Seção Livre
Recepção: 06 Março 2019
Aprovação: 05 Junho 2019
Publicado: 25 Outubro 2019
DOI: 10.15448/1980-864X.2019.3.33287
Resumo: Em 1953, em plena Guerra Fria, a revista norte-americana Life, do grupo Time-Life, lançou uma versão em língua espanhola com os objetivos de aproximar-se mais do público latino-americano, difundir o american way, combater o antiamericanismo e promover o anticomunismo no subcontinente. O período foi marcado por uma série de tratados e de organizações que visavam regular as relações interamericanas, sob a hegemonia dos Estados Unidos. Caracteriza-se também pela implementação de organismos e programas estatais destinados à promoção de uma política cultural voltada para conquista da hegemonia mundial, estratégia denominada de “guerra psicológica”. A revista Life en Español, dirigida por Henry Luce, integrou a ampla rede de colaboradores que ajudaram a efetivar esse projeto político-cultural dos Estados Unidos. Nesse sentido, a partir da perspectiva teórica de Soft Power, de Joseph Nye, o artigo discute a relação da publicação em língua espanhola com os objetivos estratégicos norte-americanos no campo cultural.
Palavras-chave: América Latina, Imprensa, Guerra Fria, Anticomunismo, Life en Español.
Abstract: In 1953, in the middle of the Cold War, Time-Life's US-based Life magazine launched a Spanish-language version aimed at getting closer to the Latin American public, spreading the American way, Americanism and promote anti-communism in the subcontinent. The period was notable by a series of organizations and treaties with the propose of regulating inter-American relations, under the hegemony of the United States. It is also characterized by the implementation of state agencies and programs designed to promote a cultural policy intended to achieve global hegemony, a strategy called “psychological warfare”. Life en Español magazine, directed by Henry Luce, integrated the wide network of collaborators who helped to realize this political-cultural project of the United States. In this sense, from the theoretical perspective of Soft Power by Joseph Nye, the article discusses the relation of the publication in the Spanish language with the North American strategic objectives in the cultural field.
Keywords: Latin America, Press, Cold War, Anti-communism, Life en Español.
Resumen: En 1953, en plena Guerra Fría, la revista norteamericana Life, del grupo Time-Life, lanzó una versión en español, con el objetivo de acercarse más al público latinoamericano, difundir el american way, combatir el antiamericanismo y promover el anti-comunismo en el subcontinente. El período estuvo marcado por una serie de tratados y organizaciones que pretendían regular las relaciones interamericanas, bajo la hegemonía de Estados Unidos. Se caracteriza también por la implementación de organismos y programas estatales destinados a promover una política cultural orientada a la conquista de la hegemonía mundial, estrategia denominada “guerra psicológica”. La revista Life en Español, dirigida por Henry Luce, integró la amplia red de colaboradores que ayudaron a efectivizar ese proyecto político-cultural de los Estados Unidos. En este sentido, a partir de la perspectiva teórica de Soft Power de Joseph Nye, el artículo discute la relación de la publicación en lengua española con los objetivos estratégicos norteamericanos en el campo cultural.
Palabras clave: América Latina, Prensa, Guerra Fría, Anti-comunismo, Life en Español.
Introdução
A revista Life era a versão “mais leve” da Time, integrante do Império de Comunicação Time Inc, fundado por Henry Robinson Luce. De forma geral, divulgava uma síntese dos eventos ocorridos na semana, nacional e internacionalmente, tendo como alvo a classe média americana. A Life nasceu em 1936 como uma revista de fotojornalismo voltada, sobretudo, para a difusão do American way of life. Tinha como objetivo declarado educar as massas, veiculando matérias científicas, artísticas e imagens de outros países. O seu grande diferencial era o predomínio da imagem na narrativa dos acontecimentos ( SILVA, 2012). O sucesso da revista foi grande, tornando-se um fenômeno de vendas, atingindo em poucos meses a marca de um milhão de exemplares.
De acordo com Alan Brinkley (2011), a partir de 1939, a Life tornou-se uma das mais importantes fontes de informação da II Guerra Mundial, especialmente por divulgar fotografias do conflito. Segundo o autor, no momento em que ficou sabendo do bombardeio em Pearl Harbor, Henry Luce abriu um departamento em suas revistas para cobrir os Estados Unidos (EUA) na Guerra. Luce era um incentivador da participação dos EUA na Guerra e passou a usar suas revistas e sua influência para moldar a política pública e a opinião nacional. Para tanto, em 1940, envolveu-se pela primeira vez diretamente na campanha presidencial, ao lado do Partido Republicano (BRINKLEY, 2011). Esse ideário e a ampla difusão de suas revistas durante a guerra, inclusive com circulação externa para atender à demanda dos soldados ( SILVA, 2012, p. 68), corroboraram para a criação da Life Internacional no imediato pós-guerra.
A primeira edição internacional foi lançada em 1945 em língua inglesa e circulava bissemanalmente, tendo uma tiragem de 250.000 exemplares, considerada baixa. No entanto, ela foi favorecida pelo Smith-Mundt Act, “que incentivava a divulgação e promoção dos Estados Unidos no exterior através da mídia americana em circulação em outros países” ( SILVA, 2012, p. 68). Henry Luce justificava a criação da Life Internacional nestes termos:
Time Life internacional foi lançada em 1945 porque os Estados Unidos eram literalmente o único poder do mundo capaz de restabelecer algumas continuidades da civilização … é essa destacada singularidade do poder e influência [dos estados unidos] que é … a premissa factual - a premissa existencial do que Time Inc. deveria realizar no mundo” ( SILVA, 2012, p. 68 apud GRAINGE, 2001, p. 4).
