DOSSIÊ

DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v16i2p11-20
Resumo: Trata-se de ensaio publicado no Le Monde, em 1993, em que o autor discute o significado do socialismo a partir de uma possibilidade de revisão de seus aspectos constitutivos e de suas aspirações para a construção de uma sociedade melhor. Questionando determinismos definidos por uma racionalidade ávida pelo progresso, Edgar Morin nos convoca a refletir sobre a necessidade de um projeto civilizatório voltado para "transformar a espécie humana em humanidade" e que seja capaz de responder a um contexto de crescente complexidade, que parece atingir seu ápice nos dias atuais, tornando este texto um importante manifesto sobre esperança para a construção de relações sociais cada vez mais humanas.
Palavras-chave: Sociedade, civilização, esperança, pensamento, pensamento socialista.
Abstract: This is an essay published in Le Monde, in 1993, in which the author discusses the meaning of socialism from a possibility of reviewing its constitutive aspects and its aspirations for the construction of a better society. Questioning determinist ideas defined by a rationality eager for progress, Edgar Morin calls us to reflect on the need for a civilizing project aimed at "transforming the human species into humanity", being able to respond to a context of increasing complexity, which seems to reach its apex today, making this text an important manifesto on hope for the construction of social relations more and more human.
Keywords: Society, civilization, hope, thought, socialist thought.
O SIGNIFICADO da palavra socialismo viu-se totalmente degradado no triunfo do socialismo totalitário, e depois totalmente desacreditado em sua queda. O significado da palavra socialismo tem sido corroído progressivamente na social-democracia, que chegou ao fim onde quer que tenha governado. Podemos nos questionar se seu uso é ainda aconselhável. Mas o que permanece e permanecerá são as aspirações que foram expressas sob este termo: aspirações que são tanto libertárias quanto “fraternárias”, aspirações de realização humana e uma sociedade melhor.
Inflado pela seiva destas aspirações nos séculos XIX e XX, o socialismo trouxe imensa esperança. É esta esperança, hoje morta, que não pode ser ressuscitada tal como está. Pode-se gerar uma nova esperança? Precisamos voltar às três interrogações colocadas por Kant há dois séculos: “Que posso saber? Que devo fazer? Que me é permitido esperar?”. Os socialistas do século XIX compreenderam bem a solidariedade das três interrogações. Eles só responderão à terceira pergunta após terem interrogado o conhecimento de seu tempo, não apenas sobre a economia e a sociedade, mas também sobre o homem e o mundo, e a investigação mais abrangente e sintética foi realizada por Karl Marx com a ajuda de Friedrich Engels. Sobre estas bases cognitivas, Marx elaborou um pensamento que deu sentido, certeza e esperança às mensagens socialistas e comunistas.
O problema, hoje, não é mais saber se a “doutrina” marxista está morta ou não. Mas sim reconhecer que os fundamentos cognitivos do pensamento socialista são inadequados para compreender o mundo, o homem e a sociedade. Para Marx, a ciência trouxe certeza. Hoje, sabemos que as ciências fornecem certezas locais, mas que as teorias são científicas na medida em que são refutáveis, ou seja, incertas. E em questões fundamentais, o conhecimento científico leva a incertezas insondáveis. Para Marx, a certeza científica eliminou o questionamento filosófico. Hoje, vemos que todos os avanços da ciência reavivam questionamentos filosóficos fundamentais. Marx acreditava que a matéria era a realidade primordial do universo. Hoje, a matéria surge como um dos aspectos de uma realidade física polimórfica que aparece como energia, matéria, organização.
Para Marx, o mundo era determinístico e ele acreditava ter identificado as leis do devir. Hoje, sabemos que os mundos físico, biológico e humano evoluem, cada um à sua maneira, segundo as dialéticas da ordem, desordem e organização, compreendendo riscos e bifurcações, todas elas ameaçadas em última instância pela destruição. As ideias de autonomia e liberdade eram inconcebíveis nesta concepção determinista. Hoje, podemos conceber cientificamente a auto-organização e autoprodução, e podemos compreender que ambos, o indivíduo e a sociedade humana, são máquinas não triviais, capazes de atos inesperados e criadores.
