Em Pauta/Agenda
Versus: um espaço da América Latina na imprensa alternativa (1975-1979)1
Versus: a space for Latin America in the alternative press (1975-1979)
Versus: um espaço da América Latina na imprensa alternativa (1975-1979)1
Matrizes, vol. 12, núm. 2, pp. 281-307, 2018
Universidade de São Paulo
Recepção: 11 Dezembro 2017
Aprovação: 04 Fevereiro 2018
Resumo: A revista Versus, editada em São Paulo de 1975 a 1979, partiu de um projeto formal e tematicamente inovador, concebido por Marcos Faerman e colaboradores, baseado na opção pela cultura como forma de ação e na adoção da América Latina como eixo temático. Versus conquistou um espaço próprio no campo cultural brasileiro, destacando-se entre as publicações alternativas. A partir de um breve panorama sobre a imprensa alternativa na década de 1970, o artigo pretende analisar a trajetória de Versus que, de uma postura cultural inicialmente inovadora sobre a inserção do Brasil na América Latina e a busca de uma unidade e identidade latino-americanas, rumou a uma paulatina instrumentalização política que a levou ao seu fim.
Palavras-chave: América Latina, latino-americanismo, ditadura militar, imprensa alternativa, Versus.
Abstract: The magazine Versus, published in São Paulo from 1975 to 1979, started as a formally and thematically innovative project, conceived by Marcos Faerman and his team, aiming for culture as a form of action and adopting Latin America as their main focus. Versus conquered a distintive space in Brazilian cultural milieu, earning an outstanding place among alternative periodicals. Starting with a brief review of the alternative press in the 1970’s, this article analyzes the trajectory of Versus, which began with an innovative cultural point of view of the place occupied by Brazil in Latin America and the pursuit of a Latin American unity and identity, later headed for a gradual political instrumentalization that put an end to its existence.
Keywords: Latin America, Latin americanism, militar dictatorship, alternative press, Versus.
Em abril de 1978, a revista Versus publicou no cabeçalho de seu editorial uma carta de Carlos Quijano, entregue ao repórter Hélio Goldzstejn durante sua visita ao velho editor uruguaio exilado no México. Na breve carta manuscrita, Quijano afirmava aos “companheiros” de Versus que o tempo que se vivia não era de nostalgia, e sim de combate, e os conclamava a seguir fazendo o caminho rumo “à nossa libertação” (Versus, 19, mar./abr. 1978: 2).
Carlos Quijano foi o fundador do semanário uruguaio Marcha, em 1939, e o dirigiu até novembro de 1974, data de sua clausura pela ditadura civil-militar que havia tomado o país a partir de junho de 19732. Marcha foi um dos dois modelos inspiradores do projeto editorial de Versus – o outro seria a revista argentina Crisis (1973-1976), de muito mais curta duração que Marcha, mas com o mesmo espírito combativo e engajado no estudo e na defesa da América Latina. Receber o estímulo de um lutador da altura de Quijano representou um enorme prestígio para uma revista como Versus, que teve na América Latina um eixo de sustentação fundamental.
A publicação de autores latino-americanos, a análise de temas políticos e culturais relevantes para a região, a discussão de sua produção artística e cultural e o inovador envio de repórteres para acompanhar o que acontecia nos países vizinhos, em termos políticos e sociais, foram frequentes nos 34 números de Versus, que circularam entre 1975 e 1979. Esse projeto editorial não deixa de chamar a atenção num momento em que, no Brasil, iniciava-se, lentamente, a distensão do regime militar e o espaço da crítica política e das reivindicações sociais se recuperava. A preocupação em discutir a realidade nacional, em pensar em projetos alternativos para o Brasil, em incidir na política e na cultura nacionais era cada vez maior. Então, por que os editores de Versus decidiram introduzir o seu público na leitura de escritores como Arguedas, Roa Bastos e Nicolás Guillén, enaltecer a figura de próceres como San Martín, Bolívar, Tupac Amaru ou Zapata e recuperar a história da colonização, da opressão e do despojo do continente? Por que uma revista que não possuía nenhum caráter acadêmico incursionava no passado histórico da região e também no nacional?
O tema da solidariedade continental, indicado por Quijano, é uma chave para analisar o conteúdo da revista e sua inovadora defesa da integração do Brasil com a América Latina e também com a África. No entanto, é necessário buscar outras razões para a adoção de uma linha editorial praticamente inexistente na imprensa brasileira da época, inclusive na chamada imprensa alternativa, onde Versus se inseria.
A revista Versus suscita várias perguntas. Refletir sobre a América Latina deu a ela um lugar diferenciado no âmbito da imprensa alternativa? Num período em que a censura atacava os meios de comunicação, estabelecer a América Latina como eixo temático significou uma estratégia inteligente para burlar a censura? Representaria, além disso, um projeto de conscientização do público leitor acerca da necessidade de pensar o Brasil como parte da América Latina, a partir de sua origem comum e dos problemas similares? Nesse caso, poderíamos pensar que Versus foi um veículo latino-americanista? Se a resposta é afirmativa, que conceito de latino-americanismo seus editores escolheram para nortear sua linha editorial?
Como podemos ver, temos aqui uma série de perguntas que nos levam a pensar não apenas na própria estrutura, objetivos e funcionamento da revista. Ajudam-nos a entender também sua relação com o contexto político-cultural em que circulou, o que inclui os seus vínculos, acordos e eventuais conflitos com os demais veículos de comunicação (tanto da imprensa alternativa como da grande imprensa), com os intelectuais associados ao mundo acadêmico e, num país onde se tentava recuperar as práticas políticas democráticas, com os políticos e especialmente com os movimentos de esquerda.
Os primeiros 23 números de Versus foram publicados sob a coordenação de seu fundador e editor chefe, Marcos Faerman3. Os 11 números restantes saíram sob as ordens da organização trotskista Convergência Socialista. Durante sua primeira fase, a aposta ideológica de Versus se realizou com uma inegável renovação da linguagem jornalística e editorial, um meticuloso esforço criativo e um cuidado gráfico especial. A perda dessas características foi ocorrendo à medida que a revista passava das mãos de Faerman e sua equipe de colaboradores ao controle da Convergência Socialista, que acabou por reduzi-la a um veículo de difusão e propaganda partidária.
Os 34 números de Versus merecem, indubitavelmente, uma análise concentrada e sistemática. No entanto, a opção que escolhi para refletir sobre a revista e responder às perguntas anteriormente colocadas sustentar-se-á sobre o caminho indicado por alguns de seus editoriais e pela revisão pontual de artigos escolhidos. Na análise desses textos poderemos observar as diferenças ideológicas e formais entre a primeira e a segunda etapas de Versus. Poderemos entender um pouco mais acerca das relações entre jornalismo, política e cultura durante os anos 1970 e igualmente compreender como, durante o governo do general Geisel, a partir de 1974 – quando o próprio presidente anunciava e defendia habilmente uma certa distensão, lenta e gradual –, as opções de ação política que as esquerdas vislumbravam passavam pela reconstrução do sistema partidário e pela necessária busca de veículos de comunicação que atuassem como seus porta-vozes.
