideia da cria&#xE7;&#xE3;o dos Comit&#xEA;s Sociais. E um GRANDE ativista da cria&#xE7;&#xE3;o desses comit&#xEA;s foi o Gilney [Viana], porque ele falou: &#x201C;bicho, eu estou de sa&#xED;da do governo e vou come&#xE7;ar a viajar pelo Pa&#xED;s para ajudar a organizar e mobilizar esses comit&#xEA;s.&#x201D; E eu, paralelamente, fui entrando em contato com as organiza&#xE7;&#xF5;es que nos acompanhavam falando da ideia e tamb&#xE9;m comecei a visitar algumas autoridades estaduais para que se pudessem criar comiss&#xF5;es estaduais da verdade. Ach&#xE1;vamos que essa seria uma maneira de constranger o Congresso Nacional a aprovar a Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade. Eu fui ao Rio Grande do Sul e o Tarso [Genro] j&#xE1; era governador. Conversei com ele para que apresentasse uma proposta de uma Comiss&#xE3;o Estadual da Verdade. Fui a Pernambuco falar com o Eduardo Campos a mesma coisa. Em S&#xE3;o Paulo, o pessoal j&#xE1; tinha conseguido. O Adriano Diogo, na C&#xE2;mara [Assembleia Legislativa de S&#xE3;o Paulo] por sua pr&#xF3;pria iniciativa j&#xE1; articulara isso. Dissemos ao Gilney que eram duas frentes: criar o m&#xE1;ximo poss&#xED;vel de comiss&#xF5;es institucionais da verdade e de comit&#xEA;s porque isso vai nos ajudar. Nosso pensamento era de que na PIOR das hip&#xF3;teses, se a CNV n&#xE3;o fosse aprovada, n&#xF3;s vamos ter uma multiplicidade de comiss&#xF5;es municipais e estaduais que v&#xE3;o dar continuidade a essa agenda.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: A ideia de procurar os governos dos estados veio de voc&#xEA; e do Gilney ou veio dessa rede mais ampla?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Partiu da Comiss&#xE3;o de Anistia. Eu e os conselheiros de cada estado da Comiss&#xE3;o fizemos uma estrat&#xE9;gia e [eles] nos ajudaram a falar com as autoridades no Cear&#xE1;, em Minas&#x2026; Isso era uma maneira de gerar tamb&#xE9;m uma esp&#xE9;cie de competi&#xE7;&#xE3;o positiva porque, naquele momento, todas as for&#xE7;as progressistas tinham essa agenda como uma agenda positiva e de alguma maneira todos queriam participar dessa virada e desse novo momento. O Eduardo Campos queria ser o primeiro governador a criar a Comiss&#xE3;o da Verdade num estado brasileiro e isso nos ajudava porque incentivava essa competi&#xE7;&#xE3;o saud&#xE1;vel pela maior mobiliza&#xE7;&#xE3;o das autoridades estaduais. Tinha gente que achava que isso desviaria a aten&#xE7;&#xE3;o ou as energias para a mobiliza&#xE7;&#xE3;o ao redor da Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade. Eu pensava que, na melhor das hip&#xF3;teses, a Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade vai ser criada e ter&#xE1; ao redor dela um conjunto de organiza&#xE7;&#xF5;es para dar suporte e apoio para ela avan&#xE7;ar. E as comiss&#xF5;es estaduais ser&#xE3;o complement&#xE1;rias; uma n&#xE3;o exclui a outra. Sempre trabalhamos com uma l&#xF3;gica de quanto mais organiza&#xE7;&#xE3;o e representa&#xE7;&#xE3;o, melhor para a causa. Enfim, foi isso. Veja como foi importante porque, quando a CNV se instala (com a ressalva de que a composi&#xE7;&#xE3;o do seu perfil &#xE9; uma conversa &#xE0; parte), todo mundo acompanhou pela imprensa nos oito primeiros meses de trabalho MUITA crise interna da Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade. Uma