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Crítica e contágio: comunicação assignificante em Lazzarato e Preciado

Criticism and contagion: a-signifying communication in Lazzarato and Preciado

Demétrio Rocha Pereira a
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Alexandre Rocha da Silva b
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil

Crítica e contágio: comunicação assignificante em Lazzarato e Preciado

Matrizes, vol. 14, núm. 2, pp. 181-194, 2020

Universidade de São Paulo

Recepção: 13 Junho 2019

Aprovação: 12 Julho 2020

Resumo: Este artigo aborda a distinção entre semiologia significante e semiótica assignificante, concebida por Félix Guattari e retomada por Maurizio Lazzarato no escopo de uma crítica dos modos contemporâneos de produção capitalista. Para o italiano, investigar o nível significante não apenas é insuficiente como ajuda a dissimular a eficácia maquínica do nível assignificante. Reconhecendo nisso um problema epistemológico, discutimos a importância de considerar articulações entre esses níveis para que o assignificante devenha inteligível. Sugerimos, nesse sentido, que a atitude experimental de Paul B. Preciado fornece rota profícua para a investigação e a tradução de operações assignificantes específicas.

Palavras-chave: Semióticas assignificantes, Lazzarato, Preciado, comunicação.

Abstract: This paper discusses the distinction between signifying semiologies and a-signifying semiotics, conceived by Félix Guattari and resumed by Maurizio Lazzarato in the scope of a critique of contemporary capitalism. For the Italian, investigating language is not only insufficient, as it also helps to conceal the machinic effectiveness of the a-signifying level. Recognizing therein an epistemological problem, we discuss the importance of considering passages between these levels, lest the a-signifying be cast outside the sphere of the knowable. Finally, we suggest that the experimental attitude of Paul B. Preciado provides a useful route for the investigation and translation of specific a-signifying operations.

Keywords: A-signifying semiotics, Lazzarato, Preciado, communication.

INTRODUÇÃO

VINCULANDO-SE AO PENSAMENTO de Félix Guattari, Maurizio Lazzarato (2014) retoma a instigante distinção entre semiologias significantes e semióticas assignificantes em seu livro Signos, máquinas, subjetividades, que lança mão de amplo vocabulário conceitual para assim demarcar esses dois níveis de atividade semiótica: de um lado, a linguagem, a significação, a representação, os signos, a consciência e o indivíduo; do outro, as máquinas, o assignificante, o não representativo, os fluxos materiais, o inconsciente e o pré-individual. Alertando que encontramos sempre semióticas mistas, Lazzarato justifica a repartição entre os níveis: enquanto as sociedades contemporâneas regulariam os corpos sobretudo por meio de operações microfísicas assignificantes, grande parte das teorias críticas ao capitalismo seguiria considerando tão somente as estratificações representativas dos dispositivos de poder. Assim constrita às determinações significantes da linguagem sobre a cultura e os hábitos coletivos, a crítica anticapitalista ficaria alheia aos policiamentos mais elementares das sociedades de controle1.

Como se comunicam, entretanto, esses dois níveis? Lazzarato reconhece que convém pensar o modo como os níveis se articulam reciprocamente, mas, em seu texto, uma relação opositiva por vezes se insinua para sustentar, no limite, um hiato intransponível entre um plano dito discursivo e um plano dito existencial. Até que recomende o dialogismo de Mikhail Bakhtin, o texto de Lazzarato se mantém empenhado em reprochar a investigação do signo linguístico e a perpetuação de limitações estruturalistas em obras como as de Alain Badiou, Slavoj Žižek, Judith Butler e Jacques Rancière. Essa disposição crítica tem grande importância ao atentar para o enquadramento técnico de fluxos materiais microscópicos. Tomaremos distância, porém, de seu objetivo declarado de “deixar para trás a linguagem”. O próprio Lazzarato expressa a necessidade de avançar em relação à crítica generalista à representação para que possamos conceber uma linguagem internamente maquinada, operativa. A crítica precisaria, então, avançar da identificação dos distintos níveis até as passagens pelas quais um nível transforma-se noutro.

Sugerimos que uma das obras recentes de Paul B. Preciado (2018), Testo junkie, dispara nas cercanias desse problema crítico enfrentado por Lazzarato. Efetuando a absorção subcutânea de um regime político molecularizado, Preciado não se contenta em alertar contra a subserviência dos corpos frente ao capitalismo e do discurso frente aos sistemas físicos – anuncia um princípio de autocobaia que culmina na produção de ficções biopolíticas. Essa abordagem parte da afirmação de uma potência criadora de corpo e de linguagem, encarando a comunicação assignificante já não como caixa preta intraduzível, mas como campo aberto à experimentação.

