Homenagem a Jesús Martín-Barbero
Testemunhos brasileiros que fazem memória de Jesús Martín-Barbero
Brazilian testimonies remembering Jesús Martín-Barbero
Testemunhos brasileiros que fazem memória de Jesús Martín-Barbero
Matrizes, vol. 15, núm. 2, pp. 147-153, 2021
Universidade de São Paulo
Palavras chave: Jesús Martín-Barbero, Testemunho, Homenagem
Testemunhos brasileiros que fazem memória de Jesús Martín-Barbero
ANA CAROLINA DAMBORIARENA ESCOSTEGUY
NO BRASIL, NÃO somente a obra de Jesús Martín-Barbero exerceu notória influência na pesquisa em comunicação, mas sua pessoa deixou indeléveis impressões, bem como laços de amizade e afinidades pelas mais diversas universidades, espalhadas pelo país, onde exerceu, nas suas inúmeras visitas, seu papel de contumaz falante, mas também de atento ouvinte de questões e dúvidas. Para homenageá-lo, MATRIZes convidou pesquisadoras e pesquisadores – muito poucos dentre os inúmeros de seus interlocutores brasileiros – para que contassem algo que habitasse suas memórias sobre a relação afetiva e/ou intelectual que mantiveram com essa figura ímpar. A intenção era fazer jus à ideia de que praticar a memória significa lembrar intersubjetivamente, assumindo o papel de testemunha de quem lembra – o que o próprio Martín-Barbero exercitou em algumas ocasiões. Uma delas é a versão em português de “Lo que la Investigación Latinoamericana de Comunicación Debe al Brasil: Relato Personal de una Experiencia Intercultural” (1999/2021), publicada neste número de MATRIZes.
Ele nos ofereceu, a partir do relato rememorativo sobre marcas de sedução e impacto de diversas obras produzidas por intelectuais brasileiros no seu programa de pesquisa que propunha pensar a comunicação a partir da cultura, uma ampla lista de estudiosos que se debruçaram, mais do que na análise crítica dos meios de comunicação, no “pensar o Brasil: sua complexa formação como país, suas densas e conflituosas mestiçagens tanto culturais quanto políticas” (Martín-Barbero, 1999/2021, p. 130). Daí nosso convite a dois deles, Muniz Sodré (UFRJ) e Renato Ortiz (Unicamp), para que cada um, à sua moda, ativasse a memória e refizesse seu trajeto de encontro intelectual e de amizade com Martín-Barbero.
Porém, passados vinte anos daquela narração de Martín-Barbero sobre as marcas do pensamento brasileiro na pesquisa latino-americana da comunicação, também consideramos imprescindível assumir uma perspectiva de atualização, estendendo o convite para outras estudiosas que tiveram suas trajetórias de pesquisa afetadas, sobretudo, por sua obra. Devido à limitação do espaço disponível, solicitamos os testemunhos de Nilda Jacks (UFRGS) e Simone Maria Rocha (UFMG), que permitem imprimir ao tributo de MATRIZes a Jesús Martín-Barbero um horizonte histórico em que o trabalho de rememoração por distintas gerações atualiza e visibiliza distintas facetas da potência de sua obra, mantendo viva a lembrança da sua ausência.
UMA VOZ DE INOVAÇÃO - Por Muniz Sodré
Por um verso do Fausto (na cena “Vor dem Tor”), Goethe nos assegura que “em tudo há formação e vida ativa”. É forte a tentação de uma paráfrase para um ponto de vista particular sobre Jesús Martín-Barbero: “no povo há formação e vida ativa”.
Décadas atrás, antes de conhecê-lo em pessoa, ele fez em livro a crítica de que seria preciso liberar-me de meu “vezo apocalíptico” (Martín-Barbero, 1987). Uma crítica justa e bem-humorada. Referia-se à hipótese do monopólio da fala, em que eu esticava a corda da suspeita de que a televisão fosse uma goetheana cozinha da bruxa, atentatória à liberdade do discurso e à criação cultural.
Com a Escola de Frankfurt como referência teórica, era inquietante o temor de neutralização do diálogo da dimensão sensível da vida comum por meio da comunicação eletrônica. A manipulação das massas seria possível mesmo sem um manipulador visível.
