Introdução

A Vertente Mattelart como pensamento comunicacional crítico

The Matterlart’s strand as critical communicational thinking

Alberto Efendy Maldonado Gómez de la Torre a
Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil
ROSELI FIGARO b
Universidade de São Paulo, Brasil

A Vertente Mattelart como pensamento comunicacional crítico

Matrizes, vol. 14, núm. 3, pp. 7-25, 2020

Universidade de São Paulo

A CONSTITUIÇÃO DO campo das ciências da comunicação na América Latina tem como protagonistas estratégicos Armand e Michèle Mattelart, casal de pensadores e pesquisadores de origem europeia que assumiram o desafio radical de desconstrução intelectual, existencial, política e estrutural, ao transformar-se e alfabetizar-se como seres latino-americanos e adotar nossa América como biosfera crucial de sua existência e de sua produção investigativa. Essa parceria existencial, política e científica configurou, desde inícios da década de 1960, uma história e uma competência de conhecimentos vigorosa. Não obstante – e do que do ponto de vista epistemológico ainda mais importante –, a imersão latino-americana dos Mattelart confrontou, misturou, desconstruiu, reformulou e aprendeu dos conhecimentos e das sabedorias indo-afro-mestiço-americanas. À diferença dos milhares de especialistas e intelectuais que se aproveitam de nossa América para lucrar como reprodutores do logocentrismo e do etnocentrismo eurocêntrico, a dupla Mattelart chegou para aprender, trabalhar, lutar, existir e amar os processos socioculturais, educativos, investigativos e constitutivos do pensamento comunicacional crítico no continente.

Em inícios da terceira década do século XXI, com sua já longa e frutífera caminhada, Armand (8/1/1936) e Michèle (22/9/1941), organizamos este número especial de MATRIZes como uma contribuição ao conhecimento, estudo e debate sobre essa importante vertente crítica em ciências da comunicação. Uma premissa central, que cabe apontar de partida, é que estamos nos referindo ao pensamento crítico emancipador em comunicação. Nessa perspectiva, Michèle e Armand Mattelart, assim como outros colegas que estabeleceram parcerias com eles, têm contribuído na perspectiva epistemológica histórica ao conhecimento, à reflexão, à reconstrução e à rearticulação das teorias, trajetórias e estratégias em comunicação de maneira destacada. De fato, seu trabalho crítico sistemático, cuidadoso, aberto, transdisciplinar e transmetodológico tem favorecido os processos de formação de pesquisadores(as), pensadoras(es) e profissionais da comunicação de modo consistente, amplo e revitalizador.

Na dimensão crítica, epistemológica1, cabe mencionar a obra Pensar sobre los medios. Comunicación y crítica social (Mattelart & Mattelart, 1986/20042), em que Michèle e Armand analisam profundamente a problemática da transdisciplinaridade, das encruzilhadas teóricas eruditas e das tentações metafóricas presentes nos afazeres teóricos especulativos. Os autores mostram, nessas argumentações, a consequente carência epistemológica de um conjunto numeroso de discursos sobre a comunicação. Problematizaram também os paradigmas teóricos preponderantes no contexto internacional, como a amplamente divulgada teoria da informação, e problemáticas teóricas sobre a pós-linearidade, o poder negociado, o retorno do sujeito, e os procedimentos de consumo. Nas inter-relações entre cultura midiática e intelectuais, argumentaram sobre os desafios do prazer popular como revelação, as dicotomias cultura negativa/cultura afirmativa e pesado/leve. Abordaram também a problematização do suposto ocaso do macro/sujeitos: Estado, indústrias culturais e a cosmo-biologia do homo deregulatus. Para completar essas problematizações, no contexto conservador da queda do socialismo da Europa Oriental, e de auge do neoliberalismo, argumentaram sobre a crise dos paradigmas, a sobrevivência da dialética, e o reencontro do popular.

