EDITORIAL

A Inteligência Artificial, a inteligência humana e a pesquisa em comunicação
A revolução digital teve um grande impacto nos formatos e suportes da mídia. Antes do surgimento da internet e dos dispositivos eletrônicos, a maioria das informações e conteúdos eram transmitidos através de mídias tradicionais, como jornais, revistas, rádio e televisão. No entanto, com a popularização da internet e dos dispositivos móveis, novos formatos e suportes de mídia surgiram, transformando a maneira como as pessoas consomem informações e entretenimento.
Uma das maiores mudanças foi a transição do formato físico para o formato digital. Jornais e revistas agora têm versões on-line, que podem ser acessadas através de computadores, tablets e smartphones. Isso permitiu que esses veículos de comunicação alcançassem um público maior e mais diverso, além de permitir que as notícias e conteúdos sejam atualizados em tempo real. ...
Em resumo, a revolução digital mudou significativamente os formatos e suportes da mídia, permitindo que as pessoas consumam informações e entretenimento de maneiras novas e diferentes. Isso tem mudado a forma como as empresas e os indivíduos se comunicam, se conectam e se relacionam.
Os três parágrafos que introduzem este Editorial são o que o programa de Inteligência Artificial (IA) ChatGPT retorna quando se solicita que ele “Disserte sobre alterações nos formatos e suportes da mídia devido à revolução digital”. Esses fragmentos são convenientes para esse início da edição de MATRIZes, por dois motivos.
Em primeiro lugar, por sugerirem, provocativamente, questões com que o mundo acadêmico e a publicação científica deverão se defrontar nos próximos anos, entre elas: a IA poderá ser coautora de texto científico – algo admitido e já praticado por alguns (Curtis & ChatGPT, 2023), mas negado ou criticado por outros (Holden Thorp, 2023; Stokel-Walker, 2023)? Poderá atuar como uma espécie de assistente de pesquisa “em uma variedade de tarefas, incluindo análise de dados, revisões de literatura, e até mesmo a redação de artigos de pesquisa”1 (Marchandot et al., 2023, para. 2)? Poderá auxiliar editores científicos, em atividades de revisão e tratamento textual, na elaboração de melhores metadados para os trabalhos publicados, favorecendo a disseminação das pesquisas (Lund et al. 2023) ou mesmo nas avaliações de artigos e decisões sobre o que editar (van Dis et al., 2023)?
Ao lado de questões controversas ou promissoras relacionadas à Inteligência Artificial na ciência, na editoração e na educação acadêmicas, há pontos claramente problemáticos e negativos, como os possíveis prejuízos à transparência científica (“Tools Such”, 2013), o enviesamento dessa atividade (van Dis et al., 2023) e o modo inacurado como os chatbots atuais referenciam fontes (Chen, 2023). Além disso, essa tecnologia pode ser utilizada em más condutas, como o plágio – tema de preocupação dos educadores, em particular (de Vries, 2023), pois isso afetará a formação dos estudantes e novos investigadores. Isso poderá, inclusive, envolver alterações curriculares, dada a necessidade que parece se impor de um “letramento em IA” (Anders, 2023).
Observa-se, assim, que a Inteligência Artificial terá, na sociedade em geral e na ciência em particular, impactos significativos. No momento, as transformações sociais advindas de tecnologias desse tipo são apenas vislumbradas. Por isso, elas colocam uma série de questões de pesquisa, como notam Quintans-Júnior e colegas (2023) e van Dis e colegas (2023), entre outras: quem seria responsável por regulamentar o uso de chatbots na ciência, como isso seria feito e com quais critérios; de que modo essa ação poderia favorecer a equidade na pesquisa, evitando riscos de acentuar desigualdades, bem como se relacionar com princípios da ciência aberta? Questões como essas poderão conformar novas linhas de pesquisa.
Interessa aqui destacar que os estudos da comunicação poderão dar uma contribuição relevante a esse esforço científico. Na verdade, a Inteligência Artificial e a humana não devem ser vistas como independentes, pois a primeira é produto da segunda, de modo que uma afirmação constante da teoria e da investigação em comunicação ganha relevo: o sentido social dos produtos culturais se elabora a partir de usos e apropriações – em determinado contexto de mediações –, nem sempre previsíveis. Compreender e dar direcionamento ético e humanista às práticas e à pesquisa que envolve a IA exigirá reflexão e investigação. MATRIZes, que já teve a satisfação de colaborar com a discussão do tema, por meio de artigo de Pierre Lévy (2022) publicado no ano passado, espera continuar a receber e publicar estudos que aprofundem o entendimento do assunto.
