DOSSIÊ

Comunicação como trabalho da diversidade (perspectiva e metodologia)

Communication as work of diversity (perspective and methodology)

JOSÉ LUIZ BRAGA a
Universidade Federal de Goiás, Brasil

Comunicação como trabalho da diversidade (perspectiva e metodologia)

Matrizes, vol. 16, núm. 3, Esp., pp. 103-120, 2022

Universidade de São Paulo

Recepción: 07 Agosto 2022

Aprobación: 16 Noviembre 2022

Resumo: Partindo da variação processual da comunicação constatada no mundo da vida e valorizando a decorrente diversificação de pesquisas e teorias, este artigo propõe uma perspectiva de conhecimento em uma linha de epistemologia evolutiva, com uma abrangência que supera a dispersão sem prejuízo da variedade de problemas, de objetos de observação e de objetivos de investigação. A perspectiva assume a capacidade de diversificação da espécie humana como um desafio comunicacional e propõe uma linha de conexão entre esse desafio abrangente e a pluralidade de urgências interacionais que ocorrem no ambiente social. Ademais, o artigo desenvolve a metodologia de pesquisa pertinente e prevê a realização de pesquisas empíricas para testar a perspectiva.

Palavras-chave: Epistemologia evolutiva, desafio comunicacional, dimensões de variação, processadores da comunicação.

Abstract: Starting from the procedural variation of communication observed in the world of life and valuing the resulting diversification of research and theories, the article proposes a perspective of knowledge, in an evolutionary epistemology approach, with a scope that overcomes dispersion without restriction of the variety of problems, objects of observation and research objectives. The perspective assumes the diversification capacity of the human species as a communicational challenge and proposes a line of connection between that and the plurality of interactional urgencies occurring in the social environment. The text develops the applicable research methodology and proposes to carry out empirical research to test the perspective.

Keywords: Evolutionary epistemology, communication challenge, variation dimensions, communication processors.

NA MEDIDA EM que as diversas Ciências Humanas e Sociais (CHS), desde os anos 1990, deixaram de propor teorias gerais sobre comunicação – que devem ser vistas, mais precisamente, como teorias precursoras –, nosso campo de estudos vem elaborando em seu próprio espaço um acervo ampliado de pesquisas e reflexões teóricas, em uma variedade de ângulos, sobre múltiplos objetos de interesse. A simples observação dos anais da Compós e da Intercom, assim como das entidades especializadas da área, evidencia essa produção diversificada.

As questões comunicacionais se expressam, também, em todas as atividades e ambientes da sociedade e se relacionam aos modos pelos quais a comunicação acontece, à presença tecnológica dos meios de comunicação, aos processos de recepção, aos circuitos interacionais, às profissões especializadas, aos problemas ocorrentes em todos os campos sociais e, ainda, às ações mais corriqueiras do gesto humano: o diálogo, o boato, a comensalidade, as linguagens gestuais, a conversa de mesa de bar.

A diversidade de processos observados na sociedade, de pesquisas e teorias que elaboram conhecimentos sobre comunicação – relevante e necessária como é – tem levado a um problema duplo: a dispersão, que limita a busca de consistência do campo de conhecimento; a falta de consistência do campo, que dificulta o aprofundamento dos conhecimentos1.

A dispersão, que no século XX era justificada como decorrente de uma geração teórica interdisciplinar, se assume agora como um espalhamento interno da própria área, em uma multiplicidade de “especialidades da atenção” sobre a variedade de questões e de observáveis que pedem especificações teóricas e metodológicas correspondentes, assim como o recurso a teorias sem distinção de origem ou especificação de enfoque.

O problema duplo apontado é um obstáculo para o reconhecimento da comunicação como uma disciplina de conhecimento entre as CHS. No enfrentamento dessa limitação, a área vem elaborando esquadrinhamentos metateóricos para sistematizar o acervo teórico disponível; descrições cartográficas para identificar alguma composição entre os conhecimentos produzidos pelas diferentes disciplinas e suas perspectivas ou, ao menos, para “territorializar” a diversidade; e conceitos ontológicos para capturar os aspectos substanciais do fenômeno.

Todos esses processos são relevantes – salvo quando, ao tentarem reduzir a dispersão, levam a restrições da diversidade. A grande variedade de pesquisas e reflexões é exigida pela própria diversidade de questões e de observáveis. Os processos que a sociedade humana constantemente experimenta, inventa, reajusta, refaz e transforma tornam a comunicação um fenômeno proliferante ao ponto de que cada momento é diverso dos anteriores. Devemos reconhecer que a diversidade de processos comunicacionais na realidade social é um aspecto constitutivo de nosso objeto de conhecimento.

Nessas condições, coloca-se a seguinte questão epistemológica, que constitui o eixo da pesquisa aqui encaminhada: como produzir um conhecimento comunicacional consistente mantendo a necessária variedade das pesquisas sobre a diversidade processual do mundo da vida e reduzindo a dispersão entre descobertas setoriais? Este artigo expõe uma proposta nessa direção.

Não buscaremos definir “o fenômeno comunicacional” como se ele fosse marcado por uma natureza específica. Não se trata de conceituar o que é comunicação, mas sim de propor uma hipótese de perspectiva de investigação como instrumento epistemológico abrangente, capaz de rastrear processos comunicacionais onde ocorram e na forma que apresentem.

Uma perspectiva comunicacional, como olhar escrutador para busca de conhecimentos, deve acolher a diversidade de questões comunicacionais da própria sociedade, servindo heuristicamente para fazer perguntas e estimular descobertas, e não para explicar os processos comunicacionais em modo unificador, mas para compreender a própria variedade de lógicas desenvolvidas e de dinâmicas acionadas que se interpõem na especificidade das diferentes urgências sociais.