Armand e Michèle Mattelart produziram um livro de síntese organizativa pedagógica, para se aproximar a um conhecimento crítico do campo da comunicação: História das teorias da comunicação (1995/19993), um texto que vai oferecer aos professores(as), estudantes, profissionais e pesquisadoras(es) uma articulação e orientação relevantes sobre as teorias da comunicação; que constitui uma visualização epistemológica analítica dialética esclarecedora. A obra define uma estrutura diferenciada em relação com os manuais estruturais funcionalistas e aglutina as teorias em sete eixos: 1) o organismo social (a configuração do mundo capitalista como base real da midiatização); 2) os empirismos do Novo Mundo (a importância da Escola de Chicago; a posterior hegemonia da Mass Communication Research); 3) a teoria da informação (a versão linear tecnicista de Shannon; o contraponto cibernético social [Wiener; Palo Alto]); 4) a indústria cultural, a ideologia e o poder (Frankfurt; estruturalismo; estudos culturais); 5) a economia política (a dependência cultural; as indústrias culturais); 6) o retorno do cotidiano (etnometodologias, ator/sistema, agir comunicativo, a virada linguística, as etnografias de audiências, usos e gratificações, o consumidor/usuário, estudos culturais feministas); e, para finalizar, a 7) a influência da comunicação (a figura da rede, o difusionismo, as ciências cognitivas, o planeta híbrido e novas hierarquias do saber). Desse modo, os Mattelart condensaram e articularam problemas teóricos estratégicos para o pensamento em comunicação, mediante exposições esclarecedoras, organizadoras e inter-relacionais, que têm contribuído decisivamente, a partir de 1995, para a qualificação crítica universitária na área.

A problemática da constituição histórica de condições de produção e de sistemas e modelos sociais midiatizados tem sido pesquisada e reformulada sistematicamente, durante mais de cinco décadas, pela vertente Mattelart. Entre as dezenas de livros importantes, salientaremos, de início, Multinacionais e sistemas de comunicação, (Mattelart, 19764). O livro foi resultado de pesquisas e estudos de campo, que permitiram conhecer, descrever e sistematizar os componentes da electronic warfare, os processos midiáticos de multinacionalização, a difusão de tecnologias espaciais, as novas pedagogias midiatizadas (teleducação), as transformações na imprensa e no cinema, o crucial processo de marketing da política e as transfigurações dos símbolos imperiais.

Na linha epistemológica histórica, a vertente gerou a obra Comunicação-mundo: história das ideias e das estratégias (Matterlart, 1991/1994), que deu continuidade às pesquisas realizadas e representou um salto dialético em termos epistemológicos e teóricos, ao organizar uma compreensão aprofundada e renovadora sobre a dimensão comunicacional no sistema-mundo. A obra é organizada em três grandes partes: I) A guerra (cinco capítulos); II) O progresso (três capítulos); e III) A cultura (três capítulos), para pensar e problematizar a comunicação. Esses títulos, que se apresentam um tanto genéricos numa primeira aproximação, ganham concretude e força de realidade mediante os componentes de análise estabelecidos. Na primeira parte, aborda-se a problemática das redes técnicas de comunicação, a era das multidões, a gestão da grande sociedade, o choque ideológico e a escola da astúcia. Nessas problematizações, combina-se um conjunto valioso de informações, argumentos e potências que mostram a associação de estratégias midiáticas e comunicacionais em profunda inter-relação com agires geopolíticos, militares e econômicos. Na segunda parte, problematiza-se o paradigma do progresso e combinam-se análises transdisciplinares para abordar o problema/objeto progresso na sua diversidade política e sociológica. A comunicação emerge como uma complexa “aldeia global”, “cidade global”, o “cérebro do planeta” inter-relacionando mitos, negócios, poderes, sociedades e universalismos subversivos. Mostra-se, também, a capacidade sistêmica de gerar ilusões de mudança e de esperanças crescentes, a partir da teleducação e do mercadejo das expectativas de vida. Para fechar essa parte, discutem-se os fluxos de informação e de comunicação internacional que garantiram a concentração de poderes midiáticos, mediante discursos de liberalização, democratização e tecnologização. A terceira parte trata da categoria cultura, destacando-se nela as necessidades sociopolíticas de sua existência e as mudanças na participação do Estado e dos sistemas midiáticos nas configurações culturais. Enfatiza-se, como crucial, o predomínio da geoeconomia na construção de uma cultura global (modos de gestão, padronizações, ofertas e exclusões). Finalmente, argumenta-se sobre a estratégica participação das mediações e das mestiçagens na ofensiva das culturas. Nesse capítulo, apresentam-se as expectativas de mudança e de transformação comunicacional, renovadoras para a comunicação-mundo.

