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Pioneira: as contribuições de Michèle Mattelart para o campo da comunicação
Pioneer: the contributions of Michèle Mattelart to the communication field
Matrizes, vol. 14, núm. 3, pp. 51-68, 2020
Universidade de São Paulo

Dossiê



Recepción: 18 Junio 2020

Aprobación: 25 Noviembre 2020

DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v14i3p51-68

Resumo: Nos balanços e retrospectivas do campo da comunicação latino-americana, as obras mais conhecidas referem-se aos pais fundadores. Isso aponta para um fato óbvio: as contribuições das mulheres ocupam um lugar periférico. É fato que Michèle Mattelart foi uma das pioneiras que obteve mais reconhecimento nesse contexto desigual, e não se ignora que sua trajetória e de Armand Mattelart tem sido amplamente compartilhada e de mútua influência e diálogo. Este artigo se concentra em caracterizar o percurso intelectual de Michèle, detendo-se especificamente na leitura das obras de sua primeira etapa (1963-1973), ou seja, aqueles escritos que marcaram seus aportes pioneiros ao campo comunicacional latino-americano.

Palavras-chave: Campo comunicacional, Michèle Mattelart, mulheres pioneiras, América Latina.

Abstract: In the history of the Latin American communication field, the most well-known studies refer to the founding fathers. This indicates that the contributions of women occupy a peripheral space. Although Michèle Mattelaert has been one of the pioneers who, in such an unequal context, has received the most recognition, and without ignoring that Michèle and Armand's trajectory has largely shared mutual influence and dialogue, this article focuses on characterizing Michèle’s intellectual journey and her first works (1963-1973), that is, those writings that have marked her pioneering contributions to the Latin American communication field.

Keywords: Communication field, Michèle Mattelart, pioneering women, Latin American.

INTRODUÇÃO

NAS RETROSPECTIVAS DO campo da comunicação na América Latina podemos localizar um amplo leque de investigações que se limitaram a balanços de uma trajetória pessoal de investigação das referências do campo latino-americano, os chamados “pais fundadores”: Luís Ramiro Beltrán, Armand Mattelart, Jesús Martín-Barbero, Eliseo Verón, Héctor Schmucler, Antonio Pasquali, José Marques de Melo, Rafael Rocangolio, Mario Kaplún, Eleazar Díaz Rangel, entre outros (Aguirre Alvis, 1997; Castro, 2008; Esteinou Madrid, 2001, 2012; Marroquín, 2015; Rincón, 2018; Sánchez Narvate & Komissarov, 2019; Solís Leree, 2015; Zarowsky, 2013, 2016). Não há mães, para continuar com a analogia familiar. Isso aponta para um fato tão evidente quanto invisível: as contribuições das mulheres ao campo da comunicação na América Latina – e poderíamos ampliá-lo para a geografia internacional – geralmente ocupam um lugar periférico junto a seus nomes e trajetórias.

Nos últimos tempos, a temática relacionada às mulheres vem ocupando grande parte da agenda da mídia e do interesse público. Para isso, as mulheres tiveram que provocar intensos debates, desenvolver seus próprios coletivos de organização e realizar mobilizações massivas, enfrentando os poderes constituídos. Porém, não apenas persistem as dificuldades – isto é, as desigualdades – que permanecem sem solução, mas, em relação ao nosso assunto, ainda falta conhecimento – o oposto do reconhecimento – de uma série de pesquisadoras que foram pioneiras dos estudos da comunicação na América Latina.

Este artigo tem como objetivo concentrar-se nos trabalhos de Michèle Mattelart, uma das pioneiras na comunicação que, nesse contexto desigual, obteve maior reconhecimento. Sem ignorar que a trajetória intelectual de Michèle e Armand foi em grande parte compartilhada e que a influência mútua e o diálogo fazem parte dessa trajetória pessoal e política, interessa-nos, especialmente, deter-se sobre a de Michèle, para assim traçar um panorama de seus trabalhos e resgatar as contribuições da autora para os estudos da comunicação latino-americanos.

Nesse sentido, o trabalho que apresentamos faz parte de uma série maior1 que visa tornar visíveis as mulheres pioneiras no campo da comunicação latino-americano. Apenas citando alguns dos autores, podemos destacar, por seus trabalhos na perspectiva da economia política da comunicação – ou, como era chamada na década de 1970, a sociopolítica das comunicações –, Elizabeth Fox, Nelly de Camargo, Margarita Graziano e Fátima Fernández Christieb, entre outras. A partir da análise crítica do discurso, destacamos as obras de Michèle Mattelart, Mabel Piccini, Beatriz Sarlo, Paula Wajsman, Silvia Molina e Vedia e Lisa Block de Behar, entre outras. Em uma área ainda menos explorada na época referida, vale citar também os trabalhos de Regina Gibaja e os de Michèle Mattelart e Mabel Piccini sobre consumo e recepção. Muitos desses escritos foram publicados em revistas emblemáticas da época, como Comunicación y Cultura, LENGUAjes, Chasqui, Ininco e Los Libros, além da publicação em livros. Com trajetórias e itinerários diversos que, em algumas ocasiões, se deslocaram para outros interesses, essas e outras autoras publicaram, debateram e participaram de organizações estatais e sociais que trabalham a partir da comunicação para a mudança social.