Mas havia também, claro, a ideia de comunicação como um sistema dinâmico, aberto aos jogos de influência mútua entre os seus diferentes elementos constitutivos. Jesús Martín partilhava esse posicionamento e atribuía às massas receptoras o lugar de povo apto à mediação cultural. Entre os meios e as mediações haveria um espaço político para a resposta social.
Aí está implicado um deslocamento teórico dos estudos europeus e norte-americanos para a situação latino-americana, dando margem a estudos e esboços metodológicos que procuram confrontar a diversidade cultural com a hegemonia dos modelos circulantes.
Isso é também o que podemos designar como contramovimentações sociais. Nessa abertura, a comunicação aproxima-se do conceito grego de pharmakon, que se compreende ambiguamente como veneno e cura. Em outras palavras, aquilo que envenena a corporeidade clássica das instituições dispõe ao mesmo tempo de produtivas possibilidades quanto a outras formas de ação social.
Entrevê-se então “a vida ativa do povo”.
Jesús Martín-Barbero seguiu essa trilha em suas várias décadas de análises lúcidas e instigantes sobre a cultura, a educação e a comunicação na América Latina. De muitos de seus epígonos surgiram trabalhos valiosos – teóricos e práticos – sobre as relações das massas com o mundo da comunicação.
Da última vez em que nos encontramos eu estava em Bogotá para uma semana de palestras sobre comunicação e cultura na Universidad Javeriana. Generosamente, ele compareceu, mesmo adoentado, para escutar e partilhar uma mesa de debates. Estou convicto de que muito lhe deve a teoria da comunicação latino-americana.
MIS AMIGOS LATINOAMERICANOS - Por Renato Ortiz
Conheci Jesús Martín-Barbero no dia 6 de fevereiro de 1987. Uma data precisa, eu a encontrei nos cadernos que escrevo à mão, com caneta tinteiro, e ali dizia que Néstor García-Canclini tinha nos levado para jantar no restaurante Opera, na Cidade do México. Eu vinha de Nova Iorque e meus planos eram, depois do México, visitar Cuba, em busca das origens das radionovelas. Na época desenvolvia uma pesquisa sobre a telenovela brasileira, e Néstor tinha me convidado para dar um curso na Escuela de Antropologia. Talvez o tema tenha nos aproximado, não sei, mas ele começava a se interessar pelo folhetim eletrônico que tanto o encantava. A partir de aí nos tornamos amigos e cúmplices. O revi em Cali no ano seguinte (1988) e nos cruzamos inúmeras vezes nos mais diferentes lugares da América Latina (Bogotá, Buenos Aires, Antigua, Cartagena das Índias, Havana), da Espanha (Almagro, Madri, Barcelona, Sevilha), e da França (Paris); não me recordo de nos termos visto nos Estados Unidos. Jesús Martín me evoca as viagens e para mim a viagem é uma forte metáfora do trabalho intelectual. Era um viajante no sentido pleno do termo, não pertencia a nenhum lugar, um espanhol que se tornara colombiano, alguém que habitava a fresta desse território fraturado. Creio que isso lhe foi de grande valia, a dimensão de ser estrangeiro (no sentido em que Simmel utiliza a palavra) permitiu ver o mundo de outra maneira. Sua sagacidade intelectual aninhava-se nesta condição contraditória e fértil. Algo sempre me chamou a atenção em sua personalidade, a insatisfação com o mundo e com as ideias. Não suportava o franquismo, o populismo latino-americano, as desigualdades sociais e, com a mesma força – talvez inconformismo seja a palavra correta – investia contra as verdades estabelecidas, teorias, conceitos, noções. Lembro, a insatisfação é um potente motor do pensamento e Jesús Martín sabia cultivar sua potencialidade.