Ao mesmo tempo, a IA não é uma panaceia, pois, como observam Quintans-Júnior e colegas (2023, para. 2), “seus recursos são valiosos na ciência, mas não podem substituir o pensamento crítico e reflexivo do pesquisador, ou sua capacidade de interpretar os resultados . . . . O ChatGPT se apoia em conteúdo pré-existente e carece das capacidades analíticas dos humanos”2. A partir desse mote, é possível concluir o primeiro ponto a respeito das observações feitas pela IA que iniciam este Editorial, notando que o texto gerado, embora não incorreto ou desprovido de sentido, é até certo ponto banal, sem novidade. Esse parece ser, no momento, o limite desse tipo de tecnologia na criação intelectual mais rigorosa.
Ao contrário, e assim vamos ao segundo aspecto sobre essa citação, o texto que inicia este número da revista, O Futuro dos Livros, de John B. Thompson, tem como pano de fundo um questionamento parecido com o que foi feito ao ChatGPT. Entretanto, um pesquisador que utiliza a inteligência humana, a sagacidade teórica e metodológica do pesquisador maturo alcança, evidentemente, melhores resultados: novos conhecimentos, saberes inovadores, até mesmo contraintuitivos. Desse modo, os dados e discussões do autor evidenciam que, apesar do potencial disruptivo da revolução digital, a indústria editorial de livros tem se saído notavelmente bem, incluindo o setor dos “antiquados” livros impressos.
A seção Dossiê deste número tem continuidade com o artigo A Adaptação como Ficção Expandida na Série Contemporânea, de Marcio Serelle, que discute como a ficção seriada contemporânea realiza adaptações que apresentam características novas, que a aproximam da sensibilidade e da condição de recepção contemporâneas. Depois, em Nos Estudos de Midia(tização), Adoramos Metáforas, Carlos A. Scolari aborda as metáforas e modelos utilizados na longa história dos estudos da comunicação massiva, discorrendo sobre os riscos e benefícios dos argumentos metafóricos, num tipo de reflexão também afeita à criatividade e reflexividade inovadora e humana.
Abordando uma questão social candente, o texto seguinte da seção, Imaginário do Aborto e Comunicação Medial, de Florence Dravet, opta por discutir o tema sob um enfoque diferenciado, ou seja, o aborto como uma experiência estética em que um fluxo de comunicação medial é interrompido, o que permite mostrar como a medialidade ocorre no corpo feminino. Encerrando o Dossiê deste número, o artigo Cinema Novo e Música de Vanguarda do Século XX, de Luíza Alvim, realiza mapeamento e discussão do uso da música de vanguarda em filmes dos cineastas brasileiros Glauber Rocha, Walter Lima Júnior e Joaquim Pedro de Andrade, apontando o papel da produção fonográfica da época para a escolha desse tipo de som.
Maria Immacolata Vassallo de Lopes e os 30 anos do Centro de Estudos de Telenovela da USP: Uma Jornada Narrada pela Teleficção é o título da Entrevista realizada por Marcel Antonio Verrumo, Lourdes Ana Pereira Silva e Renata Pinheiro Loyola. Nela, a pesquisadora relembra a trajetória da criação do primeiro centro de estudos de telenovela do Brasil, o CPTV, em 1992, discorrendo sobre os percalços e conquistas relacionados à constituição de acervo e pesquisa do tema. Ela rememora, ainda, o entrelaçamento entre sua história pessoal, marcada pelo forte interesse no objeto, e acadêmica, como pesquisadora que tem procurado investigar e teorizar o assunto ao longo de décadas.
A seção Em Pauta abre com o artigo Notas Sobre o Papel do Som Imersivo no Cinema Contemporâneo de Rodrigo Carrero, que realiza uma revisão conceitual da ideia de imersão no cinema, descrevendo e discutindo algumas das principais ferramentas estilísticas utilizadas por sound designers para construir ou reforçar o senso de imersão sensorial por meio do som. Em seguida, Milena Freire de Oliveira-Cruz e Laura Wottrich, no artigo Desigualdades de Gênero no Subcampo Científico da Comunicação: O Teto de Vidro no Quintala, partindo de um mapeamento de Programas de Pós-graduação em Comunicação, Bolsas de Produtividade em Pesquisa, entidades e periódicos científicos, abordam as desigualdades de gênero no subcampo científico da comunicação no Brasil, sugerindo a existência do teto de vidro, também identificada em outros campos do conhecimento. Em Teorizar com a Grounded Theory: Um Caminho Metodológico para as Pesquisas em Comunicação, Francisco Leite discute as diretrizes metodológicas da grounded theory, ressaltando o potencial que ela oferece para a edificação de pesquisas em comunicação.