Apresentamos aqui as contribuições de Michèle Mattelart e uma leitura da sua obra ao longo da sua carreira, com especial enfoque nos seus primeiros anos. O artigo está organizado em duas seções. Na primeira, fazemos um breve relato de suas obras e estabelecemos três etapas no percurso intelectual da autora. Na segunda, prestamos especial atenção a uma leitura das obras de sua primeira etapa (1963-1973), ou seja, aqueles trabalhos que marcaram suas contribuições pioneiras ao incipiente campo da comunicação. Para isso, escolhemos três eixos que organizam seus temas, seu campo de problemas e suas principais respostas: a mudança social, a questão da mulher e a recepção.

ETAPAS

A vasta produção de Michèle Mattelart ao longo de sua carreira permite-nos discernir diferentes etapas de seu itinerário intelectual. Ela escreveu dezenas de artigos e livros – especialmente em espanhol, francês e inglês – coletiva e individualmente, muitos deles com Armand Mattelart, outros com Mabel Piccini, os quais também trabalharemos aqui. Após leitura exaustiva de suas obras, selecionamos, com fins analíticos, algumas das mais representativas. Distinguimos três etapas em seu itinerário intelectual. A primeira situa-se de sua chegada ao Chile em 1963 até o golpe de estado de Pinochet em setembro de 1973, caracterizada por sua práxis intelectual e política. A segunda fase vai do golpe de 1973 até meados dos anos 1980, sendo de transição e balanço dessa experiência intelectual e política. Por último, uma terceira etapa, vai de meados dos anos 1980 até os dias atuais, marcada pela consolidação e pelo reconhecimento da pesquisadora.

A primeira etapa engloba o período desde a chegada de Michèle Mattelart (nascida na França, em 1941) ao Chile em 1963 até o golpe de estado de 1973. Ela chega ao país junto com Armand, com quem acabara de se casar e viajara um ano antes para assumir um cargo na Escola de Sociologia da Pontificia Universidad Católica de Chile (PUC). Recém-graduada em Literatura Comparada pela Sorbonne, leciona na Aliança Francesa, dá aulas de literatura francesa no Instituto Pedagógico da Universidad Católica de Chile e inaugura, junto com Mabel Piccini e Armand Mattelart, no final de 1967, um grupo de pesquisa sobre a ideologia, a cultura e a cultura de massas, no Centro de Estudos da Realidade Nacional (Ceren), abrigado na PUC. Após a posse do governo da Unidade Popular, integra a equipe de Onda, um fanzine juvenil editado pela editora nacionalizada Quimantú, e trabalha no departamento de roteiro da televisão estatal. O golpe de Pinochet em setembro de 1973 encontrou-a em Cuba, onde ministrava um seminário na Universidad de La Habana.

Nessa década, a autora encontra um problema quase inexplorado no incipiente campo comunicacional: a relação mulher/meios, como resultado não apenas de suas primeiras leituras, Roland Barthes e Algirdas Greimas (o estruturalismo francês), Theodor Adorno e Herbert Marcuse (Escola de Frankfurt), Edgar Morin e até os escritos de Alejandra Kollontai, mas principalmente de sua experiência no processo chileno.

Reconheço que boa parte dos avanços no plano teórico que influenciaram a abordagem do tema “mulher/meios”, devo à história social e política deste país e, em particular, à minha participação ativa em um período chave de sua história, ao meu compromisso ao lado dos setores que impulsionaram uma mudança democrática. (Mattelart, 2014, p. 2)

Dessa época, destacamos um de seus primeiros trabalhos em colaboração com Armand Mattelart, La Mujer Chilena en una Nueva Sociedad (Mattelart & Mattelart, 1968), onde apresentam um estudo exploratório sobre a atitude das mulheres chilenas, em diferentes setores sociais, em relação à chamada mudança social. Indagam sobre suas concepções a respeito da família e do controle da natalidade, bem como sobre o uso dos meios de comunicação.

Nesse livro, reforçam uma linha de pesquisa sobre a mudança social, a mulher e os meios, que Michèle Mattelart desenvolveria sistematicamente em seu trabalho sobre a fotonovela, El Nivel Mítico de la Prensa Seudo-Amorosa (Mattelart, 1970/1976), e sobre semanários ilustrados, Apuntes Sobre lo Moderno: Una Manera de Leer el Magazine (Mattelart, 1971). Incluímos também nesta primeira etapa o artigo sobre os consumos televisivos nas cidades de Santiago do Chile, resultado de uma investigação realizada em conjunto com a argentina Mabel Piccini em 1972 e publicada após o golpe na revista Comunicación y Cultura: La Televisión y los Sectores Populares (Mattelart & Piccini, 1974). Acrescentamos também La Prensa Burguesa, ¿No Será Más que un Tigre de Papel? Los Medios de Comunicación de la Oposición Durante la Crisis de Octubre de 1972 (Mattelart & Piccini, 1973), escrita em conjunto com Mabel Piccini, em que se analisa o papel desempenhado pela mídia chilena (o diário El Mercurio, mas também as rádios e a televisão) como “plataforma privilegiada de lançamento da ofensiva burguesa” (p. 250), a partir da greve patronal da confederação dos caminhoneiros, à qual se juntariam grandes setores da pequena burguesia, durante o mês de outubro de 1972, dando continuidade a uma linha aberta no mês de dezembro de 1971 com as marchas das panelas.