crise que tamb&#xE9;m foi conceitual, porque uns queriam uma comiss&#xE3;o militante que pudesse seguir os caminhos da Comiss&#xE3;o de Anistia, de Mortos e os comit&#xEA;s sociais e outros que queriam uma comiss&#xE3;o com perfil mais acad&#xEA;mico e institucional. Para esses &#xFA;ltimos, o mais interessante era o processo e n&#xE3;o necessariamente o fim e ainda havia outros que viam na exist&#xEA;ncia da CNV uma finalidade, que era fazer um livro contando uma hist&#xF3;ria e criando esse informe. O fim &#xE9; mais importante que o processo. Esse embate dentro da CNV acabou por vazar e nesse sentido eu sou apenas observador. E acaba respingando na pr&#xF3;pria discuss&#xE3;o de se a CNV assumiria a agenda do chamado &#xE0; luta contra a impunidade, que a Comiss&#xE3;o de Anistia j&#xE1; tinha incorporado. Era uma maneira de n&#xF3;s dizermos: &#x201C;voc&#xEA;s da CNV v&#xE3;o ficar atrasados nisso?&#x201D;. Porque n&#xF3;s e as comiss&#xF5;es estaduais j&#xE1; t&#xED;nhamos avan&#xE7;ado nesse sentido e inclu&#xED;mos esse aspecto no nosso discurso p&#xFA;blico. N&#xE3;o fazia sentido a CNV recuar nesse aspecto, mas havia um embate interno porque uns queriam e outros n&#xE3;o, o que causou uma paralisa&#xE7;&#xE3;o interna na Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade durante cerca de oito meses. Mas foi fundamental a constitui&#xE7;&#xE3;o dos Comit&#xEA;s Sociais antes, porque esses comit&#xEA;s serviram como um elemento de press&#xE3;o na disputa interna da CNV, que foi a primeira batalha da CNV, que foi essa disputa por DENTRO. Que perfil ela ia ter? Que alinhamento conceitual ela ia incorporar? E essa press&#xE3;o foi forte. A CNV come&#xE7;ou com trabalhos fechados e os comit&#xEA;s criticaram muito esse procedimento. Eles estavam acostumados com a atua&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o de Anistia, em que todos os atos eram p&#xFA;blicos e por que agora a CNV, que era resultado desse ac&#xFA;mulo, iria retroceder nisso?! Eles cumpriram um papel muito importante, com duas contribui&#xE7;&#xF5;es essenciais: primeira, como novos coletivos sociais, ajudaram a disputar conceitualmente, desde dentro, o perfil que a Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade viria assumir. Al&#xE9;m disso, tamb&#xE9;m nutriram a Comiss&#xE3;o de informa&#xE7;&#xF5;es. Como eles [na CNV] tinham s&#xF3; dois anos de funcionamento e o primeiro ano se perdeu numa disputa interna, sobrou apenas doze meses para realizar esse informe importante. Se n&#xE3;o fosse o trabalho de sistematiza&#xE7;&#xE3;o que os comit&#xEA;s sociais e as comiss&#xF5;es estaduais e municipais da verdade estavam fazendo, na minha vis&#xE3;o, o trabalho da CNV teria sido de menor qualidade. Eu acho que boa parte do trabalho desses atores fundamentou e deu base para os resultados que a Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade alcan&#xE7;ou. A isso se somou, claro, a mobiliza&#xE7;&#xE3;o importante dos grupos de pesquisadores pr&#xF3;prios que a CNV manteve e que foram muito bons.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Uma coisa que eu observei nas comiss