Na pesquisa A invenção da comunicação (Matterlart, 1994/19965), há uma reconstrução histórica detalhada dos processos de instauração dos sistemas midiáticos no mundo. A obra é organizada em quatro partes: 1) A sociedade de fluxo; 2) As utopias do vínculo universal; 3) O espaço geopolítico; e 4) O indivíduo medida. Na primeira parte, são apresentados os aspectos tecnofilosóficos que possibilitaram estabelecer uma razão técnica com pretensões universalistas e que, simultaneamente, orientaram os estrategistas, engenheiros e governantes na construção dos sistemas necessários para a expansão do capital. Problematiza-se, também, a razão estatística, a razão técnica e as novas tecnologias de comunicação e de transporte que possibilitaram a construção de redes ferroviárias, de telégrafos, das máquinas ferramentas e das bases infraestruturais para os meios de comunicação de massas. Apresenta-se uma combinação das propostas da economia política de Adam Smith, das contribuições do positivismo francês (Comte) e do positivismo britânico (Spencer). Incluem-se a influência decisiva do evolucionismo darwinista, as teorias e os desenhos sobre a divisão social do trabalho mental de Babbage e Wakefield, e a consequente generalização da teoria do progresso. Na segunda parte, o culto da rede posto em pauta, mostrando como, já nos séculos XVIII e XIX, a construção de redes espirituais e materiais era um eixo central da transformação do mundo (redes industriais, canal de Suez, estradas de ferro e anúncios publicitários, como legado do saint.simonismo). O segundo capítulo dessa parte é “O templo da indústria”, em que se mostra a construção sistêmica das indústrias e a consequente transformação das formações sociais, das culturas, dos meios de comunicação, dos modos de enunciação e das espacialidades e temporalidades sociais. No terceiro capítulo, trata-se da cidade comunitária, que pensa as propostas de construção de alternativas de sociedade em contraposição à lógica avassaladora do capital. Para essa análise, são convidados anarquistas, socialistas e comunistas utópicos, assim como os antiutópicos. No quarto capítulo, aborda-se a hierarquização do mundo mediante uma argumentação forte sobre a instauração de novos arranjos de poder mundial. No quinto, sobre propagação simbólica, são apresentadas argumentações importantes sobre as inter-relações entre instituições religiosas e os novos modos midiáticos de produção simbólica. Mostra-se como tanto o positivismo quanto os discursos e poderes eclesiásticos interviram na constituição dos sistemas midiáticos. No último capítulo da terceira parte, “O pensamento estratégico”, argumenta-se sobre os profundos vínculos entre teorias técnicas, teorias geopolíticas, informacionais e comunicacionais, e a instauração do sistema-mundo do poder político, econômico e simbólico. Finalmente, na quarta parte do livro, ao problematizar “O indivíduo medida”, analisa-se o perfil das multidões, trazendo o conjunto de teóricos que precederam e fundaram as primeiras teorias sobre os processos sociais de transformação midiática. Trata-se, também, sobre o motor humano, que mostra como o conhecimento tecnocientífico se colocou a serviço da organização da produção, material e simbólica para aumentar a eficiência e a produtividade em proveito do grande capital. No capítulo final, “O mercado dos alvos”, são discutidas as primeiras redes publicitárias, o nascimento do marketing; os gêneros populares de comunicação, como o folhetim, e questiona-se o ataque a culturas da preguiça e da festa, concebidas na ótica positivista como expressões negativas para a cultura da acumulação, da competência, do lucro e da eficiência.

