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Crônica de um verão: cinema como experiência sociológica
Chronicle of a Summer: cinema as a sociological experience
Crônica de um verão: cinema como experiência sociológica
Matrizes, vol. 12, núm. 3, pp. 237-255, 2018
Universidade de São Paulo
Recepção: 02 Março 2018
Aprovação: 20 Agosto 2018
Resumo: O artigo propõe discutir a atualidade do método desenvolvido pelo pensador francês Edgar Morin (1921-) na década de 1960, denominado por ele de sociologia do presente. Nossa hipótese é que a sociologia do presente é uma via de abordagem multidimensional da realidade, adequada para analisar fenômenos sociais cada vez mais complexos. Tomamos como referências dois cenários específicos trabalhados pelo autor nas obras La métamorphose de Plozévet (1967) e Crônica de um verão (1961). A partir daí concluímos que as noções centrais de crise e acontecimento, destacadas pelo autor, tornam-se cada dia mais operativas e reflexivas, assim como o método de observação fenomenográfica, entrevista e intervenção.
Palavras-chave: Sociologia do presente, cinema, Edgar Morin.
Abstract: The article proposes to discuss the actuality of the method developed by the French thinker Edgar Morin (1921-) in the decade of 1960, denominated by him of sociology of the present. Our hypothesis is that sociology of the present is a way of multidimensional approach to reality suitable to analyze increasingly complex social phenomena. We take as reference two specific scenarios worked by the author in the works La métamorphose de Plozévet (1967) and Chronicle of a summer (1961). From this, we conclude that the central notions of crisis and event, highlighted by the author, become increasingly operative and reflexive, as well as the method of phenomenological observation, interview and intervention.
Keywords: Sociology of the present, cinema, Edgar Morin.
PLOZÉVET: O ÁPICE DE UMA EXPERIÊNCIA
Corria o ano de 1965 quando uma equipe multidisciplinar destacada pela Delegação Geral para Pesquisa Científica e Técnica (DGPCT) da França, composta por geógrafos, historiadores, sociólogos, antropólogos, médicos e hematólogos e liderada por Edgar Morin, desloca-se para a comuna de Plozévet, localizada no departamento francês situado na região da Bretanha. O objetivo era investigar como se dava o processo de modernização pelo qual passava a sociedade francesa a partir da singularidade de uma comunidade de pescadores relativamente isolada do restante do país, mas que igualmente, à sua maneira, estava inserida nessa transformação.
Segundo Morin (1967), não havia quase nada em Plozévet que se ajustasse à imagem estatística de uma média nacional ou de um francês médio. Sobre isso, o método sociológico dominante poderia produzir dados em abundância. Tratava-se, pelo contrário, de um caso singular, excêntrico com relação ao resto da França. Devido a essa original diversidade e suas ambivalências e contradições, suas características internas são reveladoras de um caso particular de transformação geracional, embora conectado a um desenvolvimento econômico e tecnológico de caráter mais universal.
A pesquisa desenvolvida na área é minuciosa, englobante e multidimensional. Vai do todo às partes e a ele retorna em um movimento pendular. A coabitação entre o arcaico e o novo, o moderno e o tradicional, as transformações de costumes e valores, das relações econômicas e familiares, todos estes fatores indicam que está em curso um cenário de metamorfose particular. Tudo muda, do estilo de vida à psicologia, passando pela estrutura social. Burguesia, proletariado e setores intermediários se delineiam com mais consistência. As clivagens ideológicas se redistribuem. A moral coletiva se reorganiza. Vitrines de lojas decoradas em neon dividem espaço com casas sem eletricidade. As senhoras usam coque tradicional e as jovens descobrem a calça jeans.
Em Commune em France: la métamorphose de Plozévet (1967), Edgar Morin afirma e desenvolve aquilo que chamou de “sociologia do presente”, livro definitivo em termos de elaboração e aplicação deste método multidisciplinar de investigação. Ao invés do clássico tratamento sociológico dos fenômenos, Morin propõe-se a descobrir o movimento subterrâneo das placas tectônicas que operam silenciosamente em um grupo humano e fazê-lo emergir tal como no momento de sua observação, articulando diversas disciplinas e abordagens e evidenciando suas tendências. A dinâmica e o ritmo da comuna em mutação se juntam a um processo nacional e internacional sem que isso signifique aculturação total ou perda radical de identidade. Nas palavras do autor,
Uma comuna é uma unidade complexa. Mas é também uma célula dentro de um grande corpo social. São duas características indissociáveis. Enquanto o indivíduo biológico remete à espécie genérica, o indivíduo sociológico remete à Sociedade em geral. Nossa investigação precisava então se aprofundar nos caracteres singulares da microssociedade comunal e se estender à inteligência da macrossociedade1 (1994: 215, grifo do autor).
O estudo sobre Plozévet é o resultado mais acabado de uma antiga inquietação. Edgar Morin condena a fragmentação do saber e o fechamento disciplinar em benefício de uma investigação aberta que possa dar conta de um fenômeno em seus mais variados aspectos, contrabandeando conceitos, borrando fronteiras, furando barreiras, enfrentando as patrulhas alfandegárias epistemológicas. Antes de La métamorphose, em outras obras, Morin já se utilizara, intuitivamente, de elementos do que futuramente chamaria de sociologia do presente. Vejamos como foi se desenhando o tema da sociologia do presente para o autor.