Tendo assumido a potencial infinidade de gestos comunicacionais, de estratégias, de objetivos e de lógicas tentativamente acionadas pela sociedade, evidencia-se a ineficácia de buscar essa perspectiva no próprio conjunto de processos comunicacionais. Para responder ao critério duplo de valoração da diversidade e da busca de consistência, proponho deslocar a atenção . dos gestos e processos comunicacionais – para os problemas do ambiente social em função dos quais os processos são acionados ou desenvolvidos.

É no âmbito dos problemas – e não dos processos – que devemos constituir uma perspectiva2. Esta, em construção, não será derivada diretamente do objeto “ocorrências comunicacionais na sociedade”, mas sim do que possa ser percebido como o problema a que os processos buscam responder. Trata-se de oferecer um ângulo comunicacional para observar as ocorrências sociais e, aí sim, apreender as lógicas locais dos processos que se voltam para o enfrentamento das urgências específicas que possam ser referidas ao desafio abrangente.

Enfatizo que propor uma perspectiva abrangente com enfoque propriamente comunicacional não corresponde a elaborar uma teoria geral da comunicação3. A proposta de uma perspectiva é um gesto antes epistemológico que teórico. Deve ser uma visada heurística em busca de conhecimentos e de estratégias de consistência, e não uma explicação ou conceituação do fenômeno e seus processos. Tal perspectiva, mesmo abrangente, pode conviver com outras perspectivas, tanto setorializadas como abrangentes. Assinalando que cada CHS inclui em seu corpo teórico-epistemológico perspectivas distintas, argumentamos que uma busca de abrangência sobre variações de um objeto de conhecimento não pode implicar uma pretensão de totalidade de apreensão.

DIFERENÇA E DIVERSIDADE

Tendo passado da diversidade de teorias e pesquisas para a diversidade dos próprios processos comunicacionais na sociedade, e dos processos para as questões a que estes respondem, ainda precisamos de alguns movimentos preliminares para desenvolver a perspectiva a ser encaminhada – entre estes, uma reflexão sobre as diferenças humanas.

Um dos aspectos que têm chamado a atenção de pesquisadores, gerando teorizações sobre a comunicação, é a questão da alteridade e do relacionamento com o diferente no ambiente social. Quando Honneth (2003) evoca a questão do reconhecimento e quando Lévinas (2007) aborda as barreiras da alteridade, a diferença é mostrada como um problema e, implicitamente, a comunicação como um trabalho sobre essa diferença. As especificidades sociais do enfrentamento da diversidade fazem concentrar o olhar nas dinâmicas inerentes à diferença problematizada e nas lógicas pontuais da construção de objetivos e da busca de estratégias curadoras. Não nos distanciaremos muito desse núcleo, que oferece pistas significativas. É preciso, entretanto, evitar um tratamento da diferença exclusivamente como problema e da comunicação como cura.

Certamente, objetivos sociais justificam tais abordagens especificadas, mas não devem ocupar todo o espectro epistemológico. A concentração da atenção nas diferenças – quando estas se mostram já socialmente constituídas, constatadas ou assumidas – apanha a questão comunicacional em um estágio estabelecido, fazendo perder de vista processos anteriores e mais abrangentes. Devemos, então, observar por um ângulo mais amplo e abstrato, obtendo uma perspectiva que consiga tanto perceber diferenças a serem resolvidas quanto obter entendimento dos processos geradores e acuidade sobre as estratégias e ações de transformação.

Para isso, em vez de concentrar a atenção nos processos comunicacionais apenas como trabalho de superação de diferenças, vamos dar atenção a um terceiro nível de diversidade – ao lado dos níveis teórico e processual social –, refletindo sobre a própria diversidade humana não como problema em si, mas como uma característica marcante da espécie.

Lucrécia Ferrara (2021) critica com pertinência uma “comunicação voltada para a apreensão de regularidades que se reproduzem” e pergunta se não seria necessário “considerar a possibilidade de elaborar, no território da comunicação, uma epistemologia das diferenças” (Ferrara, 2021, p. 7). Este estudo dá atenção a esse repto. A diversidade humana não é feita de diferenças estabelecidas, regularizadas como se fossem imutáveis. Temos competências para diversificação4 – de gestos, de opiniões, processos, de percepção, de estratégias, de invenção, de experiência e, por todos esses elementos, de geração cultural. Essa diversificação é estrutural e nos oferece competências de experimentação, de inferência e de geração estratégica. Primeiro como potencialidade de ajuste perante ambientes cambiantes e, em seguida, pela própria composição de ambientes culturais em que a diversidade, de algum modo, seja direcionada para ações em comum.

O que é comunicacionalmente relevante não é a diferença em si, é o trabalho da diversidade, pelos modos relacionais que elabora. O trabalho de diversidade vai além de processos praxiológicos sobre problemas já percebidos. Implica, em larga proporção, processos proativos em busca de equilibrações e de avanço civilizacional.

Os animais ditos “sociais”, de comportamento coletivo, como as abelhas e as formigas, dispõem de um aparato instintivo que acomoda adequadamente atribuições distintas no coletivo, segundo padrões eficazes para sua perpetuação. Na espécie humana, a necessidade de gerar socialmente os padrões articuladores entre diferenças se torna fundamental. Temos alguns instrumentos básicos para desenvolver práticas nesta direção – por experimentação conjunta –, o que permite variações motivadas e composições tentativas.

Os animais também demonstram competências variáveis de ação, quando se relacionam, sobretudo por processos instintivos, a nichos específicos de affordances naturais (Gibson, 1977). Mas uma peculiaridade humana é a presença intensiva de uma forma de diversidade que é produzida no próprio desenvolvimento da vida do espécime.