Nessa mesma linha de reconstrução histórica do processo de constituição do sistema da comunicação-mundo está a pesquisa sobre a História da utopia planetária: Da cidade profética à sociedade global (Mattelart, 1999/2002b), publicada pela primeira vez em Paris em 1999. Nessa investigação histórica, apresenta-se, primeiro, como o elo cristão expandiu o logocentrismo europeu e contribuiu para instaurar o colonialismo e o complexo sistêmico capitalista na América. A segunda parte retrata a Cosmópolis com seus componentes de sistema de paz perpétua, da razão universal, do espírito positivista e sua invasão do mundo. Aparecem, também, as humanidades socialistas pré-científicas e reflete-se sobre a rede, a técnica e o novo sentido do mundo, que a existência de utopias e de realidades de expansão cultural simbólica representavam. Relata, ainda, a função planetária do cinematógrafo e as redes igualitárias na era neotécnica. Propõem-se novas redes de inter-relação no mundo, interdependências, e questiona-se a estratégia de americanizar o mundo. Os argumentos sobre a Cosmópolis são finalizados com os Estados Unidos do mundo em tempos de guerra, onde as estratégias, as lógicas, os complexos e as culturas da guerra imperam como necessidade básica de funcionamento sistêmico. A pesquisa se complementa com a parte sobre Tecnópolis, que se inicia com uma crítica epistemológica à pretensão, insólita e logocêntrica, de uma cultura e ciência universal europeias. Aborda as contradições e o diálogo de surdos entre a Europa das Luzes e a América multicultural (diversa e potente). O condicionamento internacional do modelo de modernidade estadunidense é retratado com sua força organizativa, técnica e simbólica, que nega o valor e a existência de alternativas socioculturais. Problematiza-se a construção de um planeta maniqueísta e esquizofrênico que gerou a guerra psicológica, as confrontações ideológicas maximalistas entre nazistas, fascistas, estalinistas e imperialistas. Descreve, analisa e interpreta a revolução gerencial que instaurou os rumos para a sociedade da informação, e a pretensão de uma cidade global sob os princípios da religiosidade marqueteira e da geopolítica militarista internacional. Apresentam-se as estratégias think globally e as ações locais. Formula-se uma crítica do discurso milenarista da global democratic marketplace, que reduz a vida, as culturas e as formações sociais a um mercado global controlado.

A pesquisa histórica da vertente Mattelart gerou, também, a publicação de História da sociedade da informação (Mattelart, 2001/2002a6). Obra que discute o culto do número, um dos aspectos preponderantes das lógicas investigativas conservadoras, funcionais e positivistas. Questiona a constituição da indústria científica, o enquadramento da ciência em padrões empresariais e a prefiguração da sociedade das redes. As implicações geopolíticas e científicas da emergência das máquinas da informática e as profundas mudanças na logística do pensamento são evidenciadas. A vertente aborda, analisa, critica e reflete sobre as implicações dessa profunda transformação do mundo, gerada pelas invenções livres e pela tecnociência industrializada. Argumenta sobre os cenários pós-industriais, em especial a grade geopolítica da era global. Problematiza as metamorfoses das políticas públicas e as consequências da instauração de modelos de desregulamentação neoliberal nos Estados. Critica a pretensão imperial de um mundo unipolar, a ilusão de um capitalismo sem atritos e apresenta a potência histórica do que concebe como arquipélago das resistências.

O problema da mundialização da comunicação7 vai ser trabalhado na mesma linha epistemológica dos livros publicados nos anos 1990, que configura um conjunto histórico importante sobre a constituição, a instauração, o funcionamento, a penetração e o sentido filosófico, geopolítico e econômico do complexo comunicação-mundo. É interessante constatar que, já no início dos anos 1980, Armand Mattelart e Héctor Schmucler (1983) abordariam a problemática que definiram como América Latina en la encrucijada telemática. Ali formularam uma crítica profunda e sistemática ao processo de privatização do consenso, às novas regras econômicas neoliberais e às estratégias transnacionais de informatização do mundo. Discutiram, também, a institucionalização informática dos Estados que, na nova configuração, se distinguiriam por estar desequilibrados, mascarados, espionados e integrados na dependência econômica, política e militar.