LADAINHAS E PRAGMATISMO
A concepção marxiana do homem era unidimensional e pobre: nem o imaginário nem o mito faziam parte da realidade humana profunda. O ser humano era um Homo faber sem interioridade, sem complexidades – um Prometeu produtor fadado a derrubar os deuses e dominar o universo. Ao passo que, como apontaram Montaigne, Pascal e Shakespeare, o homo é sapiens demens, um ser complexo, múltiplo, contendo dentro em si um cosmos de sonhos e fantasias.
A concepção marxiana de sociedade privilegiou as forças materiais de produção; a chave do poder sobre a sociedade estava na apropriação dos meios de produção; as ideias e ideologias, dentre as quais a ideia de Nação, eram meras superestruturas ilusórias; o Estado era meramente um instrumento nas mãos da classe dominante; a realidade social estava no poder e na luta de classes; a palavra capitalismo era suficiente para dar conta de nossas sociedades na realidade multidimensionais. Ora, como não perceber, hoje, que existe um problema específico do poder estatal, uma formidável realidade sociomitológica nas nações, uma realidade própria das ideias? Como podemos não ver a natureza complexa e multidimensional da realidade antropossocial?
Marx acreditava na profunda racionalidade da história, no progresso cientificamente assegurado; ele estava certo da missão histórica do proletariado de criar uma sociedade sem classes e um mundo fraterno. Hoje, sabemos que a história não progride em linha reta, mas por desvios que se fortalecem e se tornam tendências. Sabemos que o progresso não é certo e que qualquer progresso obtido é frágil. Sabemos que a crença na missão histórica do proletariado não é científica, mas messiânica: é a transposição para nossas vidas terrestres da salvação judaico-cristã prometida para após à morte. Essa ilusão foi certamente a mais trágica e devastadora de todas.
Muitas das ideias marxistas são e continuarão a ser frutíferas; mas os fundamentos de seu pensamento estão desintegrados. Os fundamentos da esperança estão, portanto, desintegrados. Em seu lugar, não resta nada além de ladainhas e um pragmatismo cotidiano. Uma teoria articulada e coerente foi substituída por uma salada mista de ideias sobre modernidade, economia, sociedade e administração. Os dirigentes cercam-se de especialistas, enarques, tecnocratas, econocratas. Contam com o conhecimento fragmentado dos especialistas que lhes parece garantido (cientificamente, academicamente). Eles tornaram-se cegos para os formidáveis desafios da civilização, para todos os grandes problemas. A consulta permanente das urnas serve de bússola. O grande projeto desapareceu.
A conversão do socialismo em boa administração só pode ser uma redução ao gerencialismo: este último, ao se dedicar ao dia a dia, também minou as bases da esperança, especialmente porque a gestão é incapaz de resolver os problemas mais críticos.
A MODERNIZAÇÃO DEFICIENTE
O debate arcaísmo/modernismo é distorcido pelo duplo sentido de cada um desses termos. Se arcaísmo significa a ladainha de fórmulas vazias sobre a superioridade do socialismo, as virtudes da união da esquerda, o apelo às “forças do progresso”, então é preciso romper com esse arcaísmo. Se isso significa um retorno às aspirações de um mundo melhor, então é preciso examinar se e como essas aspirações podem ser satisfeitas. Se modernismo significa adaptar-se ao presente, então é radicalmente inadequado, pois se trata de adaptar-se ao presente em uma tentativa de adaptá-lo às nossas necessidades. Se isso significa enfrentar os desafios do tempo presente, então é preciso ser resolutamente moderno. De qualquer maneira, não se trata apenas de adaptar-se ao presente. Trata-se também de se preparar para o futuro. Por fim, é preciso salientar que o moderno, significando crença na garantia do progresso e na infalibilidade da tecnologia, já está ultrapassado.