Em 1953, em plena Guerra Fria, a revista passou a editar uma edição latino-americana, a Life en Español. Voltada para a América Latina, a revista trazia, além dos conteúdos da versão em inglês, outros específicos da região. Circulava quinzenalmente e era distribuída em alguns estados dos Estados Unidos (Nova York, Flórida e Califórnia), na Espanha, além dos países latino-americanos. Constam na primeira edição: Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Peru, Porto Rico, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. Não foi possível conhecer a tiragem dessas edições. Quanto aos valores de venda, tomamos por referência a assinatura da revista na Bolívia, pois parece estar em dólares, por trazer somente o cifrão e não a descrição literal da moeda, como com relação aos demais países. Nesse caso, a assinatura anual na Bolívia custava $4,50 e $10,50 era o valor da assinatura trianual. Os valores dos demais países estão descritos em diferentes moedas.
Para Silva (2012), o grupo Time e Co. atuava no sentido de tentar influenciar os rumos da política externa americana, cobrando e realizando ações que reforçassem a hegemonia norte-americana. A mesma autora afirma que as edições internacionais de Time e Life “ajudaram a transmitir ao mundo uma certa imagem da América: a América do consenso, da classe média, do capitalismo, do consumo, da democracia e da liberdade” (2010, p. 70). Henry Robinson Luce teve um peso significativo nessa estratégia, interferindo nas publicações e na forma de abordar os acontecimentos. A crença no papel missionário e redentor dos Estados Unidos no mundo e o anticomunismo exacerbado são as suas marcas principais e plenamente identificáveis nas suas publicações ( BRINKLEY, 2010).
O lançamento da revista, na sua versão em língua espanhola, adéqua-se aos projetos e às ações expansionistas norte-americanas nos anos 1950 e 1960 para além do campo estritamente militar. Tornou-se evidente para o establishment estadunidense a necessidade de integrar a política e a cultura no seu projeto imperialista de conquista da hegemonia mundial. Em linhas gerais, essa estratégia foi denominada de “guerra psicológica” 1 pelo próprio departamento de estado. “Estações de rádio, organizações culturais, mídia impressa de todo tipo foram mobilizadas para veicular o contraste” e a superioridade da sociedade norte-americana frente à soviética” ( ANDERSON, 2015, p. 64-65).
Nesse contexto, é criada a United States Information Agency (USIA), em 1953, destinada a fortalecer as ações diplomáticas dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria. A agência, que funcionava no interior das embaixadas, não era um órgão isolado, mas estava ligada a uma rede de outras instituições que vinham sendo criadas no período após Segunda Guerra Mundial, a fim de consolidar a hegemonia norte-americana no mundo. Ela contava com uma rede de colaboradores, entre os quais alguns setores da imprensa internacional. A produção da USIA tinha suas ações nos diferentes campos da cultura, como: rádio, cinema, produção científica, literária, filosófica, entre outros. Para Saunders (2008, p. 14):
[…]. Não questionado nem detectado por mais de vinte anos, o establishment da espionagem norte-americana pôs em funcionamento uma frente cultural sofisticada e substancialmente financiada no Ocidente, para o Ocidente, em nome da liberdade de expressão. Definindo a Guerra Fria como uma ‘batalha pela mente dos homens’, ele acumulou um vasto arsenal de armas culturais: revistas, livros, conferências, seminários, exposições artísticas, concertos e premiações.
Essas ações eram elaboradas pela Agência Central de Informações dos Estados Unidos (CIA), que atuou fortemente na “fabricação industrial do consenso baseado na propaganda encoberta, na guerra psicológica e na organização de frentes culturais” (KOHAN, 2002, p. 2). Uma dessas frentes foi o Congresso pela Liberdade da Cultura, que formou uma extensa rede de colaboradores nacionais e internacionais e agiu de forma secreta em mais de 35 países, organizando congressos, exposições de arte, publicando revistas de prestígio e divulgando notícias. Suas ações eram voltadas, principalmente, para a elite intelectual, com a finalidade de afastá-la do marxismo e de aproximá-la da visão de mundo estadunidense.
O grupo Time-Life e a Life en Español agiram em cooperação com esse programa e foi um dos instrumentos utilizados pelo governo norte-americano durante a Guerra Fria para promoção e fabricação de consenso no espaço latino-americano nos anos de 1950. A ação da revista integrou a política cultural enquanto partícipe da estratégia governamental. Para Antônio Niño (2009, p. 33, tradução nossa),
A política cultural é, portanto, e em primeiro nível de análise, o conjunto de objetivos e estratégias elaboradas pelos Estados para direcionar as atividades desenvolvidas por setores sociais muito diversos e instrumentalizá-las para seu próprio benefício. 2
Para o autor, entretanto, essa estratégia não teria sucesso sem a pré-existência de uma vontade coletiva, de uma consciência que legitimasse tais ações, em geral o lugar ocupado pelo País nas relações internacionais. Ele chama atenção para importância das representações sociais e dos imaginários coletivos como promotores da projeção cultural dos estados no exterior ( NIÑO, 2009). Assim, a construção de uma identidade cultural oficial do estado a ser “exportada”, ou um modelo de civilização, nunca é construído exclusivamente pelo estado. No caso dos Estados Unidos, chama atenção o fato da não existência de uma cultura nacional oficial, uma vez que esta foi forjada com base em valores, estilos de vida e conquistas tecnológicas. A propaganda cultural coincidia, assim, com “sua propaganda informativa no esforço para melhorar o conhecimento da sociedade estadounidense, seus valores e seu ‘modo de vida americano” ( ÑINO, 2009, p. 42, tradução nossa). 3
Nesse processo seletivo da informação promovido pelo Estado, construía-se uma determinada representação da sociedade norte-americana, em um esforço de impor a imagem de si - imagem oficial - aos demais, ao mesmo tempo em que construía também a imagem do outro, (con)formando a identidade coletiva nacional. O Estado, assim, torna-se um mediador cultural.