A questão histórica dos processos sistêmicos de informatização e comunicação mundial vai ser completada com a obra Un mundo vigilado8 (Mattelart, 2007/2009), que estrutura argumentações históricas, políticas e arqueológicas sobre a constituição das sociedades informatizadas e midiatizadas do século XXI. A primeira parte mostra que disciplinar/gerenciar como a gestão das sociedades contemporâneas tem uma trajetória de institucionalização de sistemas de disciplinarização e de vigilância combinados com sistemas de produção de propaganda, publicidade e informação para administrar o consenso e o consumo. Os autores analisam a confluência de desenhos “científicos” na biologia, na medicina, na física, na estatística, na geopolítica e na economia política para instituir a disciplinarização e o gerenciamento das “massas”. Na segunda parte, concentram hegemonizar/pacificar na problematização das realizações do complexo industrial/informacional/militar como sistema de sistemas que tem conseguido estabelecer um poder mundial hegemônico. Nessa linha, anunciam os processos históricos de Argel, Chile, Iraque e as estratégias de controle militar na América Latina. Na terceira parte, segurar/[in]assegurar expõe a configuração sistêmica instaurada no século XXI, na qual se produz uma nova ordem interior pela ação das máquinas de vigilância (câmeras nos espaços públicos urbanos; sistemas de espionagem generalizados (Prints, Echelon etc.), que produzem informações e fichamento digital do conjunto da população; inventam e operacionalizam dispositivos de observação, registro e controle da cidadania mediante aplicativos instalados nos micro e nanocomputadores. Salienta-se a combinação de estratégias político-militares macro, como o USA Patriot Act, que tem permitido internacionalizar a tortura, sequestrar cidadãos de todos os continentes, quebrar as normas internacionais jurídicas, desenhar a extremamente eficiente lawfare (advocacia de guerra), que tem fragmentado projetos, países e sociedades. É interessante constatar a coincidência histórica da “censura” editorial ou, em termos marqueteiros, “não interesse em publicar”, no Brasil, dessa importante investigação; como também da obra De orwell al cibercontrol9, de Mattelart e Vitalis (2014/2015), que dá continuidade às questões do controle, da vigilância, da gestão da força de trabalho, do tempo, da espionagem generalizada, dos golpes de Estado informáticos (com singular continuidade na segunda década do século XXI na América Latina); da exploração mercantil dos dados pessoais; da febre da segurança; do cibercontrole invisível e móvel. São pesquisas e sistematizações de informação estratégicas, cruciais para o conhecimento dos cidadãos do mundo que, lamentavelmente, nem sequer em boa parte da comunidade acadêmica em comunicação estão estudadas e trabalhadas em profundidade.

As contribuições teóricas e epistemológicas da vertente Mattelart para temas relacionados à cultura têm sido singularmente valiosas. É assim que, já nos anos 1960-1970, pesquisavam e problematizavam os gêneros e as estratégias midiáticas de ampla penetração. A vertente foi pioneira na América Latina em assumir como objetos/problema nobres de investigação científica os quadrinhos (Dorfman & Mattelart, 1972), as fotonovelas, as telenovelas (Mattelart & Mattelart, 1987/1989), os seriados radiofônicos e televisivos, e a informação jornalística (Mattelart & Matterlart, 1976). A postura epistemológica crítica sobre a realidade latino-americana e mundial fez que trabalhassem a categoria cultura em termos de frentes culturais (Mattelart & Matterlart, 1977), geopolíticas (Mattelart & Mattelart, 1993), crítica das mídias (Mattelart, Delcourt, & Mattelart, 1987), diversidades (Mattelart & Piemme, 1981; Mattelart, 2005), estudos culturais (Mattelart & Neveu, 1981), publicidade (Mattelart, 1990/199110) e tecnologia (Mattelart & Stourdze, 1984).

Michèle Mattelart tem sido articuladora estratégica dos temas comunicacionais trabalhados pela vertente, tanto em Pensar as mídias (Mattelart & Mattelart, 1986/2004) quanto na História das teorias da comunicação (Mattelart & Mattelart, 1995/1999), sua participação epistemológica fortalece e amplia a compreensão sobre nosso campo de conhecimento e de trabalho. As pesquisas sobre fotonovelas e telenovelas ganharam em sensibilidades, reflexões, olhares e visualizações profundas. Na dimensão política, a obra de Michèle Comunicación e ideologias de la seguridad (1978) mostra a clareza crítica do seu pensamento ao respeito dos poderes hegemônicos vigentes na América Latina e no mundo. Em sua vasta e valiosa produção, Michèle Mattelart tem pesquisado os problemas de gênero relacionados com as estruturações e configurações culturais predominantes. São representativas, nessa ordem, suas obras La cultura de la opresión feminina (Mattelart, 1977) e Mujeres e industrias culturales (Mattelart, 1982). Antes disso, já em finais dos anos 1960, no seu primeiro estudo, La mujer chilena en la nueva sociedad (Mattelart & Mattelart, 1968), mostrou sua fortaleza teórica crítica ao analisar o modelo de controle da natalidade estadunidense, que se utilizava dos símbolos femininos midiáticos para influenciar nos comportamentos das mulheres latino-americanas, crítica essa ao modelo difusionista esclarecedora e potente. Nas obras citadas, Michèle Mattelart critica o papel da mulher nas sociedades patriarcais de opressão, com seu olhar afinado sobre o cotidiano como temporalidade social crucial e das estratégias midiáticas (fotonovelas, revistas femininas, telenovelas, seriados, programas sobre mulher), como programação concreta que reproduz os esquemas, hábitos, naturalizações e poderes dos sistemas de opressão feminina.