Logo após a Segunda Guerra (1939-1945), entre 1945 e 1946, Morin vai à Alemanha percorrer suas ruínas e inevitavelmente levanta algumas questões: como um país de tradição tão rica pôde criar o nazismo? E com quais bases e forças sociais seria possível reconstruí-lo? Tais perguntas ele responde em seu primeiro livro, O ano zero da Alemanha (2009), de 1946. Em outra obra, O homem e a morte (1988), publicada em 1951, o autor lança mão de áreas variadas do saber, tais como antropologia, biologia, psicologia e história numa tentativa de religar e articular os conhecimentos dispersos nas diversas ciências humanas sobre o tema da morte e o universo ritual que o cerca.
No trabalho seguinte, O cinema ou o homem imaginário (1970), datado de 1956, Morin desenvolve uma reflexão sobre o que chamou de “a realidade semi-imaginária do homem” (1970): “como damos vida, personalidade e alma a imagens animadas, como nos identificamos e nos projetamos nos personagens da tela, somos felizes e sofremos com eles, mesmo sabendo que continuamos nós mesmos?” (Ibid.: 195-196). Um ano depois, em 1957, com As estrelas: mito e sedução no cinema (1989), seu objetivo consiste em religar entre si os diversos aspectos do star system: histórico, econômico, mitológico, antropológico. Ídolos como Greta Garbo, Marilyn Monroe, James Dean são seres ao mesmo tempo divinos e mortais com os quais nos relacionamos por meio de um duplo processo de projeção-identificação.
Em 1962, Edgar Morin publica outro livro ainda hoje fundamental para se pensar sobre diferentes aspectos da sociedade moderna. Trata-se de Cultura de massas no século XX: neurose (2011). Com as obras acima citadas Morin vai desenvolvendo as bases daquilo que será conhecido como sua sociologia do presente, cuja estrutura teórico-prática fica mais evidente em seus livros Commune em France: la métamorphose de Plozévet (1967), Sociologie (1994) e Cultura de massas no século XX: necrose (2006).
Um pensamento assim tão plural e versátil é conduzido pela ideia de que um fenômeno social – seja ele o processo de modernização em uma comunidade de pescadores, a ascensão da cultura de massas, o desabrochar das neomitologias em ambiente midiatizado ou um simples boato capaz de ganhar dimensões perigosas – é ao mesmo tempo geográfico, histórico, econômico, sociológico, psicológico, etc. A sociologia do presente pretende, nesse sentido, devolver a vida à teoria e ao concreto, empobrecidos, mutilados, fragmentados e compartimentalizados.
RESPOSTA A UMA CRISE DA SOCIOLOGIA
A sociologia do presente surge em um momento no qual Edgar Morin observa a crise da própria sociologia (1998), que precisaria passar por um processo de reforma e regeneração – para não degenerar. A instituição da sociologia como uma ciência entre outras permitiu reconhecer a sociedade como um objeto específico de estudos. Mas o fechamento disciplinar e a consequente ruptura com outras áreas do conhecimento isolaram a sociedade como um sistema fechado, em grande medida esvaziando-a de sua complexidade antropossocial, perdendo de vista as interações entre sociedade e indivíduos, entre o sociológico e o não sociológico, gerando uma incapacidade de situá-la em um contexto mais amplo, assim como ele havia feito na comuna de Plozévet.
As especializações dentro da própria sociologia (sociologia do trabalho, sociologia rural, sociologia da religião, sociologia da comunicação) foram ao longo da história dessa área de conhecimento formando guetos de profissionais capazes de saber infinitamente muito sobre o infinitamente pequeno, mas que não dão um passo além de suas fronteiras epistemológicas. Tal estado de coisas acaba por gerar uma compartimentalização interna que destrói a multidimensionalidade e a complexidade das realidades sociais. Tem-se, de um lado, teorias abstratas macrossociológicas que dissolvem o sistema social; de outro uma microssociologia mutilante incapaz de religar a sociedade como sistema.
A questão colocada por Edgar Morin, Pablo Casanova (2006) e outros autores é pertinente. Não se trata de negar a importância da disciplina e da especialização, mas de “alcançar, ao mesmo tempo, as virtudes das especializações disciplinares, com temas e problemas bem demarcados, com a força de uma perspectiva integradora, de conjunto” (Ibid.: 13), levando em conta as possibilidades e limitações das articulações de conhecimentos e a possibilidade de se buscar novas formas de especialização.
Casanova (Ibid.) traz o exemplo de Aristóteles, cujo Organon, uma de suas obras mais conhecidas, articulava filosofia, ciências naturais e humanas. E, no entanto, “Os variados conhecimentos do saber organizado que Aristóteles alcançou não o impediram de ser rigoroso em cada uma das disciplinas em que trabalhou” (Ibid.: 14).
Na Idade Moderna, prossegue Casanova (Ibid.), fizeram-se cada vez menos esforços para vincular os conhecimentos. Humanistas como Leornardo da Vinci e Goethe praticaram as letras, as artes e as ciências. Mas um dos graves problemas das especializações é a incomunicação gerada entre diferentes especialistas. Em contrapartida, a excessiva compartimentação disciplinar produziu um movimento contrário que pode ser observado desde pelo menos 1930, apontando a importância do cruzamento disciplinar ou mesmo, de forma mais radical, pregando “a demolição das fronteiras disciplinares” (Ibid.: 19).