No que se refere à América Latina, no âmbito deste artigo, essas ações não são entendidas apenas como imperialismo cultural, no sentido simplificado de domínio cultural de uma nação sobre outra(s), mas como parte de uma prática que pressupõe um domínio também económico, político e militar. Da mesma forma, o processo que podemos chamar de “invasão cultural norte americana” não pode ser entendido como uma atuação unilateral do Estado, mas também como efeito de toda uma conjuntura que predispôs à aceitação/adoção da cultura ou do modelo de civilização norte-americano explicitado na expressão American way of life. No caso do papel da imprensa na difusão desses valores, é bom lembrar que ela trabalha sempre com elementos já existentes na sociedade, caso contrário eles não fariam sentido para as pessoas que liam o periódico. Os meios de comunicação, dessa forma, “[…] expressam pressupostos que pertencem ao estoque cultural das sociedades nas quais eles operam” ( JOVCHELOVITCH, 2000, p. 103).
O reconhecimento dessas representações como legítimas dependem, também, da posição ocupada pela revista no campo jornalístico. Nesse sentido, a posição de destaque ocupada por Life e pelo grupo Time-Life potencializavam a sua capacidade de atuação na disputa “pelas mentes” latino-americanas, ou na luta das representações de que nos fala Bourdieu, que são:
[…] as lutas pelo monopólio de fazer ver e fazer crer, de dar a conhecer, de impor a definição legítima das divisões do mundo social através dos princípios de divisão que, quando se impõe ao conjunto do grupo, realizam o sentido e o consenso sobre o sentido e, em particular, sobre a realidade da unidade e da identidade do grupo ( BOURDIEU, 2007, p. 113).
Para Thompson (2005), essa forma de “poder simbólico” é atribuição específica dos meios de comunicação, caracterizados como “um tipo distinto de atividade social que envolve a transmissão e a recepção de formas simbólicas e implica utilização de recursos de vários tipos, “todos eles decorrentes de alguma forma técnica” ( THOMPSON, 2005, p. 24). Para o autor, “as ações simbólicas podem provocar reações, liderar respostas de determinado teor, sugerir caminhos e decisões, induzir a crer e a descrer, apoiar os negócios de estado ou sublevar as massas em revolta coletiva” (2005, p. 24).
Carta de Norteamerica
A atuação da revista Life en Español foi analisada, aqui, a partir dos textos dos editoriais de janeiro de 1953 a fevereiro de 1957, quando eles eram publicados na seção denominada Carta de Norteamerica. O recorte do período, portanto, se dá pela caracterização da fonte. A partir de março de 1957, os editoriais não se intitulam mais Carta de Norteamerica, constando somente o título Editorial, com estrutura e linguagem diferentes, modelo que permaneceu até o final da publicação, em 1969. A Carta inicia sempre com a saudação: “Estimado leitor”, dando uma conotação de intimidade com o público latino-americano, enquanto os editoriais são impessoais na apresentação.
O material foi pesquisado na Biblioteca Nacional do Chile, onde se encontra o acervo mais completo da revista. Ao todo, foram analisados 97 documentos, observando-se que não foram localizadas as seguintes edições: 1 edição de fevereiro/1954; 1 de fevereiro/195 5; 1 de janeiro/1956; 1 de julho/1956 e 1 de dezembro/1956. Além dessas, a revista de 7 de junho de 1954 foi uma edição especial e não tinha a Carta de Norteamerica. A publicação de 28 de janeiro de 1957 apresenta o título Editorial, portanto excluímos da análise. Quanto à estrutura, a maioria das Cartas apresenta uma divisão em três tópicos, sinalizados graficamente por pontos marcadores. Em geral, os marcadores dividem diferentes temas, porém, em alguns casos, mesmo com a divisão, o tema central permanece o mesmo ao longo de toda a página, que comumente se divide em três colunas em uma única página, no lado esquerdo da revista. Algumas delas apresentam imagens referentes aos temas tratados no texto, porém, na presente análise, optamos por não incluir tais imagens.
Essas Cartas foram apresentadas no primeiro número da edição em espanhol como texto produzido especificamente para a publicação latino-americana, sendo todas assinadas como “La Dirección”. A Carta de Norteamerica é apresentada como uma das duas diferenças entre as edições em inglês e espanhol. Uma delas seria a periodicidade - quinzenal em vez de semanal -, portanto apresentaria uma seleção das “melhores reportagens”. A outra, a inserção de matérias específicas de interesse para a América Latina e, “[…] finalmente, esta página, que corresponde à do editorial do LIFE em inglês, será escrita especialmente para nossos leitores de língua espanhola. Nele, tentaremos rever o que mais atrai a atenção do povo americano” 4. Portanto já está explícita na apresentação do primeiro número a intenção de apresentar a cultura norte-americana aos latino-americanos ( Figura 1).
Para o estudo, recorremos à técnica da análise de conteúdo6, que tem sido uma das mais utilizadas para o estudo dos meios de comunicação. A proposta não é o uso de tal metodologia de forma rigorosa, mas a apropriação do instrumental por ela fornecida à medida que nos proporciona uma melhor sistematização do material para análise. Ela é por nós entendida como uma “técnica para fazer inferências através da identificação sistemática e objetiva de características de mensagens” ( JOVCHELOVITCH, 2000, p. 89).
Os passos da análise de conteúdo enfatizados por Laurence Bardin (1977) podem ser sintetizados como: seleção dos documentos, categorização, descrição e interpretação. A primeira questão que a autora apresenta é a de que os documentos selecionados, a fim de formar o corpus documental, devem ser significativos. Nesse caso, os conteúdos das Cartas de Norteamerica, no período de 1953-1957, compõem o corpus documental da pesquisa. A categorização consiste no recorte do texto em unidades de análises que podem ser textuais ou temáticas 7. Optamos por fazer uma análise temática do conteúdo.
A partir da leitura do corpus documental, identificamos sete temas centrais abordados nas Cartas: Guerra Fria, Cultura, Política (EUA), Economia (EUA), Valores, Relações Interamericanas e Ciência e Tecnologia. A esses temas centrais incluímos outras subdivisões temáticas. Lembrando que, conforme já indicado acima, na maioria das vezes, as Cartas se referem a mais de uma temática. O Quadro 1, a seguir, mostra o número de vezes que os temas e subtemas são referenciados nos textos das Cartas nos anos pesquisados (1953-1957).

