Em Pauta/Agenda
Recepção: 19 Abril 2018
Aprovação: 07 Setembro 2018
DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v12i3p277-296
Resumo: Tomando como base o conceito de formação discursiva, este estudo partiu da hipótese de que o dualismo desempenha papel central dentro do que nomeamos de formação discursiva antiagricultura industrial. Assim, analisamos a recorrência de diferentes esquemas binários compartilhados pelos seis filmes documentários que compuseram o corpus do trabalho. A análise de discurso de linha francesa foi a abordagem teórico-metodológica que norteou a pesquisa. A hipótese foi confirmada e, após a identificação de tais esquemas, percebemos que se dividiram em dois grandes grupos: os que se relacionam com a oposição arquetípica entre vida e morte e os que integram a oposição entre os princípios de liberdade e escravidão.
Palavras-chave: Formação discursiva, discurso ambiental, filme documentário.
Abstract: Focusing on the concept of discursive formation, this paper tested the hypothesis that dualism would play a central role inside what we called an anti-industrial agriculture discursive formation. Therefore, we analyzed the presence of several binary schemes shared by the six documentary films that composed the corpus of the study. French discourse analysis was the theoretical and methodological approach that conducted the research. The hypothesis was confirmed, and after the identification of the binary schemes, we were able to divide them into two groups: the ones that are connected to the archetypical opposition between life and death and the ones that integrate the opposition between the antagonistic principles of freedom and slavery.
Keywords: Discursive formation, environmental discourse, documentary film.
INTRODUÇÃO
ESTE TRABALHO É parte integrante da tese de doutorado intitulada O meio ambiente na narrativa documental: uma análise das estratégias discursivas de documentários sobre a agricultura industrial (Medeiros, 2017). Na referida tese, tentamos construir, a partir do mapeamento de módulos argumentativos regulares, a ideia de existência de uma formação discursiva (FD) antiagricultura industrial que integraria o repertório do conjunto heterogêneo que é convencionalmente nomeado discurso ambiental. Neste artigo em particular, pretendemos apresentar um recorte específico da análise realizada na tese. Aqui, focaremos no papel central desempenhado pelo dualismo no interior da FD em questão. Em nossa análise, o dualismo surgiu como elemento central do discurso dos documentários estudados graças à identificação de diferentes esquemas binários que são utilizados ampla e regularmente pela retórica dos filmes como estratégias persuasivas. Os fluxos discursivos que problematizam os modelos produtivos agrícolas estão, hoje, no centro dos debates ecologistas, ao lado de temas como mudanças climáticas e resíduos sólidos. Tal centralidade justifica a importância de analisarmos os sentidos que permeiam tais discursividades.
O corpus da pesquisa é constituído por seis filmes documentários que abordam o tema da agricultura industrial a partir de uma perspectiva crítica. O gênero documentário foi escolhido especialmente porque tem como uma de suas principais características a possibilidade da expressão aberta de pontos de vista (o que o difere, por exemplo, dos gêneros jornalísticos informativos, que trabalham com uma cenografia que visa produzir efeito de sentido objetivante, de neutralidade do enunciador). A expressão aberta de pontos de vista sobre a agricultura industrial permitiu mapeamento mais completo dos processos envolvidos no debate sobre o tema. Acreditamos que, devido à relevância e ao alcance que o gênero documentário vem adquirindo como meio de expressão de discursos oriundos de movimentos sociais e socioambientais, ele se apresenta como objeto relevante para a pesquisa em comunicação.
Os filmes estudados foram os norte-americanos Food, Inc. (2008) e GMO OMG (2013), os franceses Bientôt dans vos assiettes (2014) e Solutions locales pour un désordre global (2010), o brasileiro O veneno está na mesa 2 (2014) e o argentino Desierto verde (2013). Para a escolha do corpus, buscou-se trabalhar com filmes que dessem conta de certa abrangência geográfica de produção, uma vez que a agricultura industrial é problemática global, abordada em diferentes gêneros discursivos em várias partes do planeta. Também escolhemos filmes que tenham sido premiados em festivais de cinema e, ao mesmo tempo, tenham tido circulação relevante (o que garante que gozem de certa legitimidade no interior da comunidade discursiva). Ou seja: a escolha do corpus priorizou a identificação de filmes representativos de uma discursividade ambientalista, tendo como parâmetros indicadores de tal representatividade circulações relevantes entre o público e respaldo dos pares através das premiações.
A abordagem teórico-metodológica utilizada foi a análise de discurso de linha francesa. Buscamos realizar um exame fortemente focado na materialidade (verbal e não verbal) do corpus escolhido, portanto, recorremos constantemente a transcrições de trechos e exposições de frames de imagens retirados dos filmes. Em relação aos textos verbais, o fato de termos filmes cujas línguas oficiais são diferentes (dois em inglês, dois em francês, um em espanhol e um em português) fez com que nossa análise fosse feita com base nas traduções para o português de transcrições dos textos dos filmes (assumindo todos os riscos e imprecisões que tal procedimento possa ter trazido à análise). As traduções foram todas realizadas pelas autoras do estudo.
Por fim, cabe definirmos agricultura industrial, uma vez que tal conceito está no centro do nosso objeto de pesquisa. Nomeia-se como agricultura industrial o modelo agrícola que começou a surgir com o fim da Segunda Guerra Mundial, graças a uma transformação que ficou conhecida como Revolução Verde. Ela promoveu a utilização de inovações tecnológicas no campo, disseminadas sob o argumento de promover o aumento da produtividade de alimentos. Não tardou para que o modelo proposto pela Revolução Verde se espalhasse pelos campos do mundo inteiro, tornando-se dominante, favorecendo as monoculturas e difundindo o uso de maquinários pesados, agrotóxicos e fertilizantes químicos. As mudanças no sistema de produção agrícola se intensificaram nos anos 1990, graças ao que ficou conhecido por alguns como a Segunda Revolução Verde, levada a cabo com a introdução dos organismos geneticamente modificados (OGM, transgênicos).