Nos primórdios dos anos 1900, enquanto as ciências sociais se aproximavam do modelo mecanicista e determinista das chamadas ciências duras, a própria física já tratava de atingir outros patamares. Abria-se às bifurcações, às singularidades, à indeterminação, à incerteza, ao inacabamento, à imprevisibilidade e à causalidade múltipla. Em sentido contrário, os “quatro canais de fluxo sanguíneo irrigadores da ciência” clássica (Almeida, 2012: 54) seriam os fluxos da ordem, do princípio da separabilidade, da redução e o da lógica indutiva-dedutiva-identitária.
Estes pilares que sustentavam o paradigma da ciência clássica começam, a partir do século XX, a ruir, emitir sinais de enfraquecimento e necrose, pelo surgimento das noções de desordem, da não separabilidade, da não redutibilidade e da incerteza lógica. Nesse processo,
Além do desgaste sofrido pelas noções de ordem, separabilidade, redução e lógica identitária, o que mais necrosa no interior da ciência? Os conceitos de verdade unitária e absoluta. De objetividade. De certeza. Nos primeiros anos do século XX o físico dinamarquês Niels Bohr dirá que a descrição de um fenômeno não é sua cópia; que alguns fenômenos se apresentam de forma dualizada, paradoxal, ambígua, ambivalente. O biólogo chileno Humberto Maturana argumentará que só é possível falar em objetividade entre parênteses e Werner Heisenberg em 1927 construirá o princípio da incerteza (Ibid.: 56).
No mesmo sentido caminham os participantes da Comissão Gulbenkian (Wallerstein, 1996). Em 1993, dez investigadores das mais diversas áreas, entre elas ciências sociais e ciências da natureza, incluindo o sociólogo estadunidense Imanuel Wallerstein e o químico russo naturalizado belga Ilya Prigogine, foram convidados pela Fundação Calouste Gulbenkian, de Portugal, para discutir a reestruturação das ciências sociais. O resultado foi publicado em 1996 com o título Para abrir as ciências sociais (Ibid.). Dentre as conclusões figuram a de que, em um mundo mais instável, cada vez mais complexo, onde as perturbações desempenham um papel de grande relevo, as ciências sociais precisam se renovar. Os sistemas sociais e históricos devem ser tratados como sistemas abertos, complexos, dinâmicos, não lineares e longe do equilíbrio.
É nesse contexto que Edgar Morin conclama uma reforma do pensamento sociológico. Ela comporta simultaneamente o emprego de uma cientificidade não mutilante e o reconhecimento de uma possibilidade de conhecimento não estritamente científico. Isso implica em um avanço em seis frentes: 1) Aceder a um conhecimento epistemológico que corresponda ao desenvolvimento contemporâneo oriundo das descobertas das ciências; 2) Operar um remembramento sistêmico dos conhecimentos parcelares; 3) Restabelecer a comunicação/articulação com as outras ciências humanas; 4) Articular explicação como aquilo que permite a um sujeito conhecer um objeto enquanto objeto, e a compreensão, que, seja por projeção ou identificação, permita conhecer um sujeito enquanto sujeito; 5) Abrir o pensamento sociológico para a literatura, na medida em que oferece um conhecimento da vida social inencontrável nas pesquisas e trabalhos sociológicos (o sociólogo como cientista e ensaísta); e 6) Interrogar o presente imediato, incluindo os acontecimentos (Morin, 1998).
A sociologia mecanicista, determinista, compartimentada, reducionista e quantitativista operou um desencantamento do mundo social. A reforma da sociologia, na visão de Morin (Ibid.), precisa redescobrir a complexidade, a riqueza, a beleza, a poesia, o mistério, a crueldade e o horror: em suma, a vida, a humanidade. A sociologia do presente é uma das respostas possíveis a essa crise da sociologia.
A ATUALIDADE DA SOCIOLOGIA DO PRESENTE
Entre as partes das ciências sociais que precisam de regeneração está a questão do método. Ao pesquisar temas tão variados como Alemanha do pós-guerra, cinema, star system, cultura de massas, uma comunidade de pescadores na França, Maio de 68 (Morin; Lefort; Castoriadis, 1968), ou um simples boato antissemita difundido na cidade de Orléans (Morin, 1969), causando temor entre as mulheres, Morin está efetivamente à procura de seu próprio método, que começará a ser cuidadosamente sistematizado a partir de 1977. Naquele ano ele começa a escrever sua obra máxima, O método2 (2011a; 2011b; 2012a, 2012b; 2013; 2015a), publicada em seis volumes, cujo último tomo saiu apenas em 2004. Um empreendimento que levou 27 anos para ser concluído, resultando no que hoje conhecemos como método complexo, pensamento complexo ou simplesmente complexidade.
Nesse percurso, é curioso observar como a construção dos seis volumes de O Método, tomando como ponto de partida o primeiro livro, de 1977, parece já estar em período de incubação na pesquisa empreendida por Edgar Morin doze anos antes, na comunidade de Plozévet, em 1965. É possível reafirmar, como já dissemos em outro lugar, que o pensamento complexo está contido na sociologia do presente in nuce (Almeida; Carvalho, 2012).