No textos seguintes, Conrado Moreira Mendes e Geane Carvalho Alzamora, no artigo Lógicas da Propagação da Informação e da Desinformação no Contexto da Pandemia de Covid-19: Abordagem Semiótica, apresentam os resultados de uma pesquisa sobre as dinâmicas de propagação e construção de sentido de textos no contexto da pandemia de covid-19, enquanto Cláudia da Silva Pereira, em Disputas e Impasses nas Representações Midiáticas da Skatista Rayssa Leal, efetua uma Análise Interpretativa de Conteúdo de matérias jornalísticas sobre a skatista Rayssa Leal antes, durante e depois das Olimpíadas, discutindo o processo de subjetivação que se estabelece por meio das representações.
Histórias de vida, memórias, subjetividades e imaginação são aspectos tratados no trabalho seguinte da seção: Memórias, Metáforas e Imaginação em Narrativas Orais de Histórias de Vida, assinado por Barbara Heller, Teresa Cristina da Costa Neves, Priscila Ferreira Perazzo e Ana Paula Goulart. No artigo, as autoras discutem o caráter imaginativo de narrativas de histórias de vida, articulando revisão teórica e estudo de caso, considerando as imagens mentais como mídias veiculadoras de memórias. Já as questões que envolvem as cidades, o consumo, os modos de vida fazem parte do artigo Da Estatística aos Dados: Ordenamentos da Vida em Cidades, de Adriana Lima de Oliveira, Lucas de Vasconcelos Teixeira e Tânia Márcia Cesar Holf, que abordam as transformações dos ordenamentos do consumo a partir das mudanças ocorridas na passagem da cidade moderna para a pós-moderna.
A seção Resenha que encerra esta edição de MATRIZes, traz o texto A Comunicação e as Teorias Narrativas, de Larissa Conceição dos Santos, no qual a autora apresenta o livro Diccionario de Teorías Narrativas 2: Narratología, Cine, Videojuegos, Medios, editado e organizado pelo espanhol Lorenzo Vilches Manterola, cujos verbetes trazem à luz não apenas conceitos fundamentais das Teorias Narrativas contemporâneas, mas também aplicações e metodologias que indicam diálogo com os estudos de comunicação.
Encerramos esse Editorial desejando que um leitor humano aprecie a edição e que utilize sua inteligência específica, capaz de gerar novas reflexões e conhecimentos.
Referências
Anders, B. A. (2023). Is using ChatGPT cheating, plagiarism, both, neither, or forward thinking? Patterns, 4(3), 100694. https://doi.org/10.1016/j.patter.2023.100694
Chen, T.-J. (2023). ChatGPT and other artificial intelligence applications speed up scientific writing. Journal of the Chinese Medical Association, 86(4), 351-353. https://doi.org/10.1097/JCMA.0000000000000900
Curtis, N., & ChatGPT. (2023). To ChatGPT or not to ChatGPT? The impact of Artificial Intelligence on academic publishing. The Pediatric Infectious Disease Journal, 42(4), 275. http://doi.org/10.1097/INF.0000000000003852
de Vries, W. (2023). Como (no) combatir el fraude académico: Lecciones internacionales. Revista Mexicana de Investigacion Educativa, 28(97), 637-650. https://bit.ly/3KOn01x
Holden Thorp, H. (2023). ChatGPT is fun, but not an author. Science, 6630(379), 313. https://doi.org/10.1126/science.adg7879
Lévy, P. (2022). IEML: rumo a uma mudança de paradigma na Inteligência Artificial. MATRIZes, 16(1), 11-34. https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v16i1p11-34
Lund, B. D., Wang, T., Mannuru, N. R., Nie, B., Shimray, S., & Wang, Z. (2023). ChatGPT and a new academic reality: Artificial Intelligence-written research papers and the ethics of the large language models in scholarly publishing. Journal of Association for Information Science and Technology, 74, 570-581. https://doi.org/10.1002/asi.24750
Marchandot, B., Matsushita, K., Carmona, A., Trimaille, A., & Morel, O. (2023). ChatGPT: The next frontier in academic writing for cardiologists or a pandora’s box of ethical dilemmas. European Heart Journal Open, 3(2), oead007. https://doi.org/10.1093/ehjopen/oead007
Quintans-Júnior, L. J., Gurgel, R. Q., Araújo, A. A. de S., Correia, D., & Martins-Filho, P. R. (2023). ChatGPT: The new panacea of the academic world. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 56, e0060-2023. https://doi.org/10.1590/0037-8682-0060-2023
Stokel-Walker, C. (2023). ChatGPT listed as author on research papers: Many scientists disapprove. Nature, 613, 620-621. https://doi.org/10.1038/d41586-023-00107-z
Tools such as ChatGPT threaten transparent science; here are our ground rules for their use [editorial]. (2013). Nature, 613(7945), 612. https://doi.org/10.1038/d41586-023-00191-1
van Dis, E. A. M., Bollen, J., van Rooij, R., Zuidema, W. & Bocktin, C. L. (2023). ChatGPT: Five priorities for research. Nature, 614(7947), 224-226. https://doi.org/10.1038/d41586-023-00288-7
Notas