IMPRENSA ALTERNATIVA: UMA MANEIRA PECULIAR DE RELACIONAR CULTURA E POLÍTICA
Não é nenhum segredo que a grande imprensa, parte constituinte dos setores mais conservadores e poderosos da sociedade brasileira, foi conivente com a ditadura militar. Os grandes jornais e as cadeias de rádio e televisão se colocaram a serviço dos protagonistas do golpe, atuando eles também como protagonistas. A chamada imprensa alternativa, ou nanica4, surgiu precisamente como uma alternativa, dentro das limitações de seu espaço de ação e alcance, à hegemonia da grande mídia. Segundo Bernardo Kucinski, “entre 1964 e 1980 nasceram e morreram cerca de 150 periódicos que tinham como traço comum a oposição intransigente ao regime militar” (Kucinski, 1991: xiii). Para o autor, a imprensa alternativa identificava-se com o combate político-ideológico à ditadura. Criticava o projeto econômico do governo, em oposição à euforia gerada pelo milagre brasileiro, e denunciava a tortura e as violações dos direitos humanos, tema ausente nos grandes jornais.
Durante os anos 1960 e 70, associados, definitivamente, os interesses da burguesia industrial aos da oligarquia agrária, implementou-se na mídia “uma política criadora do silêncio, ao operar seus esquemas de modernização social como máscara, para o modelo de concentração” (Ibid.: xxiii). Desapareceram muitos jornais por pressões políticas, problemas financeiros ou pelas duas coisas, e o mercado passou a se concentrar num número cada vez menor de empresas cada vez maiores. Na sombra do AI-5, criou-se uma legislação autoritária que, entre outras ações, não só estabeleceu o assalariamento dos jornalistas, como impôs a exigência do diploma profissional para o exercício de suas funções5.
Luís Eblak (2002: 127) rememora o período, observando como a forte divisão de trabalho, a perda da autonomia dos repórteres frente aos editores e a imposição paulatina do lide mudaram a estrutura do trabalho jornalístico e a dinâmica das redações. Segundo o autor, o lide era visto por muitos, como o próprio Faerman, como uma forma de burocratizar o texto e de limitar a criatividade dos jornalistas6. Nas décadas de 1960 e principalmente 1970, lutar contra a burocratização do texto, contra a ditadura do lide era lutar contra a ditadura da industrialização da imprensa, contra a massificação da informação e contra a falta de autonomia dos jornalistas, já vigiados e perseguidos pela censura e pelos agentes do Estado (Ibid.: 32). A imprensa alternativa se abria como um espaço mais ventilado para aqueles que desejavam se libertar das restrições da nova grande imprensa, ainda que dela necessitassem para sobreviver7.
Voltemos aos periódicos alternativos. Kucinski (1991) os dividiu em duas grandes classes. A primeira delas reunia os jornais e revistas predominantemente políticos, geralmente pedagógicos e dogmáticos, com raízes nos ideais de valorização do nacional e do popular dos anos 1950 e no marxismo vulgarizado dos meios estudantis dos anos 1960. Na segunda, estavam as revistas e jornais criados por jornalistas que rejeitavam o discurso ideológico. Influenciados pelos movimentos de contra-cultura americanos, pelo existencialismo de Sartre, por filósofos como Foucault, pela psicanálise, investiam principalmente contra o autoritarismo na esfera dos costumes e contra o moralismo hipócrita da classe média (Ibid.: xix-xv), da qual, diga-se de passagem, provinha a grande maioria dos seus leitores. Uma terceira vertente, pouco estudada por Kucinski, mas analisada por Araújo (2000: 159-182), foi a da imprensa associada aos movimentos sociais e às minorias de gênero e étnicas. A imprensa feminista teve um papel fundamental nos anos 1970, atuando como ponta de lança na criação e difusão de muitas das concepções políticas alternativas que marcaram o período. As editoras dos dois principais jornais feministas do país – Brasil Mulher (1975-1980) e Nós mulheres (1976-1978) – dedicaram suas pautas a temas como a necessária junção entre a busca da emancipação feminina e a luta pelo fim da ditadura e estimularam a discussão da relação entre as esferas do público e do privado associadas às políticas públicas. A imprensa negra também foi fundamental. Lutando com muito mais dificuldades financeiras que as demais publicações alternativas, jornais como Tição (1978-1982) . Sinba (1977-1980) foram defensores da causa da emancipação dos negros e da luta pelo fim do racismo no Brasil8.
Os jornais e revistas alternativos reuniam jornalistas profissionais e incluíam intelectuais e escritores em busca de um espaço de visibilidade e atuação político-cultural mais amplo que os circuitos literários e acadêmicos. Conformavam um espaço de caráter coletivo, com uma rede de sociabilidades feita de identidades e divergências. Lugar da consolidação de trajetórias individuais e também da manifestação de movimentos intelectuais e artísticos, alguns periódicos surgiram em torno de um ou dois nomes centrais, outros a partir de um grupo maior. Alguns foram longevos e outros não conseguiram sobreviver a dois ou três números; vários só se publicaram uma vez. De qualquer forma, as revistas e jornais alternativos sempre foram projetos coletivos e resultado das tentativas de intervenção pública e de ação política e cultural dos grupos que os editaram.
O tema dos jornais e revistas é o seu presente. Observar esse presente implica proceder a uma espécie de imersão em suas páginas a fim de entender a sua inserção política, papel social, função cultural, projeto estético e, principalmente, a vitória ou o fracasso de suas apostas ideológicas na época em que circularam. Em um texto fundamental sobre revistas e redes intelectuais, Beatriz Sarlo afirma: “nada é mais velho que uma revista velha” (1992: 9). No entanto, como enfatiza a argentina, para os olhos dos historiadores e críticos literários, o momento presente que as revistas velhas revelam é iluminador para responder às questões que, a partir de seu próprio presente, os seduzem e inquietam. As revistas conservam as provas de como um grupo de pessoas pensou o futuro, a partir daquilo que um dia foi presente. Justamente por isso, podem se transformar em uma fonte importante para a história intelectual, literária e cultural e para aqueles que procurem entender as relações de força, poder e prestígio no campo cultural, literário e intelectual em determinado período (Ibid.: 15).
Nesse sentido, partindo de Sarlo, busquemos entender o lugar político e cultural dos periódicos alternativos durante a ditatura militar brasileira e tentemos descobrir algo de seus projetos para o futuro. Usando a classificação de Kucinski (1991), podemos afirmar que a imprensa alternativa brasileira – tanto os periódicos políticos quanto os culturais – nutria-se simultaneamente do impulso jornalístico dos seus criadores e do apelo revolucionário inerente às décadas de 1960 e 70. Em tal contexto, segundo o autor, os jornais alternativos funcionaram primeiro como “instrumentos de Resistência ou de uma revolução supostamente em marcha”, para ir paulatinamente transitando da política clandestina à política de espaço público, chegando a conquistar “parte do movimento popular de base” (Ibid.: xvi). Para Kucinski (1991: xvi-xvii), a imprensa alternativa se tornou o principal espaço de reorganização política e ideológica das esquerdas, o que confirma a sua importância no contexto político-cultural brasileiro, nas condições específicas do autoritarismo.