Complexidade, sociologia do presente não são palavras anódinas e nada se ganha ao simplesmente anunciá-las dissociadas da prática, como se apenas isso garantisse sua eficácia. Não são modelos prontos de investigação, não correspondem a um esquema prévio de pesquisa. São estratégias de abordagem da realidade, um trabalho de investigação minucioso, multidimensional e transdisciplinar, que se esforça para dar conta de um fenômeno e fazê-lo emergir por todos os meios possíveis. O método propriamente dito apenas se revela ao final. É uma aventura nos conhecimentos e ignorâncias de onde, finalmente, ele emerge, como explica o autor em L’Aventure de la méthode (Morin, 2015b).
Dois imperativos se apresentam para a sociologia do presente. O primeiro é o de interrogar um acontecimento imprevisível, de constatar o que ele revela, modifica, inova. O segundo consiste em dedicar-se ao conhecimento de uma realidade concreta (Morin, 2010). Como em seus inúmeros livros, Edgar Morin praticou também esses dois movimentos em diversos artigos escritos para o jornal francês Le Monde durante mais de cinquenta anos, compilados numa publicação intitulada Au rythme du Monde – un demi-siècle d’articles dans Le Monde (2014b). Em seus textos sociológico-jornalísticos, Morin analisa, no calor do momento, alguns acontecimentos que marcaram a história da França e do mundo, como o Maio de 1968.
A noção de acontecimento delineia-se, portanto, como uma das categorias fundamentais da sociologia do presente, assim como a de crise. Tais noções estão teoricamente mais desenvolvidas principalmente em três de suas obras: Sociologie (1994), Cultura de massas no século XX: necrose (2006) e Ciência com consciência (2014).
A noção de crise, midiaticamente inflada, espalhou-se por todos os horizontes da consciência contemporânea, generalização cuja consequência é o seu próprio esvaziamento conceitual. Há crises diárias e de todas as ordens, econômicas, humanitárias, sociais, ambientais, conjugais, etc. Por isso, há de se problematizar a própria noção de crise, no sentido de torná-la “cientificamente utilizável e epistemologicamente controlável” (Id.,1998: 140). A isso o autor chama de crisiologia, associando ao conceito de crise uma constelação de ideias inter-relacionadas, como as de perturbação, desordem e incerteza. Portanto, toda crise pode ser concebida por seu caráter multidimensional e acontecimental.
Para Morin (Ibid.), há uma oposição entre uma sociologia dominante, da especialização disciplinar, das regularidades estatísticas, e a sociologia do presente, centrada sobre o fenômeno mais que sobre a disciplina, sobre o acontecimento mais que sobre as variáveis. O eventual, no sentido de acontecimento ou fenômeno minoritário, tem, para Morin, uma importância crucial para a abordagem no processo de mudança social, constituindo-se em um teste ativo “sobre o sistema no qual atua, ao mesmo tempo em que intervém de forma múltipla e decisiva na história humana”, como esclarece Almeida (2012: 112).
No desenvolvimento da racionalidade científica, o acontecimento foi inicialmente perseguido e posto na ilegalidade tanto nas ciências físico-químicas quanto na sociologia. Na atualidade, sua reintegração às ciências sociais deve ser pensada no sentido de reabilitar aquilo que antes era excluído como insignificante, imponderável ou estatisticamente minoritário, que perturba a estrutura ou o sistema, mas pode ser significativo como revelador, desencadeante, enzima, fermento, vírus, acelerador, modificador do padrão, da normatização, do maioritário (Morin, 1998).
Em sua Carta para as futuras gerações, Ilya Prigogine (2009) fala sobre o acontecimento em relação a um sistema aberto e complexo, como a sociedade: um evento (entendido aqui como acontecimento) “implica um aparecimento de uma nova estrutura social depois de uma bifurcação; flutuações são o resultado de ações individuais” (Ibid.: 13). O químico belga traz o exemplo da Revolução Russa de 1917 para esclarecer as referidas noções:
Todo evento tem uma “microestrutura”. Tomemos como exemplo histórico a Revolução Russa de 1917. O fim do regime czarista poderia ter tomado diferentes formas, e a ramificação que se seguiu a ele resultou de diversos fatores, tais como falta de previsão do czar, a impopularidade de sua mulher, a debilidade de Kerensky, a violência de Lênin. Foi essa microestrutura, essa flutuação, que determinou o desfecho da crise e os eventos que a ela se seguiram. (Ibid.: 14)
Se para Morin a sociologia do presente deve privilegiar o que é da ordem do minoritário, mas capaz de revelar tendências, para Prigogine, no mesmo sentido, a História é uma sucessão de bifurcações. A descoberta do petróleo, por exemplo, é um acontecimento e uma bifurcação.
Em 1967-1968, o debate sobre a natureza e o papel da sociologia alcança acentuada virulência na França. Os acontecimentos de Maio de 1968 serviram para acentuar ainda mais a clivagem, colocando em causa a sociologia dominante. Nesse momento de efervescência social, Morin (2006: 25) conclui que
De fato, só se pode tentar compreender Maio de 1968 se [os sociólogos] levarem em consideração outras técnicas de pesquisa que não o questionário por amostragem que domina (dominava?) a sociologia e que, incapaz de cavar por baixo da crosta superficial das opiniões, era incapaz de prever o que estava latente ou brotava, ou de ver e conceber o dinamismo e as rupturas. Só se pode tentar compreender o Maio de 68 se se procura ficar acima e além do saber disciplinar parcelado, tentando reunir um corpo teórico de hipóteses para abarcar e estruturar o fenômeno.