É agora certo que devemos abandonar toda Lei da história, toda crença providencial no Progresso, e extirpar a fé fatal na salvação terrena. É importante perceber que, mesmo obedecendo a diversos determinismos (que muitas vezes entram em choque e provocam o caos), a história é aleatória e experimenta bifurcações inesperadas. É importante saber que a ação de governar é uma ação condutora, onde a arte de liderar é uma arte de dirigir em condições incertas que podem se tornar dramáticas. O princípio primordial da ecologia da ação nos diz que todo ato escapa às intenções do ator e adentra as interações de feedback do meio, e pode desencadear o oposto do efeito desejado.
Precisamos de um pensamento capaz de captar a multidimensionalidade das realidades, reconhecer o jogo das interações e feedbacks, e enfrentar as complexidades ao invés de ceder a maniqueísmos ideológicos ou mutilações tecnocráticas (que só reconhecem realidades arbitrariamente compartimentadas, são cegas ao que não é quantificável, e ignoram as complexidades humanas).
É preciso abandonar a falsa racionalidade. As necessidades humanas não são apenas econômicas e tecnológicas, mas também afetivas e mitológicas.
DO HOMEM PROMETEICO AO HOMEM PROMISSOR
A perspectiva original do socialismo era antropológica (relativa ao homem e seu destino), global (internacionalista) e civilizadora (irmanar o corpo social, abolindo a barbárie da exploração do homem pelo homem). Podemos e devemos nos servir desse projeto, ao mesmo tempo que modificamos seus termos.
O homem de Marx precisou encontrar sua salvação “desalienando-se”, ou seja, libertando-se de tudo o que lhe era estranho e dominando a natureza. A ideia de um homem “desalienado” é irracional: autonomia e dependência são inseparáveis, pois dependemos de tudo aquilo que nos nutre e nos desenvolve; somos possuídos por aquilo que possuímos: vida, sexo, cultura. As ideias de libertação absoluta, de conquista da natureza, de salvação terrena são uma ilusão abstrata.
Ademais, a experiência histórica de nosso século demonstrou que não basta derrubar uma classe dominante ou conseguir a apropriação coletiva dos meios de produção para arrancar os seres humanos da dominação e da exploração. As estruturas de dominação e exploração têm raízes profundas e complexas, e é abordando todos os lados do problema que poderemos esperar algum progresso.
Não podemos eliminar a infelicidade e a morte, mas podemos aspirar ao progresso das relações humanas entre indivíduos, grupos, etnias, nações. O abandono do progresso garantido pela “lei da história” não significa o abandono do progresso, mas o reconhecimento de seu caráter incerto e frágil. A renúncia ao admirável mundo novo não é absolutamente a renúncia de um mundo melhor.
É possível vislumbrar, nesta perspectiva, uma política que teria por tarefa continuar e desenvolver os processos de hominização no sentido de aprimorar as relações e sociedades humanas?
Hoje sabemos que as potencialidades cerebrais do ser humano permanecem em grande parte inexploradas. Ainda estamos na pré-história da mente humana. Como as possibilidades sociais estão relacionadas às possibilidades cerebrais, ninguém pode garantir que nossas sociedades teriam esgotado suas possibilidades de melhoria e transformação e que tenhamos chegado ao fim da História… Acrescentemos que os desenvolvimentos tecnológicos encolheram a Terra, permitem que todos os pontos do globo estejam em comunicação imediata, fornecem os meios para alimentar todo o planeta, e garantem um mínimo de bem-estar a todos os seus habitantes.
Mas as potencialidades cerebrais do ser humano são fantásticas, para o bem e para o mal. Se o Homo sapiens demens possuía desde o início o cérebro de Mozart, Beethoven, Pascal, Puchkin, ele possuía também o de Stalin e Hitler… Se temos a oportunidade de desenvolver o planeta, também temos a oportunidade de destruí-lo.
