Resenhas de livros
| MARTÍN-BARBERO Jesús, BERKIN CORONA Sarah. Ver con los otros: comunicación intercultural. 2017. Ciudad de México. Fondo de Cultura Económica. 261pp. |
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Recepção: 25 Agosto 2017
Aprovação: 15 Novembro 2017
Resumo: O texto é uma resenha crítica do recente livro publicado por Jesús Martín-Barbero e Sarah Corona Berkin Ver con los otros: comunicación intercultural em que os autores discutem como o conhecimento é construído dialeticamente entre a teoria e a prática, atentando para o diálogo entre um pesquisador e seu informante (o outro) que acabam por se interpelarem ao traçarem juntos tal caminho. Martín-Barbero e Berkin estão interessados na espessura sociocultural das visualidades e nos modos de ver o outro no atual contexto em que vivemos de globalização.
Palavras-chave: O outro, olhar, visualidades, modos de ver, interculturalidade.
Abstract: This text is a critical review of the recent book published by Jesús Martín-Barbero and Sarah Corona Berkin Ver con los otros: comunicación intercultural which the authors discuss how the knowledge is constructed dialectically between theory and practice, paying attention to the dialogue between a researcher and their informant (the other) who end up asking each other to draw this path together. Martín-Barbero and Berkin are interested in the socio-cultural thickness of the visuals and the ways of seeing the other in the current context in which we live globalization.
Keywords: The other, view, visualities, ways of seeing, interculturality.
Acompanhar o pensamento de um autor seminal e profícuo como Martín-Barbero requer que se tenha em mente as possíveis intertextualidades entre as suas diferentes obras. No caso de um de seus mais recentes trabalhos, elaborado em coautoria com Sarah Corona Berkin, o livro Ver com los otros: comunicación intercultural, chama a atenção o desenvolvimento, em novas direções, de certas ideias já expostas pelo autor.
Desse modo, se Martín-Barbero já nos ensinara a importância de analisar os “textos midiáticos sem perder de vista, de algum modo, aquilo que diz respeito aos modos e ‘exercícios do ver’ dos diferentes públicos” (Fischer, 2002: 93), tal preocupação é agora ampliada. Ver con los otros possui, assim, uma natureza essencialmente epistemológica, já a obra discute, a partir também de dados empíricos, a hegemonia do Ocidente sobre os modos de ver, tanto através da ciência como modo de conhecer e controlar, quanto com a sua tecnologia (seja essa a fotografia, o cinema, a televisão ou o vídeo), convertida em um modo de ver/integrar com os outros, ou seja, as mais variadas culturas. Assim, Martín-Barbero analisa e desconstrói o pensamento homogêneo a partir da posição crítica, e a coautora discute a ação homogeneizante desde uma perspectiva antropológica e uma ação dialógica.
Os dois autores, mesmo com pontos de partida e trajetórias diferentes, têm um interesse em comum: a espessura sociocultural das visualidades, relacionada às imagens e aos modos de ver e de sermos vistos no atual contexto da globalização. Nesse contexto, são rompidas as fronteiras onde circulam os capitais, as mercadorias, as ideias, as imagens e as pessoas, criando uma interculturalidade nunca vista. Isso acaba por mudar as formas de representação e de olhar do outro. Os resultados desses cruzamentos e também dessa encruzilhada são explicitados no livro.
São três os temas gerais que iluminam a reflexão proposta: o primeiro diz respeito aos fatores que afetam a imagem que nós temos e que tipo de comunicação podemos ter com as culturas diferentes da nossa; o segundo é sobre os aspectos dos quais partimos e que são compostos de diferentes sensibilidades, de usos da tecnologia e de mestiçagem como alternativa cultural e política tanto no âmbito local quanto no global; e o terceiro, diz respeito ao que os atores chamam de “mal de ojo” (p. 5), ou seja, um olhar que exclui e invisibiliza, do qual padecem os intelectuais das ciências sociais, sendo insensíveis diante dos desafios culturais que propõem as imagens, as formas de ver dos outros.
O livro está organizado em três grandes capítulos. No primeiro deles, os autores enunciam suas trajetórias acadêmicas para tentar ver com os outros. Martín-Barbero conta como foi viver na América Latina – tanto o mundo hipervisual global quanto o local/nacional – e tudo o que o levou a pensar sobre tais mundos. Para tanto, o autor situa o leitor desde suas primeiras relações com o cinema no começo dos anos 1960, na Colômbia, até suas conhecidas análises sobre a televisão, principalmente, os estudos de recepção para “pensar o ver” (p. 57) a partir do cotidiano das pessoas. O autor reafirma, então, como chegou a sua notável premissa de que a comunicação deixou de se tornar uma questão de meios, e se tornou uma questão das mediações (Martín-Barbero, 1987). Pois, para ele, são os saberes vindos da economia da imagem e de uma sociologia do ver que o levaram à questão-chave das mediações. A recepção e o consumo das imagens extrapolam o momento de assistência da televisão, da fotografia ou do cinema, acontecem também no cotidiano dos atores sociais. Martín-Barbero também reflete novamente sobre a cultura popular, tema que lhe é caro, afirmando que ela “traça sua própria trilha transformando o sentido das expressões e os conteúdos”1 (p. 8), constituindo uma forma de resistência.