A FORMAÇÃO DISCURSIVA ANTIAGRICULTURA INDUSTRIAL
Para esta análise, escolhemos trabalhar com um conceito complexo e um tanto controverso: o de FD. Devido às diferentes formulações e reformulações no conceito, sua definição não é precisa, tampouco consensual, o que faz com que diferentes autores utilizem a ideia de FD de formas diferentes.
Tal noção surgiu pela primeira vez na Arqueologia do saber, de Michel Foucault. De acordo com a formulação de Foucault (2008), os discursos são uma dispersão, pois, a priori, não se ligam e não se compõem numa figura única. Através da descrição dessa dispersão, seria possível pesquisar se entre seus elementos pode-se detectar certa regularidade, “uma ordem em seu aparecimento sucessivo, correlações em sua simultaneidade, posições assinaláveis em um espaço comum, funcionamento recíproco, transformações ligadas e hierarquizadas” (ibidem: 42). Sempre que se pode detectar essa regularidade em meio à dispersão discursiva, existe, segundo Foucault, uma formação discursiva. Com a noção de FD, Foucault pretendeu, então, “designar conjuntos de enunciados que podem ser associados a um mesmo sistema de regras historicamente determinadas” (Charaudeau; Maingueneau, 2012: 241).
O conceito de FD entra na análise de discurso francófona a partir de sua apropriação por Michel Pêcheux, que o insere em uma perspectiva teórica marxista-althusseriana. Em Pêcheux, o conceito de FD é embebido no materialismo histórico, passando a ser associado a noções como ideologia e luta de classes, que estavam ausentes da formulação original de Foucault. Pêcheux define formação discursiva como
aquilo que, em uma conjuntura dada, determinada pelo estado de luta de classes, determina o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.) (Pêcheux, 1995: 160).
Mais tarde, para evitar um uso do conceito de formação discursiva que isolasse cada FD como espaço autônomo em relação às outras, o próprio Michel Pêcheux e, posteriormente, Jean-Jacques Courtine destacaram a dependência delas em relação ao interdiscurso.
o que significa que os sentidos, no interior das FDs, estão sob a dependência do interdiscurso. Em outras palavras, o interdiscurso é o lugar em que se constituem, para um sujeito que produz uma sequência discursiva dominada por uma FD determinada, os objetos de que esse enunciador se apropria para fazer deles objetos de seu discurso, assim como as articulações entre esses objetos, por meio das quais o sujeito enunciador dará coerência a seu propósito no interior do intradiscurso, da sequência discursiva que ele enuncia. (Gregolin, 2005: 4)
A dupla origem do conceito de FD fez com que ele conservasse grande instabilidade, sendo usado de forma plástica para designar todo grupo de enunciados “sócio-historicamente circunscritos que pode relacionar-se a uma identidade enunciativa: o discurso comunista, o conjunto de discursos proferidos por uma administração, os enunciados que decorrem de uma ciência dada, o discurso dos patrões, dos camponeses, etc.” (Charaudeau; Maingueneau, 2012: 243). Para os autores, tal plasticidade empobrece a noção.
Em Discours et analyse du discours, Maingueneau (2014) divide as categorizações utilizadas pelos analistas do discurso em unidades tópicas e não tópicas. Enquanto as unidades tópicas são de alguma forma dadas, previamente recortadas pelas práticas sociais, as unidades não tópicas são construídas pelo pesquisador. Gêneros e tipos de discurso (como administrativo, publicitário etc.) seriam unidades tópicas, assim como agrupamentos por fonte (discursos oriundos de determinados atores sociais). Já as FD fariam parte das unidades não tópicas, construídas pelo pesquisador de acordo com o objetivo da sua pesquisa. Ao tratarmos da FD antiagricultura industrial, trabalhamos com o que Maingueneau (2014) chama de formações discursivas temáticas.
Levando em conta o que foi exposto, o principal argumento deste trabalho é o de que o discurso dualista é elemento central na constituição do que chamamos de FD antiagricultura industrial. No trabalho de tese do qual faz parte este artigo (Medeiros, 2017), conseguimos mapear, a partir da análise dos diferentes documentários estudados, certos módulos argumentativos compartilhados por todos ou grande parte dos filmes. Tais módulos, com seus elementos verbais e visuais, fazem parte de um repertório discursivo usado por atores sociais que se colocam em oposição ao modelo da agricultura industrial, sem, no entanto, esgotá-lo. E é esse repertório, parcialmente mapeado em nossa análise, que chamamos de FD antiagricultura industrial.
A denominação agricultura industrial é bastante usada pelo discurso ecologista para se referir a um modelo de produção agropecuária fundado nos princípios da Revolução Verde: “uma agricultura de alto rendimento, baseada no uso intensivo de capital (tratores e maquinários de alta produtividade) e insumos externos (sementes de alto potencial genético, fertilizantes e pesticidas sintéticos)”1 (Cáceres, 2009: 124). O termo, no entanto, não faz parte do repertório discursivo das empresas agroquímicas, que preferem utilizar agricultura convencional ou agricultura tradicional (Medeiros, 2017). A Revolução Verde, que teve início no pós-guerras, promoveu fortes mudanças técnicas e sociais no campo. Os discursos favoráveis a tais transformações têm como principal argumento o aumento da produtividade proporcionada pelo uso de insumos químicos, sementes geneticamente modificadas e maquinário agrícola. Os discursos contrários ao modelo, quase sempre relacionados ao ambientalismo, apresentam críticas de diversas naturezas. Moreira (2000) distingue a crítica da técnica, a crítica social e a crítica econômica. Na primeira, argumenta-se que tais práticas vêm provocando poluição, envenenamento dos recursos naturais e dos alimentos, perda da biodiversidade, destruição dos solos e assoreamento dos rios. Já a crítica social aponta para o fato de o modelo agrário da Revolução Verde, baseado em latifúndios e maquinário pesado, gerar “empobrecimento, desemprego, favelização dos trabalhadores rurais, êxodo rural urbano, esvaziamento do campo, sobreexploração da força de trabalho rural, incluindo o trabalho feminino, infantil e da terceira idade” (Moreira, 2000: 45). Por último, há a crítica econômica, que destaca o processo de elevação de custos do pacote tecnológico da Revolução Verde.