Como sabemos, a partir da publicação do AI-5 por Costa e Silva e sob a presidência de Médici, iniciada en 1969, a mano dura dos militares se alçou contra os movimentos sociais e reprimiu, com um custo social e político enorme, as organizações políticas clandestinas e a guerrilha urbana e rural. Sob Geisel, o país ainda continuou sendo palco de fortes operativos de repressão e assassinatos políticos. A morte do jornalista Vladimir Herzog em outubro de 1975, nas instalações do DOI-CODI em São Paulo, suscitou o protesto de vários setores da sociedade civil, inclusive da igreja católica, e foi o detonante de um movimiento social e político mais amplo contra a ditadura, que foi crescendo paulatinamente em todo o país.
Foi justamente neste período que se incrementou o número de títulos de jornais e revistas alternativos9. Muitos funcionaram como uma espécie de frente editorial, sem uma verdadeira unidade ideológica (Belluco, 2014). Vários passaram por conflitos ideológicos internos que causaram rompimentos e a consequente fundação de novos e efêmeros jornais. A busca de uma maior projeção fez como que muitos alternativos utilizassem o sistema nacional de distribuição da Editora Abril. Mas, com as condições draconianas impostas pela editora, raros eram os que conseguiam vender mais do que a tiragem mínima exigida para a distribuição nacional e auferir algum lucro (Kucinski, 1991: xviii). Ao contrário da grande imprensa, mais e mais atrelada às verbas da propaganda, os alternativos não podiam contar com o apoio de grandes anunciantes. Dispunham somente de um sistema de assinaturas sustentado por simpatizantes e uma rede de militantes dispostos a distribuí-los.
De qualquer maneira, o país começava a mudar e o papel da imprensa alternativa também. Durante a transição de Geisel a Figueiredo, em consequência tanto da crise econômica quanto do crescimento do chamado novo sindicalismo, o movimento grevista ressurgiu e voltaram com intensidade à pauta de discussão as limitações do sistema bipartidário imposto pelos militares. Em 1978, para manter o controle político do país, Geisel revogou várias leis de exceção, incluindo o AI-5. Nesse mesmo ano, fundou-se o primeiro Comitê Brasileiro pela Anistia, reunindo diversas correntes políticas de oposição, familiares de presos políticos e setores progressistas da igreja católica. Em 1979, Figueiredo promulgou uma lei de anistia que, embora tenha sido estruturada para proteger os militares, propiciou a soltura dos presos políticos e o regresso dos exilados. Se a oposição não se satisfez com essas mudanças, os setores mais radicais do governo simplesmente as reprovaram e começaram a articular-se contra elas.
Ainda assim, a abertura política foi ceifando o regime autoritário. Em 1979, surgiu um importante movimento pró-PT, que se expandiu e ganhou visibilidade no campo político-cultural. O Partido dos Trabalhadores, fundado no ano seguinte, com o fim do bipartidarismo, reuniu em suas fileiras católicos, comunistas, socialistas, sindicalistas, jornalistas, artistas, intelectuais e estudantes. Segundo Kucinski (1991), o surgimento de um partido com tais características rompeu “a dualidade entre espaço clandestino e esfera pública, entre vanguarda e massa” (Ibid.: xxix) e enfraqueceu as agremiações e partidos de passado clandestino e caráter doutrinário e, consequentemente, os jornais alternativos que os representavam.
Quanto a estes, embora continuassem analisando os novos partidos e movimentos sociais e oferecendo espaço ao feminismo e ao movimento negro, e ainda que mantivessem uma crítica constante ao governo militar e combatessem os regimes ditatoriais da América Latina, isso tudo já não era, por assim dizer, sua prerrogativa. A censura à grande imprensa e aos alternativos diminuía paulatinamente10. Com isso, os grandes jornais voltaram a abrir espaço para os temas que haviam deixado de lado durante muito tempo.
Poderíamos pensar que o surgimento dos jornais alternativos foi, de certa forma, fruto da própria ditadura. Com o lento, mas constante, esfacelamento desta, a imprensa alternativa perderia as suas funções de denúncia e combate. Neste novo contexto, ao perder o monopólio da crítica, o que lhe restaria?
Durante a segunda metade dos anos 1970, principalmente entre as publicações que Kucinski (1991) classificou como explicitamente políticas, o tema da representação dependia da luta entre as distintas correntes de esquerda que nelas se albergavam. Assim, o aparelhamento dos periódicos por determinada facção ou corrente determinava o seu público e contribuía para delimitar e, também, para limitar a sua circulação.
No entanto, não podemos negar que os periódicos alternativos continuaram incomodando os setores mais radicais do regime. Paralelamente a essa espécie de canibalização interna, impulsada pela luta ideológica, responsável por seu enfraquecimento, os alternativos também sofreram ataques de grupos anticomunistas e de membros do exército e das polícias estaduais e federal. Da campanha dos setores mais retrógrados e radicais do regime partiram não só os ataques terroristas contra jornais alternativos e bancas de jornais, como as bombas depositadas nas sedes da ABI (1976) e da OAB (1976 e 1980) e ataques a eventos artísticos como o felizmente frustrado atentado ao show do Riocentro no dia 30 de abril de 1981. No que se refere especificamente à perseguição às publicações alternativas, os militares e grupos de extrema direita que ainda ocupavam o aparato estatal ou simplesmente apoiavam o regime adotaram duas estratégias: a primeira foi a difusão de dossiês contra a ação subversiva das publicações. A segunda – muito mais eficaz – foi a realização de devassas contábeis e cobrança de débitos previdenciários, com o objetivo de arruiná-las financeiramente.
Tamanha ação contra a imprensa alternativa indica que a sua presença incomodava e que, apesar de chegar concretamente a um público numericamente limitado, o eco político e cultural de seu apelo era grande. No entanto, um elemento que não podemos esquecer para entender por que os jornais alternativos praticamente desapareceram antes do final da ditadura se relaciona com a já mencionada institucionalização da atividade jornalística, que também ocorreu no âmbito alternativo, contribuindo para comprometer o protagonismo dos jornais alternativos, tanto os de caráter político-partidário, quanto os de crítica cultural. Os sindicatos, os novos partidos políticos, os movimentos populares relacionados à igreja católica, à Central Única dos Trabalhadores e a outras entidades passaram a ter seus próprios jornais. Em tal contexto, creio que a ruptura da “dualidade entre espaço clandestino e esfera pública, entre vanguarda e massa”, que Kucinski (1991: xxix) detectou no surgimento do PT, também pode ser observada na fundação e no crescimento dos jornais dos partidos e movimentos de base. Ao defenderem pautas associadas às suas agremiações, legítimas, mas não necessariamente representadas pelos jornais alternativos, os veículos oficiais de difusão dos movimentos populares e sindicais e dos novos partidos políticos responderam às demandas de seu público específico e retiraram da imprensa alternativa o seu papel exclusivo de vanguarda política.
Além disso, os jornalistas, que já haviam perdido grande parte de sua autonomia com os processos de assalariamento, padronização e industrialização da imprensa, anteriormente mencionados, sofreram aqui outra perda de autonomia, ao ter que se adequar à pauta das instituições que os contratavam praticamente como funcionários. Nesse novo tipo de imprensa dificilmente haveria pautas coletivas ou se preservaria a independência de ação dos repórteres, elementos tão caros aos alternativos. O pragmatismo venceria a liberdade, a pauta seria definida pelos donos da voz, seja a direção sindical, seja o partido, seja a instituição. Em contrapartida, e curiosamente, a grande imprensa passou a adotar muitos dos procedimentos dos alternativos, principalmente nos seus suplementos culturais11. A cultura se consolidou, definitivamente, como um produto de mercado.