A segunda etapa localiza-se entre o golpe militar de 1973 até meados dos anos 1980, sendo de balanço e transição dessa experiência intelectual e política. Sem considerar o trabalho em coautoria, destacamos três trabalhos: Cuando las Mujeres de la Burguesía Salen a la Calle (Mattelart, 1975), publicado pela primeira vez em inglês em North American Congress on Latin America (Nacla) e em francês em Les Temps Modernes, no qual examina a instrumentalização dos valores femininos e o papel atribuído às mulheres burguesas na construção do consenso para o golpe de Estado; o livro La Cultura de la Opresión Femenina(Mattelart, 1977), que reúne essa última obra e as já publicadas sobre os semanários ilustrados e as fotonovelas – expressando um primeiro balanço da própria trajetória chilena; Mujeres e Industrias Culturales (Mattelart, 1982), produto de uma investigação, publicado um ano antes como brochura pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), que talvez seja seu trabalho mais maduro, em que convergem as perspectivas da economia política e da análise do discurso de orientação francesa a respeito dos gêneros da cultura de massa dirigidos às mulheres.

Por último, identificamos uma terceira etapa, que vai de meados da década de 1980 até os dias atuais, sendo de consolidação e reconhecimento da pesquisadora. Dentre suas várias publicações durante este período, selecionamos Pensar Sobre los Medios: Comunicación y Crítica Social (Mattelart & Mattelart, 1987b). Trata-se de um texto-chave em que Armand e Michèle Mattelart revisam criticamente as principais correntes teóricas que surgiram nos anos oitenta (releituras de Antonio Gramsci, Michel Foucault, Michel de Certeau e os Cultural Studies) e que convergem em um novo paradigma da comunicação: do mecânico ao fluido, no contexto de um processo mais amplo de reorganização social do capital. Ao contrário das outras obras contemporâneas, os autores reconhecem as mudanças teóricas, mas, ao mesmo tempo, cobram a continuidade dos antigos quadros de análise, em particular do marxismo.

O outro livro dessa fase que selecionamos, também escrito em conjunto, é El Carnaval de las Imágenes: La Ficción Brasileña (Mattelart & Mattelart, 1987a), resultado de pesquisa sobre serialidade televisiva que Michèle Mattelart vinha desenvolvendo no âmbito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Sobre esse último, Armand Mattelart (2013) escreve:

Esse livro espelha Pensar Sobre los Medios. As questões teóricas que são desenvolvidas nesse último assumem uma forma prática em El Carnaval de las Imágenes. É o caso da interrogação sobre conceitos como dispositivo, cultura popular, hegemonia, intelectual orgânico, disciplina e antidisciplina etc. (p. 161)

Nessa fase também adicionamos Women, Media, Crisis: Feminity and Disorder (Mattelart, 1986), obra na qual a autora recupera suas contribuições anteriores para colocá-las à luz dos debates sobre os estudos de gênero. É nesse período que o trabalho inicial de Michèle Mattelart começa a ser lido – e a ser reexaminado pela própria autora – como uma pioneira não só dos estudos latino-americanos da comunicação, mas também da pesquisa sobre mulheres/meios e mais amplamente nos estudos de gênero2. Uma afirmação bem fundada, desde que notemos que é logicamente uma avaliação retrospectiva: aqueles primeiros passos de Michèle Mattelart aconteceram quando o feminismo ainda não era “o movimento que conhecemos hoje com sua diversidade de fases e enfoques, de acordo com os contextos nacionais, as sensibilidades políticas e as abordagens heurísticas” (Mattelart, 2007, p. 41) e, sobretudo, quando os chamados estudos de gênero não tinham alcançado o seu estado atual. Consequentemente, suas primeiras preocupações giraram em torno do relacionamento entre as mulheres e a mídia – sendo que mulheres era o segundo termo de uma desigualdade – em vez de gênero – no qual a ênfase mudaria para as diferenças3. Em entrevista recente, Michèle Mattelart reflete sobre o início (há cinco décadas) dos estudos sobre as mulheres e os meios e afirma que

a “mulher” genérica é cada vez mais refutada. O que se critica nessa denominação é a concepção essencialista do sujeito feminino, que revela o suposto valor universal desse sujeito que seria garantido pela base biológica do sexo, essa representação estrutural de um mundo imóvel, com as distribuições entre os sexos inevitáveis, uma vez que se baseiam na natureza das coisas. (María Cruz, 2014, para. 21)

Por fim, cabe destacar que das intelectuais pioneiras nos estudos da comunicação, Michèle Mattelart talvez seja uma das mais reconhecidas por suas contribuições. Dentre os prêmios e homenagens recebidos em diferentes latitudes podemos destacar: Doutorado Honoris Causa, junto com Armand, pela Universidad de Málaga (2014, Espanha) e Universidad de Valladolid (2016, Espanha); homenagem, também em conjunto com Armand, na IX Bienal Iberoamericana de Comunicación (2013, Chile); homenagem da Unión Latina de la Economía Política de la Información, la Comunicación y la Cultura (Ulepicc) no XI Congresso desta associação científica internacional (2019), entre muitos outros.