					<italic>&#xF5;es estaduais &#xE9; que muitas</italic> tiveram uma caracter&#xED;stica geral bastante diferente da CNV: elas incorporaram, nos seus quadros, familiares e figuras que de alguma maneira foram afetadas diretamente pela ditadura. Essa foi uma dire&#xE7;&#xE3;o distinta daquela seguida pela CNV, cuja lei de cria&#xE7;&#xE3;o impedia a inclus&#xE3;o tanto de militares quanto de pessoas que tenham sido afetadas direta ou indiretamente pela viol&#xEA;ncia da ditadura. Tenho a impress&#xE3;o de que a grande for&#xE7;a desse processo de multiplica&#xE7;&#xE3;o das comiss&#xF5;es da verdade foi justamente esse enraizamento com familiares. Qual 
					<italic>&#xE9;</italic> a sua opini&#xE3;o sobre isso? Como voc&#xEA; enxerga a milit&#xE2;ncia dos familiares e das pessoas afetadas pela viol&#xEA;ncia cometida pelo Estado quando [ela] sai da esfera civil e atravessa as barreiras do Estado?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: O Brasil tem uma peculiaridade: de alguma maneira, os movimentos sociais sempre se articularam muito com as a&#xE7;&#xF5;es estatais. Essa divis&#xE3;o entre a sociedade civil e o Estado no Brasil sempre foi muito prec&#xE1;ria, especialmente no governo Lula. Para o bem e para o mal, houve uma coopta&#xE7;&#xE3;o dos movimentos sociais, que quase se confundiam com as pr&#xF3;prias agendas governamentais. Eu acho importante fazer uma refer&#xEA;ncia a isso, porque havia uma identidade pol&#xED;tica de boa parte dos movimentos de luta por mem&#xF3;ria, verdade e justi&#xE7;a com as autoridades governamentais devido ao fato de que era um governo de esquerda e a ditadura foi de direita e perseguiu gente de esquerda &#x2013; o pr&#xF3;prio Presidente da Rep&#xFA;blica foi v&#xED;tima da ditadura. Realmente a disputa do perfil das comiss&#xF5;es se d&#xE1; desde a sua origem. No trabalho pr&#xE9;vio que fizemos de difus&#xE3;o sobre o que eram as comiss&#xF5;es da verdade, n&#xF3;s fizemos um conjunto de oficinas com aspectos internacionais [do direito &#xE0; mem&#xF3;ria e &#xE0; verdade] e tamb&#xE9;m um curso no CJT [Congresso Justi&#xE7;a de Transi&#xE7;&#xE3;o] por meio de um projeto de coopera&#xE7;&#xE3;o internacional com a ONU. N&#xF3;s fomos capacitando atores da sociedade civil sobre os temas da justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o e SOBRE como criar comiss&#xF5;es da verdade. Nos nossos documentos formais da Comiss&#xE3;o de Anistia, h&#xE1; seis tomos de um trabalho chamado 
					<italic>Estudo sobre comiss&#xF5;es da verdade</italic>. Nesse estudo, a nossa posi&#xE7;&#xE3;o era de que as comiss&#xF5;es da verdade TINHAM que ser constitu&#xED;das com a participa&#xE7;&#xE3;o de representa&#xE7;&#xE3;o social para gerar legitimidade social. Do ponto de vista conceitual, nossa vis&#xE3;o era ESSA. A CNV fazia outros c&#xE1;lculos ou os atores pol&#xED;ticos de alto escal&#xE3;o que estavam envolvidos na institui&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o Nacional tinham OUTROS c&#xE1;lculos. N&#xF3;s t&#xED;nhamos a convic&#xE7;&#xE3;o de que uma comiss&#xE3;o da verdade para ter resultado tinha que atender a crit&#xE9;rios de representatividade. E isso n&#xE3;o afetava nem a neutralidade nem a imparcialidade; ao contr&#xE1;rio, isso fortalecia as comiss&#xF5;es. Mas &#xE9; uma posi&#xE7;&#xE3;o, porque existem modelos que partem de outros princ&#xED;pios.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Quando voc&#xEA; fala em representatividade, voc&#xEA; pensa em quais grupos? Voc&#xEA; est&#xE1; pensando nos atingidos [pela viol&#xEA;ncia da ditadura]? Nos militares tamb&#xE9;m?