DA INTERNACIONAL À TERRA-PÁTRIA
Assim, não há progresso garantido, mas uma possibilidade incerta que depende muito da consciência, da vontade, da coragem, da sorte… E a consciência se tornou urgente e primordial. A possibilidade antropológica e sociológica de progresso restaura o princípio da esperança, mas sem certeza “científica” ou promessa “histórica”.
O pensamento socialista queria situar o homem no mundo. Ora, a situação do homem no mundo mudou mais nos últimos trinta anos do que entre o século XVI e o início do século XX. A Terra do homem “perdeu” seu antigo universo; o Sol tornou-se uma estrela liliputiana entre bilhões de outras em um universo em expansão; a Terra está perdida no cosmos – é um pequeno planeta de vida quente em um espaço gélido onde as estrelas queimam com violência inaudita e os buracos negros se autodevoram. Somente neste pequeno planeta, tanto quanto sabemos, existe vida e pensamento consciente. Este é o jardim comum da vida e da humanidade. É o lar comum de todos os seres humanos. Trata-se de reconhecer nossa ligação consubstancial com a biosfera e de gerir a natureza. Trata-se de abandonar o sonho prometeico de domínio do universo pela aspiração de convivência na terra.
Isso parece possível, já que estamos na era planetária onde todas as partes se tornaram interdependentes umas das outras. Mas são a dominação, a guerra e a destruição que têm sido as principais arquitetas da era planetária. Estamos ainda na idade do ferro planetária. Entretanto, a partir do século XIX, o socialismo vinculou a luta contra as barbáries da dominação e exploração à ambição de fazer da Terra a grande pátria humana.
Mas o novo pensamento planetário, que amplia o internacionalismo, deve romper com dois de seus aspectos capitais: o universalismo abstrato, “Os proletários não têm pátria”; e o revolucionarismo abstrato, “Enterremos o passado”.
Precisamos compreender a que necessidades formidáveis e irredutíveis corresponde a ideia de nação. Não devemos mais opor o universal às pátrias, mas vincular nossas pátrias – familiares, regionais, nacionais, europeias – de forma concêntrica e integrá-las ao universo concreto da pátria terrestre. Não devemos mais opor um futuro brilhante a um passado de servidão e superstição. Todas as culturas têm suas virtudes, suas experiências, sua sabedoria, bem como suas deficiências e ignorância. É confiando em seu passado que um grupo humano encontra a energia para enfrentar seu presente e preparar seu futuro. A busca por um futuro melhor deve ser complementar, e não antagônica, a um retorno ao passado. Recorrer ao passado é, para cada um de nós, uma necessidade identitária profunda, mas essa identidade não é incompatível com a identidade propriamente humana na qual devemos igualmente nos pautar. A pátria terrestre não é abstrata, uma vez que dela se origina a humanidade.
O que é próprio ao humano é a unitas multiplex: é a unidade genética, cerebral, intelectual, afetiva do Homo sapiens demens que expressa suas inúmeras virtualidades através da diversidade de culturas. A diversidade humana é o tesouro da unidade humana, que é o tesouro da diversidade humana.
Assim como deve haver uma comunicação viva e permanente entre passado, presente e futuro, também deve haver uma comunicação viva e permanente entre as singularidades culturais, étnicas e nacionais e o universo concreto de uma terra-pátria para todos.
O imperativo é civilizar a terra, unir e confederar a humanidade, respeitando ao mesmo tempo as culturas e as pátrias.
Mas há desafios e ameaças formidáveis hoje que eram inconcebíveis no século XIX. O mundo foi então entregue às antigas barbáries que a história humana havia desencadeado: guerras, ódios, crueldades, desprezo, fanatismo religioso e nacional. A ciência, a tecnologia, a indústria pareciam conter em seu próprio desenvolvimento a eliminação dessas antigas barbáries e o triunfo da civilização.