UMA LEITURA DE SEUS PRIMEIROS TRABALHOS

A seguir, apresentaremos as contribuições pioneiras de Michèle Mattelart durante o período chileno (1963-1973), que corresponde à etapa de autonomização do campo da comunicação na América Latina, nos termos de Raúl Fuentes Navarro (1992), etapa fundacional seguindo Delia Crovi Druetta (2004), ou pioneira nas palavras de José Marques de Melo (1999). Não incluímos nessas considerações as publicações feitas em pareceria com Armand Mattelart, porque elas – embora incluídas na carreira e na obra de Armand – foram abordadas em algumas vezes em publicações e livros4. Não podemos deixar de destacar que fracionar essas obras “escritas a quatro mãos” é uma tarefa impossível (como definir as contribuições de uma e de outro, e com que finalidade), mas acima de tudo é arbitrário: desde seu primeiro estudo sobre as mulheres chilenas à Historia de las Teorías de la Comunicación (Mattelart & Mattelart, 1997), os trabalhos de Armand e Michèle Mattelart revelam não apenas experiências comuns (pessoais, é claro, mas também políticas) e perspectivas compartilhadas, mas também um longo diálogo e uma polêmica intelectual contínua a respeito dos problemas de comunicação nas últimas seis décadas, no Chile e, em estadias curtas, em Moçambique, Nicarágua e na França.

Ainda assim, um exame das obras de Michèle Mattelart permite-nos lançar luz sobre suas contribuições pessoais e seu lugar específico na tradição dos estudos da comunicação latino-americanos. Escolhemos três eixos para organizar seus temas, seu campo de problemas e suas principais respostas: a mudança social, a questão da mulher e a recepção.

Mudança social

A ideia de mudança social estava no centro do debate e da luta política no Chile e na América Latina. Do ponto de vista do imperialismo estadunidense, a mudança era equivalente ao necessário processo de modernização capitalista que os países da América Latina e, mais amplamente, do então chamado terceiro mundo deveriam passar. Como se fosse um movimento inelutável (conforme expresso, por exemplo, pela teoria dos estágios de Rostow), as sociedades tradicionais deveriam passar por sucessivas etapas de desenvolvimento e transição até atingirem o mais alto grau de civilização: a sociedade de consumo de massa. A circulação dessa teoria e as concepções desenvolvimentistas de comunicação5 estavam em sintonia com o programa Aliança para o Progresso, que o governo dos Estados Unidos havia promovido, em 1961, como suposta ajuda econômica, política e social – que se revelaria um fracasso e uma fraude, ao mesmo tempo –, para neutralizar os efeitos da revolução cubana e os processos crescentes de luta de massas na região. Esse pacote de ideias modernizantes encontrava um canal privilegiado de difusão na imprensa, nas revistas, no rádio e na televisão.

Contra essa ideologia modernizadora, outras propostas foram levantadas: a falta de desenvolvimento dos países latino-americanos era produto não da ausência de processos de modernização, mas da relação dependente e desigual entre os países centrais e periféricos. Aqui se fundem a Teoria da Dependência6, as concepções pedagógicas e comunicacionais de Paulo Freire (que também se refugiou no Chile) e a teoria leninista do imperialismo e o marxismo. Aqui, o conceito de mudança era tensionado entre a reforma (da qual a experiência chilena seria seu dramático laboratório) e a revolução (a experiência cubana, como o outro polo).

Nesse campo de problemas, que reconstruímos de perto, Michèle Mattelart desenvolve as suas primeiras pesquisas sobre as fotonovelas e as revistas femininas.

Indagar sobre o conceito de modernidade que se institui, como égide, na palavra de ordem da produção de bens e signos da sociedade industrial capitalista constitui, talvez, uma das formas válidas de se aproximar do princípio norteador de uma um sistema de dominação social que se exime de seu dinamismo e que justifica sua noção de progresso repetindo diariamente, ad nauseam, a carta magna da melhoria crescente do environment, do consumo aberto e da felicidade tecnológica. (Mattelart, 1971, p. 29)

Para Michèle Mattelart (1971), a modernidade e suas promessas de bem-estar se tornaram a ideologia do novo imperialismo e de uma nova burguesia. Nesse sentido, os meios massivos, que se definem “pelas necessidades de um sistema de poder”, tornam-se instituições que produzem e colocam em circulação tais discursos (sobre o moderno, a moda, o mundo de hoje, o último grito, a novidade), que nada mais são do que uma “morfologia, que reabilita um conteúdo permanente, idêntico, e uma norma que visa sempre privilegiar o conformismo” (p. 43).