Organizamos este artigo da seguinte maneira: de início, levantamos brevemente a especificidade das semióticas maquínicas e os argumentos por sua predominância nos dispositivos contemporâneos de poder. Relemos, em seguida, como a crítica de Lazzarato retira o logos do centro da problemática política para ali colocar os processos maquínicos. Finalmente, acompanhamos como Preciado permite transitar da atitude crítica para a abordagem experimental, abrindo caminho para a mobilização fabulatória do corpo e da escrita, no que a experiência do contágio entrevê estratégias singulares para a pesquisa em comunicação.

FUNDAMENTOS DA OPERAÇÃO ASSIGNIFICANTE

Félix Guattari (2012) explica que os efeitos das semióticas assignificantes não estão restritos à linguagem humana, uma vez que põem a rodar “equações e planos que enunciam a máquina e fazem-na agir de forma diagramática sobre os dispositivos técnicos e experimentais” (p. 47). Sob os aspectos semânticos das comunicações, as semióticas assignificantes modelariam as relações dos indivíduos com o mundo, respondendo mesmo pela produção da subjetividade. Continuador do pensamento de Guattari, Lazzarato encontra exemplo especialmente ilustrativo dessa semiotização assignificante e pré-individual dos corpos:

Quando dirigimos um carro, ativamos uma subjetividade e uma multiplicidade de consciências parciais conectadas aos mecanismos tecnológicos do carro. Não há um sujeito individuado que diz “você deve apertar esse botão, apertar esse pedal”. Se sabemos dirigir, agimos sem pensar sobre isso, sem engajar a consciência reflexiva, sem falar ou representar o que se faz. Somos guiados pelo agenciamento maquínico do carro. Nossas ações e componentes subjetivos (memória, atenção, percepção etc.) são “automatizados”, e se compõem com os dispositivos mecânicos, hidráulicos, eletrônicos etc., e como os componentes mecânicos (não humanos), constituem partes do agenciamento. Dirigir um veículo mobiliza processos diferentes de conscientização, um sucedendo ao outro, sobrepondo-se ao outro, conectando-se ou desconectando-se de acordo com os eventos. Frequentemente, quando dirigimos, entramos em um “estado de devaneio diurno”, sob fundo de uma “pseudo-sonolência”. (Lazzarato, 2014, p. 79)

Como a dominação dos corpos no mundo contemporâneo passasse pela multiplicação controlada desses encaixes simbióticos homem-máquina, Deleuze e Guattari percebem uma ordem política merecedora de conceito próprio e chamam-na de servidão maquínica. A uma política da significação, instituinte dos estratos identitários que cimentam a hierarquia social, junta-se uma selva dessubjetivadora na qual o corpo vira engrenagem entre engrenagens. Aquela primeira regência conhecíamos já como sujeição social, política que trabalha na escala molar de um Eu individuado, sustentando dualismos como os de gênero e de raça. Mas a servidão maquínica atua em nível pré-individual, por intensidades de ordem molecular, borrando as fronteiras entre os corpos, não menos e notavelmente aquelas entre o humano e o não humano: “o homem compõe peça com a máquina, ou compõe peça com outra coisa para constituir uma máquina. A outra coisa pode ser uma ferramenta, ou mesmo um animal, ou outros homens” (Deleuze & Guattari, 2013, p. 508, grifo no original). A servidão maquínica distinguiria, portanto, este capitalismo que mobiliza semióticas assignificantes e não representativas para fabricar dispositivos homens-máquinas:

Não mais agimos ou fazemos uso de algo, se por agir e usar entendermos funções do sujeito. Em lugar disso, constituímos entradas e saídas, inputs ou outputs, pontos de conjunção ou disjunção nos processos econômicos, sociais ou comunicacionais geridos e governados pela servidão. (Lazzarato, 2014, p. 29, grifos no original)

Enquanto a sujeição social representativa nos acomoda a modelos transcendentes, a servidão corre a nível molecular, imanente, ensejando signos que agem diretamente na matéria: “Semióticas assignificantes agem sobre coisas. Elas conectam um órgão, um sistema de percepção, uma atividade intelectual, e assim por diante, diretamente à máquina, a procedimentos, a signos, ignorando a representação de um sujeito (funcionamento diagramático)” (Lazzarato, 2014, p. 39).