O que nos aproximava em nossas diferenças? Havia certamente uma conjunção de fatores. O ponto inicial se fez através dos meios de comunicação e das indústrias culturais, ele me colocou em contato com toda uma rede latino-americana de estudos em comunicação. Os congressos da Federación Latinoamericana de Asociaciones de Faculdades de Comunicación que frequentei introduziram-me num mundo pouco familiar, que conhecia apenas de forma livresca (tinha sido lector das cadeiras de Antropologia Urbana e da Religião na América Latina na Université de Louvain), e a partir de então alguns de meus textos começaram a ser traduzidos em língua espanhola (o primeiro deles publicado em Dia-Logos de la Comunicación, editado pela Felafacs). As portas do continente se abriam para mim, introduzindo-me num círculo de pessoas que carinhosamente denominei mis amigos latinoamericanos (Néstor García-Canclini, Aníbal Ford, Germán Rey, Rossana Reguillo, Carlos Altamirano, e muitos outros). Creio que duas coisas nos congregavam, e com isso já não me refiro apenas a temas ou objetos de pesquisa, era uma espécie de compromisso tácito, solo comum de nossa cumplicidade. Isso surgia reiteradamente em nossas conversas, de maneira espontânea, algo que se encontrava aquém de qualquer ato consciente. Contrariamente a toda uma tradição intelectual latino-americana desconfiávamos da categoria nação, ela nos parecia insatisfatória para se compreender a realidade da América Latina e do mundo contemporâneo. Nos afastávamos, assim, do cânone consagrado: o debate sobre a identidade nacional. Queríamos olhar para além de suas fronteiras. Mas tínhamos ainda outra afinidade eletiva, e recordo, o termo se aplica às diferenças que convergem para uma mesma direção: era possível pensar de maneira criativa e profícua, independentemente das exigências teóricas da metrópole. Para Jesús Martín, a vida inteligente não era uma prerrogativa do eurocentrismo ou do americano-centrismo dominante nas discussões conceituais das diversas disciplinas. Neste sentido, sempre foi um inquieto cosmopolita na periferia.
JESÚS MARTÍN-BARBERO E MINHA FORMAÇÃO ACADÊMICA - Por Nilda Jacks
As primeiras vezes que ouvi falar em Jesús Martín-Barbero foi no decorrer de 1985: no VIII Ciclo de Estudos Interdisciplinares da Comunicação da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e no curso “Sociedade, Cultura e Comunicação no Brasil (1979-1985)”, ministrado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) por Anamaria Fadul.
Sua proposta para pensar a comunicação no âmbito da cultura deu fôlego para o tema de minha dissertação, Mídia Nativa. Indústria Cultural e Cultura Regional (Jacks, 1998), defendida em 1987, na qual analiso a publicidade gaúcha sob o influxo do Movimento Nativista. Ele segue com mais presença na tese – Querência: Cultura Regional como Mediação Simbólica. Um estudo de recepção (Jacks, 1999) – defendida cinco anos mais tarde. Nesse caso, sua discussão sobre a importância dos receptores e das mediações foi fundamental para construir o objeto de estudo e os procedimentos metodológicos para uma pesquisa empírica sobre a relação de famílias gaúchas com uma telenovela global.
A partir dessas pesquisas, que fundaram minha formação, ele nunca mais saiu do meu horizonte teórico, mesmo quando outros autores foram sendo descobertos.
Um dos primeiros artigos que publiquei – “Repensando a Pesquisa em Comunicação” (Jacks, 1997) – foi uma tentativa de dar um panorama sobre o que eu considerava na época os pontos fortes de sua proposta teórica. Com o tempo descobri que sua obra é muito vasta e complexa para esse tipo de pretensão.
Em 2006 tive o privilégio de fazer um estágio pós-doutoral sob sua supervisão, na Universidade Javeriana, de Bogotá, no qual preparei o material para o livro Meios e Audiências. A Emergência dos Estudos de Recepção no Brasil (Jacks, 2008), cujo prefácio o ressaltou como um meio de conhecer as audiências brasileiras.
Em 2011 participou de Análisis de Recepción en América Latina: Un Recuento Histórico con Perspectivas al Futuro (Jacks, 2011), apresentando uma agenda de pesquisa.
O ponto alto dessa longa relação aconteceu em 2017, quando me disse, em seu escritório em Bogotá, que, se havia um país em que gostaria que Memoria y Promesa. Conversasiones con Jesús Martín-Barbero (Huergo & Morawicki, 2016), publicado na Argentina, fosse traduzido, seria no Brasil. E me deu a missão, que dividi com Ana Carolina Escosteguy e Veneza Mayora!
Em 2019 tive a honra de entregar o livro traduzido e publicado (Huergo & Morawicki, 2018). Ele exultou. Foi a última vez que o encontrei!
MARTÍN-BARBERO: O SEMEADOR DE PERGUNTAS - Por Simone Maria Rocha
Jesús Martín-Barbero e sua obra, com destaque para o magistral Dos Meios às Mediações (Martín-Barbero, 1987), são considerados um marco que assinala um antes e um depois nos estudos de comunicação na América Latina. Antes de mais nada porque ele era um semeador de perguntas. Para ele, era necessário questionar o olhar o óbvio, o conhecido, tornar-se míope para ver melhor, para descobrir outra forma de ver. Essa inquietação intelectual o levou a cartografar epistemologias e hermenêuticas cujo ponto de partida envolvia, essencialmente, mudar as perguntas de lugar.