Em síntese, é possível afirmar que a sociologia do presente propõe uma reelaboração teórico-prática e epistemológica por parte da sociologia. As noções-chave de crise e acontecimento não remetem a incidentes puramente ocasionais, nem à categoria do contingente. A necessidade que anima a sociologia do presente é a de representar o papel do elemento marginal, ao mesmo tempo negativo (polêmico) e positivo (reconstrutor) (França, 2017). Daí a importância da noção central de acontecimento, utilizada para designar o improvável, o acidental, aleatório, singular, concreto, histórico, mas que vai se abrindo para outras noções e construindo narrativas abrangentes, de onde deriva sua complexidade, sua imprevisibilidade e seu caráter transdisciplinar (Morin, 2006).
Para tornar mais clara sua proposta, em Cultura de massas no século XX: necrose, Morin (Ibid.) elenca seis princípios de uma sociologia do presente, dando destaque à noção de acontecimento. Vejamos.
É preciso, pois, observar as articulações que se estabelecem entre as noções aludidas pelo autor. Os anos de 1960 foram, para Morin, repletos de acontecimentos-choques que desafiaram as categorias da sociologia clássica. O acontecimento inesperado provoca surpresa e obriga a reexaminar as concepções até então dominantes, a reconhecer a crise invisível que revela e a encarar as novidades que podem introduzir. Um desses acontecimentos foi particularmente importante.
Em 22 de junho de 1963, um evento musical na Praça das Nações, organizado pela emissora de rádio Europa nº 1 e a revista Salut les copains, atrai cerca de 200 mil pessoas, a maioria adolescentes. Em pouco tempo o encontro se transforma em violência, com depredações, automóveis virados e enfrentamento com a polícia, para a consternação de organizadores, jornalistas e da classe política. Em artigo solicitado pelo Le Monde, Morin identifica, entre outras coisas, o surgimento na cena pública de uma nova “classe de idade”, a dos adolescentes (chamados de adeptos do iê-iê-iê), com seus valores de contestação às autoridades e uma necessidade de autoafirmação. Na explicação de Bernard Paillard (2008: 21-22),
Esse acontecimento provocará, sobretudo, um impacto metodológico: o acontecimento adquire status de analista social e seu estudo “instantâneo” permite a formulação de “diagnósticos” sobre os processos evolutivos em ação na sociedade. Dessa forma, a análise do acontecimento contingente passa a fazer parte da panóplia metodológica de Edgar Morin.
De fato, a noção de acontecimento em Edgar Morin é bastante ampla. Para nosso propósito, basta dizer que “o estudo da virulência acontecimental não se pode separar dos processos de comunicação dos acontecimentos nem dos caracteres simbólicos, ou mesmo mitológicos, que adquirem desde que entram na comunicação social” (Morin, 1998: 166). Daí nossa aproximação com a ideia de acontecimento comunicacional. O próprio autor assinala essa relação ao afirmar que o acontecimento deve ser concebido em primeiro lugar como um acontecimento-informação, que irrompe tanto no sistema social como no sistema mental do sociólogo.
Esse percurso de construção de uma sociologia do presente revela, a um só tempo, ecos e prenúncios. Ecos de O ano zero da Alemanha (2009), O cinema ou o homem imaginário (1970), As estrelas – mito e sedução no cinema (1989), Cultura de massas no Século XX: neurose (2011c), e prenúncios de La métamorphose de Plozévet (1967) e Mai 68: la brèche (Morin; Lefort; Castoriadis, 1968). Em todos estes casos trata-se da busca por um método, que o autor foi amadurecendo durante toda sua obra, capaz de melhor abordar um fenômeno social levando em consideração a sua complexidade e multidimensionalidade. Assim como no caso de Plozévet, o objetivo da sociologia do presente é reconhecer a potência da dupla natureza, particular e universal, dos fenômenos estudados, supostamente insulares e insignificantes.
A essas vias de aproximação da realidade Morin chamou de método in vivo, ou simplesmente método vivo, que privilegia observações fenomenográficas, entrevistas e participação nas atividades coletivas de pesquisa. Um método vivo, longe de ser um programa rígido ou uma receita de pesquisa de campo, é, antes, uma estratégia que vai se desenhando durante o processo de investigação e só aparece ao final. Está em permanente reconstrução. Seus princípios gerais exigem articulação entre subjetividade e objetividade, criatividade, sensibilidade e inventividade do pesquisador, como explica Almeida (2012).
A observação deverá ser simultaneamente panorâmica e analítica, capturar o conjunto do campo perceptivo e distinguir cada elemento particular. Fazendo uso da literatura para esclarecer seu ponto de vista, Morin acredita na necessidade de um pesquisador que seja ao mesmo tempo Balzac, capaz de ter uma visão enciclopédica da sociedade, e Stendhal, treinado para detectar o detalhe significativo, que deixa de ser acessório para tornar-se revelador.
Nesse panorama, perde sentido a oposição entre micro e macro pesquisa, como entende Almeida (2012). A atitude fenomenológica aproxima-se de uma ciência do sensível, articulando teoria e prática, pesquisa fundamental e pesquisa aplicada, empiria e reflexão, consciência da hibridação entre particular e universal.