O DISCURSO DUALISTA
Observando os esquemas argumentativos identificados nos documentários analisados, percebe-se que em vários momentos eles utilizam um discurso dualista para construir a oposição entre agricultura industrial e agricultura orgânica/agroecológica. É na utilização de esquemas binários – como vida versus morte, criação versus destruição, fertilidade versus esterilidade e liberdade versus escravidão, entre outros – que o discurso dualista se manifesta de forma mais evidente no corpus analisado.
De acordo com a Stanford encyclopedia of philosophy, o termo dualismo tem uma variedade de usos na história do pensamento, sendo o mais comum, no que diz respeito a um determinado domínio, o de existência de dois tipos ou categorias fundamentais de coisas ou princípios (Robinson, 2003). O tratamento da questão agrícola a partir de esquemas binários que opõem princípios antagônicos pode, dessa forma, ser considerado dentro do escopo do pensamento dualista. Também cabe salientar que o dualismo presente na formação discursiva estudada tem caráter fundamentalmente maniqueísta, uma vez que existe clara construção discursiva que define o lado do bem a partir de princípios positivos e o lado do mal a partir de princípios negativos.
Uma estratégia discursiva que ajuda na sustentação do discurso maniqueísta é a desumanização do lado oposto: o inimigo a ser combatido, na maioria das vezes, não tem face. Fala-se na indústria, na agricultura industrial, nas corporações ou até na Monsanto (multinacional de agricultura e biotecnologia), mas, não sendo nenhum desses sujeitos um ente com personalidade, torna-se mais simples a associação deles à ideia do mal em sentido mitológico. A seguir, faremos a exposição de alguns dos esquemas binários identificados no interior da formação discursiva antiagricultura industrial. Dividimos tais esquemas em dois grandes grupos: os que se relacionam com a oposição arquetípica entre vida e morte e os que integram os princípios antagônicos relacionados às ideias de liberdade e escravidão.
VIDA VERSUS MORTE
Em todos os documentários estudados – alguns em maior, outros em menor grau –, existem recorrências de enunciados e imagens que evocam os arquétipos de vida e morte. Mais precisamente, existe a construção discursiva de enfrentamento entre vida e morte, criação e destruição, fertilidade e esterilidade, entre outros dualismos. Tal enfrentamento é construído, por exemplo, a partir do uso constante do signo guerra e outros relacionados a essa ideia. Dentre os seis filmes estudados, cinco deles associam a origem da agricultura industrial à guerra (sentido literal), enquanto quatro deles contêm enunciados que propõem a metáfora de uma guerra contra a natureza e/ou contra a vida. De forma geral, temos a guerra em seu sentido literal dando legitimidade à metáfora bélica, em um esquema lógico-discursivo que poderíamos sintetizar da seguinte forma: a agricultura industrial nasceu a partir de armas de guerra (sentido literal), que passaram a ser usadas como insumos. Esses mesmos insumos são hoje usados em uma guerra (metáfora bélica) contra a natureza ou a vida. A imagem a seguir demonstra o jogo entre os sentidos literal e metafórico de guerra a partir de uma metáfora visual.
A sequência de imagens presente na Figura 1 foi retirada do filme GMO OMG. Nela, uma animação mostra tanques de guerra, soldados segurando armas e aviões de guerra que se transformam, nos frames seguintes, em homens segurando pulverizadores manuais, tratores de arado e aviões pulverizadores.
Adiante, alguns exemplos dos enunciados que propõem tratar a questão da agricultura industrial a partir do uso da metáfora da guerra.
1. Depois da Segunda Guerra Mundial, a batalha com a natureza se tornou uma guerra irrestrita. Químicos produzidos para explosivos e agentes neurotóxicos foram reformulados como fertilizantes e pesticidas e depois pulverizados sobre terras agrícolas em todo o mundo2 (narrador em GMO OMG, 2013).
2. Os OGM emergiram nos anos 1990 como a arma mais avançada da indústria contra a natureza, plantas modificadas para produzirem pesticidas e suportarem herbicidas mortais. Mas como as ervas daninhas e pragas se adaptaram rapidamente, a cura tornou-se uma maldição3 (narrador em GMO OMG, 2013).
3. A indústria do agronegócio não produz alimento e não colabora com a natureza. De fato, trabalha baseada na guerra contra a natureza (Vandana Shiva em O VENENO…, 2014).
4. A semente é o nervo da guerra. Eles controlam toda a população com esse negócio de fornecer as sementes. É uma guerra fria. Creio que é uma guerra fria contra a população, esse negócio da semente4 (Narayan Reddy em SOLUTIONS…, 2010).
5. O PIB5 não considera, por exemplo, as pessoas que contraem todos os tipos de enfermidades, inclusive o câncer. Não considera o custo do tratamento dessas doenças, as vidas que se perdem, a dor das famílias. Para eles, só conta o capital. Não se discute qualidade de vida nem a destruição da natureza. Só vale o mundo dos negócios. Eles estão contaminados pelas estatísticas mentirosas que mascaram uma guerra contra a vida. Em 2011, éramos cerca de vinte entidades. Hoje somos muito mais. Um imenso conjunto da sociedade luta contra o veneno que nos mata um pouco a cada dia quando consumimos alimentos contaminados pelos agrotóxicos. Nós lutamos pela vida (Vandana Shiva em O VENENO…, 2014).