O que a natureza faz, em nossa constituição biológica, é abrir espaço para que uma parte ampliada de nossas capacidades de ação não seja dependente estritamente de características genéticas e atribuir essa parte relevante a relações diretas com o próprio ambiente social de inscrição, em que devemos aprender ou inventar os processos pertinentes para caminhar em um mundo que continuamente se modifica.

Isso implica um trabalho da diversidade – correspondente aos processos da comunicação – que não se limita às práticas de articulação entre diferentes. Envolve, também, a produção de transformações nos indivíduos, bem como entre grupos e, para um mesmo indivíduo, entre momentos de sua existência. A composição não é necessariamente uma eliminação de diferenças, mas antes um ajuste mutável entre estas. As duas dinâmicas não se contrapõem; realimentam-se mutuamente ao gerar diversificação e relacionar diferenças.

Assim, os participantes sociais não são simplesmente diversos per se. Mais importante que isso, se diversificam por aprendizagem5, por circunstâncias de vida e pelas experimentações que desenvolvem na presença de urgências diversas a serem enfrentadas. Precisamos de um tempo maior que o dos outros animais na “formação para o mundo”, mas isso favorece uma rápida adaptação às mudanças de circunstâncias sem que essa sintonia dependa de uma diversificação biológica geracional de longuíssimo prazo.

As variações do ser humano não se apresentam apenas como na perspectiva darwiniana – mutações aleatórias selecionadas na sequência de gerações por adaptação orgânica ao ambiente6. De modo mais relevante, se apresentam como diversificação de procedimentos possíveis em um mesmo recorte temporal. As seleções realizadas no ambiente social deixam de ocorrer, portanto, apenas entre variações do próprio organismo e passam a ocorrer como seleções entre estratégias variáveis de decisões sociais.

A comunicação não é simplesmente um recurso de ajuste entre participantes diferentes cuja diversidade possa dificultar ações em comum; a comunicação é também, e sobretudo, um fator de transformação e flexibilidade perante urgências diversificadas.

As condições ambientais diferenciadas não são apenas as da natureza, mas também, em importante grau, do próprio ambiente social, que se diversifica nas atividades individuais dos participantes, nas práticas estabelecidas e em ambientes culturais muito variados. A sociedade, em conjunto, pode se beneficiar da diferenciação, seja por trabalhos integrados, por estratégias tentativas ou pelo apoio mútuo entre diferentes competências. Temos, assim, a possibilidade de articulações em ecologias sociais e naturais distintas, o que nos torna menos dependentes de um ambiente específico e mais viáveis em múltiplas circunstâncias.

A adaptabilidade, em tais condições, já não se restringe a uma sintonia passiva com o meio ambiente. Deve ser percebida como potencialidade adaptativa-adaptadora7, com dinâmica ampliada em relação a outras espécies animais e representando maior flexibilidade criativa (Ferrand, 2008).

Dizer que somos diferentes por variação interacional corresponde a reconhecer uma transformação mútua entre o indivíduo e suas culturas de inserção. É o que podemos caracterizar como um processo de diversificação constantemente em curso.

O risco de desentendimento e desajuste entre os participantes sociais está sempre presente, assim como o de violência e opressão. A vantagem adaptativa8só se realiza na medida em que é composta não de diferenças rigidamente concatenadas, mas sim de uma adaptabilidade conjunta a circunstâncias mutáveis, o que pede uma diferenciação experimental, em curso, durante a vida dos espécimes. A contrapartida da vantagem adaptativa da diversidade é a necessidade de padrões procedimentais e de práticas generalizadas – o ajuste entre gestos e entre ideias não se faz sem esforço. Depende, também, de que as diversidades, de algum modo, possam se reformular, se interpelar e se ajustar em complementaridade, entrando em conexão para uma geração conjunta de processos diversificados.

Precisamos, portanto, de padrões, sistemas e culturas para gerar alguma estabilidade e continuidade, sabendo, porém, que toda continuidade, se vier a perder contato com requerimentos da situação, se torna geradora de riscos. Por isso mesmo, a continuidade não pode ser mantida como um automatismo. Sem reajustes significativos diante das necessidades de uma situação mutável, passa a ser fonte de tensões, de que resultam novos problemas. Temos que diversificar como indivíduos, como coletivos e como organizações sociais. Assim, o problema comunicacional não é simplesmente a necessidade de gerar ações em comum, como se a diversificação fosse uma dificuldade e os padrões e sistemas fossem a solução. Responder ao desafio comunicacional é desenvolver composições viáveis entre transformações (por diversificação) e continuidade (como cultura).

A comunicação é a dinâmica geradora e processual do trabalho da diversidade, desenvolvendo padrões e, ao mesmo tempo, permitindo a frequente revisão de tais composições. Essa condição estruturante da espécie humana – que sintetizamos na fórmula diversificação/composições mutáveis – é o que assumiremos como base para a hipótese do desafio comunicacional, que detalharemos na próxima seção.

O DESAFIO COMUNICACIONAL

Vimos que a questão comunicacional não é da ordem dos problemas para os quais se buscam soluções abrangentes que os deixem para trás. A diversidade não é só um problema; é também uma característica estrutural, uma competência integrada às nossas condições de sobrevivência e de perpetuação, uma qualidade “adaptativa”.

Essa característica estrutural corresponde ao que podemos chamar metaforicamente de uma “incompletude programada” nos processos biológicos, com uma redução relativa de automatismos instintuais e uma ampliação de variações geradas comunicacionalmente no espaço social, e, portanto, não ocorrentes na estrutura do organismo, embora relacionadas ao exercício de suas competências. A característica diversificadora da espécie resulta em uma ampliação da flexibilidade adaptativa. Em vez de esperar que, por seleção natural, uma linha de organismos mais adaptados ao meio ambiente sobreviva e prolifere, dependemos de uma parcela ampliada de geração social – e não mais sobretudo biológica – de respostas criativo-adaptativas.