Uma das experiências mais marcantes deste tipo de atitude investigativa foi realizada por Edgar Morin por meio não de um livro, mas do cinema.
CRÔNICA DE UM VERÃO, UMA SOCIOLOGIA DO PRESENTE
Em 1960, Edgar Morin e Jean Rouch (1917-2004), cineasta e etnógrafo francês, haviam sido jurados no primeiro festival do filme etnográfico e sociológico, o Festival dei Popoli, em Florença, na Itália. Rouch já se destacava no cenário cinematográfico mundial com seus trabalhos de etnoficção em comunidades africanas, entre eles Os mestres loucos (1955), Eu, um negro (1958) e A pirâmide humana (1959). Morin propõe então a Rouch realizar semelhante experimento etnográfico tendo como cenário a cidade de Paris.
Dessa proposta nasce Crônica de um verão (2008), de 1961. Inicialmente o filme chamar-se-ia Como você vive? A intuição de Morin era de que a partir de perguntas ao mesmo tempo simples, desconcertantes e desafiadoras (como, por exemplo, “você é feliz?”), seria possível acessar algo na consciência desperta. Uma espécie de acontecimento no pensamento, capaz de revelar crises articuladas com questões referentes ao modo de vida em uma grande cidade em acelerado processo de desenvolvimento e modernização, na esteira dos chamados anos dourados da economia liberal do pós-guerra, entre 1948 e 1973. O filme se passa basicamente em torno de sete personagens não atores: Ângelo, operário especializado da Renault; Landry, imigrante do Congo; Marilu, uma secretária italiana; Marceline, uma judia que ainda muito jovem havia sido deportada para o campo de concentração de Auschwitz; Gabillon, empregado da Societé National de Chemins de Fer Français3, e sua esposa; e Jean-Pierre, estudante de 20 anos. A ideia era rodar o longa-metragem de forma que o aproximasse mais da vida que do cinema, no sentido de extrair das interações uma espécie de verdade sociológica. Revelam-se aí os motivos de os autores terem batizado o gênero de cinema-verdade.
Morin sempre esteve convicto de que cada pessoa oculta em si um poeta, um filósofo, uma criança. Por isso a necessidade de fazê-las falar, garantir-lhes alguma visibilidade em seus problemas, desejos e inquietações cotidianos. Mais do que isso, as perguntas eram uma tentativa de acessar um substrato social mais denso. A questão não era saber se os entrevistados eram casos raros ou excepcionais, mas uma forma de descobrir se os problemas particulares apresentados eram ou não profundos e gerais: “os do trabalho alienado, da dificuldade de viver, da solidão e da busca de uma fé – questões fundamentais que dizem respeito à vida de cada um” (Morin, 2010: 161).
Está aí implícito também o tema da grande cidade, da cidade luz, atrativa, mas que é também uma cidade tentacular, por vezes sufocante, ambivalente. Nela misturam-se as questões da convivência com o estrangeiro, do subemprego, do isolamento, da falta de perspectiva, e as esperanças que os personagens alimentam de uma vida melhor. Paris era, no fundo, um concentrado particular de toda a civilização, singular e universal, onde se podia encontrar todas as contradições da própria vida, das relações, dos sentimentos. Para isso, foram necessárias 26 horas de filmagens, das quais foram extraídas seis horas e finalmente uma hora e trinta minutos. Crônica de um verão vai ao encontro do que Morin classifica de desafios da sociologia reformada, que são basicamente três. Primeiro, desenvolver tanto uma vocação científica (cultura científica) quanto ensaística (cultura humanística), de modo a fazer comunicar e interfecundar as duas culturas. Segundo, enfrentar a complexidade antropossocial da vida, articulando as dimensões separadas das disciplinas fragmentadas das ciências humanas (por exemplo, abrindo a sociologia para o campo das artes, como a literatura e o cinema). Terceiro, refundar mais propriamente o pensar e o fazer sociológico no contexto de uma transformação de paradigma das ciências humanas (Morin, 1998).
Junte-se a isso as formulações de Vera França (2012), que trabalham a interface mídia/acontecimento. A autora classifica os acontecimentos como fatos que ocorrem a alguém, provocam ruptura e desorganização, introduzem diferença, suscitam novos sentidos, fazem pensar e agir e curto-circuitam o tempo linear, pois, acontecendo no presente, convocam o passado e problematizam o futuro. A mídia, nesse sentido, pode ser tanto o lugar de onde surgem e se produzem acontecimentos, como o espaço de sua repercussão. Com essa ideia, França pretende enfatizar a centralidade dos meios de comunicação de massa na criação e proliferação dos acontecimentos.
Tal proposição é fundamental para a abordagem do filme em tela. A primeira cena de Crônica de um verão (1968) apresenta o amanhecer em Paris ao som de uma sirene. A paisagem sonora é também um destaque do filme. Marceline e Nadine saem às ruas movimentadas, munidas de microfone, disparando à queima-roupa aos transeuntes a questão inicial: “você é feliz?”. No início há resistência. A maioria se recusa a responder. Um estudante de filosofia, leitor de René Descartes, devolve a pergunta questionando o que elas entendem por felicidade. Um senhor entristecido relembra a família que perdeu, enquanto outra entrevistada responde que sim, é feliz, “pois é jovem e faz sol”.