Evidenciam-se as implicações para a crítica política: enquanto pensa em termos de sujeição social, a crítica custaria a suspeitar que mesmo a criança pertence a um regime generalizado de trabalho em tempo integral, sem que sua capacidade de agir precise ser comprada. As membranas assignificantes mais cotidianas encontram-se codificadas e codificantes, e as semiologias significantes viriam naturalizar os efeitos dessa ação molecular: não é só que o corpo se dociliza sob força – vai também racionalizar, justificar, advogar, significar em nome das forças que o dominam. A subjetividade seria, então, efeito dos jogos assignificantes: embora esteja claro que o detento suscite uma grande rede de significados, “o Panóptico funciona de modo diagramático, isto é, não representativo” (Lazzarato, 2014, p. 31), e os signos do encarceramento estão em relação com uma arquitetura assignificante.

Com efeito, Lazzarato busca no Michel Foucault de Vigiar e Punir (2001) uma descrição rigorosa da operação assignificante, recuperando alguns dos verbos empregados pelo pensador francês para tratar das relações de poder – sugerir, capacitar, solicitar, incitar, encorajar, impedir. O poder se mostra incidente sobre certas ações e mapeável a partir delas, e Foucault (1995) o definirá como ação sobre ações possíveis. Temos então que agir (sobre) delineia o conceito de poder e assoma como verbo assignificante por excelência: “Semióticas a-significantes agem sobre coisas . . . [ou, mais precisamente,] fluxos de signos a-significantes agem diretamente sobre fluxos materiais” (Lazzarato, 2014, pp. 39-40, grifos nossos). Assim, no microchip, as

polaridades das partículas de óxido de ferro são convertidas em números binários quando as faixas magnéticas passam através de um leitor com um programa de computador apropriado. Os signos funcionam como input e output da máquina, sem passar pela denotação, representação e significação. (Lazzarato, 2014, p. 76, grifos no original)

Mas não damos um fundo temático ou disciplinar para esse problema quando perfilamos a linguagem na coluna da sujeição significante, entregando, de outro lado, à servidão assignificante, os índices do mercado de ações, a moeda, as equações matemáticas, as engenharias e a informática? A retórica publicitária em torno do automóvel não mantém alguma relação com a cópula máquina-motorista observada por Lazzarato? A linguagem de computador não pode ser indagada tanto em nível assignificante, nos comandos com que age sobre a matéria, quanto por interpretações imbricadas em um agenciamento coletivo de enunciação?

Consideremos que há, como uma simbologia da moeda, uma maquinação inconsciente da linguagem. Como dar conta, porém, da conjunção tensiva entre esses aspectos? Teríamos que atingir um nível diagramático, em que uma máquina abstrata já (ou ainda) não distingue os planos de conteúdo e de expressão, os sistemas de corpos e os sistemas de enunciados, apontando para um plano de consistência no qual encontramos apenas funções pré-semióticas e matéria em condição pré-física (Deleuze & Guattari, 1995). Esse nível é de grande interesse para as questões levantadas por Lazzarato em Signos, máquinas, subjetividades (2014):

Em vez de se referirem a outros signos, signos assignificantes agem diretamente sobre o real, tal como os signos da linguagem de programação fazem funcionar uma máquina técnica, como o computador, ou na maneira pela qual signos monetários ativam a máquina econômica, na maneira pela qual signos de uma equação matemática entram na construção de uma ponte ou de um imóvel e assim por diante . . . As máquinas de signos consideradas desse modo operam “antes” e “ao lado” da significação, produzindo um “sentido sem significado”, um “sentido operacional”. Suas operações são diagramáticas na medida que sujeito, consciência e representação permanecem em recuo. (p. 40)

A ação maquínica implica, então, uma incidência direta sobre a matéria, com que ela automatiza os corpos. Os dispositivos contemporâneos de poder se distinguem por dispor de uma técnica capaz de regular fluxos materiais e domar microscopicamente as tendências corporais. Como então a linguagem se articularia com tais operações?