Podemos verificar que, nos enunciados verbais contidos nos filmes, o agente dessa guerra metafórica é a agricultura ocidental, a indústria, a indústria do agronegócio ou, em última instância, o sistema capitalista, esse último subentendido no extrato 5, no qual existe um “eles” sem referente. A associação aproximativa do “eles” ao sistema capitalista, ou a seus agentes, pode ser feita graças ao léxico usado no enunciado, que emprega termos como “PIB”, “capital” e “negócios”.
Ainda no extrato 5, podemos verificar que ele constrói discursivamente os dois lados da trincheira: temos um “eles”, que podemos relacionar ao sistema capitalista e que promove uma guerra contra a vida, e um “nós”, descrito como “um imenso conjunto da sociedade” que luta pela vida. Enquanto o narrador enuncia a existência de “um imenso conjunto da sociedade”, vemos na imagem uma lista de várias ONG e movimentos sociais engajadas na causa da agroecologia. Há aqui um discurso claro de enfrentamento entre vida e morte. Essa ideia está presente em todos os filmes, seja através do dualismo “vida versus morte” propriamente dito, seja através de esquemas binários variantes, como “preservação versus destruição” e “fertilidade versus esterilidade”. Enquanto a agricultura industrial é associada a signos de morte, sejam verbais ou imagéticos (a guerra, destacada anteriormente, é um deles), os modelos alternativos ligados a uma produção agroecológica são associados a signos de vida. No extrato 6, tal construção aparece de maneira clara: “Nós, os camponeses do Haiti, somos os guardiões das sementes da vida. No momento, estamos vendo as sementes da morte invadindo o nosso país”6 (Chavannes Jean-Baptiste, líder do movimento Papaye, em GMO OMG, 2013).
As “sementes da vida” enunciadas no trecho são as sementes crioulas, usadas em modelos agrícolas de base ecológica, enquanto as “sementes da morte” são as transgênicas comercializadas pela multinacional de biotecnologia Monsanto. Nos extratos 7 a 11, podemos verificar outras formas de associação da agricultura industrial a signos de morte:
7. Todos temos que comer, e já é hora de que a sociedade tome consciência de que uma dieta cheia de tóxicos é a dieta da morte, é a dieta da doença, é a dieta do câncer7 (Vandana Shiva em DESIERTO…, 2003).
8. Eles dizem que têm um presente pra te dar. É um presente pra te matar. É um presente pra te destruir, destruir quem você é8 (agricultor não identificado em GMO OMG, 2013).
9. O veneno chega pelo ar, pela terra, é pulverizado, mata de todas as formas. Contamina e destrói os seres humanos, os pássaros, as abelhas, destrói a terra, polui o ar e a água. Quando se fala em combate às pragas, devemos saber que a praga é o próprio veneno (narrador em O VENENO…, 2014).
10. Nas antigas veredas, as aves fogem, os animais desaparecem, as águas secam. Onde havia vida, nasce o deserto verde. Esse é o modelo que nos propõe o agronegócio: terra arrasada para o povo e muita grana para os ricos. Ao contrário do que predisse o profeta, o sertão não vai virar mar e nem o mar vai virar sertão. A continuar o atual modelo agrícola, o Brasil será transformado em um grande deserto (narrador em O VENENO…, 2014).
11. Você retira a química, os fertilizantes de síntese de certa região francesa e o que ocorre? Não ocorre nada, porque a terra está morta. Isso quer dizer que não vivemos em um deserto como o Saara, mas em um deserto virtual, porque a terra já deu tudo; ela está queimada, ela está morta. Ela não dará mais nada. Ela só me dá porque colocamos fertilizantes de síntese. Então, de fato, nós vivemos em um deserto, porém um deserto virtual. Mas um dia, talvez, ele será um deserto real, sobretudo se o petróleo continuar a subir, já que toda a agricultura química é baseada no petróleo9 (Dominique Gillet em SOLUTIONS…, 2010).
Nos extratos 7, 8 ,9 e 11, o substantivo “morte”, o verbo “matar” e o adjetivo “morta” se conectam a elementos associados à agricultura industrial. Os agentes da morte são “uma dieta cheia de tóxicos” (referência aos agrotóxicos), “um presente” (referência às sementes transgênicas doadas pela Monsanto para agricultores haitianos) e “o veneno” (mais uma referência aos agrotóxicos). Já no extrato 11, a terra está morta por conta dos insumos químicos com os quais é tratada. Nos extratos 8 e 9, verificamos a presença do verbo destruir, que também tem como agente os agrotóxicos e as sementes transgênicas. Os extratos 10 e 11 falam de uma possível transformação do Brasil e da França, respectivamente, em desertos. O signo “deserto” está associado a ideias de ausência de vida e esterilidade.
Além dos signos já citados, outros são acionados com certa frequência pelos filmes para conectar discursivamente a agricultura industrial à ideia de morte – entre eles, as palavras “suicídio” (de agricultores que adotam a agricultura industrial) e “genocídio” (de populações humanas mortas pelo câncer).
Se os trechos anteriores demonstram associação discursiva entre a agricultura industrial e seus elementos a signos de morte, nos extratos a seguir podemos verificar que, constantemente, a agricultura de base ecológica é associada a signos de vida:
12. Existem alternativas para nos alimentarmos com qualidade e sem riscos de contaminação. Estes são os orgânicos cultivados em Paracambi, no estado do Rio de Janeiro. Nesse sítio, onde a cultura é orgânica, os animais não vivem confinados, e tudo inspira qualidade de vida (narrador em O VENENO…, 2014).
13. A agrofloresta é um sistema de agricultura que considera a terra um ser vivo. Todas as vidas dependem dessa vida. Se essa vida aqui está na UTI10, onde é que nós estamos, [já] que dependemos dela? O que a gente come, o que a gente bebe, o ar que a gente respira, a roupa que se veste, tudo depende de como está a terra (Jonas Severino Pereira em O VENENO…, 2014).