Nestas condições, o desafio que se apresenta à sociedade humana é o de exercer competências próprias da espécie para obter composições viáveis, tentando continuamente evitar que nossas especificidades diferenciadas resultem em tensionamentos desastrosos. De modo concomitante, temos o desafio de exercer a diversidade, as capacidades de diversificação e de invenção social para enfrentar as urgências novas que devem ser interacionalmente enfrentadas, assim como o de superar composições equivocadas ou em processo de desagregação ou conflito.

Esse aspecto criativo e diversificador não opera isoladamente: sua eficácia tentativa só se realiza no conjunto das ações para a sobrevivência dos encaminhamentos tentados nas condições variadas do mundo e para o bom aproveitamento e acionamento dos nichos oferecidos ou gerados. A processualidade só se completa por processos de operação conjunta – articulações ativas da diversidade possível em determinada cultura e momento histórico – gerando, por sua vez, cultura e história.

O problema social da espécie é a própria necessidade de encontrarmos constantemente respostas que se demonstrem satisfatórias, já que os automatismos do organismo – que, evidentemente, não desaparecem – deixam de ocupar o centro da cena. Com a ampliação do índice de adaptatividade/criatividade não impressa no programa genético, ampliam-se igualmente as possibilidades de dispersividade, de equívoco e de opressão.

O conjunto de características humanas referido no item anterior – que reunimos na noção integrada de “diversificação/composições” – produz, assim, o desafio comunicacional da espécie. A palavra “comunicacional” se justifica como qualificadora central do desafio, porque a diversidade e suas infinitas composições só podem se realizar como vantagem adaptativo-criativa na medida em que se exercem mutuamente, entre os participantes sociais, as competências da diversificação e as competências para pôr em comum (articular, compor) os gestos, comportamentos e estratégias diversificadas. O que implica, também, resistir ao enrijecimento de articulações estabelecidas.

Esse problema é enfrentado diretamente pelas sociedades humanas na arena prática da vida cotidiana ou na dimensão histórica da existência, nas formas concretas e específicas variadas que hoje podemos reconhecer como “processos comunicacionais”. É o fato de corresponder ao enfrentamento dos desafios do trabalho da diversidade que permite categorizar tais processos como “comunicacionais”. Em outras palavras, a comunicação não se define pela natureza conceitual do fenômeno, mas pelos problemas – especificados como tais – que enfrenta.

Se o desafio comunicacional é genérico e abrangente, sua manifestação na realidade social se mostra na forma de problemas específicos potencialmente infinitos. Precisamos fazer uma distinção clara entre o desafio resultante de características humanas – que proponho como questão comunicacional abrangente – e os problemas pontuais da realidade social, para os quais se voltam a geração e o acionamento de processos – específicos e plurais – de comunicação.

Para clareza de distinção, uso a expressão “urgências” para me referir aos problemas comunicacionais locais, concretos e específicos de qualquer atividade entre participantes que envolva a elaboração de algum modo de articulação entre posições, objetivos e estratégias de ação, que irão compor a direção a ser dada a seu encaminhamento. Não raramente, a urgência exige experimentação em busca de estratégias tentativas; mas mesmo na disponibilidade de procedimentos já estabelecidos e estabilizados, estes pedem ajustes à singularidade da situação (Braga, 2010).

As urgências referentes ao trabalho da diversidade ocorrem de modo singular em toda a variedade de situações, de culturas e de ambientes sociais, instituídos ou não, nas mais diversas áreas, solicitando de seus participantes posições relativas à necessidade de pôr em comum o conjunto complexo e desconexo de elementos na situação enfrentada.

Urgências interacionais não apenas pedem estratégias correlatas de solução – a seleção das estratégias tentadas e sua inserção nos contextos imediatos gera possibilidades modificadoras do próprio contexto. Conforme sua potencialidade transformadora, podem repercutir menos ou mais em contextos imediatos ou mais abrangentes, levando a modificações culturais correlatas.

Sabemos que o desafio nem sempre é bem enfrentado. Muito pelo contrário: há processos comunicacionais que trabalham a diversidade em modos falaciosos (como nas fake news), que a transformam em diferenças oprimidas (como nos racismos), ou, ainda, que constroem dualidades excludentes (como na polarização política). A história mostra a forte incidência do erro no exercício das competências humanas, assim como os riscos decorrentes para a civilização. Sem um exercício adequado das duas ordens de competências comunicacionais, a espécie pode até ser levada à extinção. A ansiedade por valores e verdades universais e por critérios absolutos ou matemáticos é um indicador de como o desafio nos pesa. Entretanto, não é possível escapar dessa necessidade de enfrentamento inerente à constituição da espécie.

A questão científica – tanto em termos de compreensão abrangente como de explicação de processos singulares e de contribuições praxiológicas para a sociedade – corresponde à geração de conhecimentos rigorosos sobre esse problema, participando, assim, do desafio comunicacional enfrentado diretamente pela sociedade. O que considero neste artigo como a hipótese do desafio comunicacional não se restringe ao nível descritivo de características humanas e à proposição de sua relevância geral para a sobrevivência. Inclui também a proposição de que o desafio assim descrito é base pertinente para uma perspectiva de conhecimento sobre a realidade social voltada para uma compreensão abrangente e diversificada dos processos comunicacionais.