A LINGUAGEM À MARGEM DAS MÁQUINAS

Lazzarato (2014) repara que um novo logocentrismo faz com que a crítica anticapitalista sobreponha o império do signo verbal a outros modos de compreender a formação da subjetividade: “o estruturalismo está morto, mas a linguagem, que funda o paradigma estruturalista, ainda está viva, especialmente nessas teorias” (p. 20), diz o autor, fazendo menção a Alain Badiou, Jacques Rancière e Judith Butler. Nota-se que a reprimenda de Lazzarato ao logocentrismo tem por adversário não exatamente o estruturalismo, mas a própria linguagem enquanto fundadora do equívoco estruturalista. Mas o que se chama, aqui, de linguagem? Lazzarato (2014) diz que a linguagem é uma “armadilha semiótica . . . da qual ninguém escapa” (p. 27). O que essa crítica ataca é a centralidade do signo verbal, ou a centralidade da língua enquanto sistema, a suposição de uma estrutura unificada e total tornando compreensível o apelo de Lazzarato por “deixar a linguagem para trás”. Bem visto, esse projeto clama não tanto pelo desmerecimento quanto pelo descentramento do signo linguístico: “com o capitalismo entramos, há muito tempo, em um mundo ‘maquinocêntrico’ que configura as funções da linguagem de um modo diferente” (p. 56). Mas, nessa substituição de um centro pelo outro, o risco é girarmos em torno de uma realidade existencial insondável:

Como articular, desse modo, a relação entre o discursivo e o existencial maquínico, o atual e o virtual, o possível e o real? Não se pode estabelecer entre esses dois níveis uma relação “científica”, uma relação cognitiva, uma relação biunívoca já que existe assimetria radical entre “discursivo” e “existencial”. (p. 180)

Lazzarato (2014) parece permitir duas atitudes do discursivo ante o existencial assignificante: seja a distância intransponível, a impossibilidade da tradução; seja uma interpretação que serve para ocultar ou dissimular o que se passa em nível maquínico. Ora, portanto, o discurso nada pode dizer sobre a produção do real; ora o discurso consciente atua como a couraça ideológica que naturaliza as operações maquínicas:

O Estado, a mídia e os experts não param de produzir narrativas, histórias e declarações que continuamente reinjetam sentido nas operações assignificantes de crédito monetário que, em sua função específica (diagramática, assignificante), não leva em conta nem os sujeitos nem os objetos, nem as pessoas nem as coisas. (p. 108)

Se o enunciado pode, simultaneamente, ratificar e recobrir a servidão maquínica, é que seus limiares são tecnicamente produzidos, e temos então que os diagramas assignificantes ditam as possibilidades do espectro significante, prestando as semiologias representativas obediência à axiomatização dos fluxos materiais. Lazzarato examina esse entrelaçamento na diagramatização da troca verbal nos call centers, nos quais as semiologias significantes se veriam reduzidas a uma sinalética pré-fabricada. Faltaria dialogismo à interação entre atendente e cliente, restrita a uma rotina de inputs e outputs. Lazzarato estuda aí uma captura localizada da linguagem pela operação assignificante, chegando a lamentar o sufocamento de um dialogismo que, até então, não participava de sua caracterização do acontecimento discursivo.

Rotinas de programação, fluxogramas, não estamos diante de adensamentos de operações de linguagem, condensações de processos tradutórios, de esquemas de funcionamento? A eficácia material imediata das semióticas assignificantes não se vincula a essa saturação operacional que, molecularizada, elide suas rotinas tradutórias? Daí a noção de assignificante ecoa o reencantamento técnico pela proliferação crescente de caixas pretas (Flusser, 2011), em que hoje se incluem, notadamente, as rotinas algorítmicas, desde a conformação topológica das redes sociais2 até a automatização das tomadas de decisão nas bolsas de valores. Mas será improdutivo tratar a caixa preta como bloco fatalmente insondável. É ainda Flusser (2014) quem compara o ato de crítica ao de abrir um objeto para apreender o seu funcionamento. Não se trata de diluir a operação assignificante na lógica significante, elevando esta última à condição de semiologia geral, mas de indagar como se dá a comunicação entre os níveis, como sugerem Deleuze e Guattari (1995) no seu programa para uma pragmática ou esquizoanálise.

As passagens aparecem assim que Lazzarato deixa de igualar a linguagem ao sistema da língua. O dialogismo de Mikhail Bakhtin constitui um desses respiros, pois Lazzarato encontra naquela teoria da enunciação uma abordagem que não parte da língua enquanto sistema, isto é, uma linguagem irredutível às semiologias significantes. Embora mantenha o ceticismo quanto à possibilidade de articulação científica entre o existencial e o discursivo, Lazzarato (2014) descobre, em suas páginas mais propositivas, a possibilidade de uma articulação estética:

A relação de si para si, a autoafetação, o autoposicionamento irá tomar emprestado signos, mitos, narrativas, conceitualizações que funcionam não como uma tradução (impossível) do existencial no discursivo, mas como uma cartografia que servirá de referência, como acesso ao processo de subjetivação. (p. 181)

Não fica claro por que esse sugerido paradigma estético ainda não traduz o âmbito existencial, o que certamente envolve uma concepção particular da tradução, mas já é uma janela que se abre para uma potência emancipatória interior à linguagem, liberando o terreno do verbal do monopólio da sujeição social e permitindo, ali também, haver um campo em disputa e capaz de uma relação transformacional ante o assignificante: “é sobre a base dessa cristalização não discursiva, existencial e afetiva que novas linguagens, novos discursos, novo conhecimento e uma nova política podem proliferar” (Lazzarato, 2014, p. 20).