14. Os produtores das sementes crioulas fertilizam a vida lutando contra o monopólio das sementes transgênicas (narrador em O VENENO…, 2014).
15. O encontro de agricultura orgânica… A gente costuma falar que é o encontro do bem. Ali, tá todo mundo preocupado com a qualidade do que a gente vai comer. Ninguém está preocupado em se dar bem com o outro, ou ficar rico, ou menos rico. Eu quero deixar para a minha filha uma coisa que seja preservada, que seja sustentável, que ela possa ter orgulho. Eu tô preservando as minhas águas, eu tô preservando a minha mata, eu tô preservando os meus animais, eu tô preservando a floresta, eu tô preservando a nossa saúde (Marcos Palmeira em O VENENO…, 2014).
16. Eu vou pegar o solo sob a floresta, você vai ver. Nós vamos ver a estrutura de um solo quando ele está vivo. São bolinhas, um cuscuz, como dizemos. Ah, mas aqui há várias raízes, aqui eu estou na floresta. O solo não é muito ligado, ele é estruturado pela vida, é um verdadeiro cuscuz. Porque isso é uma terra que está viva11 (Claude Bourguignon em SOLUTIONS…, 2010).
Ao invés de destruição, preservação (extrato 15). Ao invés de morte, vida e qualidade de vida (extratos 12, 13, 14 e 16). Ao invés de deserto, fertilização (extrato 15). A oposição morte/vida fica bem clara quando comparamos os discursos sobre agricultura industrial com aqueles sobre modelos agrícolas de base ecológica. No trecho 14, vemos ainda a construção de uma oposição bem versus mal, quando o entrevistado enuncia que o encontro de agricultura orgânica é o “encontro do bem”.
Em O veneno está na mesa 2, a dicotomia vida versus morte também é trabalhada a partir de elementos visuais. A Figura 2 mostra uma metáfora visual: enquanto a imagem de laranjas é associada verbalmente a benefícios à saúde, outra imagem, dessa vez de laranjas podres, é associada verbalmente ao uso de agrotóxicos, que, por sua vez, são ligados textualmente a certos problemas de saúde, como o câncer. A podridão, que pode ser lida como forma de deterioração da vida, cria conexão visual entre agrotóxicos e morte. O uso dessa metáfora é uma estratégia discursiva visual que, além de reforçar a dualidade vida/morte, tem como objetivo superar uma dificuldade fílmica: é impossível distinguir visualmente uma fruta cultivada com e sem agrotóxicos. Dessa forma, o apodrecimento da fruta tratada com agrotóxico, apesar de irreal, ou melhor, não literal (o agrotóxico por si só não apodrece frutas), cria um efeito de sentido que reforça o argumento central do filme. No documentário, o mesmo processo de apodrecimento é feito com várias outras frutas e legumes.

LIBERDADE VERSUS ESCRAVIDÃO
Outra dicotomia bastante explorada discursivamente nos documentários é a oposição entre liberdade e escravidão. De um lado, temos todo um léxico ligado à ideia de escravidão que é associado à agricultura industrial, enquanto termos relacionados à ideia de liberdade são usados para se referir à agricultura orgânica/camponesa. Também verificamos a presença de esquemas binários correlatos, como autonomia/independência versus dependência. Essa estratégia discursiva aparece em todos os documentários estudados, exceto no francês Bientôt dans vos assiettes. Neste trecho, podemos ver o uso da palavra “escravo” no filme Food, Inc.:
17. As companhias mantêm os produtores sob o seu controle por causa dos débitos que os produtores têm. Para construir um galinheiro é algo entre 280 e 300 mil dólares por galinheiro. E depois que você faz o seu investimento inicial, as companhias voltam constantemente com pedidos de modernizações para novos equipamentos, e os criadores não têm escolha. Você tem que fazer isso ou você é ameaçado de perda de um contrato. É assim que eles mantêm os produtores sob controle. É como eles os mantêm gastando dinheiro, indo ao banco pegar emprestado mais dinheiro. O débito só aumenta. Não ter voz no seu negócio é degradante. É como ser escravo da companhia12. (Calore Morison em FOOD…, 2008)
No enunciado, temos uma comparação entre o sistema de produção industrial de galinhas e o fenômeno social da escravidão (“é como ser escravo da companhia”). O discurso em questão aciona uma memória discursiva sobre a escravidão e seu sentido historicamente negativo. Temos também o uso da palavra “controle” na expressão “manter sob controle”13; como veremos, essa é uma palavra bastante usada nos documentários para descrever a relação de dominação das empresas com os agricultores. As expressões “não têm escolha” e “não ter voz” também ajudam a construir a ideia de restrição de liberdade. Além da escravidão, por vezes são usadas palavras referentes a um outro processo histórico: a servidão.
18. A servidão torna os plantadores de fumo totalmente dependentes das fumageiras. (narrador em O VENENO…, 2014)
19. As famílias produtoras de fumo, além de todos os riscos a que se submetem em termos de saúde, deixam de produzir o seu próprio alimento. São famílias que não têm mais vida comunitária, porque esse é um tipo de trabalho que alguns chegam a chamar de servidão. É um termo bastante forte, mas é um estilo de servidão, porque não tem nada a ver com a lógica camponesa de organização do trabalho. Cada família, na sua propriedade, trabalhando para uma empresa. (Paulo Petersen em O VENENO…, 2014)
Apesar de serem sistemas de exploração do trabalho historicamente distintos, a escravidão e a servidão se assemelham porque evocam uma memória discursiva relacionada à restrição de liberdade e autonomia. Podemos notar no extrato 19 a justificação do uso da palavra “servidão”. Ela ocorre porque o enunciador percebe que o uso pode soar inadequado ao enunciatário, uma vez que este pode acionar uma memória discursiva ligada ao feudalismo, um modo de produção social localizado no tempo e no espaço (Idade Média europeia). Além da oposição liberdade versus escravidão/servidão, também percebemos discursos que opõem a liberdade à ditadura, como neste caso: “20. Nós podemos ter a monocultura da mente, o que é uma ditadura militar, ou nós podemos ter a diversidade da mente e do planeta, o que é liberdade e prosperidade para todos. (Vandana Shiva em O VENENO…, 2014).