Assim, não é possível afirmar que o desaparecimento da imprensa alternativa deveu-se simplesmente ao fim da ditadura, inclusive porque ela acabou oficialmente em 1985 e os jornais alternativos começaram a desaparecer em 1979. Poderíamos pensar, por um lado, que os projetos nacionais de muitos destes periódicos ficaram à deriva, numa sociedade em efervescência, na qual o inimigo comum que polarizara a ação das esquerdas deixava, agora, de dirigir o debate e indicar as estratégias de resistência. Por outro lado, o sectarismo e o autoritarismo de muitos jornais alternativos contribuíram para que fossem definhando, com o apoio de uma militância cada vez menor. Para Kucinski (1991), o surgimento da imprensa alternativa dos anos 1970 foi uma das últimas grandes manifestações da utopia no Brasil. Se assim foi, podemos entender esta imprensa como o resultado da combinação entre um certo voluntarismo, a defesa de um um projeto de transformação social e, nas palavras do autor, “a crença na realização pessoal através da ação coletiva ou comunitária” (Ibid.: xxvii).
Inegavelmente, a imprensa alternativa dos anos 1970 conseguiu estabelecer pontes entre a sociedade, as correntes políticas e culturais e os movimentos sociais que se encontravam solapados e vigiados. É importante notar como estes jornais se consolidaram como veículos efetivamente alternativos às verdades impostas pela ditadura e como contraponto à grande imprensa e aos meios eletrônicos. As dificuldades financeiras, a censura, a perseguição e os ataques do regime nunca foram capazes de calá-los completamente. Ainda que muitas vezes o seu editorialismo programático se visse questionado publicamente pelos artigos de seus próprios colaboradores, o que evidenciava as suas contradições ideológicas e a lutas políticas internas, os jornais alternativos se mantiveram como verdadeiros baluartes político-culturais, simultaneamente polos emissores e campo de intersecção de propostas (Crespo, 2011: 107). Por isso mesmo, ocuparam um lugar fundamental no campo cultural e intelectual brasileiro no período. Marcaram um caminho de crítica permanente, questionando as supostas neutralidade e imparcialidade que os grandes meios de comunicação sempre preconizaram, pautados nos princípios liberais que os estruturaram – e continuam estruturando – como empresas capitalistas fornecedoras de notícias.
Os jornais alternativos sempre assumiram o seu lugar de enunciação específico, com a defesa explícita de ideias e projetos políticos alternativos, contraculturais e/ou revolucionários. Foram defensores e eventualmente porta-vozes de grupos subalternos e de minorias étnicas. Abriram um espaço importante para a agenda dos movimentos feministas e homossexuais. Em suma, foram a voz dissonante de um período marcado pela ditadura. Foram a voz dissonante no momento em que a indústria cultural, estimulada pelos militares, concluía seu processo de consolidação no país. A partir de seus projetos políticos e culturais (com suas especificidades e também com suas limitações ideológicas), contribuíram para a construção e manutenção de uma atmosfera crítica, que foi importante para o lento regresso do país à vida democrática.
Se, em seu afã transformador e inclusive revolucionário, a imprensa alternativa se caracterizou pela ousadia e também pela generosidade, elementos como a massificação da cultura e o retorno do exercício político via movimentos sociais, sindicais e partidários (que tanto estimulou) fizeram dela um ator cada vez menos necessário dentro do novo cenário político que se criava no país, contribuindo para sua desaparição. Versus, como todas as demais publicações alternativas, não foi capaz de responder às transformações do campo cultural e às novas demandas da política.
VERSUS: UM JORNAL DE AVENTURAS, IDEIAS, REPORTAGENS E CULTURA

O primeiro número de Versus publicou-se no dia 22 de outubro de 1975, três dias antes de que o corpo sem vida do jornalista Vladimir Herzog fosse encontrado no DOI-CODI de São Paulo. Versus não noticiou o assassinato de Herzog pelas forças militares em seu número 2, de dezembro de 1975. O desaparecimento do jornalista, seu interrogatório e assassinato surgiriam muito depois. Primeiramente, no editorial de seu número 18 (fevereiro de 1978). Nele, a revista recordava haver surgido “numa dura circunstância de censuras e arbitrariedades, quando – situação símbolo e limite – Herzog transformava-se em um exemplo de uma circunstância intolerável e agônica” (Versus, 18, fev. 1978: 2). Cinco meses depois, Herzog voltaria a ser tema da publicação, agora em forma de poesia, na coluna coordenada pelo poeta Cláudio Willer, no número 23, de julho de 1978. Coincidentemente ou não, o assassinato de Herzog foi tema do último número editado por Marcos Faerman, antes de sua expulsão da revista que criara, por membros da Convergência Socialista12. O poema “Perícia para Vladimir Herzog”, do jovem poeta Ricardo G. Ramos, já havia sido declamado temerariamente por seu próprio autor no Teatro Municipal de São Paulo, em novembro de 1976, como contava Willer na apresentação da coluna13.
A morte de Herzog não foi noticiada em Versus, porque Versus não era um jornal de notícias. A presença de Herzog e tudo o que representou a sua morte para o país foram trabalhados pela publicação de uma outra maneira, com outro tipo de sensibilidade. Seus editores, que já haviam anunciado, no selo publicado no alto da capa do primeiro número, que Versus era um “jornal bimestral de reportagens, ideias e cultura”, acrescentariam a esse selo uma nova palavra-chave. Em seu número três (março/1976), Versus passava a ser “um jornal de aventuras, ideias, reportagens e cultura”. Só deixaria de sê-lo a partir do número 19 (mar.-abr. 1978), quando, já sob o domínio crescente da Convergência Socialista, seria apenas e simplesmente “um jornal de política, cultura e ideias”. Com essa mudança de rumo, adeus reportagens, adeus aventuras, bem-vindas a política séria e a opção pelo tratamento de assuntos realmente importantes, como a crítica à sociedade burguesa e a construção de um partido revolucionário no país14.
A decisão de criar um novo periódico dedicado a reportagens e artigos de fôlego, intelectualmente elaborados, a partir de uma evidente posição de dissidência, inclusive no âmbito das próprias esquerdas, marcou o grupo fundador de Versus. É importante acompanhar a trajetória de Versuspara poder entender o papel que cumpriu no campo cultural brasileiro durante o período em que circulou e, também, para refletir sobre a própria estrutura da revista a fim de poder, então, retomar as perguntas colocadas na introdução deste artigo.