Assim, o primeiro item, Guerra Fria, integra: a) URSS versus EUA - discursos que centralizam a oposição entre os dois polos centrais da política global da época, em geral descritos como mundo livre versus comunismo; b) Anticomunismo - discussões sobre estratégias, mobilização para contenção do avanço comunista e propaganda anticomunista; e c) Discursos que tratam especificamente da corrida armamentista e das tentativas e/ou politicas pró-desarmamento.
No segundo item do Quadro 1, reunimos os temas referentes à Cultura, que abordam: a) Cultura dos Estados Unidos - inclui todo tipo de referência cultural específica norte-americana, como cinema, ideias, literatura, música, intelectuais, sistema escolar, entre outros; e b) Cultura Interamericana - quando são apresentados aspectos das culturas latino-americanas dos diferentes países, bem como alguns discursos sobre a inserção dessas culturas nos Estados Unidos e vice-versa.
O terceiro tópico, Política dos Estados Unidos, indica: a) Política Interna - diz respeito aos fatos do campo político, como atitudes e ações de políticos, culto a determinadas imagens de políticos, legislação, sistema eleitoral e partidário etc.; e b) Política Externa - quando há referência às relações dos Estados Unidos com a política mundial (excluímos aqui as relações com América Latina, pois essas já constam no item 6).
O quarto item, Economia (EUA), é subdividido por: a) Aspectos positivos - apontamentos da economia norte-americana que denotam crescimento econô- mico com ênfase ao sucesso do modelo capitalista; e b) Informativos - fatos/dados da economia dos Estados Unidos.
No quinto item, agrupamos temas que conotam Valores, divididos em: a) Liberdade e Democracia - defesa dessas ideias, entre as quais a liberdade de expressão e de imprensa e a defesa do “mundo livre”, caracterizado pelo capitalismo e sistema democrático; b) Modos de vida - defesa de modelos de vida norte-americanos e/ou relatos de casos que enfatizam esse modelo; e c) Justiça/Questão Racial - aqui aparecem muitas discussões sobre o problema e medidas para resolver a segregação racial nos Estados Unidos, bem como temas de justiça social em geral.
O sexto ponto, Relações Interamericanas, inclui: a) “Bons Vizinhos” - tópicos que tratam dessas relações como cooperação entre os países, diga-se colaboração/interferência econômica, política e cultural norte-americana; e b) Panamericanismo -referências às propostas e às ações de união entre os países americanos.
Por fim, o sétimo item, Ciência e Tecnologia, apresenta discussões sobre: a) Energia Atômica -discussões sobre as possibilidades do uso dessa energia no futuro protagonizada pelas potências mundiais; b) Saúde - desenvolvimento de medicamentos, em especial vacinas; e c) Ciência - destacam-se, aqui, os avanços aeronáuticos.
A partir do Quadro 1, podemos observar que a temática da Guerra Fria teve centralidade entre os assuntos abordados nos editoriais. Esse fato se deve, em parte, pela conjuntura da época, na qual essa era uma das pautas principais da imprensa, mas também pelo interesse da revista e do próprio Luce nessa questão. Dentro desse conjunto, entretanto, o assunto que mais teve referências foi o anticomunismo. Se juntarmos o tópico “URSS versus EUA”, temos um número ainda maior de incidências específicas sobre o tema. Da mesma forma, as referências ao desarmamento têm como mote o anticomunismo. Nosso entendimento é que todos os demais tópicos descritos no Quadro 1 também estão subsumidos ao tema do anticomunismo e fazem parte da estratégia do estado norte-americano, por meio de seus órgãos e diferentes programas, de combater o avanço comunista no exterior. É o que veremos na sequência.
Já no segundo número da revista, que inicia os discursos temáticos propriamente ditos, considerando que a primeira Carta de Norteamerica é somente a apresentação da revista para o público latino-americano, a ameaça comunista era assim anunciada:
[…] Em sua edição nacional, os editores da Life, comentando as propostas de Eisenhower, escreveram: ‘Existe perigo não apenas porque existem armas, mas porque dois mundos diferentes vivem em um planeta: o mundo agressivo do comunismo e o mundo da liberdade humana E o mundo livre livre ‘(ou o mundo livre potencial) ainda não é forte o suficiente para resistir à subversão e destruição (tradução nossa). 8
O anticomunismo foi uma das principais causas defendidas por Henry Luce. Para ele “[…] la Guerra Fría era uma guerra santa, en la que Time Inc. estaba comprometida com su “fin y propósito essencial” de derrotar al comunismo em todo el mundo” ( SAUNDERS, 2001, p. 392). Henry Luce teve atuação destacada junto a entidades civis e a membros do governo norte-americano. Ele é citado em várias referências a ações da política cultural estadounidense e tinha relações próximas com autoridades ligadas ao governo, como com Charles Douglas Jackson, conselheiro especial de Eisenhower sobre a Guerra psicológica e considerado um dos mais influentes estrategistas “ocultos” dos Estados Unidos. Em 1931, ele fazia parte do Império Time Inc. e, no pós-guerra, figurou como vice-presidente da Time. Segundo Saunders (2001, p. 218), ele servia de mediador para publicações de assuntos do interesse do Estado nas revistas de Luce.
Henry Luce incentivava o anticomunismo entre seus editores e não queria nenhum simpatizante da causa comunista trabalhando em sua corporação. Dentro da Times inc., começou uma “limpeza” de funcionários que tivessem alguma conexão com os comunistas. Tentou proibir a palavra “leftist”, ou esquerdista, pois considerava um eufemismo para comunismo (BRINKLEY, 2011, p. 358). Para ele, o comunismo era “o mais monstruoso câncer que já atacou a humanidade”, afirmando, em 1949, que “devemos dar o nosso melhor […] para combatê-lo em todas as horas e lugares”. Nesse momento, tornou-se um dos participantes na batalha contra o comunismo, inclusive tentando identificá-lo em seu País (2011, p. 359). Entretanto, embora não fosse contrário às ideias de McCarthy, considerava as suas propostas um “populismo simplista”, que desviava a atenção do desafio fundamental, que eram as estratégias para combater o Comunismo Global e não a “caça às bruxas de subversivos na América” (2011, p. 360-361).