No trecho, são colocados de lados opostos “ditadura militar” e “liberdade e prosperidade para todos”, sendo o primeiro associado à metáfora da “monocultura da mente” e o segundo à ideia de “diversidade da mente e do planeta”. A metáfora da “monocultura da mente” cria uma associação não explicitada entre ditadura militar e agricultura industrial, que normalmente trabalha com monoculturas – enquanto a liberdade, discursivamente relacionada, no trecho em questão, à palavra diversidade, é indiretamente associada à agricultura camponesa, que costuma trabalhar com diferentes culturas num mesmo espaço.
No enunciado presente no extrato 18, temos a associação entre servidão e dependência, que é outro termo usado com certa frequência nos discursos dos documentários. Se, por um lado, a agricultura industrial é associada à palavra “dependência”, por outro, no discurso dos documentários, a agricultura orgânica torna os produtores “independentes”, como mostra este trecho.
21. A semente, ela é a independência dos povos pobres. O produtor, ele só é independente se ele tem terra e semente. A importância da semente crioula, da semente orgânica, da horta orgânica, ela é uma importância tão grande na vida nossa, essa é o nosso projeto de liberdade. (Olalia de Fátima da Silva em O VENENO…, 2014)
No trecho anterior, independência e liberdade aparecem associadas em um esquema discursivo que liga ambas à agricultura orgânica camponesa. Temos o contraponto claro com a servidão/dependência, que é relacionada à agricultura industrial. Também associadas à ideia de independência, as palavras “autonomia” e “soberania”, bem como suas variantes, são acionadas com frequência pelos documentários, como mostram estes enunciados:
22. Perto de Bangalore, encontramos Narayan Reddy, um pequeno agricultor. Antigamente, ele era um campeão da agricultura química intensiva, ganhando todos os concursos agrícolas e sendo consagrado como melhor produtor do estado de Karnataka. Mas, como ele mesmo diz, I was a loser, “eu era um perdedor”. Todo o dinheiro que ganhava com sua produção virava pó com a compra de sementes, pesticidas, adubos e tratores. Ele decidiu um dia virar as costas para a agricultura química e os métodos tradicionais. Após um ou dois anos difíceis, reencontrou um nível de produção muito bom, se tornou autônomo e não tem mais débito14 (narradora em SOLUTIONS…, 2010).
23. Quando os agricultores se tornam autônomos em sementes e adubos, a agricultura se torna realmente fácil. A semente é o nervo da guerra. Eles controlam toda a população com esse negócio de fornecer sementes. É uma guerra fria. Creio que é uma guerra fria contra a população o negócio da semente. Tenho esperança de que daqui a cinco ou seis anos ao menos 50% dos nossos pequenos agricultores e criadores vão se reconverter a esse sistema15 (Narayan Reddy em SOLUTIONS…, 2010).
24. Digo que cultivar seu jardim hoje, quando temos a possibilidade, é um ato político, um ato de resistência. […] E a autonomia é a palavra-chave hoje em dia16 (Pierre Rabhi em SOLUTIONS…, 2010).
25. Sabemos da nossa luta do dia a dia. Se nós perdermos nossas terras, se perdermos nossos territórios, não só perdemos a nossa autonomia econômica, mas perdemos a soberania sobre nossos corpos e nossas vidas (Nalu Farias em O VENENO…, 2014).
26. Os haitianos não eram os únicos a protestar contra as sementes geneticamente modificadas da indústria da biotecnologia. A resistência estava brotando no mundo inteiro. Para o Haiti, aceitar o presente da Monsanto significaria perder suas próprias sementes, sua soberania alimentar, uma parte essencial de sua cultura e um modo de vida. E eles estavam lutando por algo que perdemos sem sequer saber do que estávamos abrindo mão. Eles acreditam que as sementes da vida são uma herança comum de toda a humanidade, tão numerosas e diversas quanto as estrelas do céu, possuídas por ninguém e divididas por todos17 (narrador em GMO OMG, 2013).
27. Então hoje em dia a produção de base ecológica destinada aos mercados locais é uma verdadeira alternativa para a construção ou recuperação da soberania e segurança alimentar dos povos18 (Walter Pengue em DESIERTO…, 2003).
28. A intervenção global dos governos vai ter que se importar também com o mercado alimentício, e a produção de alimento, insisto, tem a ver fortemente com outro conceito que não podemos perder, que é o de soberania alimentar. A soberania alimentar é um direito soberano dos povos, não apenas para comer, mas produzir sua própria comida. De que maneira? No seu próprio estilo. Sob que pauta? Suas próprias pautas19 (Walter Pengue em DESIERTO…, 2003).
Nos enunciados anteriores, fala-se em agricultores autônomos, autonomia e autonomia econômica. No extrato 22, a ideia de autonomia é associada ao fim do débito com as empresas que vendem sementes e químicos agrícolas graças ao abandono das práticas da agricultura industrial. No 23, a autonomia está na produção das próprias sementes e adubo. No 24, se encontra na produção do próprio alimento. Já no extrato 25, que fala em autonomia econômica, ela está ligada à posse da terra. De forma geral, todos esses empregos da palavra autonomia estão relacionados a um discurso de independência em relação à agricultura industrial e seus produtos. O modelo ideal do agricultor autônomo criado por tais discursos é o do agricultor dono da própria terra e que produz suas próprias sementes e adubos, sem ter que recorrer aos insumos da indústria. O extrato 24, inclusive, extrapola o foco nos agricultores rurais, se dirigindo a todos que tenham a possibilidade de cultivar seu jardim, o que seria um ato de resistência. O uso da palavra “resistência” cria a ideia de que do outro lado, na agricultura industrial, existe opressão. No extrato 25, observamos também o uso da palavra “soberania”, que aqui é especificada como “soberania sobre nossos corpos e nossas vidas”. Nos extratos 26, 27 e 28, é destacada a importância da “soberania alimentar”, conceito fortemente associado aos discursos anteriores sobre autonomia dos agricultores.