Compreende-se que Félix Guattari (1974) tenha se interessado pelo conceito de transdução, tomado à filosofia de Simondon (2020). A transdução afirma, precisamente, a atualização progressiva de potenciais expressivos de um meio material, alcançando processos moleculares de tomada de forma, de passagem de informação entre membranas vizinhas. Não é um processo da ordem do verbal, ainda que Simondon queira incluir a transdução na lógica, justamente porque ela atinge um plano ontogenético de indistinção: a transdução é material-lógica, condição para a cristalização das formas do sensível e do inteligível. Uma abordagem transdutiva indagaria a linguagem menos por suas formas constituídas, portanto, do que pelo processo de atualização das formas, ou seja, como ato ou acontecimento de linguagem.

A teoria dos atos de fala de J. L. Austin (1962) já mostrava que, mais que designar, a linguagem detém a efetiva força de fazer, em indicativo de que o enunciado não se exila numa representação descolada de um âmbito existencial insondável. Paolo Virno (2005) tem insistido nesse aspecto performativo da linguagem, opondo a filosofia de Gilbert Simondon a um uso dito comunicativo das palavras. A linguagem emerge no rito sacrificial, na ecolalia, na fabulação: “As opiniões expressadas às vezes alardeiam abertamente sua própria volatilidade e sua falta de fundamento; antes que textos dotados de peso específico, são pretextos cujo único fim é chamar atenção sobre o ato de proferir”3 (p. 65, grifo no original). Aquém da função semântica, o dizer diz a potência do dizer. O enunciado “eu falo” exemplificaria o que Virno chama de performativo absoluto. Virno reconhece que o risco do performativo absoluto é a redundância, e temos a impressão de que estamos diante de uma clínica comunicacional do cogito cartesiano (“eu penso”), esta voz em primeira pessoa que toca a indistinção entre sujeito e objeto, revezando entre um e outro para obter uma prova de sua própria atividade. Mas Virno aponta que, melhor que assegurar a posição redundante do falante, “eu falo” encena a faculdade corporal genérica de emitir sons articulados, de singularizar um corte na série do dizível – talvez então o performativo absoluto seja melhor esclarecido pelo anônimo “fala-se”.

Lembramos dessas perspectivas por alcançarem a emergência da linguagem aquém da função semântica e das categorias linguísticas, que parecem estar no coração do incômodo de Lazzarato com as semiologias significantes. Referência importante para o italiano, Gilles Deleuze frequentemente acompanhou as fugas literárias aquém da grade significante, mostrando como a escrita pode operar como uma máquina cujas “funções diagramáticas fazem inscrições que são operacionais antes de serem representativas” (Lazzarato, 2014, p. 77).

Seria proveitoso que a pesquisa em comunicação pudesse atentar para as passagens transdutivas entre esses diferentes regimes. Em “Sobre alguns regimes de signos”, Deleuze e Guattari (1995) tratam a identificação dos regimes como a primeira de quatro etapas do programa que chamam de pragmática (ou esquizoanálise), recomendando avançar, em um segundo lance, as transformações de um nível a outro. Levantam, ainda, algumas modalidades tradutórias, entre as quais as transformações simbólicas, que operam por interpretação para instaurar um regime significante de comunicação. Mas também são possíveis transformações polêmicas, que operam por numeração e produzem um regime dito “contra-significante”; transformações miméticas, que operam por subjetivação e conduzem a um regime pós-significante; e transformações analógicas que, por segmentarização, põem-nos no rumo de um regime pré-significante.

Como fatores de transformação analógica, Deleuze e Guattari aludem à canção afro-americana, à exaltação amorosa, ao sono e à droga, ficando claro que o conhecimento desses processos passa pela experimentação. E essas intensidades pré-significantes são experimentadas porque entram em composição consistente, mobilizando ritmos, tonalidades, temporalidades, tensionamentos, rupturas, aproximações. O signo verbal compõe-se dessas intensidades, opera intensivamente e aí entrevê um plano de indistinção que produz e desdobra as formas do sensível e do inteligível.