As concepções anunciadas de Luce corroboram para o entendimento de que a revista Life en Español fazia parte da política cultural dos Estados Unidos no exterior, integrando a rede de colaboradores do Estado e da CIA na promoção da campanha anticomunista, que pressupunha a propaganda e a promoção do “Mundo Livre”, representado pelos Estados Unidos. Entretanto,
A política cultural adquire consistência apenas quando é objeto de um desenho global, quando os objetivos são definidos ao nível do Estado e os órgãos administrativos encarregados de executá-los são criados, tendo o cuidado de alcançar a unidade de ação desejável no exterior. A política cultural é, portanto, e em um primeiro nível de análise, o conjunto de objetivos e estratégias que os Estados planejam para marcar uma direção para as atividades desenvolvidas por setores sociais muito diversos, e instrumentalizá-los para seu próprio benefício 9.
As estratégias de propaganda anticomunista por parte dos Estados Unidos foram uma resposta ao programa iniciado em 1947 pela URSS, que promoveu, por meio do Cominform 10, os “Congressos pela Paz”, que exploravam o tema da paz contra o Plano Marshal, que acusavam de ser parte da prática imperialista norte-americana. Com pautas igualitaristas e antirracistas, os congressos atraíam parte significativa da intelectualidade da esquerda mundial. De acordo com Chaves (2015), em resposta a essa estratégia de propaganda anticapitalista soviética, em 1950 o Departamento de Estado dos Estados Unidos, por meio de um documento do Conselho de Segurança Nacional (CSN 68), sugeria que a estratégia para vencer o comunismo “se realizasse preferencialmente por canais diplomáticos, empregando-se medidas econômicas, políticas e ‘psicológicas’[…]” ( CHAVES, 2015, p. 126). O autor apresenta algumas divergências entre o departamento de Estado e a CIA quanto aos meios a serem utilizados, mas conclui pela unidade dos objetivos:
A promoção dos EUA como vanguarda democrática internacional era central na noção de ‘Mundo Livre’ a ser divulgada, sendo seu valor fundamental a defesa do Estado de Direito, a promoção de direitos, na forma de proteção de minorias e promoção da igualdade social, e a defesa das liberdades religiosa, civil, trabalhista, de propriedade e de privacidade. O Departamento de Estado e a CIA, na ofensiva entre intelectuais, dividiam-se entre esse mosaico de características da ‘Democracia na América’ e o destaque dos aspectos ‘totalitários’ do regime soviético ( CHAVES, 2015, p. 136).
O papel de vanguarda dos Estados Unidos como libertadores do mundo, que estaria sendo ameaçado de ser “colonizado” pelos comunistas, é constantemente alardeado nos discursos das Cartas para os latino-americanos na Life. É claro (e constante) o esforço em construir essa imagem redentora dos Estados Unidos em contraposição ao totalitarismo soviético. Os discursos frequentemente apelam para a história das nações e da América, ao colonialismo e aos heróis nacionais para fundamentar a legitimidade do papel de libertador dos EUA:
Em todas as nações da América, revolução é um conceito sagrado; ela deu a eles o ser. Assim como Bolivar emulou Washington, Juarez esmagou no México a última reivindicação europeia de ser venerado como um Deus, enquanto Lincoln liquidava a escravidão nos EUA. Qualquer esforço para derrubar um regime opressivo sempre goza de simpatia de um extremo a outro do continente americano. Mas, agora surge um novo perigo, uma nova ameaça de opressão na América Latina: o comunismo, que de braço com a escravidão e envolvido na vistosa capa da reforma, procura conquistar os governos. 11
Essas estratégias podem ser entendidas na perspectiva do “poder brando” (soft power), desenvolvida por Joseph S. Nye (1990), segundo a qual as relações internacionais não estão subsumidas exclusivamente às relações diplomáticas oficiais, mas constituem um conjunto de relações oficiais, privadas, comerciais e culturais. Soft Power seria a habilidade de moldar as preferências de outros para estarem de acordo com as suas:
A maneira indireta de conseguir o que você quer às vezes é chamada de “segunda face do poder”. Um país pode obter os resultados que deseja na política mundial porque outros países - admirando seus valores, emulando seu exemplo, aspirando a seu nível de prosperidade e abertura - querem segui-lo. Nesse sentido, também é importante definir a agenda e atrair outros na política mundial, e não apenas forçá-los a mudar com ameaças militares ou com sanções económicas. Esse poder brando, em que os outros queiram os resultados que você deseja, coopta as pessoas em vez de coagi-las. O poder brando repousa sobre a capacidade de moldar as preferências dos outros. No nível pessoal, estamos todos familiarizados com o poder de atração e sedução. 12
O poder brando refere-se essencialmente à atração exercida por um conjunto de ideias defendidas e a sua capacidade de convencimento dos outros. Para Ramos e Zahran (2006), o termo aproxima-se do conceito de hegemonia de Gramsci. Ambos remetem “a um conjunto de princípios gerais, ideias, valores ou instituições; compartilhados, consentidos ou considerados legítimos por diferentes grupos; mas que ao mesmo tempo são recursos de poder, influência ou controle de um grupo sobre outro” ( RAMOS; ZAHRAN, 2006, p. 134).
Da mesma forma, pode-se dizer que a revista exercia o que Valente e Santoro (2006) definem como “diplomacia midiática” 13. Mesmo não vinculada oficialmente ao Estado, ela influenciava e, em alguns casos, reforçava valores culturais subjacentes à política externa exercida pelos Estados Unidos. Ela vai além do âmbito estatal, mobilizando a opinião pública no processo de convencimento e de formação de opinião, que age e interfere sobre a política externa. Joseph Nye (2004) aponta três principais recursos utilizados no poder brando: a cultura (atraente para os outros), seus valores políticos (no país e no exterior) e suas políticas estrangeiras (quando vistas como legítimas e com autoridade moral).