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: N&#xE3;o. Eu PENSO nas v&#xED;timas. Estou pensando exclusivamente nelas, porque &#xE9; com quem o Estado tem o dever de reconquistar a confian&#xE7;a; os agentes estatais n&#xE3;o foram afetados por nenhuma viola&#xE7;&#xE3;o. A representatividade n&#xE3;o &#xE9; necessariamente ter um familiar de desaparecido ou uma v&#xED;tima entre os membros, [a representatividade] &#xE9; ter dentro da composi&#xE7;&#xE3;o de uma comiss&#xE3;o pessoas &#xE0;s quais eles [os familiares] se referenciam e nas quais eles tenham confian&#xE7;a. &#xC0;s vezes, a representatividade se d&#xE1; por um l&#xED;der religioso e simb&#xF3;lico, como foi Desmond Tutu na &#xC1;frica do Sul. Ele tinha uma autoridade de representatividade reconhecida socialmente, ent&#xE3;o, para mim, ela [a representa&#xE7;&#xE3;o] n&#xE3;o &#xE9; necessariamente uma representa&#xE7;&#xE3;o DIRETA das v&#xED;timas. Que eles pudessem participar, por exemplo, NA INDICA&#xC7;&#xC3;O de um ou outro, quem sabe com uma lista origin&#xE1;ria com nomes que pudessem ser discutidos pelo pr&#xF3;prio governo, buscando incluir gente com sensibilidade social. Representatividade se constr&#xF3;i de distintas maneiras.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Paulo, essa ideia de incorpora&#xE7;&#xE3;o de familiares &#xE9; uma varia&#xE7;&#xE3;o do que seriam os casos exemplares de comiss&#xF5;es da verdade no mundo. Na sua opini&#xE3;o, essa seria uma adapta&#xE7;&#xE3;o necess&#xE1;ria para o caso brasileiro?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Eu penso que eles t&#xEA;m que ter alguma participa&#xE7;&#xE3;o no processo de sele&#xE7;&#xE3;o. Para mim, esse processo [de participa&#xE7;&#xE3;o] constitui parte da legitimidade da comiss&#xE3;o da verdade. N&#xE3;o necessariamente terem assentos [na comiss&#xE3;o], apesar de eu n&#xE3;o ver problemas [nisso] se previamente constru&#xED;rem protocolos de atua&#xE7;&#xE3;o pertinentes a cada um dos membros. Mas &#xE9; interessante observar que as comiss&#xF5;es de repara&#xE7;&#xE3;o no Brasil sempre tiveram um representante das v&#xED;timas e outro dos militares. O Brasil j&#xE1; trabalhava com uma l&#xF3;gica de representa&#xE7;&#xE3;o social parit&#xE1;ria desde h&#xE1; algum tempo e para mim isso se deve ao legado da nossa democratiza&#xE7;&#xE3;o. Tamb&#xE9;m h&#xE1; que se respeitar as culturas e as particularidades de cada cultura e sociedade e de seus respectivos mecanismos de justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Paulo, como voc&#xEA; avalia a rela&#xE7;&#xE3;o que a CNV estabeleceu com a Comiss&#xE3;o de Anistia?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Foi uma rela&#xE7;&#xE3;o institucional. No in&#xED;cio, houve uma sinaliza&#xE7;&#xE3;o no sentido de que n&#xF3;s trabalh&#xE1;ssemos juntos, mas logo depois houve um afastamento institucional, n&#xE3;o um afastamento pol&#xED;tico ou pessoal. A CNV viveu essa fase de crise inicial onde ELES MESMOS n&#xE3;o tinham claro qual arco de alian&#xE7;as queriam constituir. Como a Comiss&#xE3;o de Anistia MARCADAMENTE defendia clara e publicamente a responsabiliza&#xE7;&#xE3;o dos atores executores de crimes contra a humanidade, e esse era um ponto que a CNV demorou muito