Daí a fé cega no progresso da humanidade, a despeito de alguns acidentes de percurso.
NOVO MAL-ESTAR DA CIVILIZAÇÃO
Hoje, fica cada vez mais claro que os desenvolvimentos da ciência, tecnologia e indústria são ambivalentes, sem que seja possível decidir se o pior ou o melhor deles prevalecerá. As prodigiosas elucidações trazidas pelo conhecimento científico são acompanhadas pelas regressões cognitivas da especialização, o que nos impede de perceber o contexto e o global. Os poderes da ciência não são apenas benéficos, mas também destrutivos e manipuladores. O desenvolvimento técnico-econômico, desejado por e para o mundo inteiro, revelou suas deficiências e insuficiências em quase todos os lugares.
Aqui estão os desafios formidáveis que se impõem em cada sociedade e para toda a humanidade: a insuficiência do desenvolvimento técnico-econômico; a marcha acelerada e incontrolável da tecnociência; os desenvolvimentos hipertrofiados da tecnoburocracia; os desenvolvimentos hipertrofiados da mercantilização e monetarização de tudo; os problemas cada vez mais graves colocados pela urbanização do mundo.
A isso devem ser acrescentados as perturbações econômicas e demográficas, as regressões e atropelos democráticos e os perigos combinados de uma homogeneização civilizacional que destrói a diversidade cultural e de uma balcanização étnica que torna impossível uma civilização humana comum.
Aqui se coloca o problema da civilização. A política da civilização.
Ao retomar e desenvolver o projeto da Revolução Francesa, concentrado no lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o socialismo propôs uma política de civilização dedicada a eliminar a barbárie das relações humanas: a exploração entre os homens, a arbitrariedade dos poderes, o egocentrismo, o etnocentrismo, a crueldade, a incompreensão. Ele se dedicou a um empreendimento de solidarização da sociedade, o qual teve algum êxito através do Estado (estado de bem-estar social), mas que não pôde evitar a dissolução generalizada das relações entre indivíduos e grupos na civilização moderna urbana.
O socialismo se dedicou à democratização de todo o tecido da vida social; sua versão “soviética” reprimiu toda democracia e sua versão social-democrata foi incapaz de impedir as regressões democráticas que, por razões diversas, vêm corroendo nossas civilizações a partir de dentro.
Mas, acima de tudo, um problema fundamental é colocado por e para o que parecia trazer um progresso generalizado e contínuo da civilização. Para além do mal-estar no qual, segundo Freud, toda civilização desenvolve dentro de si mesma os fermentos de sua própria destruição, surgiu um novo mal-estar da civilização. Ele resulta da conjunção dos desenvolvimentos urbanos, tecnológicos, burocráticos, industriais, capitalistas e individualistas de nossa civilização.
O desenvolvimento urbano trouxe não só realização pessoal, liberdade e lazer, mas também a atomização consecutiva à perda de velhas solidariedades e à servidão das restrições organizacionais muito modernas (o trabalha-come-dorme).
O desenvolvimento capitalista levou a uma mercantilização generalizada, inclusive em áreas onde havia a doação, serviços gratuitos e bens comuns não monetários, destruindo assim muitos tecidos de convivência.
DESTINO TERRENO
A tecnologia tem imposto a lógica da máquina artificial, que é mecânica, determinista, especializada e temporizada, a cada vez mais setores da vida humana. O desenvolvimento industrial traz não apenas a elevação dos padrões de vida, mas também a diminuição da qualidade de vida, e a poluição que produz começou a ameaçar a biosfera.
Esse desenvolvimento, que parecia providencial no final do século passado, hoje representa duas ameaças às sociedades e aos seres humanos: uma externa, resultado da degradação ecológica dos ambientes; a outra, interna, resulta da degradação da qualidade de vida. O desenvolvimento da lógica da máquina industrial em empresas, escritórios e atividades de lazer tende a difundir o padrão e o anonimato, e assim destruir a convivência.