A partir dessa perspectiva teórica, reagrupamos as temáticas inicialmente organizadas no Quadro 1 em três grandes grupos: Cultura, Valores Políticos e Política Externa ( Quadro 2). A adequação da divisão dos temas ao modelo teórico proposto por Nye (2004) não desconsidera a complexidade da conjuntura e dos propósitos e discursos presentes na Life en Español, que também está inserida em uma lógica de produção, circulação e consumo própria do campo jornalístico e midiático do período, bem como às disputas e conflitos internos relativos às opiniões publicadas 14. Sabe-se que Henry Luce controlava o conteúdo das publicações de seus periódicos e não gostava que houvesse divergência com a sua opinião, que fazia questão que ficasse clara. No entanto, não negava a presença de opiniões fortes em suas revistas (BRINKLEY, 2011).

Para evitar um simples enquadramento das fontes, partimos de um agrupamento inicial, desvinculado do modelo teórico e, posteriormente, identificamos a relação dos temas com o modelo de Joseph Nye. Assim, acreditamos que a reorganização dos temas ( Quadro 2) constitui-se em um instrumento explicativo válido para um melhor entendimento dos recursos mobilizados pela revista para o convencimento e para a promoção da cultura norte-americana para o público latino-americano, enquanto estratégia de poder atrelada à política cultural do Estado estadunidense.
Na reorganização apresentada no Quadro 2, incluímos no tópico “Cultura” ao o item “Ciência e Tecnologia” do quadro anterior ( Quadro 1), por entendermos que esses temas foram abordados como parte da cultura norte-americana, voltada para o progresso tecnológico em que os Estados Unidos eram considerados o principal promotor. Assim, os produtos e as iniciativas tecnológicas e científicas, como vacinas, aviões ou novas formas de energia, integram a cultura do País. O número de referências, embora seja o menor do levantamento, é significativo. De forma geral, os textos promoviam a cultura dos Estados Unidos em um nível mais elevado do que as demais do continente americano, colocando-se como guia cultural, assumindo um papel de vanguarda, enfatizando a sua supremacia tecnológica como caminho para o progresso material e humano.
Os textos específicos da cultura estadunidense tratam de assuntos diversos, como baseball, futebol americano, história dos Estados Unidos, cinema, turismo, mulheres e outros aspectos da cultura popular. Também exemplos da chamada alta cultura aparecem com certa frequência, como orquestras, literatura e teatro. Segundo Rodríguez Agudo (2016), havia, no período, uma preocupação em desfazer a imagem estereotipada da cultura norte-americana e o seu caráter comercial ligado à cultura de massas. Eram evidentes as divergências entre norte-americanos e europeus no que se refere ao próprio conceito de cultura. O imperialismo cultural norte-americano parecia incompatível com o nacionalismo da cultura europeia, que via com maus olhos os produtos estadunidenses de baixa qualidade que chegavam à Europa.
[…] programas culturais e de intercâmbio foram concebidos como instrumentos para melhorar o entendimento da cultura e da vida americanas e construir confiança na liderança e nos valores estadounidenses. A intenção não era lutar contra a ignorância sobre os valores e a sociedade americanos, mas contra a versão sobre ela fornecida por sua própria indústria de entretenimento. 15
Nesse sentido, observamos, nos textos da Life, críticas a essa visão estereotipada, enaltecendo a especificidade da cultura norte-americana e, no caso da publicação para os latino-americanos, com frequência assinalando as vantagens da assimilação. É o que podemos perceber neste texto que trata da música:
Talvez por sermos inventores do jazz, muitos europeus ainda nos considerem os bárbaros da música ou, no melhor dos casos, improvisadores ultrajantes que não respeitam as formas clássicas dessa arte. Pobre de nós. O grande cantor russo Chaliapin lamentou-se assim em 1908: ‘Eles não conhecem a luz; não há canto em suas vidas. Não são senão crianças em tudo o que se refere à arte’. Se isso era verdade, não é agora. Segundo uma fonte autorizada, ‘a orquestra sinfónica encontrou sua própria casa na América do Norte’. É neste momento que as grandes orquestras fazem suas turnês anuais. No momento, um dos mais destacados conjuntos musicais do mundo inteiro, composto por mais de 100 músicos, fará 30 shows em todo o país. Para satisfazer seu desejo por música sinfónica, os EUA sustentam 32 orquestras principais, cujos orçamentos chegam a 100 mil dólares por ano cada, mais de 20 orquestras cujos orçamentos são superiores a 25 mil dólares e muitas outras organizações sinfónicas locais, que formam um número total de 737 orquestras, de acordo com as últimas estatísticas 16.
Observamos que, embora o texto atribua um novo status à cultura norte-americana, não deixa de atrelála ao seu valor comercial, o que estabelece o modelo cultural norte-americano, ligado ao seu modelo liberal capitalista. Na sequência, o texto infere a possibilidade de interação com a música latino-americana, considerada no mesmo viés comercial. Esse tipo de estratégia de discurso era frequentemente utilizado. Ao mesmo tempo em que promovia as qualidades da cultura estadunidense, chamava atenção para algum aspecto similar na cultura latino-americana. De acordo com Joseph Nye (1990), essa identificação ou compartilhamento de aspectos em comum é fundamental para a eficiência do soft power.
Já foi dito, com razão, que os norteamericanos deveriam prestar mais atenção à música latino- americana. E é verdade que, além das formas populares de dança e folclore, eles sabem muito pouco sobre a música e os músicos de seus vizinhos do sul.
[…] O mercado norte-americano de gravações musicais sérias é enorme (180 milhões de dólares foram vendidos em 1952) e tem suas portas abertas para todo o novo. Este é um campo favorável ao desenvolvimento de uma melhor harmonia entre as Américas, pois a música é sem dúvida a mais universal de todas as línguas 17.