Para mim, duas dimensões dos mapas noturnos traçados por ele chamam atenção: a mediação da temporalidade e a matriz cultural da oralidade. Com elas, nas primeiras décadas de seu trabalho, Jesús conseguiu evitar o mal olhado que os intelectuais dispensavam à televisão para nela ver o país por meio da relação que o popular urbano mantinha com o melodrama. E assim ele pôde explorar Colômbia, América Latina e nossa geografia sentimental de outra maneira e se preocupar, desde seu lugar teórico, com os modos de ver telenovela. Posteriormente, ao largo de suas preocupações mais recentes com a noção de tempo-agora e a oralidade secundária, teceu uma importante crítica ao campo da educação por não ter em conta o sensório, a percepção e a epistemologia que cerca os jovens, estes seres viventes em uma encruzilhada entre o palimpsesto e o hipertexto. O primeiro como uma espécie de volta ao passado que resiste a desaparecer e vem à tona nas formas de opressão exercida sobre esses jovens a partir de modelos familiares e institucionais. E o hipertexto como o que conforma a sequencialidade e se montam novas escrituras e novas leituras. Para Jesús, sem ter em conta a oralidade e as novas formas de audiovisualidade, por onde passam o conhecimento e a experiência dos jovens, a educação não os alcança.
Sou muito grata a Jesús. Meu encontro com ele e com sua obra marcou pessoalmente minha trajetória, meu trabalho e minha relação com Colômbia. Das muitas vezes que estive nesse país (e no qual estou no momento em que escrevo este texto), pude explorar suas regiões, seus muitos tons de verde, seus diversos (e maravilhosos) sabores, um pouco de sua gente, sua televisão, sua cultura política e entender a violência que o atravessa historicamente, de maneiras diversas, e que jamais dele sairia. Dessa Colômbia que Jesús sempre adotou como sua, embora o medo e a tristeza o levassem a viver no exterior por algum tempo.
Sou grata porque, desde o diálogo com sua obra, o seminário que realizamos em Bogotá, a Cátedra em Cali, as oportunidades que tive de estar em seu estúdio com conversas longas e muito instigantes, quando ele transformava perguntas simples ou complexas em um verdadeiro panorama social contemporâneo, aprendi muito.
Sua morte certamente me afetou como a muitos e muitas. Ao mesmo tempo, me conformo com o lado paradoxal e generoso da vida que, depois de décadas e antes de seu falecimento, o levou de volta a Cali, cidade que ele tanto amou e na qual havia começado sua aventura com a comunicação. A Jesús devo grande parte da relação afetiva e efetiva que mantenho com esse fato cultural chamado América Latina.
REFERÊNCIAS
Huergo, J., & Morawicki, K. (2016). Memoria y promesa. Conversaciones con Jesús Martín Barbero. Universidad Nacional de La Plata.
Huergo, J., & Morawicki, K. (2018). Memória e promessa. Conversas com Jesús Martín-Barbero. Sulina.
Jacks, N. A. (1997). Repensando a pesquisa em comunicação. Revista Ecos, 1(1), 5-14.
Jacks, N. A. (1998). Mídia Nativa. Indústria cultural e cultura regional. Ed. UFRGS.
Jacks, N. A. (1999). Querência: Cultura regional como mediação simbólica. Um estudo de recepção.Ed. UFRGS.
Jacks, N. (Coord.). (2008). Meios e Audiências. A emergência dos estudos de recepção no Brasil. Sulina.
Jacks, N. (Coord.). (2011). Análisis de recepción en América Latina: Un recuento histórico con perspectivas al futuro. Ciespal.
Martín-Barbero, J. (1987). De los medios a las mediaciones: Comunicacion, cultura y hegemonia. Gustavo Gili.
Martín-Barbero, J. (2021). O que a pesquisa latino-americana de comunicação deve ao Brasil: Relato pessoal de uma experiência intercultural. MATRIZes, 15(2), 127-146. http://dx.doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v15i2p127-146 (Trabalho original publicado em 1999)
Notas
Notas de autor