É com essa proposição que desenvolvemos a seguir nossa proposta sobre a questão epistemológica apresentada na introdução. A próxima seção mostra a hipótese do desafio comunicacional para a sociedade como ponto focal de uma perspectiva de conhecimento.

A PERSPECTIVA

Os processos sociais da comunicação, como trabalho da diversidade, envolvem a participação de dois tipos de competências: as de diversificação e as de composição, como um jogo infinitamente complexo entre essas duas dinâmicas humanas.

Essa percepção situa as questões comunicacionais no âmbito dos processos de transformação e busca de continuidade, justificando uma heurística de epistemologia evolutiva. A linha epistemológica tem como referência principal a hipótese de Darwin sobre a origem e o desenvolvimento das espécies, substituindo uma causalidade determinista por um processo de geração de variações, só então selecionadas. Em outro artigo (Braga, no prelo), apresento a possibilidade de sua transferência heurística para a perspectiva comunicacional.

A questão aqui é a de derivar da diversidade humana uma perspectiva de conhecimento. Esta deve permitir investigar, com base no desafio comunicacional, processos geradores de composições pelos quais variações de estratégia são produzidas e táticas de seleção acionadas.

Assumimos que o conjunto de características humanas pode ser considerado como o ambiente mais abrangente em que se desenvolvem as urgências e estratégias dos processos comunicacionais. Mas não se trata de fazer tudo depender das características da espécie. Para seu exercício na pesquisa, a perspectiva deve ser uma linha de conexão entre o desafio comunicacional abrangente e urgências sociais específicas geradas no âmbito deste desafio e que podem ser percebidas como problema e enfrentamento. Tais processos se manifestam buscando inserção em contextos de ocorrência e, eventualmente, incidindo sobre o próprio contexto.

A hipótese do desafio comunicacional permite esquadrinhar, a cada urgência analisada, suas próprias especificidades – das situações de ocorrência e das questões investigativas e teóricas acionadas –, percebendo os elementos que o próprio objeto específico põe em pauta, assim como o que se busca aí descobrir. A linha de conexão viabiliza compreender como as dinâmicas gerais acolhem as respostas específicas encontradas e como essas respostas exercem aquelas dinâmicas.

As relações de suprassunção e subsunção entre os dois níveis se desenvolvem, assim, em dupla direção, exigindo uma reflexão recorrente entre, de um lado, o desafio abrangente caracterizado pela diversidade e, de outro lado, sua ocorrência variadíssima nas urgências específicas que pedem processos comunicacionais para seu enfrentamento.

A constatação de uma relação entre as características gerais da espécie, com seus tipos de competências – aprendizagem, diversificação, composição, empatia, competência inferencial, análise crítica, mimetização, autoconsciência etc. –, e a variação de táticas e estratégias de resposta ao desafio comunicacional fazem perceber que o ato comunicacional não começa nos processos interacionais culturalmente estabelecidos (linguagens; estratégias consolidadas; ou meios de comunicação)9. Dado o desafio abrangente, a comunicação começa antes, como necessidade, levando à invenção de gestos e processos pelos quais as próprias linguagens se estabelecem, as estratégias se selecionam e os meios se desenvolvem.

Podemos assumir que a dinâmica comunicacional está na origem dos processos específicos gerados (Braga, 2017). Os processos são variações de ação e pensamento, tentativamente produzidos em função de metas objetivamente relacionadas ao desafio comunicacional. Tais variações são selecionadas pelos participantes no que esteja ao alcance de seu entendimento e ação; e pelo contexto, na medida de sua possibilidade de inserção –, lembrando que as próprias metas são social, cultural e comunicacionalmente elaboradas.

Na linha de conexão entre as urgências e estratégias mais pontuais e esse nível de maior abrangência, interpõem-se contextos possíveis, social e culturalmente pertinentes, em diferentes níveis. Por exemplo, uma urgência interacional específica pode receber sucessivamente incidências relevantes de um espaço profissional, de uma questão jurídica, das circunstâncias políticas e do ambiente cultural em que ocorre. Cada um desses níveis se mostra como estrutura seletiva para as variações aí subsumidas e oferece variações para as estruturas significativas de nível superior, de suprassunção. Para o conceito de “estrutura significativa” nos reportamos à obra de Lucien Goldmann (1970).

A adoção de uma linha epistemológica evolutiva corresponde a dar uma ênfase especial a essa conexão movida por variações e seletividade. Os processos sociais não são ativados por verdades universais prévias nem por metas últimas, mas por experimentações – que funcionam diversificadamente – de busca, de tentativa, de aprendizagem, de enfrentamento de dificuldades, de criatividade e de invenção social, gerando variações que são selecionadas de acordo com a sua relação viável com as urgências trabalhadas e seus contextos.

Isso permite levar em conta todos os elementos considerados relevantes para os objetos específicos de estudo, quer na realidade social, quer na aproximação teórica escolhida por sua relação com o problema abordado. Os níveis de contexto podem ser percebidos como estimuladores de variação e como fornecedores de critérios e de processos de seleção.

É isso, então, que corresponde a uma linha de conexão entre o desafio comunicacional e as urgências em que a comunicação se manifesta como questão relevante10. No trabalho da pesquisa, tal conexão deve ser moldada às questões e aos objetivos específicos. Assim, cabe refletir sobre sua abordagem no trabalho metodológico.

UMA METODOLOGIA ADEQUADA

No trabalho da pesquisa empírica, a perspectiva pede dois movimentos da atenção – das urgências ao desafio, para a percepção de como as urgências específicas correspondem ao desafio comunicacional, viabilizando o desenvolvimento de consistência; do desafio às urgências, para a descoberta da comunicação como trabalho da diversidade no âmbito da realidade.