Além disso, conforme bem assinala Nye (1990), o poder brando depende sempre do contexto sobre o qual ele atua. No caso em questão, os discursos norte-americanos, para serem atraentes, deveriam levar em consideração o significativo sentimento antiamericanista em muitos países da América Latina, bem como a emergência de muitos nacionalismos, que se chocavam com os interesses norte-americanos no continente.
Embora o antiamericanismo tivesse raízes históricas na região, devido às constantes agressões dos Estados Unidos aos países latino-americanos no passado, durante os anos 1950, a disputa entre as duas grandes potências pela hegemonia mundial, aliada ao esforço americano na luta anticomunista no hemisfério, levando à reedição de políticas de interferência no continente, contribuiu para a intensificação de reações contra a hegemonia norte-americana. Além do mais, muitos países latino-americanos vivenciavam um crescimento urbano-industrial decorrente, em parte, da política de substituição de importações do período da guerra. Na perspectiva política, a promoção das políticas nacionalistas trazia acirradas discussões da intelectualidade nacional e regional acerca do desenvolvimento dos países latino-americanos.
Outros textos traziam nomes da literatura e, inclusive, indicações (listas) de livros americanos traduzidos em espanhol acessíveis ao público latino- americano 18. Palestras em universidades dos Estados Unidos também eram comentadas, especialmente discursos que tratavam da América Latina e da Guerra Fria. Costumes e modos de vida também podem ser citados. Constam modos de vestir e de se comportar, frequentemente ligados ao padrão de consumo característico do sistema norte-americano. A cultura, nesse sentido, é, sobretudo, mercadoria, mas possui alguns valores bastante atrativos com alta capacidade de persuasão, como beleza, riqueza e modernidade.
Ainda a partir da divisão inicial dos temas, reagrupamos os tópicos de “política”, “economia” e “valores” no conjunto denominado “Valores Políticos” ( Quadro 2), pois tanto os temas relativos à economia quanto aos valores referem-se a práticas e/ou ideias da política interna dos Estados Unidos. De forma geral, os textos enaltecem o modelo político e econômico dos Estados Unidos, com base especialmente na ideia de progresso e de democracia nos moldes liberais norte- americanos, que era, em geral, contraposto aos regimes totalitários liderados pela União Soviética. Os editoriais consultados para esta pesquisa constroem a imagem dos Estados Unidos como baluarte da liberdade, do igualitarismo e antirracismo.
A segregação racial nos Estados Unidos era uma questão espinhosa para os governos, que recebia muitas críticas da comunidade internacional, em especial da intelectualidade de vários países. Certamente contribuía negativamente para o capital simbólico do País, que tinha pretensão de tornar-se mundialmente hegemônico em termos culturais. Esse era um dos temas atacados pela propaganda soviética anticapitalista nos Congressos pela Paz. Portanto, dentro do projeto da Guerra Fria cultural, havia necessidade de desfazer essa imagem. A Life e os outros veículos do grupo Time Life foram grandes promotores e veiculadores dos discursos contra segregação racial nos Estados Unidos. Entre os temas que caracterizamos como valores, a questão racial foi maioria das referências, muitas delas em tom de resposta às acusações, conforme exemplos abaixo:
Na propaganda insidiosa que espalham por todo o mundo, e especialmente na América Latina, os comunistas vociferam sem cessar sobre as más relações que, segundo eles, imperam entre negros e brancos nos EUA. Nunca mencionam - como devem fazê-lo! - Os esforços privados e oficiais para melhorá-los e quanto é feito para resolver qualquer situação difícil entre os dois grupos étnicos. Veja o caso, por exemplo, do Instituto Tuskegee do Alabama. Foi fundado em 1881 por iniciativa de um branco e um preto para atender às necessidades educacionais da raça de cor. Desde então, contribuiu enormemente para o treinamento prático industrial e é uma força positiva no campo da educação e do social, preocupado com a solução dos problemas das minorias. O Instituto tem sido um dos principais representantes do negro, um defensor de suas causas e um centro de estudos de seus problemas. 19
Muito mais transcendental é o progresso realizado em direção à igualdade de todas as raças, progresso que foi notavelmente acelerado desde a última Guerra Mundial, e precisamente no sul dos EUA, onde um dia o princípio da discriminação era considerado imutável. Hoje, a divergência máxima de opiniões surge entre aqueles que defendem um progresso maior, mas sem recorrer à força, e aqueles a favor de acelerá-lo à força, embora para isso devamos colocar a polícia federal em jogo. Eisenhower está entre os primeiros, apoiadores do progresso gradual. Seja suficientemente rápido ou não, dessa maneira, por ação local espontânea, o avanço será mais firme e irreversível do que o conquistado pela força. 20
A afirmação do País como representante da democracia com base no capitalismo liberal e vitorioso era um outro enfoque da propaganda promovida pelos órgãos ligados ao Departamento de Estado e a CIA. Nesse sentido, o slogan “Mundo Livre” era utilizado para definir essa concepção de democracia. Ao tratar da atuação da Fundação Ford na política cultural norte-americana durante a Guerra Fria, Chaves (2015) afirma que o slogan foi motivo de controvérsias entre a CIA e o Departamento de Estado, por não dar conta das diferenças entre o mundo capitalista representado pelos Estados Unidos e o comunista. A ideia de progresso, por exemplo, parecia ter mais aderência ao modelo social norte-americano (2015). Entretanto, nos discursos das Cartas, o uso do termo era constantemente utilizado conforme pode ser observado neste texto em outras citações. O “Mundo Livre” era representado pelos Estados Unidos, que era descrito como redentor da humanidade. Simbolizava o início de uma nova era de prosperidade e liberdade.