tempo para gerar um consenso, eu interpretei, naquele momento, que um dos elementos que os impediu de manter uma aproxima&#xE7;&#xE3;o com a Comiss&#xE3;o de Anistia e com a Comiss&#xE3;o de Mortos foi esse. Eles n&#xE3;o tinham resolvido essa quest&#xE3;o internamente, ao passo que n&#xF3;s t&#xED;nhamos uma posi&#xE7;&#xE3;o definida pelo ac&#xFA;mulo de nossa atua&#xE7;&#xE3;o. Apenas quando a CNV tinha mais de um ano de in&#xED;cio das atividades e conseguiu aquela prorroga&#xE7;&#xE3;o [de mandato], n&#xF3;s come&#xE7;amos a ser buscados por ela. Eles nos pediram que disponibiliz&#xE1;ssemos nossos arquivos e apresent&#xE1;ssemos um pouco do nosso ac&#xFA;mulo hist&#xF3;rico. Mas isso foi muito tardio, na verdade. Se a CNV tivesse desde o in&#xED;cio incorporado a l&#xF3;gica de que n&#xE3;o estava come&#xE7;ando do zero e tivesse tomado como ponto de partida aquilo que j&#xE1; estava impulsionado pelas duas comiss&#xF5;es de repara&#xE7;&#xE3;o, ela teria resolvido parte dos dramas existenciais que viveu e poderia at&#xE9; ter aprofundado suas discuss&#xF5;es. Para mim, a CNV ter de fazer um informe para sistematizar um conjunto de conhecimentos de fatos que J&#xC1; ESTAVAM reconhecidos na Comiss&#xE3;o de Mortos e nos distintos relat&#xF3;rios da Comiss&#xE3;o de Anistia ia ser mais do mesmo. Tinha que ter pedido a essas comiss&#xF5;es, relat&#xF3;rios e informes do que elas conseguiram recolher, e o trabalho da CNV poderia come&#xE7;ar desses pontos em diante, aproveitando para explorar frentes que n&#xE3;o foram investigadas com grande f&#xF4;lego at&#xE9; ent&#xE3;o. Essa seria uma oportunidade &#xFA;nica.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Que frentes seriam essas, por exemplo?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Temas ind&#xED;genas, camponeses, abertura dos arquivos do Itamaraty&#x2026;
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Paulo, a despeito dos v&#xED;nculos fr&#xE1;geis entre a Comiss&#xE3;o de Anistia e a Comiss&#xE3;o [Nacional] da Verdade, voc&#xEA;s teriam [na Comiss&#xE3;o de Anistia] recebido algum fluxo de novos requerimentos instru&#xED;dos pela CNV e pelas comiss&#xF5;es estaduais? Isso chegou a ser significativo?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Eu poderia dizer que sim, mas n&#xE3;o de maneira muito expressiva. Significativo sim, porque a cada vez que uma pessoa se estimula a vir e apresentar seu testemunho eu acho significativo, mas n&#xE3;o foi expressivo. N&#xE3;o houve sequer um cres-cimento quantitativo diferente da m&#xE9;dia dos anos anteriores. Para ser bem sincero, eu acho que o efeito que o funcionamento da CNV teve na Comiss&#xE3;o de Anistia foi o de dificuldades no sentido administrativo. As prioridades governamentais em termos or&#xE7;ament&#xE1;rios foram deslocadas para a Comiss&#xE3;o Nacional da Verdade. Isso significou dificuldades para a Comiss&#xE3;o de Anistia seguir adiante com suas atividades e projetos or&#xE7;ament&#xE1;rios. Teve um efeito colateral que n&#xE3;o foi calculado desde o in&#xED;cio, mas aconteceu.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: E a rela&#xE7;&#xE3;o da Comiss&#xE3;o de Anistia com as comiss&#xF5;es estaduais?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Com as comiss&#xF5;es estaduais e municipais houve entrosamento integral.