O surgimento das novas tecnologias, particularmente a informática, está causando perturbações econômicas e desemprego, embora possa se tornar libertadora se a mudança tecnológica for acompanhada por mudanças sociais.
Nesse contexto, a crise do progresso e as incertezas do amanhã ou reduzem a vida a um “dia a dia” ou transformam o retorno às raízes em fundamentalismos ou nacionalismos fechados.
Daí os imensos problemas civilizatórios que exigirão mobilização para: humanizar a burocracia e a tecnologia, defender e desenvolver a convivência, desenvolver a solidariedade.
Todos estes desafios – o desafio antropológico, o desafio planetário, o desafio civilizacional – estão ligados ao grande desafio que a aliança entre duas barbáries, a velha barbárie das profundezas do tempo, mais virulenta do que nunca, e a nova barbárie, gélida, anônima, mecanizada, quantificada, impõe ao final do nosso século, em todas as partes do mundo.
Hoje, a consciência de nosso destino terreno e identidade terrena comum se une à tomada de consciência sobre os problemas globais e fundamentais impostos à toda a humanidade.
Hoje estamos na era Democleana de ameaças mortais, com oportunidades de destruição e autodestruição, inclusive psíquicas, que, após uma curta trégua nos anos 80-90, se reagravaram.
O planeta está em perigo: a crise do progresso está afetando toda a humanidade, produzindo rupturas por toda a parte, rompendo articulações, determinando respostas particularistas; reinam as guerras; o mundo está perdendo sua visão global e o senso de interesse geral.
Civilizar a terra, transformando a espécie humana em humanidade, torna-se o objetivo fundamental e global de toda política que aspire não só ao progresso, mas à sobrevivência da humanidade.
É ridículo que os socialistas míopes estejam buscando “atualizar”, modernizar, social-democratizar, enquanto o mundo, a Europa e a França confrontam os imensos problemas do fim dos Tempos Modernos.
OS EDIFICADORES DA ESPERANÇA
Trata-se de repensar e reformular o desenvolvimento humano em termos apropriados (e aqui novamente respeitando e integrando as contribuições de culturas que não a ocidental).
Devemos tomar consciência da louca aventura que nos conduz à desintegração, e devemos procurar controlar o processo a fim de provocar a mutação vital necessária.
Estamos em uma luta formidável entre solidariedade ou barbárie. Estamos em uma história instável e incerta onde nada ainda foi decidido.
Salvar o planeta ameaçado por nosso desenvolvimento econômico. Regular e controlar o desenvolvimento tecnológico. Assegurar o desenvolvimento humano. Civilizar a Terra. Eis o que amplia e transforma a ambição socialista original. Essas são as perspectivas grandiosas capazes de mobilizar energias.
Mais uma vez, e em termos dramáticos, coloca-se a questão: o que podemos esperar?
Os grandes processos conduzem à regressão ou à destruição. Mas estas são apenas prováveis. A esperança está no improvável, como sempre se dá nos momentos dramáticos da história onde todos os grandes eventos positivos eram improváveis antes de acontecerem: a vitória de Atenas sobre os Persas em 490-480 a.C., daí o nascimento da democracia, a sobrevivência da França sob Carlos VII, o colapso do império hitlerista em 1941, a queda do império stalinista em 1989.
A esperança se baseia nas possibilidades humanas ainda inexploradas e se assenta no improvável. Não mais a esperança apocalíptica da luta final, mas a esperança corajosa da luta inicial: requer a restauração de uma concepção, uma visão do mundo, um conhecimento articulado, uma ética. Ela deve animar não apenas um projeto, mas uma resistência preliminar contra as gigantescas forças da barbárie que são desencadeadas. Aqueles que aceitarem o desafio virão de diversas origens, não importando o rótulo que os reúnam. Mas serão eles os portadores contemporâneos das grandes aspirações históricas que, por um tempo, nutriram o socialismo. Eles serão os edificadores da esperança.
Notas
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