Michèle Mattelart tem construído argumentos transdisciplinares, crítico-dialéticos e transmetodológicos, que combinam visualizações históricas cruciais sobre a luta da mulher pela sua emancipação e libertação. Para isso, tem articulado aspectos classistas, midiáticos, territoriais, econômico-políticos, de gênero, de poderes transnacionais e de alternativas de resistência e de mudança, em profunda inter-relação com a transformação integral do mundo.

A vertente Mattelart tem se nutrido de valiosas parecerias e colaborações mediante a organização de coletivos, centros, revistas, assessorias e missões internacionais que têm tornado possível um trabalho epistemológico, teórico e metodológico frutífero e de significativa participação nos processos históricos latino-americanos e mundiais. As cooperações solidárias com países em situação de marginalização, ataque, bloqueio, pobreza e necessidade de fortalecimentos de suas condições de produção educativa, comunicativa, política e cultural são exemplares. Os prêmios, reconhecimentos, doutorados honoris causa, professor emérito etc., em nível internacional, expressam em parte a potência dessa vertente, que tem brindado um conjunto fecundo de pesquisas, teorias e visualizações epistemológicas necessárias para a continuidade do fortalecimento do campo de conhecimento em comunicação e, principalmente, para a imprescindível transformação do mundo em perspectiva ecológica, digna, justa e libertária.

O DOSSIÊ

Abrimos o número com a fala de nossos homenageados. Trata-se de entrevista inédita em português e em inglês que publicamos agora, por direta sugestão do casal Mattelart. Um encontro histórico entre Mario Kaplún (1923-1998), Michèle e Armand Mattelart, por ocasião de um Colóquio na Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, Cuba. A entrevista foi publicada pela revista Dia-Logos de la Comunicación, em julho de 1988. Há nessa entrevista o tom de reafirmação de princípios e valores e a reavaliação de uma trajetória de produção científica e engajamento social. É precioso ler a fala de Michèle sobre sua compreensão do que seja comunicação, e isso bem antes da difusão dos estudos de recepção como o conhecemos hoje, bem como da internet e da presença das redes sociais:

Colocaria em primeiro lugar a necessidade de entender a comunicação como um processo de interação, em que emissor e receptor não ocupam mais dois polos opostos em uma linha vertical; esse novo interesse em conhecer e analisar o momento da recepção; uma nova maneira, em suma, de ver o receptor, reconhecendo-o como sujeito. (Kaplún, 1988, p. 2, tradução nossa)

A pesquisadora dá conta da complexidade do processo comunicacional, confirmando sua envergadura e contribuição para compreendermos a sociedade contemporânea.

Ainda nessa entrevista, para tratar de estereótipos ou de estigmas criados pela leitura desfocada e descontextualizada de uma obra, vale destacar o que o próprio Armand diz sobre o livro que escreveu com Dorfman, Para ler o Pato Donald (1972):

No caso chileno, nossas investigações começaram com o jornal El Mercurio, com fotonovelas, com revistas de ídolos, que eram produtos eminentemente locais, sem nenhuma presença explícita de conteúdo norte-americano. Assim, o objeto das investigações, nossas primeiras preocupações, foram diretamente voltadas para o espaço nacional. Acho apropriado destacar isso, porque, com o passar dos anos, às vezes se pode cair em uma apreciação distorcida; e quando alguém vende mais de meio milhão de cópias de determinado livro, presuma que esse livro marca o início de sua jornada. E não foi assim, foi apenas um marco nessa trajetória. (Kaplún, 1988, p. 3, tradução nossa)

Assim, os Mattelart contam sobre a carreira acadêmica e o transcurso na América Latina que os marcou para sempre. É com esse “tom” da fala de ambos que queremos fazer chegar aos nossos leitores as contribuições dos pesquisadores que atenderam à chamada deste “Dossiê Vertente Mattelart”.