Em La Prensa Burguesa, ¿No Será más que un Tigre de Papel? Los Medios de Comunicación de la Oposición Durante la Crisis de Octubre de 1972 (Mattelart & Piccini, 1973), artigo escrito em conjunto com Mabel Piccini, a tese central é que em momentos de crise ou intensificação da luta de classes a mídia abandona seus princípios: objetividade, transparência informacional, independência de poderes, representação da opinião pública. A crise explode essas mistificações.

Quando as classes dominantes não são impugandas em seus interesses, ocorre um vácuo entre informação e ação e é nesse vazio que opera a imprensa burguesa, cujo objetivo básico é, então, a desorganização das massas. Ela fala ao homem individual, ao indivíduo segregado de sua classe, à opinião pública concebida como a soma das consciências isoladas, que é a que sustenta tacitamente seu sistema de dominação. Quando é atacada em seus interesses, a burguesia precisa mobilizar concretamente a opinião em torno da defesa de seu projeto de classe. (Mattelart & Piccini, 1973, p. 253)

Assim, identificam uma “linha de massas” (p. 256)7 da mídia burguesa que se expressa na formação de uma liderança política, na “praticidade das mensagens postas em circulação” (p. 252), na interpelação aos destinatários inorgânicos para organizá-los em torno do programa da burguesia e do imperialismo, na persistência de certos temas contra o governo da Unidade Popular (desastre econômico, ruptura da convivência democrática e ameaça à liberdade de expressão), enfim, em sua conversão em meios de agitação, propaganda e organização coletiva, porém de uma frente contrarrevolucionária.

Mulheres

Agora, como esses problemas da ideologia modernizadora e dos meios de comunicação conectam-se com as mulheres? Em um trabalho posterior, Michèle Mattelart (1982) argumentará que essa correlação se explica porque as mulheres estão destinadas, em virtude de uma combinação de mecanismos ideológicos e culturais, a cumprir “uma função reguladora” na sociedade e a ser “o eixo do consumo e agente determinante da socialização das crianças, responsável por transmitir códigos de autoridade, assimilar as imagens e os papéis masculinos e femininos estabelecidos” (p. 7). Por isso, as mulheres – destaca a autora – estão no centro de uma estratégia de ação dos meios. Nesse sentido, a análise de fotonovelas e revistas ilustradas revela-se uma forma privilegiada de abordar um sistema de significados, estereótipos, operações ideológicas ou mitificantes.

Em El Nivel Mítico de la Prensa Seudo-Amorosa (Mattelart, 1970/1976) aborda um corpus do Cine Amor, fotonovela semanal chilena fundada em 1960, destinada e consumida principalmente por mulheres dos setores populares. A partir do modelo barthesiano das mitologias, Mattelart identificará o eixo organizador desses materiais massivos: a ordem do coração, princípio que “confere à idiossincrasia fotonovela uma coerência indiscutível” (p. 261) ao qual se somam como auxiliares a natureza e o destino. A partir daí, ao examinar estereótipos e recorrências, perceberá o novo como reiteração (cada fotonovela anuncia uma novidade, mas repete seus temas, seu elenco de estrelas, seus clichês); a rejeição ao mundo material (exceto na publicidade, evita-se tudo o que possa remeter à atividade social e económica, ou ao mundo do trabalho); a diluição dos conflitos (a rebelião juvenil que acaba por reingressar na ordem), entre outras figuras mitológicas. Esse mundo fechado da fotonovela não impede que:

Quando chega a hora, a fofoca editorial se metamorfoseia em uma interpretação da realidade social e uma atribuição de valores, atitudes e modos de agir. O leitor semanal não percebe a ambiguidade dessa mutação preparada e orquestrada por um excesso de familiaridade e efusão doméstica. Com o propósito de diversão e escape, a revista de fotonovelas se esforça para infiltrar as reivindicações de uma mensagem transcendental: a verdade sobre a condição humana. A uma arte de entreter corresponde uma arte de viver, um código moral. Veremos, quanto a essa finalidade, que o editorial, quando a oportunidade se apresenta, insinua a imprevista grandiloquência do tom, é imanente ao discurso da fotonovela. (Mattelart, 1970/1976, p. 232)

Em Apuntes Sobre lo Moderno: Una Manera de Leer el Magazine (Mattelart, 1971), o mais republicado e traduzido de seus trabalhos, a pesquisadora aborda os seminários femininos ilustrados. Identifica neles procedimentos mitológicos como o feminino universal (que dissolve as classes); a eternidade fictícia (em que o novo se mostra trivialidade repetitiva); a democracia do desejo (sobre os consumos socialmente segregados); a democracia dos temas (na qual o sincretismo dilui os assuntos conflitivos que poderiam ser abordados); a desistoricização (pela qual a natureza se torna uma referência valorativa); a onipotência do objeto (que transfere o qualitativo do sujeito ao objeto), entre outros. Uma de suas teses afirma que:

A mulher, cuja imagem ou realidade sustenta mais o quotidiano do que o homem e que continua a ocupar o centro dessa mesma esfera do quotidiano, foi certamente o foco mais adequado para irradiar a cultura da modernidade, que procura difusamente influenciar no contexto cotidiano moldando ambientes, gostos, desejos. (Mattelart, 1971, p. 179)