A partir de tais discursos, podemos visualizar a construção de uma analogia discursiva implícita, que coloca as empresas de insumos agrícolas como os novos senhores de escravos ou os novos senhores feudais. A recusa dos agricultores aos seus produtos seria uma forma de resistência, um grito de independência. Claramente, quando se fala em autonomia, soberania e liberdade nos documentários, busca-se libertação em relação ao modus operandi da agricultura industrial.
Um elemento que perpassa vários dos trechos transcritos anteriormente é a questão da propriedade. Propriedade da terra, das sementes e do alimento (quando se fala em “ter suas próprias sementes” ou “produzir sua própria comida”, por exemplo). Podemos verificar o trato da questão da propriedade também nestes enunciados:
29. A ideia diabólica dos fabricantes de sementes é: pegar um pai bem pequeno e uma mãe bem pequena, sem valor, e fazer tentativas até que esses dois pais medíocres resultem em um híbrido magnífico. E vou isso vender ao agricultor, porque assim, quando ele replantar e os grãos dos pais revierem, terá coisas medíocres; então ele não poderá ganhar sua vida. Eu o encurralo, assim eu o estrangulo. O híbrido é completamente diabólico, é a ideia de impedir o agricultor de ser proprietário de suas sementes20 (Claude Bourguignon em SOLUTIONS…, 2010).
30. Então eu digo aos camponeses: tenham suas próprias sementes; quando vocês as têm, controlam a cadeia alimentar. Em seguida, se reconectem com a agricultura que existia antigamente neste país. Isso não quer dizer que vou levar vocês para a idade das cavernas, mas ao menos faço isso: eu os impeço de se suicidarem21 (Devider Sharma em SOLUTIONS…, 2010).
31. Quando se tira do povo o que ele tem de mais sagrado, que é a semente, você realmente faz terrorismo. Isso é terrorismo. Quando se rouba das pessoas o que é delas ou o que deveria ser delas, isso é obrigá-las a se submeter a todas as suas vontades. Com a aparição da questão dos transgênicos, com todo esse debate, o movimento abriu os olhos. Foi aí que eles realmente entenderam que o pequeno agricultor, o agricultor do MST22, o sem-terra, começava a correr grande perigo se não cultivasse com suas próprias sementes23 (Amarildo Zanovello em SOLUTIONS…, 2010).
32. Eram para mudar de vida, as sementes que a Monsanto mandou para a gente. Entende? Queríamos ter nossas próprias sementes cultivadas em casa para plantar. O que nós plantamos produz sementes que podemos plantar todo ano. Com o produto da Monsanto, você só pode plantar uma vez. Foi por isso que nós não quisemos24 (homem não identificado em GMO OMG, 2013).
33. Quando você modifica geneticamente uma cultura, você a possui. Nós nunca tivemos isso na agricultura25 (Michael Pollan em FOOD…, 2008).
34. No caso da Monsanto, seu controle é muito dominante. Se você quiser produzir na agricultura, você estará na cama com a Monsanto. Eles possuem a soja. Eles vão controlar esse produto da semente ao supermercado. Eles estão, de fato, ganhando controle da comida26 (Troy Roush em FOOD…, 2008).
Vemos aqui a semelhança de certos discursos propagados nos documentários com o discurso marxista, mais precisamente quando ele discute a propriedade dos meios de produção. No entanto, o marxismo clássico não se ocupou dos trabalhadores do campo, se voltando para as relações trabalhistas urbano-industriais. Podemos perceber, em algumas falas nos documentários, uma espécie de transposição do discurso marxista para as atuais relações no campo, seguindo a seguinte lógica: com as sementes transgênicas, as empresas se tornam proprietárias de certas espécies alimentícias, tornando os agricultores dependentes de seus insumos (em um tipo de propriedade dos meios de produção). Os extratos 29 a 32 falam da posse das sementes, que estaria sendo negada aos agricultores pela lógica da agricultura industrial. Já os extratos 33 e 34 vão além: eles atribuem à agricultura industrial a posse de “uma cultura” e “da soja” (no segundo trecho, o sujeito da posse é especificado: a Monsanto). Este trecho (extrato 35) também pode ser relacionado a certo discurso marxista sobre a propriedade dos meios de produção e a exploração do trabalho no modelo capitalista: .É entregar todas as nossas terras ao grande capital. E fazer de conta que nós, trabalhadores, trabalhadoras rurais, servimos só para sermos empregados. Com isso a gente não concorda” (Francisco Negris em O VENENO…, 2014).
Em alguns dos enunciados anteriores, percebe-se que o léxico ligado à ideia de propriedade vem acompanhado do substantivo “controle” ou do verbo “controlar”. Em um dos trechos, a Monsanto controla a soja “da semente ao supermercado”, controla a comida. Em outro, quando os camponeses possuem a semente, eles controlam a “cadeia alimentar”. A expressão “da semente ao supermercado” está fortemente associada à ideia de cadeia alimentar. Então, ambos os enunciados, proferidos em filmes diferentes, trazem a ideia de disputa de poder pelo controle da cadeia alimentar.
CONCLUSÃO
Este trabalho teve o intuito de demonstrar que o dualismo desempenha papel central na FD antiagricultura industrial, identificando sua presença constante no discurso dos filmes e buscando compreender como é operada linguisticamente a construção de tais esquemas binários. Sendo o que nós chamamos de formação discursiva antiagricultura industrial uma FD constitutiva de um todo mais amplo e heterogêneo, que é o discurso ambiental, um encaminhamento interessante para pesquisa futura seria o de verificar até que ponto o pensamento dualista é acionado no tratamento de outras temáticas ambientais, como as mudanças climáticas, a produção de resíduos sólidos e a produção global de energia, entre outros.