UM NECESSÁRIO PARÊNTESE
Antes de prosseguir, porém, reflitamos sobre uma questão aparentemente terminológica. Quando falamos da imprensa alternativa normalmente pensamos em jornais e em revistas. O que distinguiria os primeiros das segundas? Vários periódicos alternativos foram semanários, enquanto outros obedeceram a prazos de circulação mais amplos e muitos não chegaram a respeitar uma temporalidade definida, quase que invariavelmente devido a dificuldades financeiras. Curiosamente, quase nenhum deles se apresentava como revista. Versus, como já vimos, se anunciava como jornal, apesar de concentrar todas as características normalmente associadas às revistas: periodicidade dilatada; manutenção de um número de páginas fixo (cerca de 40 páginas por edição); produção editorial cuidadosa; inovação permanente da parte gráfica, com páginas muito bem construídas espacialmente, ilustrações e charges elaboradas e espaço privilegiado para histórias em quadrinhos; pauta construída sobre densas reportagens, artigos opinativos e entrevistas dinâmicas e inteligentes.


Recordemos que um dos elementos que distinguem as revistas dos jornais, apesar de ambos fazerem da intervenção conjuntural a sua razão de ser, refere-se à questão do tempo. Enquanto os jornais trabalham com os fatos no calor da hora, o tempo das revistas costuma ser menos rígido e urgente. Menos submetidos ao imediatismo das notícias, os editores das revistas reservam aos temas e fatos que decidem trabalhar um tempo de elaboração maior e um espaço material (número de colunas ou páginas) eventualmente mais amplo. Isso resulta na criação de textos mais analíticos e amplia a importância dos autores que firmam seus próprios textos e mantêm uma certa autonomia, embora normalmente aceitem ou compactuem com a linha editorial da publicação. As revistas, como os jornais, fazem a crônica de sua própria circunstância, mas a partir de uma perspectiva um pouco mais pausada. Além disso, colocam-se numa zona por assim dizer híbrida, pois pertencem simultaneamente ao espaço jornalístico e ao campo artístico-intelectual (Crespo, 2011: 99-100)
Em seu primeiro editorial, publicado no número 6 (outubro de 1976), exatamente um ano depois do lançamento da revista, os editores de Versus cumpriram duas tarefas15. No texto intitulado “Aniversário”, recordaram o nascimento da revista “num cenário sombrio” e anunciaram a proposta que os moveu a fundar uma publicação como Versus:
fazer um jornal brasileiro assumindo a América Latina. Em que a busca de nossas raízes fosse um programa. No qual a História seria um tema tão importante quanto “as novidades”. Um jornal sem vergonha de assumir a reflexão e a cultura, num momento em que na grande imprensa Letras, Artes e Pensamento eram relegados à condição de “variedades”. (Versus, 6, out. 1976: 2)
Esta proposta, que orientou, como programa editorial, os 23 números da primeira fase de Versus (e, em especial, os 12 primeiros) implicava a adoção de uma postura evidentemente política. Uma postura marcada pelo próprio nome escolhido para a publicação: Versus, preposição que indica oposição, originária do latim, presente, com a mesma grafia, em línguas latinas e indo-européias. Para que não houvesse nenhuma dúvida, Versus se anunciava e se estruturava como oposição, como um instrumento de reflexão contra a realidade em que circulava, contra as versões dos fatos veiculadas pela mídia colaboracionista, contra o programa econômico e político da ditadura brasileira, contra as ditaduras do resto do continente, contra as injustiças da ordem capitalista e contra, também, as ortodoxias da esquerda.
Talvez as posturas aguerridas de um periódico contra se adequassem mais àquilo que tradicionalmente se associava e se esperava de um jornal, ajudando a explicar o incômodo dos editores: “não sentíamos Versus como ‘uma revista literária’. (Algumas vezes, assim fomos chamados – e isto nos aborreceu.) Nem como uma ‘revista cultural’”.
A desqualificação associada às revistas literárias e culturais se entende em um contexto como o da segunda metade dos anos 1970. A forte repressão, as garras da censura, a busca de uma posição de ataque à dominação político-ideológica sofrida por todas as forças de oposição requeririam mais do que aquilo que se pensava que uma revista literária ou cultural era capaz de oferecer. E, claro, estamos falando aqui de uma definição, por assim dizer, tradicional de literatura e de cultura, totalmente desvinculadas da política, definição comum entre o público leitor e também entre muitos militantes de esquerda.
A postura dos editores de Versus é significativa nesse sentido: de acordo com o texto, não lhes agradava serem definidos como uma revista literária ou cultural, “talvez porque nosso conceito de cultura nos conduzisse a outros caminhos. Versus queria construir o seu próprio espaço. Este era o desafio”.
O editorial “Aniversário” é particularmente importante porque apresenta aos leitores a trajetória da publicação ao longo de um ano e o seu percurso de construção e consolidação como jornal, pensado em termos de engajamento político e de coerência editorial com a linha ideológica escolhida:
A perspectiva de Versus foi educando os seus editores. Num processo integrado, a prática de nosso trabalho nos ensinou a respeito do que queríamos. A aproximação com os mundos hispano-americanos ia abrindo, paralelamente, a trilha que nos conduzia à vida, à criação e aos dramas de nosso próprio povo. Tudo passava a se integrar num proceso único de procura de caminhos. Por um jornal profundamente brasileiro, latino-americano, popular nas pesquisas e nos anseios, apoiado numa consciência crítica e democrática. (Versus, 6, dez. 1972: 2)
O editorial avança, esclarecendo o público leitor acerca de seu estilo, sua explícita decisão em não participar das “igrejinhas intelectualistas” e seu sociologuês e economês, expondo ímpeto e paixão ao misturar “Cortázar e Histórias em Quadrinhos, Futebol e reflexões sobre o colonialismo cultural – memórias de um operário nordestino devorado por São Paulo [...] e uma entrevista com Michel Foucault (que Foucault adorou)”.
Se os editores de Versus o anunciavam como um jornal especial, feito de “aventuras, reportagens, ideias e cultura”, tinham que considerá-lo um veículo alternativo tanto à grande imprensa e seus suplementos de “variedades”, quanto às revistas literárias e culturais aprisionadas em visões quadradas de cultura e literatura. O grupo de Versus, capitaneado por Marcos Faerman, partia da cultura e da literatura em sua ligação com o fazer, o pensar e o criar, em todas as suas implicações. Como outras publicações do período, Versus adotou uma perspectiva de esquerda crítica, assumindo a urgência de buscar alternativas às visões oficiais da direita e também da esquerda ortodoxa. Em sua primeira etapa, ao se definir como um jornal em que a cultura e a aventura se mesclavam, também colocou em xeque os conceitos arraigados de uma oposição não acostumada a sair de sua zona de conforto (com perdão pelo termo, anacrônico para a época). Entender e incidir sobre a sociedade a partir de outras perspectivas foi a aposta desta revista simultaneamente cultural, literária e política que, como já comentamos, dados o contexto e suas idiosincrasias, preferia definir-se como jornal.
Fechemos o parêntese e voltemos à história de Versus que, a despeito dos seus editores, preferirei continuar tratando como a revista que, tecnicamente, foi. Ao circular em um momento em que a repressão, a censura e a incerteza ainda eram grandes no país, a revista refletiu a necessidade de um grupo de jornalistas de transformar o seu exercício em uma prática realmente alternativa. A figura de Marcos Faerman foi fundamental para os rumos da publicação. Entre a cultura e a política, numa trajetória que se dava num processo de crescimento e colaboração entre os produtores de cada um de seus números, a revista foi publicada durante quatro anos (outubro de 1975 a outubro de 1979). Inicialmente planejada para sair bimestralmente, seus editores nunca respeitaram essa periodicidade de maneira rígida.