[…] Já é possível falar sobre uma nova sociedade e um novo capitalismo ‘que caracteriza’ uma nova era da humanidade que pode legitimamente ser chamada de ‘Era da América’. À primeira vista - ele afirma - parece que os EUA. UU., que pertencem como Europa ‘à tradição cristã, ao humanismo democrático do século XVIII e, finalmente, à revolução industrial’, continuam apenas a desenvolver a civilização européia, embora em maior escala. Mas o paralelo, acrescenta Siegfried, é mais aparente que real; os EUA estão se tornando um mundo novo, diferente do nosso Velho Mundo, não apenas em dimensões, mas também em qualidade, porque esses elementos são combinados em proporção justa e de acordo com uma nova ordem. A principal diferença é - na visão de Siegfried - que o novo capitalismo dos Estados Unidos não tem apenas um fim lucrativo, nem busca apenas o enriquecimento do indivíduo, mas é um tipo de empresa cooperativa, na qual é dada prioridade à saúde e ao progresso da indústria e está crescendo devido à prosperidade baseada em ‘na democratização do poder aquisitivo’ 21.
Por fim, um terceiro conjunto - Política Externa - é composto pelos tópicos Relações Interamericanas, Guerra Fria e Política Externa Mundial. Esse conjunto apresenta um número maior de referências, por incluir o tema da Guerra Fria, que, pelos motivos já indicados, tinha maior incidência. Entre os discursos publicados, podemos identificar a retomada do tema dos “bons vizinhos”, da colaboração e união entre os países americanos, recorrendo frequentemente à ideia de um panamericanismo. A cooperação quase sempre estava atrelada ao combate à ameaça comunista. No âmbito da política mundial, sobressaem-se textos que divulgam a atuação dos Estados Unidos no cenário internacional como grande mediador de uma política de paz que, entretanto, tinha na União Soviética um grande foco de resistência. Um exemplo, nesse sentido, é o texto da Carta de 11 de outubro de 1954, cujo título é “El átomo empiza a trabajar por la paz”,
No que diz respeito aos EUA, eles decidiram que o segundo é o que deve ser feito e seu povo, como o resto da humanidade, sentiu-se consolado quando o Presidente Eisenhower disse à Assembléia das Nações Unidas em dezembro Passado: ‘Os EUA sabem que a força pacífica derivada da energia atômica não é um sonho do futuro. Essa capacidade, já comprovada, temos aqui … agora … hoje …’.
[…] Eisenhower simplesmente propôs que as nações associadas forneçam uma pequena quantidade de seu material físico, que seria usado para ajudar todas as nações a expandir seus conhecimentos sobre a aplicação da energia do átomo nos trabalhos de paz. A União Soviética não aceita nem fazer esse gesto mínimo de intenção pacífica. Consequentemente, Eisenhower anunciou que o consórcio será formado, de qualquer maneira, sem a participação dos russos, mas sem fechar as portas para eles. Os países fundadores serão os EUA, Canadá, Grã-Bretanha, Austrália, África do Sul, França e Bélgica. O primeiro projeto de consórcio trata da construção de um reator atômico na Bélgica 22.
O texto é uma referência ao discurso proferido pelo então presidente dos Estados Unidos, Eisenhower, na ONU, em dezembro de 1953, em que lança o programa “Átomos para Paz” em prol do desenvolvimento da energia nuclear exclusivamente para fins pacíficos. O discurso de Eisenhower e o texto publicado na Life não tratam apenas de uma ação pacifista por parte dos Estados Unidos, mas de uma estratégia, que dava um passo à frente na construção de sua imagem como “defensores da paz”. Segundo Joseph Nye (1990), essas práticas conferem legitimidade moral aos países, resultando num ganho de poder, sendo esse um dos recursos mobilizados para o exercício de poder brando.
Considerações finais
A análise revista Life en Español, aqui especificamente dos editoriais - Carta de Norteamerica - apresentou-se como uma possibilidade de aprofundar os estudos sobre as relações entre Estados Unidos e América Latina, bem como sobre as disputas pela hegemonia no hemisfério, utilizando como fonte a imprensa ilustrada, mais especificamente uma revista de variedades. Durante muito tempo, nos trabalhos nessa área, predominaram aqueles sobre a política externa dos Estados Unidos para a região, com base em documentos oficiais e/ou o domínio cultural norte-americano sobre o hemisfério, a partir dos instrumentos utilizados pelo Office of Cordinator of Interamerican Affairs. O estudo permite descentrar a análise, em uma proposta na qual o espaço de representação simbólica pode ser melhor observado e problematizado como uma forma de poder específico. Escritas para o público latino-americano, os textos publicados na seção Cartas de Norteamérica apresentaram para seus leitores diferentes cenários e temas em pauta na época, tendo como principal pano de fundo a Guerra Fria, vista sob a ótica norte-americana.
Dessa forma, analisando o conteúdo das Cartas de Norteamerica publicadas na Life en Español, com base na conjuntura do período, na sua linha editorial, bem como no alinhamento ideológico de seu diretor, Henry Luce, acreditamos que ela fez uso de uma série de recursos discursivos que tinham como objetivo promover os Estados Unidos na América Latina por meio da divulgação de sua cultura, política e sistema econômico. Essas ações estavam totalmente integradas aos programas do Departamento de Estado norte-americano e da CIA, cujas estratégias visavam à construção da hegemonia cultural dos Estados Unidos no mundo e, em especial, vencer a disputa ideológica e cultural com a União Soviética. Essas estratégias podem ser consideradas como formas de exercício de “poder brando” (Soft Power), que tem nos meios de comunicação um instrumento fundamental para a sua efetivação.
Referências
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Notas
[…] El mercado norteamericano para los discos de música seria es enorme (se vendieron 180 millones de dólares en 1952), y tiene sus puertas abiertas para todo lo nuevo. Es este un campo propicio para el desarrollo de una mejor armonía entre las Américas, ya que la música es, sin duda, el más universal de todos los lenguajes. (LIFE EN ESPAÑOL (ed) Carta de Norteamerica. Life en Español, Chicago, 2 mar. 1953, tradução nossa).
Autor notes
Endereço para correspondência: Marlise Regina Meyrer, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Av. Ipiranga, 6681 - Partenon , Porto Alegre, RS, Brasil