Selecionada a urgência (ou tipo de urgências) a ser investigada, observam-se os aspectos em curso referentes a variações, seletividade, transformações tentativas e continuidade buscada, estratégias de inserção nos contextos significativos, lógicas processuais específicas da situação observada e incidências entre os processos e seus contextos prévios. Com isso, as singularidades do processo comunicacional que aí se organiza são apreendidas pelo ângulo de problematização específico da pesquisa. Como é frequente, nas situações que exigem pesquisa, tal processo comportará tensões, assim como indefinições entre os participantes.

O resultado dessa observação pode ser relacionado às características do desafio abrangente, levando a inferências de conexão. Tais inferências de nível abrangente, retornando ao nível da urgência singular, permitem a apreensão de mais detalhes e de percepções mais precisas.

A reiteração dos dois movimentos permite ampliar, a cada alternância, a compreensão do abrangente e a explicação do específico. Goldmann (1964) propõe: “o esclarecimento de uma estrutura significativa constitui um processo de compreensão; enquanto sua inserção em uma estrutura mais vasta é, em relação a esta, um processo de explicação”. E depois: “Explicação e compreensão não são, portanto, dois processos intelectuais diferentes, mas um só e mesmo processo relacionado a dois quadros de referência” (Goldmann, 1964, pp. 353-354, tradução nossa)11.

Na abordagem metodológica de nossa perspectiva, essa alternância se organiza em torno das potencialidades da conexão. Sobre o primeiro movimento – das urgências ao desafio, destacamos:

Já do desafio às urgências:

Dando atenção aos contextos intermediários – estruturas significativas entre as urgências pontuais e o desafio abrangente –, percebemos que a diversificação infinda de processos não se mostra desordenada e aleatória no ambiente social e na pesquisa. As variações processuais da comunicação se organizam – não como um território unificado e estável, que se possa cartografar em padrão geográfico, mas certamente em múltiplas dimensões de variação.

A linha de conexão entre o desafio e as urgências sociais viabiliza uma atenção a todas as especificidades caracterizadoras das urgências e das estratégias comunicacionais observadas e relacionadas aos contextos socioculturais, aos campos sociais e aos âmbitos de conhecimento em que estejam inscritas e incidam nessas dimensões de variação. São discerníveis como conjuntos de processos da sociedade pelos quais são elaboradas as culturas e a história.

Essa percepção reforça a importância de estudos diversificados para a produção do conhecimento comunicacional, uma importância confirmada pela estratégia da área de organização de grupos de trabalho e linhas de pesquisa que se evidenciam como dimensões de variação na elaboração de conhecimentos. As dimensões de variação se mostram, então, pelos problemas e abordagens de pesquisa que compõem e caracterizam o conjunto.

Uma segunda percepção, promissora para estudos posteriores, é a constatação de que alguns processos comunicacionais, desenvolvidos a serviço de objetivos de comunicação, dada a sua plasticidade tática e sua fortuna produtiva no ambiente social, caracterizam-se como base para experimentações sociais e para o acionamento em situações e urgências, servindo como estrutura fornecedora de dinâmicas comunicacionais. Mais que apenas dimensões de variação, as estruturas que mostram tal capacidade de geração continuada devem ser categorizadas como processadores de comunicação. Estes funcionam como moldes flexíveis, ou condensações de táticas, para produção constante de processos comunicacionais. Ainda que as variações produzidas mostrem um parentesco entre si, por seu desenvolvimento dentro das macrológicas de um mesmo processador, podem se desenvolver em direções e com objetivos muito diversos.

O conceito de processadores comunicacionais aqui proposto é, portanto, um elemento operatório central para o trabalho da pesquisa. O que caracteriza o conjunto, com mais concretude que uma similaridade de problemas, é a presença na cultura de tais “dispositivos processadores” em forma material ou como regras sociais estruturadas e processos disponíveis ao acionamento pelos participantes sociais para continuar a exercer determinados gestos interacionais e para desenvolver suas tentativas comunicacionais.

Em grande parte, os processos comunicacionais teorizados pelas CHS no século XX são desta ordem e foram percebidos como comunicacionais tanto por evidenciarem sua potencialidade nesta direção quanto por serem vistos criticamente como intervenientes em uma regularidade estabelecida. Dentre tais processos, citamos: a indústria cultural; as linguagens como viabilizadoras ou requeridas para a interação; a informação; a narrativa; a retórica; o signo; o audiovisual; a tecnologia; os meios de comunicação em geral, com sua vasta fortuna produtiva de processos comunicacionais. Podemos incluir, também, os processadores comunicacionais em linhas de ação profissional – o jornalismo, a publicidade, a comunicação organizacional, a criação cinematográfica etc. Não por acaso, teorias disciplinares que foram consideradas como “teorias gerais da comunicação” se voltavam para um ou para outro destes processadores.

Entretanto, uma característica restritiva, reiterada em todos esses estudos, é considerar comunicação apenas aquilo que se faz a partir do processador em pauta, decorrente das características deste. O processador é a abrangência maior percebida, desconsiderando a relevância de outros processos – e por isso mesmo a teoria era considerada geral. Os processadores apareciam como ponto de partida e direcionador do que se considera comunicação. Quando, eventualmente, se discute a origem de um processador, não são observadas as dinâmicas comunicacionais, e sim as lógicas próprias do campo disciplinar em que a teoria foi elaborada. O processador é assumido como elemento instituinte e o processo comunicacional se estuda como se fosse dependente de determinações e paradigmas da disciplina que o investiga.