É importante destacarmos que, por uma questão de recorte, decidimos trabalhar neste artigo com os dois grupos de esquemas binários que mais se destacaram, que foram os que opõem ideias relacionadas a vida e morte e os que contrapõem léxico relacionado aos conceitos de liberdade e escravidão. No entanto, em nossa tese de doutorado, outros esquemas binários também foram verificados, como a oposição entre local e global (sendo o local relacionado à agricultura ecológica e o global à agricultura industrial) e entre tradicional e moderno/científico (sendo o tradicional associado à agricultura ecológica e o moderno/científico à agricultura industrial). Tais esquemas, no entanto, se mostraram menos rígidos em seu antagonismo do que os apresentados neste artigo. Enquanto as dicotomias vida/morte e liberdade/escravidão foram construídas discursivamente a partir de oposição irreconciliável, no caso de local/global e tradicional/moderno, alguns enunciados presentes nos filmes apontam para a possibilidade de síntese, o que quebra a noção de dualismo, no sentido filosófico do termo.
Também merece destaque o fato de, apesar de termos trabalhado com seis filmes distintos e a partir das recorrências discursivas encontradas neles e construído um repertório de módulos argumentativos que fariam parte da FD antiagricultura industrial, os filmes não se comportaram todos de forma homogênea, pois obviamente carregam suas particularidades discursivas. Bientôt dans vos assiettes, apesar de compartilhar de muitos outros módulos argumentativos elencados em nossa tese, não usa de forma relevante os esquemas binários estudados neste artigo. Em Desierto verde e Food, Inc., tais esquemas estão presentes, mas não configuram elemento central na construção discursiva dos filmes. É nos documentários GMO OMG, Solutions locales pour um désordre global e O veneno está na mesa 2 que o discurso dualista aparece de forma mais forte e central. Nesse último, um enunciado específico é capaz de sintetizar discursivamente a problemática discutida neste artigo, ao acionar simultaneamente ambos os grupos de dualismos estudados aqui. Nele, a física Vandana Shiva afirma que “já se trata de escolher em que mundo a gente quer viver: se em um mundo de beleza e liberdade ou em um mundo de exploração, doenças e terra arrasada”. Tal enunciado também demonstra outro argumento desenvolvido neste artigo: o de que os dualismos acionados pelo discurso dos documentários têm caráter marcadamente maniqueísta.
Uma última conclusão a ser destacada é o fato de que, mesmo considerando apenas os três filmes que mais recorrem ao dualismo, cada um deles é produzido em um país diferente, com diferentes contextos agrários (Estados Unidos, França e Brasil). Tendo isso em vista, podemos supor que a presença do dualismo nos discursos críticos à agricultura industrial perpassa fronteiras geográficas. O tratamento dualista da questão agrícola seria, portanto, tão global quanto a FD antiagricultura industrial e o próprio discurso ambiental. Ou seja: a comunicação da problemática agrícola, neste trabalho verificada dentro do objeto filme documentário, pode estar sendo conduzida por um discurso fortemente marcado pelo dualismo. Tal conclusão inspira duas importantes perspectivas de continuidade de investigação. A primeira, confirmativa, seria a verificação da existência de tal centralidade em outros gêneros do discurso. Esforços com esse fim já foram iniciados em nossa tese de doutorado (Medeiros, 2017) e revelaram a presença dos mesmos esquemas binários em gêneros das mídias digitais, como websites e postagens no Facebook. A segunda perspectiva teria a finalidade de investigar, a partir de estudos de recepção e/ou reflexões teóricas, a implicação da forte presença desse dualismo na comunicação ambiental. Ela é bem-sucedida em criar sentidos negativos para o modelo de agricultura industrial e, consequentemente, sentidos positivos para os modelos alternativos?
REFERÊNCIAS
BIENTÔT dans vos assiettes. Direção: Paul Moreira. Produção: Luc Hermann. Paris: Premières Lignes, 2004. (90 min).
CÁCERES, D. M. Tecnologías modernas: la perspectiva de los pequeños productores (Argentina). Cuadernos de Desarrollo Rural, Bogotá, v. 6, n. 62, p. 121-143, 2009.
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DESIERTO verde. Direção: Ulises de la Orden. Produção: Ulises de la Orden e Carlos Barrientos. [Buenos Aires]: Aura Films, 2003. (86 min).
FOOD, Inc. Direção: Robert Kenner. Produção: Robert Kenner e Elise Pearlstein. Nova York: Magnolia Pictures, 2008. (94 min).
FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
GMO OMG. Direção: Jeremy Seifery. Produção: Elizabeth Kucinich. Nova York: Submarine Deluxe, 2013. (83 min).
GREGOLIN, M. R. Formação discursiva, redes de memória e trajetos sociais de sentido: mídia e produção de identidade. In: SEMINÁRIO DE ESTUDOS EM ANÁLISE DO DISCURSO, 2., 2005, Porto Alegre. Anais… Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005.
MAINGUENEAU, D. Discours et analyse du discours. Paris: Armand Colin, 2014.
MEDEIROS, P. O meio ambiente na narrativa documental: uma análise das estratégias discursivas de documentários sobre a agricultura industrial. 2017. 213 f. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2017.
MOREIRA, R. J. Críticas ambientalistas à revolução verde. Estudos, Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, n. 15, p. 39-52, 2000.
O VENENO está na mesa 2. Direção: Silvio Tendler. Produção: Eduardo Tornaghi. [S.l.: s.n.], 2014. (110 min).
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.
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SOLUTIONS locales pour un désordre global. Direção: Coline Serreau. Produção: Matthieu Warter e Guillaume Parent. Paris: Memento Films, 2010. (113 min).
Notas
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