Os primeiros dois artigos destacam a trajetória da intelectual Michèle Mattelart. Em “Pioneira: as contribuições de Michèle Mattelart para o campo da comunicação”, de Yamila Heram e Santiago Gándara, a proposta é caracterizar o percurso de Michèle, especialmente no período de seus primeiros trabalhos no Chile, entre 1963-1973. Os autores destacam o pioneirismo de Michèle no meio intelectual quando a regra era bem outra. Em “Michèle Mattelart e as veias abertas da comunicação e gênero na América Latina”, Ana Carolina D. Escosteguy adota o método analítico histórico e documental com o objetivo de, na perspectiva de gênero, “apresentar os primeiros passos do itinerário intelectual de Michèle, destacando seus interesses sobre questões de mulher(es) e meios” e para “enfatizar a revisão de premissas e a passagem para o reconhecimento do papel das audiências no processo comunicacional”. É salutar compreender o pioneirismo de Michèle Mattelart na produção de conhecimento sobre as ciências da comunicação.

Em “Ler a biblioteca mattelartiana”, Raúl Fuentes Navarro reflete sobre a influência dos Mattelart na América Latina. Os intelectuais têm obras citadas mesmo transcorridos cinquenta anos de atividade acadêmica. O estudo de Fuentes está baseado em pesquisa documental e bibliográfica que permite o levantamento do número de citações em francês, espanhol, inglês e português. Mariano Zarowsky, no artigo “Para uma crítica da cultura e da comunicação: uma abordagem à perspectiva da comunicação-mundo de Armand Mattelart”, discute a noção de comunicação-mundo proposta pelos Mattelart no final dos anos 1980 e consolidada na trilogia La communication-monde (1992), L’Invention de la Communication(1994) e Histoire de l’Utopie Planétarie (1999)11. O edifício teórico dos Mattelart foi se compondo de elementos da geopolítica e destacando neles o papel central da comunicação.

No artigo “Capitalismo de vigilância: a vertente Mattelart e a crítica aos processos midiáticos”, Andres Kalikoske remonta a obra dos Mattelart para demonstrar sua contribuição ao pensamento crítico comunicacional na América Latina, cujas análises ajudam a jogar luz sobre como a vigilância e o controle se dá pela lógica da coleta de dados dos cidadãos. Nessa mesma direção, o artigo de Pedro Aguiar, “Uma economia política da comunicação internacional: a contribuição de Armand Mattelart e a análise do sistema-mundo das mídias”, destaca a compreensão de simetrias e assimetrias com “a proposição teórico-metodológica de Immanuel Wallerstein sobre a análise dos sistemas-mundo”. Já Sonia Aguiar, no artigo “Comunicação e cultura transnacionalizadas: contribuições de Armand e Tristan Mattelart às geografias da comunicação”, discute as aproximações e os distanciamentos intelectuais entre pai e filho, na compreensão geopolítica do domínio cultural. As relações transnacionais e globais das empresas de comunicação são analisadas por Jiani Bonin, em “Aportes da obraDe Orwell al cibercontrol para entender o cibercontrole”, ao ressaltar a concepção dos Mattelart na configuração dos termos vigilância e controle como aspectos estruturantes do capitalismo.

Em “Musicalidades dialéticas: transmetodologia para uma ciência sonora”, Felipe Gue Martini faz apropriação criativa do pensamento dos Mattelart e da transmetodologia, na acepção de Alberto Efendy Maldonado, para fundamentar sua pesquisa. No artigo “Para ler Mattelart/Dorfman, 50 anos depois: mas... e os quadrinhos?”, Ricardo Jorge de Lucena Lucas nos convida a revisitar o pensamento crítico de Mattelart para pensar as histórias em quadrinhos como objeto de estudo que sofre certo apagamento. Finalmente, na resenha “Introdução ao pensamento comunicacional argentino”, Otávio Daros apresenta as influências dos Mattelart na obra de teóricos da comunicação pioneiros na Argentina. Trata-se do livro Pensadoras de la comunicación argentina: Margarita Graziano, Aníbal Ford y Héctor Schmucler, publicado em 2020, com autoria de Mastrini, Rodríguez e Zarowski.