Como mencionei anteriormente, foram 34 números divididos basicamente em duas etapas. Vários autores, com os quais estou de acordo, preferem que essas etapas sejam três (Eblak, 2002; Buchioni; Ogassawara, 2009; Candido, 2008). Assim, a primeira delas divide-se em duas: os primeiros 12 números, de outubro de 1975 a julho de 1977, mantêm uma unidade editorial e harmonia inquestionáveis. Percebem-se a obediência a uma proposta de inserção cultural e a construção de um projeto de reflexão que se desenvolve e cresce a cada número, oferecendo ao leitor uma publicação rica, propositiva e coerente. Nesta etapa, a presença da América Latina é intensa e tematicamente diversificada. A partir do número 13, a perspectiva de uma atuação política mais imediata e incisiva da publicação surgiu, com a sedutora argumentação dos trotskistas e o seu tradicional entrismo, recebendo a adesão de Marcos Faerman. Seu passado de militante (primeiro do PCB e depois do POC, Partido Operário Comunista), e o seu entusiasmo pela volta de Leonel Brizola, a quem dedicou uma longa matéria na revista (Versus, 18, fev. 1978: 3-5) devem haver pesado em sua decisão.
A partir do número 13, a unidade editorial de Versus truncou-se, ainda que não completamente. Quanto aos editoriais, observamos que passam a ser muito mais frequentes a partir do número quinze (de outubro de 1977) e se esforçam por explicar e justificar os rumos que Versus vai tomando ao longo do tempo. Uma fase de transição se abre nessa etapa, rumo à politização da revista (Buchioni; Ogassawara, 2009: 97) e, a partir do número 24, com a saída de Faerman, rumo à descaracterização de seu projeto político e editorial. A América Latina deixaria de ser o eixo organizador das páginas da revista, que dará prioridade à discussão da política nacional.
A presença de Marcos Faerman norteou a publicação, inclusive quando ele deixou de dirigi-la, devido à inevitável comparação entre o que era a revista sob sua direção e inspiração e o que se tornou depois. À medida que a influência dos membros da Convergência Socialista e de seu líder, Jorge Pinheiro, foi-se incrementando, o frescor, a leveza e a criatividade de Versus foram diminuindo16.
Aqueles que se aproximaram de Versus e começaram a segui-la pelo enfoque inovador que deu a temas associados à cultura e à sua relação com a política, aqueles que a compravam para conhecer autores e temas latino-americanos, aqueles que se encantaram com a possibilidade de ler “um jornal de aventuras, ideias, reportagens e cultura” certamente se desiludiram com aquilo em que Versus se transformou: uma revista de propaganda ideológica e de denúncias, um tanto ranzinza, porta-voz de um grupo político com pouca circulação entre a classe média ilustrada que, por questões sociais e econômicas, sempre foi – como já vimos – o público primordial da imprensa alternativa.
A ênfase do grupo trotskista nas limitações da cultura como ferramenta para compreender e incidir sobre a realidade começou a surgir ainda sob a direção de Faerman, com uma mudança de rumo indicada no editorial publicado no número 17 (dezembro de 1977). O texto, intitulado, significativamente, “Luta contínua. Um partido socialista no Brasil?”, apresentava o posicionamento político da revista frente ao contexto político nacional imediato e anunciava um corpus de matérias determinado a convencer os leitores da pertinência de sua própria defesa da contrução de um partido socialista (Versus, 17, dez. 1977: 24). Agora, a sociologia e a ciência política passam a ganhar mais espaço, vencendo a antiga má vontade da revista, em sua “opção pela cultura como forma de ação”, contra o sociologuês e as teorizações vazias. O editorial anuncia uma entrevista com Chico Pinto, do grupo dos autênticos do MDB, um depoimento do sociólogo José Álvaro Moisés e uma entrevista com Fernando Henrique Cardoso.
Segundo o editorial, com a publicação desses três textos, Versusoferecia sua contribuição ao debate político nacional e inaugurava uma nova etapa. Conforme os editores, Versus surgira como um novo espaço de discussão, ao pensar a questão continental; assimilara a linguagem e o pensamento sociológico a partir do número 7 (dezembro de 1976)17 e, a partir do número 14 (setembro de 1977), abrira espaço à reflexão política explícita, com a entrevista a Almino Afonso, ex-ministro do Trabalho de João Goulart, que quebrara um jejum de 13 anos em suas páginas18. Agora, continuava o editorial: “Versus se dispõe a integrar estas três linguagens: a da cultura como forma de ação, a reflexão sociológica e a discussão da instância diretamente política”. Ao refletir especificamente sobre o tema dos partidos políticos, o desafio estaria, segundo os editores, em saber como construir uma oposição com um programa político, social e cultural novo. Como podemos notar, Versus entrava de cheio em sua etapa militante, o que teria consequências importantes para ela, para Faerman e para o grupo de jornalistas e colaboradores que o apoiaram desde o início e que se sentiam descontentes com essa mudança de rumo.
PERCORRENDO A TRILHA DE VERSUS EM SEUS EDITORIAIS
O editorialismo programático de uma publicação não se restringe, evidentemente, aos textos especificamente associados a este gênero jornalístico. Para estudá-lo e apreendê-lo é preciso observar o conjunto dos elementos – formais e de fundo – que constituem a publicação, da formação das páginas às ilustrações de cada texto, passando pelo tema fundamental da autoria. O conjunto dos números de uma revista oferece à análise do estudioso esse editorialismo, de maneira explícita e implícita. É possível captá-lo nos números de Versus, evidentemente, e confirmar, por exemplo, a sua já mencionada divisão, por questões ideológicas e formais, em duas etapas distintas. No entanto, a análise específica dos textos editoriais nos oferece caminhos muito interessantes de reflexão. Façamos, pois, este percurso.
Se, como vimos anteriormente, o primeiro editorial de Versus apareceu somente um ano depois de sua publicação, sob o título pouco criativo de “Aniversário”, o segundo surgiu já no número seguinte, de dezembro de 1976. Quanto a este segundo editorial, conforme os autores, a decisão de escrevê-lo deveu-se a que Versus passaria a ser distribuída nacionalmente. Por isso, era necessário contar aos novos leitores espalhados pelo país algo de sua história e proposta.
O editorial, intitulado “Aos leitores”, reafirma, na linha do anterior, que um grupo de jornalistas e intelectuais concluíra “que era necessária uma publicação voltada para o presente, o passado e o futuro de nosso continente”, pois desde os tempos coloniais recusáramos nosso “ser continental” (Versus, 7, dez. 1976: 2). Recorda que a colonização gerara heróis que, na realidade, aqui chegaram para explorar, dominar e escravizar. Com a ocupação militar viria “a destruição das culturas nativas. Incas, Maias e Astecas, a sua (nossa) memória destruídas milimetricamente”.
Como parte de sua busca pelos “arquétipos de nossa identidade”, Versus se pergunta: “Onde está Nossa América? Nas flautas de nosso índios? Nas ruínas dos Sete Povos das Missões? Na pele de um emigrante nordestino? No medo de um fuzilado de Buenos Aires? Nos escritos de José Martí? No testamento do Padre Burnier? Em Zapata, San Martín, Bolívar?”