A série desses trabalhos continua em 1975, no que caracterizamos como a fase de transição da obra de Michèle Mattelart. Referimo-nos a Chile: The Feminine When Bourgeois Women Side of the Coup or Take to the Streets (Mattelart, 1975), que tem versão em espanhol, publicada em 1977, com o título de Cuando las Mujeres de la Burguesía Salen a la Calle. Trata-se de uma análise dos meios massivos, em particular das revistas femininas vinculadas à direita chilena, em sua estratégia contrarrevolucionária para derrubar Salvador Allende. Mattelart alerta para o uso da mulher – do estereótipo feminino, do lugar socialmente atribuído às mulheres –, que teve um papel crescente nos protestos (os panelaços) que preparariam as condições para o golpe de estado. Em outras palavras, aqui Michèle Mattelart ilustra a linha de massas que a burguesia chilena vai desenvolver a partir da mídia. Em um balanço posterior, a autora assinala:

Essas manifestações de rua revelaram, de forma ativa, os valores que os meios de comunicação tradicionais ou modernos nunca deixaram de cultivar sob sua forma passiva. Demonstraram em meio à violência como o caráter privado, passivo, atribuído ao feminino, que as fotonovelas e revistas cunharam ao longo dos dias com devaneios sobre aventuras de desejo amoroso ou desejo de consumo, poderia perder essa aparente inércia no interior da vida política para se converter-se em uma arma singularmente importante nas campanhas de opinião contra um regime popular eleito constitucionalmente e seus programas de reforma. Essas mulheres se tornaram a melhor arma para o combate político, permitindo que dotar de inocência a subversão, apresentando-a como a reação do setor tradicionalmente apolítico da opinião, preocupado apenas com as questões domésticas e maternas: “é mulher que vos fala”, ou melhor, “é uma mãe que vos fala”. (Mattelart, 2007, p. 40)

A recepção: classe e gênero

Após uma longa epígrafe de Bertolt Brecht sobre o sentido do popular – “nos referimos ao povo que não só participa da revolução, mas que se apodera dela, a impõe, a condiciona” –, o artigo La Televisión y los Sectores Populares (Mattelart & Piccini, 1974), escrito em conjunto com Mabel Piccini, introduz uma questão central no debate político chileno: “o papel que a frente cultural pode desempenhar em um processo de aguçamento da luta de classes” (p. 4). As autoras afirmam que para romper “um sistema que fundamenta sua legitimidade na manipulação das consciências” é necessário desenvolver um projeto popular alternativo, baseado em “um critério de classe” (p. 6), que seja realmente aberto “aos setores que produzem as mudanças” (p. 7).

Ou seja, o trabalho faz parte de uma polêmica no interior de esquerda, em particular com os partidos que compõem a frente da Unidade Popular8, em relação às suas políticas culturais difusionistas (por exemplo, a produção de televisores populares de baixo custo, distribuído por meio de organizações populares) que mantêm as maiorias como espectadores e desmobilizam as vanguardas populares que, de forma embrionária, começaram a criar o poder popular “tanto na luta pela conquista do poder político quanto no processo ininterrupto de revolucionar as práticas culturais que legitimam o domínio de uma classe sobre as outras” (p. 4).

Para a pesquisa, foram realizados duzentos levantamentos entre os setores populares que vivem em quatro cidades da Grande Santiago. A escolha das populações foi baseada, de maneira geral, no fato de serem locais residenciais, que constituem centros de outro tipo de socialização, dissociados dos locais de trabalho (ou exploração direta) e, portanto, geradores de níveis de consciência mais conservadores. Mais especificamente, para selecionar cada população, foram levadas em consideração sua base social dominante (mais ou menos proletarizada, com maior ou menor presença de setores médios); a organização interna (por meio de instituições burocráticas ou modelos de assembleia) e as formas que a conquista da terra assumiu historicamente (dada pelo Estado ou produto de uma ocupação); a linha e a liderança política: a população de Ex-Sumar é qualificada como hegemonizada pelos democratas-cristãos; as de Victoria e San Gregorio, como disputadas pela Democracia Cristã, mas também por um dos partidos da Unidade Popular, o Partido Comunista; o acampamento Nueva La Habana com maior intervenção por parte do Movimento de Esquerda Revolucionária.

A partir desses critérios, as autoras constroem uma matriz de três modelos em relação à forma como cada uma dessas populações assume o problema da reivindicação cultural, ou seja, a luta dos setores populares para conquistar o acesso ao conhecimento, entretenimento e informação, a saber: a) aceitação e reprodução da ordem vigente (a população de Ex-Sumar), b) desenvolvimento de reivindicações secundárias contra o sistema (La Victoria e San Gregorio) e c) questionamento radical (a acampamento Nueva La Habana). O objetivo do trabalho, então, consistia em “medir os diferentes graus de questionamento que a prática televisiva atual suscita a partir da experiência concreta e dos interesses específicos da classe trabalhadora” (p. 10).