Ressalta-se aqui um dos princípios fundamentais da sociologia do presente, a entrevista. A escolha dos entrevistados se opera da seguinte forma: primeiro, ao acaso, o que Morin classifica de pseudoconversação, ou seja, perguntas pré-escolhidas e respostas rápidas; segundo, por amostragem de regiões diversificadas da cidade; terceiro, por uma seleção sistemática dos personagens, com os quais será desenvolvida uma entrevista em profundidade. O mesmo método aplicado na comuna de Plozévet. O objetivo não é chegar a uma representação média do francês, mas a uma significação máxima, procurando casos que permitam a constituição de polos de oposição tipológicos (jovens-velhos, modernos-tradicionais, moradores locais-imigrantes).
Em um segundo momento do filme, selecionados os personagens centrais, as entrevistas vão ganhando cada vez mais densidade. A função deste tipo de procedimento é fazer emergir a personalidade, os desejos essenciais e a concepção de vida do entrevistado, por meio de conversações com caráter errante e oblíquo. Aqui está implícito também o caráter acontecimental da entrevista, pois não se sabe o rumo que ela vai seguir, mas é fundamental para a crise que pode revelar. Nesse nível, a entrevista é bem sucedida a partir do momento em que a palavra do entrevistado é liberada de suas inibições e torna-se um “acontecimento comunicacional” (Marcondes Filho, 2013).
Ciro Marcondes Filho (Ibid.) trabalha com a ideia de comunicação como acontecimento. Para o autor, o real é produto de um choque entre “coisas” (pessoas, objetos, sentimentos, estados de espírito, etc.). É no momento do encontro que algo se produz. A comunicação como acontecimento se estabelece no espaço entre, no “durante” (o que o autor chama de princípio da razão durante). Da mesma forma, o sentido ocorre uma única vez, envolto por uma tessitura de “elementos sensíveis” (Ibid.: 41-42) composta pelo tempo, pelo lugar, pela atmosfera, pelo humor, que concorrem para uma situação irrepetível, portanto singular, de caráter acontecimental. Determinado sentido não se produzirá jamais novamente da mesma forma. Já não é mais o mesmo. Crônica de um verão (2008) é, ainda hoje, um filme paradigmático do cinema-verdade.
O método de pesquisa “metapórico” elaborado por Ciro Marcondes Filho (2013) aproxima-se do método de Edgar Morin ao propor que a comunicação, como produção de sentido, está vinculada a uma ocorrência determinada, ou seja, um acontecimento. Nas palavras do autor, as “forças ou energias que a possibilitaram o fizeram de uma forma aleatória e irrepetível: o sentido só ocorre uma vez. Os fatos têm seu instante oportuno pelo encontro acidental de todas as causas favoráveis” (Ibid.: 44, grifo do autor). A comunicação ocorre no espaço entre, diz ele. Mas distancia-se de Morin no momento em que este pretende algo que “revele o mistério das coisas” (Ibid.: 73), sem levar em conta que o mistério do outro é tão insondável quanto o do sonho.
De fato, em Sociologie, Morin (1994) acredita que a entrevista em profundidade pode levar a entrever a dimensão oculta das existências: “a entrevista nos conduz ao último continente inexplorado do mundo moderno: o outro”4 (Ibid.: 220, tradução nossa). Mas o seu método é claro ao propor que a dimensão da realidade social, portanto também a dimensão do outro, é sempre aberta, incompleta, imprevisível, instável, não linear, marcada pelo inacabamento. Nenhuma pesquisa é capaz de esgotar o seu tema. Principalmente quando se trata da condição humana. Mesmo assim, após um tempo de imersão, a comunicação, o “mistério insondável” ao qual se refere Marcondes Filho faz manifestar, na perspectiva moriniana, mudanças de perspectivas, aparição de temas obsessivos, emergência de aspirações e insatisfações, permitindo elaborar uma explicação possível, ao mesmo tempo singular e universal, sobre determinada realidade social (por exemplo, os efeitos do processo de modernização em Plozévet ou Paris).
Uma das sequências mais marcantes de Crônica de um verão (2008) é uma conversa entre Ângelo, o operário da Renault, e Landry, o imigrante congolês, sentados na escada de um edifício. Um encontro marcado, embora imprevisível. Um acaso objetivo, diriam os surrealistas. Morin diz ver ali o surgimento de uma amizade sincera em frente às câmeras. Ângelo queixa-se de uma sociedade consumista que privilegia a aparência em detrimento de uma vida verdadeiramente melhor. Diz que o operariado sacrifica todo o salário para comprar o carro do ano, a roupa da marca, enquanto em casa falta comida. Sintomas de uma modernização fartamente problematizada por Morin em algumas de suas obras já citadas, como Cultura de massas no século XX: neurose (2011c), Cultura de massas no século XX: necrose (2006) e Sociologie (1994): a questão do bem estar, da civilização do automóvel, da publicidade, da indústria cultural, da crise da felicidade, da espetacularização da política, do problema ecológico.
A partir da segunda metade de Crônica de um verão (2008), o filme, que até então se limitava às entrevistas de caráter pessoal, abre-se agora para as discussões coletivas, intermediadas pelos realizadores sempre prontos a levantar uma ou outra questão. É o princípio da intervenção colocada pela sociologia do presente, que sobressai em alguns momentos-chave: quando o pesquisador detecta uma situação grávida de mudança e inovação, ou quando conduz os entrevistados a se interrogarem sobre seu próprio pensamento.