As contribuições trazidas pelos autores que aqui publicamos mostram o vigor do pensamento crítico dos Mattelart, cuja produção intelectual permanece pulsante, para que as novas gerações de pesquisadores na área das Ciências da Comunicação possam se desenvolver. Agradecemos aos que atenderam à chamada deste dossiê e aos pareceristas – assinalados, adiante, dentre os pareceristas do ano 2020 de MATRIZes – que conosco contribuíram para fazer chegar esta edição aos leitores.

REFERÊNCIAS

Dorfman, A., & Mattelart, A. (1972). Para leer al Pato Donald: Comunicación de masas y colonialismo. Siglo XXI Editores.

Kaplún, M. (1988). Los Mattelart hoy: Entre la continuidad y la ruptura. Una vision desmistificadora de “Los nuevos paradigmas”. Diálogos de la Comunicación, (21), 1-12.

Mattelart, A. (1976). Multinacionais e sistemas de comunicação. LECH Livraria e Editora Ciências Humanas.

Mattelart, A. (1991). La publicidad. Paidós. (Trabalho original publicado em 1990)

Mattelart, A. (1993). Geopolítica de la cultura. Editorial Trilce.

Mattelart, A. (1994). Comunicação-mundo: História das ideias e das estratégias. Vozes. (Trabalho original publicado em 1991)

Mattelart, A. (1996). A invenção da comunicação. Instituto Piaget. (Trabalho original publicado em 1994)

Mattelart, A. (2002a). História da sociedade da informação. Loyola. (Trabalho original publicado em 2001)

Mattelart, A. (2002b). História da utopia planetária: Da cidade profética à sociedade global. Sulina. (Trabalho original publicado em 1999)

Mattelart, A. (2005). Diversidade cultural e mundialização. Parábola.

Mattelart, A. (2009). Um mundo vigilado. Paidós. (Trabalho original publicado em 2007)

Mattelart, A., Delcourt, X., & Mattelart, M. (1987). A cultura contra a democracia? O audiovisual na época transnacional. Brasiliense.

Mattelart, A., & Mattelart, M. (1976). Los medios de comunicación de masas: La ideología de la prensa liberal en Chile. El Cid Editor.

Mattelart, A., & Mattelart, M. (1999). História das teorias de comunicação. Loyola. (Trabalho original publicado em 1995)

Mattelart, A., & Mattelart, M. (2004). Pensar as mídias. Loyola. (Trabalho original publicado em 1986)

Mattelart, A., & Neveu, É. (2004). Introdução aos estudos culturais. Parábola.

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Notas

1 O que não constitui tautologia, dado que há epistemologias conservadoras, formais, redutoras; e é importante reconhecer o caráter plural das epistemologias, em especial as autóctones/não hegemônicas.
2 Publicada primeiro em francês pela Éditions La Découverte, em 1986; depois em espanhol pela Fundesco, em 1987; e, no Brasil, pela Loyola, em 2004.
3 Primeira edição, La Découverte, Paris, 1995; edição em espanhol pela Paidós Ibérica, Barcelona, 1996. Edição portuguesa, Campo das Letras, 1997. Primeira edição no Brasil, Loyola, São Paulo, 1999.
4 Publicado originalmente por Éditions Anthropos, Paris, 1976.
5 Obra publicada originalmente pela editora La Decouvert, Paris.
6 Publicado primeiro em Paris, em 2001, por Editions La Découverte; no Brasil, pela Loyola, São Paulo, 2002.
7 La Mondialisation de la Communication, Paris, Presses Universitaires de France, 1996; a edição espanhola vai ser pela Paidós Ibérica, Barcelona, 1998; e a brasileira mudou o título para A globalização da comunicação, publicada pela Edusc, São Paulo, 2000.
8 Publicado originalmente em francês em 2007, pela Découverte, sob o título la globalisation de la surveillance: Aux origens de l’odre sécuritarie.
9 Publicação original em francês: Le profilage des populations. Editions La Découverte, 2014.
10 Edição original francesa: La Découverte, 1990.
11 As três obras têm traduções para o português: Comunicação-mundo: História das ideias e das estratégias (Vozes, 1994), A invenção da comunicação (Instituto Piaget, 1996) e História da utopia planetária (Sulina, 2002).

Notas de autor

a Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Titular da cátedra Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para América Latina (Ciespal) Armand Mattelart. Coordenador geral para a América Latina da Rede Amlat.
b Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo.
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