Segundo o editorial, essa busca pela identidade levou os repórteres de Versus a percorrer vários países da região. Os textos da revista “fluíram por quatro séculos e meio” e o olhar dos seus colaboradores dirigiu-se não só ao Brasil e ao continente, como à África de hoje e de ontem, em busca de uma memória que também continuava injustamente soterrada pelo colonialismo destruidor. Versus proclama suas propostas e o seu próprio papel: “História Viva. Cultura Viva. Abertura para as expressões humanistas”. E afirma, sem falsa modéstia, que sua maior contribuição foi “ter aberto um espaço para a reflexão”, vivendo exclusivamente de seus leitores, e até quando seja necessária.
Percebe-se, nesse segundo editorial, basicamente a confirmação do programa enunciado no anterior. E observamos em ambos a mesma euforia: no primeiro, pela tiragem de 25 mil exemplares, no segundo, pela possibilidade de chegar a todo o país, com a contratação de uma distribuidora nacional. Para tempos difíceis, as conquistas possíveis e, mais que isso, a manutenção de um projeto e do incremento no número de seus adeptos.
O seguinte editorial demoraria cinco meses para sair. No número 10, de maio de 1977, também sob o título prosaico de “Aos leitores”, na mesma página 2 dos anteriores, os editores de Versus iniciam o texto com a árdua tarefa de explicar o aumento no preço da revista. A inflação galopante, o escasso, ainda que fiel, número de anunciantes, os custos da revista, que aumentaram em 70%. Com un certo humor intelectualizado, recordariam sua “vocação de publicação pobre, pelo menos no miserável terreno da materialidade das coisas”, fazendo menção ao Graciliano Ramos das Memórias do Cárcere .Versus, 10, mai. 1977: 2).
Este editorial, em estilo direto, presta conta aos leitores: a revista já se distribui nas bancas do país, só é preciso insistir com os jornaleiros para que a peçam e vendam. Versus também lhes assegura que continua mantendo “a fidelidade à sua proposta latino-americanista e popular”. A revista anuncia que publicará crônicas de Eduardo Galeano, “autor de Venas abiertas de América Latina, antigo diretor de Crisis, de Buenos Aires dos velhos tempos”, e as cartas de Eric Nepomuceno, “outro jornalista latino-americano, este brasileiro”, que mandará suas contribuições da Europa, como Galeano, lá exilado.
Finalmente, faz alguns comentários sobre a continuidade no programa editorial lançado nesse mesmo ano de 1977, a Coleção Testemunhos. Versus decidira adotar um projeto que poderíamos definir como uma velha tradição entre as revistas de caráter político-cultural: a criação de uma editora para publicar obras de maior fôlego de seus próprios colaboradores e de autores ideologicamente identificados com o seu projeto19.
Este editorial abre uma série de caminhos de reflexão. É interessante observar, inicialmente, a opção estratégica dos editores em afirmar a precedência da denominação de latino-americano sobre a de brasileiro para se referir a Nepomuceno. Atitudes como esta são características da primeira etapa da revista, no que poderíamos definir como sua busca por uma unidade continental. Podemos afirmar que, em seus primeiros doze números, Versus assume uma ampla narrativa que se tece sobre circunstâncias e referências comuns a toda a região. Seu discurso se nutre de temas como revoltas, matanças, protestos e outros eventos históricos significativos. A revista discorre sobre a ação de caudilhos e ditadores do passado e do presente e reflete também sobre a vida diária e a resistência cotidiana em vários países então dominados por ditaduras militares como o Brasil. Um elemento fundamental no discurso assumido por Versus em sua primeira etapa é a ausência de uma clara hierarquia entre textos históricos, políticos ou artísticos. O status de arte dado às histórias em quadrinhos publicadas pela revista é paradigmático dessa ausência. O espaço dado a escritores, poetas e jornalistas latino-americanos também o é.
Este último tema mereceria uma alusão detalhada, que foge, porém, aos limites deste artigo. Faerman foi um grande leitor e sempre defendeu o lugar primordial da literatura na formação dos jornalistas. Sua definição do jornalista como “um ser em disponibilidade” e sua defesa de um labor jornalístico não atrelado a formatos e a uma suposta linguagem objetiva abriram espaço, em Versus, para a elaboração de artigos fora do padrão que se tornava hegemônico nos grandes jornais e também para a realização de reportagens em que o repórter narrava, humanizava os sujeitos que entrevistava e também se posicionava como protagonista da experiência que vivenciava como repórter. São exemplos importantes as matérias e reportagens de jovens repórteres, formados por Faerman, como Caco Barcelos, sobre um torcedor de futebol e sobre a morte de um fazendeiro no sertão de Pernambuco, e Isabel Vieira, sobre uma comunidade de pescadores em Búzios, sobre os mineiros de Arroio dos Ratos, no Rio Grande do Sul, uma greve de taxistas e acerca do cotidiano dos trabalhadores do ABC20. Recordemos que em seu texto, já clássico, “As palavras aprisionadas” (Versus, 7, dez. 1976: 38), Faerman, simpatizante reconhecido da corrente do novo jornalismo, afirmara que “o jornalismo é um método: trabalha como instrumento de descoberta de uma realidade, com formas próprias, anotações, pesquisa” e que o jornalista, na responsabilidade do cumprimento de seu trabalho deveria “saber ouvir, saber descrever”. A publicação de textos de e sobre Carlos Fuentes, García Márquez e Rodolfo Walsh, escritores cuja prática jornalística se caracterizou pela utilização de recursos literários, reforça e ilustra a linha editorial de Versus quanto ao tema.
Passaram cinco meses para que a revista se animasse a publicar outro editorial. No número 15 (outubro de 1977), num pequeno texto sem título, na lateral esquerda da página 2, a revista, além de recordar a importância desse número, por marcar o terceiro ano da publicação, repete os tópicos anteriores: sua decisão de conservar o exercício de um pensamento crítico e a opção em de manter “o olhar atento aos povos vizinhos fazendo o relato destes tempos em que a história, às vezes, se constrói nas lápides dos cemitérios – na perspectiva de um latino-americanismo popular” (Versus, 15, out. 1977: 2).
Há, nesse número, dois elementos importantes a destacar. O primeiro se refere ao reforçamento da preocupação dos editores tanto com a preservação do “exercício persistente de um pensamento crítico, contra os dogmas do pensamento que se institui pela força” quanto “com a linguagem, procurando o vital e não o repetitivo e o burocrático”. Os editores da revista reafirmam aqui sempre haver buscado novas formas, “porque só elas podem expressar o conteúdo que queremos construir”. Nesse número, porém, anunciam novas ideias, plasmadas numa nova diagramação21. Tal afirmação soa estranha, já que a revista sempre se havia mostrado inovadora, tanto em termos de linguagem como de ideias. De que ideias novas se tratava, se os temas trabalhados nesse número seguiam o projeto original da revista, defendido no próprio editorial? O segundo elemento tem a ver com o Expediente e com uma certa hierarquia na disposição dos colaboradores. De acordo com o editorial, a partir de agora, Versus organizar-se-ia em torno de um “Conselho de Redação”, que passaria a figurar no Expediente como “parte de uma prática coletiva que se pretende cada vez mais coletiva”.