Em uma das discussões Marceline afirma, diante de um grupo de várias pessoas, incluindo dois africanos, que “jamais se casaria com um negro”, mas que “admira a forma como eles dançam”. Landry rebate, acusando-a de reproduzir estereótipos. Morin, então, pergunta ao congolês: “você sabe o que significam esses números tatuados no braço de Marceline?”. “Um número de telefone?”, responde ele. “É meu número de matrícula no campo de concentração”, esclarece Marceline. Corte para uma cena de rara poesia: Marceline caminha sozinha pela Place de la Concorde relembrando a última imagem do pai, que a presenteou com uma cebola antes da separação em Auschwitz, de onde nunca mais sairia.
Não obstante, a intervenção deve ser no sentido de provocar questões, não de fixar normas. Na penúltima cena do filme, Morin reúne os atores em uma sala para a projeção do material filmado até o momento. A ideia era que os personagens analisassem as performances uns dos outros. Houve acusações de impudor e exibicionismo, falsidades e autenticidades. Cada um reconstituiu o conjunto do filme em função de suas projeções e identificações próprias. Relembrando este momento quase cinquenta anos depois, Morin (2010: 161) comenta: “Eu esperava que um reencontro final entre os diversos protagonistas do filme levasse a uma compreensão mútua. Houve, ao mesmo tempo, compreensões e incompreensões”.
Crônica de um verão (2008) pode ser considerado, portanto, uma investigação sobre essa realidade multidimensional da sociedade francesa. Mas é também um olhar sobre o estilo de vida do homem urbano da época, partindo de uma leitura do particular para o universal e instalando-se nesse movimento, no entre. Entre o infinitamente pequeno (microssociologia) e o infinitamente grande (macrossociologia), entram em cena o desejo, a memória, o imaginário, as aspirações, esperanças, frustrações.
Percebe-se que os elementos desenvolvidos durante a década de 1960 sobre a sociologia do presente já aparecem aí em estado embrionário. Crônica de um verão (Ibid.) aborda a problemática do filme sociológico no sentido de desenvolver um projeto cinematográfico de antropologia urbana, antropologia nas sociedades contemporâneas ou um projeto transdisciplinar à sociologia, antropologia e cinema (e outras áreas complementares).
Não se trata, aqui, de reduzir as ciências sociais a uma miscelânea de perspectivas individuais, mas de considerar que a possibilidade de uma abertura das ciências sociais, seja pelo cinema, seja pela receptividade a uma multiplicidade de experiências culturais, de narrativas múltiplas dos próprios sujeitos implicados na pesquisa (e nesse sentido, a autoridade do pesquisador é posta em suspensão e é constantemente questionada tanto pelos sujeitos da pesquisa quanto pelo próprio método de orientar a investigação), equivale a aumentar a possibilidade de um conhecimento mais objetivo, porque é também um questionamento permanente dos próprios modelos teóricos de pesquisa. O universalismo é sempre historicamente contingente. Nesse sentido, a possibilidade da verdade, aqui, é sempre um devir e não uma essência, é sempre uma ação e não uma revelação (Ribeiro, 2015).
A tendência do cinema verdade é também pôr em causa o processo de produção e concepção do filme, fazendo com que ele mesmo se torne um acontecimento central de investigação. Em Crônica, há uma impossibilidade de se representar a vida (porque as representações dos atores são sempre questionadas pelos outros atores) e uma impossibilidade de se alcançar uma verdade essencial (Satt, 2008). Opera-se aqui com os princípios de incerteza, emergência, imprevisibilidade, acontecimento. Os próprios participantes do filme se questionam, ao final: “nossas representações são verdadeiras ou não?”. As percepções que uns e outros vão elaborando do filme e de suas representações entram em choque durante a discussão final. Portanto, trata-se de uma verdade impura, mas, como diz Morin, na última cena do filme: “Nós participamos do processo inteiro do filme, conhecemos todas as pessoas implicadas no processo e vimos que não era mentira. E se era mentira, aquela era uma parte sua muito verdadeira” (Crônica..., 2008).
Crônica de um verão (Ibid.) finaliza com um diálogo entre Morin e Rouch fazendo a autocrítica (parte fundamental da sociologia do presente) do projeto, dos caminhos percorridos, da participação afetiva dos autores e atores e comentando sobre um fracasso relativo do filme, confirmando o caráter imprevisível e inacabado da experiência sociológica, seja ela cinematográfica, experimental, investigativa ou mais propriamente técnica e conceitual. A tendência do filme é também pôr em causa o processo de produção e concepção da obra, fazendo com que ele mesmo se torne um acontecimento central de investigação, colocando o próprio estatuto do ator em perspectiva, problematizando a questão da imagem (França, 2017).
Concluindo, a sociologia do presente, na perspectiva de Edgar Morin, não se reduz a uma técnica de observação e pesquisa da realidade. Seja ela cinematográfica ou estratégia investigativa de caráter intervencionista, ou ainda, um horizonte epistemológico mais propriamente teórico e conceitual, tal experiência sociológica requer a recusa das macroinvestigações panorâmicas (estatísticas do padrão invariante) e abertura ao singular e minoritário que podem conter germes e tendências de mudança sociocultural.
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Notas
Autor notes
Declaração de interesses