Deleuze (2013, p. 46) define o diagrama, com efeito, como um mapa capaz de expor as “relações de forças que constituem o poder”, tal mapa apontando para um campo virtual, informe, não atualizado, ainda nem dizível nem visível. Mas, para o filósofo, o diagrama também reage ao que lhe escapa, e a disciplina panoptista só emerge como tecnologia política em ordenamentos sociais já desequilibrados pelos mais diversos movimentos de liberação. É nesse aspecto, justamente, que Deleuze e Guattari (1995) tomam distância da perspectiva foucaultiana: nas máquinas abstratas de Mil Platôs, as linhas de fuga são primeiras, despontando em cada agenciamento como picos de criação/desterritorialização.

Sem negligenciar a captura capitalística dessa potência criativa (ou potentia gaudendi, segundo a sua problematização mais diretamente libidinal), Paul B. Preciado (2018) investe em movimentos de liberação desde o interior de um diagrama farmacopornográfico, como veremos adiante. Assim, enquanto Lazzarato, em trabalho crítico, alerta para a relevância das semióticas assignificantes e enuncia a necessidade de considerarmos um contágio comunicacional inconsciente, Preciado avança numa atitude experimental diante de preocupações vizinhas.

DA CRÍTICA AO CONTÁGIO: O PRINCÍPIO DE AUTOCOBAIA EM PAUL B. PRECIADO

Estivemos, com Lazzarato (2014), no primeiro nível da pragmática, o nível chamado gerativo, que realiza o decalque das misturas de regimes (Deleuze & Guattari, 2013). Um próximo passo seria atingir um nível transformacional, rascunhando um mapa de traduções, definido menos por parâmetros temáticos do que por modos de operar:

Por exemplo, é relativamente fácil não dizer mais ‘eu’, mas sem, com isso, ultrapassar o regime de subjetivação; e inversamente, podemos continuar a dizer Eu, para agradar, e já estar em um outro regime onde os processos pessoais só funcionam como ficções. (Deleuze & Guattari, 1995, p. 100)

Estancar a investigação no nível gerativo teria sido se contentar com a discriminação abstrata de cada regime, sem que jamais tenhamos observado a sua mobilização em um agenciamento concreto. Os agenciamentos têm face dupla: de um lado, um agenciamento coletivo de enunciação, composto por sistemas semióticos que formalizam um plano de expressão; de outro, um agenciamento maquínico de corpos, composto por sistemas físicos que formalizam um plano de conteúdo. Lazzarato (2014) se empenha em desnaturalizar e apresentar a eficácia dessa segunda face, propriamente corporal, da dominação capitalística. Sem um exame concreto da axiomatização dos fluxos materiais, no entanto, ficamos no plano de uma crítica geral.

Entrevemos vias para avanço em Testo junkie, de Paul B. Preciado (2018). Documentando um processo de transformação de si a partir da ingestão de testosterona em gel, Preciado percorre uma máquina biopolítica em um experimento simultaneamente corporal e discursivo. Dando-se um agenciamento concreto e verificando a sua proliferação na escrita, Preciado consegue mapear não tanto o capitalismo de modo geral quanto uma mutação de regime que o autor espanhol ali nomeia farmacopornográfico, invenção léxica que anuncia a junção do molecular e do molar, de traços maquínicos e significantes. Atualizando o diagnóstico marxista, que no século XX denunciara a captura industrial da força de trabalho, Preciado mapeia essa mutação recente do capitalismo em que a farmacopornografia toma a potentia gaudendi como força de trabalho ou fundamento energético. Força orgásmica indeterminada: nem masculina nem feminina, nem humana nem animal, inerente mesmo a cada molécula, a potentia gaudendi não privilegia qualquer parte do corpo.

O regime farmacopornográfico tem atuação semiótico-técnica, ou seja, a potentia gaudendi é também disparada e canalizada discursivamente. Um conjunto reiterado de representações sustenta, por exemplo, a pornificação de certos corpos (mulheres, crianças, escravos) a serviço de outros (geralmente masculinos, heterossexuais, brancos). Em paralelo, lança-se mão de diversas técnicas da excitação que são também tecnologias do controle: o Viagra, a Pílula, o Prozac e, não menos, a produção audiovisual como máquina de masturbação global, incidindo nos fluidos dos corpos e participando proficuamente da vampirização farmacopornográfica da potentia gaudendi: “O novo capitalismo farmacopornográfico funciona, na realidade, graças à gestão biomidiática da subjetividade, por meio de seu controle molecular e da produção de conexões virtuais audiovisuais” (Preciado, 2018, p. 54). A pornografia seria, assim, indissociável do controle dos fluidos e afetos dos corpos: “a característica de um corpo despojado de todo status legal ou político é servir como fonte de produção de potentia gaudendi” (Preciado, 2018, p. 52). Assim, em vez de abandonar os fluidos moleculares ao domínio assignificante, Preciado (2018) percebe uma congregação de diferenças perpassar os hormônios: “bioartefatos feitos de cadeias de carbono, linguagem, imagens, capital e desejos coletivos” (p. 180).