Berkin expõe seu percurso que diz respeito ao estudo da visualidade, num primeiro momento com crianças e suas brincadeiras e videogames, e depois, no estudo com jovens indígenas mexicanos, que a aproximou das pesquisas sobre comunicação intercultural. A autora afirma que, sob influência do pensamento de Martín-Barbero, passou a se perguntar o que os outros fazem com as mensagens que recebem da mídia, suas contradições e criatividades e sua relação no cotidiano. Entendeu também que “quando se decide pensar com o outro, o outro tem suas próprias perguntas e respostas” (p. 56)2, e tal premissa acompanha toda a sua pesquisa. A investigadora relata como conheceu uma comunidade indígena mexicana chamada de huichóis e de que forma aprendeu a olhar e compreender o outro com essa comunidade. Com eles, passou a “considerar o sujeito não como um depósito (nem da televisão e nem da cultura) e sim como um outro que se deixa ver no diálogo” (p. 71)3. Isso a fez com que mudasse sua forma de investigar, atentando para a reciprocidade na pesquisa, a troca mútua entre o investigador e o investigado.
O segundo capítulo é baseado no trabalho de cada um dos autores e suas distintas experiências empíricas e perspectivas teóricas. É nesse momento que traçam uma proposta para que possamos ver com os outros. A globalização (econômica e tecnológica) diminuiu a importância e as fronteiras dos territórios, desvalorizando assim as referências tradicionais de identidade e, contraditoriamente, as culturas locais e regionais se autovalorizam. Mas para que a pluralidade das culturas seja levada em conta é indispensável que tal diversidade de identidades seja narrada e não escondida. Dessa forma, surge o hipertexto, que é ambíguo, mas também construtivo, das apropriações, mestiçagens e hibridações. A visualidade eletrônica provocada pela internet constitui também a visualidade cultural com profundas transformações na cultura cotidiana, principalmente no que diz respeito às formas de ver, de falar e de se apropriar da comunicação e da mídia, sendo formas diferentes por diferentes povos. Os autores afirmam que o fluxo presente na contemporaneidade produz uma estetização crescente na vida cotidiana. Mas este não anula as performatividades estéticas que criam a virtualidade não só no campo da arte, mas também na recriação da participação social e política que percorre a ativação das diferentes sensibilidades e socialidades.
Ainda no segundo capítulo, Berkin relata como reelaborou as categorias conceituais com as quais pensa a comunicação na América Latina com a intenção de aprofundar um novo modelo de interculturalidade, recuperando experiência de pesquisa empírica com os huichóis, na qual entregou câmeras fotográficas para que eles fotografassem a vida na aldeia e, anos depois, um passeio à cidade de Guadalajara, no México.
O terceiro capítulo é onde os autores concluem seus postos-chave da proposta de ver com os outros, falam das bases para se pensar a imagem a partir de uma perspectiva mais inclusiva, pensada para que ninguém fique de fora dela. As culturas, nos dias de hoje, têm vivido do intercâmbio e que essa relação é conflituosa, assimétrica e violenta, porque é exatamente nesse lugar que está a relação com o outro. Os autores afirmam que se deve ter o interesse de viver melhor no espaço público, distanciando-se assim dos multiculturalistas e das perspectivas interculturais quando colocam a diversidade no centro da discussão e não as relações de poder entre elas.
É nesse último capítulo também que Martín-Barbero e Berkin tratam, mais especificamente, das questões epistemológicas que envolvem estudar e ver com os outros, afinal, para eles construir conhecimento significa esboçar um caminho até o conhecimento mútuo, recíproco, horizontal (um se reconhece pelo olhar do outro) entre o investigador e o investigado. Como pesquisadores das ciências sociais, é necessário perceber como as histórias do outro e a nossa se entrelaçam, e não apenas analisar os fatos. Ou seja, escutar o outro, interpretá-lo, não significa passar para o outro lado, transformar-se em um deles e sim ter empatia, deixar-se “tocar pelos outros, e quando nossa visão mudar, significa nunca mais ser o ‘mesmo’” (p. 39)4, após o contato com esse outro. Afinal, ver com os outros nada mais é do que um tipo de experiência que permite o acesso à vida dos muitos outros coabitantes na contemporaneidade.
O livro desperta reflexões de ordem epistemológica e metodológica essenciais a todos os que investigam a comunicação na atual era da globalização, em que os fluxos e as competências de produção e de recepção se mesclam de maneira a conformar novas formas de ver e de se apropriar da comunicação e da mídia. Em época de transdisciplinareidade e complexidade (Morin, 2015), torna-se indispensável ver com os outros e levar em conta que também nós somos esses outros.
REFERÊNCIAS
FISCHER, R. M. B. Problematizações sobre o exercício de ver: mídia e pesquisa em educação. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 20, p. 83-94, 2002.
MARTÍN-BARBERO, J. De los medios a las mediaciones: comunicación, cultura y hegemonía. Barcelona: Gustavo Gili, 1987.
MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2015.
Notas
Autor notes