O passo seguinte é a exploração dos públicos trabalhadores: o lugar que a televisão ocupa em sua vida cotidiana; os tipos de consumo (da imprensa, rádio, televisão) discriminados por gênero e entre os setores mais ou menos mobilizados da população; os modos de da recepção coletiva da televisão (diante de um número escasso de aparelhos); a maior ou menor influência ideológica; as representações em torno dos efeitos positivos ou negativos da televisão.

As duas seções na continuidade sistematizam, a partir dos depoimentos coletados, as novas demandas por uma política alternativa de classe nos meios de comunicação. Ao contrário dos estudos de audiência televisiva que universalizam e homogeneízam o público, as autoras propõem uma investigação que considera os esquemas interpretativos, as formas de decifração, os códigos de classe utilizados no momento da recepção. Assim, recolhem testemunhos que, nos setores mais mobilizados e críticos, questionam o caráter estrangeiro da programação; a distância entre os programas e os interesses da classe trabalhadora; a inexistência de novos valores gerados pelo processo de mudança. Por fim, os depoimentos são interpretados em relação ao consumo de séries televisivas (românticas, policiais e de aventura) e dos programas de formato político.

Em perspectiva, o trabalho de Mattelart e Piccini foi um ponto de articulação no campo da pesquisa latino-americana nos anos 1970. Em primeiro lugar, porque abordam os fenômenos midiáticos a partir da recepção, mas sem deixar de examinar os processos de produção, em termos de economia política ou da análise ideológica. Em segundo lugar, porque, embora sublinhem o caráter mitificador da televisão, advertem que os processos de recepção apresentam complexidades maiores do que as que derivam de um modelo comunicacional monolítico, pensado apenas a partir da dominação. Por fim, porque conseguem estabelecer correlações tanto entre formas de recepção e uma maior ou menor formação e mobilização política das audiências, como entre as audiências e os gêneros televisivos de entretenimento e informativos.

Em Mujeres y Medios: Memorias de un Pensamiento Crítico, Michèle Mattelart (2007) acrescenta:

Mas o que é preocupante é o prazer que esses programas continuavam a proporcionar às telespectadoras que tiveram uma percepção crítica de sua função alienante e perceberam os mecanismos pelos quais ela operava. A questão que se colocava foi, portanto, a seguinte: como apreender de forma mais justa e mais complexa, do ponto de vista do público, esse gênero televisivo que parecia responder às suas expectativas e fazer parte de uma cultura popular feminina? Descobri a necessidade de me aprofundar na questão do prazer vivenciado pelo público. Curiosamente, ao mesmo tempo em outros lugares, em contextos muito diferentes, outros pesquisadores também a descobriram, como veremos a seguir. E essas convergências, em determinado ponto, foram significativas na evolução das teorias críticas dos meios de comunicação e sua abordagem às culturas populares. (p. 41)

Essa consideração retrospectiva parece realocar a obra em outra série: a dos estudos culturais, nos moldes de Watching Dallas: Soap Opera and the Melodramatic Imagination, de Ien Ang (1982). No entanto, o trabalho pioneiro de Mattelart e Piccini apresenta diferenças notáveis: a exposição das pesquisas se enquadra na perspectiva da economia política, a teoria crítica e uma demografia de audiências, a partir do registro das condições históricas de recepção e de luta de classes. De fato, nesse mesmo artigo, Mattelart assume como suas as reflexões de vários pesquisadores que questionam o retorno à audiência na medida em que tendem a estudar a cultura de massa como se ela não representasse mais nenhum problema (segundo a estadunidense Tania Modleski) ou enfatizam o empoderamento das mulheres para desenvolver uma imagem de maior autonomia ao invés de mudar o mundo (segundo a australiana Mary Ellen Brown). Na mesma direção, e reivindicando a tradição crítica dos estudos de comunicação latino-americanos, Michèle Mattelart postula a necessidade de aprofundar essas questões sobre os consumos femininos, mas a partir do encontro entre economia e cultura.

CONCLUSÕES

Ao longo dessas páginas, realizarmos uma jornada ao longo da carreira de Michèle Mattelart. Interessava-nos resgatar as contribuições da autora em um campo comunicacional em que os principais balanços e memórias sobre itinerários e as trajetórias intelectuais centram-se nos chamados pais fundadores, o que tem como contrapartida o lugar periférico das contribuições das mulheres pioneiras do campo da comunicação latino-americana.

No artigo, detivemo-nos, em primeiro lugar, na caracterização de três etapas de sua trajetória. A primeiro foi localizada desde sua chegada ao Chile em 1963 até o golpe de setembro de 1973, caracterizada por sua práxis intelectual e política. Um segundo momento identificado foi entre o golpe até meados dos anos de 1980, caracterizando-se por um processo de transição e avaliação da mencionada experiência intelectual e política. Uma terceira etapa, de meados dos anos 1980 até hoje, é de consolidação e reconhecimento da pesquisadora.