Tal entrelaçamento de níveis heterogêneos será estudado desde essa condição entrelaçada: importantes discursos críticos do século XX entabulam a intoxicação voluntária como método, nota Preciado (2018), mencionando a tradução dos efeitos da cocaína por Freud e do haxixe, do ópio e da mescalina por Walter Benjamin (2017). Daí se poderia retirar uma política de experimentação semiótico-tecnológica, ou um princípio de autocobaia que, reconhecendo a molecularização do poder, não por isso desconsidera a produção discursiva, professando, pelo contrário, absoluto interesse em participar da construção de ficções biopolíticas para “arrancar os biocódigos das mãos particulares, dos tecnocratas e do complexo farmacopornô” (p. 370). A linguagem não sossega na naturalização superficial de processos maquínicos escusos, tornando-se parte do projeto crítico e do desenvolvimento de autonomia corporal: “A emancipação farmacopornográfica dos corpos subalternos só pode ser medida segundo estes critérios essenciais: envolvimento e acesso à produção, circulação e interpretação dos biocódigos somatopolíticos” (p. 139). Essa passagem, ressalte-se, afirma a possibilidade e a necessidade de envolvimento com aspectos não somente interpretativos – no sentido das semiologias significantes – das operações de linguagem.

Em uma pequena seção dedicada ao comportamento mimético, na qual refuta as teorias do capitalismo cognitivo, Lazzarato (2014) trata a transitividade do afeto em termos de contágio pré-pessoal: “A comunicação mimética ocorre através de contágio e não através da cognição” (p. 88, grifos no original). Acompanhamos essa afirmação do autor italiano, amparada nos legados filosóficos de Spinoza, Simondon e Guattari, mas sentimos que Lazzarato (2014) faz recuar o contágio para um campo misterioso4, visto que a emulação e a disseminação afetivas “não podem ser explicadas pela comunicação, linguagem ou cognição, pois os afetos minam precisamente os modelos comunicacionais, informacionais, linguísticos e cognitivos” (p. 88). À linguagem restaria o papel de controlar a desterritorialização e a dessubjetivação ensejadas pelos eventos diagramáticos.

Preciado (2018) não fica longe dessa problemática ao assumir que, “como corpo . . . , sou a plataforma que torna possível a materialização da imaginação política” (p. 150). Mas o engajamento do autor espanhol tanto com o corpo quanto com a linguagem nos parece especialmente fértil, se as duas faces do agenciamento ultrapassam uma condição apassivada para declararem-se campos de experimentação. Sem jamais supor que o contágio comunicacional se entrega transparente à consciência, Preciado suporta, decisivamente, que ele seja traduzível. A linguagem já não entra despotencializada numa relação com o insondável, o que talvez seja condição para que a crítica possa ainda subir à superfície do texto.

Não se trata, portanto, de abreviar a crítica em proveito de um espontaneísmo fácil ou inconsistente – o projeto emancipatório de Preciado decorre de uma profunda compreensão da engenharia molecular da subjetividade. Frente à inevitabilidade do contágio assignificante, Preciado (2018) percebe a chave para uma micropolítica da desidentificação: “O des-reconhecimento, a desidentificação é uma condição de emergência do político como possibilidade de transformação da realidade” (p. 414). E a escrita, em vez de reerguer os rostos conhecidos da identidade, pode dar testemunho dessa diluição de si: “sou o resíduo de um processo bioquímico. . . . Eu sou T” (p. 151). Sou laboratório, rato e relato – já não se preserva a hierarquia entre o contágio e o que dele se diz, pois o contágio é na linguagem. Essa concepção de comunicação acha caminhos para a tradução de semióticas assignificantes, tomando corpo e linguagem como planos comunicantes.