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: E o que foi exatamente esse entrosamento integral?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Nossas equipes se ajudavam mutuamente, bem como compartilh&#xE1;vamos informa&#xE7;&#xF5;es de arquivos e faz&#xED;amos convite para atos p&#xFA;blicos uns dos outros. Foi uma rela&#xE7;&#xE3;o mais pr&#xF3;xima. N&#xE3;o com todas, mas com algumas. A do Rio Grande do Sul, a do Rio de Janeiro, inclusive a da OAB do Rio de Janeiro, a de Pernambuco, a da Bahia e a Municipal de S&#xE3;o Paulo. Com essas comiss&#xF5;es, a Comiss&#xE3;o de Anistia teve um grande entrosamento; desde o in&#xED;cio eles quiseram construir os relat&#xF3;rios deles a partir do que a Comiss&#xE3;o de Anistia j&#xE1; tinha. N&#xF3;s sistematizamos tudo para eles, fomos at&#xE9; l&#xE1; e explicamos o que t&#xED;nhamos. Eles tamb&#xE9;m se preocupavam em enviar coisas para a gente para que n&#xF3;s tiv&#xE9;ssemos tamb&#xE9;m no nosso acervo. E cada vez que eles passaram dificuldade de alguma maneira, n&#xF3;s &#xED;amos at&#xE9; l&#xE1; para ajudar a refor&#xE7;ar politicamente a visibilidade do trabalho deles, porque a Comiss&#xE3;o [de Anistia] tinha uma capacidade de repercuss&#xE3;o nacional que as comiss&#xF5;es locais n&#xE3;o tinham. A nossa presen&#xE7;a ajudava a fortalecer a a&#xE7;&#xE3;o institucional deles.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Ent&#xE3;o voc&#xEA;s tiveram uma aproxima&#xE7;&#xE3;o maior com as comiss&#xF5;es estaduais do que com a pr&#xF3;pria CNV?
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A1;</label>
				<p>
					<bold>Abr&#xE3;o</bold>: Na minha vis&#xE3;o, sim.
				</p>
			</list-item>
			<list-item>
				<label>&#x25A0;</label>
				<p>
					<bold>CB</bold>: Paulo, te agrade&#xE7;o imensamente. Foi uma entrevista valiosa.
				</p>
			</list-item>
		</list>
		<p>(Entrevista realizada por 
			<italic>Skype</italic>, em 14 de mar&#xE7;o de 2019.)
		</p>
	</body>
	<back>
		<fn-group>
			<fn fn-type="other" id="fn1">
				<label>1</label>
				<p>Na transcri&#xE7;&#xE3;o a seguir, os elementos entre colchetes s&#xE3;o inser&#xE7;&#xF5;es da revis&#xE3;o final no texto corrido e o que est&#xE1; em caixa alta, representa a &#xEA;nfase do entrevistado.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn2">
				<label>2</label>
				<p>Nota da entrevistadora: Paulo Abr&#xE3;o possivelmente se refere &#xE0; &#x201C;Comiss&#xE3;o de Representa&#xE7;&#xE3;o Externa de Busca dos Desaparecidos Pol&#xED;ticos&#x201D;, criada na C&#xE2;mara Federal por iniciativa de Nilm&#xE1;rio Miranda, em 29 de agosto de 1991.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>3</label>
				<p>Ver, por exemplo, ABR&#xC3;O, Paulo; TORELLY, Marcelo. &#x201C;Muta&#xE7;&#xF5;es do conceito de anistia na Justi&#xE7;a de Transi&#xE7;&#xE3;o brasileira: a terceira fase da luta pela anistia&#x201D;. 
					<italic>In</italic>: 
					<italic>Justi&#xE7;a de transi&#xE7;&#xE3;o: an&#xE1;lises comparadas Brasil-Alemanha</italic>. PRITIWITZ, Cornelius (organiza&#xE7;&#xE3;o). Bras&#xED;lia: Minist&#xE9;rio da Justi&#xE7;a, Comiss&#xE3;o de Anistia, 2015.
				</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>4</label>
				<p>Paulo Abr&#xE3;o era professor do Direito da PUC do Rio Grande do Sul.</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
</article>