Numa segunda parte do trabalho, aproximamo-nos da obra de Michèle como pioneira – ou seja, na primeira etapa (1963-1973) –, isso implicou colocar essas contribuições em uma série histórica e social em relação às características do campo da comunicação latino-americano em seu período de autonomização, isto é, durante seus primórdios, com suas problemáticas e seus objetos de estudo. Como mencionado, o contexto foi fortemente marcado por uma série de mudanças políticas, sociais, culturais, debates e lutas políticas na América Latina, num arco que vai da Revolução Cubana (1959) até as diferentes ditaduras militares que encerraram esse primeiro período na década de 1970.

Na leitura geral e reconstrução de suas contribuições pioneiras encontramos uma série de conceitos que se reiteram: imperialismo, mito, mulher e recepção, o que reflete as preocupações e a perspectiva da autora sobre como e o que pesquisar. Suas produções englobaram da análise ideológica das mensagens dos meios de comunicação de massa – como reprodutores da ideologia dominante –, o papel das mulheres no processo de dominação, às preocupações com a estrutura econômica e social concentrada e estrangeirizada dos meios de comunicação – no qual desempenharam um papel importante os trabalhos realizados no marco do Ceren no Chile –, até um tema menos explorado nesse período, relacionado à análise da recepção. Em um contexto no qual predominavam os estudos que destacavam a instância de produção para denunciar a dependência econômica, a cultural e a reprodução da ideologia dominante, a obra de Mabel Piccini e Michèle Mattelart (1974) marca um dos primeiros antecedentes no tema.

Por fim, cabe destacar que, no percurso aqui realizado pela vasta e notável trajetória da autora, constatamos que Michèle Mattelart continua postulando – como no início de seu trabalho – a necessidade de aprofundar os temas comunicacionais, a partir do encontro entre economia e cultura, ou seja, a partir do reconhecimento da desigualdade e da diferença. Assim, o reconhecimento de suas contribuições é imprescindível em um campo comunicacional como o atual, que se encontra tensionado entre a fragmentação e a dispersão temática e metodológica, a consolidação acadêmica e burocratização das práticas (Gándara & Heram, no prelo).

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Notas

1 Por motivos de anonimato não se escreve os dados do projeto de investigação.
2 É assim que a entende a pesquisadora Claudia Laudano (2010), que coloca Michèle Mattelart como integrante das “análises feministas” e como “uma pioneira na análise de revistas femininas” (p. 41).
3 Inclusive por questões geracionais, Mattelart é próxima da segunda onda do feminismo, marcada pelas primeiras lutas pela igualdade e pelas leituras de Alexandra Kollontai e Simone de Beauvoir. Nas palavras da autora: “Feminismo da igualdade e feminismo da diferença. Assim são descritos com frequência, de maneira percebida como redutora, os dois polos nos quais oscilaria a luta das mulheres. Dois polos que têm suas figuras e suas obras emblemáticas. Dois polos que se identificam com as sucessivas gerações feministas” (Mattelart, 2007, p. 44).
4 Esteinou Madrid (2002); Mattelart (2013); Zarowsky (2013); entre outros.
5 Um representante dessa corrente foi Wilbur Schramm (1965), que publicou Desenvolvimento da Comunicação e Desenvolvimento Econômico, e que encontra seu alicerce na teoria de Rostow, amplamente difundida e promovida pelos Estados Unidos na década de 1960.
6 Após o golpe de estado no Brasil, em 1964, vários dos intelectuais que contribuíram para a elaboração da Teoria da Dependência emigraram para o Chile – Teotônio dos Santos, Ruy Mauro Marini, entre outros – onde estabeleceram novas redes intelectuais.
7 Essa ideia de “linha de massas” também é compartilhada por Armand Mattelart (1973): “As alterações que a burguesia fez em seu modelo de comunicação com suas clientelas dependem, em última instância, de suas alternativas políticas. Aqui, para ilustrar a mobilidade do inimigo de classe na batalha ideológica, tentaremos mostrar como a alternativa escolhida pela ‘linha de massa’ e seu principal órgão jornalístico, El Mercurio, progressivamente armou seu público para desembocar no outubro de 1972 na explosão do poder sindical e canalizar sua ação sediciosa” (pp. 213).
8 Michèle e Armand Mattelart já haviam antecipado um primeiro balanço crítico das políticas de comunicação do governo e até alertado sobre o avanço da contrarrevolução. Em Ruptura y Continuidad en la Comunicación: Puntos Para una Polémica (Mattelart & Mattelart, 1972) concluem: “podemos constatar que este problema da comunicação de massa é relativamente novo para os partidos tradicionais e que muitas vezes estão longe de poder realizar essa formação para uma nova comunicação. . . . Por trás do problema da comunicação surgem questões muito mais amplas, surgem dúvidas mais profundas que abarcam todo o âmbito da transformação superestrutural e essa gira essencialmente em torno da questão: Quem garantirá a vanguarda ideológica? Qual será seu conteúdo e que relação com as massas manterá esta vanguarda?” (p. 143).

Notas de autor

a Professora da Universidad de Buenos Aires e pesquisadora adjunta do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas.
b Doutorando na Faculdade de Ciências Sociais da Universidad de Buenos Aires e professor da Universidad de Buenos Aires e da Universidad de La Pampa.


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