Testo junkie não se esgota numa coleção de confissões particulares, estendendo-se nas múltiplas direções a que a testosterona em gel conduz, desde o sensível até um mapeamento exaustivo dos seus pressupostos históricos e do agenciamento macropolítico que a governa. Sentimos atravessar o livro uma firme confiança na força desconstrutiva da linguagem, ancorada nas vozes aliadas que, reunidas em um meio de ressonância corporal, fazem vazar os seus contornos individuais. A consciência pessoal escreve sob o rumor de uma prática associativa com que deslizam as guaridas identitárias:

Se o leitor percebe no presente texto uma série de reflexões filosóficas, relatos de aplicações de hormônios e detalhamentos de práticas sexuais, sem as devidas soluções que a continuidade fornece, é simplesmente porque é deste modo que se constrói e se desconstrói a subjetividade. (Preciado, 2018, p. 14)

Projeto a ser aproximado com cautela, para que a criação desidentificadora não decaia na atitude autodestrutiva. Uma vez que acusa o contágio assignificante, porém, importa que a escrita não estacione no terror da servidão e saiba acompanhar a intensidade assignificante até seus atos de criação e de descoberta. A crítica do contágio pede vozes contagiadas, e Preciado defende o princípio de autocobaia como resposta voluntária, lúcida, ante a escravização molecular, afirmando que um método atento pode conhecer e fazer máquinas. Essa é uma consciência sobretudo de método, em que a condição laboratorial é tão inventada quanto usurpada, pois, a rigor, não se decide no sujeito subjetivado. Lazzarato e Preciado conhecem a subjetividade por resultado de um laboratório maquínico involuntário. Em vez de implicar a insondabilidade ou a intradutibilidade dos processos, essa descoberta impõe problemas de experimentação. Se o contágio vai dar no texto, no qual se fixa e prolifera, teremos ainda de apanhar o existencial na linguagem: “Manhã de sono depois de fumar. É, dizia eu, como se a vida tivesse estado fechada num frasco como uma conserva. E o sono fosse o líquido em que ela boiava, e que agora, permeado por todos os cheiros da vida, alguém escorre” (Benjamin, 2017, p. 165).

REFERÊNCIAS

Austin (1962). How to do things with words. Clarendon Press.

Benjamin, W. (2017). Imagens de pensamento/Sobre o haxixe e outras drogas. Autêntica.

Deleuze, G. (1992). Conversações (1972-1990). Editora 34.

Deleuze, G. (2013). Foucault. Brasiliense.

Deleuze, G. & Guattari, F. (1995). Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia (Vol. 2). Editora 34.

Deleuze, G. & Guattari, F. (2013). O Anti-Édipo. Editora 34.

Flusser, V. (2011). Filosofia da caixa preta: Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Annablume.

Flusser, V. (2014). Comunicologia: Reflexões sobre o futuro: As conferências de Bochum. Martins Fontes.

Foucault, M. (1995). A microfísica do poder. Graal.

Foucault, M. (2001). Vigiar e punir. Editora Vozes.

Guattari, F. (2012). Caosmose. Editora 34.

Guattari, F. (1974). Interview: Félix Guattari. Diacritics, vol. 4, n. 3, pp. 38-41.

Lazzarato, M. (2014). Signos, máquinas, subjetividades. n-1.

Pariser, E. (2012). O filtro invisível: O que a internet está escondendo de você. Zahar.

Preciado, P. B. (2018). Testo junkie: Sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica. n-1.

Simondon, G. (1989). Du mode d’existence des objets techniques. Aubier.

Simondon, G. (2020). A individuação à luz das noções de forma e de informação. Editora 34.

Virno, P. (2005). Cuando el verbo se hace carne: Lenguaje y naturaleza humana. Traficantes de Sueños.

Notas

1 Texto definidor da problemática das sociedades de controle pode ser encontrado em Deleuze (1992).
2 Eli Pariser (2012) mostra como os filtros-bolha hoje trabalham invisivelmente, estruturando, algoritmicamente, as condições de visibilidade para usuários de redes sociais como o Facebook.
3 No original: ““Las opiniones expresadas a veces alardean abiertamente de su propia volatilidad y de su falta de fundamento; antes que textos dotados de peso específico, son pretextos cuyo único fin es llamar la atención sobre el acto de proferir realizado por un determinado hablante.” Esta e demais traduções, dos autores.
4 O interesse crítico de Simondon (1989) pela cibernética já justificava pela possibilidade de “tratar a teleologia como um mecanismo cognoscível e não definitivamente misterioso” (p. 103, no original: “Le seul fait de traiter la téléologie comme un mécanisme connaisable et non définitivement mystérieux montre la tentative pour ne pas accepter une situation simplement subie et vécue.”).

Autor notes

a Doutorando no Programa de Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
b 0000-0002-1194-6438
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