Diversamente, em uma perspectiva comunicacional, os processadores devem ser percebidos como espaços de variação gerativa instituídos por processos comunicacionais e, ao mesmo tempo, formadores de lógicas potencializadoras de composições comunicacionais. Na perspectiva aqui proposta, e como observamos antes, sem negar a interveniência de motivos de todas as ordens estudados por outras disciplinas, constatamos a comunicação como anterior a tais processadores, participando de sua geração. A partir do desenvolvimento de um processador, a comunicação se mantém como dinâmica básica que, em função do desafio comunicacional, redireciona o próprio processador na medida em que o exerce. Ao acionar um determinado processador, os participantes sociais fazem sua comunicação funcionar dentro das lógicas deste, mas a dinâmica da diversificação continua a ser exercida em processo de reajuste.

Nessa procedência, caracterizada pela hipótese do desafio comunicacional, encontramos uma possibilidade de articulação de processos e gestos da comunicação humana sem que as composições assim buscadas impliquem qualquer redução da diversidade.

CONCLUSÃO: SÍNTESE DA PERSPECTIVA PROPOSTA

O artigo propôs uma perspectiva voltada para a questão apresentada na introdução, buscando valorizar a diversidade de observáveis, de pesquisa e de teorias trabalhadas por pesquisadores da área, ao mesmo tempo que viabiliza a redução da dispersão constatada como barreira para um desenvolvimento maior dos conhecimentos produzidos. Encontramos o eixo direcionador da perspectiva em características abrangentes, que se mostram presentes na variedade de ocorrências e processos comunicacionais e na diversidade dos problemas que os solicitam. Os seguintes elementos foram estruturados no desenvolvimento da perspectiva:

Com tais componentes, o que a perspectiva busca, rastreando o desafio abrangente que dinamiza situações sociais, é descobrir as características próprias dos processos interacionais, em função dos problemas escolhidos para pesquisa.

A característica estrutural mais explícita na dinâmica comunicacional humana decorre do fato de que seus participantes se diversificam mais amplamente que outras espécies. A dinâmica é demarcada como um processo abrangente de transformações e busca de continuidade – o que justifica uma aproximação em termos de epistemologia evolutiva. Nessas condições, as linguagens, as estratégias e os meios se mostram como trabalho da diversidade. No âmbito do desafio abrangente que faz acionar essa dinâmica, as urgências sociais se multiplicam por meio das mais diversas questões sociais.

A perspectiva proposta oferece uma linha de conexão entre as urgências no ambiente social – com seus correlatos problemas de pesquisa – e o núcleo de geração da dinâmica do trabalho da diversidade. Não se trata, como enfatizo ao longo do artigo, de uma teoria explicativa, em que a diversidade de urgências é “reduzida” a um padrão unificado. Pelo contrário, a perspectiva se mostra como heurística para deslindar a especificidade dos modos diversos de enfrentamento do desafio na sociedade e, portanto, das infinitas variações produzidas pela dinâmica comunicacional.

A aproximação metodológica para exercer essa linha de conexão na pesquisa se baseia nas proposições de Lucien Goldmann (1970) referentes a estruturas significativas. A abordagem se desenvolve como estratégia para percepção das relações entre um “todo” e suas partes, que se constituem mutuamente. Diante da constatação dos níveis operatórios diversos pelos quais a sociedade produz composições mutáveis entre as diversificações em curso, em suas múltiplas atividades e instituições, é relevante pesquisar o trabalho comunicacional da diversidade na produção de variações e nos processos de seleção que se manifestam.

Dimensões de variação comunicacional são desenvolvidas por urgências de todas as ordens e relacionadas a todas as atividades de interesse de uma sociedade, cujos participantes acionam estratégias diversas para obter alguma composição de suas diferenças. Dentre estas dimensões de variação, a elaboração da perspectiva faz destacar uma linhagem produtiva de dimensões diretamente voltada para a própria atividade comunicacional, cujo foco é o de viabilizar, facilitar e direcionar as interações humanas, quaisquer que sejam seus objetivos. Caracterizo essas estruturas, centralmente significativas, como “processadores comunicacionais” e percebo, preliminarmente, três tipos: linguagens; estratégias consolidadas; e meios e mediações entre os participantes. Essas três possibilidades, embora distinguíveis, se encontram imbricadas em dosagens variadas no ambiente social.

A perspectiva apresentada pode abranger e dar atenção a todas as dimensões de variação no trabalho da diversidade – eventualmente em interface com as especializações constituídas em torno de uma dimensão específica. Cabe, entretanto, dar uma atenção particular aos processadores comunicacionais. Embora estes sejam já longamente reconhecidos e pesquisados na área, têm sido vistos de modo isolado e incompleto. Sua própria geração já envolve o trabalho da diversidade, mostrando que não se pode pensar comunicação como algo que só ocorre a partir de um processador comunicacional, pois este foi comunicacionalmente desenvolvido como seletor de estratégias e gerador de variações.

Para além da estruturação da perspectiva, aqui rapidamente sintetizada, de sua fundamentação epistemológica, da coerência buscada entre os elementos componentes e da abordagem metodológica especificada, é preciso verificar tanto sua validade empírica como a produtividade de sua heurística. A pesquisa iniciada por este artigo propõe investigar, acionando, na perspectiva proposta, dimensões de variação e processadores comunicacionais por meio da releitura de pesquisas da área e pela realização de estudos empíricos. O desenvolvimento de verificações por outros pesquisadores – em termos analíticos e críticos – representaria uma contribuição significativa para o aperfeiçoamento da proposta.

REFERÊNCIAS

Abrantes, P. (2004). O programa de uma epistemologia evolutiva. Revista de Filosofia, 16(18), 11-55.

Braga, J. L. (2010). Comunicação é aquilo que transforma linguagens. Revista Alceu, 10 (20), 41-54.