O Conselho de Redação desapareceu dois meses depois, já no número 17 (dezembro de 1977), mas a decisão de criá-lo, num momento em que se percebe um incremento na preocupação dos editores de Versus em analisar temas da política e da conjuntura nacionais, indica as alterações que estavam ocorrendo na correlação de forças internas da revista.
Versus sempre se caracterizara pela ausência de uma rigidez formal e primava pela ocupação criativa de suas páginas. A revista, que não estimulara uma política de colunas fixas (o que normalmente explicita uma certa hierarquização entre os colaboradores) e que poucas vezes destinara um espaço fixo e um esforço sistemático aos editoriais, dedicará a página dois dos próximos 4 números (até o número 19) a este gênero jornalístico. Faerman, por sua vez, o grande articulador da revista, deixará de ser oficialmente o seu editor chefe para, no número 15, aparecer no sétimo lugar entre os 14 componentes do Conselho de Redação e, já no número seguinte, abandonar o Conselho para ocupar o primeiro lugar no grupo dos editores, 9 em total, dos quais 4, assistentes22. No número 18 (fevereiro de 1978), o nome de Jorge Pinheiro, líder da Convergência Socialista em Versus, surge pela primeira vez entre os editores assistentes. Já no número 20 (abril de 1978) Pinheiro ascenderá ao grupo dos editores para logo firmar, sozinho, os editoriais dos números 21 (maio de 1978) e 22 (junho de 1978). No primeiro, intitulado “Olho gordo”, tratou, entre outros temas, da defesa da legalização dos partidos, para afirmar que o movimento socialista aprofundava suas raízes entre as classes trabalhadoras (Versus, 21, mai. 1978: 3). No segundo, intitulado “tumicutuca euticutuco”, realizou um longo balanço da política nacional durante o mês, para advertir os socialistas sobre a necessidade de posicionar-se sobre os destinos da Nação, em lugar de se comportar como avestruzes, enquanto outros tomavam as decisões (Versus, 22, jun. 1978: 3-4).
É no editorial do número 18 (fevereiro de 1978) que a já aludida mudança de rumo de Versus, indicada no editorial do número 17, consolida-se. Percebe-se nesse texto, dividido em sete tópicos numerados, com títulos sintéticos ao estilo pontual e conciso de Marcos Faerman, que o grupo de Jorge Pinheiro procede a uma verdadeira destruição do projeto original da revista, sepultando a sua refinada perspectiva cultural e literária e a sua defesa de uma unidade latino-americana baseada no conhecimento e na reflexão. “Um novo Versus?” é o título do primeiro tópico. A pergunta que provavelmente nasceu entre os leitores a partir de sua supresa com os números mais recentes da revista, recebe uma resposta taxativa. Versus mudou. E realmente Versus havia mudado, ao abandonar o universo e o imaginário latino-americanos como fios condutores de sua narrativa e ação cultural para discutir, como um jornal alternativo qualquer, o horizonte imediato da política brasileira e, mais que isso, para enveredar por um proselitismo com ínfimas possibilidades de sucesso.
No número 24, cuja capa traz, significativamente, uma foto de Trotsky, anunciando a comemoração dos “38 anos da morte do Profeta maldito”, celebra-se a “cerimônia de adeus” a Faerman, seus propósitos, seu estilo e seu grupo de apoio.
VERSUS LATINO-AMERICANISTA?
O projeto político-cultural inicial de Versus, fundamentado na “opção pela cultura como forma de ação” e na América Latina como eixo temático condutor, propiciou-lhe um lugar de destaque no panorama cultural da segunda metade dos anos 1970. Sua voz inovadora ampliava e enriquecia o horizonte de debates, principalmente porque os editores da revista souberam colocar em discussão um conjunto de questões pertinentes dentro do contexto nebuloso e sufocante que se vivia no país, lançando-as ao âmbito continental. A associação entre cultura e política, com a busca de respostas para o presente opressivo no passado opressor, expandiu a paleta temática da revista que, sem ignorar questões associadas ao presente, lançava mão de textos literários e ensaios históricos, construindo um universo simultaneamente prazeroso e cheio de erudição, fazendo da metáfora uma ferramenta de pensamento crítico.
Versus sofreu os efeitos da guerra intestina que acometeu muitos dos periódicos alternativos e contribuiu para sua extinção. A transição paulatina da revista a uma postura politicamente militante retirou o seu lugar diferenciado no âmbito da imprensa alternativa e também no campo cultural brasileiro do período. Versus se transformou em uma revista partidária a mais. Nada a celebrar e muito a perder.
Fazer da América Latina o seu horizonte de ação teve, indubitavelmente, um efeito político e funcionou, também, como uma estratégia inteligente que os editores de Versus utilizaram para enganar a censura que ceifava as publicações visivelmente políticas, como os semanários Movimento e Opinião, ou irreverentes, como o paradigmático O Pasquim. Seus artigos e entrevistas sobre artes plásticas e sobre a psicanálise argentina, seus ensaios sobre as civilizações indígenas, textos de Martí, matérias sobre Zapata ou poemas de Roque Dalton não chamavam a atenção dos censores abrutalhados e ignorantes, que se realizavam destruindo os textos dos demais periódicos.
No entanto, o cuidado com que, durante a sua primeira fase, a revista analisou a América Latina, levou-a a construir muito mais do que uma estratégia de resistência à repressão e à censura. Versus levou a cabo um projeto político e cultural inovador, justamente por introduzir os seus leitores no conhecimento, tanto histórico como conjuntural, das estratégias e movimentos de resistência de todo o continente e estimulá-los a se sentir identificados com ele.
Talvez por não configurar uma revista acadêmica e, certamente, por defender, como boa publicação alternativa, uma ação crítica, engajada e transformadora, Versus não se perdeu em nenhuma discussão conceitual. Que latino-americanismo propugnava a revista? Que substrato teórico teria para apoiar suas escolhas? Essa me parece uma discussão estéril, dados os objetivos de Versus. Quando, do nosso presente, dirigimos o olhar aos anos de chumbo da ditadura e recordamos o renascimento dos movimentos sociais, a volta das grandes greves, a reconstituição do movimento sindical e partidário; quando relembramos que, nos anos 1970, além do Brasil, todos os países do Cone Sul estavam esmagados sob os coturnos militares e sua gente buscava resistir, vemos com nostalgia e admiração a ação incansável das revistas e jornais alternativos. Versus cumpriu um papel fundamental ao introduzir a discussão necessária sobre o lugar do Brasil na América Latina. Ao defender uma possível unidade continental, ao acreditar na existência de uma identidade latino-americana, feita da riqueza das suas semelhanças e diferenças. Ao se deixar levar pela visão estrita e restrita dos membros da Convergência socialista, a revista deixou no passado toda a riqueza da contribuição que realizou. Exceção no panorama intelectual e cultural dos anos 1970, Versus não conseguiu deixar herdeiros e, uma vez mais, os temas latino-americanos se perderam no panorama cultura e político brasileiro.
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Notas
Autor notes