Braga, J. L. (2017). Comunicação gerativa – Um diálogo com Oliver Sacks. Revista Matrizes, 11(2), 35-55. http://dx.doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v11i2p35-55

Braga, J. L. (2021). Do que não conhecemos os problemas, não saberemos as respostas. In L. Signates (Org.), Epistemologia da Comunicação – Reflexões metateóricas sobre o propriamente comunicacional (pp. 69-93). Cegraf/UFG.

Braga, J. L. (no prelo). Epistemologia evolutiva – Uma heurística para a comunicação. Revista Galáxia.

Costa Júnior, J. (2018). Darwin foi um darwinista social? TemporalidadesRevista de História, 27(10), 254-276.

Ferrand, F. (2008). La flexibilité humaine, une nouvelle dimension dans l'évolution [Tese de doutorado, Université du Québec à Montréal]. Archipel. https://bit.ly/3EgrOdZ

Ferrara, L. (2021). A epistemologia da diferença [Apresentação de trabalho]. 30° Encontro Anual da Compós, São Paulo, São Paulo, Brasil.

França, V. (2002). Análises. In M. H. Weber, I. Bentz, & A. Hohlfeldt (Orgs.), Tensões e objetos da pesquisa em comunicação (pp. 286-293). Sulina.

Gibson, J. J. (1977). The theory of affordances. In R. Shaw, & J. Bransford (Eds.), Perceiving, acting and knowing: Toward an ecological psychology (pp. 67-82). Lawrence Erlbaum Associates.

Goldmann, L. (1964). Pour une sociologie du roman. Gallimard.

Goldmann, L. (1970). Dialética e cultura. Paz e Terra.

Honneth, A. (2003). Luta por reconhecimento: A gramática moral dos conflitos sociais. Editora 34.

Lévinas, E. (2007). Entre nous: Essais sur penser-à-l’autre. Grasset.

Marcondes Filho, C. (2011). Duas doenças infantis da comunicação: A insuficiência ontológica e a submissão à política. MATRIZes, 5(1), 169-178. https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v5i1p169-178

Signates, L. (2018). A comunicação como ciência básica tardia: Uma hipótese para o debate. Revista E-Compós, 21(2), 1-21. https://doi.org/10.30962/ec.1387

Signates, L. (Org.). (2021). Epistemologia da Comunicação: Reflexões metateóricas sobre o propriamente comunicacional. Cegraf UFG.

Thagard, P. (1980). Against Evolutionary Epistemology. PSA, 1, 187-196. https://bit.ly/3V5dPNz

Notas

1 Sobre a insuficiente consistência do campo da comunicação como ciência básica, ver os trabalhos de Luiz Signates (2018, 2021).
2 Dei um primeiro passo na prefiguração dessa questão epistemológica no artigo “Do que não conhecemos os problemas não saberemos as respostas” (Braga, 2021) – estimulado por questões postas por Luiz Signates (2018).
3 O que constitui cada uma das ciências humanas e sociais é seu ângulo específico de observação da sociedade. A perspectiva é o que determina os objetos que se tornam relevantes e a maneira como devem ser observados, e não uma definição de objeto-e-método. Nada impede que uma disciplina comporte diferentes perspectivas.
4 Ciro Marcondes Filho (2011, p. 176) assinala isso quando considera a comunicação como aquilo que “pode provocar em mim transformações, alterar meu quadro, permitir que eu me transforme”.
5 Lembrando que, contrariamente a uma noção muito difundida, a aprendizagem não é uma simples aquisição de conhecimentos estabelecidos e de práticas estabilizadas. Mesmo na primeira infância, aprender corresponde à capacidade criativa de reorganizar ideias a cada informação recebida – dos outros ou do mundo –, inferindo seu sentido em relação às coisas e ao outro.
6 A esse respeito, ver a crítica de Paul Thagard (1980). Sobre os diversos modos de considerar a relação entre variação e seletividade, ver Paulo Abrantes (2004). Sobre uma heurística derivada da seleção natural, em visada de epistemologia evolutiva, pertinente para o conhecimento comunicacional, ver Braga (no prelo).
7 A adaptabilidade, aqui, não se refere apenas à aptidão biológica e passiva do organismo para um ambiente dado. Já não se trata exclusivamente do ambiente natural, mas também do ambiente social – que implica uma ação mútua e ativa entre os participantes e o ambiente, com modificações eventuais de todos.
8 Sublinho que a “vantagem adaptativa” abordada aqui não diz respeito a uma competição interna entre espécimes em busca de predomínio dos “mais capazes”, como pretendeu um “darwinismo social”, que deve ser repudiado. A possível vantagem assinalada é a própria diversidade. Observo, ainda, que Darwin não era um “darwinista social” (Costa Júnior, 2018).
9 Na seção sobre a metodologia, categorizamos estes processos culturalmente estabelecidos, mais precisamente, como processadores de comunicação, na medida em que os participantes sociais os desenvolvem e direcionam como estratégia para ativar e aprofundar potencialidades comunicacionais da diversidade.
10 Vera França (2002, p. 293) assinalava, no início do século, que “não parece oportuno que sejamos enredados pela discussão do pertinente e do impertinente [pois a comunicação está em tudo], mas pela discussão daquilo que tem relevância”.
11 No original: “la mise en lumière d’une structure significative constitue un processus de compréhension alors que son insertion dans une structure plus vaste est, par rapport à elle, un processus d’explication.” […] “Explication et compréhension ne sont donc pas deux processus intellectuels différents mais un seul et même processus rapporté à deux cadres de référence.”

Notas de autor

a Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás (UFG). Doutor em Comunicação pelo Institut Français de Presse. Pós-Doutorado em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor Emérito da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3742-1119. E-mail: bragawarren@gmail.com
HTML generado a partir de XML-JATS4R por